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A neca da boneca

    Amara Moira: se a sua frequentação da zona não excedeu um par de anos, a convivência com James Joyce foi mais extensa, com um mestrado sobre Dublinenses e um doutorado sobre Ulysses CRÉDITO: MANAUARA CLANDESTINA_2025

questões literárias

A neca da boneca

O inovador romance travesti de Amara Moira

Eliane Robert Moraes | Edição 226, Julho 2025

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Neca, para os íntimos. Vale também o necão, sobretudo quando se trata de acentuar as qualidades dos casos mais avantajados, que só perdem para a cobiçadíssima necona odara, com seus 20 e tantos centímetros a garantir os mais raros deleites. Atende ainda por mastruço, pirocona, rolão, trambolho, mangueirona, bilau, xiri e mais uma infinidade de nomes. A rigor, não faltam significantes nesse amplo léxico que comporta do simples xuxu ao promissor xuxuzão, ou do minhocão à minhoquinha, sendo esta um exemplo da fecunda classe dos diminutivos ao lado de calabresinha, piquititinha ou varinha, fora os conhecidos pirulito, dote, rola, parafuso, pistola, croquete – e mesmo do trivial e corriqueiro pau.

O vocabulário praticado por Simona, narradora do romance Neca, de Amara Moira (Companhia das Letras), é de uma riqueza ímpar e, cumpre dizer, tal atributo não se restringe ao festejado órgão sexual masculino. Aliás, o privilégio que este ganha ao longo da narrativa encontra um concorrente à altura no reiterado édi ou edi, que se desdobra em cebola, buraco, redondo, fiofó, o de trás e tantas outras variantes possíveis entre o prosaico rabo e o hilário Edivaldo. São “as edilidades, per così dire”, resume a autora. Não é esse, ainda, o caso do bizarro viaduto do maridão, que denuncia a descoberta de uma ruela larga no recôndito traseiro de um ocó hétero, quer dizer, de um respeitado pai de família que ostenta uma aliança de ouro na mão esquerda?

Estas breves notas talvez bastem para mostrar a medida – melhor dizendo, a desmedida – do universo linguístico que singulariza Neca, mas convém acrescentar que a fartura de denominações se estende a outras partes e posições de um corpo decididamente libidinoso. Corpo que ocupa o centro do livro, sendo inclusive alçado a seu principal protagonista: afinal, acompanhar a saga indecorosa do menino Simon rumo à idade adulta, quando se assume travesti, implica percorrer as diversas camadas que conferem uma efetiva condição corporal a Simona, como passa a ser chamada. Do “parquinho de diversões da escola” até a arriscada profissão de puta nas quebradas urbanas, o que se expõe aos leitores na biografia da personagem é a constituição de uma sexualidade dissidente, dominante e absolutamente lasciva.

 

Nascida em Campinas há quarenta anos, Amara Moira se divide em muitas para responder às diversas aptidões que lhe exigem a vida de travesti, crítica literária, ativista do movimento das trabalhadoras sexuais e torcedora do Palmeiras. Acrescente-se a isso a promissora carreira de escritora de ficção, que se inicia com a publicação de Neca, o primeiro romance escrito em bajubá, o dialeto falado pelas travestis de rua no Brasil.

O bajubá, também conhecido como pajubá, nasceu entre os anos 1960 e 1970, em plena ditadura militar, nas zonas de prostituição das grandes cidades. Era uma forma de proteção e resistência, mas também uma reação à implacável segregação imposta ao grupo das trans e travestis, sempre afetado por uma rotina violenta, não raro seguida de prisão ou morte. Há, pois, uma demanda de segurança na origem desse dialeto que, inacessível aos clientes e aos policiais, permitia uma comunicação exclusiva entre as profissionais do sexo, criando entre elas um cordão de confiança e solidariedade. A própria palavra escolhida para designar essa linguagem já diz tudo: bajubá quer dizer segredo no idioma africano iorubá.

A invenção espontânea desse modo de falar foi decisiva na aproximação dessas pessoas ameaçadas, que, além de recorrerem ao dialeto para se protegerem, passaram a praticá-lo com um sentido político de afirmação, sem descartar a verve do escárnio, da galhofa e da gozação. Não seria equivocado, pois, evocar aqui a ideia de brincadeira que caracteriza o espírito macunaímico lavrado por Mário de Andrade, no que ele tem de mais puro – e de mais impuro. Tudo leva a crer que os primeiros passos dessa aventura linguística surgida nas ruas tenham servido justamente para nomear o seu lascivo e desregrado cotidiano.

 

 

Afinal, como nasce uma língua? Como terá tido início a nomeação dos seres e das coisas do mundo, atividade exclusiva à nossa espécie? Que motivos teriam precipitado as primeiras falas humanas?

Entre os pensadores modernos decididos a enfrentar essa questão destaca-se Jean-Jacques Rousseau, autor do notável Ensaio sobre a origem das línguas, publicado em 1781, ou seja, quase duzentos anos antes de as bichas brasileiras se empenharem na criação do bajubá. Na base da argumentação do filósofo sobre o desenvolvimento das línguas está precisamente a questão da aproximação entre os seres humanos. Propondo-se a “raciocinar sobre a origem das línguas de um modo totalmente diferente do que foi feito até hoje”, Rousseau toma como ponto de partida a hipótese de que “as necessidades ditaram os primeiros gestos e as paixões arrancaram as primeiras vozes”. Com tal diferença em mente, ao examinar a passagem do gesto à voz, ele sustenta que, no caso dos primeiros sons articulados que se fizeram ouvir no mundo, “não se começou por raciocinar, mas por sentir”. E argumenta:

Alega-se que os homens teriam inventado a palavra para expressar suas necessidades. Essa opinião parece-me insustentável. O efeito natural das primeiras necessidades foi afastar os homens e não os aproximar. Isso foi necessário para que a espécie se espalhasse e a Terra fosse prontamente povoada. Do contrário, o gênero humano teria se confinado a um canto do mundo e todo o resto permaneceria deserto.

 

Avançando nessa linha de reflexão, Rousseau completa:

A origem das línguas não se deve em absoluto às primeiras necessidades dos homens; seria impossível que da causa que os separa viesse o meio que os reúne. Mas então, onde estaria essa origem? Nas necessidades morais, nas paixões. Todas as paixões aproximam os mesmos homens que são forçados a se afastar pelo imperativo da busca pela sobrevivência. Não foram a fome ou a sede, mas o amor, o ódio, a piedade, a cólera, que arrancaram deles as primeiras vozes. (Tradução de Pedro P. Pimenta)

Disso ele conclui que, “para comover um jovem coração, para repelir um agressor injusto, a natureza dita acentos, gritos, gemidos” e, por serem estas “as mais antigas palavras inventadas, as primeiras línguas foram cantantes e apaixonadas antes de serem simples e metódicas”.

Nesse trecho significativo, o livro agrega, à ideia da língua como meio de reunião das pessoas, outra explicação para o surgimento do bajubá, que se deu num cenário propício à manifestação de eloquentes necessidades morais. Nas zonas de prostituição, não são poucas as paixões que se expõem com particular ênfase e demandam significações que excedem a própria linguagem corporal. É provável que a urgência em simbolizar tais paixões tenha motivado a passagem ao verbo: como que realizando a hipotética origem formulada por Rousseau, os gestos devem ter dado lugar a uma voz que despontou informalmente, por certo já eloquente – e não menos “cantante e apaixonada”.

Nada simples, e muito mais melódica do que metódica, a copiosa língua das travas implica tanto uma combinação de diversas tradições linguísticas que participaram da formação do nosso modo de falar como um inventivo vocabulário obsceno que se popularizou no país a partir de meados do século XX. Some-se a isso o português como idioma de base do bajubá que, além de guardar afinidades com os achados de Mário de Andrade na sua genial A gramatiquinha da fala brasileira, se identifica ainda com aquela saborosa língua “errada do povo”, que, no poema Evocação do Recife, Manuel Bandeira opõe ao ridículo hábito de “macaquear a sintaxe lusíada”.

Nessa base de fundo coloquial, reconhecem-se diversas palavras de origem africana, não só do iorubá como do banto, que são as línguas praticadas nos terreiros de umbanda e candomblé. É o caso dos termos erê e alibã, respectivamente criança e policial (em iorubá), entre muitas outras. A apropriação dessas raízes costuma ser atribuída à tolerância das religiões afro-brasileiras para com a dissidência sexual e de gênero, havendo aí uma significativa coincidência de datas: nos idos dos anos 1970, período mais brutal da ditadura militar, quando floresceu o bajubá, os terreiros estavam entre os poucos lugares seguros para a socialização da população travesti. Não é difícil identificar aí o lado mais solar da hipótese de Rousseau sobre a aptidão das línguas para reunir pessoas, na via oposta da segregação.

Esse encontro de semelhantes e de diferentes a um só tempo contribuiu para reunir no léxico travesti, de maneira constante ou difusa, alguns outros idiomas. Ao lado das palavras africanas, encontram-se numerosas expressões oriundas dos vários fluxos migratórios para o Brasil, com expressiva ênfase no italiano, mas sem prejuízo de outras matrizes europeias, como o espanhol e o francês. O bajubá é uma língua polifônica e, segundo a autora de Neca, isso se deve ainda ao fato de a cultura travesti ser “naturalmente ‘poliglótica’”. É a própria Moira que explica, em entrevista ao jornal Rascunho, de março de 2025, essa vocação de origem, que transita entre o sexual, linguístico e espacial:

Seja num nível interno, visto que as travestis que trabalham com prostituição estão sempre migrando dentro do país, seja num nível externo, pois a transfobia ainda hoje faz com que muitas de nós viajem para o exterior em busca de sociedades mais tolerantes. Daí não causar nenhum espanto quando uma travesti diz que “desde bambina se sente mulher”, por exemplo, ou quando ela solta palavras de outros idiomas no meio das suas falas.

Polifônica ou poliglótica, não importa o adjetivo com o qual se queira qualificar o pendor próprio à “língua das bichas”, o certo é que ela traduz com propriedade tanto a noção de diversidade como aquela de transição, oferecendo uma infinidade de formas verbais a dois dos principais eixos de seu mundo. Talvez nenhum outro idioma possa merecer de modo tão pertinente a designação, por excelência, de língua trans. Ainda mais agora, quando o dialeto acaba de entrar para a literatura.

 

“Não dá pra subestimar limadjinatzione dele bishe”. Simona está coberta de razão quando diz isso, e Neca só faz confirmá-la. À mistura de idiomas expandida pela oralidade, soma-se no romance uma abundância de neologismos que, além de pegar os leitores de calça curta, provocam sem cessar seu deslocamento mental. Se já não é fácil desvendar o suposto inglês de tchu mãtch, ou o prosaico quês que cê, vindo diretamente do françoá, ou o italiano tzúquero para adoçar algo mais que um cafezinho, o que dizer então de expressões oriundas da fala brasileira, como X’eu ver, tô te xoxando, paresque, eneaotil ou bissurdo?

Limadjinatzione é realmente soberana. E de tal maneira que não se sabe se o romance reproduz tão somente as falas da rua ou se ele está introduzindo as invenções da autora. A dúvida, contudo, não procede: afinal, sendo ela mesma uma travesti, Moira por certo está autorizada a dar seguimento à composição de uma língua nova, viva e em permanente atualização, que só nos últimos anos vem se transfigurando em forma letrada. De maneira muito tímida, cabe acentuar, por causa da censura do passado, mas ainda recorrente mesmo nestes tempos mais tolerantes.

Há, pois, um forte compromisso de continuidade entre as dimensões oral e escrita desse dialeto marginal, e talvez não seja mero acaso que tal acordo coincida profundamente com a história de vida de sua primeira romancista. Moira foi introduzida ao bajubá por travestis que faziam ponto no Jardim Itatinga, conhecida zona de prostituição da cidade de Campinas. Nos idos de 2014, aos 29 anos de idade e seis meses depois de efetivar a transição, ela estreou na carreira de trabalhadora sexual de rua. Até então sua experiência transviada se limitava à assídua frequentação de redutos destinados ao sexo entre homens, sem a mediação do dinheiro, como ela conta em E se eu fosse puta (Hoo Editora), livro autobiográfico lançado em 2016. Aquela vida pregressa rendeu algumas incisivas sínteses no volume, como esta:

Uma vida vivendo o sexo de maneira precária, me sentindo um lixo por desejar homens, mas refém desse meu desejo, transando com quem quer que fosse desde que anônimo, foda-se tamanho do pau, peso, altura ou padrão de beleza, aí de repente descubro que isso é talvez a única profissão que, enquanto travesti, terei fácil pela frente.

Os relatos da sua iniciação no amor venal são mais extensos e ganham um novo tom, a insinuar a ficcionista que ela viria a ser. Não por acaso, as descrições dos primeiros programas são entremeadas de considerações sobre o próprio ato de escrever, a sugerir que a puta, a travesti e a escritora se tornavam então uma só pessoa. No livro E se eu fosse puta, o tempo da narrativa (quando se passa a história) e o tempo da narração (quando a história é contada) dialogam habilmente entre si quando a autora adere ao trottoir, como se lê abaixo:

Era o primeiro cliente, primeiro de muitos, tesão de eu não me aguentar, ele pagando antecipado e eu só precisando fazer o que já sabia de cor dos banheirões e dark rooms da vida. A diferença é que eu agora era paga, finalmente paga, meus bons dons sendo reconhecidos. Quanto mesmo? Vinte reais, metade do que vale esse livro, mas naquele momento isso pouco importava, e nem hoje importa, até porque o livro só existe hoje por conta desses vinte reais que eu vali um dia, que eu um dia aceitei.

É bem provável que, ao percorrer as páginas do primeiro título da autora, os leitores de Neca venham a sentir falta do que pulsa com maior intensidade no coração do romance, que é, obviamente, o bajubá. A rigor, aqueles ainda eram anos de aprendizado e, para complicar, havia muitas transições em jogo. O menino aprendia a ser menina, a menina aprendia a ser puta, a puta aprendia a ser intelectual, e a intelectual aprendia a ser travesti – tudo ao mesmo tempo. Não era simples passar de Omar a Amara.

No período imediatamente anterior à transição, a candidata a boneca ainda estava, para retornarmos à hipótese de Rousseau, enredada na eloquência da linguagem corporal. De suas aventuras na fase dos “dark rooms da vida”, por exemplo, ela recorda que “todos que frequentam banheiro masculino sabem que homem não olha nos olhos de outro homem, não conversa, nem fala oi, a menos que esteja querendo coisa. Eu rapidinho entendi essa língua”.

“Eu queria coisa”, completa, categoricamente, a sugerir nas entrelinhas que a conquista plena da coisa desejada passava pelo acesso a outro tipo de linguagem. A trama das transições demandava novas formas expressivas para dar conta dos acontecimentos em curso, que acionavam ao mesmo tempo diversas dimensões objetivas e subjetivas. Embora o aprendizado dos gestos tenha se dado “rapidinho”, a passagem ao verbo exigiu um esforço mais complexo, que implicou não só a vivência nas esquinas lúbricas do Jardim Itatinga ao mesmo tempo que a circulação nos sóbrios corredores da Unicamp. E é por aí que entra, nessa história já um tanto sinuosa, ninguém menos que James Joyce.

Se a intensa frequentação da zona não excedeu um par de anos, a convivência com o criador de Ulysses revelou-­se bem mais extensa. O ano de 2011 demarcou o ponto de partida, com o ingresso de Moira no mestrado em teoria e história literária, defendido na Unicamp em 2013, com o trabalho “Dubliners”/“Dublinenses”: retraduzir James Joyce. Esse convívio, porém, avançou pelo menos até 2018, quando ela obteve o título de doutora pela mesma universidade, coincidindo com a época em que mudou os documentos e assumiu integralmente o novo nome social. Iniciado pelo “falecido”, o estudo completado pela travesti ganhou o expressivo título de A indeterminação de sentidos no “Ulysses” de James Joyce, a confirmar que, para ela, a questão da indeterminação tinha realmente estado na ordem do dia ao longo daquela década.

O fascínio pelo bajubá e a admiração pelo criador de Finnegans Wake de fato caminharam em paralelo durante todo o período, e ambos foram determinantes para o entendimento de “como a crueza da cultura travesti podia ser explorada literariamente”. Na mesma entrevista ao jornal Rascunho, Moira conclui:

Joyce me mostra que prosa e poesia podem conviver numa mesma obra, algo que eu quis testar ao escrever um texto que, explorando o tempo todo recursos poéticos, ainda assim passasse por coloquial. Além disso, Joyce me ensinou a prestar atenção ao português que é cotidianamente recriado e que ainda não possui registro escrito, esse português que não cabe na norma culta, mas que pode ser um portal de experimentações na mão de escritores.

Fiel aos ensinamentos nada ortodoxos de seu santo padroeiro irlandês, não é de esperar que o romance experimental de Moira tenha se restringido a uma só influência. Muito pelo contrário: ao lado do celeiro linguístico, da proliferação de neologismos e demais achados lexicais de sua criadora, Neca se caracteriza ainda por uma anarquia de referências literárias nada fácil de ser contabilizada.

A própria autora costuma repetir que seu livro é uma mistura de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, com Os 120 dias de Sodoma, do Marquês de Sade. Do primeiro, diz ter copiado a estrutura, optando pelo monólogo em tom confessional que organiza o lascivo depoimento da narradora. O segundo lhe serviu de modelo por certificar que “os lados mais sombrios da imaginação podem resultar nas nossas melhores contribuições à literatura”. Além das alusões a Rosa e a Sade, é possível reconhecer outras fontes de inspiração que ela convoca quando cita desde os trovadores medievais até nomes das mais diversas procedências, como Gregório de Matos, Hilda Hilst, Glauco Mattoso, Ezra Pound, Bocage ou Paul Preciado, entre outros.

Custa acreditar que tanta coisa possa caber nas moderadas 120 páginas do livro de Moira, mas é o que ocorre. O excesso tem seus segredos e, no domínio da forma literária, o comedimento surpreende por se revelar um de seus recursos narrativos. Neca não foge à regra e reitera tal economia de meios ao optar pelo monólogo, que limita a fala a uma só personagem. Quem detém a palavra é a própria Simona, travesti com altas quilometragens em esquinas brasileiras e europeias, cujo relato serve de preparo a uma jovem que acaba de ingressar no métier. Magnetizada pelas lições da tutora, a iniciante nada mais faz do que ouvir sua história de vida, na qual se reconhecem elementos autobiográficos da autora, embora no romance a inexperiente ouvinte atenda pelo nome de Amara. Alheia aos certificados de verdade que tanto empobrecem a chamada autoficção, a literata travesti bagunça à vontade as referências – e são justamente artimanhas como esta que nos garantem a qualidade de sua escrita.

A opção pela singular economia da desmedida não se esgota no gênero literário escolhido e tampouco na extensão da narrativa, desdobrando-se em outros ardis textuais, que rendem algumas das melhores passagens do livro. Entre elas, chama a atenção a brevidade de alguns enunciados superlativos (“Já chupei neca que só Jesus”) e a contenção de certas frases (“e cê confia, fia?”) ou de certas expressões (“deputrava”), sem falar das recorrentes abreviações de palavras: cliente é cli, testosterona é tê, os olhos se reduzem a zói, o óbvio a óvio, o aqui a qüi, e assim por diante.

Acrescente-se a essa lista o emprego do expediente numeral, que possibilita concentrar em poucas linhas uma vida inteira devotada à libertinagem transviada. Procedimento caro a Simona que, embora nunca tenha se economizado nos “passeios pelo lado B da existência humana”, se propõe a contabilizar mais de “vinte anos na labuta” com a seguinte conta:

Dia após dia na batalha, às vezes mais, às vezes menos, mas põe aí, chutando baixo, uns três cabritos por dia (e aqui não tem feriado e fim de semana, não, fica sem dá o da fada madrinha pra ver o sinsalabim que a varinha dela não faz), então, três vezes trezentos e sessenta e cinco, é isso o ano, né bicha? Bicha, me ajuda, que pra conta de cabeça eu sou lesada. Três vez trezentos, novecentos, três vezes sessenta, cento e oitenta, aí quinze, novecentos mais duzentos, tá, bicha.

Cálculos como este, fadados ao absurdo, dão testemunho tanto do intento de controlar os recursos quanto da vertigem que ele precipita, resultando na fusão entre as duas dimensões fundamentais da língua, a saber: a de linguagem e a de órgão sexual. Como ocorre nas sôfregas esquinas da zona, tudo ali tem de ir direto ao ponto, sem maiores subterfúgios, para responder à urgência da devassidão. Daí que o modo de falar das travas seja paradoxalmente rápido e extensivo: se, de um lado, emprega com frequência a forma abreviada, que prevê um ponto final, de outro, não cessa de repetir o mesmo mote, numa incansável reposição do que, a princípio, teria finalizado. A bem da verdade, tudo ali pode ser reposto ou ganhar continuidade, como ocorre nos programas do amor venal igualmente mediados por contas, a começar do valor a ser negociado antecipadamente até a regra de que basta “a gente combinar um precinho especial e vai para a continuêisham”.

A língua sexual de Neca não cessa de resumir, subtrair, abreviar, concentrar, comer sílabas ou palavras, valendo-se dessas e outras acrobacias de redução verbal para manter o sexo na ordem do dia, como se houvesse um só objetivo em seu horizonte: responder à rapidez do desejo. Não causa surpresa que seu vocabulário lascivo tenha nascido nas zonas de prostituição, onde o fluxo dos desejos corre solto, em alta voltagem e igual velocidade. Conduzida pelas mãos de Amara Moira, a escrita bajubá encena uma rapidinha atrás da outra.

 

Da redução ao rebaixamento, basta um piscar de olhos: afinal, quando se trata de sexo, os procedimentos formais nunca tardam a encontrar seus equivalentes morais. Mecanismo eficaz de diminuição no relato de Simona, o expediente do rebaixamento nada poupa ninguém, muito menos a literatura que lhe serve de suporte. Entre as personalidades das letras que se tornam alvos de sua desbragada verve estão, por exemplo, escritores como Álvares de Azevedo, Mário de Andrade e Fernando Pessoa, que no livro comparecem nas peles de CDzinha Azeveda, Mary Cona de Andrade e Fernanda People. Os nomes dizem tudo e prescindem de maiores explicações. Claro está que a exposição da “viadagem pregressa” desses autores, cujas obras a protagonista conheceu nos bancos escolares, não só rompe de vez com a formalidade do mundo letrado como reitera o deliberado intento de violação da norma culta. Uma vez rebaixadas, essas figuras canônicas sacramentam o tom geral do volume, que oscila entre o cômico, o irônico e o sarcástico para precipitar tudo ao patamar do baixo corporal.

Nada, decididamente nada, fica a salvo desse imperativo de levar a cabo o projeto de investigar “o que a boneca tem”. Entende-se por que os aspectos mais sombrios da experiência travesti terminam por ocupar uma posição coadjuvante nesse romance, cuja narradora se mostra continuamente disposta a deslizar dos temas graves para as notações cada vez mais libidinosas, sem qualquer reserva. Daí também que, entre idas e vindas do seu monólogo, que não exclui excursões pelas regiões mais soturnas da escala humana, ela sempre retorne aos poderes vivificantes de Eros, identificados quase que exclusivamente pela alcunha de neca.

Surpreende que essa referência tão masculina, onipresente no livro desde o título, seja alinhada ao gênero gramatical feminino (a neca) – aliás, em paralelo ao que ocorre com a pica. Ao se considerar o contexto em questão, porém, a indeterminação entre o que é do âmbito do homem ou da mulher ganha um sentido particular, já que a oscilação de gênero inscrita no próprio significante termina por atestar o quanto toda significação pode encerrar algo de arbitrário. A identidade masculina, precisamente no lugar em que seria incontestável, então suscetível de deslizar para o polo oposto, deixando no ar a virtualidade de uma inversão que, manifestada no corpo da língua, é passível de se transferir a qualquer outro órgão. A suposta universalidade da diferença sexual é colocada em xeque, expondo tanto o duplo sentido antitético que, para Freud, associa a linguagem ao inconsciente, como o senso comum mais rudimentar que nomeia o homossexual de “invertido”.

A hipótese é, sem dúvida, produtiva e cabe com perfeição a uma declaração categórica de Simona sobre o gênero masculino atribuído ao termo mulherão, que ela denuncia em alto e bom som:

Palavra engraçada essa, mulherão. A musa faz o diabo, mil e uma operações, pra no final o elogio tascar um masculino nela… deusa me livre, parece ou não sina de travesti? E as cis, quanto mais pintam e bordam na mesa de cirurgia, mais o povo fica achando que, na verdade, elas são cis coisíssima nenhuma, não, são é travesti.

Aqui também a indeterminação fala mais alto. E diz muito, lançando-nos diante de um novelo deveras intrincado. Afinal, não se trata apenas de inverter a polarização binária entre masculino e feminino: a passagem sugere que a mulher, em especial aquela que se enquadra no denominativo mulherão, ao lançar mão de artifícios que viriam a acentuar sua feminilidade, acaba sendo associada ao homem ou então confundida com a travesti. Há mais de uma inversão em jogo aí, bagunçando por completo as identidades sexuais convencionais, uma vez que nessa acepção não é a travesti quem copia a mulher, mas sim esta que não mais se distingue das outras sexualidades.

Engana-se, porém, quem vê em tal imprecisão qualquer intento de aproximação entre as travas e as mulheres. Nada disso: entre umas e outras não dá match algum, nunca deu, jamais dará e nem mesmo um cenário indeterminado em termos de gênero consegue esconder a incansável disputa que as anima. Simona vaticina:

Recalque puro, mapôs, elas não suportam ver a gente bem, a gente com os boys magia que elas nunquinha vão chegar nem perto. Perto da gente, que que elas são? Umas feias, umas pavorosas. Não sabem se arrumar, maquiar. Uó. Deus deu pra elas tudo, mão beijada, mas elas não aproveitam, parecem umas mindingas quando saem.

Já com as travecas ocorre o contrário, completa a bonita, para então justificar:

A gente gosta de uma atenção, gosta de ser olhada. O prazer de sentir ocós te comendo com os olhos, devorando, sem fazer ideia que você é trava, as dondocas se cortando de inveja, desesperadas atrás de qualcosa pra te chamar de bruta e cadê? Ops, não tem. A gente quando se produz não tem pra mapô nenhuma – ninguém ama a beleza como uma travesti.

Nascida com “essa vontade de ser a mais feminina em tudo”, toda trava digna do nome, segundo Simona, sonha em se apropriar dos atributos mais convencionais da feminilidade, na certeza de que, “se a bicha não nasceu mulher, ela vira, ela vira do avesso, mas vira…”. Aliás, justamente por não ter recebido nada de mão beijada ao vir ao mundo, ela se desdobra em mil para tomar posse de tais atributos, fazendo jus, mais do que ninguém, ao ditado feminista celebrizado por Simone de Beauvoir: “Não se nasce mulher, torna-se mulher.”

É nessa condição, inclusive, que Simona se oferece para satisfazer os desejos de um “homem homem, das antigas, esses que tão cada vez mais em falta”, aos quais ela desde sempre se devotou por inteiro:

Gostava de dar, mas se, além de dar, depois eu podia ainda lavar a roupa que ele sujou comigo, afe, eu me sentia a própria esposa, a dona de casa cuidando do marido adorado.

 

Mulher-objeto ou feminista?

Ambas, por certo e por incrível que possa parecer. Simona opta por não escolher entre as alternativas e, além de ocupar simbolicamente essa tensa via de mão dupla, é no cruzamento entre as duas que ela encontra substância para seu empoderamento. Mulher-objeto e feminista: aqui a adição prevalece sobre as reduções, revelando um inesperado pacto entre a submissa e a ativista para reforçar os paradoxos de um relato que subverte sem parar as valorações convencionais entre o passivo e o ativo.

Em que pese o sarcasmo de certas afirmações da narradora que convidam ao riso, a coisa nunca para por aí. De fato, há sempre um degrau a mais nessa interminável descida rumo ao conhecimento de experiências que só fazem acentuar a magnitude do rebaixamento. Se, de um lado, as bonecas em questão não deixam de evocar desde uma sexy pin-up dos anos 1950 até uma afetada desperate housewife do século XXI, de outro, sua ilimitada “atração pela podridão humana” – do bas-fond ao baixo corporal, e deste ao baixo calão – lhes confere uma silhueta nem sempre risível. Não há medida comum entre um extremo e outro: a coisa sempre pede mais e é precisamente nesse ponto que o excesso diz a que veio.

“Travesti cê sabe como gooxta de um exagero”, confirma Simona, como que lembrando a quantidade de artifícios de que se valem as colegas para se montarem no afã de realizar o sonhado propósito de serem confundidas com uma racha. Mas atenção: a teatralização do feminino, sempre levada a termo com o maior requinte de detalhes, jamais se limita a uma simples encenação. No fundo, o que se desvela é a verdade de toda mulher, assentada exatamente na mesma operação. Rachas ou amapoas, seja qual for o nome dado às mulheres, também dependem de esmeradas montagens, mais ou menos ostensivas, e não existe uma só entre nós que ignore o tanto de aparatos que há por trás de um simples look “natural” ou de um mero efeito de “cara lavada”. Não é na montagem, portanto, que reside a diferença capital entre travestis e amapoas, mas efetivamente naquilo que só a boneca tem.

E o que ela tem a mais é precisamente o que as demais travas, as monas e os ocós anseiam por conquistar: “É neca, sempre neca que elas tão atrás.” Tal é, em suma, o desejo de todas, de todos e de todes, sem qualquer exceção: segundo a rigorosa aferição de campo de uma expert qualificada como Simona, todo mundo quer mesmo é dar, não importa se para um minhocão ou uma minhoquinha. A preferência, claro, recai sempre num “necão quilométrico, sempre duro, maior quase que o dono”, a repor a alegria de uma boneca “linda com a pirocona do bofe bem enfiada, dura, dentro do meu edi” ou “a glória” de uma bonita que sai “do motel completamente arrombada…”.

Não se trata, pois, de a travesti simplesmente se afirmar como objeto do desejo, mas, sobretudo, de manifestar um desejo incondicional de ser objeto. Numa notável reversão da simbólica patriarcal, Amara Moira vira de ponta-cabeça a velha hierarquia entre “quem dá” e “quem come” para expor uma espécie de esgotamento contemporâneo que leva muita gente a querer abandonar a fatigante posição de sujeito. Não é de todo estranho que isso venha a ganhar evidência justamente no sexo. A rigor, só faltava mesmo uma língua nova e uma escritora de talento para dar conta do recado.

Fala, objeto!

Eliane Robert Moraes

É crítica literária e professora de literatura na USP. Publicou, entre outros, Sade, a felicidade libertina (Iluminuras) e A parte maldita brasileira: literatura, excesso, erotismo (Tinta-da-china).

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