Dalton Trevisan em sua antiga casa, na Rua Ubaldino do Amaral, em desenho de Poty: o escritor preferia trabalhar na edícula que mandou construir no quintal e que chamava de “cabana” CRÉDITO: POTY_1992
O vampiro no apartamento
O escritor Dalton Trevisan, que faz 99 anos neste mês, organiza sua vasta correspondência e prepara novas edições de seus contos
Leonardo Fuhrmann | Edição 213, Junho 2024
Na esquina das ruas Ubaldino do Amaral e Amintas de Barros fica a casa mais célebre e misteriosa de Curitiba. Tem 250 m², desenho arquitetônico muito modesto, paredes externas pintadas de branco, já encardidas e descascadas. A porta é antiga, as janelas decaídas, o muro surrado, tudo conferindo ao lugar uma aparência de abandono. Foi nessa casa que morou o escritor Dalton Trevisan, homem avesso a entrevistas, fotos e visitas, mas que hospedava com prazer em seu vasto quintal um bando de agitados passarinhos.
A casa é uma das raras construções da década de 1920 que sobraram no bairro Alto da Glória. Foi originalmente erguida para ser um galpão de secos e molhados. Passou por uma reforma e ganhou ares de residência, de início composta apenas de sala, cozinha e sótão, onde havia um quarto. Mais tarde, em outra reforma, foram construídos outro quarto, um banheiro e uma segunda sala. Foi assim que o escritor a encontrou quando se mudou para lá em 1953, logo depois de seu casamento. Com 28 anos, ele já havia lançado dois livros: a novela Sonata ao luar, em 1945, e a coletânea de contos Sete anos de pastor, em 1948 – obras que renegou até o ano passado.
Curiosamente, o escritor tão arredio viveu durante 68 anos em uma casa construída na linha da calçada, com quatro janelas de madeira e vidro que dão diretamente para a rua. O que não quer dizer que ele costumasse abrir as janelas. A aparência de abandono adquirida ao longo dos anos ajudou a reforçar a imagem de Trevisan como “o vampiro de Curitiba”, epíteto que herdou de um personagem seu, do livro homônimo publicado em 1965. Ele nunca se incomodou muito com reformas na casa, que era frequentada por raros amigos.
Admirador da obra de Trevisan, o escritor argentino Cesar Aira conta à piauí que chegou a escalar o muro da casa quando esteve em Curitiba, em 2003. Ele foi levado até lá pelo autor paranaense Wilson Bueno (1949-2010), de quem era amigo. “Como o muro não era muito alto, consegui subir e espiar”, recorda Aira. “A grama estava bem cortada e havia um homem. Eu o vi por apenas um momento. Seria o Dalton? Ou o jardineiro? Eu nunca soube. Ou o Wilson, que era um grande brincalhão, me levou a uma casa qualquer? Nunca saberei. Mas é assim que deve ser, porque grandes escritores estão sempre cercados de mistério.” Foi em meados dos anos 1970 que Aira começou a ler os contos de Trevisan, de quem guarda “entre trinta e quarenta livros” na sua biblioteca. “Admiro sua prosa absurda, antídoto para tanto barroquismo inútil, sua desconfiança no casamento e seu amor pela humanidade”, diz.
Trevisan não deixou a reclusão nem para receber o Prêmio Camões, o mais importante em língua portuguesa, que ganhou em 2012. Foi representado em Lisboa pela editora Sônia Jardim – então vice-presidente e hoje presidente do Grupo Editorial Record – que leu o agradecimento escrito por ele. “Os muitos anos, ai de mim, já me impedem de receber pessoalmente o prêmio”, ele justificou no texto. Estava com 87 anos.
Depois de uma década e pouco, ele continua trabalhando na edição de novos livros e na organização de sua volumosa correspondência. E passará seu aniversário, em 14 de junho, na sua nova residência: um apartamento de 120 m² na Alameda Doutor Muricy, para onde se mudou em 2021. O imóvel está situado em uma das regiões mais agitadas do Centro de Curitiba, uma área onde predominam edifícios construídos nos anos 1960 e 1970 para a classe média e, cuja configuração arquitetônica é em geral a mesma: sem garagens, com lojas no térreo.
O apartamento fica no mesmo prédio de quinze andares onde vive, em outra unidade, Fabiana Faversani, amiga e assistente do escritor, que o tem ajudado nas edições de livros e na organização de seu acervo. Antes da mudança, o imóvel passou por adaptações para abrigar o novo morador, que está fazendo 99 anos.
Trevisan conheceu Faversani quando ela tinha entre 17 e 18 anos, e trabalhava como vendedora na Livraria do Chain. Durante suas caminhadas, o escritor sempre parava no estabelecimento de Aramis Chain, dava uma espiada nos livros recém-lançados, conversava com os funcionários e apanhava os recados, cartas e livros que chegavam para ele no estabelecimento, que funcionou durante muitos anos como sua “caixa postal”.
Apaixonada por cinema, Faversani gostava de conversar com aquele cliente que carregava vários DVDs alugados numa locadora próxima e estava sempre disposto a ouvir as histórias dos funcionários. As primeiras conversas dos dois foram sobre filmes. Depois, eles passaram a falar de literatura e artes. “Eu não sabia quem ele era até que me deu seus livros”, diz Faversani, que mais tarde fez as faculdades de artes plásticas e letras. Quando ela decidiu deixar o emprego na livraria, em 2005, Trevisan a convidou para trabalhar no seu acervo e na edição dos livros. Ela também passou a ajudá-lo com problemas mais imediatos.
Para o novo apartamento, Trevisan levou sua biblioteca, composta por cerca de 3 mil livros, a maioria com marginálias (anotações feitas na margem das páginas). Ele também conservou edições e reedições de suas obras, nas quais anotou uma série de emendas, uma vez que costumava, e ainda costuma, fazer ajustes sucessivos nos textos, mesmo depois de editados. “Só para a Antologia pessoal, lançada em abril do ano passado, a gente já mandou oitenta emendas dele para a editora”, diz Faversani.
Como Trevisan sai pouco de casa, uma das atividades de Faversani é fazer para ele relatos detalhados de tudo aquilo que ela vê e ouve nas ruas. O escritor, que foi crítico de cinema na juventude, também gosta de assistir a filmes no streaming ou na tevê por assinatura, o que faz quase diariamente. Assim como gosta de reler os livros prediletos, revê várias vezes alguns filmes, em busca de detalhes e curiosidades. “O Dalton continua muito atento e curioso. Recentemente, vimos um documentário sobre a Laerte, de quem ele é fã, e ele me fez muitas perguntas sobre questões de gênero”, conta a amiga.
Documentários sobre política, literatura e artes visuais são uma paixão do autor. Entre os filmes de ficção, Trevisan prefere os faroestes e os clássicos italianos de Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Ettore Scola e outros. “Ele adora rever Parente é serpente, do Mario Monicelli, e Feios Sujos e Malvados, do Ettore Scola. São hoje os seus filmes favoritos.” Nos últimos anos, o escritor tomou gosto pelo cinema argentino e pelos filmes dos irmãos Joel e Ethan Coen. Também apreciou A mula, de Clint Eastwood.
A mudança acabou sendo um pretexto para Trevisan e Faversani não apenas reorganizarem a biblioteca, mas também vasculharem o acervo de escritos.
Durante boa parte da vida, ele manteve diários, nos quais, porém, não registrava momentos de sua vida. Em vez disso, anotava histórias que via e ouvia, cenas de filmes e passagens de livros que chamavam a sua atenção e poderiam servir a um futuro conto. Os diários encadernados começam em 1947 e vão até 1978. Daí em diante, as anotações foram feitas em folhas datilografadas ou no computador. “Será possível, em alguns casos, refazer a trajetória completa de criação de um conto, consultando as anotações do diário, além das edições e reedições que estão preservadas com as emendas, passando assim por diferentes versões do texto”, garante Faversani.
Trevisan também preservou centenas de cartas trocadas com amigos, tradutores e críticos desde a década de 1940. Como era comum entre os escritores de sua geração, ele guardou tanto as cartas que recebeu como a cópia feita com papel carbono das que enviou. Não está prevista, no momento, a publicação dessas cartas.
A correspondência trocada com o escritor e jornalista mineiro Otto Lara Resende (1922-92), da qual Trevisan guardou cerca de seiscentas cartas, é a mais volumosa do seu acervo. Os dois foram apresentados em 1955 por Fernando Sabino (1923-2004), quando Trevisan foi ao Rio de Janeiro resolver pendências com a editora José Olympio, que publicaria Novelas nada exemplares, o livro que o projetou nacionalmente. A partir de então, sempre que ia ao Rio, Trevisan se encontrava com o grupo de escritores mineiros: Sabino, Lara Resende, Paulo Mendes Campos (1922-91) e Hélio Pellegrino (1924-88).
No mesmo ano em que se conheceram, Trevisan e Lara Resende iniciaram a correspondência – e foram pouco a pouco estreitando a amizade. “Otto, meu caro, como não tenho a quem contar, em Curitiba, a alegria da minha descoberta de Tolstói, escrevo para você, longe mas perto. Tardia descoberta, nem por isso menos alegre descoberta”, contou Trevisan em uma carta de 1958, quando tinha 33 anos. “Você é um ruminante do estilo, mastiga dez vezes antes de engolir e assim mesmo engole para um primeiro estômago, depois tem outro estômago – trabalha a peça como quem lapida uma pedra bruta”, escreveu Lara Resende em uma carta de 1959. Trevisan preferia falar sobre livros, trocar ideias sobre o que estava escrevendo e manifestar suas angústias como escritor. Lara Resende se abria mais nas cartas, contando algumas situações de sua vida cotidiana.
“O comportamento reservado do Dalton era o oposto do Otto, que se expunha muito para os amigos”, afirma a pesquisadora Elvia Bezerra, que está organizando um volume de 100 cartas do escritor mineiro para a Companhia das Letras – Trevisan é o destinatário de 28 delas. A pesquisadora diz que os dois autores, apesar de terem estilos muito diferentes, encontraram na conversa franca sobre a escrita um ponto de convergência para uma amizade que ia além das cartas. As conversas, diz Bezerra, mostram até mesmo certa dependência de um ao outro, principalmente nas discussões sobre textos inéditos.
Foi por intermédio de Lara Resende que Trevisan conheceu o cronista Rubem Braga (1913-90), que era próximo do grupo de escritores mineiros. Nascido em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, Braga viveu uma parte da juventude em Belo Horizonte, onde se formou em direito e exerceu o jornalismo, antes de se fixar no Rio. Nas suas visitas a esta cidade, Trevisan costumava participar dos encontros da turma na cobertura de Braga em Ipanema. Os dois tinham em comum, além do amor pela literatura, a paixão por aves. O contista de Curitiba chegou a mandar casas de passarinhos para o cronista no Rio, como revela uma carta de 1984: “Só ontem achei e hoje seguem pela Varig duas casinhas (não as obras de arte do meu tio Primo), como convém à modéstia das nossas cambaxirras.” Na crônica Conversa sobre passarinhos, publicada na Revista Nacional em 1989, Braga sugere a eleição de um pássaro como símbolo nacional e cita o amigo: “Proponho ao meu amigo Dalton Trevisan, em cujos contos curitibanos sempre chilreia uma corruíra, a candidatura desse alegre e vivo passarinho que aqui se chama cambaxirra.”
Na biografia Rubem Braga: um cigano fazendeiro do ar, Marco Antonio de Carvalho conta sobre uma viagem que Braga fez a Curitiba e o almoço que teve com Trevisan. Quando lhe perguntaram sobre o que os dois conversaram, Braga respondeu: “Comemos em silêncio.” Foi Braga que, segundo Carvalho, apresentou Trevisan ao jornalista Ivan Lessa (1935-2012) – e assim o escritor se aproximou da equipe do semanário O Pasquim. Em uma carta de 1973, durante a ditadura militar, Lessa avisou a Trevisan que a censura, depois de proibir a publicação de quatro contos do curitibano, havia liberado um deles. “Meio pesado em todo caso…”, disse um general sobre a história. Lessa escreveu: “Antes, com a ‘interdição’ de Ai de você, João, O caçador de virgens, Lua do mutante e Educação sentimental…, eu chegava bufando na redação com o único consolo de ter, ao menos, os originais assinados por você. Lucrei sozinho, como se fosse um Nelsinho” – uma referência ao personagem de O vampiro de Curitiba. A troca de cartas continuou mesmo depois que Lessa se mudou para Londres. O cinema era um dos temas preferidos da correspondência. Em resposta a um presente enviado por Lessa, o escritor enviou as seguintes palavras: “Me deliciei com os volumes do nosso Star Trek – enquanto a Enterprise cruzar o céu nem tudo está perdido.”
Um dos primeiros interlocutores de Trevisan por correio foi o crítico e ensaísta literário Antonio Candido (1918-2017). Em 1948, o escritor enviou a Candido uma carta falando de sua angústia depois da publicação do segundo livro, Sete anos de pastor, ao qual se referiu como um conjunto de “subcontos”, dizendo que eles “me recordarão sempre os meus sete pecados mortais em literatura”. Acrescentou: “Graças a você, meu caro Antonio Candido, espero que um dia possa escrever melhor. Graças a você e depois de muita leitura e disciplina intelectual. Uma coisa, aliás, custosa nesta cidade maldita onde moro e vou morrer sem ter ido até o Tibet. Comprei hoje uns livros do Conrad e, se não me tornar mesmo um homem de negócios, lhe escreverei um dia a respeito.” Trevisan sempre manteve contato com Candido, que admirava no escritor a sua “rara discrição no trato com o público e com a imprensa”, conta a escritora e editora Ana Luísa Escorel, filha do crítico.
Em outra das cartas às quais a piauí teve acesso, o escritor paulistano João Antônio (1937-96) pede a Trevisan, em outubro de 1962, o autógrafo em um exemplar de Novelas nada exemplares, publicado em 1959. Solicita também um exemplar de Sete anos de pastor, livro então renegado pelo autor, e diz que aprecia no curitibano “a força do detalhe e o admirável senso de oportunidade de certos flagrantes”. Trevisan só respondeu em fevereiro do ano seguinte: “Você está me estragando com seus elogios. Publico minha literatura em cadernos por falta de editor, que aliás não me faz falta: meu problema é escrever, não imprimir livro.” Além de devolver o Novelas nada exemplares autografado, Trevisan enviou também dois exemplares de Lamentações de Curitiba, que editou por conta própria. Sobre Sete anos de pastor, escreveu: “Não disponho de nenhum exemplar para lhe remeter, com o que os dois saímos ganhando.”
As cartas de Trevisan revelam um leitor curioso e detalhista. Fã de Tchékhov, ele compensa a falta de fluência no russo lendo os contos em traduções para diferentes idiomas, como revela a correspondência trocada com o tradutor Boris Schnaiderman (1917-2016), radicado em São Paulo. Em 1988, o contista sugere uma série de alterações na tradução de O beijo e outras histórias, de Schnaiderman, que também tinha o hábito de revisar as obras mesmo depois de publicadas.
Em sua resposta, o tradutor agradeceu: “Fiquei profundamente sensibilizado com a sua carta de 27 de agosto. Ela mostra um apego extremo à obra de Tchékhov e uma vontade muito grande de me ajudar em meu caminho de tradutor, em meio a tropeços e descaminhos que vou procurando superar.” Para a psicanalista Miriam Chnaiderman, filha do tradutor (o “s” inicial no sobrenome dele não faz parte da grafia do nome de registro da família), o diálogo reforçou o perfeccionismo de ambos. As trocas entre os dois incluíam eventuais visitas.
Schnaiderman não foi o único tradutor com quem manteve diálogo. Em 1976, o holandês August Willemsen (1936-2007), que traduziu Machado de Assis, Drummond e Guimarães Rosa, entre outros clássicos brasileiros, escreveu a Trevisan, de quem estava traduzindo o livro O rei da Terra (1972), dizendo que enfrentava dificuldades com expressões como “a coroa é um bagulho” e “túmulos festivos de Araucária”. Em sua resposta, Trevisan explicou que “coroa” é uma gíria para pessoa idosa, e que “bagulho” significa algo acabado, gasto, “um farrapo”. Também disse que Araucária é “uma cidadezinha próxima de Curitiba, com grande número de polacos, que pintam os túmulos de azul, amarelo, verde etc.” Ele sugere que o tradutor recorra ao Dicionário Aurélio e pede para informá-lo se tiver dificuldade de encontrar esse livro na Holanda.
Atualmente, Trevisan não tem escrito novos contos, segundo Faversani, mas isso não quer dizer que abandonou a atividade literária e editorial. Além de organizar seu acervo, ele retrabalha histórias antigas e participa da edição de coletâneas. Também continua a lançar seus “cadernos”, espécie de fanzines que publica desde 1949. Impressos em pequenas gráficas de Curitiba, em papel sulfite e formato de bolso, costumam ter em torno de cinquenta páginas, geralmente contendo mais de um conto. Além de escolher os contos já publicados que serão reeditados nos cadernos, Trevisan seleciona, em um banco de gravuras que mantém em casa, as imagens que vão ilustrá-los. Em média, ele publica seis cadernos por ano, sem periodicidade fixa. A tiragem nos últimos anos tem sido de trezentos exemplares e a distribuição é sempre gratuita. As publicações costumam ser enviadas para bibliotecas e universidades, além de alguns bares e cafés, mas amigos de Trevisan têm o privilégio de recebê-las pessoalmente ou pelo correio.
Os cadernos tiveram diferentes funções ao longo da carreira do escritor. No início, serviram para divulgar os textos escritos a partir de 1948, quando foram encerradas as atividades da revista Joaquim, que Trevisan fundara dois anos antes. Depois, passaram a ser uma prévia de novas histórias. Desde 2014, quando parou de escrever novos textos, os cadernos se tornaram uma maneira de continuar a divulgação dos contos, que são reunidos nessas edições por algum aspecto temático. O caderno lançado em novembro do ano passado, por exemplo, com 56 páginas e ilustrações de Poty Lazzaroto (1924-1998), amigo de Trevisan e ilustrador de vários de seus livros, reuniu os contos O noivo; Em busca de Curitiba perdida; Ei, Vampiro, qual é a tua; Noites de Curitiba e Que fim levou o vampiro de Curitiba?.
No ano passado, ele publicou, em tiragem de teste, por conta própria e distribuição gratuita a antologia independente Gente de Curitiba, com 69 contos e 477 páginas. Foram apenas 350 exemplares porque o livro será lançado comercialmente pela Editora Record no fim deste ano ou no início de 2025. A editora vai republicar também O vampiro de Curitiba (1965) e A polaquinha (1985). “A gente começou a organizar a seleção com textos que não entraram na Antologia pessoal, em 2023”, diz Faversani. “É um complemento, desta vez com mais personagens pitorescos, uma espécie de romance episódico da cidade.”
No ano passado, quando finalmente resolveu reabilitar Sonata ao luar – seu primeiro livro, de 1945, que ele renegava –, Trevisan optou por publicar a novela pela editora Arte & Letra, de Curitiba, comandada por Thiago Tizzot. A edição foi lançada em novembro e esgotou em uma semana. Foi a segunda parceria com o editor, que procurou Trevisan pela primeira vez em 2014. “A gente tinha lançado livros de Tchékhov, Flaubert e Edgar Allan Poe, então decidimos que estava na hora de iniciar os clássicos nacionais, e nada melhor do que abrir a série com o Dalton”, conta Tizzot. Como ele não tinha nenhum contato com Trevisan, recorreu a um método de aproximação usado na época: deixou um bilhete na Livraria do Chain, com exemplares de livros publicados por sua editora. Dias depois, o escritor ligou e apresentou a proposta de publicação de A mão na pena, com 250 exemplares. Lançada em 2014, foi a última coletânea de contos inéditos que Trevisan publicou.
A possibilidade de novas parcerias ficou no ar. Mas apenas no ano passado a conversa tomou forma, depois de um encontro de Tizzot com Faversani. “Falei de publicarmos outro livro dele, e eles vieram com a proposta pronta para a edição de Sonata ao luar”, lembra o editor. Foram publicados apenas 150 exemplares dessa novela, 30 dos quais entregues ao autor. Em uma semana, todos foram vendidos pelo site da editora (o livro agora está esgotado). “Tivemos que organizar um esquema especial para evitar que as pessoas comprassem mais do que dois exemplares”, afirma Tizzot. Houve quem quisesse adquirir vinte exemplares ao mesmo tempo.
Ao contrário do que costuma acontecer com reedições de Trevisan, sempre revisadas e com passagens reescritas pelo autor, o texto da nova edição de Sonata ao luar é idêntico ao original de 1945. Faversani explica por quê: “Ao reler a recepção crítica da época, Dalton passou a considerar a Sonata como um material bastante rico. Não só para entender o início da sua produção literária e como seus temas e personagens foram desenvolvidos em obras subsequentes, mas também para entender o ambiente literário do período.” A parceria com a Arte & Letra continua neste ano: a editora vai publicar um texto dele sobre Poty em um volume com ilustrações do artista para obras do próprio Trevisan e para a revista Joaquim. O livro, que vai homenagear o centenário de nascimento de Poty, também terá parte da correspondência trocada pelos dois. “São mais postais, com mensagens e referências curtas, algumas piadas entre eles”, adianta Faversani.
Outra novidade editorial é o lançamento neste mês de Dalton Trevisan: uma literatura nada exemplar (Tinta-da-China/Instituto de Estudos Brasileiros), reunião de ensaios e entrevistas sobre o escritor, organizada por Fernando Paixão e Hélio de Seixas Guimarães. “Ando desconfiadíssimo com tantos elogios, seus e dos outros – é muita honra para este pobre marquês”, escreveu Trevisan a Paixão, em resposta a uma carta que anunciava a publicação do livro. “Já é tempo de alguém – ó [Otto Maria] Carpeaux, onde estás que não respondes? – exigir uma revisão de valores. No fundo, eu gosto mesmo é de uma boa esculhambação…” Na mesma carta, o escritor afirma que não pode atender ao pedido feito para que enviasse um conto para o livro: “A proposta de um continho inédito é tentadora, mas, com essa carcaça esbodegada – ahimè! – tudo o que escrevo é com dificuldade, o raciocínio lento, a mão pesada.”
Na editora principal de Trevisan, a Record, as preocupações se voltam para o lançamento também neste mês do aniversário do escritor de dois livros dirigidos ao público infantojuvenil: Chuva (ilustrado por Eloar Guazzelli) e O ciclista (com ilustrações de Odilon Moraes). São dois contos já publicados que foram escolhidos para a nova edição por Trevisan e pelo professor de literatura e poeta Augusto Massi, que também organizou a Antologia pessoal (2023), para a Record.
A editora enviou às livrarias em maio as reedições de Cemitério de elefantes (lançado originalmente em 1964), Contos eróticos (1984) e Macho não ganha flor (2006).
Rodrigo Lacerda, editor executivo do Grupo Record, trata dos assuntos relativos aos livros com Faversani, o que não impede que Trevisan lhe escreva alguns bilhetes, como o que enviou depois de receber um pedido de entrevista para uma publicação da editora:
Prezado Rodrigo, pode contar com os meus continhos, sempre que você queira e o departamento comercial permita. A entrevista não pode ser. Além de não ter nada a dizer fora de meus livros (não sou nada, não sei de nada, quem matou Maria não fui eu), sou tão tímido que, só de pensar nela eu me sinto mudo, cego e surdo – uma barata de coraçãozinho pulando sob o chinelo que vai esmagar. Escrever meus continhos, sim; falar, gravar, posar, nunca que não. A melhor entrevista do contador de histórias não é a própria história, pô?
E assinou com as iniciais D. T., como costuma fazer em seus bilhetes.
A resistência de Trevisan a entrevistas é tão conhecida entre os jornalistas quanto os esforços que alguns fizeram para vencê-la. Martha Feldens foi correspondente do Jornal do Brasil nos anos 1980 e início dos 1990 em Curitiba e conta que havia praticamente uma competição entre os colegas para ver quem conseguiria falar com o escritor. “Teve um colega que abordou o Dalton na rua e andou quase dez quadras fazendo perguntas, sem que recebesse nenhuma resposta ou mesmo um olhar”, diz. Feldens preferiu a estratégia de deixar bilhetes debaixo da porta da casa do escritor. “Ele ligava para a redação e recusava muito educadamente qualquer pedido de entrevista. A única vez que consegui tirar uma declaração dele foi para negar que iria colaborar na elaboração de roteiros para a CNT, a Central Nacional de Televisão, com sede no Paraná.” A empresa era presidida pelo empresário e político José Carlos Martinez, que havia sido tesoureiro da campanha do ex-presidente Fernando Collor de Mello.
O próprio Trevisan atuou como repórter de polícia na juventude, no Diário da Tarde. Algumas de suas reportagens foram transformadas em crônicas assinadas por ele nos jornais e mais tarde retrabalhadas nos contos. Isso ocorreu, por exemplo, com a reportagem O ciclista foi morto por caminhão, publicada em 1952 na coluna Ocorrências policiais do diário. Ele retomou o assunto dias depois, no mesmo jornal, quando publicou a crônica A morte do ciclista. A partir dos dois textos, escreveu o conto Josué, publicado décadas depois no livro A mão na pena e republicado na Antologia pessoal. Do texto original ao conto, ele manteve o local e o horário do acidente: às 13 horas, na Rua Barão do Serro Azul, no Centro de Curitiba.
Vasculhando os arquivos do escritor, Faversani encontrou a crítica Quem tem medo de vampiro?, um ataque a Trevisan publicado no jornal paranaense Gazeta do Povo, em 1984, cujo autor assina apenas com as iniciais J. P. O crítico não economiza nas investidas contra o escritor: “Há que de anos ele escreve o mesmo conto? Com pequenas variações, sempre o único João, a mesma bendita Maria. Peru bêbado que, no círculo de giz, repete sem arte nem graça os passarinhos iguais. Falta-lhe imaginação até para mudar o nome dos personagens.” Também ironiza o vocabulário “de menos de oitenta palavras” de Trevisan e a sua recusa em dar entrevistas: “Um talento não lhe pode negar – o da promoção delirante. Com falsa modéstia, não quer o retrato no jornal – e o jornal sempre a publicá-lo. Nunca deu entrevista – e quantas já foram divulgadas, com foto e tudo? Ora, negar a foto ao jornal não é uma forma de vaidade, a outra face diabólica do cabotino?”
No arquivo de Dalton Trevisan, ao lado do artigo consta uma anotação datilografada no artigo que revela quem é o autor da crítica corrosiva: “J. P. é D. T.” Dez anos depois, ele incluiu o mesmo texto, com o mesmo título, no livro Dinorá.
Na casa da Rua Ubaldino do Amaral, nº 487, Trevisan preferia escrever na edícula que mandou construir no quintal. Ele chamava de “cabana” o quartinho, onde havia apenas uma mesa, uma cadeira e a máquina de escrever que, nos últimos anos, foi substituída por um computador. Além da edícula, existia no quintal uma garagem, um gramado e 34 cedros plantados pelo escritor junto aos muros, cercando toda a área do amplo terreno, de 1 780 m². As árvores eram como uma muralha visual, garantindo privacidade ao recluso. “Mesmo quando passou a morar sozinho, depois de ficar viúvo, ele ainda escrevia lá”, conta Faversani. A mulher de Trevisan, Yole Maria, morreu em 1998, mesmo ano em que sua filha Isabel. Sua outra filha, Rosana, faleceu no ano passado. O escritor tem duas netas, ambas filhas de Isabel.
A ideia de escrever em uma “cabana” remete ao escritor americano J. D. Salinger (1919-2010), outro notório recluso, alheio à imprensa e à badalação. Salinger mantinha um refúgio no campo, onde escreveu boa parte de seus livros. Nos anos 1950, Trevisan, que admirava Salinger, chegou a ter o seu próprio refúgio, em uma área rural nas proximidades de Curitiba, da qual desistiu por causa das dificuldades de acesso. Ficava em uma das propriedades usadas para reflorestamento por seu pai, o industrial João Evaristo Trevisan, que usava a madeira nas fornalhas de sua fábrica de louças, refratários e vidro, instalada na cidade.
A fábrica e a casa dos pais de Trevisan dividiam um mesmo terreno, na Rua Emiliano Perneta, nº 492, no Centro de Curitiba. Em 1945, uma explosão no local feriu o escritor, que precisou ficar hospitalizado durante um mês. Hoje, parte da casa-fábrica foi restaurada e ganhou o status de Unidade de Interesse de Preservação. É um prédio charmoso dos anos 1920, bem mais requintado que a casa do escritor. Trevisan viveu lá até se casar. O local abriga atualmente uma hamburgueria.
Nos últimos anos que morou na Rua Ubaldino do Amaral, o escritor, além de enfrentar a deterioração da casa, começou a lidar com importunações de usuários de drogas e ladrões, que invadiam o terreno de madrugada. Em 2021, um temporal derrubou seis dos cedros que plantara junto aos muros. No mesmo ano, ele decidiu se mudar para o apartamento no Centro e colocou a casa à venda.
O imóvel foi vendido em junho de 2022 para a Family Administração e Participações, que aceitou a condição legal de manter a casa em pé. Fabiana Faversani, a amiga de Trevisan, pediu que a piauí não revelasse o valor da venda do imóvel para garantir a segurança do escritor. Ela conta que amigos dele já haviam ficado muito preocupados em 2012, quando foi divulgado o valor do Prêmio Camões: 100 mil euros (na época equivalente a 270 mil reais). Na ocasião, Trevisan já estava com mais de 80 anos, morava sozinho na casa e costumava andar a pé pelo Centro da cidade sem qualquer cuidado especial.
O corretor Ralf Paciornik, que intermediou a venda, conta que a transação foi uma “curitibanice”, ou seja, um negócio de província, no qual todas as partes se conheciam havia décadas. Seu pai, o dentista Manuel Paciornik, conviveu na época “de ginásio” com Poty e acabou conhecendo o escritor. “Dalton se lembrou do meu pai e me deu dois livros autografados”, diz Ralf Paciornik. O negócio foi assinado no cartório do Cajuru, de João Geraldo Lazzarotto, que vem a ser irmão de Poty. Uma das sócias da Family, a artista plástica Eliane Prolik, é filha do jurista Augusto Prolik, contemporâneo de Trevisan na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Antes de fechar a compra, Ralf Paciornik esteve no imóvel. “Depois da saída do Dalton, a casa sofreu várias invasões, algumas delas pelo telhado, o que acelerou o estrago na parte interna”, diz. “Não conseguimos nem subir pela escada de madeira que dava para o sótão, porque havia risco de desabamento.” A edícula e a garagem foram demolidas antes da venda pelo próprio escritor, porque estavam infestadas de cupins e eram um risco para os vizinhos.
Depois da compra, a Family fez uma permuta com a construtora Hugo Peretti, que vai construir no terreno um prédio de dez andares, com quatro apartamentos por andar, de 130 m² cada. O prédio deverá ser erguido, segundo a documentação da construtora, a uma distância de 5 metros da casa, que será restaurada. “A restauração da casa do Dalton é um presente que estamos dando para Curitiba”, diz Hugo Peretti Neto, presidente da construtora. Para tanto, a cidade teria que usufruir da casa de algum modo, mas Peretti Neto ainda não sabe se ela será aberta ao público ou de uso exclusivo do condomínio.
O projeto da construtora indica que entre a casa restaurada e o novo prédio haverá um corredor coberto, feito de vidro e alumínio. Quando foi informado da ideia arquitetônica, o escritor não gostou. “As paredes de vidro, além de serem de um gosto estético diferente do dele, são um perigo para as aves, que batem nelas por não as enxergarem”, comenta Faversani. Apesar disso, o projeto já foi aprovado pela Comissão de Avaliação do Patrimônio Cultural da Prefeitura de Curitiba. Resta aprovar o plano de restauro da casa, ainda em análise pela mesma comissão.
Ao contrário dos vampiros da ficção, Trevisan sabe que sua eternidade não depende de um castelo imemorial. “Dalton entende o interesse dos admiradores pela preservação, mas sempre considerou sua vida e a propriedade em questão assuntos privados, e acha prematura qualquer homenagem em vida”, diz Faversani. “Se fosse só por ele, a casa poderia ser demolida.”
O escritor português Valter Hugo Mãe conta à piauí que em 2014, quando esteve em Curitiba, enviou a Trevisan uma carta, que dizia: “Você é uma maravilha de Curitiba, e do mundo; estar aqui comove-me por causa de estar perto de si.” Em resposta, o contista enviou exemplares de seus livros ao hotel onde o português estava hospedado, sem nenhuma dedicatória. Hugo Mãe explica por que não foi ao encontro de Trevisan: “Eu jamais o caçaria, porque não considero que tivesse esse direito. A ideia era simplesmente deixar que ele soubesse que alguém tem apreço pela sua obra, sem perder respeito por sua opção em se manter afastado. Eu quis escrever sem ser intrometido, sem parecer uma ameaça.”
Hugo Mãe diz que admira o lado subversivo de Trevisan e se diverte com “uma espécie de pecado cometido por convicção” que há em sua obra. “Ele tem uma rudeza elementar. Não fica à procura do que não é necessário. Tem uma lucidez incrível, porque escreve como quem faz uma vítima. Ele escreve atacando.” Em 2015, ele enviou outra carta a Trevisan, desta vez de Portugal, contando sobre sua viagem ao Brasil: “Ainda que você não tenha surgido no meu caminho, de algum modo você foi o próprio caminho. Curitiba é um corpo seu.”
A capital paranaense, de fato, é parte indissociável da obra de Trevisan, e também um de seus alvos preferenciais. Em agosto de 1984, ele publicou no jornal O Estado de S. Paulo uma versão da Canção do exílio, de Gonçalves Dias, que dizia:
Não permita Deus que eu morra
Sem que daqui me vá
Sem que diga adeus ao pinheiro
Onde já não canta o sabiá
Morrer ó supremo desfrute
Em Curitiba é que não dá.
O texto segue com descrições de situações e personagens da cidade, muitos deles citados nominalmente. O tradutor e escritor Caetano Galindo, professor de literatura da UFPR, avalia que o objeto dos ataques do autor não é a cidade em si, mas uma representação de Curitiba como capital de estilo europeu, encravada no Brasil. “É um bem-sucedido produto de marketing, que é desmentido diariamente por tudo que vemos à nossa volta, principalmente quando saímos do Centro muito bem manicurado da cidade”, diz.
Tradutor de Ulysses, de James Joyce, Galindo compara a relação do escritor irlandês com Dublin à de Trevisan com Curitiba. “Dalton foi um leitor precoce, tanto em recepção crítica quanto em termos de idade, da obra de James Joyce. E é um leitor devoto dele, porque nunca foi um imitador, mas alguém que entendeu muito o jogo do autor irlandês, e fez seu jogo a partir daí”, comenta. Para ele, ambos têm uma relação de amor e ódio com uma cidade que reconhecem como limitadora e de alma pequena, mas que ao mesmo tempo representa toda a obra deles. “Ser curitibano e ler o Trevisan é reconhecer os temas, os sons, as palavras, expressões e prosódias da língua local.”
Galindo, que também nasceu e mora em Curitiba, diz que a resistência de Trevisan à imagem atual da cidade não deriva do saudosismo. “É uma cidade artificial que passa por cima do grande assunto da sua prosa. O que vai doer na alma dele é a possibilidade da incorporação da sua casa a essa imagem falsa da Curitiba para turista ver. Acho que isso vai ser um golpe duro, uma traição à cruzada do vampiro.”
Fabiana Faversani também vê na obra de Trevisan uma resistência à imagem da capital paranaense reforçada por políticos locais, sobretudo no tempo da Operação Lava Jato. Ela cita o conto Em busca da Curitiba perdida. Nele, o escritor diz que “viaja” mais na Curitiba onde existe a Sociedade Operária Internacional Beneficente O 14 de Janeiro do que na Curitiba da Academia Paranaense de Letras, “com seus 300 milhões de imortais”. Trevisan conclui: “Curitiba sem pinheiro ou céu azul, pelo que vosmecê é – província, cárcere, lar, esta Curitiba, e não a outra para inglês ver, com amor, eu viajo, viajo, viajo.”
Leia Mais
