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O mar virou sertão

    A ministra Marina Silva: alvo das baixezas de três marmanjos no Congresso CRÉDITO: KLEBER SALES_2025

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O mar virou sertão

A armadilha do agro e o paradoxo do governo

Fernando de Barros e Silva | Edição 225, Junho 2025

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A sociedade brasileira sempre esteve marcada por sua dimensão agrária. A despeito das alterações ocorridas desde a extinção da escravatura, continuam a ser importantes as bases agrárias da sociedade nacional. A industrialização e a urbanização, que se acentuaram desde 1930, modificaram largamente o mundo agrário. Pode-se mesmo falar em industrialização e urbanização do campo. Houve uma revolução na agricultura. Do ponto de vista das classes dominantes, o sertão já virou mar e o mar já virou sertão.

As palavras acima foram escritas pelo sociólogo Octavio Ianni. Estão no prefácio do livro Origens agrárias do Estado brasileiro, lançado pela Editora Brasiliense nos idos de 1984. Professor emérito da USP e da Unicamp, com passagem pela PUC-SP e pelo Cebrap, Ianni foi um dos grandes nomes do que se convencionou chamar de Escola Paulista de Sociologia, cujo patrono foi Florestan Fernandes e a figura mais proeminente é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Aluno do primeiro e colega do segundo, com quem publicou seu primeiro livro, Ianni morreu em 2004. Deixou uma obra vasta, com mais de trinta títulos, e hoje parece relativamente esquecido.

No caso deste parágrafo longínquo, o que o torna irresistível é a última frase: Do ponto de vista das classes dominantes, o sertão já virou mar e o mar já virou sertão. Não deixa de lembrar a famosa frase do Leopardo, de Tomasi di Lampedusa – Se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude. De toda forma, o diagnóstico da persistência das bases agrárias da sociedade brasileira era bem pouco evidente em meados dos anos 1980. O país havia conhecido um crescimento acelerado nas décadas anteriores e adotado a política de “substituição de importações”, voltada ao desenvolvimento da indústria nacional. À luz de hoje, passados mais de quarenta anos, o que pretendia ser um retrato duvidoso do presente soa como profecia. Ianni não viveu o bastante para ver o Brasil se transformar no país do agro.

 

Entre 1980 e 2020, a participação dos produtos industrializados no PIB brasileiro recuou de 21,1% para 11,9%. Esse longo processo de encolhimento da indústria foi acompanhado pela reprimarização da pauta de exportações do país, algo que se acentuou a partir dos anos 2000 em razão do crescimento vertiginoso da China, que passou a ser o grande comprador das nossas matérias-primas.

Em 2000, apenas 2,8% das nossas exportações tinham a China como destino. Em 2018, essa fatia alcançou 27,9%. As exportações para os Estados Unidos, pelo contrário, caíram de 23,9% para 12% no mesmo intervalo. A essa inversão se soma outra, que a complementa: a participação de produtos manufaturados nas exportações do país recuou de 59% para 36%, enquanto a participação das commodities subiu de 23% para 51% no mesmo período.

Todos esses números foram retirados de um livro interessantíssimo, intitulado Classe trabalhadora na capital do agronegócio (editora Alameda, 2023), do sociólogo Luiz Felipe Ferrari Cerqueira de Farias. É um estudo de caso sobre a cidade de Sorriso, localizada na região central de Mato Grosso, conhecida por ser a maior produtora de soja do país – daí a distinção de “capital do agronegócio”.

 

Quando Ianni publicou seu livro sobre as “origens agrárias” do Estado brasileiro, Sorriso ainda nem existia. Resultado de projetos de colonização de Mato Grosso iniciados na década de 1970, o município foi oficialmente fundado só em 1986. Comparada ao jovem agromunicípio, Brasília, a cidade-síntese da nossa utopia modernista, projetada para ser a materialização da integração nacional (tanto do território como de uma sociedade digna do nome, que redimisse as feridas da herança colonial), não passa de uma velha senhora, uma espécie de museu a céu aberto de uma aposta histórica que não vingou. Temos a impressão, isso sim, de que o país, de lá para cá, não parou de se vingar da ousadia de Oscar Niemeyer.

Fiquemos, por ora, com a tragédia urbana brasileira. Ela é eclética – está nos excessos e na monumentalidade do que é privado, no descaso crônico com o que é comum, na superposição incongruente de estilos, na aglomeração ou no abandono de espaços segundo as conveniências do mercado imobiliário e as omissões do poder público. Além de eclética, é uma tragédia bem distribuída: podemos encontrá-la tanto nas partes ricas como nas partes pobres das cidades, em praticamente todas elas. Nos arranha-céus à beira-mar (alô, Balneário Camboriú), nos shopping centers que parecem bunkers de costas para a rua (olá, Shopping Iguatemi), nos condomínios dos ricaços e nos seus genéricos voltados aos remediados (os nomes, um certificado de cafonice, quase sempre remetem a títulos nobiliárquicos ou são em língua estrangeira), no Templo de Salomão da Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, no mar de lajes das grandes periferias, sem respiros ou áreas verdes, nas favelas sem-fim país afora (não é o caso de romantizá-las). A lista é virtualmente infinita, somos inventivos.

A menção de honra fica com o estilo greco-goiano, consagrado na residência do compositor e cantor sertanejo Gusttavo Lima, construída numa área total de 15 mil m2, nas proximidades de Goiânia. Dublê de artista e bet boy, apontado pela polícia no ano passado como sócio oculto de uma casa de apostas esportivas da qual foi garoto-propaganda, indiciado por lavagem de dinheiro numa investigação ainda em curso, Gusttavo Lima flertou com a candidatura à Presidência da República no início do ano. Em fevereiro, seu nome apareceu em pesquisas de opinião, empatado em segundo lugar com o governador Tarcísio de Freitas, só atrás de Lula. Em março, no entanto, ele anunciou pelas redes sociais que havia desistido de concorrer ao Planalto. Por enquanto, ao menos.

 

A política o persegue. Sua mansão, em estilo neoclássico anabolizado, é um pastiche da Casa Branca, de onde vem sua inspiração. Do horror disponível pelas imagens da internet, que inclui carros de luxo estacionados na sala como parte da decoração, minha atenção se detém no detalhe no frontão, onde está desenhado em relevo um busto carregando um violão, com contornos dourados contra o fundo branco. Branco com dourado é um caminho sem volta. Pior que isso, só as réplicas da Estátua da Liberdade nas lojas da Havan.

 

Seria possível contar a história da ascensão do agro, não apenas como força econômica, mas como estilo de vida, expressão cultural e projeto político para o país, através da música. Em 1981, Milton Nascimento, um dos deuses do Olimpo da mpb, mandava o seguinte recado na canção Notícias do Brasil:

A novidade é que o Brasil não é só                         [litoral.

É muito mais, é muito mais que                                            [qualquer Zona Sul.

Tem gente boa espalhada por esse                        [Brasil,

que vai fazer desse lugar um bom país.

 

Uma notícia está chegando lá do                           [interior,

Não deu no rádio, no jornal ou na                          [televisão.

Ficar de frente para o mar, de costas                    [pro Brasil,

não vai fazer desse lugar um bom país.

A música está no LP Caçador de mim. Pode ser entendida como uma resposta à sensibilidade bossa-novista, aquela coisa de Dia de luz/festa de Sol/e o barquinho a deslizar/no macio azul do mar. Pois quarenta anos depois, em 2021, a dupla Adson & Alana surge do interior do Paraná para nos dizer qual é a real. A notícia lá do interior é que agora somos o País do agro. Assim eles cantam, pedindo licença para passar com o trator:

Me desculpe a bossa nova e a MPB

Mas o sertanejo é o som do Brasil

A gente lança a moda sem tá na tevê

Nosso jeitão caipira agora explodiu.

 

Bota Adson & Alana e rasga os                                             [alto-falante

A nossa pegada é forte

Bota cerveja gelar, churrasco e batidão

Nós é o pipoco do trovão.

 

Nome é Brasil, sobrenome rural

Não é mais o país do Carnaval

No mundo inteiro é respeitado

Brasil agora é o país do agro.

Aquilo deu nisso. Seria o caso de falar em reprimarização do gosto estético. Transcrevo a música respeitando os erros. “Bota cerveja gelar” talvez seja uma homenagem involuntária à sintaxe truncada do Jair. Cerveja, churrasco, batidão, pipoco do trovão – eis uma utopia brasileira ao alcance do som. Não estamos longe das falas de Lula sobre a picanha.

Na época de Fernando Collor, quando a corrupção no imaginário popular ainda era identificada com a direita, a música sertaneja foi bastante estigmatizada. Em setembro de 1992, a poucas semanas da abertura do processo de impeachment, Lulu Santos foi ao Domingão do Faustão e fez um longo discurso detonando o então presidente. Terminava dizendo: “Eu acho que a música sertaneja foi a trilha sonora dessa malfadada administração. Eu gostaria que uma fosse embora junto com a outra.” Também em 1992, no começo do ano, Ronaldo Bôscoli, justamente o autor de O barquinho, clássico da bossa nova, escrevia o seguinte em sua coluna no jornal O Dia: “O jeito é comprar uma espingarda de dois canos e sair ‘caçando’ essas duplas sertanejas que estão ‘empesteando’ nosso cancioneiro.”

Também havia, é claro, o movimento oposto, de incorporação dos sertanejos ao panteão da música brasileira. Em 1991, no seu especial de fim de ano na Globo, Roberto Carlos recebeu Zezé Di Camargo & Luciano e Chitãozinho & Xororó como convidados. Ao chamar os últimos para o palco, o rei falou: “Eu fico feliz de saber que o Brasil assume sua identidade. A música sertaneja para mim é realmente o retrato do Brasil, e eu conheço dois craques nesse assunto.”

Extraí essas passagens do livro Cowboys do asfalto: música sertaneja e modernização brasileira (Civilização Brasileira, 2015), do historiador Gustavo Alonso. Aprende-se muito com a pesquisa exaustiva feita pelo autor. Na disputa em questão, o tempo só confirmou que o aval de Roberto Carlos – agindo por convicção ou oportunismo, tanto faz – valia mais que a espingarda de Bôscoli. Ainda bem. O fato é que o gênero sertanejo se consolidou como uma das expressões mais fortes e populares da música brasileira.

 

É mais do que isso, na verdade. Em seu livro sobre a formação de Sorriso, Luiz Felipe de Farias fala do deslocamento do centro de gravidade das estruturas de poder no país:

As últimas duas décadas têm sido marcadas no Brasil pela erosão dos aparelhos de hegemonia que haviam permitido às frações das classes dominantes no Sudeste mais industrializado dirigirem a sociedade civil em escala nacional ao longo do século XX. […] Paralelamente, as burguesias agrária e agroindustrial parecem assumir crescente protagonismo dentre as frações das classes dominantes que compõem o bloco no poder.

O sertão e o mar estão trocando de posição.

Este é o pano de fundo que ajuda a entender (embora absolutamente não justifique) o comportamento recente dos senadores em relação a Marina Silva, convidada para falar na Comissão de Infraestrutura da Casa. Embora o clima de animosidade fosse generalizado, as baixezas contra a ministra do Meio Ambiente partiram de três marmanjos.

“Se ponha no teu lugar” (Marcos Rogério, senador pelo PL de Rondônia, presidente da comissão); “Ao olhar para a senhora, eu estou vendo uma ministra. Não estou falando com uma mulher. Porque a mulher merece respeito, a ministra não” (Plínio Valério, do PSDB do Amazonas); “A senhora atrapalha o desenvolvimento do nosso país. Tem mais de 5 mil obras paradas por causa dessa conversinha, governança, nhe-­nhe-nhem, blá-blá-blá” (Omar Aziz, do PSD, também amazonense).

Difícil imaginar esse tom truculento e misógino sem a experiência do governo Bolsonaro. Ele nos legou, entre tantas outras pragas, a porteira da estupidez e da grossura sem atenuantes, escancarada. Os ilustres senadores aproveitaram a oportunidade para passar mugindo.

Na semana anterior à sessão com a ministra, os senadores haviam aprovado com muita folga (54 contra 13 votos) o projeto de lei que flexibiliza as regras de licenciamento ambiental no país. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, incorporou ao texto uma emenda que, na prática, visa acelerar o processo de exploração de petróleo e gás na Costa do Amapá, seu estado.

É apenas uma pequena parte do que se pretende extrair na chamada Margem Equatorial, a extensão de mar que abrange mais de 2,2 mil km ao longo da costa entre o Rio Grande do Norte e o Amapá.

Lula mal disfarça que não vê a hora de aparecer com as mãos sujas do óleo oriundo das profundezas das águas do Norte e Nordeste do país. Mas Lula não é Bolsonaro. Não pode dizer, como o antecessor, que “o interesse na Amazônia não é no índio nem na porra da árvore, é no minério”.

O petista assumiu um compromisso histórico com o meio ambiente em 2022. Criou, além disso, a expectativa de que a COP30 – a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática –, a ser realizada em Belém, em novembro próximo, seja uma vitrine para o mundo dos esforços de seu governo em ajudar a salvar o planeta. Lula pode até reclamar da demora do Ibama, como de fato faz, mas não lhe é permitido tratar o que dizem os técnicos do meio ambiente como se fosse “conversinha, nhe-nhe-nhem, blá-blá-blá”.

Está configurada uma situação esquizofrênica, que tem muito a ver com a crítica que se faz sobre a falta de identidade ou de fisionomia própria deste governo. De um lado, a bancada lulista no Senado vota contra a implosão das regras que norteiam o licenciamento ambiental no país. De outro lado, o Executivo não faz nenhum esforço para impedir o resultado lesivo ao meio ambiente, que ele supostamente pretende preservar da predação.

Não se trata de jogo de cena. Seria mais fácil se fosse apenas isso. Lula parece se equilibrar, meio imobilizado, entre dois constrangimentos antagônicos: sem Marina e o que ela representa, corre o risco de se desmoralizar internacionalmente e descaracterizar seu mandato; sem o Centrão do agro que quer jogá-la ao mar, corre o risco de se inviabilizar internamente e perder a chance de reeleição.

Em junho do ano passado, o professor Marcos Nobre publicou na piauí um artigo que ilumina perfeitamente este imbróglio (O que vem depois do neoliberalismo?, piauí_213). Segundo ele, o êxito do Brasil do agro nos colocou diante de uma arapuca histórica. Ele explica:

A armadilha neoextrativista aprisiona um país como o Brasil entre a catástrofe climática em curso no Rio Grande do Sul e a chance de conter a extrema direita, que, retornando ao poder federal, aprofundará a exploração predatória de recursos naturais sem reservas nem obstáculos, utilizando plenamente os resultados em seu benefício político. A impossibilidade de desistir do neoextrativismo significa que a direita sem medo já venceu, que seu programa é vitorioso.

Fernando de Barros e Silva
Fernando de Barros e Silva

É repórter da piauí

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