questões cinematográficas

“TROPA DE ELITE 2” – REALIDADE OU FICÇÃO?

Na piauí 50, mencionei a aparente intenção irônica das legendas iniciais de “Tropa de Elite 2”, nas quais é informado que “apesar das possíveis coincidências” o filme “é uma obra de ficção”
Imagem “Tropa de Elite 2” – realidade ou ficção?

3 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

No comentário publicado na piauí 50, de novembro, mencionei a aparente intenção irônica das legendas iniciais de “Tropa de Elite 2”, nas quais é informado que “apesar das possíveis coincidências” o filme “é uma obra de ficção” passada no “Rio de Janeiro” nos “dias de hoje”.



Para explicar a ausência de reação de políticos, policiais e ativistas de direitos humanos às críticas feitas em “Tropa de Elite 2”,  minha hipótese foi que ao definir o filme como “obra de ficção” os integrantes dessas categorias profissionais puderam fingir que nada do que é visto em “Tropa de Elite 2” lhes diz respeito.



Duas reações contradizem, em certa medida, minha hipótese. A primeira, do deputado estadual reeleito Marcelo Freixo, notória fonte de inspiração para o personagem do Fraga, professor, ativista de direitos humanos e deputado em “Tropa de Elite 2” (“Carta Capital”, 25/10/2010). E a segunda, do governador Sérgio Cabral, veiculada através de nota publicada na coluna do Jorge Bastos Moreno (“O Globo”, 30/10/2010).



Marcelo Freixo demonstra bom humor ao aceitar que “Tropa de Elite 2” seja “obra de ficção”:



“Nem  todas aquelas cenas correspondem à realidade. A começar pela minha mulher, que nunca foi casada, nem com o Capitão Nascimento, nem com o  Wagner Moura. E a cena do presídio, de todas, é a mais distante da realidade. […] Nunca houve uma  tentativa de brecar a minha entrada nas prisões, muito pelo contrário, o Bope me chamava para fazer essas negociações. Eu trabalho há vinte anos com os presos, chamo eles pelo nome, sei quem são, tem um respeito muito grande. Trabalhei como professor de história na cadeia durante  muitos anos. Para negociação isso é muito importante e para todas as  negociações que nós fizemos nunca houve um preso ferido, nenhum problema.”



O governador Sérgio Cabral, por sua vez, desconhecendo que o filme é definido como “obra de ficção”, reagiu à legenda segundo a qual “Tropa de Elite 2” se passa “nos dias de hoje”. Para o governador, “tem mais de 400 milicianos nas cadeias do Rio e em presídios federais de segurança máxima em outros estados.” Além disso, declara que “o secretário de Segurança é honesto e combate a milícia, e o governador prende vereadores e deputados envolvidos.”



Andando com “carro blindado, segurança o dia inteiro”, Marcelo Freixo comprova a atualidade de “Tropa de Elite 2”. Na mesma entrevista à Carta Capital, descreve a situação de ângulo diferente do governador Sérgio Cabral, afirmando que



“o Rio não está pacificado. […] Você tem que enfrentar as milícias, por exemplo. Os líderes foram presos depois da CPI das Milícias, mas elas continuam crescendo territorialmente porque os seus braços econômicos não foram cortados […] Não tem aproximação da polícia com a comunidade, apenas tem nas zonas de UPP que é menos de 1% do território do Rio, em todas as outras a polícia mantém um controle. Nós vivemos um apartheid sem precisar do muro.”



As duas reações demonstram que “Tropa de Elite 2” conseguiu provocar ao menos um esboço de debate sobre segurança pública. Ficção e realidade podem estar mais próximas do que as legendas iniciais do filme tentam insinuar.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.