Após as eleições, Delcídio se reuniu com Dilma e Mercadante: "Expliquei que a Lava Jato ia chegar no governo. Era preciso soltar algumas pessoas, acabar com alguns inquéritos. Se fosse o Fernando Henrique, quando prenderam o Paulo Roberto acabava a investigação. Nisso os tucanos são bons." FOTO: EGBERTO NOGUEIRA/ÍMÃ_FOTOGALERIA_2016
O delator
Delcídio do Amaral fala sobre os tempos de poder, os meses na prisão e a ruptura com Dilma, Lula e o PT
Malu Gaspar | Edição 117, Junho 2016
“Vamos abrir os trabalhos”, disse Delcídio do Amaral enquanto se servia de três pedras de gelo e uma dose generosa de Johnnie Walker Red Label. Passava um pouco das cinco da tarde do dia 17 de abril. Depois de três horas de discursos, ia começar a votação do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados. Delcídio acompanharia a sessão acomodado no local em que mais ficava desde que saíra da prisão, dois meses antes: uma saleta vermelha que o dono da casa, seu irmão, um executivo de multinacional aficionado por rock’n’roll e motos Harley-Davidson, transformara em pub. O senador sentou no sofá, cruzou as pernas e estendeu os braços ao longo do encosto. À sua frente, sobre uma mesinha redonda coberta por uma bandeira dos estados confederados americanos, salgadinhos, refrigerante e água. Usava camisa de linho lilás para fora da calça, jeans claro e sapato social. Alguns poucos parentes assistiriam com ele à transmissão pela tevê – entre eles a mãe, Rosely, e o irmão, José Ramon, o núcleo duro da família Amaral. Haviam se reunido para dar apoio ao membro mais ilustre do clã.
Na tela, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, explicava aos deputados a dinâmica da votação. Delcídio mantinha a postura aparentemente relaxada, mas seu semblante estava tenso. Por vezes o olhar ficava estático, grudado na tevê, mas ele não parecia prestar atenção. Talvez fosse cansaço, visível pelas olheiras profundas. Mas também podia ser incredulidade. Nos últimos anos, o senador eleito pelo Partido dos Trabalhadores de Mato Grosso do Sul havia se transformado em peça fundamental do governo. Presidiu a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Correios, por duas vezes comandou a Comissão de Assuntos Econômicos, abafou escândalos e negociou projetos importantes – e, no decorrer do processo, tornou-se homem de confiança de Lula e Dilma. Em 2015, escolhido como líder do governo no Senado, era chamado quase diariamente ao Palácio do Planalto para deliberar com a presidente e seus principais ministros.
Agora estava ali, no pub particular de uma confortável casa na Zona Sul de São Paulo, a mais de 1000 quilômetros da capital federal, torcendo para esse mesmo governo cair. De repente, como quem se dá conta da gravidade do momento, Delcídio inclinou o corpo para a frente e, com os olhos ainda fixos na tevê, apoiou os cotovelos sobre os joelhos, passou as mãos no rosto, olhou para mim de soslaio e confessou estar ansioso. “Sabe o que é? Querendo ou não, eu sou protagonista nessa confusão aí. Eu ajudei a enterrar.”
Delcídio do Amaral passou a considerar a hipótese de implodir o governo Dilma na manhã de 25 de novembro de 2015, logo que se viu na sala do plantão da Polícia Federal em Brasília. Estava acordado desde o raiar do sol, quando um time de cinco agentes da Polícia Federal, um delegado e dois procuradores o surpreendeu no quarto de hotel onde morava, às margens do lago Paranoá. Enquanto o local era revistado, foi obrigado a tomar banho de porta aberta, sob a vigilância de um agente. Ouviu, de pé, a leitura do mandado assinado pelo ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, responsável pelos processos da Operação Lava Jato. Entendeu que estava sendo preso em flagrante – única situação em que se pode deter um senador da República. Era acusado de obstrução de Justiça.
Só mais tarde, porém, Delcídio compreendeu o quê, exatamente, o levara à prisão. Na PF, antes de ser trancafiado na cela improvisada – uma sala usada para a soneca dos delegados do plantão –, foi autorizado a ver tevê. Soube pela GloboNews que uma conversa sua havia sido gravada por Bernardo Cerveró, filho do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró. Ouviu-se dizendo que fazia lobby no STF pela libertação de Cerveró, encarcerado em Curitiba havia dez meses. Ouviu-se oferecendo alternativas de fuga.
No final da tarde, o presidente do PT, Rui Falcão, divulgou uma nota comunicando que o partido não se julgava obrigado a qualquer gesto de solidariedade. Mas a ficha começou mesmo a cair à noite, ao assistir à sessão extraordinária em que os senadores mantiveram sua prisão. “Você não imagina a decepção que eu tive. Arrumei dinheiro, nomeação, fiz favores para dois terços do Senado. E de repente nego estava ali me xingando. Foi duro.”
Aquela foi a primeira noite que o senador dormiu na cela: uma sala de 9 metros quadrados, sem banheiro, com uma cadeira de plástico e uma cama. Num canto, uma pequena bancada de madeira funcionava como mesa. Do lado de fora do estreito basculante lateral, tapando a vista e impedindo a circulação de ar, havia um gerador a diesel. Delcídio logo descobriu que o equipamento era acionado nas constantes quedas de energia do edifício, provocando um barulhão e enchendo a cela de fumaça. No dia seguinte, ao dar seu primeiro depoimento aos procuradores Sérgio Fernandes e Marcello Miller, o senador afirmou que iria colaborar. Naquele momento, porém, a delação premiada não era sua primeira alternativa. Tanto que, nesse depoimento inaugural, Delcídio passou boa parte do tempo tergiversando.
Descontraído como se estivesse no plenário, num papo com colegas ou jornalistas – com os quais sempre se deu muito bem –, ele sorria, fazia piadas e lançava uma ou outra informação mais picante, de que se arrependia quando via o delegado e os procuradores fazerem a transcrição. “Melhor não colocar isso, doutor”, Delcídio pedia, segundo o relato de um procurador. Até que, na terceira vez, um deles perdeu a paciência. “O senhor está num interrogatório. Nosso papel não é escrever discurso para ficar bom para o senhor.” O clima pesou e o advogado pediu um tempo para conversar com o cliente.
No breve período em que os dois se ausentaram da sala aconteceu um daqueles lances fortuitos que dão impulso a investigações: um agente da PF que trabalhava em outro setor e nada tinha a ver com a Lava Jato bateu na porta. “É aqui que estão tomando o depoimento do Delcídio?” Espantados – até então pensavam estar agindo em completo sigilo –, os investigadores confirmaram. O policial entregou um papel com uma notícia impressa e saiu. “‘Coisa de imbecil’ e ‘que idiota’, diz Lula sobre Delcídio, preso na Lava Jato” eram as manchetes. Os investigadores imediatamente botaram o papel bem em frente à cadeira do senador. Quando a dupla voltou, o advogado chamou os interrogadores para uma conversa no canto da sala – queria explicar que o cliente ia colaborar, mas estava muito abalado para falar, não conhecia todos os aspectos do processo. O senador se viu sozinho por alguns segundos com o papel na mão. Leu, arregalou os olhos e conferiu seu conteúdo. Bufou e disse, entredentes: “Ele está fazendo isso por causa do BTG.” Referia-se ao banco de André Esteves, preso com ele sob a acusação de tentar calar Cerveró. A partir dali, Delcídio se mostraria bem mais solícito.
“O que foi que você fez?! O que você fez?! Eu não te conheço, esse não é o meu marido! Você está oferecendo um avião para o cara fugir? Você está maluco!”, fulminou no celular Maika do Amaral logo na primeira conversa com Delcídio, ainda no dia da prisão. Morena, baixinha e de sorriso largo, Maika, de 52 anos, é famosa pela personalidade forte e pelo medo que provoca no marido. Embora não se envolvesse em articulações palacianas, ela participava ativamente das campanhas políticas e, sempre que tinha chance, palpitava. Uma de suas broncas constantes era a filiação dele ao PT, partido que ela nunca engoliu.
“Não adianta, não temos cara de PT!”, disse Maika, sentada no sofá vermelho do pub particular, numa noite fria do início de maio. Dona de duas franquias de uma marca de roupa em Florianópolis, onde o casal morou nos anos 90, foi cliente assídua da Daslu nos tempos áureos, e até hoje é convidada para as semanas de moda do Rio e de São Paulo. Em Campo Grande, é personagem obrigatória das colunas sociais. “Eles sempre me trataram como uma primeira-dama de shopping. O partido nunca o reconheceu como petista.”
Confrontado com a fúria da mulher ao telefone, o senador não teve outra alternativa a não ser se penitenciar. “Errei”, disse ele. Ela não tripudiou, mas sua cólera não aplacou. À noite, desabafou com um jornalista amigo da família. “Eu avisei! Ele já devia ter saído do PT há muito tempo! A culpa de tudo é daquela filha da puta!” No dia seguinte, a frase estava estampada em vários blogs, junto com a informação de que ela defendia a delação premiada do marido. Quando o casal se encontrou, dias depois, na Polícia Federal, houve choro e pedidos de perdão. Minutos depois, mais calmos, ela foi peremptória. “Eu quero minha honra de volta. Quero poder entrar num supermercado e andar com você na rua. Você vai me devolver a honra.”
O potencial de uma possível delação de Delcídio do Amaral provocou imediato estado de tensão em Brasília. O líder do governo detinha segredos dos mais variados partidos além do PT, sobretudo do PMDB e do PSDB. Desde seu primeiro emprego público, como gerente regional da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no sul do Pará, o senador construiu relações duradouras com empreiteiros e se tornou próximo dos políticos. Um dos primeiros foi Jader Barbalho, hoje senador pelo PMDB, à época governador do estado. “Jader é meu amigo. Quando tinha problema lá nas estradas, eu metia as máquinas de Tucuruí para resolver”, ele disse, enquanto acompanhava a votação do impeachment na Câmara.
Nomeado anos depois diretor da Eletrosul, cuja sede ficava em Santa Catarina, Delcídio se aproximou de Jorge Bornhausen, senador pelo estado e cacique do antigo PFL, hoje DEM. Em 1994, sob o governo de Itamar Franco, Delcídio foi secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, e, por alguns meses, ministro interino. Em 1998, filiou-se ao PSDB. Mas foi com o aval do PMDB de Barbalho, Geddel Vieira Lima e Eliseu Padilha que chegou à Diretoria de Gás e Energia da Petrobras, no ano seguinte. Em 2001, trocou o ninho tucano pelo petista, assumindo a Secretaria de Infraestrutura e Habitação do governo de Zeca do PT, do Mato Grosso do Sul, seu estado natal. No ano seguinte, elegeu-se senador.
Em sua primeira declaração após a prisão de Delcídio, depois de se dizer “extremamente perplexa”, Dilma afirmou que ele era “uma pessoa bastante bem relacionada no Senado e, aliás, nós o escolhemos porque ele tinha relações com todos os partidos, inclusive os da oposição”.
O primeiro político a telefonar para Maika do Amaral foi Renan Calheiros, presidente do Senado, horas depois da prisão. “Ele disse que estava ligando para expressar solidariedade. Eu pedi: ‘Tira meu marido de lá!’ Ele prometeu fazer o que pudesse.” Naquela mesma manhã, Calheiros encomendou à Consultoria Jurídica do Senado um parecer contestando a prisão no STF. Disse aos jornalistas considerar perigoso prender um senador “sem culpa formada”, e declarou que faria uma votação secreta a respeito da manutenção da prisão. Em seguida, perdeu o controle da situação. Os senadores decidiram que a votação seria aberta – e, apesar do constrangimento, mantiveram Delcídio preso por 59 votos a 13.
No dia seguinte, um dos mais próximos aliados de Calheiros, Vandenbergue Machado, lobista da Confederação Brasileira de Futebol em Brasília, ofereceu abrigo a Maika em sua mansão no Lago Sul. Ela aceitou. “O Vandenbergue era nosso amigo, e eu não queria ficar no hotel, cercada de jornalistas. Só com o tempo percebi que ele e o Renan queriam me vigiar”, contou Maika. Ela ficou hospedada na casa do lobista durante todo o período da prisão, ora sozinha, ora em companhia dos anfitriões.
Tanto Calheiros como Delcídio eram vistos em Brasília como políticos amigos da CBF. Naquele momento, porém, segundo os Amaral, o lobista não agia a mando da entidade. “Ele é ‘amarra-cachorro’ do Renan, falava pelo PMDB. E me visitava quase toda semana, dizendo: ‘Meu amigo, meu irmão.’ Ele queria era me monitorar.” No jargão popular, o amarra-cachorro é um auxiliar a quem são delegadas tarefas sem importância. No meio político, adquiriu conotação um pouco diferente. “Sabe aquele sujeito que passa depois do chefe para acertar o ‘lado prático’ de uma negociação? Esse é o amarra-cachorro”, explicou-me certa vez o próprio Delcídio.
Na prisão, as visitas eram permitidas às terças e quintas, de manhã e à tarde. No início, sempre havia políticos esperando para entrar. Num desses primeiros dias, chegou um grupo composto pelo deputado José Mentor, de São Paulo, e os senadores Paulo Rocha, paraense, e Humberto Costa, pernambucano – todos petistas. (Segundo a delação de Nestor Cerveró, Delcídio, Mentor e dois representantes de Fernando Collor de Mello se reuniam com frequência entre 2010 e 2013, no Rio, para discutir a repartição de propinas na BR Distribuidora. Todos negam.) Na visita a Delcídio, mostraram-se preocupados em sondar sua disposição em entregar o que sabia. “Foi o Lula quem mandou o Zé Mentor lá. Ele chegou cercando o alambrado, dizendo que o Lula tinha pedido desculpas, mas que só falava aquelas coisas para quem ele gosta. E eu respondi que não tinha nem ligado”, contou Delcídio, com uma expressão de desprezo, enquanto balançava o copo de uísque. E completou: “Puta conversa fiada.”
Afora os momentos de visita, Delcídio passava quase todo o tempo sozinho. Não tinha companheiros de cela. Ao acordar, vestia camisa, calça e sapato social. “Eu disse a mim mesmo: ‘Entrei como general, vou sair como general.’ Bermuda e chinelo, não usava. Tomava banho de manhã, tomava banho à noite. Trabalhava o dia inteiro. Criei um ritual para não enlouquecer.” Estudava o próprio processo ou lia um dos muitos livros que lhe traziam, fazendo anotações num caderninho.
Dado o inusitado da situação, não havia regras claras sobre o que era ou não permitido fazer. Quando o chefe do plantão estava de bom humor, a porta da saleta era aberta. Do contrário, Delcídio ficava trancado e, para ir ao banheiro, precisava bater na porta. Almoços e jantares eram servidos numa quentinha, mas seu assessor de imprensa, José Eduardo Marzagão, levava diariamente uma garrafa térmica de café com leite, além de bolo ou misto quente. Às vezes o deixavam entrar, às vezes, não. A arbitrariedade dos agentes federais exasperava o outrora poderoso senador.
No início da noite de um sábado, acabou a luz no prédio da PF. O gerador vizinho a Delcídio foi ligado automaticamente, mas estava programado para iluminar apenas os principais ambientes do prédio, que não incluíam o quartinho-cela. A trepidação da máquina fazia tremer as paredes, a fumaça entrava pela janelinha lateral. Fechado no escuro, o preso se sentiu mal. “Aquilo encheu o quarto de fumaça, e eu comecei a bater, mas ninguém abriu. Os caras não sei se não ouviram ou se fingiram que não ouviram. Era um gás de combustão, um calor filho da puta. Só três horas mais tarde abriram a porta. Foi dificílimo”, lembrou o senador, meses depois, durante um almoço na casa do irmão.
Naqueles dias, momentos de otimismo davam lugar a acessos de choro, sem aviso prévio. “O humor dele era como o resultado de um eletrocardiograma. Uma hora, lá no alto. De repente, chorava como criança”, lembrou Marzagão. Uma vez, depois de visitá-lo, uma de suas filhas lhe enviou uma carta. “Num dos trechos ela dizia assim: ‘Pai, sempre te vi grande, eu queria ficar com você. Hoje eu te vi, pequeno, magro, mas vivo. E queria te colocar numa caixinha.’ É foda”, lembrou o senador, com os olhos encharcados. Afora esse momento específico, sempre que perguntei a Delcídio se havia chorado, se ficara sem dormir ou se tomava remédios, ele negou. E várias vezes completou com a frase: “Eu me adapto bem às situações.”
Com o tempo e a aproximação das festas de fim do ano, as visitas ficaram rarefeitas. Mas também escassearam porque as pessoas zelavam pela própria imagem. O pedetista Telmário Mota, de Roraima, vice-líder de Delcídio no Senado, foi um dos que agendou visita e fez forfait. “Quando cheguei e vi os jornalistas, dei para trás”, ele me disse, em maio passado. Aqueles que nem cogitavam ir até a PF, como José Sarney ou Lindbergh Farias, enviavam recados. O senador, por sua vez, também enviava suas mensagens ao mundo exterior.
No primeiro depoimento ao Ministério Público Federal, no dia seguinte à prisão, ele confirmou a ligação entre o então vice-presidente, Michel Temer, e Jorge Zelada, ex-diretor da área Internacional da Petrobras. Os dois nomes haviam sido mencionados na conversa gravada por Cerveró filho, na qual Delcídio afirmou ter sido Dilma quem indicara Cerveró pai à diretoria da BR Distribuidora em 2008. No mundo político, tais menções foram entendidas como ameaça.
Naqueles dias, Renan Calheiros chamou Maika para duas “visitas institucionais” à residência oficial da presidência do Senado – conversas cheias de rodeios e indiretas, em que ele dizia “estar tentando”, e Maika afirmava que “o que aconteceu com Delcídio pode acontecer com qualquer senador”. As filhas mais novas do casal, Maria Eduarda, de 21 anos, e Maria Eugênia, de 20, foram alvo de mensagens agressivas nas redes sociais – fotos das duas foram acopladas a imagens de meninas nuas. (Delcídio tem outra filha, Dafne, de um relacionamento anterior.) O senador soube que colegas seus exibiam no Congresso as imagens falsificadas.
Vários jornais reproduziram o relato de um colunista social de Campo Grande sobre a festa de 15 anos de Maria Eugênia, em 2011. Àquela altura, o pai era poderoso, mas não tão notório. Bajulador, o colunista caprichou nos detalhes, para justificar a “suntuosidade” que detectou no evento para 700 convidados. Descreveu o salão de 1,6 mil metros quadrados, citou as 120 garrafas de uísque Johnnie Walker e as 240 de champanhe Veuve Clicquot, o vestido de cristais da Givenchy da aniversariante, os brincos, anéis e pulseiras de ouro e brilhantes que ela ganhou. “A nobreza inglesa que me perdoe, mas aqui em Campo Grande essa festa da Maria Eugênia Amaral não ficou devendo quase nada ao servido naquele chamado ‘casamento do século’ que eles fizeram na Inglaterra”, dizia o texto.
A pressão sobre a família mexeu com o senador. Eram frequentes as especulações de que ele avaliava colaborar com a Lava Jato.
Foi depois de passar um dia inteiro na Polícia Federal que Marzagão, o assessor de Delcídio, recebeu uma ligação de Anna Carolina Castro, a Cacá, assessora do ministro da Educação, Aloizio Mercadante. Os dois se conheciam desde que o ministro passara pelo Senado. Marzagão estava a caminho de casa, mas Cacá disse que Mercadante queria vê-lo o quanto antes. Marzagão fez o retorno e logo estava na sede do MEC. Ficou desconfiado daquela chamada repentina – Delcídio e Mercadante tinham um histórico de atritos, alguns inclusive em público. Pensando nisso, ligou o gravador do iPhone e o botou no bolso, ainda no estacionamento. Foi encaminhado ao elevador reservado às autoridades, sem passar pela recepção nem se identificar. Mercadante estava reunido com um grupo numa sala, mas abandonou o compromisso para recebê-lo no gabinete. A conversa, contudo, foi enigmática. “[…] eu vou dizer o seguinte. Eu sou um cara leal. A Dilma sabe que se não tiver uma pessoa pra descer aquela rampa, eu vou com ela até o final. Eu gosto do Delcídio”, disse o ministro. “O que eu acho que ele está precisando agora é de algum tipo de apoio e solidariedade, pessoal e político. Então você veja o que eu posso ajudar.”
Na semana seguinte, quando o ministro o chamou pela segunda vez, Marzagão teve certeza de que estava em curso uma operação abafa. Era 9 de dezembro. Na véspera, os jornais haviam noticiado que Delcídio contratara o advogado Antonio Augusto Figueiredo Bastos, especializado em delações premiadas. Dessa vez, Mercadante foi mais claro. “Eu acho que ele devia esperar, não fazer nenhum movimento precipitado […] Pra ele não ser um agente que desestabilize tudo. Porque senão vai sobrar uma responsabilidade pra ele monumental, entendeu?” O ministro prometeu acionar consultores do Senado para encontrar uma saída para a prisão, criticou a postura do PT em relação a Delcídio e disse que tentaria falar com ministros do STF para ver se havia um meio de soltá-lo. Disse que não agia a mando de Dilma e afirmou não estar “nem aí” para uma eventual delação. Mas, uma ou outra vez, sugeriu que se tirasse o assunto “da pauta”: “Então, eu acho que tem que tirar isso da pauta nesse momento, pra defesa dele, tô falando… pra tentar construir.” Marzagão gravou tudo, transcreveu o que havia sido dito e mostrou ao chefe, que achou ótimo. Tinha ali um belo capítulo para sua proposta de delação.
O enredo que levou à prisão de Delcídio teve início em 8 de maio de 2015, quando ele se encontrou com Luiz Inácio Lula da Silva na sede do Instituto Lula, em São Paulo. Desde que a Operação Lava Jato ganhara corpo, pouco mais de um ano antes, as frequentes conversas dos dois desembocavam nesse mesmo assunto. O ex-presidente invariavelmente se queixava de Dilma Rousseff, a quem julgava leniente com a operação, e manifestava preocupação com os efeitos políticos do processo. Ele atribuía o descaso da sucessora à influência de figuras como Mercadante, que – Lula tinha a certeza – queria queimá-lo para poder se candidatar à Presidência em 2018.
No encontro de maio, porém, o ex-presidente tinha uma preocupação mais concreta. Num gesto atípico, levantou da cadeira em que normalmente se sentava em sua mesa de trabalho e deu a volta para ficar ao lado de Delcídio, num assento destinado às visitas. “Ele veio para bem perto de mim e começou a cochichar na sala vazia: ‘Porra, Delcídio, nós precisamos ajudar nosso amigo Bumlai. Estou achando que as coisas estão se fechando em cima dele’”, contou o senador, um ano depois. Lula estava bem informado sobre os imbróglios em que Bumlai se envolvera. Citou especificamente o empréstimo de 12 milhões de reais que o pecuarista recebeu do Banco Schahin, e que teve como contrapartida contratos de arrendamento de sondas na Petrobras para a empreiteira do grupo. O próprio Bumlai viria a admitir, depois de ser preso, ter repassado dinheiro ao PT. Lula continuou: “O negócio das sondas, da Schahin, isso deve ser falado na delação, então nós precisamos ajudar. Eu quero que você ajude eles. Veja o que é necessário fazer para as coisas caminharem.” Versado no vocabulário particular adotado nesse tipo de situação, Delcídio traduziu “ajudar” por “ter a situação de Bumlai sob controle”. E por “as coisas caminharem”, entendeu que “era preciso que Bumlai não fosse preso, e ainda eliminar referências a ele nas delações de Baiano e Cerveró”. Por intermédio do Instituto Lula, o ex-presidente afirmou que tal cena nunca aconteceu, e que as histórias contadas por Delcídio são mentirosas.
Delcídio era amigo dos Bumlai desde pequeno, quando as famílias de ambos frequentavam as fazendas uma da outra, no Pantanal. Procurou Maurício, filho de José Carlos Bumlai, e disse que “uma forma razoável de tentar fazer alguma coisa” era dar dinheiro aos Cerveró, que estavam passando por dificuldades. O senador tinha contato direto com eles. Antes de ser preso, em janeiro, o próprio Nestor havia procurado Delcídio para pedir ajuda. Na Petrobras, todo mundo sabia que os dois eram unha e carne. Conheciam-se desde a época em que Delcídio era diretor da Petrobras, onde Cerveró era gerente. O senador fizera do ex-subordinado o diretor da área Internacional da estatal, numa indicação avalizada pelo PT. Segundo Delcídio, com a CPI dos Correios e a consequente necessidade do governo de reorganizar sua base para abafar o escândalo do mensalão, o PT abriu espaço para o PMDB na diretoria internacional. “Foi nessa época que Renan, Baiano e Bumlai o capturaram”, ele me disse. Em sua delação, afirmou que Cerveró passou a ser “anfíbio” , servindo ao PT e ao PMDB, “embora muito mais ligado ao PMDB”. Na noite do impeachment, o senador me contou que os peemedebistas acompanhavam detalhadamente, com documentos, planilhas e números, todos os passos de Cerveró. Se ele não prestasse contas, era cobrado. No Congresso, a disputa entre Renan e Delcídio pela “paternidade” de Cerveró era assunto conhecido. Aparentemente, porém, haviam se acertado, pois de vez em quando os três almoçavam juntos em algum restaurante de Brasília. Na conversa com Marzagão, Mercadante lembrou a disputa por Cerveró, e sugeriu que, para dar certo a estratégia de aliviar a situação de Delcídio no Senado, “não pode botar o Renan contra a parede”. Revista hoje, a observação parece profética.
Bumlai logo se prontificou a ajudar os Cerveró. O auxílio, aliás, era bem-vindo: além de resolver o problema de Lula, também poderia solucionar o drama do próprio senador, citado em todas as propostas de delação feitas por Cerveró ao Ministério Público. Delcídio, porém, sustenta que não agiu por interesse próprio no que ele mesmo chama de “Operação Bumlai”. “Aquilo foi feito exclusivamente por causa do Lula. Até porque, àquela altura, o (Fernando) Baiano já tinha colocado meu nome na delação dele. Eu já estava na pica do saci”, falou, empregando mais uma de suas expressões, que no linguajar popular significa uma tremenda enrascada. Enquanto Cerveró não fechasse nenhum acordo, porém, a situação ainda poderia ser revertida. Pelo menos era nisso que apostavam Lula, Bumlai e Delcídio.
A primeira parcela da “ajuda” foi entregue por Maurício Bumlai diretamente a Delcídio, dentro de uma sacola de loja de departamentos, depois de um almoço na churrascaria Rodeio do Shopping Iguatemi, em São Paulo, frequentada por gente do mercado financeiro e ricos de variadas estirpes. Na saída, o empresário deu uma carona ao senador até o Maksoud Plaza, perto da avenida Paulista. Assim que chegou ao hall do hotel, Delcídio encontrou o advogado de Cerveró, Edson Ribeiro, e lhe repassou a sacola, onde havia 50 mil reais. O senador contou que, depois daquele dia, teve uma conversa com a família Cerveró. “Eu disse, olha, eles estão te ajudando. Então vocês têm de avaliar bem o que vão dizer, porque foram os únicos que estenderam a mão para vocês. Eles responderam: ‘Não há dúvida nenhuma.’ Mas o tempo foi passando e a gente via que não existia aquele compromisso.”
Em julho, Cerveró fez ao Ministério Público a sua primeira proposta de delação premiada – que receberia vários acréscimos nos meses seguintes. “Naquela época, eu soube que o Nestor estava em desespero, e começou a fazer propostas em série. Advogados que andavam por Curitiba me disseram que a papelada vivia solta nas mesas dos delegados. Você achava delação do Nestor em tudo que era lugar no presídio”, contou Delcídio. Numa das últimas versões, apresentada em setembro, Delcídio, Collor, o deputado petista Cândido Vaccarezza, Calheiros e Barbalho foram citados como beneficiários de propina. Dilma Rousseff também estaria envolvida – segundo o ex-diretor da Petrobras, ela teria acompanhado de perto as negociações para a compra da refinaria de Pasadena, transação na qual a estatal brasileira pagou um sobrepreço de 821 milhões de dólares.
À medida que crescia a disposição de Cerveró em colaborar, diminuía a vontade dos Bumlai de continuar financiando a família. O senador então decidiu buscar um plano B: o banqueiro André Esteves, outro que tinha boas razões para temer as revelações de Cerveró. Uma das histórias que o ex-diretor da refinaria tinha para contar dizia respeito ao investimento que a BR Distribuidora fizera, em sua gestão, numa rede de postos de que Esteves era sócio e que estava em dificuldades. Outro episódio sobre o qual Cerveró poderia jogar luz era a compra, pelo BTG Pactual, de uma fatia da PetroAfrica, subsidiária da Petrobras, por menos da metade do valor estimado internamente pelos técnicos da própria área internacional da empresa.
“Eu disse: ‘Olha, André, os caras estão numa situação difícil, se você achar interessante…’ E ele disse: ‘Não, tudo bem, em princípio estou de acordo. Vamos deixar os fatos correrem’”, lembrou Delcídio. Entre junho e agosto, Edson Ribeiro recolheu de intermediários de Bumlai e Delcídio 250 mil reais, camuflados em sacolas, envelopes, caixa de vinho e de sapato. No depoimento ao MP, Bernardo admitiu ter recebido 50 mil. A PF e o MP suspeitam que o advogado tenha ficado com o resto do dinheiro. Em setembro, Delcídio recebeu o recado de que a família não queria mais ajuda. Cerveró se decidira pela delação.
Os procuradores, porém, recusavam o acordo: haviam descoberto uma nova conta na Suíça, que Cerveró não reconhecia. E mais: conheciam algumas das histórias que ele pretendia contar, adiantadas na delação do lobista Fernando Baiano, que com ele administrava o pagamento das propinas para o PT e o PMDB. Em agosto, Cerveró foi condenado pelo MP a doze anos e três meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
Seu filho, Bernardo, ator, deixara de lado o teatro e o sítio na serra fluminense, onde cultivava produtos orgânicos. Passava o tempo em reuniões com advogados e viagens a Curitiba, vendo o pai oscilar entre o desespero e a depressão. Segundo contou ao MP, os advogados em Curitiba lhe propuseram uma solução: Delcídio. Bernardo então procurou Edson Ribeiro e pediu que retomasse as negociações. O senador voltou a procurar Esteves, e a conversa ganhou termos mais concretos: que se repassasse 1,5 milhão de reais a Cerveró via Ribeiro, que justificaria os pagamentos por um contrato de consultoria. Enquanto isso, os defensores paranaenses de Cerveró procuraram o Ministério Público. Os procuradores foram claros: estavam interessados, mas só falariam em delação se Bernardo trouxesse provas.
Na tarde do dia 4 de novembro, Delcídio inadvertidamente passou a atuar como o agente que, nas palavras de Mercadante, desestabilizaria tudo. Às 14 horas, ele e o chefe de gabinete, Diogo Ferreira, chegaram ao quarto 5111 do hotel Royal Tulip para uma conversa com Bernardo Cerveró e o advogado Edson Ribeiro. Antes do encontro, todos entregaram seus celulares. O ator preparara quatro aparelhos para captar o conteúdo da conversa, um dos quais era um chaveiro espião. Dois celulares estavam dentro de uma mochila, e um outro ficou escondido no bolso. Foi esse o que detonou a bomba.
A gravação deixa claro que o advogado patrocinava um acerto: se o dinheiro de Esteves saísse, o nome de Delcídio e do banqueiro seriam excluídos da delação. Para convencer o rapaz de seu empenho, o senador foi incisivo. “Agora, Edson e Bernardo, eu acho que nós temos que centrar fogo no STF. Eu conversei com o Teori, conversei com o Toffoli, pedi pro Toffoli conversar com o Gilmar, o Michel conversou com o Gilmar também, porque o Michel tá muito preocupado com o Zelada, e eu vou conversar com o Gilmar também.” O plano era conseguir um habeas corpus para Cerveró – que, uma vez solto, fugiria do Brasil. “Porque acho que o foco é o seguinte: tirar [da cadeia]. Agora, a hora que ele sair tem que ir embora mesmo”, prosseguiu Delcídio. Por alguns minutos, discutiram como funcionaria o plano de fuga. Bernardo disse que pensava em tirar o pai pela Venezuela, mas Delcídio discordou. “A saída melhor é a saída pelo Paraguai…” A ideia, porém, enfraqueceu-se quando debateram sobre como se livrar da tornozeleira eletrônica. Não parecia haver solução. O advogado então disse: “Tecnicamente o ideal é não fugir agora.” E Delcídio respondeu: “Edson, a gente tem que fazer o possível pro Nestor ter tranquilidade aqui.” Ao final da conversa, ficou combinado que Delcídio buscaria novo contato com Esteves para combinar o pagamento. A reunião chegou a ser marcada para o dia 19 de novembro, na sede do BTG, no Rio de Janeiro. Mas Bernardo, com medo, não apareceu. Em uma semana, todos, menos ele, estariam presos. (Cerveró conseguiu fechar o acordo de delação premiada, ganhou redução na pena e o direito a passar dez dias com a família no final do ano – mas depois, voltou à prisão. Bernardo submergiu.)
Já eram mais de nove da noite, a Câmara havia acabado de computar os votos do estado do Rio na sessão do impeachment quando Delcídio começou a refletir sobre o tombo que tomara. “Eu passei 61 anos andando sobre as águas. Eu me sentia muito inteligente. Era um cara vivido, falo quatro idiomas, conhecia o mundo inteiro. E fui ficando cada vez mais poderoso, entendeu? E porra, uma cochilada com um moleque e eu me fodi!” A capacidade de análise seguia afiada depois de quatro uísques e um charuto. “O poder inebria. O poder é atraente pra caralho. Vejo o Lula, a Dilma, esses caras que agora estão aí na pica do saci. Eles achavam que não ia acontecer com eles, e acontece! Aconteceu comigo.”
Apesar de sempre ter sido mais próximo das legendas de centro e de direita, Delcídio ascendeu mesmo junto com o petismo. Entrou para o partido pelas mãos de José Dirceu e Lula, que buscavam quadros menos radicais e mais adequados à mensagem centrista que seria mais tarde exposta na famosa “Carta ao povo brasileiro”. Ele era, de fato, diferente do resto da turma. Filho de pai engenheiro, fora criado em São Paulo e estudara no Colégio São Luís, um dos mais tradicionais da cidade.
Com dois anos de mandato, tornou-se presidente da CPI dos Correios, indicado pelo PT. “Desde essa época eles já me chamam de traidor”, comentou. “Acharam que eu ia fazer de tudo para agradar o partido.”
A CPI dos Correios teve início em maio de 2005, com a divulgação de um vídeo em que um apadrinhado do PTB na estatal negociava propina com empresários que buscavam participar de uma licitação. No vídeo, o funcionário dizia ter o respaldo do presidente do partido, Roberto Jefferson. Acuado, Jefferson revidou denunciando um esquema de compra de votos de deputados para aprovar pautas do governo no Congresso, que ele mesmo batizou de mensalão. Não demorou para que se descobrisse que o dinheiro do mensalão vinha dos fundos de pensão, do Banco Rural e de contratos de publicidade de estatais, sempre com alguma conexão com o publicitário mineiro Marcos Valério.
Empurrada pelo noticiário, a CPI acabou encurralando o governo. De uma hora para outra, Delcídio passou a ser o homem a quem todos recorriam. “Houve muita pressão de todos os lados.” E o senador cedeu. Em sua delação premiada, contou ter adiado um prazo para a entrega de documentos do Banco Rural a pedido do governador Aécio Neves, para que os banqueiros tivessem tempo de adulterá-los. Revelou, ainda, ter atuado para tirar do relatório final da CPI os nomes de Lula e de seu filho Fábio Luís, o Lulinha.
Na noite da votação do impeachment, perguntei a Delcídio se Lula lhe fizera o pedido diretamente. “O Lula nunca me pediria isso. Ele sempre usava terceiros. E quem mais fazia esse tipo de pressão era o José Eduardo [Cardozo]. Ele me procurou um dia e disse: ‘Se botar Lula e Lulinha o troço vai virar do avesso. Vamos tumultuar tudo e essa CPI vai terminar sem relatório.’” Na mesma noite, Delcídio se encontrou com seus pares no comando da comissão e disse que retirar o nome de Lula e do filho era a única forma de fechar a CPI de forma honrosa. Havia, porém, acréscimos no texto sugeridos pelos parlamentares, que poderiam levar a uma discussão pública sobre a inclusão de Lula e Lulinha. Se isso ocorresse, a armação seria exposta. “De madrugada eu conversei com a Heloisa Helena e com o Álvaro Dias. E disse: ‘Vocês querem acabar bem essa CPI? Então tem que tirar o Lula.’ Eles concordaram.” Questionado a respeito pela piauí, Cardozo disse que nunca pressionou Delcídio, e que as brigas que tiveram na CPI tinham outras razões. No dia 5 de abril de 2006, a CPI dos Correios aprovou um relatório reconhecendo a existência do mensalão e recomendando o indiciamento de 115 pessoas, entre eles dezenove deputados. Nem Lula e nem Lulinha estavam na lista.
No auge da pressão durante a CPI dos Correios, Delcídio descobriu um grampo no apartamento do hotel onde morava. “Algumas coisas que eu falava dentro do apartamento vazavam. Por exemplo, quando o Duda Mendonça foi pedir pelo amor de Deus para ser denunciado só por evasão de divisas e não por corrupção – e era isso mesmo, porque ele não deu dinheiro para ninguém, só recebeu. E a história vazou. Como, se só tinha eu e ele?” Delcídio contratou uma equipe para fazer uma varredura, que achou escutas escondidas entre os livros, embaixo da cabeceira e na lâmpada do abajur. Até hoje ele tem certeza de que quem plantou os grampos foi gente do PT. “Eram eles, com certeza. Agora mesmo, estão loucos para me pegar. Não conseguem. Porque eu não sou nenhum santo, mas dinheiro para a política eu acertava direto com as empresas. Estão achando que eu precisava nomear diretor disso e daquilo para conseguir dinheiro para a política? Não! Eu conversava com Marcelo (Odebrecht), com Emílio (Odebrecht), com o Vitor Hallack na Camargo [Corrêa]… Eu conversava com o Ricardo Pessoa [da UTC], com o [lobista] Julio Camargo, com o [José] Antunes [Sobrinho, da Engevix]… não tem essa de ‘Ah, você me faz um negócio aqui que eu te dou isso ali.’ Porra nenhuma! Esses caras eu ajudei minha vida inteira.”
A sessão na Câmara ficava cada vez mais barulhenta. “Um filho seu não foge à luta!”, gritou um deputado ao microfone. O senador olhou para a tela, meio enfastiado. “São uns idiotas, uns hipócritas.”
Durante a CPI, um episódio foi decisivo para comprometer o relacionamento de Delcídio com o PT e com Lula. E, já daquela vez, tinha a ver com a compra de silêncio. No início de 2006, o senador jantou com Marcos Valério na casa de uma assessora da CPI. O publicitário se queixou: estava sofrendo muito, a mulher havia tentado se matar, os filhos haviam saído da escola e a família estava sem dinheiro. E disse que o PT precisava pagar o que lhe devia. Nas contas do publicitário, eram 220 milhões de reais – usados no caixa dois de campanhas petistas e no mensalão. Valério disse ainda que havia conversado em Belo Horizonte com Paulo Okamotto, homem de confiança de Lula, e que ele admitira a dívida e garantira “honrar o compromisso”. Até então, porém, nada acontecera. Valério foi claro: sem pagamento, “se as coisas estão ruins, vão piorar mais ainda”.
Delcídio prometeu resolver o assunto. No dia seguinte, procurou Okamotto. “Eu me encontrei com uma pessoa com quem você esteve em Belo Horizonte e a quem você prometeu algo. Você tem que cumprir.” Okamotto lhe disse que tomaria providências. No mesmo dia, o senador esteve com Lula, numa conversa sem testemunhas, no Palácio do Planalto. “Eu conversei com o Marcos Valério e acabo de sair do gabinete do interlocutor que o senhor enviou a Belo Horizonte. Quando se assume um compromisso, este tem que ser cumprido ou negociado. Se as coisas não andarem, o quadro que já está ruim vai ficar pior ainda.” Segundo Delcídio, Lula ficou “branco”, olhando a paisagem pela parede envidraçada do palácio, sem dizer palavra. O senador afirmou que sua missão estava cumprida e saiu. “Nunca mais falamos no assunto.”
Mais tarde, Delcídio ouviu de empresários hoje acusados de envolvimento com o petrolão que o PT havia dado a Valério cerca de 110 milhões de reais. “Um deles, inclusive, foi orientado a depositar dinheiro em uma conta no exterior e só depois descobriu que a conta era do Marcos Valério.” (Ao longo daquele período, antes de dormir Delcídio contava para um gravador os fatos do dia. Com o conteúdo dos áudios, ele cogita escrever um livro. Tempos depois, o senador relatou a um amigo a conversa com Lula.) “Esse amigo me disse: ‘Você se fodeu. Virou detentor de um segredo que não estava autorizado a ter.’ Era verdade. Mesmo anos depois, senti que o Lula não havia me perdoado.” Só com a eleição de Dilma eles voltariam a se aproximar.
A votação na Câmara caminhava para o final. Na tevê, a deputada evangélica Tia Eron, do PRB da Bahia, dava seu voto pelo impeachment, balançando uma bandeira brasileira. Do lado de fora, fazia um frio de rachar. Os parentes haviam debandado. No pub particular, só o senador, a mãe dele e eu. Àquela altura, Dilma não tinha mais chance. Delcídio foi ficando cada vez mais quieto, os olhos grudados na tevê. O que ele achava que ia acontecer a Lula? “Acabou. O Lula acabou. Ele abraçou a Dilma no momento errado. Tinha de ter entrado no governo em junho passado. Mas não, ele achava que não era digno dele”, disse, aparentando abatimento diante do espetáculo que se desenrolava na tevê.
A ideia de Lula virar ministro de Dilma foi discutida no PT durante meses e, segundo Delcídio, estava diretamente relacionada ao avanço da Lava Jato. Mas, durante todo o ano de 2015, mesmo com as delações premiadas e o apoio dos tribunais superiores, a operação era um tabu no Palácio do Planalto. Em uma das reuniões de segunda-feira entre a presidente e a coordenação do governo, Delcídio perguntou se ninguém iria discutir os impactos políticos e a estratégia do governo para lidar com a operação. Silêncio sepulcral. “Nos anos 60, havia um bar muito famoso no Rio de Janeiro chamado Zeppelin. Naquela época, tudo era normal. Um dia entrou no bar um sujeito vestido com um escafandro. Sentou-se, bebeu, dançou com a namorada, e ninguém falava nada. O petrolão no PT era exatamente a situação do sujeito vestido de escafandro dentro do Zeppelin. Todo mundo sabia, todo mundo via, mas ninguém falava nada.”
No final de 2015, Lula ainda teria passado a Delcídio mais uma missão: derrubar a convocação de duas pessoas para depor na CPI do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, o Carf. A comissão estava apurando um esquema de propinas que vigoraria no conselho, responsável por julgar recursos às multas impostas pela Receita Federal. Lula marcou um encontro com o senador num hangar do aeroporto de Brasília e lhe pediu para barrar os depoimentos do lobista Mauro Marcondes e de sua mulher, Cristina Mautoni. O lobista havia sido preso em outubro, na Operação Zelotes da Polícia Federal, acusado de intermediar propinas para livrar empresas de multas. Teria repassado 2,4 milhões de reais a Luís Cláudio Lula da Silva, por uma consultoria que este não conseguia comprovar. Marcondes ainda era suspeito de ter comprado uma medida provisória no governo do petista. Sua mulher era sócia na empresa de lobby. “O Lula me disse: ‘Eles não podem ser convocados.’ Eu falei, vou chamar a tropa de choque e derrubar o que estiver ali. Ele só queria saber dos dois. Mas os outros líderes tinham outras agendas, então derrubamos um monte de requerimentos.” Por intermédio do Instituto Lula, o ex-presidente afirmou que são mentirosas as histórias a seu respeito incluídas pelo senador em sua delação premiada.
Mesmo depois de todas as missões que afirma ter cumprido para Lula, Delcídio diz que nunca se considerou amigo do ex-presidente. “O Lula é ele, usa as pessoas. A gente se ilude porque ele é cativante. Só que o Lula não gosta de ninguém. O Lula só gosta dele.”
Delcídio ainda estava no primeiro uísque quando começou a analisar o processo pelo qual Dilma cavou a própria cova. “Hoje eu vejo o Eduardo Cunha aí. Eu dizia, Dilma, recebe o Eduardo, chama ele para o Palácio do Alvorada, para uma conversa privada. E ela: ‘Não! Com ele é só no Planalto.’ Ela faz política com o fígado.” Os votos foram se sucedendo, as doses de uísque também, a conversa tangenciava temas e personagens diversos, mas sempre voltava a Lula e Dilma. Por volta das oito da noite, no momento em que a bancada do Maranhão declarava seus votos, Delcídio foi buscar um charuto. “O Lula foi pedir apoio para o Sarney, e ele disse: ‘Se fosse para você, tudo bem. Para a Dilma, não.’” Disse não ter dúvidas de que Dilma seria afastada. Pela manhã, ouvira de Eliseu Padilha, um dos principais articuladores de Michel Temer, que já eram 357 os votos pelo impeachment. O placar final da Câmara registraria, horas depois, 367.
Embora no exílio, o senador passava o tempo todo ao telefone, quando não recebendo pessoalmente políticos e empresários, naquele mesmo pub vermelho. “O Sarney, para Dilma, não passa de um político provinciano. Ela se acha muito diferente, superior a todo mundo. Se ela vivesse na Europa tudo bem. Mas nós vivemos no Brasil! O que ela tinha que fazer? Trazer os caras para perto, depois dar o rumo das coisas e ir cortando o espaço deles. Não, ela assumiu a briga de frente. O resultado está aí.”
Delcídio repassou, então, seu relacionamento com a presidente. Logo depois das eleições de 2014, ele, Dilma e Mercadante (então o ministro da Casa Civil) tiveram uma reunião. “Eu expliquei didaticamente que a Lava Jato ia acabar chegando no governo. Era preciso soltar algumas pessoas, acabar com alguns inquéritos. Se fosse o Fernando Henrique, quando prenderam o Paulo Roberto (Costa) acabava a investigação. Porque os tucanos sabem se movimentar. Nisso eles são bons.” Ao final daquela conversa a três, Dilma lhe pareceu convencida. Mas não durou muito. “Meu erro foi deixar o Mercadante ouvir. Quando eu fui embora ele desconstruiu tudo. Ele disse: ‘O Delcídio está defendendo empreiteiro, os ex-colegas dele lá na Petrobras, a classe política… Deixa correr! Você vai sair fortalecida e com a imagem de quem combateu a corrupção.’” O senador fez uma pausa, e a seguir disse: “Eles não estavam nem aí para o seu Lula. Na cabeça deles, o segundo mandato seria a desvinculação total.” Depois me olhou com um ar meio divertido e arregalou os olhos: “Pois é. E agora?” Perguntei se o fato de a Dilma evitar os corruptos não contava a favor dela. “O problema é o porquê. Ela agiu por soberba. Pensava que iria sair limpa. E só quando percebeu que o troço estava começando a chegar perto foi que tentou se envolver.”
A certa altura da votação, perguntei se ele preferia estar lá, na Câmara. “Claro! Esse é o jogo que eu sei jogar. E jogo como poucos. Eu sei o que precisa cada um”, disse ele, assim mesmo, no presente. “Enquanto eu estava na liderança do governo, não perdemos nenhuma votação. Quando fui preso, caminhávamos para sair da lama e votar o ajuste fiscal. Tem de ser muito incompetente para deixar a coisa chegar a esse ponto.”
“Vamos dar um pulo em São Paulo”, propôs Renan Calheiros. Era uma sexta-feira, 17 de julho de 2015. “Vamos conversar com o presidente Lula, ele está passando por uma situação difícil, está numa tensão danada, vamos lá dar uma força para ele.” Delcídio topou. Calheiros chamou Edison Lobão e os três embarcaram num jatinho particular. O senador afirmou ao Ministério Público que o valor da viagem, 51 mil reais, foi rachado entre os três – a sua parte, paga em cheque. Chegaram ao Instituto Lula no início da noite. Acompanhado de Okamotto, o ex-presidente lhes ofereceu uísque. O cerne da conversa – mais uma vez – era a Lava Jato. Lula queria ajuda para montar um núcleo de gestão de crise no Senado – para acompanhar a operação e dar alguma resposta à nação. O ex-presidente já teria tentado convencer Dilma da oportunidade do grupo, sem sucesso. Os senadores ouviram, aparentemente concordaram, mas a ideia não prosperaria. “Era claro que não íamos fazer. Até porque estava todo mundo muito fragilizado. O Renan mesmo nunca comandaria um grupo desses no Senado, até pelo momento que ele vive”, disse Delcídio aos procuradores.
Quando a trinca embarcou de novo no jatinho, às dez e meia da noite, a conversa se fixou naquilo que impressionara a todos na visita: o desamparo, a fragilidade e a angústia do ex-presidente. “Não era só o abatimento dele, mas a situação. Um cara que foi um puta de um presidente e saiu com 82% de aprovação, vulnerável daquele jeito, com uma sucessora que não o defendia. Os três pensávamos: ‘Que merda, onde é que nós chegamos!’”, lembrou Delcídio, no final de abril.
Talvez não fosse a reação esperada por Lula, mas Dilma e seu grupo mais próximo – que incluía Delcídio, o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo e o advogado Luiz Carlos Sigmaringa Seixas, que a presidente chamava de “Old Man” –, já vinham discutindo como influir no Judiciário para “soltar algumas pessoas”. No dia seguinte à conversa com Lula, um sábado, Dilma chamou Delcídio ao Alvorada. Fazia exatamente uma semana que ela se encontrara com o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, numa escala de viagem internacional na cidade do Porto.
Mais tarde, Delcídio soube que a iniciativa havia sido um desastre de cabo a rabo. Primeiro, porque era para ser uma reunião secreta, mas a imprensa descobriu e começou a especular. O governo tentou disfarçar, o assunto seria o reajuste do Judiciário, mas não colou. Não bastasse, Dilma teve frustrado seu desejo de falar também com Teori Zavascki, o relator do petrolão – o ministro inventou uma desculpa e não apareceu. Dilma teria pedido a Lewandowski que a ajudasse a obter alguns habeas corpus na Corte.
Em sua delação, Delcídio disse que não foram citados nomes específicos, mas subentendia-se que Marcelo Odebrecht e Otávio Azevedo, principal executivo preso da construtora Andrade Gutierrez, estariam entre os que deveriam ser soltos. Lewandowski, porém, disse não. De volta ao Brasil, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo detalhou a Delcídio o encontro. “Segundo ele, a conversa foi deserta. O Lewandowski chegou a dizer que tinha se desgastado muito na época do mensalão, tinha sido até hostilizado em São Paulo, e não ia se meter na Lava Jato.”
O governo, então, tirou da manga o plano B: tentar uma operação no Superior Tribunal de Justiça, que vinha recusando pedidos de habeas corpus de réus da Lava Jato. Era sobre isso que Dilma queria falar quando chamou Delcídio para uma conversa naquele sábado, num final de tarde ensolarado. Era preciso nomear um novo ministro para o STJ, justo na vaga ocupada pelo relator da Lava Jato. A presidente queria escolher alguém que tivesse “compromisso com o governo”. O preferido de Cardozo era o desembargador potiguar Marcelo Navarro, ligado ao presidente do STJ, Francisco Falcão. Mas Dilma estava em dúvida. “Ela queria ter firmeza quanto à fidelidade do Navarro”, explica Delcídio. “Era o trauma do mensalão, quando nomearam o Fux pensando que ele ia votar com o governo e se ferraram. Eu disse: ‘Olha, eu tenho estado com ele sistematicamente. Se quiser, eu falo com ele.’ E ela me autorizou, e ainda disse: ‘Tem de olhar no olho dele!’”
Nos diversos encontros que teve com Delcídio, Navarro disse ter clareza do que deveria fazer. “Tenho ciência dos compromissos assumidos”, afirmou, segundo o senador. Dias depois, ao dar a notícia a Cardozo, Delcídio ouviu: “Eu sei que a conversa foi boa, o Falcão me falou.” O ministro da Justiça também lhe contara que o presidente do STJ prometera que, se Navarro desse o relatório favorável, ele conseguiria fazer com que outros membros o acompanhassem. “O Zé Eduardo estava muito convicto disso”, afirmou Delcídio. Navarro foi nomeado em agosto, assumiu em setembro e, em dezembro votou a favor da concessão de habeas corpus a cinco réus da Lava Jato, incluindo Odebrecht e Azevedo. Mas o resto da turma não o seguiu, e os réus continuaram presos. “O Falcão vendeu uma mercadoria que não podia entregar”, explicou Delcídio. Tanto Dilma Rousseff como José Eduardo Cardozo e os ministros Navarro e Falcão negam que os episódios contados por Delcídio tenham acontecido. Cardozo afirmou que Delcídio construiu uma história falsa utilizando-se de fatos reais (como os votos de Navarro).
Delcídio respirou fundo. Passava das onze da noite. As últimas pedras de gelo da sétima dose de uísque derretiam no copo e o segundo charuto minguava, quando ficou claro que o voto que garantiria a abertura do processo de impeachment na Câmara seria do deputado pernambucano Bruno Araújo, do PSDB. “Vai dar Bruno mesmo. É o Bruno”, disse Delcídio. Na tevê, via-se Araújo abraçado a uma bandeira de Pernambuco, de olhos marejados, esperando o coro dar trégua para votar. “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”, cantavam. Muitos seguravam cartazes com a inscrição “Tchau, querida”. Com um ar perplexo, Delcídio levou as duas mãos ao rosto. “Sabe que no final das contas eu fico… Como é que alguém joga fora um projeto? Eu tô feliz, mas… Como é que alguém é tão incompetente?”
Araújo finalmente pegou o microfone, enxugou uma lágrima e fez um breve e emocionado discurso, que terminou em um grito esganiçado: “Sim para o futuroooooo!” Delcídio disse: “Acabou.” Levantou-se e foi abraçar a mãe, que estava sentada numa poltrona do bar. “Mãe, pelo nosso sofrimento! Pelo futuro!” Os dois choraram juntos. Ao sentar-se de novo na poltrona vermelha, o senador continuou tentando definir o que sentia. “Eu tô meio apoplético. Porque eu apostei no caos. Mas nunca imaginei que veríamos um governo petista ‘impichado’.” Naquele momento, Delcídio sentia-se vitorioso. Para ele, a aprovação do processo de impeachment representava uma esperança de conseguir reverter sua provável cassação no Senado. “Depois do impeachment, o Brasil é outro. E eu fui um dos protagonistas.”
“Senhor Delcídio, eu vou falar bem honestamente para o senhor a minha opinião: se a gente for no Google, a gente pega mais coisa do que o senhor está dizendo. Então, para mim, isso aqui é uma perda enorme de tempo. É óbvio que o senhor sabe mais do que isso, porque eu sei mais do que isso. Eu vou chegar para o procurador-geral hoje e falar: ‘Se for para continuar desse jeito, é melhor nós pararmos aqui’”, exasperou-se o procurador Andrey Borges de Mendonça.
Era 11 de fevereiro de 2016, o primeiro dia de depoimentos da colaboração premiada do senador. Passava das nove da noite, Delcídio falava havia cinco horas e os procuradores estavam irritados. As negociações para a delação haviam sido cheias de idas e vindas. Delcídio fizera uma série de exigências, todas atendidas. Contudo, no dia e hora marcados para o primeiro depoimento, com todo o aparato da PF mobilizado para levá-lo a um local insuspeito e transportá-lo sem que fosse identificado, ele se recusou a sair da cadeia. Segundo o próprio Delcídio, não o avisaram de que os depoimentos teriam início naquele dia. “Não ia começar a depor sem me preparar.” O Ministério Público ameaçou cancelar todo o acordo, e no dia seguinte os depoimentos principiaram.
Agora, diante de dois procuradores, um delegado e uma câmera de vídeo, o senador ainda “rodeava o toco”, como ele mesmo gosta de dizer. Parceiro do procurador da República Mendonça na oitiva, o procurador Sérgio Fernandes complementou a bronca: “Senador, vamos ser claros e chamar as coisas pelos nomes. Aqui não existe projeto, não existe apoio, compromisso, não existe nada. Aqui é propina, ilicitude.” Delcídio tentou acalmá-los, argumentando que nos depoimentos seguintes diria “o que os senhores querem saber”. Ele estava seguindo um método, uma ordem, e não fugindo do assunto. Mendonça, porém, não engolia. “Nós temos mais de trinta réus colaboradores e todos falaram mais do que o senhor.” E disparou: “O senhor recebeu vantagem ilícita?” Delcídio fez cara de surpresa: “Eu? Não!” O procurador insistiu: “Nunca recebeu?” O senador também insistiu: “Não!” Mendonça ficou ainda mais impaciente: “É isso o que o senhor está dizendo? Todo mundo recebeu e o senhor nunca recebeu!”
Depois desse tranco, o diálogo fluiu. Em quatro dias, Delcídio do Amaral detalhou os bastidores da nomeação de Marcelo Navarro para o STJ, sustentou que Dilma Rousseff sabia das negociatas relativas à desastrosa aquisição da refinaria de Pasadena, contou como Lula pediu que ele derrubasse pedidos de convocação na CPI do Carf, destrinchou as manobras da CPI dos Correios, revelou o esquema de chantagem na CPI Mista da Petrobras, explicou como fora montado o esquema de corrupção na obra da Usina Hidrelétrica de Belo Monte e entregou esquemas de propina de vários caciques peemedebistas – entre eles, Calheiros, Jucá e Lobão. Reconheceu ter recebido dinheiro desviado da compra da refinaria de Pasadena para pagar despesas de campanha e ter negociado com André Esteves dinheiro para calar Cerveró. Quando os 21 depoimentos terminaram, às onze e meia da noite do dia 14 de fevereiro, havia sido produzida, afinal, “A Delação”, como os procuradores a batizaram. O senador da República que outrora habitava o cerne do governo Dilma envolvera em “ilicitudes” senadores, deputados, ministros e magistrados. Nos meses seguintes, com base nas declarações de Delcídio, o procurador-geral da República denunciou Lula e os Bumlai por participação na “Operação Bumlai” e pediu a inclusão de 33 pessoas nos inquéritos que investigam a Lava Jato – entre elas, o próprio Lula, Dilma, Cardozo e Mercadante.
Não é difícil entender por que o senador resistiu tanto. Um acordo de delação poderia lhe dar a chance de sair da cadeia e defender seu mandato. Mas, se confessasse os crimes e ainda entregasse os malfeitos de senadores, deputados e ministros, fatalmente seria cassado. A primeira lista de informações que Delcídio se propôs a dar ao Ministério Público foi considerada fraca. Segundo alguns negociadores disseram à piauí, o conteúdo da proposta só melhorou mais para o final de dezembro, quando Delcídio se convenceu de que, se não falasse, não seria solto.
Na mesma época em que o senador foi transferido da Polícia Federal para o quartel da Polícia Militar, em meados de dezembro, o ministro Zavascki mandou soltar André Esteves, mas manteve Delcídio na cadeia. “Até então, eu ainda tinha a esperança de ser solto.” Dali em diante, ele se dedicou a trabalhar com mais afinco na delação. Providenciaram-lhe um computador sem acesso a internet para a redação da proposta, bem como um aparelho de DVD – ele assistiu séries como House of Cards, Game of Thrones, Roma e Band of Brothers. Passou o Natal na prisão com as filhas, a mulher, a mãe, o irmão e a cunhada. Antes de ser solto, ainda comemoraria ali três aniversários da família: o dele, o da mulher e o de uma filha. “A gente levava um bolinho pequeno e cantava baixinho, pra não reclamarem”, lembrou a mãe do senador, Rosely Amaral.
Enquanto Delcídio negociava a delação secretamente, o processo de cassação no Senado avançava a passos de cágado. Licenciado por tempo indeterminado, o senador ainda contou com a estrutura do gabinete, com secretárias, assessores e motorista, e o salário de 33,7 mil reais. Delcídio afirmava estar quebrado – sem dinheiro para pagar os honorários de 3,5 milhões de reais da equipe de Figueiredo Basto, mais a multa de 1,5 milhão de reais imposta pelo MP como parte do acordo de delação premiada. Ele diz que, para cobrir as despesas, vendeu uma casa e mais de mil cabeças de gado de sua fazenda em Corumbá, no Pantanal sul-mato-grossense.
Delcídio tinha em mente uma sequência ideal: fazer a delação, escapar da cassação e ainda votar a favor do impeachment no Senado antes que suas revelações viessem à tona. Por isso, entre todas as condições impostas ao MP – como a de não usar tornozeleira depois de solto, por exemplo –, a mais importante e mais complexa era a de que a colaboração fosse mantida em sigilo por, pelo menos, 180 dias. Os procuradores concordaram – o processo seria incluído na chamada “tramitação oculta” do Supremo, quando não há nem registro de sua existência no sistema eletrônico da Corte. Só os procuradores, a defesa de Delcídio e o gabinete de Teori Zavascki teriam acesso a ele. Mas, com tanta gente envolvida, era impossível garantir a blindagem. Experiente no relacionamento com a imprensa, conhecedor dos mecanismos pelos quais os vazamentos se materializam, Delcídio não se iludia: dificilmente sua delação poderia se manter em segredo por seis meses. “Eu imaginava que fosse vazar, mas achava que seria pouca coisa, aqui e ali.”
Cinco dias depois de encerrados os depoimentos, em 19 de fevereiro, Zavascki mandou soltar Delcídio. Embora o acordo ainda não tivesse sido homologado, o senador poderia aguardar em liberdade. Naquela tarde, por um momento o assessor e a mulher pensaram que ele não fosse superar os 87 dias de encarceramento. Os dois apanhavam as roupas e os objetos acumulados na cela, quando um apavorado Delcídio pôs-se a protestar: “Pra onde vocês vão levar isso tudo? Não tira o lençol! Senão eu não vou ter onde dormir!” O ataque de pânico foi breve. Ao sair da cadeia, o senador já tinha uma fala ensaiada. Iria se isolar para preparar um discurso que faria na semana seguinte. “Preciso de paz”, afirmou. E rumou com a mulher para a casa do amarra-cachorro de Renan Calheiros onde ficaria hospedado antes de se transferir para a casa do irmão em São Paulo. Seu plano, agora, era defender o próprio mandato. Delcídio só não entendera ainda que, no momento em que foi preso, já não tinha mais controle do próprio destino.
Os destinos de Delcídio do Amaral e de Dilma Rousseff começaram a tomar forma na primeira quinta-feira de março. Naquela manhã, a revista IstoÉ expôs quase toda a delação do senador – suas afirmações sobre Lula, Dilma, Renan, Jucá, Aécio Neves e todos os outros. Caiu como bomba sobre o Planalto. Nas semanas anteriores, o senador dera inúmeras declarações negando qualquer acordo com o MP. Por sugestão de Vandenbergue Machado – que, meses depois, novas gravações revelariam estar agindo por orientação de Renan –, enviara uma carta pessoal a todos os colegas de Senado. “O injusto encarceramento me afastou temporariamente da convivência familiar, social e política, todavia não me exonerou da coerência e da razão”, dizia ele. Até então, o clima geral no Senado em relação a Delcídio era de condescendência. Aos repórteres, Calheiros deixava vazar que a Casa deveria empurrar o processo com a barriga pelo menos até que o Supremo o sentenciasse.
Com a delação na praça, as esperanças de Delcídio simplesmente viraram pó. Já as do governo, que dez dias antes sofrera o golpe da prisão do marqueteiro João Santana, encolheram um pouco mais. Convocaram-se reuniões de emergência no Planalto e no Senado, ministros mais próximos da presidente negaram as acusações feitas pelo ex-líder do governo. José Eduardo Cardozo – um dos que, segundo a delação do senador, mais conspirava com ele contra a Lava Jato –, devolveu os petardos, isentando-se de culpa: “Ele vinha quase diariamente tratar de vários assuntos. Dizia para eu tomar providências sobre a Lava Jato: ‘Temos que ver o que está ocorrendo. Réus estão sendo pressionados a fazer delação. Tem que falar com o [Rodrigo] Janot, com Teori.’ E eu respondia: ‘Delcídio, representa (oficialmente), meu filho.’ Depois eu vi que ele estava é defendendo sua sobrevivência.” À piauí, ele completou: “O Delcídio só falava e só pensava em Lava Jato.”
Em meio à tormenta, Delcídio “mergulhou”, como ele mesmo definiu. Passou um tempo quieto, assimilando o golpe. Quando o visitei pela primeira vez, em São Paulo, um mês depois da quinta-feira fatídica, ele já havia virado a chave. Discorria animadamente sobre os bastidores da delação e as dificuldades do governo, ao som de uma trilha de blues e rock’n’roll que saía da jukebox do pub transformado em bunker. Em 13 de março, fora à manifestação na avenida Paulista contra o governo, na garupa da Harley-Davidson do irmão. Circulara rapidamente nas franjas da avenida, sem tirar o capacete, e se convencera de duas coisas: o impeachment seria a salvação de seu mandato, e ele dera uma grande contribuição ao país.
Preparava-se para uma cirurgia de retirada de pedras na vesícula e pólipos do intestino, o que lhe garantiria um período extra de licença do Senado, e passava a maior parte do tempo ao telefone. Não parou de receber visitas de advogados, empresários e políticos. Um deles foi o ex-senador Jorge Bornhausen, amigo desde os tempos de Eletrosul. “Ele me disse: ‘É, você bateu duro no Senado Federal.’ E eu respondi: ‘Bati mesmo. O que foi que o Senado fez comigo quando eu fui preso?! Caras que eu ajudei para cacete. Agora dizem, ah, não, eu vou cassar o Delcídio. Mas cassar a troco de quê? Eu estou denunciado por obstrução, não por desvio de dinheiro. E os que estão, não vai acontecer nada com eles?’”
Embora afirmasse ter certeza de que seria cassado, o senador continuaria lutando pelo mandato até o final. Mesmo que, para isso, precisasse apelar. “Olha, Jorge, você me conhece. Você sabe o que eu sei. Se eu resolver virar os arreios, vamos ver o que vai acontecer lá dentro.” Ao presidente do Conselho de Ética, o senador peemedebista João Alberto Souza, um dos mais fiéis aliados de Calheiros, o recado foi mais direto. Numa conversa ao telefone, Delcídio pediu que o depoimento fosse adiado, e ouviu que ele nem seria necessário. “Eu respondi: ‘João, falar pra mim isso, como se eu fosse um novato?! Eu tenho treze anos de Senado!’” Souza sustentou ser apenas um moderador, e ele perdeu a paciência. “João, você não é moderador de nada, João… Eu sei do seu papel. Você era do conselho quando nós íamos cassar o Sarney, lembra? Então você pode dizer para outras pessoas que tem papel moderador. Não para mim!” A conversa ainda durou o suficiente para que ele dissesse ao colega: “Vocês não vão acabar com a minha história. Agora, se eu for aí, eu tenho capacidade de acabar com a história de muita gente.” Depois disso, Delcídio apresentou novos atestados médicos, e o conselho prorrogou por mais uns dias o prazo para o depoimento. Para ele, o melhor seria só comparecer ao Parlamento depois do impeachment. A agenda do Senado, porém, era outra.
O plenário da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania estava cheio para ouvir Delcídio falar na tarde de 9 de maio – o que era um feito, pois, embora fosse a primeira vez que ele comparecia à antiga casa desde a prisão, Brasília estava em polvorosa. Eduardo Cunha havia sido afastado, e o presidente da Câmara, Waldir Maranhão, anulara a sessão que aprovara o processo de impeachment quando faltavam apenas dois dias para a votação no próprio Senado. Enquanto Calheiros desancava Maranhão no plenário e mantinha o cronograma do impeachment, Delcídio falava na comissão. Os governistas da CCJ se revezavam entre um evento e outro. A comissão estava reunida para votar pelo envio do pedido de cassação – aprovado previamente no Conselho de Ética – ao plenário. Era, portanto, a última chance de Delcídio adiar a cassação. Daí ele ter passado as últimas semanas em frenéticas articulações telefônicas. Procurou senadores de todos os partidos, ouviu frases simpáticas, mas foi no PSDB que encontrou guarida.
Os caciques tucanos tinham suas razões para lhe dar sobrevida – seria útil e simbólico ter o ex-líder do governo discursando contra Dilma na votação do impeachment. Pretendiam, também, proteger-se, já que Delcídio vinha sugerindo adicionar novas informações à delação. Mas precisavam driblar a ira de Aécio Neves. Logo após a prisão de Delcídio, Aécio havia dito que o senador petista se comportava como “chefe de máfia”. Agora, não o perdoava por tê-lo incluído em sua delação. Em busca de boa vontade, Delcídio passou a dizer que suas declarações sobre o mineiro eram só “de ouvir falar”. Fizera um gesto. Agora era a vez dos tucanos.
“Quero, primeiro, pedir desculpas por aquilo que causei, pelos constrangimentos que causei, não só aos senadores e senadoras, mas, especialmente, ao povo brasileiro e ao povo do meu estado”, disse Delcídio, mal segurando as lágrimas. “Peço desculpas, errei, agi a mando.” A cassação, sustentou, era uma pena grave demais para a falta que cometera. Além do mais, disse, seu processo no STF tinha fatos novos, que a comissão deveria conhecer antes de tomar uma decisão. O tucano Aloysio Nunes pegou a deixa e perguntou ao advogado de Delcídio se os acréscimos ao processo alterariam o julgamento. A defesa afirmou que sim. Nunes então sugeriu que o processo fosse suspenso até que a comissão tivesse acesso aos novos documentos.
Era aquela a manobra que poderia reverter a situação de Delcídio, a ser definida só depois do impeachment. Quase deu certo. Como os governistas mais aguerridos não estavam presentes, o debate foi dominado pela oposição, que se manifestava em peso a favor da protelação. Aflito com o rumo que a coisa tomava, o vice-líder do governo Telmário Mota, responsável pelo relatório do Conselho de Ética pela cassação, correu ao plenário para falar com Renan Calheiros. No dia seguinte, em seu gabinete, o próprio Mota me contou o ocorrido. “Eu corri lá e disse: ‘Renan, não dá! Vão segurar o cara, aprovando uma coisa que não tem nada a ver!’” Calheiros respondeu: “É a porra desse PSDB!” “Então tome providências”, disse o primeiro.
Naquele momento, a CCJ aprovou a suspensão do processo. Delcídio deixou vitorioso a sala da comissão, rindo e brincando com os jornalistas. Deu entrevista e saiu pelos corredores, cercado por um séquito de advogados, assessores e seguranças. Era a última vez que experimentava a sensação daquele ritual tão característico do poder.
Logo ao entrar no elevador, o petista ouviu do assessor de imprensa: “O Renan está dizendo no plenário que só vota o impeachment depois da sua cassação.” Ele franziu a testa. Ao chegar ao gabinete, viu que sua breve vitória já era uma lembrança. A TV Senado mostrava uma discussão acalorada entre Calheiros e Aloysio Nunes. De rosto vermelho, alterado, o presidente do Senado queria reverter a decisão tomada na comissão, e seu interlocutor afirmava que só estava garantindo o direito de defesa. “Nós não podemos deixar o processo legislativo entregue à manobra para delongar julgamento!” E ameaçou: “Se esta Casa procrastinar, como procrastinou a outra Casa, não vai contar com minha boa vontade de marcar a sessão de quarta-feira [do impeachment].” O peemedebista Romero Jucá, aliado de Renan, sugeriu rever a decisão da CCJ em regime de urgência. E assim se fez. Em poucos minutos a decisão foi derrubada. No dia seguinte, 10 de maio, Delcídio foi cassado por 74 votos a 0. Apenas um senador se absteve.
De volta à casa do irmão, em São Paulo, ele evitou assistir à sessão. Preferiu ver Homeland, sua nova série preferida. Sua mulher, em outro quarto, de vez em quando vinha dar notícias. Quando telefonei, naquela noite, ele me disse: “Eu sabia que isso ia acontecer. No fundo, é até um alívio.” E, desde então, passou a se referir a Renan Calheiros como “o Cangaceiro”.
Dez dias depois, encontrei Delcídio mais uma vez. Naquela manhã, a Folha de S.Paulo havia publicado o conteúdo das gravações em que Jucá, ministro do Planejamento recém-empossado do ainda interino governo Temer, discutia com o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, como se proteger do juiz Sergio Moro e “delimitar” a Lava Jato. O autor da gravação era o próprio Machado – até então tido como amarra-cachorro de Calheiros, Jucá e Sarney. Encurralado pela operação, que descobrira contas suas no exterior, Machado negociava ele próprio uma delação premiada. Agora ex-senador, privado de direitos políticos por 11 anos, Delcídio reagiu com ironia: “Olha, eu estou deprimido, viu? Coitados…”, disse. “É exatamente o que aconteceu comigo. Mas convenhamos, perto disso, o meu caso é a Disney!”
Naquele dia o telefone tocou o tempo todo. Eram advogados, jornalistas e ex-assessores, agora comentando o imbróglio Jucá. Embora saboreando a vingança, Delcídio sentia o baque de ter que se acostumar à nova situação. Entre as chamadas, algumas eram de funcionários de sua fazenda, pedindo remédios e instruções sobre como lidar com o gado.
O ex-senador voltaria nos próximos dias ao Pantanal e, em algum momento, passaria a prestar serviços à comunidade. Pelo acordo de delação, agora que está sem mandato, ele deve ser obrigado a usar tornozeleira eletrônica. Seu processo passa à jurisdição de Sérgio Moro. Delcídio também pretendia atender a um pedido da família: parar de dar entrevistas. Mal nos separamos, porém, ele falou com uma repórter do Estadão, a quem declarou que a gravação mostrava “um estado de obstrução de Justiça institucionalizada”. “Uma obstrução de Justiça em cima de um pacto que passa pelo afastamento de uma presidente, isso é muito grave!”, completou, pouco antes de chamar Romero Jucá de “Romero, o Breve”. Ao ler a entrevista, lembrei-me de uma frase que ele disse numa de nossas conversas: “A política é a única atividade em que o cara ressuscita mais de uma vez.”
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