questões trabalhistas

“SE A GENTE NÃO SE REVOLTAR, NADA VAI MUDAR”

Como um vídeo de TikTok gravado em 2023 deflagrou o movimento contra a escala 6 por 1, que hoje está em pauta na Câmara dos Deputados
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Era terça-feira, seu dia de folga no trabalho, mas Ricardo Cardoso Azevedo acordou na mesma hora de sempre, por volta das cinco da manhã. Aos 29 anos, ele trabalhava como caixa da Droga Raia em Niterói (RJ). Nos momentos livres, buscava uma renda extra, ora vendendo sacolé na praia, ora fazendo vídeos para seu perfil do TikTok. Falava sobre música pop e assuntos gerais, inclusive alguma coisa de política, esperando alcançar um número monetizável de visualizações na plataforma. Às vezes, dava certo. Não era muito dinheiro, mas ajudava no orçamento. “Cheguei a ganhar 500 reais. Para quem recebia salário mínimo, era uma mão na roda”, ele contou à piauí.

Naquela manhã de 12 de setembro de 2023, ainda na cama, Azevedo pegou o celular para ler as notícias do dia. Como estava de folga, procurou algum assunto para comentar no TikTok. Depois do café, gravou cinco vídeos, quatro sobre a cantora Beyoncé. Em seguida, teve a ideia de falar sobre seu ritmo de trabalho na farmácia, que ele considerava extenuante. O caixa seguia a jornada 6 por 1, folgando apenas um dia por semana.

Às nove da manhã, Azevedo, um homem negro, de 1,83 metro e bastante extrovertido, fixou bem o olhar na câmera e falou durante 1 minuto e 7 segundos. No fim, não gostou do resultado e achou melhor arquivar o vídeo, sem postá-lo no TikTok. Para relaxar no dia de folga, foi à praia. Enquanto tomava uma água de coco, recebeu uma ligação que azedou sua tarde: era a chefe, dizendo que ele precisaria bater o cartão mais cedo no dia seguinte. “Meu horário era das 14 às 23 horas, e ela me pediu para entrar de manhã.”

No dia seguinte, quarta-feira, Azevedo chegou à farmácia às 7 horas. Como estava de mau humor, decidiu logo de manhã publicar no TikTok o vídeo que havia gravado sobre a jornada 6 por 1. “Eu disse que precisava ir ao banheiro, chamei uma amiga para assumir meu lugar no caixa, e postei.” O vídeo dizia o seguinte:

Gente, eu estou aqui revoltado com essa escala 6 por 1. Eu tô querendo saber quando é que nós, da classe trabalhadora, iremos fazer uma revolução neste país relacionada à escala 6 por 1. É uma escravidão moderna. Moderna não, ultrapassada. Eu fico pensando: eu, que não tenho filho e sou sozinho, não dá para fazer as coisas. Imagina quem tem filho, tem marido e tem casa para cuidar. A pessoa tem que se doar para a empresa seis dias na semana e ter só um dia para folgar? Para ganhar salário mínimo? Gente, não dá. E, se a gente não se revoltar, se a gente não colocar a boca no mundo, se a gente não meter o pé na porta, as coisas não vão mudar. Eu quero saber quando que nós da classe trabalhadora iremos nos revoltar contra essa escravidão ultrapassada chamada escala 6 por 1.

Embora Azevedo tivesse um perfil de tamanho modesto no TikTok, seu vídeo viralizou, alcançando milhares de visualizações e centenas de comentários em poucas horas. Como mostrou uma reportagem da piauí, o rapaz acabara de dar o passo decisivo para uma mudança radical na sua vida, no debate político da esquerda e, quem sabe, até mesmo nas leis trabalhistas do Brasil.

Um ano depois de publicar o vídeo, Rick Azevedo – como ele ficou conhecido – se elegeu vereador no Rio de Janeiro. Recebeu 29 mil votos, o melhor resultado entre os candidatos do Psol na cidade, e deixou para trás o trabalho na farmácia. Sua votação surpreendeu muita gente na esquerda e ajudou a impulsionar, a nível nacional, o debate sobre a redução da jornada de trabalho. Hoje, o assunto está em discussão na Câmara dos Deputados. Tramitam na casa ao menos seis projetos de lei, cada um com suas particularidades, que propõem o fim da escala 6 por 1. Um deles já recebeu um relatório favorável na Comissão de Constituição e Justiça e seria votado nesta quarta-feira (15), mas um deputado pediu vista e a votação foi adiada.

Rick Azevedo viajou a Brasília esta semana para acompanhar o trâmite dos projetos. Estava acompanhado do advogado João Victor Félix, que é seu melhor amigo e chefe de gabinete. “A classe trabalhadora sai mais forte do dia de hoje”, disse o vereador à piauí, apesar do adiamento da votação. “Vamos continuar pressionando nas redes e nas ruas. Esse pedido de vista é porque querem desidratar a pauta, mas não vão conseguir.”

“Percebemos hoje que existe por parte de lideranças do centro e da direita a vontade de neutralizar o debate sobre escala de trabalho, apaziguando os ânimos dos empresários, mas fazendo com que fique visível um pequeno avanço”, lamentou Lucas Sidrach, um dos colaboradores mais próximos de Azevedo, também presente à sessão na CCJ. Sidrach é o coordenador nacional do movimento VAT, sigla de “Vida além do trabalho”. O VAT foi criado ainda em 2023. Depois que seu vídeo viralizou, Rick Azevedo passou a postar conteúdos em outras redes e criou comunidades no WhatsApp para discutir a jornada 6 por 1. Em uma dessas conversas, escreveu que a mensagem que queria passar ao Brasil é que existe “vida além do trabalho”. Ao ler isso, um integrante inventou a sigla VAT. “Esse nome pegou”, disse Azevedo.

Quatro dias depois da criação do VAT, ele elaborou com o amigo João Félix uma petição pública na internet. Era dirigida à “Excelentíssima Casa Legislativa-Congresso Nacional Brasileiro” e pedia o fim da jornada de trabalho de seis dias por semana. Em três dias, a petição foi assinada por 20 mil pessoas (hoje está na casa dos milhões). Em 15 de novembro de 2023, dia do aniversário de 30 anos de Azevedo, o movimento foi para as ruas pela primeira vez, no Centro de São Paulo. O ato foi convocado, é claro, pelas redes sociais. Dias depois, o VAT fez uma manifestação na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói.

Àquela altura, embora o movimento estivesse em plena ascensão, parecia pouco provável que a redução da jornada de trabalho virasse um assunto no Congresso Nacional. “O nosso termômetro é o zum-zum-zum aqui pelos corredores do Congresso e no cafezinho. Ninguém está falando dessa pauta. Pode ser que no futuro isso mude, mas, hoje, não é um tema forte aqui”, disse o deputado federal Ricardo Salles (Novo-SP) à piauí, em 2024.

De fato, isso mudou. Reagindo à pressão dos partidos de esquerda – e certamente vislumbrando vantagens eleitorais, de olho em outubro –, o governo Lula abraçou a pauta. Nesta terça-feira (14), o presidente enviou ao Congresso, em regime de urgência, um projeto que reduz o limite da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, garantindo dois dias de descanso remunerado e proibindo qualquer redução salarial em decorrência da mudança. Na prática, o texto coloca fim à escala 6 por 1 e deve intensificar o debate na Câmara, previsto para ser retomado no fim do mês.

“Eu acredito que seja possível votar no mês de maio. Depende da capacidade de acordo e diálogo com todos os setores”, disse a piauí o deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), autor de uma das propostas em discussão na Câmara. Tudo indica que o embate ainda vai longe.


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Repórter da piauí