O fotógrafo sul-africano no dia 20 de maio de 2024, durante as cheias de Porto Alegre: ele já documentou inundações em treze países
Ainda submersos
Um ano depois da pior catástrofe ambiental da história gaúcha
Gideon Mendel | Edição 224, Maio 2025
Texto de apresentação de Anna Ortega
O silêncio de uma metrópole alagada é perturbador. Escolas, lojas, restaurantes e bares deixam de funcionar. Barcos transitam por onde antes passavam ônibus e carros. Vira-latas caramelos desaparecem do mapa, e os poucos humanos que se aventuram pelas ruas não ousam emitir muitas palavras. O fotógrafo sul-africano Gideon Mendel, de 65 anos, já presenciou tamanha quietude repetidas vezes, desde que começou a documentar o impacto das mudanças climáticas em 2007.
Eu, por outro lado, nunca havia percorrido uma cidade inundada – que dirá a minha própria, Porto Alegre. Sou repórter freelancer e, em maio de 2024, aceitei um convite de Mendel para cobrirmos as cheias que afetaram praticamente todo o Rio Grande do Sul. A pior catástrofe ambiental da história gaúcha se iniciou no fim de abril, às margens do Rio Pardo, que atravessa boa parte do Pampa. Durante quase um mês, a tragédia matou 183 pessoas e desalojou 617 mil.
Mendel, sul-africano de Joanesburgo e radicado em Londres, criou o projeto Drowning World (Mundo afogado) para registrar as maiores enchentes do século XXI, causadas sobretudo pelo aquecimento global. O fotógrafo visitou treze países até agora, incluindo a Tailândia, o Paquistão, a Nigéria, os Estados Unidos, a França e o Brasil. Há dez anos viajou para o Acre e testemunhou o transbordamento do rio que leva o nome do estado. Mendel também costuma fotografar as consequências de grandes incêndios florestais, como os da Austrália em 2020.
O cerne do Drowning World é a série Submerged portraits – retratos de crianças e adultos cujas residências ficaram submersas. As imagens sempre mostram os personagens de frente, em postura altiva e dentro d’água. Nos quinze dias de trabalho com Mendel, me incumbi de achar moradores de Porto Alegre e da vizinha Canoas que topassem participar do projeto. Imaginei que enfrentaria muitas dificuldades para recrutá-los. “Quem aceitará tirar fotos numa circunstância tão desfavorável?”, me perguntava. Estava enganada. A maioria dos desabrigados que abordei queria posar. Eles viam os retratos não só como uma prova da situação terrível que amargavam, mas principalmente como expressão de resiliência.
Volta e meia, entramos em casas habitadas por famílias que buscaram refúgio no alto dos telhados. Quando abríamos a porta, nos deparávamos com indícios de vidas comuns interrompidas pela tragédia: roupas no varal, louças ainda sobre a pia. Era bem angustiante.
Em quatro décadas de carreira, Mendel registrou a violência do apartheid na África do Sul, a pandemia da Aids e diversos outros acontecimentos que se tornaram históricos. Não por acaso, ganhou seis vezes o Prêmio World Press Photo. Mais que fotógrafo, ele se considera um “ativista visual”. As imagens que produz aparecem com destaque tanto na mídia quanto em museus e cartazes de protestos. Avesso à rapidez do fotojornalismo, ele trabalha vagarosamente. Mesmo quando não domina o idioma local, busca conversar e se solidarizar com as pessoas antes de clicá-las.
No mês passado, agora sozinha, reencontrei alguns gaúchos que Mendel fotografou. Nenhum deles se recuperou totalmente do baque. Um ano depois das inundações, as vítimas continuam mergulhadas em problemas materiais, traumas e lembranças ruins.

Victor Noah Nantal, com o gato Gê
Rua Ximango
Vila dos Papeleiros
Porto Alegre
O jovem transmasculino de 16 anos ficou quase três semanas longe do seu gato Gê. Quando Porto Alegre inundou, o estudante e sua família deixaram às pressas a Vila dos Papeleiros, bairro periférico onde moram, já que as cheias o atingiram rapidamente. Eles saíram de casa em plena madrugada, não sem antes colocar o animal no terceiro andar do imóvel, com um saco aberto de ração e bastante água. Só puderam resgatá-lo depois que a enchente diminuiu. “Temi que o Gê não resistisse. Foi horrível…”, relembra o adolescente. “Tivemos que passar dois meses fora de casa. Perdemos toda a mobília da sala e da cozinha, além das geladeiras, mas conseguimos recuperar tudo. O medo é que permanece. Basta saber que vai chover muito e já entro em pânico.”

Jonas de Sousa
Rua Rio de Janeiro
Bairro Mathias Velho
Canoas
As inundações destruíram a casa térrea que o comerciante de 37 anos dividia com a mulher e o filho. Além disso, a família perdeu um dos negócios que a sustentava: uma distribuidora de bebidas. Os freezers e toda a mercadoria estragaram. Sem condições de arrumar a residência, os Souza se mudaram para uma cidade próxima, Nova Santa Rita. “Ainda não reinaugurei a distribuidora de bebidas. Vivo apenas do ferro-velho que eu já tinha”, diz o comerciante. “Estou tocando o barco. Não posso afirmar que me sinto feliz, mas também não carrego aquela tristeza de antes. Um dia, ainda pretendo consertar a casa em Canoas. O problema é que os pedreiros estão cobrando muito caro pelo serviço. A mão de obra subiu uns 500% desde as enchentes.”

Fabiane Lara dos Santos
Rua Distrito Federal
Bairro Mathias Velho
Canoas
A promotora legal popular e ativista de 49 anos perdeu a casa onde sempre morou. Três gerações de sua família habitaram o imóvel, que sediava o terreiro Ijobá Baratyê Shango Aganjú, liderado por seu marido. Ela exerce a função de assistente de projeto e educação na Themis, associação civil gaúcha que promove os direitos femininos e oferece assistência jurídica a mulheres vítimas de violência. “Não consegui voltar para casa. Tenho medo”, diz. “Por enquanto, prefiro viver num apartamento em outra região de Canoas, um pouco mais alta que o Mathias Velho. Não é fácil… No dia em que me afastei de casa, senti que estava abandonando minhas raízes.” Para elaborar o trauma, ela recorre à escrita: “Águas que seguem o seu trajeto, encontrando todos os rios e bacias, inundando os nossos lares e corações de dor, […] se agarrando em cada lembrança de quando eram vida e não morte.”

Marcos Rogério de Moraes (à esq.) e José Airton de Moraes
Rua Passo Fundo
Bairro Mathias Velho
Canoas
Na tarde em que posaram para a foto, os irmãos José Airton e Marcos Rogério de Moraes, de 50 e 41 anos respectivamente, tentavam recuperar uma moto. Não conseguiram. O veículo ficava na garagem da casa onde José mora com a mulher e o filho, em Canoas. “Pedi ajuda para o Marcos. Ele vive pertinho daqui, na cidade de Nova Santa Rita”, conta o encarregado operacional de uma transportadora. “As águas danificaram tudo: móveis, roupas, documentos… Eu alimentava a esperança de que salvaria pelo menos a moto. Infelizmente, não deu.” José voltou para casa apenas dez meses depois das cheias. Antes de regressar, precisou refazer a parte elétrica, hidráulica e estrutural do imóvel. “Ainda estou repondo as mobílias, acredita? Sempre que compro uma nova, me lembro do que aconteceu e sinto um frio na espinha. Vai demorar para a gente esquecer tanta desgraça.”

Hércules Mário Aléssio
Rua Hoffmann
Bairro São Geraldo
Porto Alegre
O negociante de 77 anos estava voltando da revendedora de máquinas industriais onde trabalha há cinco décadas quando o fotógrafo Gideon Mendel o retratou. A água que invadiu a empresa porto-alegrense ultrapassou 1,7 metro de altura. “Por baixo, tomamos um prejuízo de 300 mil reais”, calcula ele. “Todos os nossos equipamentos precisaram de revisão geral, principalmente nos motores e no circuito elétrico. Para complicar, agora temos que vendê-los mais baratos, porque a clientela sabe que molharam bastante.” “Sentimental de carteirinha”, ele continua se emocionando sempre que vê imagens do estrago. “Foi dificílimo! Mas, pelo menos, nunca perdemos a força para superar a tragédia.”

Alex Abel
Rua Recife
Bairro Mathias Velho
Canoas
O assessor parlamentar de 50 anos precisou abandonar a casa em que vivia com a família. Só retornou quatro meses depois. Perdeu todos os móveis e teve que reformar a parte elétrica da casa. Durante trinta dias, enquanto estava desalojado, fez questão de se juntar às equipes que auxiliavam os voluntários responsáveis por resgatar outros desabrigados em Canoas. Hoje, ele diz que o bairro Mathias Velho – o mais populoso da cidade e um dos mais atingidos pelas águas – não voltou à rotina de antes. “Vai levar uns cinco anos para as coisas se normalizarem. Uma porção de moradias ainda necessita de reparos, parte do comércio não reabriu, e ninguém aqui se tranquilizou por completo. A gente morre de medo que aconteça tudo de novo.”

Anna Ortega
Casa de Cultura Mario Quintana
Travessa dos Cataventos
Centro Histórico de Porto Alegre
A jornalista, fotógrafa e produtora de 24 anos que trabalhou com Gideon Mendel permaneceu três semanas longe de seu apartamento porque as enchentes a impediram de acessar o edifício onde morava, no bairro Menino Deus. O fotógrafo a retratou dentro da Casa de Cultura Mario Quintana, um dos cartões-postais de Porto Alegre. Com sete andares, o prédio de 1933 é tombado pelo patrimônio histórico nacional e recebe, em média, 30 mil visitantes por mês. As inundações destruíram todo o térreo, em que se localizam as salas de exposição, os cinemas, os bares, os cafés e a Livraria Taverna. A casa retomou as atividades somente no dia 14 de agosto do ano passado, três meses depois das cheias. À época, a fachada rosa da construção exibiu a mostra Reflexos da emergência, com curadoria de Ortega e Luísa Kiefer, que reproduzia quinze fotografias tiradas por Mendel no Rio Grande do Sul. As imagens, ampliadas sobre tecidos, tinham quase 2,5 m2.
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