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A protagonista

    Liniker: “Como eu sou uma artista independente, não posso dizer que a música mudou a minha vida drasticamente. Minha mãe continua trabalhando em uma associação de moradores” CRÉDITO: LARISSA KREILI_2025

cantoras do brasil

A protagonista

As glórias e angústias de Liniker

Thallys Braga | Edição 229, Outubro 2025

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Lina Pereira, uma jovem desempregada de 22 anos, tinha a expectativa de mudar de vida quando chegou de ônibus em Santo André, cidade do ABC paulista, no começo de 2012. Ela vinha do interior, onde a pobreza e a cultura evangélica embaralhavam suas perspectivas de futuro como artista, com o objetivo de estudar na Escola Livre de Teatro, instituição de renome que atraía aspirantes a atores de diferentes lugares do Brasil.

O que levava tanta gente a querer estudar lá era o fato de a escola ser gratuita e tocada por professores que integravam boas companhias de teatro. E, como a instituição adotava a pedagogia da autonomia, os alunos ajudavam a decidir os rumos das aulas de dramaturgia. Não havia currículo pedagógico definitivo, como nas escolas tradicionais, nem diploma ao fim dos quatro anos de estudos. A proposta era formar atores e atrizes independentes, capazes de experimentar.

Aquele era um ambiente provocativo, Lina Pereira logo percebeu. Pessoas falavam sozinhas no banheiro, faziam cenas no corredor, gesticulavam mudas diante das paredes. No apartamento de três quartos que ela dividia com outros dez alunos de teatro, era comum passarem as noites com os móveis revirados, encenando no espaço deixado no centro da sala.

 

Em pouco tempo, a jovem estava entregue à cultura do lugar. A mudança mais radical, contudo, aconteceu em sua vida dois anos depois, quando outro grupo de calouros desembarcou em Santo André para fazer o processo seletivo da escola. Entre os calouros, havia uma pessoa inquieta e ambiciosa, que fazia Lina Pereira lembrar de si mesma mais nova. “Ela parecia ter sede de fazer arte. Aquilo me encantava muito”, diz. A garota se chamava Liniker e vinha de Araraquara. Como a novata não tinha onde dormir, Lina Pereira a abrigou em sua república estudantil, e as duas viraram amigas.

Liniker se abriu rápido às experimentações cênicas da escola. Lina Pereira, cinco anos mais velha, começou a levar para as aulas os questionamentos que tinha a respeito do próprio corpo. Ela era homem? Era mulher? Concluiu: era uma travesti. Liniker também tinha dúvidas sobre a própria identidade de gênero. “Em casa, a gente emprestava roupas uma à outra”, diz Lina Pereira. Eram vestidos, saias, brincos, turbantes. “Nosso corpo virou a nossa experimentação artística mais radical.”

Em uma daquelas noites de encenação na sala de casa, Liniker se sentou numa cadeira, apoiou o violão na coxa e começou a cantarolar uma música autoral. Os jovens da casa pararam o que estavam fazendo para ouvir. Era uma canção de amor. A voz grave e o timbre remetiam a cantores antigos, como Tim Maia. Onze anos depois, Lina Pereira ainda se lembra do que pensou quando ouviu a amiga cantar pela primeira vez: “Nossa, a música pode ser isso. A música também pode fazer isso com alguém.”

 

Não demorou para que o pequeno meio artístico de Santo André comentasse sobre o talento vocal de Liniker. A notícia chegou até os Caramelows, um grupo de músicos de Araraquara que procurava uma vocalista para se lançar no mercado. Em 2015, com 20 anos, Liniker voltou à cidade natal para gravar, ao lado da banda, o vídeo Zero, um soul escrito por ela. A gravação foi publicada no YouTube e atraiu mais de 1 milhão de visualizações em uma semana. Produtores do país inteiro ligaram interessados em contratar a banda para apresentações em casas noturnas.

Liniker voltou a Santo André para fazer as malas e partir para São Paulo, mas não encontrou Lina Pereira, que tinha deixado a cidade para tratar um câncer. Quando as duas se reencontraram mais tarde, Pereira, curada do câncer, também estava se lançando como cantora, sob a alcunha de Linn da Quebrada. “Naquele tempo, a Liniker tinha o rosto fundo e as mãos muito geladas. A gente se alimentava do salgado do dia anterior porque era mais barato na padaria do bairro”, conta. Em novembro de 2024, ela foi assistir a um dos três shows que Liniker fez no Espaço Unimed, em São Paulo. No fim da noite, visitou o camarim para cumprimentar a amiga. “Quando segurei as mãos dela, percebi que o frio tinha ido embora. As mãos da Liniker são quentinhas agora.”

 

Na primeira vez que encontrei Liniker, em maio do ano passado, eu não pude cumprimentá-la nem com um abraço nem com um aperto de mão. Ela estava de preceito, seguindo uma série de regras de comportamento para ser admitida no candomblé. “Tive que adiar a minha iniciação no candomblé nos últimos anos por causa do ritmo de trabalho. Eu estava o tempo todo na estrada”, disse. “Para você ter uma ideia, não lembro qual foi a última vez que fiz um exame de sangue. Eu subia no palco mesmo quando tinha febre. Agora, sinto que pela primeira vez tenho tempo para cuidar de mim.”

 

Liniker estava em um estúdio no bairro do Mandaqui, em São Paulo, para finalizar a gravação do seu segundo disco solo. Era uma tarde ensolarada e fria, típica do outono. A cantora havia chegado ali de manhã, ainda cansada da sessão do dia anterior. O trabalho era acompanhado por Gustavo Ruiz e Julio Fejuca, dois produtores que mudaram a relação de Liniker com a própria música. No almoço, ela contou que se sentiu desvalorizada durante a criação dos dois discos que lançou com os Caramelows (Remonta, de 2016, e Goela abaixo, de 2019) porque os integrantes do grupo nunca lhe deram os devidos créditos de produtora. “Todas as composições eram minhas. Muitas vezes eu cheguei no estúdio com melodias prontas. Mas, como eu não sabia mexer na mesa de som, não era vista como produtora.”

Depois que a parceria com a banda acabou em 2020, Liniker passou meses em casa cogitando abandonar a carreira musical e se dedicar à de atriz. Gravou uma série da Amazon Prime, Manhãs de setembro, em que interpretou Cassandra, uma mulher trans que trabalha como motogirl e cover da cantora Vanusa. “Eu não sabia mais quem eu era como artista”, disse. Ela, então, conheceu o músico Julio Fejuca na casa de uma amiga, a também cantora Xênia França. “Graças à ajuda dele, fui ganhando confiança para voltar. A gente se reunia na sala da minha casa e tocava por horas, sem compromisso, só pelo prazer da coisa.”

Deixamos a mesa do almoço para voltar ao estúdio, um lugar escuro e úmido, onde Liniker gravaria os vocais de Tudo, a música de trabalho do seu novo disco. Em cima de uma caixa de som havia um pequeno gramofone dourado, disposto como se fosse uma imagem sacra. Era o Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Popular Brasileira, que Liniker recebeu em 2022. Seu primeiro disco solo, Indigo borboleta anil, venceu concorrentes como Caetano Veloso, Ney Matogrosso, Marisa Monte, João Donato e Jards Macalé. Com o resultado, Liniker se tornou a segunda mulher transexual a ganhar um Grammy no mundo. A primeira foi a compositora americana Wendy Carlos, hoje com 85 anos.

Quando o técnico de som soltou o instrumental de Tudo, Liniker, dentro da cabine de gravação, parecia insegura. O refrão da música exigia grande esforço vocal, e a voz dela tinha sido submetida a uma maratona nos últimos três dias. “O que você acha?”, ela perguntou ao preparador vocal Paulo Zuckini, depois de quatro tentativas. “Acho que eu desceria o tom no final, para fazer uma conexão com o grave. Vamos tentar outra vez?”, sugeriu Zuckini. A cantora concordou e gravou outra vez, e outra vez, e outra vez. Gravou por quase duas horas. Até que deixou a cabine, o rosto suado, e disse: “Agora eu preciso descansar.”

Liniker estava preocupada com Clau, a cadela vira-lata que já inspirou uma de suas músicas. Naquele dia, Clau tinha sido internada por causa de uma coceira persistente no ouvido. Ouviu-se uma movimentação no lado de fora do estúdio e, quando abriram a porta, a cadela entrou correndo, com a cabeça enfaixada, e pulou no colo de Liniker. A cantora abraçou o animal e chorou.

“Antes de ir embora, vamos gravar outra vez a do Lulu”, disse Liniker. Ela se referia a Deixa estar, uma disco music, que conta com participação de Lulu Santos e Pabllo Vittar, que gravaram a parte deles em outra ocasião. O novo álbum da cantora reúne um conjunto de subgêneros da música pop, como o disco, o house, o pagode e o arrocha. “Estou fazendo esse disco porque tenho a impressão de que fui colocada em um lugar senhoril muito cedo. As pessoas olham para mim e me tratam com uma senhora, mas eu sou uma travesti de 29 anos. Eu só quero me divertir.” Em julho, ela fez 30 anos.

 

Assim como todas as outras composições de Liniker, a música Tudo, que ela gravava naquele dia, foi inspirada por uma história de amor. Nesse caso, a que aconteceu em julho de 2023, em Dublin. Liniker estava na capital irlandesa para fazer dois shows e se apaixonou por um homem que conheceu lá. “Nós passamos três dias juntos, não durou mais que isso. Acontece que, naqueles três dias, o que nós tivemos foi tudo para mim”, ela conta, num tom de voz baixo, quase sussurrando. “Às vezes, eu me vejo como uma romancista escrevendo sobre a vontade urgente de ser amada. É como se cada disco meu fosse a saga de um herói em busca do amor.”

Liniker de Barros Ferreira Campos começou a compor na adolescência, depois de se apaixonar pelo melhor amigo. “Desde então, tudo que eu escrevo tem destinatário.” O impulso de transformar a primeira frustração amorosa em canção talvez tenha sido provocado pelo seu ambiente familiar, que é profundamente ligado à música. O avô era sanfoneiro. A mãe, Ângela, formou um grupo de pagode na adolescência. Para criar os dois filhos – Liniker nascida em 1995, e Victor Hugo, em 2002 –, Ângela trabalhou inclusive como professora de dança de samba rock em Araraquara. (O pai não participou da infância de Liniker, nem ajudou financeiramente na sua criação. Há pouco mais de dois anos, ela estabeleceu contato com ele para tentar construir uma relação. É um trabalho que, segundo a cantora, está só começando.)

O nome com que Liniker foi batizada foi sugestão de um tio que era fã do jogador de futebol inglês Gary Lineker. Ainda pequena, ficou claro que ela não tinha aptidão para o esporte, e sim para a dança e a música, o que a mãe incentivou. Quando a criança disse que queria ir ao baile de Carnaval da escola fantasiada de Carla Perez, a dançarina do grupo É o Tchan!, Ângela providenciou uma blusa com franjas. Liniker tinha fascínio pelas figuras femininas da família, sobretudo as primas e as tias. Seu prazer era sentar e vê-las se maquiarem para as festas da cidade. Todo ano, em um dia do mês de julho, as mulheres passavam horas se preparando para o Baile do Carmo, um tradicional baile de gala promovido pela população negra de Araraquara. “Elas ficavam o ano inteiro pensando no vestido que usariam na próxima edição”, diz. “As mulheres da minha casa dedicavam a vida aos filhos e ao trabalho, mas tinham aquela semana do ano para pensar só nelas. Um dia do ano para saírem de casa sendo insuportavelmente bonitas.”

Araraquara se tornou um lugar incômodo para Liniker na juventude, pois era vítima frequente de homofobia (na época, ainda não se reconhecia como uma mulher transexual, mas como um homem gay). Havia também a vontade de ir embora para estudar teatro. Mais que isso: ela queria viver uma vida cosmopolita na Grande São Paulo. Na época, era espectadora do programa Metrópolis, da TV Cultura, com reportagens da jornalista Adriana Couto sobre exposições e peças de teatro que motivavam Liniker a “sair de casa, ver as coisas de perto, ter a oportunidade de ser curiosa”, como ela explica. “São quatro horas de viagem de Araraquara para São Paulo, mas para mim a capital estava tão distante quanto o Japão. Eu só conhecia aquele mundo pela tevê.”

Ela estava com 18 anos quando chegou em Santo André para estudar teatro. Na mala, mudas de roupas, tênis, um caderno, um violão e 150 reais. “Fui acreditando que daria certo, mas, no início, não deu. Enfrentei uma realidade que, mesmo tendo sido pobre em Araraquara, não conhecia. Passei fome mesmo. Queria comer e não tinha comida. Queria pegar o metrô para distribuir currículo e não tinha o dinheiro da passagem.” A amiga Lina Pereira trabalhava numa livraria e dividia com Liniker o salário, que não era grande coisa. Mais tarde, outra estudante da escola de teatro percebeu o aperto e pediu que Liniker lhe desse aulas de canto semanais em troca de 50 reais – o que se tornou a única fonte de renda da jovem.

A situação financeira melhorou quando ela deixou a Escola Livre de Teatro para fazer os primeiros shows com a banda Caramelows. Os fãs lotaram boates e teatros para assistir ao grupo que, naqueles idos de 2015, tinha lançado apenas três músicas em um EP (eles completavam o show com canções inéditas). Foram os fãs que doaram dinheiro para o grupo gravar o primeiro disco. Daquela época, Liniker lembra da alegria que sentiu quando recebeu o primeiro salário e pôde comprar iogurtes e biscoitos. “Em um dia, eu estava com fome em Santo André. No outro, tinha dinheiro para fazer um banquete em São Paulo, e ainda podia ajudar a minha família.” Mas o início da carreira também ficou definido pelo luto. Uma integrante da banda, a vocalista Bárbara Rosa, morreu de câncer em junho de 2016. Esse acontecimento desencadeou um desequilíbrio emocional em Liniker, que passou a ter crises de ansiedade e ataques de pânico em quartos de hotel e camarins.

Em 2017, Liniker reuniu os sete parceiros de banda para comunicar que não pretendia continuar cantando com eles. Estava exausta do ritmo de trabalho e se sentia mais exposta ao assédio dos fãs que os outros músicos do grupo. “Às vezes, eu me via sozinha diante de uma fila de quinhentas pessoas esperando para tirar uma foto. Eu olhava para o lado e não tinha companhia.” Liniker estava com 21 anos e, além de todas as novidades da fama, lidava com as dúvidas sobre a própria identidade de gênero. Ela primeiro se descreveu como uma pessoa não binária para a imprensa, e só depois se entendeu como uma mulher transexual. Cada etapa do seu processo de transição de gênero foi acompanhada por jornalistas. “Eu adoeci rápido”, recorda, sobre essa exposição pública. “Passei a ter pesadelos frequentes. Em muitas noites, acordava gritando. Ali começou o processo depressivo com o qual lido até hoje.”

Para os companheiros de banda, era frustrante ver Liniker receber toda a atenção, enquanto eles eram tratados como meros músicos de apoio. “Ela era vista como uma divindade”, diz o baterista Pericles Zuanon. “Os organizadores dos festivais chegavam no camarim e ignoravam a gente para cumprimentá-­la.” Ainda assim, os músicos do grupo pediram para Liniker não encerrar a parceria tão rápido, pois queriam aproveitar o interesse do público para continuarem fazendo dinheiro. Sugeriram gravar pelo menos mais um disco. Liniker aceitou. Passou os três anos seguintes em turnês pela América do Sul, Estados Unidos e países da Europa. Gravou o segundo disco, Goela abaixo, em estúdios brasileiros, alemães e portugueses. Mas a relação foi se desgastando ano após ano.

Desde que deixou os Caramelows em 2020, a cantora nunca mais os encontrou. Tentando explicar o fim brusco da parceria, Zuanon diz: “Se você gosta de música e acompanhou a carreira de alguma banda, já sabe como a nossa história acabou. Era muita gente inexperiente trabalhando junto. Ao mesmo tempo, conforme a fama foi chegando para a Liniker, ela começou a agir esquisito.” Como era vinte anos mais velho, Zuanon se sentiu no dever de aconselhar Liniker a não se deslumbrar com a fama repentina. “Eu avisei a ela: ‘Não acredita em tudo de bom que dizem sobre você, ou também vai ter que acreditar em tudo que dizem de ruim.’ Mas é difícil manter o equilíbrio quando todo mundo, o tempo todo, te trata como uma pop star.” Outros integrantes do grupo Caramelows foram ouvidos pela piauí e pediram anonimato para não se indispor com o meio musical. Eles lamentam o fim da parceria com Liniker, dizem que até hoje não conseguiram se restabelecer no mercado e creditam o fim da banda ao “temperamento difícil” da cantora.

“Eu fui apaixonada por aquelas pessoas e sou eternamente grata a elas”, diz Liniker. “Mas tive que ir embora porque a dinâmica estava me machucando. Não seria saudável continuar. Ou eu deveria passar mais dez anos fingindo que estava feliz?” Ela soa irritada, e eu pergunto se quer continuar falando sobre o início da carreira. Sua resposta é imediata: “Não.”

 

Liniker e eu conversamos agora em um quarto de hotel em Botafogo, no Rio de Janeiro, onde ela está hospedada para fazer um show. A cantora veste uma blusa de tamanho extragrande, que lhe serve de vestido. As pernas estão à mostra, e os pés, descalços. Ela é uma mulher alta (mede 1,83 metro), uma dessas pessoas cuja presença é difícil ignorar quando se está no mesmo ambiente. É acolhedora, educada, um pouco distante. “O meu grande desafio tem sido conciliar o corpo público com o pessoal”, diz. Em seus primeiros cinco anos como cantora, Liniker atraiu fãs e o apreço da crítica, mas ainda podia andar na rua sem ser reconhecida. A situação começou a mudar em 2021, com o lançamento de Baby 95, uma canção meio R&B, meio pagode.

No Brasil, uma das medidas para avaliar se um artista ganhou popularidade é conferindo se ele foi abraçado pelo Grupo Globo. Virou apresentador ou atração de um programa do Multishow? Cantou no Big Brother Brasil? Tomou café da manhã com a Ana Maria Braga? Foi entrevistado na GloboNews? Conversou sobre “afetos” com apresentadores de um programa do GNT? Se a resposta for sim para pelo menos duas dessas perguntas, ele pode ser considerado um artista popular. A partir do sucesso de Baby 95, todas essas portas se abriram para Liniker, e seu público cresceu. Ficou mais difícil ter privacidade. Não demorou para a cantora ganhar fama de antipática por não aceitar tirar selfies com fãs em momentos de lazer. “Não aceito ouvir que eu vou ter que me acostumar a ser incomodada na rua porque esse é o preço da fama”, diz. “Quero ir ao samba e tomar uma cerveja com os meus amigos no fim de semana como uma pessoa normal. Não consegui me acostumar com essas festas de famosos em que todo mundo vai acompanhado de segurança. Tenho plena consciência de que, se eu não estiver na vida real, não vou ter sobre o que escrever.”

Liniker se define como uma escritora “analógica”. “Preciso de caneta e papel”, diz. Enquanto viajava pelo mundo com a turnê do disco Indigo borboleta anil, entre 2021 e 2023, ela começou a compor as músicas que gravaria em seguida. A maioria foi escrita dentro de quartos de hotel e em aviões. “Sinto falta de ter uma rotina de escrita, com tempo para pensar e organizar as minhas ideias.” Comento que uma característica predominante nas músicas de Liniker é a criação de imagens, e a cantora diz que esse é um esforço voluntário. Ela inicia Baby 95 dizendo: Tudo começou com Sol/Fizemos a praia no quintal de casa. Quando pergunto se ela cogita escrever sobre outros temas além do amor, a resposta chega em um tom irritado: “Eu gosto muito do que o amor me causa. Em dez anos de carreira, ainda não consegui escrever tão bem sobre outra coisa.”

Em outras ocasiões, Liniker já foi indagada sobre fazer canções de cunho político. Por ser travesti e negra, e também por ser de uma geração de artistas que surgiram debatendo gênero e raça, ela já se sentiu pressionada a cantar sobre a sua experiência queer. Há exemplos de mulheres trans no Brasil fazendo isso, como Linn da Quebrada e a dupla Irmãs de Pau. Mesmo sem que eu toque no assunto, ela diz: “Eu sou uma travesti negra cantando sobre o desejo de ser amada. Não vejo como ser mais política que isso.”

Embora o amor seja a matéria-prima do seu trabalho, sua vida pessoal não está disponível para a conversa. Ela nunca abriu os detalhes dos relacionamentos amorosos que já teve, nem quem foram os seus parceiros. “Desculpa, eu sou uma pessoa reservada”, justifica. Em seguida, confessa a frustração de nunca ter tido uma relação duradoura. “Dentro de tudo o que já escrevi sobre o amor, eu não sei o que realmente gostaria de viver com outra pessoa. Nunca pude tirar a prova real. Por muito tempo, eu me vi como coadjuvante das histórias que escrevia. Os casais vinham para o meu show e se pediam em casamento na frente do palco, faziam juras de amor, e por dentro eu sentia quase uma inveja. Não me vejo mais como uma coadjuvante, mas eu continuo muito carente. Não tenho ninguém para me fazer carinho.”

Ela fala tudo isso de olhos fechados, enquanto o maquiador a prepara para o show de logo mais. Alguém bate na porta do quarto de hotel. É Gabiru Nogueira, um rapaz transexual que faz de tudo um pouco nos bastidores da carreira de Liniker. Ele está ali para ajudar a cantora a se vestir. É impossível não reparar na mudança de comportamento de Liniker na presença dos dois funcionários. Ela dá gargalhadas, dança pelo quarto. Abandona a postura triste exibida durante a entrevista. “Adivinha quem me pediu para colocar o nome na lista VIP do show de hoje?”, ela pergunta para o maquiador, que não arrisca nenhum nome. Liniker diz: “Ele.” Os dois riem e continuam a conversa em códigos.

A calça que a equipe separou para o show daquela noite estava larga, o que Liniker só percebe quando falta meia hora para subir no palco. “Será que a costureira da Marina Sena ainda está aqui?”, ela pergunta a Nogueira. Marina Sena se apresentara mais cedo no festival e já tinha ido embora do hotel. Liniker decide fazer o show com a calça caindo mesmo. Borrifa perfume pelo corpo inteiro e diz para Nogueira chamar a van que a levará até a Marina da Glória, o local do show. Pergunto qual perfume usa, e Liniker solta uma gargalhada. “O cheiro é parte do meu mistério, não revelo o nome para ninguém. Até a Taís Araújo já tentou descobrir e eu não disse.”

Meia hora depois, Liniker está no palco. A mulher que agita o corpo diante do público não parece a mesma com quem conversei horas antes. Ela escondeu sua melancolia em algum lugar.

Liniker costuma ser descrita pelos jovens ouvintes da música brasileira como uma compositora original. Contudo, a sua música não contém nada de novo. Não faltam exemplos de cantores românticos no Brasil. Vários fizeram sucesso cantando soul – Djavan, Ed Motta, Jorge Ben Jor, Tim Maia, Sandra Sá, Seu Jorge. Para entender o que faz de Liniker uma cantora singular, é preciso vê-la ao vivo. Deve-se prestar atenção especial na metade final do show, quando ela está visivelmente cansada, o corpo encharcado de suor, e começa a desafiar a banda a subir o tom. Liniker encara os músicos com uma expressão dura, e eles fazem o melhor para satisfazê-la. Ela pega um pandeiro meia-lua e brinca com o instrumento pelo palco. Chuta o ar, bate o cabelo, improvisa uma coreografia. A brincadeira dura quase 5 minutos. Liniker está ofegante, mas, quando volta a cantar, sua voz continua tinindo, capaz de transmitir uma porção de sentimentos. Nenhum artista surgido no Brasil nos últimos tempos usa o palco tão bem quanto ela.

 

Caju, o disco pop que Liniker gravou a fim de recuperar algo da juventude, foi lançado em agosto do ano passado. A faixa-título, mais uma composição sobre o desejo desesperado de viver um amor exemplar, viralizou na internet, e o número de ouvintes da cantora disparou nas plataformas de streaming. O disco recebeu mais de 30 milhões de reproduções em dez dias. Quando Liniker anunciou o primeiro show da turnê de Caju em São Paulo, 37 mil pessoas acessaram o site para comprar os ingressos, que esgotaram em 5 minutos. Para a revista Rolling Stone Brasil, Caju foi o melhor álbum nacional lançado em 2025.

Liniker recebeu os principais troféus da última edição do Prêmio Multishow de 2024, incluindo o de melhor álbum e o de artista do ano. A cerimônia, que aconteceu em dezembro, na Barra da Tijuca, havia sido planejada para homenagear a carreira de Anitta. A plateia foi ocupada por influenciadores e centenas de fãs da funkeira carioca, que gritavam a cada vez que ela se mexia na cadeira onde estava sentada. Durante a apresentação de alguns artistas, como a do cantor Jota.pê, o público deu as costas para encarar Anitta, que estava sentada no lado oposto do palco. Foi cansativo assistir à cerimônia, como sempre é. O roteiro criado pela Multishow é uma bagunça. O palco, enorme, faz qualquer show parecer pequeno e frio. As piadas dos apresentadores são qualquer coisa, menos engraçadas. Mas, quando Liniker subiu no palco para cantar Caju e Veludo marrom, a cerimônia de repente ficou agradável. O burburinho vindo dos fãs de Anitta e dos influenciadores cessou. Pela única vez naquela noite, o público da arena ficou de pé para aplaudir um artista.

Foi a última vez que vi Liniker pessoalmente – a distância, pois não consegui alcançá-la para conversar. No final da premiação, ela andou pela festa cercada de produtores. Passei as semanas seguintes tentando convencer os assessores da cantora a me deixarem acompanhar os bastidores da sua nova turnê, mas eles foram irredutíveis: Liniker queria se concentrar nos ensaios do show, nada mais. Eles deram a entender que a piauí já tinha tido acesso demais à cantora. Liniker não se sente à vontade com jornalistas desde que, segundo ela, a revista Marie Claire desrespeitou o seu pedido de sigilo e publicou que ela sofreu abuso sexual na infância.

Voltamos a nos falar, por ligação de vídeo, no fim de maio de 2025. Liniker estava em uma casa que alugou em Salvador para descansar entre um show e outro. Ela tem certeza de que vai morar na capital baiana em algum momento da vida. Já chegou a planejar a mudança para lá, mas ainda se sente presa a São Paulo por causa dos compromissos profissionais. “Mesmo morando há dez anos, ainda me sinto uma outsider em São Paulo. Não consigo me acostumar com a frieza que a cidade tem, o trânsito me incomoda. Por mais que hoje eu more num oásis, uma casa no meio do mato, sinto vontade de estar perto do mar.” Ela comprou a primeira casa própria no início do ano, em São Paulo. Lamenta ainda não ter tido condições de ajudar a família: “Como eu sou uma artista independente, não posso dizer que a música mudou a minha vida drasticamente, a ponto de eu colocar os meus familiares para morar na Barra da Tijuca. Minha mãe continua trabalhando em uma associação de moradores em Araraquara.”

Às vezes, voltar para a casa da família deixa Liniker angustiada. “Porque eu me confronto com a impossibilidade de realizar o meu grande desejo, que é levar todo mundo para ocupar o mesmo bairro e o mesmo condomínio que eu. Quero oferecer lazer para eles.” Em um fim de semana do ano passado, Liniker mandou uma van buscar os familiares em Araraquara e levá-los a São Paulo, onde ela havia organizado uma grande roda de samba. “De repente eu vi a minha mãe com o microfone cantando pagode, minhas primas sambando, meu primo e meu tio tocando, e fiquei tão feliz. A música sempre foi o nosso meio de conexão.”

A cantora conta que, com o lançamento de Caju, chegou ao momento de maior satisfação com a carreira. “Nunca me senti tão feliz”, diz. Seu público se expandiu para além da comunidade queer e dos jovens. As plateias estão cheias, também, de casais heterossexuais, crianças e idosos. Cerca de 120 mil pessoas se juntaram em maio no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, para assistir ao seu show gratuito. Foi o maior público de sua carreira, e o maior registrado em um show da Virada Cultural, evento anual promovido pela prefeitura paulistana.

Liniker não sabe dizer se gostaria de alcançar a popularidade de cantoras como Anitta e Ivete Sangalo, ou se tornar cada vez mais reservada. “Meu desejo é ser uma artista que não tem medo de trabalhar com pausas. Quero ter o direito de preservar tempo para a minha escrita.” Seus medos são dois: perder a habilidade de confiar nas pessoas e se acostumar com a vida farta que o trabalho lhe deu. “Nos últimos anos, consegui realizar sonhos que eram tão distantes. Agora, me vejo diante do desafio de refazer a minha lista de sonhos, porque não dá para achar que é natural conquistar as coisas. Tenho receio de ficar apática.”

Ela continua determinada a fazer o público respeitar os seus momentos de descanso. Nos fins de semana em que não trabalha, gosta de ir a rodas de samba e à festa Batekoo, um evento de celebração da cultura negra que acontece em várias cidades brasileiras. Também adora mergulhar na Praia do Porto da Barra, em Salvador, e assistir aos shows da Beyoncé na Europa. “Eu tenho andado pelo mundo me sentindo uma documentarista de mim mesma”, diz. Sua depressão está sob controle. Ela não se lembra da última vez que teve ataques de pânico e crises de ansiedade. “Não sei quem eu vou ser amanhã, mas sei que agora sou uma mulher madura em busca de conforto.” E quanto ao amor? “Sigo aberta.”

Em maio, Liniker esteve em uma cerimônia com a presença do presidente Lula e da ministra da Cultura, Margareth Menezes, para receber a Ordem do Mérito Cultural. É a maior honraria pública do setor cultural brasileiro. Caju está indicado em sete categorias do Grammy Latino e é o único projeto brasileiro concorrendo pelo prêmio de álbum do ano. A cerimônia acontecerá em Las Vegas, em novembro. Parece que toda a atenção se voltou para Liniker no último ano, o que a envaidece, mas também assusta. “Eu prefiro não acreditar quando as pessoas dizem que eu sou a melhor voz da minha geração porque não quero me sentir confiante demais”, diz. “Tenho medo de inflar o ego e enrijecer. Eu sei quem sou e sei o que as pessoas projetam em mim. Não posso esquecer de onde eu vim, de quantos anos tenho, nem de quem eu sou na minha intimidade.”

Thallys Braga
Thallys Braga

Repórter da piauí

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