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    Boes confeccionam um pariko em Paris: no dia seguinte à criação do cocar, eles fizeram uma conferência no Collège de France, a instituição onde Lévi-Strauss evocou seu povo 65 anos atrás CRÉDITO: JOÃO KELMER_2024

anais da antropologia

O reencontro

Noventa anos depois, indígenas do povo Boe veem pela primeira vez, em Paris, os objetos coletados em seu território pelo casal Lévi-Strauss

Maria Luísa Lucas e João Kelmer | Edição 222, Março 2025

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No ateliê de restauração do Museu do Quai Branly – Jacques Chirac, em Paris, cinco indígenas do povo Boe estavam reunidos em volta de uma ampla mesa de trabalho, na tarde do dia 10 de outubro de 2024. Ao redor deles, dez restauradores franceses acompanhavam havia horas os visitantes fabricarem um pariko, cocar feito de longas penas de cauda de arara e adornado na base por um delicado mosaico de plumas vermelhas e amarelas. Sobre a mesa, acumulavam-se vasilhames com penas de arara, cordões feitos de material vegetal e pasta de urucum. Atentos, os restauradores não perdiam nenhum movimento dos indígenas, às vezes registrando em desenhos os gestos e processos empregados na criação do pariko.

Com o avançar da hora, certa inquietação foi tomando conta das pessoas no ateliê. No subsolo do museu, o público começava a ocupar a sala de cinema onde os indígenas iriam participar da exibição de filmes feitos em uma aldeia boe pelo casal de antropólogos Dina e Claude Lévi-Strauss, em 1936. O cocar ainda não estava finalizado, mas todos decidiram que seria melhor interromper o trabalho e ir logo para o cinema. Rapidamente, percorremos os corredores do museu, carregando o pariko quase pronto.

A sala estava lotada. Os boes foram apresentados a Monique, viúva de 98 anos de Claude Lévi-Strauss (1908-2009), e a um sobrinho de Dina (1911-99) – a primeira mulher do antropólogo. Havia ainda ex-alunos e herdeiros intelectuais de Lévi-Strauss, além de um grupo de estudantes indígenas que faziam um intercâmbio em Paris. Possivelmente, todos ali já tinham ouvido falar dos “bororos”, como os boes costumam ser designados na literatura antropológica. Embora Lévi-Strauss tenha convivido com esses indígenas por um breve período, eles se tornaram uma referência incontornável em sua obra.

Antes da exibição dos filmes, todos eles restaurados recentemente pela Cinemateca Brasileira, os indígenas Ismael Atugoreu (57 anos, respeitado especialista ritual da aldeia Córrego Grande), Bosco Marido Kurireu (43 anos, um dos líderes da aldeia central da Terra Indígena Tadarimana), Antônio Jukuriakireu (44 anos, professor), Neiva Aroereaudo (40 anos, liderança da aldeia Pobojare da ti Tadarimana) e Majur Traytowu (33 anos, primeira liderança transgênero do povo Boe), improvisaram no palco uma cerimônia de entrega do cocar.

Eles se aproximaram de Emmanuel Kasarhérou, presidente do museu, e amarraram o pariko em sua cabeça. Em pé, Ismael Atugoreu fez um breve discurso, dirigido ao presidente. Acontecia ali uma curiosa inversão de papéis: os boes, de súbito, tornaram-se anfitriões, colocando Kasarhérou na posição de visitante. A inversão se consolidou no momento que Antônio Jukuriakireu se posicionou atrás do presidente e, com um par de chocalhos nas mãos, entoou um canto boe de recepção aos viajantes.

As luzes da sala foram apagadas, e começaram a ser exibidos os filmes, feitos sem som nem música. Mas o silêncio durante a exibição foi logo interrompido por um burburinho inesperado: os cinco indígenas boes começaram a comentar, em sua língua, a respeito das imagens. Entre risadas, explicações e exclamações de espanto e surpresa, eles preencheram o silêncio da sala com sua presença. Depois da sessão, foram questionados pelo público sobre o que conversavam entre si. Nostálgico, Jukuriakireu respondeu apenas que “eles”, os seus ancestrais, “eram felizes”.

 

Em dezembro de 1935, na temporada de chuvas no Mato Grosso, Dina e Claude Lévi-Strauss subiram o Rio Vermelho, no Sul do estado, com a ajuda de alguns pescadores. Depois de oito dias navegando em pequenas canoas, avistaram o que o antropólogo descreveu em Tristes trópicos, seu primeiro grande livro, como “duas formas nuas que se agitavam nas barrancas: nossos primeiros Bororo”.

Os pescadores indicaram aos indígenas, com gestos, que seu grupo seguiria em direção à aldeia, rio acima. Algumas horas depois, em uma paisagem marcada por imponentes escarpas de pedra, avistaram as casas de palha de uma aldeia boe, que se estendia até as margens do rio. A aldeia se chamava Kejari, que significa “toca do morcego”, na língua boe. As casas estavam dispostas em um grande círculo, entrecortado por trilhas que levavam a pequenas roças de tabaco e mandioca. O casal de antropólogos viveu em uma dessas casas durante três semanas, compartilhando-a com uma viúva e uma família “silenciosa e hostil”, como descreveu Lévi-Strauss. No centro do círculo, se encontrava uma grande “casa dos homens”, onde residiam os jovens solteiros e, ao lado dela, o pátio cerimonial, chamado bororo.

O uso deste termo para nomear o povo que se autodenomina Boe (“pessoas” ou “humanos”, em seu idioma) resulta de um mal-entendido colonial. A palavra “bororo”, que designa aquele pátio central da aldeia, acabou se cristalizando como designação desse povo na literatura antropológica a partir do fim do século XIX, mantendo-se em uso até os dias atuais. Os próprios indígenas, ao falarem português, empregam tanto “bororo” como “boe” quando se referem ao seu povo. Entre as gerações mais jovens, contudo, há um esforço crescente para tornar mais comum o emprego do termo “boe”. Assim, quando o casal Lévi-Strauss chegou à região, não encontrou um povo desconhecido, mas sim os “bororos”, já bem descritos em obras publicadas nas décadas anteriores.

Dina e Claude Lévi-Strauss foram casados por cerca de sete anos. Entre 1935 e 1939, viveram em São Paulo, participando da chamada “missão francesa”, que trouxe ao Brasil jovens professores, com o objetivo de consolidar a recém-­criada Universidade de São Paulo (USP). Da mesma missão, participaram outros professores que viriam a se tornar importantes nomes das ciências humanas no século XX, como o historiador Fernand Braudel, o sociólogo Roger Bastide e o geógrafo Pierre Monbeig.

Ao contrário de Lévi-Strauss, sua mulher não recebeu um posto na usp, e acabou trabalhando no Departamento de Cultura e Recreação da cidade de São Paulo, coordenado por Mário de Andrade, de quem ela ficou bastante próxima. Durante o período que passou no Brasil, o jovem casal organizou duas viagens a campo, programadas segundo seus interesses acadêmicos: uma entre novembro de 1935 e março de 1936, na qual eles visitaram a aldeia boe e comunidades kadiwéus, e outra mais longa, realizada entre maio de 1938 e janeiro de 1939, quando percorreram a região noroeste do Mato Grosso e parte do estado de Rondônia.

Nas duas expedições, por meio de negociações com os indígenas, os antropólogos coletaram centenas de objetos. Apenas na aldeia boe, foram em torno de quinhentos, um número surpreendente, tendo em vista que o casal viveu somente três semanas entre os boes, e apenas em uma única aldeia de cerca de 150 pessoas, na estimativa de Lévi-­Strauss. O casal obteve até mesmo objetos raros, considerados inalienáveis – o que significa que dificilmente seriam vendidos ou trocados pelos indígenas –, como parikos e outros adornos rituais. Um pariko, por exemplo, é confeccionado, como dizem os boes, “para ficar no lugar” de uma pessoa falecida, evocando sua memória e sua presença em rituais. Nas palavras de Antônio Jukuriakireu, “para um pariko nascer, uma pessoa tem que morrer”. Esses objetos, assim como outros que foram coletados pelo casal, são guardados nas aldeias com um zelo excepcional: qualquer descuido, dizem os boes, pode fazer com que os mortos, ofendidos, se voltem contra os vivos.

Em 1937, o casal Lévi-Strauss organizou a primeira exposição do recém-­fundado Museu do Homem, em Paris, na qual exibiram muitos objetos levados da aldeia Kejari. Mais tarde, as peças reunidas por eles foram divididas entre o Brasil e a França. Parte delas foi para o Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, parte foi parar no Museu do Quai Branly, que é um dos vários na Europa a dispor de rico acervo de objetos dos indígenas brasileiros. Estima-se, aliás, que a maioria de itens históricos de povos indígenas do Brasil esteja hoje em acervos europeus.

Embora Lévi-Strauss tenha visitado outros povos, como os kadiwéus (ejiwajegis), os nambikwaras e os tupi-kawa­híbs, foi o tempo passado entre os boes que mais impactou a sua trajetória intelectual. Seu primeiro ensaio de peso, publicado em 1936 em uma revista francesa, tratou justamente dos boes. Anos depois, foi a recepção positiva desse artigo entre antropólogos americanos que lhe garantiu, durante a Segunda Guerra Mundial, um posto de professor em Nova York. Ali, ele desenvolveria a chamada “antropologia estrutural”, que exerceria grande impacto nas ciências humanas na segunda metade do século XX. Tais pesquisas e ideias de Lévi-Strauss fizeram com que a antropologia – na época uma disciplina relativamente jovem – ganhasse notoriedade entre intelectuais de outras áreas, como a linguística e a psicanálise.

Os boes têm também um papel proeminente em Tristes trópicos, publicado por Lévi-Strauss em 1955, e tido na época como um livro inclassificável. Oscilando entre literatura e antropologia, o estilo da obra remete ainda aos relatos de viajantes e às reflexões filosóficas ao modo de Montesquieu e Rousseau. O livro, que alcançou grande notoriedade, é até hoje um dos poucos escritos por antropólogos que estudaram povos indígenas brasileiros a atingir o público não especializado. Nele, Lévi-Strauss dedica toda uma parte à temporada que passou com os boes e conta do impacto que lhe causou a primeira experiência em meio a uma “civilização que permaneceu relativamente intacta”, ou uma “sociedade ainda viva e fiel à sua tradição”.

Apesar de ter examinado com grande cuidado e erudição diversas culturas ao redor do mundo, Lévi-Strauss nunca deixou de tratar de maneira privilegiada o encontro com os boes. Em 1976, na apresentação escrita para o terceiro volume da Enciclopédia bororo, publicada no Brasil por missionários salesianos, ele refletiu, em retrospecto, sobre como a sofisticação filosófica do pensamento boe influenciou o desenvolvimento de sua antropologia estrutural: “Todo meu pensamento teórico, como se desenvolveu ao longo dos últimos trinta anos, conserva o cunho daquilo que pude compreender estando entre eles.” Tal reconhecimento não se limitou aos boes, mas se estendeu a outros povos indígenas brasileiros, como ele havia ressaltado antes, em 1960, durante sua aula inaugural na cátedra de antropologia social do Collège de France, a mais prestigiosa instituição de pesquisa da França: “[Com] esses índios dos trópicos […] contraí uma dívida da qual eu não estaria livre mesmo se, neste lugar a que fui designado, pudesse justificar a ternura que me inspiram e o reconhecimento que lhes devo.”

 

“O que é isso?”, perguntou Ismael Atugoreu, examinando um minúsculo sanduíche espetado em um palito. Antônio Jukuriakireu respondeu, na língua boe: Turubari aka (fígado de pato). No prato retangular, três pequenos canapés de foie gras estavam perfeitamente alinhados. Habitantes das Terras Indígenas Tadarimana e Tereza Cristina, no Mato Grosso, era a primeira vez que os cinco indígenas viajavam para fora do Brasil, e a primeira que comiam num bateau-mouche, um barco-restaurante, no Rio Sena.

O objetivo da viagem a Paris, organizada pela USP e o Museu do Quai Branly, era permitir que os boes entrassem em contato com uma história que diversos pesquisadores brasileiros e franceses conhecem muito bem: a viagem do casal Lévi-Strauss pelo Brasil, a relevância que o tempo passado entre os boes teve na carreira de um dos maiores antropólogos do século XX e o que foi feito de parte dos objetos coletados em seu território. Antes disso, porém, foram reservados dois dias para que os boes tivessem tempo de se familiarizar com a capital francesa. Além do almoço no bateau-mouche, visitaram o Museu do Louvre, o que nos pareceu uma boa maneira de apresentar a eles o que os estranhos europeus têm em mente quando falam em “museus” e “monumentos”.

As dimensões do Louvre, a obsessão dos franceses com os horários, a pouca quantidade de carne vermelha, o represamento do Rio Sena no meio da cidade e os odores do transporte público foram algumas coisas que os indígenas registraram em seus diários de viagem, na forma de vídeos, fotos e áudios, que enviavam pelo WhatsApp o tempo todo para seus familiares nas aldeias.

Não era a primeira vez que nos encontrávamos com os boes. Antropólogos treinados em uma tradição que inclui a herança intelectual de Lévi-Strauss, realizamos longos períodos de pesquisa nas aldeias. A concepção e preparação da ida a Paris ocorreu como desenvolvimento de uma relação mais longa e de engajamentos mais amplos que mantivemos com os indígenas nos últimos anos.

No contexto das discussões com os boes sobre a viagem, decidimos, em um domingo de abril de 2024, ir à região da antiga aldeia Kejari visitada pelo casal Lévi-Strauss. Sabíamos que Kejari desaparecera em meados dos anos 1960 e que seus moradores se dispersaram por outras comunidades. Para tentar encontrar o local, recorremos às lembranças de Joaquim Burudui, um dos mais respeitados anciãos boes, que encontramos na Casa de Saúde Indígena em Rondonópolis, onde ele viveu por meses, antes de morrer em novembro de 2024.

Partimos da aldeia boe de Tadarimana, dentro da Terra Indígena de mesmo nome, encostada na cidade de Rondonópolis. Fomos acompanhados de Bosco Marido Kurireu – que mais tarde viajaria a Paris –, de Maria Borobó, sua mulher, do indigenista e missionário salesiano Mario Bordignon, de Leandro Varison, diretor-adjunto do Departamento de Pesquisa e Ensino do Museu do Quai Branly, e do fotógrafo Cesar Augusto.

A aldeia Kejari ficava às margens de um dos mais belos trechos do Rio Vermelho, na região do complexo arqueológico conhecido como Cidade de Pedra. Estudos feitos ali desde os anos 1980 encontraram evidências de ocupação indígena na região há pelo menos 7 mil anos. Essa ocupação pôde ser constatada pela existência de fragmentos de cerâmicas, pinturas rupestres e diversas áreas com sepultamentos humanos. Hoje, porém, o local está completamente tomado por um mosaico de diferentes propriedades privadas, como fazendas, clubes de pesca, bares e chácaras.

Seguimos pela Rodovia do Peixe e alcançamos, a cerca de 26 km de Rondonópolis, a área do sítio arqueológico do Morro Solteiro – um dos mais de cem abrigos rochosos que fazem parte da Cidade de Pedra. Depois de enfrentar certa dificuldade para entrar na propriedade onde se encontra o sítio, fomos autorizados e passamos algum tempo procurando pinturas rupestres e comparando as fotos que o casal Lévi-Strauss fez da aldeia Kejari com os contornos da paisagem rochosa ao redor.

Em determinado momento, Bosco e Maria, muito discretamente, se isolaram do grupo. Quando julgam estar muito próximos das almas dos mortos, os boes costumam fumar tabaco: a fumaça protege os vivos e apazigua os mortos. Foi o que fez o casal, enrolando um cigarro em uma folha de caderno. Percebemos então que estar naquele lugar os havia afetado profundamente. “Aqui já teve muita alegria e muita tristeza, hoje só tem as pedras”, disse Bosco. Infelizmente, não conseguimos naquele dia encontrar o local exato da aldeia Kejari.

 

O impedimento de viver ou mesmo se aproximar de sua própria terra é algo que faz parte da história dos boes há séculos. Antigamente, eles habitavam um vasto território que se estendia de Goiás até a Bolívia. No século XVII, ocorreu o primeiro contato com os não indígenas, quando bandeirantes invadiram a região de Cuiabá. No século seguinte, a busca por ouro ampliou a catástrofe, levando à divisão desse povo em dois grupos, que foram chamados de bororos ocidentais e bororos orientais.

Os ocidentais desaparecem dos registros históricos e etnográficos em meados do século XIX. Hoje, são considerados exterminados. Já os orientais, relativamente mais afastados das primeiras frentes coloniais, conseguiram resistir por mais tempo à invasão. Depois de conflitos violentos que marcam a ocupação do sul da região que hoje se denomina Mato Grosso, os bororos orientais foram forçados à rendição e confinados em colônias militares, no final do século XIX. Logo os padres salesianos assumiram a missão de catequizá-los. Os indígenas que participaram da viagem à França são descendentes diretos desse grupo.

Hoje, os boes vivem em cinco pequenas terras indígenas no Sul de Mato Grosso, que somam no total 142 mil hectares. Algumas perderam parcelas significativas de seu território inicial ao longo dos anos. Acabaram separadas umas das outras por vários quilômetros – são como pequenas ilhas cercadas pelo oceano voraz do agronegócio.

Agora, a construção de uma ferrovia adiciona uma nova camada de conflitos entre os não indígenas e os boes das Terras Indígenas Tereza Cristina e Tadarimana – esta tem apenas 10 mil hectares e é onde mora a maioria dos que foram a Paris. A empresa Rumo Logística, pertencente ao conglomerado Cosan s.a., trabalha na região para a implantação da Ferrovia Autorizada de Transporte Olacyr de Moraes (cuja sigla é Fato), que deverá passar bem no meio dos 40 km que separam as duas terras indígenas. É nessa região que estão os sítios arqueológicos do complexo Cidade de Pedra e que se encontrava a aldeia Kejari. O nome do empreendimento, com custo estimado entre 9 e 11 bilhões de reais, homenageia aquele que já foi o maior produtor individual de soja do país, Olacyr de Morais, que morreu em 2015 e era conhecido como “o rei da soja”. A ferrovia terá mais de 700 km de extensão e ligará o município de Lucas do Rio Verde, no interior de Mato Grosso, a Rondonópolis, no Sul do estado, a fim de escoar a produção agrícola, por meio de outras interligações, até o Porto de Santos.

Uma série de disputas judiciais envolvendo a Rumo, a Funai e as lideranças boes têm acontecido. Em 2022, a 1ª Vara Federal de Rondonópolis suspendeu o licenciamento ambiental da ferrovia, argumentando que os boes não haviam sido devidamente consultados. Desde então, os indígenas enfrentam intensa pressão política e são acusados de barrar o desenvolvimento econômico de Mato Grosso, com o argumento de que o local por onde passará a ferrovia encontra-se fora das terras indígenas. Por conveniência, omite-se o fato de que hoje a área das terras indígenas demarcadas é bem menor do que aquela ocupada pelos boes antes da colonização.

O governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (União Brasil), em agosto de 2022, declarou ao portal de notícias rdnews: “Essa história de arrumar um índio, arrumar um caquinho de cerâmica, isso no Brasil já virou folclore. É muito ruim isso, o Brasil perde muito com isso.” Um ano e meio mais tarde, em 29 de janeiro de 2024, Mendes foi além. Em entrevista ao vivo no programa Direto ao Ponto, da Jovem Pan, acusou os boes de inventar a existência de um “corredor espiritual” entre as Terras Indígenas Tereza Cristina e Tadarimana. “Temos uma importante obra, que é uma ferrovia que vai ligar Rondonópolis até o Médio Norte, da Rumo, e o licenciamento estava todo pronto. De repente, no caminho não tinha nenhuma reserva indígena”, disse ele. “Sabe o que eles inventaram? ‘Não, aqui tem um corredor espiritual.’ Entre uma reserva e outra, que estava a quase 60 km, inventaram um corredor espiritual. Queriam parar uma obra porque tinha um corredor espiritual de alguns pajés, de algumas tribos de indígenas que habitaram ali algumas dezenas de anos atrás.” Em fevereiro deste ano, o Ministério Público Federal mandou que a Jovem Pan apagasse de seu site a declaração de Mauro Mendes, afirmando se tratar de uma fala discriminatória que fere a liberdade de crença e a dignidade das comunidades indígenas.*

Tudo indica que o projeto vai ser de fato executado e que aos indígenas restará apenas receber uma indenização. Mas ainda é incerto como o dinheiro se traduzirá em benefícios reais para as aldeias e como poderá ajudar a resolver os problemas que enfrentam como a falta de água encanada, de saneamento básico e de transporte para a cidade.

O vídeo da entrevista de Mauro Mendes acusando os boes de inventar um “corredor espiritual” circulou muito rapidamente pelos grupos de Whats­App das aldeias. São grupos que servem para marcar reuniões políticas, rituais, festas e campeonatos de futebol, além de anunciar a venda de peixes, biscoitos e refrigerantes. O deboche de Mendes despertou a ira de muitos indígenas. Foram particularmente dolorosas as palavras do governador a respeito dos “pajés”, declaração que os boes viram como uma referência a Joaquim Burudui, que aparece em um vídeo gravado durante uma viagem à área da antiga aldeia Kejari explicando a conexão dos boes com a região.

O insulto de Mendes foi uma das motivações que nos levaram a visitar a região onde esteve o casal Lévi-Strauss. A emoção de Bosco e Maria enquanto enrolavam seu cigarro na folha de papel deixou clara a força do tal “corredor espiritual”. Hoje, fora as pequenas ilhas verdes que são as diminutas terras indígenas boes demarcadas, apenas as grandes escarpas rochosas não foram tomadas pelo agronegócio. Afinal, é difícil instalar fazendas de soja ou de gado em relevos tão acidentados. Ainda bem, já que essas formações rochosas são lugares sensíveis para os boes: são os “lugares das almas” (aroe eiao), antigos espaços de sepultamento onde a solidez das pedras reflete a perenidade atribuída aos aroe – as almas dos mortos.

 

O conflito entre os boes e as forças econômicas e políticas acabou dando outro sentido para a viagem à França, em outubro de 2024. Já não se tratava apenas de conhecer a antiga coleção de objetos indígenas recolhidos pelo casal de antropólogos. Nas palavras de Antônio Jukuriakireu, professor da escola da aldeia central da ti Tadarimana e pesquisador da cultura boe, ver e tocar os objetos era uma forma de constatar, “por meio da materialidade”, aquilo que já sabiam pela “oralidade”: que no lugar do atual conflito de terras e bem antes da ocupação não indígena, existiu ali uma aldeia chamada Kejari.

No subsolo do Museu do Quai Branly, em uma sala imersa em luz branca intensa, os objetos da coleção do casal Lévi-Strauss foram dispostos sobre uma mesa, acomodados em pranchas de espuma. Os cinco convidados boes, vestindo jalecos brancos e luvas cirúrgicas azuis, inclinavam-se curiosos sobre as peças, examinando minuciosamente cada uma. As suas observações iam se acumulando pouco a pouco, até que as opiniões se alinhassem. Muitas vezes, porém, era impossível chegar a um consenso ou uma conclusão.

Dois objetos em particular capturaram a atenção dos indígenas: uma pulseira e uma braçadeira de algodão, enfeitadas com madrepérola, plumas de arara-vermelha e cabelos humanos. Elas buscavam evocar – como identificaram os cinco boes – a forma de peixes. Revivendo suas memórias, eles buscaram associar os adornos a algum clã.

Os boes se dividem em oito clãs, que vivem juntos nas aldeias e compartilham o mesmo território. Cada clã se distingue por um conjunto exclusivo de cantos, nomes e rituais, além de objetos e adornos, que variam conforme o material utilizado, as cores e os motivos gráficos. Um cocar que utiliza penas de arara-azul, por exemplo, é identificado ao clã Anta, que tem o privilégio exclusivo de recorrer a esse material. Esses repertórios de cada clã são seguidos com zelo e não é incomum haver debates entre jovens boes, inclusive em redes sociais, sobre o uso adequado de certos adornos e pinturas.

Os cinco indígenas em Paris notaram algo particular na pulseira e na braçadeira com detalhes em madrepérola: a extremidade de uma das faixas de algodão parecia ter sido cortada e um fio feito de fibra de tucum (palmeira muito comum no Cerrado e na Amazônia) foi improvisado no lugar da parte rompida. Nos registros deixados pelo casal Lévi-Strauss, havia uma pista adicional sobre esse objeto: ele pertencera a Cadete, chefe da aldeia Kejari em 1936. Foi o que confirmaram os boes, ao encontrarem na peça um motivo gráfico já quase imperceptível e os vestígios de suas cores originais, que eles identificaram com um padrão do repertório do clã Bakoro Ečerae, o mesmo de Cadete. Havia um detalhe, porém: o motivo dos peixes que o objeto evocava pertence a outro clã. Ao final, os boes convergiram na direção de uma hipótese: o objeto deve ter pertencido a Cadete, mas o chefe teria cortado a faixa e improvisado um conjunto de adornos diferente e mais atraente, para atender à demanda do casal Lévi-Strauss.

A cada nova prancha trazida à mesa, se repetia a impressão de que certos objetos – em particular os mais espetaculares – teriam sido feitos às pressas. Nestes, era bastante comum, como notaram os boes, a combinação entre partes visivelmente desgastadas pelo uso e outras restauradas com materiais mais novos. Às vezes, foram usados materiais impróprios para a fabricação de um dado objeto ou ainda padrões gráficos de um clã que nem mesmo possuía aquele adorno ou instrumento musical. Aos poucos, foi ficando claro em Paris que muitos dos objetos provavelmente teriam sido abandonados e substituídos pelos indígenas não fosse a chegada da expedição Lévi-Strauss. Por exemplo, o antropólogo relata em Tristes trópicos o caso da negociação de um conjunto de adornos de cabeça – segundo ele, peça “indispensável” para os rituais boes – em troca de uma espingarda. Os indígenas teriam demorado oito dias para aceitar sua oferta. Esse foi o tempo necessário para que os boes reunissem todas as penas que precisavam para fazer um novo conjunto de adornos, que substituiria o antigo e passaria a ser usado em seus rituais.

Durante a análise dos objetos feita pelos boes em Paris, com o passar do tempo, uma expressão se cristalizou entre eles: aquela coleção improvisada era formada de objetos “para a mostra”. Ou seja: eles foram feitos, muitas vezes de forma afanada, apenas para serem negociados, e não para serem usados nos rituais. Examinando um deles, Jukuriakireu concluiu: “Nossos parentes eram espertos.”

Nem todo objeto, entretanto, pode ser refeito com materiais alternativos. Um bom exemplo são os colares de dentes de onça e os cocares pariko, que são cuidadosamente guardados e associados à memória dos mortos. Mas, ao contrário de um pariko, que pode ser descartado ou refeito se estiver danificado, o colar com dentes de onça comemora o feito único de um caçador e é um objeto insubstituível, que pode ser inclusive transmitido como herança. Logo, é impossível que os colares desse tipo que se encontram na coleção Lévi-­Strauss tenham sido confeccionados pelos boes apenas “para a mostra”. “Aquela onça é aquela lá, não pode ser outra”, explicou Ismael Atugoreu.

Um dos poucos relatos de Lévi-­Strauss a respeito da aquisição dessa coleção não deixa dúvida quanto à excepcionalidade das peças com dentes de onça. Em 1936, em seu primeiro artigo publicado como antropólogo, ele relata a resistência das mulheres em vender tais objetos – até que, finalmente, conseguiu fechar negócio com uma delas. No entanto, nas suas palavras, “logo que o negócio se tornou conhecido, provocou verdadeiro furor no elemento feminino da aldeia, que não nos poupou seus insultos”. Destas “fortunas hereditárias” que são os colares de dentes de onça, as mulheres se orgulhavam “com altivez e arrogância”, escreveu o antropólogo.

No segundo dia de consulta aos objetos no museu, durante um intervalo, Neiva Aroereaudo contou que se sentiu tomada por uma tristeza inesperada. Em uma ligação para sua mãe na aldeia, contou, entre lágrimas, que havia visto e tocado objetos do clã Tatu-Canastra, ao qual elas pertencem: artefatos que podem ter sido feitos pelas mãos de parentes cuja memória já se desvaneceu. Ela relatou que a aparência quase intocada de alguns desses objetos contribuiu para seu sentimento de luto: “Parece que não faz tanto tempo que estão aqui, como se estivessem no máximo há cinco anos.” A cápsula do tempo museológica não havia apenas trazido para o presente as penas, os tecidos, as fibras e a madeira. Trouxe também a desconcertante evocação daquelas próprias pessoas que, com destreza, esculpiram, colaram e trançaram esses materiais.

Há quase noventa anos, quando os moradores da aldeia Kejari negociaram ornamentos e outros objetos com o casal Lévi-Strauss, é pouco provável que achassem se tratar simplesmente de uma venda. Entre os boes, quando uma família cede objetos de seu clã a pessoas de outro clã como pagamento por serviços rituais, é usual que essa transação produza um vínculo e uma responsabilidade permanente entre as partes. Ainda hoje, quando um não indígena visita uma aldeia boe, é comum que receba de presente um objeto simples ou, para relações mais duradouras, um nome. O presente é muitas vezes acompanhado de uma observação, cuja simplicidade pode ser enganadora: “É para você se lembrar de nós.”

Em janeiro de 1936, quando os antropólogos deixaram a aldeia, os boes devem ter se questionado se os visitantes se lembrariam deles, que efeitos aquelas centenas de objetos poderiam gerar. Não poderiam imaginar que seriam preservados por décadas, congelados no tempo, dentro de um museu.

Também não teriam como imaginar que seus descendentes, um dia, confeccionariam em Paris um objeto para ser acrescentado ao conjunto reunido pelo casal Lévi-Strauss. No dia da exibição do filme no Museu do Quai Branly, quando os boes se juntaram no ateliê de restauração para fazer o pariko, eles se basearam num exemplar deteriorado da coleção que haviam conhecido. Tal como seus antepassados, também fizeram tudo às pressas, criando um objeto “para a mostra”. Mas o novo pariko não era apenas um objeto: ele restaurava uma relação, projetando novamente para o futuro os seus efeitos imprevisí­veis – dessa vez, com plena consciência da parte dos boes sobre o poder que os museus têm de encurtar as distâncias temporais. “Esse pariko vai durar mais que o antigo. Um dia, nossos netos e bisnetos poderão vê-lo”, disse Bosco Marido Kurireu.

Em 11 de outubro de 2024, o dia seguinte à confecção do cocar e à sessão de cinema, os boes fizeram uma conferência no Collège de France, a mesma instituição onde Lévi-Strauss os evocara 65 anos atrás, em sua aula inaugural. A sala estava lotada e várias pessoas tiveram que se sentar no chão. Os boes falaram da situação de suas terras e do confinamento ao qual são submetidos há séculos em seus territórios. Os pesquisadores franceses não escondiam o entusiasmo e a emoção em ouvir representantes daquele povo que só conheciam dos livros. Ao final da conferência, os indígenas disseram que o pariko confeccionado no Quai Branly e doado ao museu representava também a renovação de uma responsabilidade: a das instituições e dos antropólogos, cuja história estará permanentemente entrelaçada à do povo Boe. Eles esperam, em suma, ser lembrados.

 

No dia anterior à viagem para a França, quando ainda estávamos em São Paulo, Ismael Atugoreu perguntou se teríamos tempo para visitar o zoológico em Paris. Ele tinha particular curiosidade de ver as adugo doge, as onças-pintadas. Como todos os outros boes manifestaram o mesmo interesse, reservamos um horário para a visita no último dia da estadia.

Depois da semana intensa de trabalho, fomos todos ao Jardim Zoológico de Paris, no Bosque de Vincennes. O passeio entre leões, focas, girafas, zebras e babuínos durou pouco mais de duas horas. Ao se aproximar das duas onças, separadas do público apenas pelo vidro de proteção, Atugoreu logo sacou seu celular. Por um bom momento, ele filmou a situação inusitada: os animais que lhes são tão familiares estavam confinados, muito distantes de seu lugar de origem, numa pequena jaula em Paris.

Seu entusiasmo, porém, foi ainda maior ao ver o suricato, com sua postura sempre ereta, de olhos atentos no céu, protegendo sua toca de um possível predador. Atugoreu comentou então como aquele animalzinho, confinado em um pequeno espaço que emula seu território original, ignorava o fato de que os aviões que sobrevoavam sua cabeça no céu da capital francesa não eram as aves de rapina das savanas africanas. “Coitado”, suspirou várias vezes.

No dia seguinte, já no aeroporto para retornar ao Brasil, perguntamos aos cincos boes do que tinham gostado mais durante a viagem. Alguns mencionaram o longo trajeto de avião. Atugoreu não hesitou: ele havia gostado do suricato, de sua dedicação de pequena sentinela, protegendo os seus. Aquilo marcaria sua memória: mesmo vivendo num fragmento de mundo, o bichinho mantinha uma vigilância incansável.

 


* A reportagem foi atualizada em 11/03/2025 para incluir a decisão do Ministério Público Federal que mandou tirar do ar a declaração do governador Mauro Mendes à rádio Jovem Pan.