questões literárias
Eduardo Gianetti Jun 2026 00h00
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Tudo o que já foi, é o começo do que vai vir.[1] O que virá? Em tempos de pressa virótica, atenção fracionada e estupor digital, Grande sertão: veredas completa 70 anos mais vivo – e necessário – que nunca. Se tudo tem seus mistérios, como afiança o jagunço metafísico Riobaldo, que dirá da ousadíssima, quase sobre-humana, criação de Guimarães Rosa, médico e diplomata mineiro, natural de Cordisburgo, pequenina terra sertaneja?
Ao leitor de primeira viagem, que primeiro se inaugura na prosa exigente do sertão rosiano, permito-me um só conselho: não se espante nem desanime. Travessia. Grande sertão é tesouro que se entrega aos poucos, à custa de amorosa pertinácia e empenho – tesouro que, uma vez desvelado, nunca se exaure, mas ressurge renovado a cada leitura. Só aos poucos é que o escuro é claro. Digo por mim. Primeiro estranha-se, depois embruxa-se.
Poesia ou prosa? Erudito ou popular? Culto ou chulo? Fiel ou fabular? Sério ou lúdico? Jorro ou cálculo? No épico sertanejo, os opostos não se opõem. Como na vida, misturam-se. Maior do que o mais generoso e penetrante leitor ouse exaltá-lo; menor do que o mais indisposto e impaciente leitor teime em rebaixá-lo: Grande sertão pode ser tudo, menos leitura fácil.
Outra não era, de fato, a intenção do autor, como ele esclarece em carta à tradutora americana, Harriet de Onis: “Meus livros são feitos, ou querem ser pelo menos, à base de uma dinâmica ousada, que se não for atendida, o resultado será pobre e ineficaz. Não procuro uma linguagem transparente. Ao contrário, o leitor tem de ser chocado, despertado de sua inércia mental, da preguiça e dos hábitos. Tem de tomar consciência viva do escrito, a todo momento. Tem quase de aprender novas maneiras de sentir e de pensar. Não o disciplinado – mas a força elementar, selvagem. Não a clareza – mas a poesia, a obscuridade do mistério, que é o mundo.”
Grande sertão pede e cobra atenção, a mais rara e a mais pura forma de generosidade. Todo o empenho, no entanto – e disso sou fiador –, paga e repaga o trabalho; os juros dele não obedecem medida nenhuma. O texto semeia, a leitura insemina.
A matéria do romance é o relato em primeira pessoa feito pelo ex-jagunço Riobaldo a um interlocutor semioculto e anônimo: um senhor de vasta cultura e suma doutoração, que tudo ouve e anota, fiel como papel. Alguém sequioso de saber e dar registro letrado às paisagens, falares, crenças e formas de vida do sertão, mas que em nenhum momento intervém ou se faz ouvir na narrativa.
Contraponto à figura do interlocutor-doutor, quase como um seu duplo, é Quelemém, compadre da maturidade de Riobaldo – o sábio kardecista a quem ele sempre retorna em busca de conselho e acolhimento quando acossado por dúvidas e inquietações. Ao contrário do primeiro, entretanto, a interlocução com Quelemém, embora recorrente, é lembrança: coisa guardada de passado recente, não conversa em andamento.
Daí que da primeira à derradeira palavra (o livro não tem prefácio), tudo a que temos acesso é o universo mental do herói-narrador: suas reminiscências ondulantes e sua percepção íntima dos fatos; seus amores, fantasias, cismas, angústias e elucubrações; a surda vontade de transcender que o impele – eu queria ser mais do que eu. Memorialista especulativo, Riobaldo se dispõe a sondar as dobras e recônditos da alma, espiolhar o anseio de realizar o alto destino possível da gente, mas sempre ciente do fato de que contar é muito, muito dificultoso; e isso, não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas – de fazer balancê, de se remexerem dos lugares. Lembrar é perigoso.
O animal bravio que é o romance aí está – como acercar-se dele? Como começar, por assim dizer, a domá-lo de modo a criar uma relação fluente e profícua com ele? Uma pitada de clareza analítica pode ajudar a embrandecer o contato com a fera.
Sigo a trilha indicada pelo próprio Rosa (sob momentâneo influxo da “megera cartesiana”) ao elencar e atribuir peso específico às quatro vertentes ou camadas que compõem a obra. Em ordem de acentuação e importância crescente, como ele frisa, são elas: a) cenário e realidade sertaneja; b) enredo; c) poesia e d) valor metafísico-religioso.
O todo, claro está, não se confunde com a soma ou mera superposição das partes. A razão analítica que separa, classifica, esmiúça e discerne não se pretende porto de destino, mas passagem – degrau necessário à melhor compreensão e à devida apreciação estética e intelectual da unidade dialética que é Grande sertão.
CENÁRIO E REALIDADE SERTANEJA
O épico sertanejo de Rosa abriga um hino de amor ao sertão: uma ode ao âmago telúrico do Brasil Central.
As diferentes ambiências e paisagens do cerrado brasileiro – chapadas, encostas, várzeas, grutas e buritizais, numa região que se espraia do Norte de Minas ao Sul da Bahia e às bordas de Goiás – não figuram no romance como cenário ou coadjuvantes, mas adquirem uma viva relevância no desenrolar da trama: O sertão não é malino nem caridoso, mano oh mano!: – ... ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo. O mundo exterior não é contexto ou moldura, mas realidade contígua, vocal, sempre a espelhar e interpelar o mundo interior dos que o habitam. Se sertão: é dentro da gente, como pontua Riobaldo inspirado pelo sábio Quelemém, é porque o sertão afora está imbricado no sertão adentro.
Rara é a página em que árvores, ervas e arbustos; o chão pedregoso e o céu estrelado; bichos da terra ou alados; rios, córregos, brejos e lagoas; répteis, insetos e bovinos não sejam minuciamorosamente descritos – Meu rio de amor é o Urucuia – ou não se façam vivos e pulsantes – O luar que põe a noite inchada –, em permanente diálogo com as errâncias e humores cambiantes dos personagens. Pergunto coisas ao buriti, conta Riobaldo, e o que ele responde é: a coragem minha.
A natureza pulsa, fala, intriga e se faz ouvir pelos humanos. Ora é o vão da noite, quando o mato pega a adquirir rumores de sossegação; ora é o joão-congo [que] piava cânticos, triste lá e ali em mim; ora é aquela alegria, feito nuvem de abelhas em flor de araçá, esse alvoroço. E se o aguaceiro a jorrar do trovejante céu noturno é prenúncio de grandes eventos – assim é dia-de-véspera? –, na terra, como recorda Riobaldo, o riachinho me tomava a benção.
O vir à lume de Grande sertão, em meados dos anos 1950, coincide com o limiar da onda desenvolvimentista capitaneada pelo governo Juscelino Kubitschek: a crença de que a industrialização e a urbanização aceleradas – o investimento em fábricas, rodovias, viadutos e hidrelétricas – seriam o passaporte de uma modernidade cujo símbolo-mor foi a construção de Brasília, com seu projeto urbanístico e sua arquitetura geométrica orgulhosamente alheios a qualquer consideração de ordem ecológica ou respeito ambiental.
Filha da razão planificadora, Brasília foi concretada no coração do cerrado goiano, centro geográfico do país, assim como poderia ter sido erguida, sem a mínima alteração de projeto e imune às particularidades do meio, em qualquer sítio ou bioma do planeta. E isso, hoje sabemos, era somente a primeira investida do ciclo avassalador que desabalaria a seguir; o toque de clarim da ofensiva pseudomodernizante que assola o cerrado: o desbaste a ferro e fogo da flora; a asfixia dos aquíferos que dão de beber aos rios e córregos; o extermínio da fauna; a praga dos eucaliptos e o monótono sem-fim do (lucrativo) monocultivo da soja.
Coincidência ou presciência? Acaso ou caso pensado? Difícil dizer. O recado, é fato, lá está. Quando o doutor-interlocutor ventila a ideia de ir ele mesmo ao sertão a fim de conferir o que existe e devassar a raso este mar de territórios, Riobaldo desencoraja-o, alertando: Agora – digo por mim – o senhor vem, veio tarde. Tempos foram, os costumes demudaram. Quase que, de legítimo leal, pouco sobra, nem não sobra mais nada. E depois segue: Ah. Diz-se que o Governo está mandando abrir boa estrada rodageira, de Pirapora a Paracatu, por aí... O sertão da sua mocidade, lamenta, como bicho corrido, estertorava acuado para os rincões longínquos, onde cidade e asfalto não chegam – saudade de ideia e saudade de coração. Existisse ainda?
O contexto da passagem, entretanto, deixa claro que o mundo quase extinto a que se reporta o narrador não é essencialmente o mundo natural do sertão-cerrado – a natureza agreste, pulsante e comunicante que viceja a cada fôlego do romance –, mas o mundo das crenças, bizarrices e costumes da cultura bandoleira sertaneja. Do que vira e testemunhara, comenta o ex-jagunço, acho que nem coisas assim não acontecem mais. Sob o efeito dos novos tempos e o avanço célere das cidades, os bandos bons de valentões repartiram seu fim; muito que foi jagunço, por aí pena, pede esmola. E do traje de gibão – feio e capiau – já se envergonham.
O fato incontornável, não obstante, é que Grande sertão, com seu prodigioso inventário da biodiversidade do sertão-cerrado e com sua profunda reverência por tudo que tange à flora e à fauna dos Gerais, encarna a perfeita antítese do admirável mundo novo desenvolvimentista.
Em retrospecto, o livro adquire uma aura premonitória – Agora, o mundo quer ficar sem sertão – e hoje se nos afigura como verdadeiro canto do cisne de um bioma então prestes a sofrer o feroz atropelo da máquina mercante uniformizadora. O que poderia ser-lhe mais contrário ou avesso do que o delírio racional-construtivista plasmado no plano piloto da orwelliana Novacap ou o monótono sem-fim da soja transgênica semeada e colhida por braços robóticos?
Quando Grande sertão veio a lume, a onda desenvolvimentista apenas começava a se erguer no horizonte. Era só o prelúdio – ensaio festivo e inocente – do tsunami tecnocrático-militar que lhe veio a seguir. Mas isso, tão em pé, tão perto, ainda nuveava, nos ocultos do futuro. Riobaldo, como mais de uma vez ele diz, nada sabia, mas desconfiava de muita coisa. Eu me lembro das coisas, antes delas acontecerem.
ENREDO
Grande sertão não é menos de ação e aventura do que de ideia e cogitação. O livro desenreda os fios de dois enredos transversais à trama: uma saga de vingança – consumada – e uma saga de amor interdito – inconsumado. Elas estão ligadas.
A trama de vingança é a perseguição e morte em combate, pelo bando liderado por Riobaldo, do chefe jagunço Hermógenes, o demoníaco e desleal assassino de Joca Ramiro, pai de Diadorim. O confronto sangrento entre os dois bandos é o ponto culminante da itinerância bandoleira de Riobaldo que, antes de ter o seu próprio bando, primeiro se fizera jagunço sob o comando de Joca Ramiro, por arte e influência de um seu conhecido de adolescência: o Menino que todos chamavam Reinaldo e por quem ele depois se apaixonaria. Só para si, Diadorim.
A consumação da vingança, entretanto, sela o destino da paixão interdita e irrefreável entre eles: Diadorim mata – e morre – em luta corporal com o algoz de seu pai. Consumada a vingança, mas perdido para sempre o grande amor de sua vida, Riobaldo renega o passado jagunço e decide tomar pouso e âncora: larga a vida errante, reinventa-se fazendeiro, desposa Otacília, amor da maturidade, e conta a sua história. Estou de range rede, anuncia. E me inventei neste gosto, de especular ideia.
O Riobaldo que narra – pacato herdeiro das terras do pai, marido de Otacília, compadre de Quelemém – não é o Riobaldo narrado: o jovem bandoleiro, exímio atirador (leia-se: matador) por todos respeitado, vulgo Tatarana, antes de tornar-se chefe de bando, como Urutu-Branco, sucedendo Zé Bebelo. A distância que se abre entre os dois – o narrador e o narrado –, fruto do correr dos anos e da experiência amarga, é um leitmotiv do romance.
Se não renega inteiramente sua vida pregressa, o Riobaldo narrador maduro não raro manifesta estranheza e sente-se alheio – errei de toda conta – ao relembrar quem foi e tudo que fez. Visível que, aqueles outros tempos, eu pintava – pondera. Mas mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir.
Desmentir-se, é certo, mas não só. Pois é tarefa igualmente, cumpre dizer, de re-conhecer-se. Nada vem do nada. Se a maturidade estranha a mocidade em retrospecto, o que é comum, ela pode também redescobrir-se nesta. Muito do que veio a ser, como o desenrolar do romance evidencia, preexistia latente e palpitava no que foi. O Riobaldo que narra – calejado e especulativo – insinua-se e aflora a todo momento, como água nascente, nas dúvidas e inquietações do jovem jagunço. Ele é o Riobaldo narrado em botão.
Um menino nasceu – o mundo tornou a começar. Filho de mãe pobre e pai desconhecido, a trajetória de Riobaldo sofre uma inflexão quando ele se muda, criança, para a casa-grande do seu “padrinho”, respeitado fazendeiro do interior de Minas, após a morte da mãe. Isso lhe faculta viver em razoável conforto e beneficiar-se de uma educação diferenciada, sob os auspícios do seu zeloso, porém frio e reservado, protetor.
Ao descobrir, todavia, por meio de terceiros, que o “padrinho” era seu verdadeiro pai, o jovem Riobaldo foge de casa e inaugura seu errante existir. Um reencontro fortuito com o agora jagunço Reinaldo – o Menino que conhecera, adolescente ainda, numa travessia de barco do São Francisco, e que desde o primeiro instante exercera inexplicável e magnético fascínio sobre ele – sela o seu destino.
Convencido e atraído por Reinaldo, sob o efeito inebriante daquele inesperado reencontro – como do que só em jornal e livro é que se lê –, Riobaldo aceita integrar o bando de Joca Ramiro e dá início à sua carreira de jagunço. O amor faz dele um matador.
Se o começo de tudo foi só mesmo por conta da amizade, ou seja, por força do desejo de ficar perto do amigo que tanto lhe fascinara, a passagem do tempo confirma não somente certa vocação bandoleira, mercê de sua notável destreza com armas de fogo, mas principalmente a força daquele vínculo de afeto – promessa de intimidade com aura de destino – contra o qual vã parecia qualquer veleidade de negação. No itinerário de sua jornada amorosa, o Menino que reapareceu Reinaldo logo revelar-se-ia, só para ele, Diadorim.
O Riobaldo maduro, é certo, vê-se em desacordo com o Riobaldo moço, mas o fato é que desacordo habitou-o desde o início. Na itinerância jagunça não menos que na vida amorosa, o jovem Riobaldo sempre viveu em dissonância consigo.
Por sua origem social, formação letrada, sensibilidade e índole especulativa – criança que eu já estava crespo da confusão de todos –, ele nunca sentiu que pertencesse inteiramente à cultura da jagunçagem ou integrou de corpo e alma a forma de vida dos bandos a que esteve ligado. Repugnava-lhe, especialmente, o abuso e a matança indiscriminados dos moradores inocentes que calhavam de viver nos povoados por onde passavam.
Embora os membros do bando fossem, no convívio entre si, amigos bondosos, se ajudando uns aos outros com sinceridade nos obséquios e arriscadas garantias, mesmo não refugando a sacrifícios para socorros, esses mesmos homens se doavam às piores atrocidades quando se tratava de executar ordens de se dar fogo contra o desamparo de um arraial, de outra gente, gente como nós, com madrinhas e mães – eles achavam questão natural, que podiam ir salientemente cumprir, por obediência saudável. Como feras desembestadas, demitiam de si a justiça.
Tomado de aguda repulsão não só pelo que via e testemunhava, mas por sua parte-cúmplice nesse mundo, ele se questiona: e quantas outras doideiras assim haviam de estar regendo o costume de vida da gente, e eu não era capaz de acertar com elas todas, de uma vez! [...] parecia que era só eu quem tinha responsabilidade séria neste mundo; confiança eu mais não depositava, em ninguém. A fratura do éthos jagunço – bom e abnegado com os seus, cruel e terrivelmente atroz com os de fora – feria a sensibilidade moral do jovem Riobaldo, o horror que me deu – o senhor me entende?, e incutia-lhe um sentimento de solidão e estranheza junto aos pares e (não menos) a si mesmo.
E se ele tivesse tido outra sina, interpelava-se, sendo só um coitado morador, em povoado qualquer, sujeito à instância dessa jagunçada? E quem, afinal, era ele, planta exótica, dilacerado, junto aos seus? Mas, se isso sendo assim possível, como era pois que agora eles podiam estar meus amigos?!
E quando buscava se fazer ouvir e comungar dúvidas e inquietações com eles, ninguém nem mal me ouvia, achavam que eu era zureta ou impostor, ou vago em aluado. [...] A conversa dos assuntos para mim mais importantes amolava o juízo dos outros, caceteava. A fratura alojada em seu espírito – eu nunca tinha certeza de coisa nenhuma – não era menor que a do mundo social – violento, cruel e facínora – ao qual despertencia. Desprezo de si, cisma de todos.
Daí que inúmeras vezes, ainda que sem dar corpo ao intento – fugi até da precisão de fuga –, Riobaldo cogita fugir e abandonar de vez essa vida, sumir no mundo, sem anunciar partida. Alma estranha na jagunçaria, então por que não dava nos cascos e batia em retirada? Por que não renegava o viver errante? O motivo por que não abandonava essa vida é o mesmo que primeiro o fez ingressar nela: Diadorim.
Pois desde que ele apareceu, explica, eu não podia mais, por meu próprio querer, ir me separar da companhia dele, por lei nenhuma. Não foge, mas não age. Se a vingança da morte de Joca Ramiro, cuja desforra Diadorim – seu único filho – não admite abrir mão, é o norte da ação bandoleira, a saga do amor proibido é o nó bem atado do drama passional de Riobaldo.
Que amor era aquele? A flor do amor tem muitos nomes. E Riobaldo colheu um sortido buquê: Rosa’uarda, a namorada turca, moça feita, que me ensinou as primeiras bandalheiras, e as completas [...] fiz com muito anseio e deleite; a filha da vidente Ana Duzuza, Nhorinhá: a prostitutriz com quem, por um triz, sua vida não virava por entre outros morros, seguindo para diverso desemboque; a meiga Otacília, companheira do seu morar residido, moça donzela da mais firme e serena presença – o prêmio feito esse eu merecia? –, grande amor da madureza: bem-querer de minha mulher foi que me auxiliou, rezas dela, graças. Amor vem de amor.
O amor por Diadorim, todavia, era flor de outra cepa. A qualidade erótico-ardente da relação se anuncia eloquente desde o primeiro relance, adolescentes ainda, na travessia do Rio Chico. O fortuito reencontro, anos depois, reacende a faísca e faz ressuscitar a flama.
Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Desatino por jagunço, macho em suas roupas e suas armas – paixão equívoca-inequívoca. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar por longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Bruta flor do proibido querer.
Na distância do tempo, o Riobaldo narrador remira o passado e tenta explicar-se o encoberto; em chave reflexiva, contrasta e distingue duas formas de amar.
Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando. É flor regada. Mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois. Agreste em flor. O toque de uma iniludível fatalidade, para além dos ditames da vontade e humana compreensão – infenso aos mais sagrados costumes e interditos morais – permeia como um baixo contínuo o desenrolar do romance.
A natureza clama, o tabu soterra. O desacordo é radical. Riobaldo reconhece e admite sentir o que sente – amor mesmo amor, mal encoberto em amizade –, mas não suporta aceitar ou admitir-se o que nele sente – vexável afeição que me estragava, feito um mau amor oculto.
Calado consigo ao despertar de um invasivo sonho erótico, mirando o amigo de carne e osso ali sentado, à beira de um fogo, Riobaldo peleja e ensaia persuadir-se a si mesmo: “Nego que gosto de você, no mal. Gosto, mas só como amigo!...” E emenda: Assaz mesmo me disse. De por diante, acostumei a me dizer isso, sempres vezes, quando perto de Diadorim eu estava. E eu mesmo acreditei. Ah, meu senhor! – como se o obedecer do amor não fosse sempre ao contrário. À mercê de frágil armistício e instável malabarismo, seu espírito oscila em perene e periclitante autoengano. Como negar o inegável? Como esconder-se de si?
Os tempos, por óbvio, eram outros. O estigma da homoafetividade, tida como inominável ignomínia, era um pilar do éthos patriarcal sertanejo, e com redobrada força na subcultura da jagunçagem. Riobaldo tem o tabu enraizado e fincado na alma. É presa dos seus medos e mitos, pânicos e preconceitos; sente-se possuído pelo Demônio – daí seu tormento. Coração da gente – o escuro, escuros.
E se “a essência de haver um problema”, como já se disse, “é não haver solução”, então seu torturado impasse amoroso era um problema dos bons. A suprema ironia, entretanto, é que problema real, ao fim e ao cabo, de fato não era. Ou não precisaria ter sido – com tabu e tudo. Como o desfecho do romance elucida, o fato é que a interdição do tabu – causa imaginária da culpa-vergonha que o devora – não tinha pertinência e carecia de validez no tocante a esse amor.
Diadorim prometera ao amigo a revelação de um grande segredo assim que a vingança do pai se consumasse. Não sucedeu. Pois como ele morre no ato mesmo, faca a faca, de matar o inimigo, a desforra se consuma, mas o desvelar do segredo por sua boca não.
Entretanto, ao lavar e vestir o corpo do amado companheiro para o enterro, a insuspeita verdade vem à tona e fulmina como um raio as retinas de Riobaldo. O hieróglifo se rende e o segredo longamente ocultado se despe: que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita... Estarreci. O Menino-Reinaldo-Diadorim – minha neblina – era Deodorina, seu nome de batismo. O que possível sempre fora, longe/perto, nunca mais pode ser: o grande amor vivível não vivido. Um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala. Desenredo.
POESIA
A fala e a forma. Há textos nos quais o que é dito guarda um vínculo extrínseco com o modo como se diz. O conteúdo pode ser reescrito, parafraseado ou traduzido em outra língua sem maior prejuízo – ou mesmo, em alguns casos, com vantagem – em relação ao original.
É o caso, por exemplo, dos textos de cunho prático, técnico ou cognitivo, cujo objetivo é transmitir de modo claro e preciso, com o mínimo de ambiguidade, o que têm a dizer. A forma deve estar a serviço da fala como a lente de contato a serviço da visão – tem uma função a cumprir. Quanto mais transparente, melhor.
Radicalmente outra, no entanto, é a realidade do texto poético ou de alto teor literário. Pois uma de suas características essenciais é justamente o fato de que, nele, o que é dito guarda um estreito vínculo de afinidade com o modo como se diz. Vão juntos: a forma fala. E, no limite, tornam-se inextrincáveis (daí, aliás, a pertinência da conhecida boutade: “A poesia é o que se perde na tradução”).
O prodígio estilístico de Grande sertão é como ele opera a liga entre fundo e forma. O romance, claro está, conta uma história: os anos de jagunçagem de Riobaldo. Mas o modo como isso se realiza em palavras é mais do que constitutivo – é da essência – da história contada. Se o leitor adentra, mergulha e se vê como que transportado para o mundo sertanejo recriado na obra, isso decorre de uma experiência imersiva que não é menos linguística do que ficcional. Proeza mágico-lúdica do contar.
A prosa poética rosiana, fruto de infatigável trabalho de pesquisa e maturação, instaura um universo linguístico todo seu. Ela não é somente um instrumento a serviço da construção da narrativa, mas pertence à realidade por ela recriada com a mesma potência, vivacidade e força elementar do mundo sertanejo – natural, social e psíquico – dos seus personagens.
Mais do que espelho ou reflexo, a textura linguística da obra se afirma ela mesma como elemento de primeira ordem a constituir esse mundo – o macrossertão geográfico e o microssertão íntimo. O dito e o modo de dizer em uníssono: acorde perfeito. O sertão feito verbo.
Eu queria tudo, sem nada! – declara Riobaldo sobre a decisão de fazer a temível travessia do Liso do Sussuarão, o raso, inóspito chapadão semiárido encravado nos Gerais, à frente do seu bando, sem antes tomar qualquer providência para garantir o êxito da jornada: Eu não era o do certo: eu era era o da sina. É a força da crença em si – e na predestinação de si – como convicção conducente, não raro necessária, às mais temerárias aventuras. E, contra toda a lógica, a aposta vinga.
Menor, todavia, não foi a audácia do inventa-línguas, criador de Grande sertão, como ele revela em carta à então professora da Universidade de Wisconsin Mary Lou Daniel, uma estudiosa de sua obra: “Eu quero tudo: o mineiro, o brasileiro, o português, o latim – talvez até mesmo o esquimó e o tártaro. Queria a língua que se falava antes de Babel.” Mas com uma crucial diferença. Pois se a ousada ambição faustiana do seu projeto autoral ombreia a temeridade do seu herói-protagonista, ela não teve, ao contrário desta, nada de impulsivo e irrefletido improviso. Se a prudência é a lógica convertida em ética, Rosa não era menos do certo do que da sina.
A prosa rosiana resulta de um ato de possessão criativa e quase furor poético, visto que nela, como ele detalha, “tudo, ou quase tudo, foi efervescência de caos, trabalho quase ‘mediúnico’ e elaboração subconsciente”; uma espécie de transcrição ou tradução “de algum alto original, existente alhures”. Isso, porém, não é tudo. Pois ela é igualmente, em grau superlativo, algo pensado e premeditado: o resultado de um vasto, paciente, burilado e hiperconsciente trabalho de garimpo, experimentação e apuro formal.
Prosa recebida não menos que prosa resoluta, minuciamorosamente tecida, a escrita rosiana mobiliza um fabuloso arsenal de recursos expressivos e explora com riobaldiana coragem a sinuosa plasticidade e todo o potencial irrealizado da língua portuguesa, especialmente o “idioma clássico-arcaico” conservado de modo “quase intacto” na fala sertaneja de Minas Gerais.
A urdidura do texto combina duas vertentes de inovação.
De um lado, está o buritizal exuberante do léxico: a atmosfera semântica marcada pela profusão de neologismos, desinências afetivas e inusitadas onomatopeias; ruralismos mineiros e florações da gíria; arcaísmos de extração latina e estrangeirismos; palavras quase mortas ressuscitadas, aposentadas reativadas e ossificadas reanimadas, sem esquecer da pletora de antropônimos, alcunhas, apelidos, topônimos e nomes de plantas e bichos. Além, é claro, das mais de vinte designações perfiladas do Coisa-Ruim que – não obstante – não existe.
E, de outro, a transbordante inventividade dos achados inesperados e soluções felizes de engenharia sintática: elipses, redundâncias e inversões; permutação de prefixos verbais; flexões nominais e verbais inusitadas; inversão de categorias gramaticais; substantivação de adjetivos, verbos e advérbios; pausas e pontuação idiossincrática e, especialmente, a fina calibragem de ritmos, sonoridades e perfis locucionais adequados à persona de cada personagem da trama.
Quando Riobaldo, por exemplo, querendo divertir os companheiros, repete os ditos vezeiros de Zé Bebelo em tantos discursos e, ao fazê-lo, peleja para afetar, por imitação de troça, os sestros do ex-chefe, os amigos de início o estranham sem compreender; mas, assim que percebem a tenção de mofa e se dão conta da zombaria, logo pegaram a rir. Aí riam, de miséria melhorada. Quanto a Riobaldo, por seu turno, Rosa não se exime de, vez por outra, conferir-lhe uma certa inclinação pernóstica comum às pessoas carentes de instrução formal avançada que almejam causar impressão de lustro e refinamento aos olhos de interlocutores citadinos de suma doutoração.
O que pode ser dito? Muita coisa importante falta nome. Nossas vivências mais íntimas não são nada tagarelas. Mas se “os limites da linguagem denotam os limites do meu mundo”, como lembra o filósofo, vem o poeta inventa-línguas e diz o indizível: o que não se deixa falar. Guimarães Rosa expande as fronteiras do que pode ser dito. Em cada frase, por singela, a surpresa, o inesperado; algo prenhe de aventura, ousadia e insólita beleza. Em cada palavra, como por encanto, o viço-vigor: as células-tronco da nossa língua desveladas e cultivadas como por dons de feitiço. O vir à vida das primícias. Em Rosa, o desbravar criador faz de quem caminha com ele não receptor passivo, mas cocriador do seu mundo.[2]
VALOR METAFÍSICO-RELIGIOSO
Temporariamente apartados do bando, Riobaldo e Alaripe viajam sertão adentro. Noite mexida, maldormida. De manhã bem cedo, quase sem ter o que comer, Alaripe tira da capanga um frasco de cachaça e oferece ao companheiro o primeiro gole. Riobaldo toma com alívio e tenta entabular conversa: – O que é que tu acha do que acha, Alaripe?
O comparsa, porém, amigo meu – e meu estranho, desentende; põe-se a falar do comezinho: lugares malditos e inimigos à espreita. Riobaldo não se dá por satisfeito; cobra e insiste: Atalhei: – que não isso; que da vida, vagada em si, no resumo? E Alaripe emenda: – A pois, isto... Homem, sei? Como que já vivi tanto, grossamente, que desgastei a capacidade de querer me entender em coisa nenhuma... Ao que Riobaldo, atiçado, arremata: – Não podendo entender a razão da vida, é só assim que se pode ser vero bom jagunço.
O berço é o espanto. A filosofia nasce da surpresa e do assombro diante do que nos intriga e estremece, mas ultrapassa a nossa compreensão; o realce de alguma coisa que o entender da gente por si não alcança. As questões fundamentais da existência – o porquê e o para quê de tudo – afloram sem nos pedir licença e estão fadadas a nos interrogar a todos em algum momento, não importa o grau de instrução ou classe social; são inquietações que nascem diretamente da experiência, muitas vezes na infância, mesmo que nada tenhamos lido ou estudado a respeito.
Poucos, entretanto, sentem de forma aguda e contínua o seu apelo. O espanto primordial da infância, fruto da inocência, dá lugar à impassibilidade madura, fruto da rotina. “Vivemos, de modo incorrigível, distraídos das coisas mais importantes”, como observa o narrador de O espelho, o mais abertamente filosófico conto de Guimarães Rosa. No sertão não é diferente. Sertanejo comum, Alaripe é como todos; o herói rosiano é um só.
Mesmo que o desejasse – e a certa altura acusa uma ponta de inveja de Jõe Bexiguento, duro homem jagunço [...] a ideia dele era curta, não variava – Riobaldo nunca daria um vero e bom jagunço. Tem dúvidas demais. A órbita dos anseios e das inquietações que o povoam, pautada pela teima interrogante de saber que o impele, e por uma firme independência de juízo – eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente [...] Diverjo de todo o mundo – extrapola o mundo em que, pelo amor de Diadorim, calhou de viver.
Ao narrar sua sina, adverte, o que mais importa não é o enredo externo; não é contar uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matéria vertente. O que vale mesmo, ele frisa, é o que está por baixo ou por cima, para além e aquém das miudezas e dos tontos movimentos – guerras e escaramuças, saques e tocaias – da errância jagunça. Eu queria decifrar as coisas que são importantes.
O valor metafísico-religioso no Grande sertão ramifica-se em múltiplas temáticas. Uma questão, no entanto, percorre a trama de fio a pavio: a existência (ou não) do Diabo.
Riobaldo perscruta o lado obscuro da existência e quer decifrar a origem do mal no mundo: o mal dentro de si, nos recessos da alma, e o mal à vista de todos: o Diabo na rua, no meio do redemoinho (epígrafe do livro). É a preocupação que abre e fecha o romance.
A carnificina jagunça da qual se torna cúmplice – O mal regeu – e o tormento do desejo irreprimível/reprimido por Diadorim dão a Riobaldo a sensação recorrente de estar à mercê de uma força maligna alheia a si mesmo – uma força demoníaca. Ao mesmo tempo, a ambição pela qual sente-se tomado de ser mais do que fora até então – um raso jagunço atirador, cachorrando por este sertão – levam-no a um estado febril delirante e ao gesto extremo de buscar, depois de muitos ensaios e refugos, em dia e hora marcada, numa encruzilhada das Veredas Mortas à meia-noite, um pacto com o Demônio. Mas o Tisnado não dá as caras.
É na tentativa de responder à dúvida que o atormenta – E o demo existe? [...] Vendi minha alma a quem não existe? Não será o pior?[...] Ainda hoje eu conheço tormentos por saber isso – que ele recorre com insistência não apenas ao seu interlocutor oculto, mas a Quelemém, o sábio compadre, em busca de lenitivo e paz de espírito. Incerto de si, roga ouvir deles a resposta certa e a douta confirmação do que sente bruxulear e luzir em seu espírito, mas que é luz trêmula ainda, irresoluta, longe da ansiada certeza.
Os dois confidentes, por sua vez, concorrem no intuito de apaziguá-lo, negando a existência do Cujo e isentando-o de culpa. Tem cisma não, orienta o compadre, pensa para diante. É o que também aconselha, mais de uma vez, o admirado doutor. Se já no início do livro Riobaldo agradece – as ideias instruídas do senhor me fornecem paz –, ao concluí-lo arremata: Amável o senhor me ouviu, minha ideia confirmou: que o Diabo não existe. Imediatamente porém, sendo quem é, torna a cismar e apensa: Pois não?
O Diabo existe? Riobaldo vacila e oscila. Mas, se em nenhum momento ele crava ou fecha a questão, o arco da narrativa deixa entrever uma clara mudança de ênfase. A diferença reflete a distância que se abre entre o Riobaldo narrado – o jovem Tatarana, imerso na cultura arcaica do universo jagunço – e o Riobaldo narrador, fazendeiro casado e assentado na vida, agora sob o influxo do contato frequente com as luzes da cultura letrada e citadina.
No desenrolar dos anos de aprendizagem do herói rosiano, o Diabo da cultura arcaica recede no horizonte metafísico-religioso, ao passo que a origem do mal ganha morada e assento na cabeça das pessoas. Travessia.
Num dividido de minuto, a gente perde o tino por dez anos. [...] Sofri os pavores disso – da mão da gente ser capaz de ato sem o pensamento ter tempo. Como dar conta dos impulsos que irrompem no peito e na mente contra a nossa vontade e que nos tentam poderosamente a fazer o que é errado? Como explicar a sensação de que esses impulsos, vedados ao controle consciente, não nos pertencem; de que não nascem efetivamente de nós mesmos, mas parecem dotados de uma vida e energia próprias, capazes de nos compelir à ação como se atuassem de fora para dentro, esporeando e motivando sentimentos, atos e devaneios que nos afrontam como se fossem alheios? Quem ou o quê?
A imaginação odeia o vácuo. A existência de um espírito ou força maligna como entidade do mundo externo, ou seja, do Diabo como um ente sobrenatural dotado de realidade objetiva com o qual se pode travar contato e negociar o destino pessoal é uma crença arraigada e recorrente nas culturas arcaicas do mundo pré-moderno. O Riobaldo matador, perdido por Diadorim, pertence a esse mundo.
Outra, no entanto, é a perspectiva do Riobaldo narrador. Alma da gente [...] é arraial escondido por detrás de sete serras. O arco de Grande sertão retrata a transição – embrionária e flutuante – da crença arcaica numa força malévola diabólica a subjugar e desencaminhar os destinos humanos para a crença no mal como um fenômeno de consciência – o Demônio naturalizado como um aspecto do psiquismo de cada indivíduo, com suas debilidades, taras inconfessas e escuridão: O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano.
Nem tudo, porém, são águas claras ou pastos demarcados. A frequência com que Riobaldo volta aos seus mestres ao longo da narrativa, sempre à procura de resposta definitiva ao que, como ele diz, ainda hoje lhe atormenta, é índice da sua consciência desinquieta e oscilante.
A gente só sabe bem aquilo que não entende. Se a conclusão de que tudo afinal se resume e esclarece na figura do homem humano fosse alguma coisa pacífica e definitiva, ele não precisaria recorrer com tanta insistência à muleta do apoio e da garantia externos. O mal naturalizado não é menos perturbador que o mal sobrenatural. Quem desconfia, fica sábio.
Como tanta coisa em Grande sertão, aqui também a ambiguidade é senhora: a transição é instável e a conclusão inconclusiva. Não terá sido à toa que, por determinação do autor, a fita infinita de Moebius aparece grafada após a última palavra de Riobaldo – Travessia – e o ponto-final do livro.
Para além da questão do mal, o valor metafísico-religioso de Grande sertão abarca outros tantos temas de alto teor especulativo. Entre eles: a tensão entre acaso, livre escolha e destino; a sempre escorregadia e traiçoeira relação entre pensar e agir; o sentido e a potência do ato de rezar; e a ideia de uma profunda religiosidade, porém desvinculada da adesão a um credo ou religião específica – Bebo água de todo rio... Uma só [religião] para mim é pouca, talvez não me chegue (esta, aliás, a posição de Rosa, como ele revela em carta ao tradutor italiano, Edoardo Bizzarri: “Sou profundamente, essencialmente religioso, ainda que fora do rótulo estrito e das fileiras de qualquer confissão ou seita; antes, talvez, como o Riobaldo do GS:V, pertença eu a todas.”)
De cada um desses temas, porém, o que se pudesse dizer dificilmente faria jus à peculiar intensidade com que ele aflora na trama e se concretiza como experiência viva nas errâncias do herói-narrador. Em todos os casos, está a formidável capacidade rosiana de prospectar com coragem e fineza as reentrâncias da alma por onde se infiltram as sombras e as luzes do mistério humano. Sombra: Quem sabe do orgulho, quem sabe da loucura alheia? Luz: A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero.
A prosa rosiana mira o esquivo: o que não se deixa falar – e cala: o ponto exato em que o singular absurdo de cada consciência individual, no que ela tem de mais intratável, caprichosa e incomunicável, rompe o dique, vence o estreito e roça a outra margem. A visão-lampejo do incomum nas veias da vida comum – o pulso agreste do mistério que a má religião entorpece e a má ciência silencia. São raros, estes, em qualquer língua.
O segredo? O autor de Grande sertão responde: “Trabalho, trabalho, trabalho [...] Apenas sou incorrigivelmente pelo melhorar e aperfeiçoar, sem descanso, em ação repetida, dorida, feroz, sem cessar até o último momento, a todo custo. Faço isso com os meus livros. Neles, não há nem um momento de inércia. Nenhuma preguiça! Tudo é retrabalhado, repensado, calculado, rezado, refiltrado, refervido, recongelado, descongelado, purgado e reengrossado, outra vez filtrado.”
E, no entanto – digo eu –, faltou dizer: o relâmpago, o prodígio. A indômita coisinha ilógica. Ou como ele se permitiu revelar em rara entrevista: “De repente, o Diabo me cavalga.”
A vida não é só o que se vê. O que podemos saber? Eu me inventei, neste gosto de especular ideia, anuncia Riobaldo. Sertão: a vasta, traiçoeira realidade inabrangível; veredas: as trilhas, oásis e vislumbres do tíbio-mortal saber.
O que não é influi e governa o que é. A ignorância infinita desconcerta o saber finito: a vida não é entendível. Em Rosa, o impulso criador está a serviço de um propósito definido: o reencantamento do mundo pela presença do mistério. O trêmulo júbilo na alma do leitor.
“Reporto-me ao transcendente”, diz o narrador de O espelho, contraponto rosiano, em chave analítica, ao conto homônimo de Machado de Assis: “Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.” Ou como dirá Riobaldo, em chave alegórica: Esta vida está cheia de ocultos caminhos. [...] Serras que se vão saindo, para destapar outras serras. Tem de todas as coisas. Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas. Ponto de fuga entre os fantasmas da religião e os espectros da razão, Rosa não tem fim.
“Um dia, quando já não houver Império Britânico nem república norte-americana, haverá Shakespeare; quando não se falar inglês, falar-se-á Shakespeare. Que valerão então todas as atuais discórdias? O mesmo que as dos gregos, que deixaram Homero e os trágicos.”
O que disse Machado do bardo inglês, penso eu, pode-se dizer sem exagero do bardo mineiro. Haverá Guimarães Rosa, falar-se-á Guimarães Rosa. “Misteriousança”: a ousadia de mirar o mistério. Que as sombras e os males do presente não nos deprimam ou iludam. Se Grande sertão existe, a grandeza do Brasil não pode andar longe. A gente vive não é caminhando de costas?
[1] Todas as citações deste ensaio são da primeira edição de Grande sertão: veredas, publicada pela Livraria José Olympio Editora em 1956.
[2] Este parágrafo foi parte do discurso de posse do autor deste texto, quando assumiu sua cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL).