A conversão ultradireitista de Mark Zuckerberg
E como um livro escrito por sua irmã Donna Zuckerberg ajuda a compreender o fenômeno
Pathei Mathos. Escrita em caracteres gregos, era essa a frase que estampava a camiseta de Mark Zuckerberg, dono da Meta – empresa controladora do Facebook, WhatsApp e Instagram –, quando ele participou de um podcast ao vivo com mais de 6 mil espectadores no Chase Center, em São Francisco, em setembro de 2024. A frase de Agamêmnon, peça de Ésquilo escrita no século V a.C., faz parte de um grande repertório de atitudes, referências, opiniões, roupas, esportes radicais e hobbies pretensamente masculinos aos quais o dono da Meta tem recorrido para se reinventar desde que Donald Trump venceu a eleição de 2024.
O resgate de uma ideia conservadora de masculinidade pode ser lido como uma capitulação política à Trump, uma crise de meia-idade, ou uma tentativa de melhorar sua imagem frente ao público. Seja como for, a apropriação da herança cultural greco-romana, ou o uso de suas expressões estéticas como lastro de poder e superioridade, tem sido um dos elementos mais visíveis dessa reinvenção de Mark Zuckerberg.
A camiseta Pathei Mathos, por exemplo, faz parte de peças exclusivas criadas pelo próprio tech bro em parceria com o estilista Mike Amiri em 2024 – uma outra peça traz a célebre frase de Catão contra a rival Cartago no contexto das Guerras Púnicas, Carthago delenda est (“Cartago deve ser destruída”), enquanto outra ainda personaliza Aut Caesar, aut nihil (Ou César, ou nada) para Aut Zuck, aut nihil (Ou Zuck, ou nada). Em agosto de 2024, inspirando-se na tradição romana, o bilionário presenteou a esposa, Priscilla Chan, com uma enorme estátua em que a pediatra posa como deusa.
A admiração de Mark Zuckerberg pela antiguidade é parte de um fenômeno muito maior. Desde meados dos anos 2010, as civilizações grega e romana têm sido apropriadas pela extrema direita como ideal de sucesso, virilidade e beleza. Nos ambientes online, esses conceitos costumam desembocar em racismo e misoginia.
O livro Not all dead white men: Classics and misogyny in the digital age (“Nem todo homem branco morto: Clássicos e misoginia na era digital”), sem edição no Brasil, escrito pela especialista em estudos clássicos Donna Zuckerberg, irmã do dono da Meta, é uma análise perceptiva e corajosa do fenômeno. Mãe de uma criança trans, a autora fez uma pesquisa minuciosa em ambientes hostis online, analisando os diversos meios em que homens brancos se valem da herança cultural greco-romana para justificar a necessidade de “salvar o Ocidente” e “proteger a tradição, rejeitando a modernidade”.
Donna Zuckerberg é a única dos quatro irmãos de origem judaica a não ter entrado na indústria da tecnologia (as outras duas irmãs também seguiram os passos do irmão famoso). Ao contrário de Mark, que abandonou Harvard ainda na graduação para se dedicar à sua nascente rede social, Donna concluiu os estudos e seguiu a carreira acadêmica, recebendo o título de doutora pela Universidade Princeton em 2014.
A opção pela área de estudos clássicos e seu posicionamento progressista levaram Donna a criar e manter de 2015 a 2020 o periódico Eidolon, publicação online que buscou, com certa repercussão, analisar conceitos da Antiguidade em contraposição crítica a temas atuais. Se não é novidade que o período é em grande parte dominado por homens brancos mortos, ou ideais machistas, racistas e violentos, coube à revista a tarefa de colocar esses temas em perspectiva, debatendo-os a partir de matérias como gênero e raça. Não demorou para Donna perceber que parte do tráfego de um dos artigos publicados vinha de uma discussão no Reddit sobre o então recente interesse da alt-right – a nova direita americana – pelo estoicismo, a filosofia grega conhecida, grosso modo, por pregar o comedimento e a contenção das emoções. Fuçando cada vez mais fundo no Reddit, rede social composta por fóruns de discussão, Donna tomou conhecimento de toda uma subcultura de argumentos, imagens, memes e frases em latim que usava sua área de pesquisa para justificar, dentre outros, a misoginia e a supremacia branca. O ano era 2015 e os sinais culturais para a primeira eleição de Trump, a acontecer no ano seguinte, começavam a furar a bolha da internet.
A apropriação online desses referenciais históricos, quase sempre rasa ou objetivamente errada, tornou-se assunto recorrente nos artigos da classicista para Eidolon e outros veículos em que contribuiu, como The Washington Post e BBC. O interesse crescente levou-a a enxergar no assunto um tema apropriado para motivar um livro dedicado só a ele, o que fez logo em seguida. Nas quase trezentas páginas de Not all dead white men, a autora não está preocupada em indicar os erros práticos na interpretação online e conservadora da Antiguidade – uma tarefa inútil, afirma –, mas sim expor com diversos exemplos o funcionamento dessa cooptação, seu pretendido verniz de intelectualidade e o uso propositalmente indiscriminado e ignorante de contexto histórico. Mais ainda, interessa à autora apontar como essa captura está fundamentada numa frágil ideia de masculinidade viril acostumada a conquistar pela força e pela impostura, a materialização de “Ou César, ou nada”.
Na piauí deste mês, Victor Calcagno analisa como esse livro – escrito em 2018, quando Mark Zuckerberg ainda posava de rapaz tímido e pretensamente apolítico – destrinchou o fenômeno ao qual o dono da Meta sucumbiria.
Assinantes da revista podem ler a íntegra do texto neste link.
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