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SEMINÁRIO HERZOG – VISTO POR DENTRO ( II )

Paola Prestescompleta hoje seu relato sobre o seminário realizado em Londres:
Imagem Seminário Herzog – visto por dentro ( II )

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Paola Prestes completa hoje seu relato sobre o seminário realizado em Londres:

“Segunda-feira passada, último dia do seminário da Rogue Film School, soube que houve dois casos de participantes infiltrados nos seminários anteriores. No primeiro, um rapaz exagerou na dose ao levar ao pé da letra a filosofia de Herzog sobre documentos forjados e fechaduras arrombadas. Herzog não viu na atitude nem licença poética, nem um pupilo aplicado demais. No segundo, uma jornalista se fez passar por cineasta. Herzog não morre de amores pela imprensa e não gostou nem um pouco. E gostou menos ainda quando os dois falsos escreveram artigos sobre o seminário em seus blogs.

Quando – apesar de ainda ter de enfrentar mais uma livre interpretação britânica da comida mediterrânea – ia finalmente poder relaxar, ouvi a palavra “traição” despencar da boca da assistente de Herzog e cair no meu risoto feito um cabelo. Como estou escrevendo posts sobre o seminário, não pude deixar de ponderar se, de uma perspectiva herzogcêntrica, eu também não seria considerada uma traidora. Não sinto que tenha de dar satisfações nem pedir benção sobre o que escrevo a respeito de um curso que tem site na internet. Mas me perguntei os motivos de tanta sensibilidade em plena era de descontrole e banalização da informação.

Claro que todos nós temos regras que obedecem mais às nossas sensibilidades pessoais do que à lógica. Mas não é só isso. Há artistas que não sabem ensinar, há professores que não são artistas mas são ótimos professores de arte, e por último, há uma categoria com poucos membros, os artistas que também sabem ensinar. É o caso de Herzog. Vestido de cinza da cabeça aos pés, com voz monocórdica, galvanizou a atenção de todos, pois é o triunfo da inteligência sobre a mediocridade. Mas isso eu já antecipava. O que me surpreendeu foi a generosidade com a qual ele se doou ao longo do seminário. Não confundamos generosidade com intimidade. Não há tapinhas nas costas nem troca de endereços eletrônicos. Deu a cada um de nós exatamente o tempo do seminário, nem um minuto a mais.

Herzog se define como um contador de histórias e esse talento perpassa as aulas que dá. De anedotas sobre atores a assuntos como trilha sonora, edição e roteiro, não economizou a si mesmo e demonstrou que há uma enorme diferença entre desfiar um rosário de fatos e conceitos, e transmitir experiência de vida e sabedoria. A exposição à qual ele se sujeita é grande e chegou a responder uma pergunta que eu teria considerado impertinente: “Foi bom pai?” Respondeu candidamente que não. É um pai melhor hoje.

O seminário foi um momento em que os compartilharam algo precioso, aquilo que se passa dentro da cabeça de um dos maiores cineastas independentes vivos. Nos sentimos como convivas de uma festa exclusiva, recheada de iguarias. Daí tanta auto-proteção, suponho. Werner Herzog é áspero? Misógino? Talvez. O seminário foi agradável? Não é bem a palavra. Mas isto importa? Saio de lá uma cineasta mais forte, menos vulnerável diante de um sistema que só castiga quem não se curva diante dele. Saio pronta, como aconselhou Herzog repetidas vezes, para go wild.” [Paola Prestes]

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