questões cinematográficas
Mar 2010 11h18
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Apenas duas letras diferenciam Grinberg de Grimbert. A mudança de grafia, porém, mesmo pequena, é indício de negação da própria identidade, e de tentativa de ocultar o passado. No caso, negar a origem foi via de salvação; admitir ser judeu levou ao naufrágio.
Inspirado em fatos reais, , do psicanalista Philippe Grimbert, é o relato autobiográfico da descoberta do que estava por trás da interdição que pairou sobre sua família. Publicado em 2004, o romance autobiográfico foi editado, no Brasil, em 2009, depois de ter sido adaptado para o cinema. Tendo estreado em dezembro, apenas no Rio, o filme está completando 10 semanas em cartaz, e foi visto, segundo os dados do “Boletim Filme B”, por cerca de 26 mil pessoas.
Segredo é também o tema central de outro relato autobiográfico, “Um romance russo”, de Emmanuel Carrère, publicado em 2007, e editado no Brasil, no ano seguinte. Quando a mãe do narrador de “Um romance russo” diz que é “a única depositária e quer [que a história] morra com ela”, ele responde:
“Você se engana: eu talvez não saiba nada, mas é a minha história também. Tendo assombrado sua vida, assombrou a minha, e se continuarmos assim ela assombrará e destruirá meus filhos, seus netos. É assim que acontece com segredos. Isso pode envenenar várias gerações.”
Com roteiro e direção de Claude Miller, e adendo infeliz no título em português, “Um segredo em família” é o relato de um desses envenenamentos, que afinal não se perpetua, pois o segredo é revelado. O relato de uma amiga da família e vizinha, que tratou do narrador desde a infância, com injeções e massagens, permite que ele, quando adolescente, descubra o que se passou. Já adulto, ele conta sua história, motivado por uma crise do seu pai, que negou a própria identidade para sobreviver e tentou ocultar o passado.
No filme, nem sempre fica claro que se trata de um relato de segunda mão, já que os fatos ocorreram antes do narrador ter nascido. É preciso alta dose de credulidade, porém, para aceitar que ele possa contar a história de maneira tão circunstanciada, mesmo se, ocasionalmente, mencione que está reproduzindo o que ouviu.
Invertendo o recurso costumeiro, o passado é apresentado em cores, enquanto o tempo presente, no ano de 1985, é em preto e branco. O recurso funciona, embora as imagens de arquivo, sendo também preto e branco, desorientem ao desrespeitar a convenção narrativa proposta pelo próprio filme.
A trilha musical de Zbigniew Preisner evoca passagens das que compôs para os filmes de Krzysztof Kieslowski. Mesmo sendo um compositor notável, é sempre um pouco constrangedor ouvir alguém citando a si mesmo.