questões cinematográficas
Mar 2011 08h34
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Hoje é o quarto e último dia do seminário a cargo de Werner Herzog, iniciado sexta-feira, em Londres.
Mestranda em Comunicação e Semiótica na PUC-SP, Paola Prestes dirigiu, entre outros documentários “Flávio Rangel – o teatro na palma da mão”, lançado em DVD no ano passado. A seguir, o relato dela sobre os três primeiros dias do seminário:
“A escola itinerante de cinema de Werner Herzog, a Rogue Film School, tem um só professor, ele próprio. é aquele que rompe com convenções para trilhar seu próprio caminho, e é assim que são chamados os participantes do seminário semestral.
Herr Herzog escolheu como sede um hotel nos arredores do aeroporto de Gatwick, bem longe dos preparativos do casamento do Príncipe William e Kate Middleton.
Na desolação da periferia londrina, num hotel onde tudo parece mas não é, do sorriso das recepcionistas ao pãozinho do café da manhã, cheguei a duvidar que Werner Herzog, desbravador de selvas tropicais e desertos, fosse realmente dar as caras por aqui. Mas ele deu, e sua acolhida não poderia ter sido mais gentil: no coquetel de abertura sexta-feira, conversou individualmente com cada um de seus London rogues, cerca de sessenta. Para auxiliá-lo, uma lista com os nomes dos participantes e comentários sobre cada um anotados à mão, com a letrinha minúscula que Claudia Cardinale menciona no documentário Meu melhor inimigo.
Ciente de que o seminário representa despesas e deslocamentos importantes, Herzog reiterou no discurso de abertura que, para ele, cada um dos escolhidos tinha algo de especial, a spark [uma faísca]. Para o homem que dobrou Klaus Kinski sem levantar a voz, encantar uma plateia de admiradores não foi muito difícil. Desapareceu discretamente em seguida, deixando os rogues à vontade para se conhecerem melhor. As idades vão desde jovens recém-formados em cinema a profissionais com percursos em diferentes estágios de maturação. As origens são variadas também: de cara, conheci um holandês, um colombiano, um alemão, um ítalo-peruano, dois noruegueses e uma penca de ingleses.
Na manhã seguinte, o seminário começou para valer, no melhor estilo herzoguiano, com uma aula sobre como forjar documentos e instruções básicas para arrombar fechaduras, com a nobre finalidade de conseguir filmar em condições adversas. Nos últimos anos, Herzog virou cult a ponto de ter sido convidado a participar de um episódio dos Simpsons recentemente. Diverte-se com a folclórica pajelança que o rodeia, mas não se deixa embriagar.
O teor das aulas diárias de oito horas confirma que não atravessei o Atlântico para assistir à performance de um personagem vítima da própria notoriedade. Hoje, durante o almoço, os London rogues lamentavam antecipadamente o fim do seminário na segunda-feira. À tarde, Herzog lançou-se sobre o assunto que o obceca no momento: vulcões. Documentários na selva amazônica, África, Tibet, Sibéria, Kuwait… Será que Herzog não se interessa pelo próprio país? Hoje não deu, mas talvez amanhã eu consiga perguntar.” [continua]
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