Ginzburg: “O escritor nunca deve pedir resenhas aos críticos. Não por orgulho, mas porque é inútil: se uma resenha precisa ser pedida, solicitada, não tem como dar nenhuma alegria. Que importância tem uma resenha pedida, solicitada, implorada?”
Breviário do escritor
Trinta e cinco conselhos para escrever um romance
Natalia Ginzburg | Edição 234, Março 2026
Tradução de Iara Machado Pinheiro
O texto a seguir foi publicado em 21 de junho de 1964 na revista semanal L’Espresso com o título Quando lo scrittore è innamorato (Quando o escritor está apaixonado) e o subtítulo 35 consigli per scrivere un romanzo (35 conselhos para escrever um romance). Em 2017, o ano seguinte ao centenário de nascimento de Natalia Ginzburg (1916-91), foi republicado em um número dedicado à obra da escritora italiana, organizado por Maria Antonietta Grignani e Domenico Scarpa, na revista Autografo, do Centro Manoscritti, da Universidade de Pavia, com o título que consta nos manuscritos conservados no arquivo de Ginzburg, Breviario dello scrittore.
1_O escritor não deve se propor a nada.
2_O escritor não deve se propor a nada, mas deve se propor a escrever de modo que seja compreendido.
3_O escritor não pode e não deve se propor a agradar. Mas a ser compreendido, sim.
4_O escritor deve se comportar como uma pessoa a quem foi endereçado um pedido. O pedido é específico, ele o conhece e sabe qual é. Se lhe pedem pão, ele não pode dar pedras no lugar.
5_O escritor nunca pode se esquecer do pedido. Esse pedido deve estar no centro do seu trabalho. O escritor tem uma multidão de interlocutores invisíveis dentro de si, uma multidão indistinta e variada, da qual fazem parte os rostos de seus amigos, os rostos de desconhecidos, os rostos de familiares, os rostos dos mortos. A relação com essa multidão dentro dele, obscura, indistinta, muda e vigilante, está no centro do seu trabalho.
6_Como no meio dessa multidão invisível existem rostos desconhecidos, o escritor deve se propor a ser compreendido também por desconhecidos, por gente que pode ser completamente diferente dele. O escritor deve tentar ser entendido também por quem é em tudo diferente dele, por quem nunca escreveu e nunca vai escrever nada.
7_O escritor, quando não está escrevendo, não é um escritor. É uma pessoa como outra qualquer.
8_Isso é verdade, mas é verdade também que um escritor, tendo carregado dentro de si uma vocação específica desde a infância, o específico desejo de observar a realidade de um modo que lhe permita contá-la, tem em si algo que o faz um pouco diferente dos outros. É preciso que essa diferença não o distancie dos outros. É preciso que essa diferença não se transforme em orgulho, nem em desprezo pelos outros, nem em melancolia nem em solidão. É uma diferença sutil, uma coisa mínima. Não dá nenhum direito ou privilégio especial. Não implica privações ou necessidades especiais. Deve ser carregada como uma entidade negligenciável.
9_O escritor não tem o direito de dizer: “Eu moro na Itália, mas escrevo em chinês. Quem fala chinês vai me entender. Os outros, não importam.” O escritor deve se propor a escrever em uma linguagem que seja compreendida, primeiramente, por aqueles da sua terra natal.
10_O escritor não tem o direito de dizer: “Eu não escrevo para as pessoas do meu tempo. Escrevo para um tempo que ainda não chegou. Hoje, não conseguem me entender, mas amanhã vão conseguir.” Não tem esse direito porque o pedido que lhe é endereçado é endereçado pelas pessoas do seu tempo e aquelas que ainda não nasceram não têm um rosto ao qual se possa responder, estão imersas nas trevas e as trevas emitem silêncio. Não é possível lançar palavras no silêncio.
11_O escritor não deve ter medo de parecer velho, aos olhos do seu tempo. Um escritor nunca é nem velho nem novo. Velhos são os livros que provêm não da realidade, mas de outros livros. São livros ruins. E o escritor não pode ter a dúvida de estar escrevendo um livro ruim, porque, enquanto escreve, uma dúvida como essa não pode sequer escorar nele.
12_O escritor não deve ter medo de ser inovador demais para o seu tempo, ou se vangloriar disso. Que fique à vontade para usar as formas extravagantes que quiser. Todos os caminhos são bons e todos os meios são úteis. Tirando o dever de tentar ser compreendido e ouvido, no presente, pelos seus contemporâneos, em todo o resto ele é absolutamente livre.
13_O escritor não deve ter medo de parecer banal. Medos como esse são incômodos e atrapalham a alegria da criação. Se sente que é indispensável dizer alguma coisa, que a diga, mesmo sabendo que já foi dita e repetida muitas vezes antes dele.
Se sente a necessidade de dizê-la mais uma vez, alguma razão existe. Se sente a necessidade de dizê-la mais uma vez, alguma razão existe.
14_O escritor deve escrever apenas quando é inevitável. Se escreve também quando é evitável, é exercício de estilo. Que o faça do mesmo jeito, mas não vai sair nada daí.
15_Se, escrevendo, percebe que está se entediando, é melhor que pare imediatamente. De fato, se ele mesmo se entedia, pode ter certeza absoluta de que as pessoas, quando o lerem, vão se entediar sete vezes mais.
16_Quando escreve, o escritor deve esquecer completamente de si mesmo. Por isso ele não pode escrever para se consolar de uma tristeza, para fugir do tédio, para conquistar o afeto de alguém, para sentir de novo uma grande alegria do passado que ele lembra e conhece bem. Não pode escrever para. Nesse para há algo de abjeto, que envenena e mata a poesia.
17_Ele deve se esquecer completamente de si mesmo, da sua pessoa, da sua vida. Completamente dedicado ao pedido que lhe é endereçado. Mesmo quando a sua própria pessoa e a sua própria vida são objetos do seu narrar. É preciso que a sua pessoa e a sua vida tenham se transformado nele em alguma coisa que não tem mais nada a ver com a sua verdadeira vida e a sua verdadeira pessoa.
18_O escritor, porém, pode ser estimulado pelo desejo de ganhar dinheiro. É estranho, mas, entre os estímulos externos, o dinheiro é o único estímulo puro. Às vezes pode colocar em movimento uma necessidade de escrever que estava, por inércia, adormecida. Se fundir de repente e com sorte a essa necessidade; irromper um verdadeiro, real, incontrolável desejo de escrever. Por qual motivo, entre todos os estímulos, só o desejo de dinheiro é puro, e pode viver em contato com a poesia sem matá-la, isso eu não sei. Nem preciso dizer que, quando pega o impulso, o escritor se esquece totalmente do desejo ou da necessidade de dinheiro.
19_Quando uma pessoa está apaixonada, isto é, quando sucumbe àquela espécie de ataque febril que é a irrupção de uma paixão amorosa, não consegue escrever. Não consegue escrever porque, em um momento como esse, não consegue se esquecer nem de si mesmo nem do objeto da sua paixão. O objeto da sua paixão se mistura, com violência, com prepotência, às imagens evocadas pela poesia, e a mata. É possível que dê conta de ficar mais forte que a própria paixão e impor-lhe o silêncio. Mas então nos libertamos dela, esquecemos um pouco, nos curamos, talvez apenas momentaneamente, da febre. E é muito bom poder se curar da febre assim, contemplar, ao mesmo tempo, a força da febre e a força da poesia.
20_O escritor nunca deve dizer a si mesmo: “Vou tomar cuidado para não me apaixonar, porque sei que não escrevo quando estou apaixonado.” Nunca deve dizer a si mesmo: “Não quero ter filhos, porque podem me dar aflições, responsabilidades, preocupações, podem representar um obstáculo para a minha escrita.” O escritor nunca deve pensar: “Eu sou um escritor e por isso preciso me defender, porque estou defendendo, em mim mesmo, a minha vocação.” Não, porque a sua vocação se perde quando é defendida. Ele deve estar, como todos os outros, exposto aos golpes do destino, às feridas, às chagas, aos tumultos, aos sobressaltos da dor e do mal, isto é, a todas as coisas que podem impedir de escrever. E, todavia, ele é infinitamente frágil, e a sua vocação é infinitamente frágil, e ele sabe disso.
21_Diante de si, na sua escrita, o escritor encontra, portanto, contínuos obstáculos e interrupções. São eles: deveres familiares; falta de tempo; amores; aflições, preocupações, sustos. O escritor deve saber que obstáculos como esses o colocam à prova, na sua escrita; isto é, precisa tê-los e seguir adiante na desordem e no perigo. Escrever parece caminhar em uma selva retorcida, cheia de animais ferozes, insetos incômodos, pântanos traiçoeiros.
22_O escritor nunca deve dizer a si mesmo: “Quero ter experiências, amores, filhos, quero viajar, ver um monte de coisas para ter o que contar.” Não, porque não se vive para escrever. Acreditamos que é assim quando somos jovens, mas não é verdade. Quando obtemos verdadeiras experiências da vida, amores de verdade, filhos de verdade, aí entendemos que não os tivemos para escrever, porque são maiores e mais importantes para nós que a própria poesia.
23_Há quem discuta se importa mais, na escrita, o conteúdo ou a forma. O escritor não deve entrar nessas discussões. Elas não lhe dizem respeito. Na verdade, se alguém realmente tem alguma coisa para contar, o que importa as palavras que usa para contar? O escritor pensa no estilo, se aninha no estilo, nos momentos de cansaço e tédio, quando não tem nada para contar.
24_Só existe uma coisa para ser narrada. É a realidade. Claro que existem inúmeros e infinitos modos para narrar a realidade.
25_Hoje, a realidade é difícil de ser narrada. De fato, no nosso tempo, ela parece ser nublada, confusa, caótica, indecifrável. Cada um de nós consegue conhecer apenas uma diminuta parte dela. Por isso, hoje, acho que só se pode escrever dizendo “eu”. O difícil é procurar, na diminuta parte da realidade que cada um consegue conhecer, aquilo que é verdade para todo mundo. Porque uma pessoa que diz “eu” pode ser infantilmente induzida a se perder em detalhes ínfimos e minúsculos, a acompanhar o voo de uma mosca, a fixar a atenção nas rachaduras do solo. O difícil é procurar, na diminuta parte da realidade que cada um consegue conhecer, alguma coisa que não seja o voo de uma mosca, nem o vazio. Alguma coisa que não inspire só tédio, repulsa ou susto. Alguma coisa digna de amor.
26_Mas o nosso tempo é assim. Nada mais que uma diminuta parte da realidade para cada um. Amamos e detestamos o nosso tempo. Detestamos, afirmamos a todo momento que nos sentimos infelizes, agarrados ao voo de uma mosca, suspensos no vazio. E todavia o amamos, como amamos a única parte da realidade que nos é concedido conhecer, ameaçada pelo vazio por todos os lados, sempre a ponto de ser engolida pelo caos.
27_Não é possível narrar aquilo que não se conhece. Só é possível narrar aquilo que se conhece, que se conhece realmente a fundo.
Não é possível narrar aquilo que se observa de fora. Esse olhar distante, destacado, distraído não consegue alcançar a realidade. A realidade precisa ter penetrado em nós, deve ser uma coisa só conosco, para que se possa narrar.
Hoje, mais do que nunca, porque dizemos “eu”. A esse “eu” é solicitada uma estreita e profunda intimidade com o real. O “eu” não pode dar nada além de uma parte muito pequena da realidade, mas precisa dar essa parte por inteiro.
28_Hoje dizem que não é mais possível escrever livros que tenham personagens. Não é verdade. Pode ter se tornado difícil reconhecer rostos humanos na névoa. Mas se trata de acostumar os olhos com a névoa.
O conteúdo dos livros é a realidade. A realidade são os seres humanos. Não adianta pedir às pessoas que se apaixonem por algo que não sejam os seres humanos.
29_Fazer um livro é como fazer amor, como colocar uma criança no mundo. Isto é, algo que não muda ao longo do tempo. Os hábitos podem mudar, as palavras pronunciadas, as relações. Mas a substância da coisa é aquela lá, e não pode mudar.
30_Mas o escritor definitivamente não deve se perguntar demais como escreve seus livros. Que os escreva, e boa sorte. Que deixe aos outros o dever de discutir como deveria escrever. Aos outros, aos críticos, aos literatos, aos pensadores. O escritor não é, necessariamente, um pensador. Quando pensa, pode pensar também besteiras maiores que uma casa.
31_O escritor nunca deve pedir resenhas aos críticos. Não por orgulho, mas porque é inútil: porque se uma resenha precisa ser pedida, solicitada, não tem como dar nenhuma alegria. Como os livros, os comentários sobre os livros também devem ser escritos quando são inevitáveis. Que importância tem uma resenha pedida, solicitada, implorada?
32_O escritor não deve se ofender e não deve implicar com os críticos que não escrevem sobre seu livro, ou que escrevem para falar mal. Mesmo que sofra, não deve ficar ofendido. De fato, o livro está lá, exposto ao juízo dos críticos e do público. Falar mal, ou não falar, não é uma ação malvada ou injusta, e não é certo ficar ofendido por causa disso.
33_O escritor deve estar preparado para sofrer uma decepção, quando o livro for escrito e publicado. Ele vai atribuir essa decepção aos críticos, que não o entenderam. E de fato as resenhas são decepcionantes, mesmo quando são muito elogiosas. Elas nunca expressam surpresa. Consideram tudo como dado, já sabido, previsível. Já o escritor gostaria de ter, ao seu redor, um pouco de surpresa.
Mas na verdade o escritor fica decepcionado e triste porque o livro foi publicado, e não lhe pertence mais. E ele se sente, até não ter em suas mãos outro livro para escrever, um pouco solitário.
34_Assim, quando o escritor tiver escrito e publicado seu livro, a melhor coisa que pode fazer é parar de pensar nele. Que não fique lá lambendo suas feridas. Não é saudável.
Que deixe aos outros o dever de procurar um significado no seu livro. Ele não sabe qual é esse significado e não é ele que precisa saber. E o seu livro, uma vez escrito e publicado, não é mais uma coisa sua. Assim, deve deixá-lo seguir seu caminho, deve deixá-lo para trás, deve esquecê-lo. E como, por ora, terminou de escrever, deve lembrar que, por ora, não é mais um escritor.
35_E deve tomar cuidado se frequentar meios literários, falar de neorrealismo, hermetismo, coisas que são adequadas para os literatos, os críticos, os pensadores, mas para ele é tudo inutilidade, perda de tempo. Que dê uma volta, procure seus amigos, cuide da própria vida, pense em outras coisas, nada de vanguarda, retrovanguarda, informalismo, nada disso, é tudo inútil, assuntos inúteis, que pense em outras coisas.
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