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    Bertha Lutz em São Francisco: a bióloga era a única mulher na delegação brasileira que participou da conferência responsável por redigir a Carta das Nações Unidas em 1945 ARQUIVO NACIONAL_1945

portfólio

Única na foto

Documentarista reúne imagens em que mulheres aparecem sozinhas num mar de homens

Simone Duarte | Edição 233, Fevereiro 2026

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Assim que Jackson Pollock, Mark Rothko e Willem de Kooning começaram a se posicionar nos lugares marcados, Hedda Sterne percebeu que não havia nenhum com o seu nome. Os quinze pintores que compareceram à sessão de fotografia em Nova York, todos expressionistas abstratos, haviam assinado uma carta de protesto contra o conservadorismo do Metropolitan Museum of Art. Os artistas revolucionários iriam posar para o célebre retrato Os irascíveis, de Nina Leen, que a revista Life publicou em 1951. Como tinha subido numa mesa, Sterne apareceu um pouco acima dos catorze colegas, que estavam de pé ou sentados e faziam pose de banqueiros. “Eu assinei a carta e fui convidada para participar da foto. Mesmo assim, os homens que me rodeavam ficaram enfurecidos. Eram machistas o suficiente para acharem que a presença de uma única mulher tiraria a seriedade da imagem”, lamentou Sterne tempos depois. “Sou mais conhecida por aquela maldita foto que por oito décadas de trabalho. Se eu tivesse um ego, isso me incomodaria.” De origem romena, a artista americana morreu em abril de 2011, com quase 101 anos.

Em 2016, quando Immy Humes – documentarista nova-iorquina já indicada ao Oscar – mostrou essa e outras fotografias semelhantes para seus amigos homens, nenhum viu nada de especial nas cenas. Ela trabalhava no documentário Portrait of Shirley, sobre Shirley Clarke, diretora que se destacou como uma das precursoras do cinema independente nos Estados Unidos. Numa foto de 1961, Clarke posou rodeada de 22 marmanjos enquanto comemorava o lançamento do seu longa-metragem de estreia, A conexão. Foi essa imagem que primeiro chamou a atenção de Humes. Mais tarde, ela flagrou Clarke no centro de outra fotografia, agora com sete associados do New American Cinema Group, cooperativa que arquiva, exibe e distribui filmes experimentais. A partir de então, Humes passou a colecionar fotos que mostram apenas uma mulher no meio de inúmeros homens. Ficou tão obcecada que juntou mais de mil delas. A cada nova imagem, perguntava-se: por que há somente uma mulher na foto? Que caminhos ela teve de percorrer para chegar ali?

Durante a pandemia, Humes resolveu investigar seu acervo mais a fundo. Nasceu, assim, The only woman, livro que a documentarista lançou há três anos e meio pela editora Phaidon, ainda sem tradução para o português. A coletânea reúne cem retratos em que mulheres aparecem sozinhas num oceano masculino de advogados, políticos, músicos, escritores, cineastas, pintores, médicos, cientistas, atletas. As fotos, tiradas em vinte países de cinco continentes, vão de 1862 a 2020. A retratada mais jovem se chama Abigail Hoffman e ainda está viva. Em 1956, aos 9 anos, virou notícia no Canadá por ser a única jogadora numa equipe de hóquei no gelo. A garota usava cabelos bem curtos. Por isso, seus pais a inscreveram na liga masculina como se fosse um garoto, Ab Hoffman. À época, não existiam times de meninas por lá.

 

Algumas personagens do livro são muito conhecidas: a princesa Diana, de Gales; a artista mexicana Frida Kahlo; a atriz e cantora alemã Marlene Dietrich; a ex-primeira-ministra do Paquistão, Benazir Bhutto; e a Dama de Ferro britânica, Margaret Thatcher. Já dezenove das retratadas não tinham nenhuma identificação. Humes conseguiu descobrir o nome e a história de oito delas.

Uma dessas figuras é a neurocientista e bioquímica Elizabeth Roboz Einstein, que mal aparece numa foto de 1946 entre os membros da American Society of Sugar Beet Technologists (ASSBT). “O retrato lembra aquela divertida coleção de livros infantis, Onde está Wally?”, debocha Humes. “Olhe bem para a imagem e tente achar Elizabeth.” A documentarista contou com a ajuda de Anna Murphy, vice-presidente da ASSBT, para saber quem, afinal, era a mulher da fotografia. Depois de muita pesquisa, o nome de Roboz surgiu num antigo catálogo. Húngara e judia, a neurocientista fugiu do nazismo em 1940. Nos Estados Unidos, a impediram de dar aulas numa universidade da Califórnia justamente por ser mulher. Seus estudos tornaram possível associar o sistema nervoso à esclerose múltipla. Em 1959, casou-se com o engenheiro Hans Albert Einstein, filho do físico Albert Einstein. “Durante sete décadas, ninguém se preocupou em identificá-la. Era como se Elizabeth fosse invisível”, diz Humes.

The only woman também identificou Stella Levy, que aparece de perfil numa foto de 1965 com escritores da geração beat. Eles posaram diante da livraria City Lights, em São Francisco, ponto de encontro do grupo. O cantor Bob Dylan estava lá, mas não aceitou ser fotografado. O poeta Allen Ginsberg ficou no centro do retrato. Levy trabalhava como assistente editorial na livraria, que tinha por sócio outro poeta beat, Lawrence Ferlinghetti. No dia da foto, a maioria dos homens não queria que a jovem funcionária aparecesse. “Ferlinghetti irritou muitos deles ao insistir que eu ficasse a seu lado”, contou Levy à documentarista. Por mais de cinquenta anos, a assistente editorial quase nunca era identificada na imagem mais famosa da geração beat. “Adorei conhecê-la. Stella fez uma carreira brilhante como advogada”, afirma Humes.

 

As fotos mais impactantes da coletânea mostram ativistas em ação. É o caso da britânica Emmeline Pankhurst. Num flagrante de 1914, a sufragista cai nas garras da polícia londrina enquanto lidera uma marcha a favor do voto feminino. Em outra imagem, de 1963, a americana Gloria Richardson, militante negra dos direitos civis, ignora uma baioneta durante manifestação em Maryland. “Direitos humanos são direitos humanos e não direitos dos brancos”, gritou na ocasião. Em 2016, a enfermeira Ieshia Evans exibiu a mesma dignidade diante da violência policial em Baton Rouge, na Louisiana, quando estava prestes a ser presa num protesto contra a morte de um homem negro. “Quero que se lembrem de mim como uma revolucionária – uma manifestante pacífica que viu a injustiça e se posicionou”, declarou à época.

 

Depois de analisar seu acervo, Immy Humes criou três categorias para explicar por que as mulheres se tornaram únicas nas fotos. “A categoria mais frequente no livro é a das pioneiras: a primeira cineasta, a primeira juíza da Suprema Corte, a primeira professora universitária…”, diz a documentarista. Boa parte das instituições de qualquer país tem algum registro das pioneiras. O curioso é que, só quando uma das desbravadoras saía do posto, abria-se espaço para outra mulher. Nunca duas atuavam simultaneamente. “Era como se houvesse apenas uma cadeira destinada às mulheres”, aponta Humes.

A editora Katharine Graham, que dirigiu o jornal The Washington Post, figura entre as pioneiras mais notórias do livro. Ela jamais imaginou que comandaria o diário. Seu pai, o banqueiro Eugene Meyer, comprou a publicação em 1933 e a capitaneou por treze anos. Foi sucedido na direção pelo genro, Philip Graham. Quando ele se matou, em 1963, a viúva assumiu o cargo e permaneceu à frente do Post até 1991. Sob a batuta dela, a redação promoveu coberturas lendárias, que sacudiram os Estados Unidos, como a do escândalo de Watergate, responsável pela renúncia do presidente Richard Nixon em agosto de 1974. Não à toa, a editora se tornou a primeira mulher eleita para o conselho administrativo da Associated Press, a agência de notícias sediada em Nova York. Numa foto de 1975, resgatada por Humes, o vestido azul de Graham destoa em meio aos 22 paletós dos demais conselheiros.

 

A história de como Martha Gellhorn virou a única mulher a cobrir o desembarque dos Aliados na Normandia, em 6 de junho de 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, é uma das prediletas da documentarista. Natural de Saint Louis, nos Estados Unidos, a jornalista pretendia acompanhar o evento pela revista Collier’s. Os militares, porém, vetavam repórteres mulheres no front. Para piorar, o escritor Ernest Hemingway, com quem Gellhorn esteve casada entre 1940 e 1945, mexeu os pauzinhos e acabou correspondente da Collier’s no lugar dela. A jornalista recorreu, então, a uma ousada artimanha: antes de os combatentes zarparem, se escondeu num dos banheiros do navio-­hospital. Tão logo chegou à Normandia, desembarcou carregando uma maca e fez a cobertura. No decorrer do casamento, Hemingway mandou um telegrama à parceira com a seguinte indagação: “Você é correspondente de guerra ou a mulher em minha cama?” A jornalista se ressentiria pelo resto da vida por ter seu nome associado ao do romancista.

Na categoria das pioneiras, Humes criou uma subcategoria que batizou de “a grande exceção”. Dela faz parte, por exemplo, a cineasta neozelandesa Jane Campion, primeira mulher a receber o maior prêmio do Festival de Cannes, a Palma de Ouro. Ela ganhou o troféu em 1993 pelo filme O piano, mas o dividiu com o chinês Chen Kaige, diretor de Adeus, minha concubina. Só 28 anos depois, em 2021, outra mulher voltou a faturar a Palma de Ouro: a francesa Julia Ducournau, autora de Titane. “A primeira vitória pressupunha que haveria a segunda, a terceira, a quarta… No entanto, após quase três décadas, Ducournau se tornou a primeira novamente. É a exceção que confirma a regra, entende? Como se os homens dissessem: ‘Vejam, nós temos uma mulher, ou tivemos uma mulher certa vez’”, afirma a documentarista.

 

A segunda categoria estabelecida por Immy Humes é a das “mascotes”. Nesse caso, a única mulher da foto não pertence ao grupo retratado, mas aparece na cena como um enfeite, amuleto ou algo do tipo. Pode ser a irmã de alguém ou uma jovem que os homens gostam de manter próxima por julgá-la simpática, engraçada, prestativa. Numa imagem de 1894, uma moça posa de chapéu entre 23 formandos da Academia Naval dos Estados Unidos em Maryland. Embora não esteja identificada, ocupa posição de destaque – o centro da fotografia. No livro, Humes divaga sobre quem seria aquela figura: a filha do superintendente ou de outro oficial? Com certeza, não era uma graduanda, já que a academia só iria admitir mulheres na década de 1970.

Há, finalmente, a categoria das que estão nas imagens por desempenharem trabalhos considerados femininos, como os de secretária, enfermeira e professora. “A foto mais antiga do livro é de 1862 e exibe uma cozinheira negra junto de militares brancos que lutavam na Guerra Civil Americana”, diz a documentarista. “As mulheres dessa categoria aparecem nos retratos apenas porque os homens precisavam delas.”

The only woman remete ao “princípio da Smurfette”, conceito que a poeta e crítica Katha Pollitt cunhou em 1991 num artigo divulgado pela The New York Times Magazine. A ensaísta notou que muitas narrativas da cultura popular (filmes, séries, quadrinhos) apresentam vários personagens masculinos e somente um feminino, quase sempre insosso. O melhor exemplo é o desenho animado Os Smurfs. “As tramas contemplam o Smurf lenhador, o arquiteto, o médico, o alfaiate, o padeiro. Mas existe uma única Smurfette, que não exerce nenhum ofício e carece de personalidade marcante. Ela participa dos enredos só para simbolizar todas as outras mulheres”, explica Humes.

A documentarista se declara impressionada com a boa recepção do livro. “Sinto que as ideias e as histórias presentes nele impactam principalmente as leitoras. Os homens ficam um pouco desconfortáveis. Já as mulheres… Choram, me abraçam, relembram coisas e mandam fotos.” Em 2023, Humes recebeu um convite para falar e expor imagens da coletânea no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. “Quando me convidaram, pensei se tratar de uma piada. O evento é muito criticado por ser majoritariamente masculino.”

Mal soube que a piauí desejava entrevistá-la, a documentarista – cujo livro não traz imagens do Brasil – correu à internet e encontrou um retrato precioso no site do Arquivo Nacional. Tirada em São Francisco, a fotografia de 1945 mostra a bióloga e ativista paulistana Bertha Lutz como a única integrante da delegação brasileira que participou da conferência onde se redigiu a Carta das Nações Unidas, documento fundador da ONU. “Pretendo garimpar cada vez mais fotos com mulheres de diferentes culturas”, afirma Humes. “Meu sonho é fazer edições regionais do livro, além de exposições. Os registros podem ser cômicos, absurdos, inspiradores, deprimentes, misteriosos, trágicos… Não importa. Todos são relevantes porque ajudam a contar a intrincada história do lento colapso do patriarcado.”

A cineasta Shirley Clarke em 1962, entre associados do New American Cinema Group: a cooperativa, ainda em atividade, exibe, arquiva e distribui filmes experimentais

 

Hedda Sterne no retrato Os irascíveis, publicado em 1951: a romena tirou a foto em cima de uma mesa porque não havia nenhum lugar reservado para ela entre os colegas pintores

 

Elizabeth Roboz Einstein em 1946, entre os membros da American Society of Sugar Beet Technologists (ela se encontra mais ao centro, na segunda fileira de baixo para cima): durante sete décadas, a neurocientista húngara – que estudou a esclerose múltipla – ficou sem identificação no retrato

 

Abigail Hoffman em 1956, infiltrada num time masculino de hóquei no gelo, o St. Catharines Teepees: a canadense de 9 anos está ajoelhada (é a segunda da esq. para a dir.)

 

Stella Levy em 1965, com escritores da geração beat, diante da livraria City Lights, em São Francisco: a maioria do grupo desaprovou a presença da assistente editorial na foto

 

Emmeline Pankhurst em 1914: a sufragista foi presa pela polícia londrina quando protestava em frente ao Palácio de Buckingham

 

A editora Katharine Graham em 1975, no conselho administrativo da Associated Press, agência de notícias sediada em Nova York: ela comandou o jornal The Washington Post

 

A militante americana Gloria Richardson em 1963, durante manifestação em Maryland: “Direitos humanos são direitos humanos e não direitos dos brancos”, gritou à época

 

Martha Gellhorn na Segunda Guerra: ela foi a única repórter a cobrir o desembarque dos Aliados na Normandia, em 1944

 

O protesto da enfermeira Ieshia Evans em 2016, na Louisiana, contra o assassinato de um jovem negro pela polícia: “Quero que se lembrem de mim como uma manifestante pacífica”

Simone Duarte
Simone Duarte

Jornalista, chefiou o escritório da Globo em Nova York e foi diretora executiva do jornal português Público. É autora do livro O vento mudou de direção: o Onze de Setembro que o mundo não viu (Fósforo). Dirigiu o documentário Sérgio Vieira de Mello: a caminho de Bagdá

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