Kassab, no elevador do seu prédio: ele já disse que o PSD não era direita, nem esquerda, nem centro. Ontem, disse que é “centro-direita”. No dia seguinte, disse que é “de centro” CRÉDITO: BOB WOLFENSON_2024
O homem da planilha
Gilberto Kassab prepara o PSD para os próximos trezentos anos
Luigi Mazza | Edição 218, Novembro 2024
O escritório de Carlos Takahashi é, em suas próprias palavras, “instagramável”. Fica no segundo andar do Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo. É dos poucos ambientes que ainda não foram repintados desde que João Doria saiu do governo do estado, em 2022, deixando para trás um palácio quase todo preto – o piso de madeira, as paredes, as mesas, as portas, a moldura das janelas. O que atrai os cliques de Instagram são os recados espalhados pelo recinto. Na porta de entrada do escritório, lê-se nas cores azul e vermelha: “Aqui neste setor não fazemos o mínimo necessário, buscamos realizar o máximo possível aos municípios do nosso estado!” Uma plaqueta de papel sobre a mesa informa que a administração pública requer três B’s: “Boa vontade; bom senso; boa organização.”
Takahashi é assessor especial de atendimento aos municípios. Mas, a quem o visita, exibe orgulhoso um cartão com um título diferente: “Carlos Takahashi: assessor do prefeito.” Qual prefeito?, alguém pode perguntar. Os 645 prefeitos do estado de São Paulo, ele responderá. Desde janeiro do ano passado, 643 já o visitaram naquela sala. Pleiteiam verbas para recapear estradas, construir pontes, reformar postos de saúde, equipar escolas. As únicas ausências são Ricardo Nunes (MDB), o prefeito da capital – “ele fala direto com o governador”, diz Takahashi – e Marcos Tonho (Republicanos), prefeito de Santana de Parnaíba. “Essa cidade tem uma arrecadação extraordinária. Não pedem ajuda, e eu também não vou atrás.”
O assessor se refere ao escritório como “canto do prefeito”. Passam por ali, segundo suas contas, de vinte a trinta alcaides por dia (durante a campanha eleitoral, o número baixou para meia dúzia). Alguns são assíduos: o mandatário de Macedônia marcou presença 36 vezes desde julho do ano passado. O de Votuporanga, 22. Takahashi montou um ranking dos prefeitos que mais o visitam. Outra tabela contabiliza os pedidos que ouviu: 9 356, entre janeiro do ano passado e outubro deste ano.
Os visitantes são recebidos com água, café e lanche, que inclui doce de leite, queijo, pipoca, paçoca e bolo de banana. Para atender tantos pedidos – que vêm dos prefeitos, mas também de suas comitivas –, Takahashi segue uma rotina estrita. Não pisa fora do escritório de segunda a sexta-feira, das nove da manhã às oito da noite. Responde depressa as mensagens de WhatsApp e nunca recusa um telefonema. Não sai para almoçar – come na mesa do escritório, em dez minutos, uma quentinha que prepara em casa. Quando tira férias, não deixa de passar no palácio uma vez a cada dois dias.
Takahashi gosta de listas. “Duas coisas balizam o meu trabalho”, diz. “A primeira é acolhida: o prefeito tem que ser bem recebido no palácio, se sentir autoridade. A segunda é resolutividade. O prefeito que percorre 500 km até a capital não vem para tomar café. Ele quer as demandas do município atendidas. Sim ou não – tem que ter resposta.”
Na parede à sua direita, fica pendurado um mapa em larga escala do estado de São Paulo. Uma linha pintada com caneta azul o corta ao meio, conectando Campina do Monte Alegre, no Sul, a Cardoso, no extremo Norte. Takahashi a traçou para lembrar de uma lição valiosa. Certa manhã, em julho passado, enviou uma mensagem ao prefeito Tiago do Zé Dito (PSD), de Campina do Monte Alegre, avisando que o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) havia enfim liberado o dinheiro para pavimentar duas estradas vicinais do município, que conta menos de 6 mil habitantes. Exultante, Tiago quis saber onde estava Tarcísio, para agradecer a ele pessoalmente. Takahashi disse que não seria possível: o governador cumpria agenda em Cardoso, a 562 km de distância. O prefeito não se intimidou: dirigiu mais de seis horas para encontrá-lo. Emocionou-se na chegada.
“Desenhei essa linha para ficar registrado que não há limites nem para pedir, nem para agradecer”, conclui Takahashi, mirando o mapa. Em seguida, repete o mesmo lema num tom repreensivo. “Muita gente é rápida para pedir, mas não para agradecer.”
Takahashi é paulistano, filho de pai japonês e mãe nissei. Tem 61 anos e há vinte trabalha para o ex-vereador, ex-secretário, ex-vice-prefeito, ex-prefeito, ex-ministro, ex-deputado e atual secretário estadual de Governo e Relações Institucionais, Gilberto Kassab.
Takahashi conheceu o patrão em 1992, quando os dois se candidataram a vereador em São Paulo – ele pelo PDS, Kassab pelo PL. “Ele era magrinho, alto, com óculos de fundo de garrafa”, lembra o assessor. “Parecia coroinha de igreja misturado com nerd.” Kassab recebeu 13 mil votos e foi eleito. Takahashi, com pouco mais de 7 mil, amargou a terceira suplência. Os dois se afeiçoaram. Para onde sua carreira o levou, em São Paulo ou Brasília, Kassab se fez acompanhar do amigo, quase três anos mais novo.
Quando assumiu a Secretaria de Planejamento da cidade de São Paulo, em 1997, Kassab indicou Takahashi ao então prefeito Celso Pitta, dizendo: “Ele é bom com papel.” Pitta acatou a sugestão e nomeou Takahashi como assessor especial de Relações Intermunicipais. Uma função burocrática, que muito o agradou. “Eu acredito que papel é vida”, diz o assessor. “Não o papel em si, mas tudo o que ele representa: anseios, sonhos, necessidades…”
Kassab se elegeu vice-prefeito de José Serra (PSDB), em 2005. Não precisou indicar Takahashi a cargo algum, porque o amigo já havia sido apadrinhado por Walter Feldman (PSB). Tornou-se, num primeiro momento, chefe de informática da Secretaria de Subprefeituras. Dali, pulou para a Secretaria de Esportes. Fez de tudo na campanha de Kassab a prefeito, em 2008, inclusive doar 2,7 mil reais de seu próprio bolso e se vestir de “kassabinho”, boneco inflável que animava os comícios e caminhadas de rua.
Vencida a eleição, Takahashi foi nomeado chefe do cerimonial da prefeitura. É especialista no assunto. Em 2001, fez um breve estágio no Japão, onde aprendeu as formalidades da família imperial. Tornou-se um conhecedor dos simbolismos do poder, como a ordem em que autoridades devem ser anunciadas numa cerimônia e onde devem se sentar à mesa do jantar. Aplicando a mesma filosofia de seu trabalho com os prefeitos, publicou há alguns anos um livro digital chamado Os 3 B’s do cerimonial.
Em janeiro do ano passado, Kassab assumiu o cargo atual no governo de Tarcísio de Freitas e empossou Takahashi na nova função. O assessor acorda às cinco da manhã. Às seis, lê o Diário Oficial do estado e, quando detecta boas ou más notícias, informa os prefeitos. Depois, folheia três jornais: Folha de S.Paulo, Estadão e O Globo. “O Kassab sempre diz: ‘Leia também o Valor Econômico.’ Eu não gosto do Valor.” O patrão o ensinou a ler a versão diagramada dos jornais, e não apenas as notícias avulsas, para saber “o valor que o chefe da Redação deu para cada matéria”.
Em que pese seu amor ao papel, Takahashi comanda hoje uma operação quase inteiramente digital. À sua esquerda, um computador; à sua frente, um tablet; no fundo da sala, um enorme monitor onde são feitas apresentações para os prefeitos. “Japonês é muito visual”, ele justifica. Mensagens de políticos e assessores apitam sem parar no WhatsApp aberto no computador. “Preciso do dinheiro do empréstimo essa semana”, escreveu a prefeita de Nova Canaã Paulista, Thais Moreira (PSD), numa terça-feira de setembro. “Ajuda eu a receber esse restinho”, suplicou a alcaide de Estiva Gerbi, Claudia Botelho (MDB).
Takahashi acessa no monitor um software desenvolvido a pedido de sua equipe. Ao clicar no nome de um município (Cedral, por exemplo), é informado de tudo o que precisa saber: o nome do prefeito (Paulo Ricardo), o nome pelo qual o prefeito é conhecido (Janjão), seu partido (PSD), a população (12,6 mil), o número de eleitores (8,3 mil), o gentílico (cedralense), o PIB per capita (56,4 mil), o partido do presidente da Câmara de Vereadores (PRD), o senador mais votado na última eleição geral (Marcos Pontes, do PL), o deputado federal mais votado (Arnaldo Jardim, do Cidadania), assim como o deputado estadual mais votado (Fábio Candido, também do PL).
“O que eu busco aqui? População e PIB per capita, para saber a riqueza da cidade”, diz Takahashi, navegando pelo programa. A lista de parlamentares mais votados, segundo ele, serve a motivos práticos. “É para a gente dimensionar quem é o padrinho da região. Se eu sei que o deputado fulano teve muitos votos, é natural que ele coloque mais dinheiro e investimento naquela cidade. Com isso, nós, do Executivo, podemos colocar menos.” As estatísticas sobre a votação de prefeitos e vereadores, assim como o partido pelo qual concorreram em cada ano, estão lá “mais por curiosidade”.
Toca o telefone. É o prefeito de Ribeirão Bonito, Carlos Caregaro (PSD).
– Bom dia, Takahashi. Tudo bem?
– Graças a Deus, tudo joia.
– Você ficou de nos dar uma resposta da UBS [Unidade Básica de Saúde].
– Nós estamos analisando um jeito de ajudar o quanto antes. É que [a verba] não estava no orçamento, então nós pedimos para a Secretaria da Fazenda esse atendimento.
– Por favor, me ajuda. Isso é minha reeleição. Esse é o bairro mais populoso que temos aqui na cidade, e a oposição tá batendo em cima, porque parou a construção.
– Perfeito. O que for possível a gente vai fazer para te ajudar.
Caregaro é visitante assíduo do palácio. Pleiteia toda sorte de obras, de redes de esgoto a unidades habitacionais. Há pouco mais de um ano, postou nas redes sociais uma foto ao lado de Takahashi. Sorridente, celebrava: “Boas notícias para Ribeirão Bonito! Conseguimos 200 mil para obras de recape!” Caregaro se elegeu prefeito pelo Cidadania, em 2020, mas filiou-se ao PSD de Kassab para disputar a reeleição.
Assim fizeram centenas de prefeitos. Tiago do Zé Dito, que percorreu o estado atrás de Tarcísio, era tucano. Também migrou para o PSD. Em 2020, o partido elegeu 65 mandatários paulistas. Neste ano, foram mais de duzentos, além da maior bancada de vereadores do estado (1 079). No cômputo nacional, emplacou em torno de novecentos prefeitos, mais do que os 654 eleitos há quatro anos. Com esse resultado, tornou-se o maior partido municipalista do país, desbancando o MDB pela primeira vez em vinte anos.
É comum no Brasil que prefeitos, sobretudo os de cidades pequenas, se filiem à legenda do governador de seu estado. Como têm baixa arrecadação, esses municípios dependem de verbas estaduais e federais para tudo. Estar no partido do governador pode ser conveniente. No Amazonas, a maioria dos prefeitos está no União Brasil do governador Wilson Lima. Em Goiás, o governador Ronaldo Caiado também atraiu a maioria para o seu União Brasil. Em Alagoas e no Pará, a maioria está no MDB dos governadores Paulo Dantas e Helder Barbalho. E assim foi durante quase todo o reinado do PSDB em São Paulo, que durou 27 anos. Mas o governador paulista, hoje, é do Republicanos. Por que os prefeitos, em vez de o seguirem, optaram pelo PSD?
Takahashi recorre a uma analogia: “Se sou cliente e tenho um fornecedor que não me atende, que não me dá retorno quando peço coisas, e aí aparece outro fornecedor que busca resolver meus problemas, me entender, me ouvir… quem eu vou preferir?” Pergunto se o fornecedor relapso é o Republicanos. “É que eles não têm… qual é o ponto focal deles?”, indaga o assessor, apontando para o escritório ao seu redor. “Eles não têm. O governador não pode e não faz esse papel. É uma questão de entender a psicologia dos prefeitos.”
Edson Marcusso, reeleito em Boituva, conhece Kassab desde os anos 1990, quando também cerrava fileiras no PL. Fez campanha para o colega quando ele se candidatou a deputado federal. É um dos prefeitos mais longevos de São Paulo: iniciará, em 2025, seu sexto mandato. Até o ano passado, era filiado ao Cidadania, que trocou pelo PSD.
“Recebi convite do PP, que está na minha base. Recebi do Republicanos, que está na minha base. Mas o Kassab foi o primeiro”, conta Marcusso. Os dois conversaram em fevereiro de 2023. Kassab ainda não tinha completado dois meses na Secretaria de Governo. “E antes disso ele já tinha mandado umas dez pessoas falarem comigo.”
Prefeitos conversam entre si, e Marcusso é um veterano entre os que governam o sudeste paulista. Muitos deles são filhos de ex-prefeitos, ex-deputados, ex-senadores que se conhecem há décadas – o tradicional familismo da política brasileira. “O pessoal quis saber o que eu estava pensando. Conversei com muita gente, mas não combinamos de nos filiar todos juntos”, diz ele. Mas foi mais ou menos o que aconteceu. Depois de ter conversado com os prefeitos de Tatuí e de Tietê, os dois abandonaram o MDB e o PSDB, respectivamente, e aderiram ao partido de Kassab.
Marcusso diz ter ficado impressionado com a tenacidade do colega. “Teve recentemente a inauguração de uma creche em Jumirim, e o Kassab, um cara dessa importância e com tantos afazeres, chegou às dez da manhã. Só saiu às quatro da tarde. Foi na inauguração, na festa do prefeito, depois em um almoço com vários líderes da região.” Daniel Vieira, que em 2020 se elegeu prefeito em Jumirim pelo Democratas, filiou-se ao PSD e se reelegeu este ano. “Tem um trabalho aí”, conclui Marcusso.
No ano passado, Kassab foi condecorado pela Assembleia Legislativa de São Paulo com um Colar de Honra ao Mérito. A sessão reuniu pessedistas, petistas, bolsonaristas e outros. Leonardo Siqueira, deputado estadual do Novo, relatou aos presentes que, dois dias depois de tomar posse, recebeu uma ligação do ex-ministro, que desejava parabenizá-lo. “Fiquei pensando: ‘Poxa, esse cara deve ter falado com o presidente Lula de manhã, com o Michel Temer, com o governador, e arranjou cinco minutos para falar comigo. Como ele pode ter tamanha humildade?”
O crescimento do PSD, maior em São Paulo do que em qualquer outro estado, se deve sobretudo à derrocada do PSDB. Os tucanos elegeram 176 prefeitos paulistas em 2020. Este ano, emplacaram somente 21. Alguns buscaram refúgio no PL de Valdemar Costa Neto, outros no Republicanos de Marcos Pereira, mas a maioria preferiu o PSD de Kassab. “Todos os prefeitos têm uma história com ele”, pondera Marcusso. “Já que preciso mudar e quero ir para um partido ligado ao governo, por que não ir naquele que já conheço? Com quem já tenho história? Que já me ajudou? Que sempre se lembra de mim? Que vem até a minha cidade?”
Para Toninho Sgobi, prefeito de Paraíso, “o que mais pesou é que o Kassab é muito amigo do governador. Então pensei: através dele vou conseguir alguma coisa”. Largou o PSDB e bandeou-se para o PSD. Omar Nagib, prefeito de Santa Rosa de Viterbo, diz que não botou muita fé quando Kassab lhe pediu que apoiasse Tarcísio, em 2022. “Por afinidade, apoiamos o Rodrigo [Garcia]. A gente brincava, dizendo que o Coldplay veio mais no estado de São Paulo que o Tarcísio.” Com o tempo, mudou de ideia. Classifica como “impressionante” o desempenho do governador, e acabou trocando o PSB pelo PSD. “Foi, vamos dizer, uma cooptação”, diz Nagib, que, em seguida, faz um dicotomia notável. “Mas não cooptação ideológica. Foi por afinidade de pensamento.”
Kassab nega a fama de articulador contumaz. Instado a comentar o crescimento do PSD em São Paulo, responde: “Não fiz força nenhuma.” A conjuntura, segundo o ex-ministro, fez o trabalho sozinha. Os órfãos do tucanato, largados à deriva, precisavam de um novo partido e queriam estar na base do novo governador. Muitos deles, no entanto, rivalizavam em seus municípios com políticos do Republicanos e do PL, partidos que estão na praça há décadas, cada um com seus vícios e caciques locais. O PSD era uma tela em branco. Em muitas cidades, nem sequer tinha diretório. Quando Kassab venceu a eleição ao lado de Tarcísio, operou-se o milagre da multiplicação. O partido se alastrou pelo estado.
O ex-ministro, apesar da perspicácia política, é uma figura pacata. Alto, bochechudo, olhos azuis, caminha desengonçado e veste ternos largos, que lhe conferem um aspecto infantil. Não é um ás da retórica, fala rápido, nunca levanta a voz e parece se retrair sempre que toca num assunto controverso, como se não quisesse ser ouvido. É bem-humorado. Certo dia, flagrou Takahashi fora do escritório e gravou um vídeo em que denuncia, em tom de galhofa, o descaso naquela repartição. O assessor achou hilário.
Kassab nasceu em Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo. Aos 64 anos, ainda mora no mesmo bairro. É afeito às tradições familiares. Estudou no Liceu Pasteur, onde seu pai atuou como diretor até falecer, em 2009. Hoje, Kassab é presidente da fundação que administra o colégio. Desde que nasceu, é sócio do Esporte Clube Pinheiros, onde jogava bola quando criança (era zagueiro). Vai ao clube todas as manhãs para uma caminhada.
Nunca foi casado, não tem filhos e vive sozinho num apartamento de 456 m² com vista para o Shopping Iguatemi. Tem poucas obrigações familiares – uma delas são os almoços de domingo com os irmãos (Kassab é o quinto de sete filhos), todos engenheiros, e os sobrinhos. Sua sala de estar é dividida em quatro ambientes, decorados com um estilo protocolar: num canto, um tabuleiro de xadrez com peças enormes; noutro, uma mesa de centro com catálogos de Vermeer e Rembrandt. Notam-se, aqui e ali, as marcas do político: um relógio no formato do Brasil e três volumes da História da cidade de São Paulo, da editora Paz & Terra.
O tabuleiro de xadrez é pouco utilizado. “Já joguei bastante, mas você sabe que o enxadrista precisa estudar, né? Como não tenho tempo de estudar e não quero me meter a besta de ficar perdendo, não jogo”, diz Kassab. Em seguida, retoma o tom protocolar: “Mas xadrez é muito importante, principalmente para as crianças. Aprende a pensar, a refletir e a entender o poder da concentração. Xadrez é concentração.”
O apartamento é cuidado por duas empregadas domésticas que se revezam. Além da faxina, exercem a função de copeiras nos encontros frequentes que o patrão promove com aliados. Do teto da sala, descem um projetor e uma tela que, em reuniões reservadas, servem para examinar pesquisas eleitorais. O apartamento é tão frequentado que, para facilitar a vida dos convivas, Kassab preparou um flyer com instruções de como chegar à “residência GK”. Contém o endereço completo e uma imagem aérea do quarteirão.
Todos os dias são dedicados à política. Kassab viaja ao interior do estado com frequência, de carro ou helicóptero. Num sábado de agosto, foi a Vargem Grande do Sul, cidade onde seu pai passava férias quando criança. “Evidentemente, fiz campanha para o nosso candidato a prefeito”, explicou. De lá, rumou a Casa Branca, para um almoço. “A gente chamou uma série de amigos na casa do prefeito.” Feita a digestão, dirigiu-se a São José do Rio Pardo. “Fui ver um amigo de trinta anos, que já foi prefeito e se candidatou de novo.” A jornada só acabou em Caconde: “Também um ex-prefeito que se candidatou.” Kassab voltou para São Paulo à noite.
Otto Alencar (PSD-BA), aliado de longa data, diz que o ex-ministro tem jeito de político antigo. “O Kassab tem uma característica, que é minha também, de sempre atender ao telefone. Dá sim ou não, mas não deixa sem resposta”, diz o senador. “Quando você tem uma relação pessoal e política com alguém pelo telefone e esse alguém não te dá retorno, o silêncio é uma resposta insuportável.” O senador Sérgio Petecão (PSD-AC) acrescenta: “O Kassab até na hora de te dizer não é jeitoso.”
Petecão conta que conheceu Kassab em 2011. Estava a passeio em Ilhabela, no litoral de São Paulo, acompanhado pelo prefeito da cidade. A certa altura, foi à casa de “um cara muito rico” da região, que lhe disse: “Um amigo meu quer muito te conhecer.” “Quem é o amigo?”, indagou Petecão. “Kassab”, respondeu o anfitrião. “Falei ‘tudo bem, depois falo com ele’”, relembra o senador. “Mas o cara disse: ‘Não, ele quer falar agora.’” Petecão se espantou ao ser informado que um helicóptero o esperava para levá-lo a São Paulo.
“Pegamos o helicóptero, pousamos em cima da prefeitura e foi quando vi o Kassab pela primeira vez. Ele falou assim: ‘Petecão, quero que você me ajude a montar um partido.’ Eu achei que ele estava blefando. Então respondi: ‘O senhor tem que ir lá no Acre para a gente conversar melhor.’ Quando quero desanimar o cara, chamo ele para ir ao Acre. Nunca achei que ele fosse. Mas deu sexta-feira, e o Kassab estava lá. O cara foi até o Acre, uma porra daquelas, estado pequeno… Aí me fodi. Tive que ajudar ele.”
Guilherme Afif Domingos era um dos diretores da Associação Comercial de São Paulo quando, certo dia, recebeu a visita de um primo de seu pai. Chamava-se Anis Kassab. “Eu tenho um sobrinho que tem jeito para a política”, anunciou o parente. Afif pediu a ele que trouxesse o garoto para a associação. Foi quando conheceu Gilberto. O jovem estudava simultaneamente economia e engenharia na USP. Era safo e entusiasmado. Deu-se bem com os associados, muitos de origem libanesa como ele, e confirmou a intuição do tio.
Kassab ajudou a organizar a candidatura vitoriosa de Afif a deputado federal constituinte, em 1986. Três anos depois, coordenou sua campanha a presidente pelo PL. Viajou com o candidato por diferentes estados, carregando sempre fichas telefônicas para ligar aos políticos de cada cidade e avisar que Afif estava a caminho. Conheceu vereadores e deputados, entre eles Otto Alencar. Elegeu-se vereador em 1992 com a ajuda do pai, Pedro Kassab, um médico influente de São Paulo que arregimentou apoio de colegas, e com o amparo da Associação Comercial.
A primeira impressão de Alencar sobre Kassab foi a de “uma pessoa afável, que ouve muito”. Ambos estavam no PL e mantiveram contato ao longo dos anos. O baiano, quando de passagem por São Paulo, almoça e janta no apartamento de Kassab. Já o apresentou à mulher e a dois de seus filhos. Um deles é deputado federal. “Se Kassab não fosse o presidente do meu partido, eu o trataria do mesmo jeito.”
Em 2011, Alencar tinha acabado de se eleger vice-governador da Bahia, filiado ao PP, quando recebeu um telefonema do amigo. “Você topa reacender a chama do PSD de Juscelino?”, perguntou Kassab, que na época cumpria o segundo mandato como prefeito de São Paulo. O colega baiano topou o chamado. Estava mesmo insatisfeito com seu partido. O governador Jaques Wagner (PT) aprovou a ideia. Os petistas viam com bons olhos a nova legenda, que era mais simpática ao governo do que o antigo DEM e ajudava a diluir o poder de barganha do MDB. “Nada na Bahia nasce, mas estreia”, diz Alencar. “Filiei logo seis deputados federais e dez estaduais. E me filiei também.”
O Partido Social Democrático de Kassab nasceu em setembro de 2011, quase cinco décadas depois que o Partido Social Democrático de Juscelino Kubitschek foi dissolvido pelo Ato Institucional nº 2, na ditadura. Quem sugeriu ressuscitar o nome foi Afif. Quem sugeriu o número do partido, 55, foi Kassab. Alencar adorou. “Os votos entram na urna com uma facilidade danada.” O PSD foi o 28º partido a obter registro desde a redemocratização.
Kassab fez circular que o think tank do PSD levaria o nome de Juscelino. A associação com JK emprestava charme e sentido histórico a um partido criado por casuísmo, fruto de um racha no Democratas, antigo PFL, que por sua vez era o antigo PL, que por sua vez foi um dos sucedâneos da Arena, a legenda de sustentação da ditadura. Mas o então prefeito pôs a carroça na frente dos bois: depois de registrar um site com o nome do ex-presidente, tomou um pito da família Kubitschek, que disse não ter autorizado a ideia. O think tank foi batizado de Espaço Democrático.
Tornou-se célebre a frase de Kassab, de 2011, segundo a qual o PSD não era um partido “nem de direita, nem de esquerda, nem de centro”. O ex-ministro se justifica: estava apenas fazendo uma constatação, já que a legenda ainda não tinha elaborado um programa. Hoje, ele diz, o partido está na centro-direita com convicção. Mas a convicção cambaleia: outro dia, respondeu à jornalista Miriam Leitão que o PSD é “de centro” – sem aposto. A agenda do partido, diz Kassab, é cristalina: “Defendemos um Estado o mais enxuto possível, com a maior redução possível da carga tributária – é um absurdo a carga tributária brasileira –, e, por outro lado, um Estado que seja forte na saúde pública, na educação pública e, evidentemente, na segurança.”
O PSD tem 45 deputados federais – a quinta maior bancada da Câmara – e quinze senadores – a maior do Senado. Um grupamento diverso, que reúne figuras alinhadas ao PT e ao bolsonarismo. Entre eles, Sargento Fahur, do Paraná, que de tempos em tempos pondera se não deveria migrar para o PL de Bolsonaro. “Em 2022, procurei o líder da nossa bancada, o Antonio Brito [da Bahia], e falei: ‘Olha, tenho uma postura radical, intransigente, de extrema direita. Se o PSD não estiver confortável eu procuro outros partidos.’ Ele respondeu: ‘Não, você não vai sair, vamos trabalhar para você ficar.’”
Fahur ficou, apesar de seu partido ter ganhado três ministérios no governo Lula (Agricultura, Pesca, Minas e Energia). “Preferi continuar no PSD pelo trânsito que tenho na estrutura do partido e pela liberdade de votos”, diz o deputado. “Nunca recebi nenhuma reprimenda do Kassab.” A senadora Zenaide Maia só entrou no partido porque recebeu garantia de “total autonomia”. O senador Nelsinho Trad atesta: “Aqui não tem briga, não tem discussão.”
Por princípio, o PSD nunca fecha questão em votações no Congresso. “Nesses treze anos nunca tivemos uma crise”, diz Kassab, que há treze anos preside a legenda. Ele diz que não quer ficar para sempre. “Eu vou ficando enquanto eu vou ficando, mas porque o partido realmente não dá trabalho.” Nenhum correligionário até hoje se arvorou a substituí-lo. As eleições do PSD, que ocorrem a cada quatro anos, são pró-forma: sem concorrentes, Kassab sempre vence por aclamação. O ex-ministro não gosta de delegar e não formou lideranças partidárias no seu entorno. Ele é o partido, o partido é ele. Costuma dizer, no entanto, que abaixo de si operam “dois timoneiros”: Otto Alencar e Antonio Brito.
Os parlamentares o adoram. Petecão diz, em tom elogioso, que Kassab é “um monstro”. Para o senador Angelo Coronel (PSD-BA), ele é “um maestro”. Brito, que pretende se lançar candidato à presidência da Câmara, prefere compará-lo a um oleiro. “Sabe aquele barro que gira enquanto a pessoa vai moldando? O Kassab faz isso: ele molda os atores do partido. Não aperta. A pessoa vai crescendo, e no fim vira um jarro bonito de barro.”
O PSD apoiou a candidatura à reeleição de Dilma Rousseff, em 2014. Apostou certo. Na eleição seguinte, juntou-se a Geraldo Alckmin. Apostou errado. O tucano, atropelado pelo bolsonarismo, amealhou menos de 5% dos votos. Foram tempos difíceis. Kassab foi nomeado por João Doria como secretário da Casa Civil de São Paulo, mas, antes mesmo de tomar posse, se licenciou do cargo. Era acusado de ter recebido propinas da Odebrecht e da JBS (foi absolvido de todas as denúncias), e não quis manchar o governo com seus quiproquós. Ficou dois anos licenciado. No final de 2020, pediu exoneração.
Kassab não integrou a base do governo Bolsonaro. Diferencia-se nisso de outros líderes do Centrão – grupo do qual diz não fazer parte e que também apoiou em peso a candidatura derrotada de Alckmin em 2018. Kassab não acha que o PSD possa ser rotulado como partido fisiológico. “Fisiologismo é você perder a eleição e pular no barco do outro porque quer ser governo a qualquer preço.”
Depois do Sete de Setembro de 2021, quando Bolsonaro subiu o tom das ameaças contra o ministro Alexandre de Moraes, Kassab ventilou publicamente a hipótese de um impeachment contra o presidente. À imprensa, disse serem “muito preocupantes” os sinais de que ele preparava um golpe de Estado. Como todo mundo que tem olhos, viu certo. Bolsonaro, por essas e outras, detesta Kassab.
Na eleição de 2022, contudo, o ex-ministro optou pela neutralidade. A melhor forma de fazer isso é lançar um candidato próprio sem chance de vencer. Não deu certo. Convidado a desempenhar esse papel, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), não topou a empreitada. O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), desistiu na última hora de se filiar ao PSD. Kassab se resignou. “Não dá para lançar qualquer um, porque candidato ruim afunda o partido.”
A meses da eleição, Lula o convidou a integrar sua frente ampla. “Eu falei: ‘Presidente, o PSD não é de esquerda, não dá para a gente apoiar o senhor.’” Bolsonaro, apesar da inimizade, também procurou Kassab. “Respondi: ‘Não somos de direita, não vamos apoiar.’” O PSD, fiel à figura do partido que não toma partido, liberou seus integrantes para que fizessem o que bem entendessem. É uma posição lucrativa: não cria constrangimento para os parlamentares do Nordeste, livres para surfar no lulismo, nem para os das demais regiões, que transitam no bolsonarismo.
Em São Paulo, Kassab adotou estratégia similar. Seu plano inicial era filiar Geraldo Alckmin e lançá-lo candidato a governador. Como que para deslanchar o plano à força, chegou a divulgar no WhatsApp imagens com o slogan “Alckmistas por São Paulo”. Acreditava que o ex-governador tinha boas chances de ir para o segundo turno, desbancando o então mandatário Rodrigo Garcia, um neotucano por quem Kassab sente uma inimizade profunda (a briga dos dois, antigos aliados que conviviam no DEM, remete à época da criação do PSD). Lisonjeado, Alckmin flertou com a ideia, mas acabou fisgado pelo convite para se filiar ao PSB e se candidatar a vice de Lula.
Kassab, então, saiu à caça de outros tucanos abandonados. Incensou três prefeitos que, por estarem em segundo mandato, poderiam ser receptivos à empreitada: Duarte Nogueira, de Ribeirão Preto, Paulo Serra, de Santo André, e Felicio Ramuth, de São José dos Campos. Os dois primeiros recusaram; o terceiro topou. Largou o PSDB, renunciou à prefeitura e em abril foi anunciado como candidato ao Palácio dos Bandeirantes.
Ramuth nunca marcou mais do que 2% nas pesquisas eleitorais. Enquanto ele punha o bloco na rua, Kassab fazia o que faz de melhor: negociava com os outros pré-candidatos. Reuniu-se com Márcio França (PSB) e com Fernando Haddad (PT). Não conhecia Tarcísio, até que, em meados de maio, foi procurado. O candidato, recém-licenciado do Ministério da Infraestrutura, pediu a Paulo Guedes, ministro da Economia, que o conectasse a Kassab. Guedes, por sua vez, acionou Afif Domingos, seu assessor especial. Combinou-se em pouco tempo uma reunião na casa de Afif. Compareceram Kassab, Tarcísio e o ex-deputado federal Eleuses Paiva (PSD). Tarcísio, que ainda patinava em terceiro lugar nas pesquisas, foi direto ao ponto: queria que o PSD apoiasse sua candidatura. Kassab pediu tempo para pensar.
Apesar dos zigue-zagues, o ex-ministro diz ter tido clareza desde o início. “Eu sabia que o Tarcísio ia ganhar.” Em julho, anunciou publicamente o apoio ao candidato bolsonarista. O envolvimento do PSD foi tanto que o comitê da campanha se alojou no antigo Edifício Joelma, hoje Edifício Praça da Bandeira, onde fica a sede do partido. Como contraparte do apoio, Ramuth foi indicado a vice. Afif fez o plano de governo.
“Meu nome só passou com muita tranquilidade porque ninguém tinha interesse em ser vice de quem ia perder a eleição”, diz Ramuth. Ele conta que chegou a oferecer a vaga ao próprio Kassab. “Combinamos que eu seria pré-candidato ao governo. Mas pré-candidato a vice é uma nova conversa, e entendo que deva ser você”, ele recorda ter dito. Kassab respondeu como um gentleman: “Não, você saiu da prefeitura, percorreu o estado… entendo que o candidato é você.” Ramuth assentiu. Dias depois, os dois se reuniram com Tarcísio para selar o apoio. O encontro foi realizado no que o vice-governador define como “o epicentro das conversas políticas de São Paulo”: o apartamento de Kassab.
O ex-ministro fez turnês pelo interior do estado em busca de votos para Tarcísio. O governador, carioca e neófito, demonstra ser grato. Fã de Guerra nas estrelas, costuma se comparar a um jovem Padawan que está aprendendo com um mestre Jedi – no caso, Kassab. Deu-lhe a Secretaria de Governo – “um cargo bem solto”, diz Kassab – e concentrou nela a articulação política. Nomeou ainda dois secretários que conheceu por intermédio de Kassab: Eleuses Paiva, da Saúde, e Marcelo Branco, da Habitação.
Os bolsonaristas mais estridentes chiam. Nikolas Ferreira (PL-MG), deputado federal, gravou recentemente um vídeo espetaculoso. “Que o PT é nosso inimigo você já sabe. Mas que tem um escondido debaixo do seu nariz você nem imaginava. Chama-se PSD.” O parlamentar acusa Kassab de, mancomunado com Rodrigo Pacheco, impedir o impeachment de Alexandre de Moraes. Seu colega Gustavo Gayer (PL-GO) engrossou o caldo. Nas redes, chamou o PSD de “partido de sustentação da ditadura”. A poucos dias das eleições municipais, um enxame de comentários tomou as postagens de senadores do PSD. Diziam variações de “Não ao 55” e “PSD jamais”.
A grita chegou a Tarcísio. Numa entrevista ao podcast Inteligência Ltda., o governador defendeu seus aliados. Eleuses Paiva, segundo ele, faz um “trabalho maravilhoso” na Saúde. Marcelo Branco, um “trabalho primoroso” na Habitação. Sobre Kassab, disse: “Ele é um cara que faz uma blindagem. Quando a gente toma uma investida, ou um recurso importante não tá vindo, eu tenho um interlocutor com o governo federal que pode fazer uma ponte. […] Isso é importante para o atingimento de resultados, então é muito pragmático.” Não mencionou o nome de Kassab, mas aliados do ex-ministro fizeram circular o vídeo para mostrar que ele tem amparo do governador.
Kassab defende a reeleição de Tarcísio – “a grande revelação da política brasileira”, diz. Os amigos especulam que, a essa altura, o ex-ministro só almeja uma coisa: virar governador ele próprio. O jeito mais fácil de chegar lá é se candidatar a vice de Tarcísio em 2026 e assumir o cargo quando – e se – o governador se candidatar a presidente da República em 2030. “Faz sentido? Faz. Foi o que ele fez com o Serra”, comenta um aliado, reservadamente. Ramuth, que precisaria ser defenestrado para dar lugar ao padrinho, não se magoa com a hipótese: “Pode ser, por que não? Minha história não é na política.” Kassab desconversa maquinalmente: “O que vai ser no futuro? Não sei. Vou continuar ajudando o Tarcísio. Eu tô no projeto Tarcísio. Minha missão é ajudar o Tarcísio.”
“Quando o Kassab me mandou a última mensagem ontem, eu estava dormindo. Quando mandou a primeira, hoje, eu ainda não tinha acordado”, diz o assessor de imprensa Alexandre Gajardoni, sentado no apartamento de Kassab. É uma quinta-feira de setembro. O ex-ministro acordou às cinco, leu os jornais, caminhou no Clube Pinheiros, fez musculação na academia de seu prédio, tomou banho, vestiu uma camisa social azul bem passada, trocou telefonemas e recebeu no escritório de seu apartamento Marcelo Manhães de Almeida, vice-presidente da Fundação Liceu Pasteur. “Gaja, se quiser, tira uma foto minha com Marcelo.” O assessor se levanta e faz uma fotografia dos dois, que fingem conversar.
Kassab comenta que, nos jornais, só se fala em duas coisas: Banco Central e queimadas. Diz a Gajardoni que pensa em convidar Eduardo Jorge (PV) para integrar um grupo de discussão sobre o meio ambiente no PSD. Antes de concluir sua fala, já está telefonando para o ex-deputado. Combina com ele um café no seu apartamento, para dali a algumas horas. “Quero te fazer um convite”, adianta Kassab. Eduardo ri. “Nos falamos então.”
Faltam pouco mais de quinze dias para a eleição municipal, e Kassab diz já ter gravado mil vídeos em apoio a candidatos do PSD. “Já viu o nosso teleprompter?”, me pergunta. “Tem que ver. O partido investe muito em tecnologia.” Gajardoni tira da mochila um pacote com centenas de cartões contendo os nomes de prefeitos, vices e vereadores. É o teleprompter, explica Kassab, com um sorriso gaiato. Ele prende então um microfone portátil no blazer e caminha até a varanda do apartamento, onde faz as gravações. O assessor se posiciona em frente a ele, liga a câmera do próprio celular e, com a mesma mão, segura um cartão contendo as informações sobre os candidatos de Riversul.
“Minhas amigas, meus amigos de Riversul. Está chegando a hora. A hora de escolher o futuro prefeito da cidade. E nada mais importante do que fazermos essa escolha – até porque, quando erramos, demoramos quatro anos para corrigir. O PSD tem plena confiança de que o Marcão é o caminho certo para Riversul encontrar a melhor solução para os seus desafios.” Kassab olha para o cartão. “Tendo o vice Valdeci, nós estamos realmente muito convencidos de que o PSD apresenta para a cidade a melhor opção para o dia da eleição.”
O vídeo dura exatamente um minuto. Gajardoni se certifica de que o microfone captou o som. Em segundos, Kassab está gravando o próximo. “Meus amigos, minhas amigas de Nova Aliança. Nova Aliança é uma cidade privilegiada. Poucos municípios podem blá-blá-blá-blá…” Habitualmente, Kassab grava de trinta a quarenta vídeos numa tacada só, mas o dia está corrido. Ele pega o elevador, desce para o térreo. Seu motorista, Luiz Santana, já o aguarda a bordo de um Equinox preto. Kassab se senta no banco do carona sem lhe desejar bom-dia.
“Olha só, acabou de sair resultado.” O ex-ministro estica o celular e me mostra uma pesquisa interna da campanha de Nunes informando que ele subiu nas intenções de voto e Pablo Marçal (PRTB) estagnou. Pergunto se é impacto do horário eleitoral na tevê, iniciado havia pouco tempo. “Lógico que é.” Em seguida o telefone toca. É Nunes. Kassab leva o celular ao ouvido, escuta por alguns segundos e responde: “Que bom, puxa vida, parabéns. Tava precisando disso. Muito. Parabéns, mesmo. Obrigado. Abração.” O prefeito estava feliz com os números da pesquisa.
Estamos a caminho do Palácio dos Bandeirantes. O ex-ministro fala pouco quando está no carro, um SUV silencioso. Gosta de tirar cochilos e trocar mensagens por WhatsApp. A certa altura do trajeto, sem notar que consigo enxergar seu telefone, escreve: “Chegando no palácio. Inventa uma pilha de pastas para levar na minha sala.” O interlocutor, que não identifiquei no visor do celular, responde: “Ok.” Kassab prossegue: “Passo aí, te pego e vamos andando até a minha sala.”
Descemos no palácio e rumamos ao escritório de Takahashi. Ele aguardava o chefe com uma pilha de pastas. “Até que a pilha tá pequena hoje”, brinca Kassab. E caminha com o assessor até o próprio gabinete, a alguns metros dali. Sentam-se numa mesa de madeira, e Takahashi inicia o relatório. “Hoje saiu decreto com crédito nosso, 4 milhões. Vamos poder pagar todas essas parcelas”, explica, apontando números numa apostila. Kassab assente com a cabeça, enquanto bebe o habitual chá de frutas vermelhas. “Para você entender, Luigi, isso são convênios, parcerias, obras”, diz o ex-ministro. “O Takahashi é a pessoa que em nome do governador atende prefeitos. Ele não pergunta partido, idade, religião. É uma coisa muito técnica. Brinco com o governador: ‘o Takahashi tá sendo mais aplaudido que você nos eventos.’” Takahashi dá uma risada.
A cena dura dez minutos. Kassab, agora bem informado sobre convênios, parcerias e obras, parte do palácio para a Associação Comercial. A entidade, fundada há 129 anos, ocupa um prédio cinza com vista para o Pátio do Colégio, marco de fundação da cidade de São Paulo. O ex-ministro é vice-presidente de Assuntos Institucionais e Governamentais da Facesp, uma federação que reúne todas as associações comerciais do estado. É, em boa medida, o mesmo cargo que ocupa no governo, mas voltado para empresários e não para políticos. Roberto Ordine, presidente da associação paulistana, diz: “Kassab é nosso orientador, embora seja mais moço. Manda em todo mundo.”
O ex-ministro encontra Natanael Miranda dos Anjos, superintendente-geral da Facesp, e lhe dá um abraço caloroso. Os dois trabalharam sob a batuta de Afif nos anos 1980. “É um dos meus melhores amigos”, diz Kassab, e emenda uma história. “Meu pai tinha ganhado uma vodca que era considerada uma das melhores do mundo. Eu, moleque de tudo, pensei: ‘Vou fazer uma média com aquele cara, o Natanael.’ Levei a vodca na casa do Natanael. Acho que até hoje ela tá no freezer dele. O Natanael não bebe.” Solta uma risada. O amigo, um senhor miúdo de 86 anos, ri junto. “Mas então deixa lá. Tá dando sorte.”
Kassab pega o elevador e vai para o escritório de Ordine, onde encontra, além do próprio, o secretário estadual da Justiça, Fábio Prieto, um advogado sorridente de 62 anos e óculos esportivos. Engatam uma conversa sobre amenidades. Kassab põe a mão sobre o ombro de Natanael e reconta a história da vodca. “Até hoje no congelador!”
Todos riem.
Jairo Nicolau, o cientista político, assiste intrigado à ascensão do PSD. “É uma legenda que não tinha muito charme quando surgiu. Era meio sem graça, aquela coisa Kassab, sem pulsação. Mas à medida que a vida foi passando ela se tornou algo maior.” Nicolau aposta que, se a cláusula de barreira continuar como está, os 29 partidos que existem hoje no Brasil se condensarão em aproximadamente catorze nos próximos anos. No quadro atual, talvez três deles tenham fermento para abrigar cerca de uma centena de deputados: PT, PL e PSD. Os demais batalharão para manter algumas dezenas. A constatação confirma a pretensão de Kassab: seu PSD caminha mesmo para ocupar o papel do antigo PSD.
O partido foi criado por Getúlio Vargas nos estertores do Estado Novo, em 1945. O ditador, filiado ao Partido Trabalhista Brasileiro (ptb), afrouxava o regime a contragosto e queria garantir que a transição de poder não lhe fosse prejudicial. Reuniu no PSD seus antigos interventores, grandes latifundiários e veteranos da política que se tornaram um braço governista no interior. Além de JK, estavam lá figuras como Tancredo Neves e Ulysses Guimarães. O partido, ideologicamente difuso, tinha reputação de moderado. Até 1964, funcionou como uma força pendular entre o trabalhismo do PTB e o conservadorismo da UDN de Carlos Lacerda. No pós-ditadura, o peessedismo reencarnou no emedebismo, que acolheu suas grandes lideranças (como Tancredo, Ulysses) e produziu outras.
“Há um espaço para ser ocupado”, diz Nicolau. “Ele estava dividido entre o PSDB e o MDB. Com a crise dos dois, o PSD foi se posicionando melhor para cumprir, eventualmente, o papel que o MDB ocupava na democracia. Ou seja, um partido importante na vida consensual do país, com forte pegada municipalista, localista.” Em termos práticos, Kassab colheu o espólio do PSDB: fez maioria de prefeitos em São Paulo, Minas e Paraná, territórios tradicionalmente tucanos. Em termos espirituais, avançou sobre o MDB: é hoje a legenda mais bem posicionada entre o petismo e o antipetismo. Não é um partido em pé de guerra interna, como o União Brasil, nem um anexo do bolsonarismo, como o PP e o Republicanos.
Nicolau conta que, convidado durante a pandemia para uma reunião de cientistas políticos com Kassab, perguntou a ele: “Qual é o seu projeto de Brasil?” O ex-ministro, segundo ele se recorda, titubeou por alguns segundos. “Pela reação, parecia que eu tinha saído de Marte. Geralmente, os políticos falam em desenvolvimento, esses clichês. Mas ele só falava em ampliar. Ampliar vereadores, para ampliar deputados, para ampliar prefeitos. Para quê? Para ampliar.” Nicolau saiu da reunião com a percepção de que Kassab tem uma “cabeça de planilha”.
Perguntei ao ex-ministro sobre suas ambições. Sentado na poltrona de seu escritório, ele não olhou pensativo para o teto ou para o chão. Respondeu de bate-pronto, antes que a pergunta fosse concluída: “Eu quero preparar o PSD para ter, o mais breve possível, um candidato próprio à Presidência.” Logo esclareceu: “Não tem pressa.” É preciso ter objetivos, disse Kassab, e não só ganância por cargos. Mas completou: “Queremos estar no poder, com bons cargos, para ficar duzentos, trezentos anos na política brasileira.” Em resumo, uma planilha infindável.
No terraço da Associação Comercial de São Paulo, Kassab se sente em casa. Todos estão bem-vestidos, e as tevês do salão sintonizam a Bloomberg americana, com as cotações da Bolsa de Nova York subindo e descendo. Os garçons do Piselli, restaurante italiano que funciona no último andar do prédio, são formais e atenciosos. Kassab amarra um babador no pescoço e se acomoda numa mesa ao lado de Roberto Ordine, Fábio Prieto, Guilherme Afif e outras cinco pessoas. Finda a refeição, todos posam para uma foto (Kassab, antes disso, esconde o babador). Uma garçonete sai da cozinha carregando um pequeno bolo de aniversário e os convivas cantam parabéns. Afif faz 81 anos.
O entourage dali a pouco desce para o térreo e atravessa a Rua Boa Vista. Na Secretaria da Justiça, Kassab, com as mãos entrelaçadas na altura do umbigo, assiste à entrega oficial da obra de restauração do prédio. Saindo dali, entra no carro do presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, desembargador Fernando Antonio Torres Garcia. Depois desce no tribunal e pede para Santana, seu motorista, buscá-lo. A conversa com o desembargador, ele diz, versou sobre “assuntos de justiça eleitoral, coisas partidárias, problemas de prefeitos”.
De volta ao banco do carona, comenta a disputa pela presidência da Câmara. O presidente do Republicanos, Marcos Pereira, acusou Kassab de ter barrado sua candidatura. “Ah, coitado. Ele jogou muito pesado para ser o presidente. Acho que não estava preparado para essa frustração”, avalia o ex-ministro, que apoia Antonio Brito. “Ele pediu para o Brito se afastar, o Brito disse não. Não precisa ficar magoado. É falta de experiência, talvez.”
Kassab chega em casa. Eduardo Jorge o aguarda na sala de estar. Sem barba e sem cargo político, o ex-deputado tem se dedicado à medicina. Os dois conversam a portas fechadas. Dali a meia hora, Kassab aparece livre do terno e da gravata, com uma camisa nova e branca. Desce para o térreo do seu prédio e caminha até o Clube Pinheiros. Reúne-se com o presidente da agremiação, Carlinhos Brazolin. O Pinheiros tem 39 mil sócios, explica Kassab, e um orçamento de 300 milhões de reais. “Umas quinhentas cidades em São Paulo têm menos dinheiro que isso.” O clube é frequentado por gente influente com quem convém ter boas relações. “Numa eleição, isoladamente, isso não importa. Mas é preciso ver o conjunto.”
Do clube, Santana, o motorista, toca para a Associação Comercial, mas dessa vez na unidade distrital de Pinheiros, uma casa espaçosa de dois andares. Ao chegar, Kassab é conduzido à “sala de autoridades”. É o primeiro a chegar. Belisca quibes e coxinhas. Executivos da Valid, empresa de tecnologia que produz carteiras de identidade em vários estados brasileiros, cruzam a porta de entrada e abordam o ex-ministro com reverência. Ilson Bressan, presidente da companhia, não perde tempo: “É uma honra estar com vocês nesse ambiente, e de certa maneira a gente está querendo ficar muito mais conectado com as eventuais necessidades que podem surgir e as soluções que a gente tem.” Kassab, com um salgadinho na mão, responde vagamente à investida empresarial. “Esse ambiente é muito bom para vocês.”
Todos se dirigem ao auditório, onde será realizado um ato de campanha do prefeito Ricardo Nunes. Uma senhora de cabelos loiros interpela Kassab: “Quantos anos! Você nem se lembra. Na sua primeira campanha, eu tinha uma agência de publicidade e te ajudei.” Ele sorri e a cumprimenta. Nunes adentra o recinto e dá um abraço caloroso no ex-ministro: “Gilber-tô! Tudo bem?” É seguido por Tarcísio de Freitas. Os três se sentam no tablado, lado a lado. Kassab faz um discurso rápido, assiste aos colegas e parte para o Clube Paineiras do Morumby, onde será oferecido um jantar em homenagem ao prefeito.
“O clube é a praia do paulista”, comenta Kassab, ao descer do carro. O salão do Paineiras tem poucas mesas, todas bem servidas com carpaccio e vinho. Paulo Frange (MDB), vereador e cardiologista, assume o microfone. “Quem aqui gosta de história?”, pergunta, prenunciando uma piada. “Quando Pedro Álvares Cabral chegou no Brasil, esse cara já era vereador”, arremata, apontando para Kassab, que ri. O ex-ministro faz um novo discurso, fica menos de quinze minutos no jantar e vai embora.
Santana dirige até o Círculo Militar de São Paulo. É a última parada do dia. Kassab recoloca o blazer para ficar à altura da ocasião: o aniversário de 90 anos do Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo. Empadinhas, quibes e vinho Casillero del Diablo em abundância. Kassab não bebe nem come. A pedido dos organizadores, grava um vídeo parabenizando o sindicato, enquanto um cantor se esgoela cantando Black, da banda americana Pearl Jam. O clima é de festa de debutante. Ao lado de outros dezessete homens, entre eles o deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), o ex-ministro sobe ao palco e brinda com champanhe. Seus assessores assistem de longe, cansados. Amanhã, Kassab viaja para Botucatu.
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