O Carnaval de Lula e Xandão e um lobby do agro na educação
Semanalmente, os apresentadores mencionam as principais leituras que fundamentaram suas análises. Confira:
Conteúdos citados neste episódio:
“A origem controversa do Banco Pleno” reportagem de Consuelo Dieguez para a piauí.
“A contaminação”, reportagem de Consuelo Dieguez para a piauí.
“Extratos comprovam repasses milionários de Daniel Vorcaro para empresa de ministro Dias Toffoli”, reportagem de Luiz Vassallo, Aguirre Talento, Pedro Augusto Figueiredo e Jenne Andrade para o Estadão.
“Mendonça relata ações de interesse da Fiesp e mantém convênio com a federação por meio de instituto”, reportagem de Weslley Galzo para o Estadão.
“Pau que não bate em Mendes não bate em Mendonça“, coluna de Conrado Hübner Mendes para a Folha.
“Mendonça suspende julgamento de governador após RR contratar seu instituto”, reportagem de Eduardo Militão para o Uol.
TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO
Sonora: Rádio piauí.
Fernando de Barros e Silva: Olá, sejam muito bem-vindos ao Foro de Teresina, podcast de política da Revista piauí.
Sonora: Se nós encontrarmos elementos que a fraude foi anterior, nós vamos abrigar todo o lapso temporal.
Fernando de Barros e Silva: Eu, Fernando de Barros e Silva, da minha casa, em São Paulo, tenho a alegria de conversar com os meus amigos, Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros, no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Olá Ana, carnavalesca! Bem-vinda!
Ana Clara Costa: Oi, Fernando! Oi, pessoal!
Sonora: Quem é de direita- ficou indignado com o show de horrores e de crimes cometidos na Sapucaí.
Fernando de Barros e Silva: Diga lá, Celso Casca de bala!
Celso Rocha de Barros: Fala aí, Fernando! Estamos aí mais uma sexta-feira.
Sonora: Acho que conversando com editoras e com professores educadores desse movimento todo que a gente faz, os próprios educadores não tem noção o que é o sistema produtivo no Brasil.
Celso Rocha de Barros: Sexta-feira meio de ressaca para todo mundo.
Ana Clara Costa: Bastante ressaca.
Fernando de Barros e Silva: Meio de ressaca. Vamos lá! Vamos aos assuntos da semana. Subproduto da crise do Banco Master, a crise do Supremo Tribunal Federal vai ganhando novos capítulos e novos contornos. O Tribunal está se enrolando no próprio rabo. Os ministros estão se enroscando na barra da própria toga. Vamos recapitular o que os togados do Tayayá andaram aprontando durante os festejos momescoS. Tivemos, na semana passada, a saída de Dias Toffoli da relatoria do caso Master, obtida por um acordo, entre aspas, pouco republicano. Toffoli foi obrigado a abrir mão do cargo e obteve, em troca, a rejeição de sua suspeição apontada pela PF. Suspeição mais do que escancarada que os ministros varreram para baixo do tapete. A reunião entre os magistrados vazou e ficou-se com a sensação de que Toffoli é suspeito também disso, de gravar os colegas para comprometê-los. Nesse péssimo ambiente de trabalho — e estamos falando da Corte Suprema — Alexandre de Moraes retomou o inquérito das fake news, esse inquérito borgiano interminável, infinito, que tem 1001 utilidades, principalmente a de servir em causa do próprio ministro e de seus pares. Moraes mandou a PF investigar o vazamento de informações sigilosas da Receita Federal envolvendo ministros do Supremo e seus familiares. Na terça-feira, a PF cumpriu quatro mandados de busca e apreensão em São Paulo, no Rio e na Bahia, contra quatro servidores que tiveram seus nomes expostos, foram afastados de suas funções e ganharam de presente de carnaval uma tornozeleira eletrônica como adereço. A atitude de Moraes acentuou o mal estar dentro do tribunal, já que a iniciativa dessa investigação deveria ter partido de Edson Fachin, que foi mais uma vez atropelado. Temos, mais uma vez, uma investigação sigilosa, da qual Moraes será investigador, relator e também juiz. Isso tudo numa causa, envolvendo sua família e ele próprio, que, por sua vez, estão enrolados na teia de Daniel Vorcaro, que contratou o escritório da senhora Barci de Moraes por 129 milhões. No segundo bloco, a gente cai no samba. Vamos tratar da Acadêmicos de Niterói, a escola que levou para a Sapucaí o enredo “Do Alto do Mulungu Surge a esperança: Lula, o Operário do Brasil”, uma ode ao atual presidente, que foi retirante, torneiro mecânico e sindicalista, antes de chegar ao topo da República. Lula vai tentar seu quarto mandato. Ao contrário da Acadêmicos de Niterói, que fazia sua estreia no Grupo Especial e terminou rebaixada. Muita gente achou que o enredo incomum, ascético, de exaltação e culto à personalidade de Lula foi um artifício maroto da escola para tentar evitar o pior. Mas não rolou. O que rolou foi propaganda mal, ou nada disfarçada, com o uso de dinheiro público. Antes mesmo de o primeiro carro entrar na avenida, a homenagem já tinha virado disputa judicial. Foram pelo menos dez iniciativas, entre representações no Ministério Público e no TCU, além de ações na Justiça comum e na Justiça Eleitoral, sustentando que o enredo era propaganda eleitoral antecipada, o TSE analisou os pedidos e negou por unanimidade, argumentando que a interferência poderia configurar censura prévia. Mas o tribunal deixou claro que a decisão não encerrava o assunto. Se houvesse ilícito, a Corte agiria depois. A gente vai falar disso e vai falar também de coisas boas, da vitória da Viradouro, com sua linda homenagem ao mestre Ciça, que deixou todos nós comovidos, incluindo o Mestre Casca. No último bloco, a gente fala de um lobby da direita corporativa para patrulhar o que as crianças aprendem na escola. A agência de checagem Aos Fatos revelou que grandes empresas do agronegócio financiam a associação De Olho no Material Escolar, a DOME, para pressionar editoras a suavizar ou retirar conteúdos sobre trabalho escravo, desmatamento, queimadas e agrotóxicos. Agrotóxico vira defensivo agrícola. A pecuária deixa de ser associada ao desmatamento e dados científicos passam a ser classificados como viés ideológico. A gente vai falar de um vídeo patrocinado pela DOME em parceria com a Summus Educação, o maior conglomerado de livros didáticos do país, que veicula várias dessas impropriedades. Além disso, editoras relatam visitas, telefonemas com intimidação velada e relatórios de gente politicamente interessada, avaliando livros como se fossem experts. De 95 a 2024, a agropecuária concentrou três em cada quatro resgates de trabalhadores em condição análoga à escravidão no Brasil. Mas, segundo o lobby da DOME, esse dado não deveria constar do material didático. Já não se trata apenas de desmatar a floresta. É uma tentativa de desmatar a própria realidade. É isso. Vem com a gente.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Ana Clara, vamos começar com você, que aproveitou o seu carnaval, mas apurou bastante também que estou sabendo. Ela trabalhou no carnaval, pessoal.
Ana Clara Costa: São tantas coisas que eu não sei nem por onde começar.
Fernando de Barros e Silva: Só não deu para jogar beach tennis. Ou jogou beach tennis também?
Ana Clara Costa: Não deu.
Fernando de Barros e Silva: Não. Beach tennis não deu. Por onde a gente vai começar? Pelo Tóffoli, pelo Alexandre de Moraes? Eu tô com medo da gente terminar o programa aqui com tornozeleira eletrônica. Do jeito que ele está pondo tornozeleira em todo mundo…
Ana Clara Costa: Ô,Fernando, acho melhor, até para ancorar o nosso pobre ouvinte, eu vou começar por ordem cronológica.
Fernando de Barros e Silva: Vamos lá! Porque a gente chegou a falar no programa rapidamente da saída do Toffoli, mas a gente não aprofundou isso, inclusive, porque na sexta-feira que surgiram os dados do vazamento da reunião, né?
Ana Clara Costa: Exato. Exato. Não, eu queria até conversando aqui com o Celso um pouco… Acho que ele vai se estender mais sobre a reunião. Eu queria tocar num ponto dos extratos que foram encontrados e que foram revelados pelo Estadão, porque o que a gente comentou aqui na semana passada, que as mensagens que foram encontradas do Vorcaro falando com o cunhado sobre o caso do Toffoli, sobre pagamentos e tal, a gente se estendeu bastante sobre isso no programa passado. Até então, não havia provas de que havia tido alguma transferência financeira, apenas mensagens referentes a essas transferências. E, segundo o Estadão apurou, os extratos foram achados e essas transferências foram comprovadas. Então, as movimentações entre as empresas do Vorcaro e a empresa da família Toffoli, a Maridt, o fluxo financeiro que passou ali foi de 34 milhões, segundo esses extratos que foram localizados pelo Estadão. Então, isso é um avanço relevante em relação ao que se tinha na semana passada e que eu acho que é importante a gente colocar aqui. Um outro desdobramento que aconteceu essa semana, de um assunto que a gente já tinha tratado, foi a liquidação do Banco Pleno, que não foi uma grande surpresa, já que ele era de certa forma conectado ao Master. Ele veio do Banco Master, já havia toda uma expectativa de mercado que isso fosse acontecer. Não foi uma coisa que surpreendeu, inclusive a outros bancos que estão na mira ali do Banco Central, que estão sendo avaliados. E isso pode vir a resultar numa liquidação também. Então, não é só o banco pleno. Mas eu queria me ater ao caso do Banco Pleno, porque o que que acontece, né? E aí eu acho que vale um questionamento: o Banco Pleno é um banco que foi comprado pelo Augusto Ferreira Lima, que era o sócio do Vorcaro no Banco Master e depois acabou saindo. Ele chegou a ser preso no ano passado, junto com o Vorcaro, mas foi solto e o Augusto acabou comprando o Banco Pleno. E é um banco que durou pouco, e o Augusto Lima para ele assumir o controle do Banco Pleno, que já existia antes e se chamava Banco Voiter, ele recebeu uma autorização do Banco Central, no caso, e a autorização para essa transferência de controle demorou 45 dias apenas, que é considerado um prazo relativamente rápido. E essa autorização também foi dada no período em que já se sabia das fraudes do Master, porque o próprio Banco Central já tinha denunciado ao Ministério Público essas fraudes para que fosse aberta uma investigação sobre o caso. Então, o Banco Pleno foi permitido num momento em que já se sabia que havia muita confusão ali. E aí, agora ele é liquidado, porque aí teve se a certeza. Eu estou falando isso com base na apuração da Consuelo Dieguez, que publicou uma reportagem sobre esse assunto na última edição da piauí e que vem fazendo várias matérias sobre o Banco Master. E nessa reportagem, ela detalha muito como foi essa operação do Banco Pleno, lembrando o Augusto Lima, que foi o sócio da Bahia do Vorcaro.
Fernando de Barros e Silva: O elo entre o Vorcaro e o PT da Bahia.
Ana Clara Costa: Exato. Rui Costa e Jaques Wagner. Ainda no capítulo desdobramentos, o principal assunto, a meu ver, é essa investigação, esse inquérito, que foi aberto para investigar servidores da Receita pela violação de dados fiscais da Viviane Barci de Moraes, mulher do Alexandre de Moraes. Durante o carnaval, na terça-feira de carnaval, houve uma operação da Polícia Federal contra quatro servidores, sendo um auditor fiscal da Receita e três servidores do Serpro que estavam cedidos para a Receita, e que teriam acessado dados da Viviane e do filho de um ministro do Supremo, segundo as investigações.
Ana Clara Costa: Oi pessoal! Eu estou voltando aqui rapidinho para fazer uma pequena correção. Eu tinha falado em três servidores do Serpro, mas na verdade são um servidor do Serpro e dois técnicos do INSS, lotados, todos eles, na Receita Federal. É isso. Desculpe o engano.
Ana Clara Costa: Essas quatro pessoas imediatamente passaram a usar tornozeleira eletrônica, foram afastadas das suas funções enquanto a investigação acontece e, enfim, acho que a gente vai saber o que, de fato, elas acessaram, a partir dessas investigações, a partir dos dados que a Receita vai coletar. Porque quando uma pessoa acessa o dado fiscal de alguém, principalmente se é uma pessoa politicamente exposta, isso fica marcado. Então, é muito fácil você saber se acessou ou não. Não deve ser uma coisa que demore muito a sair exatamente o que eles fizeram. O que dá para dizer até agora? No final de dezembro, o Lauro Jardim publicou uma nota dizendo que o patrimônio da Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, tinha saltado de 24 milhões para 79,7 milhões entre 2023 e 2024, já considerando obviamente os pagamentos com contrato com Master, que eram de mais de 3 milhões por mês, segundo foi revelado pela Malu Gaspar.
Fernando de Barros e Silva: 3 milhões e 600 mil.
Ana Clara Costa: Três milhoes e seiscentos. A Lamborghini por mês. O Alexandre de Moraes, ao ver essa informação circulando por aí, se indagou de onde poderia ter saído essa informação que a princípio parece ser verdadeira, já que há toda uma movimentação para ser apurada a fonte da informação.
Fernando de Barros e Silva: É verdadeira informação, porque se fosse mentira, ele já teria falado.
Ana Clara Costa: Exatamente.
Fernando de Barros e Silva: Já estaria todo mundo com tornozeleira na testa.
Ana Clara Costa: Então, a partir dessa informação, o Alexandre de Moraes, no final do ano, autoriza a abertura de um inquérito para investigar isso com o aval da PGR, ou seja, para investigar a violação do sigilo da própria esposa, sendo ele, então, uma parte bastante relacionada ao próprio caso. O que acontece naquele momento? E aí, eu acho que foi um erro, de certa forma, da própria receita na condução disso. Em vez de a receita pegar e falar: “olha o que exatamente aconteceu, a gente vai investigar, a gente vai apurar.Vamos resolver isso aqui para entender o que aconteceu”. Não. A receita ficou lá esperando e o que o Alexandre de Moraes fez? Fez uma lista de todos os ministros do Supremo, PGR e vários parentes de todos eles. Primeiro, segundo e terceiro grau. Deu uma lista de 100 pessoas e ele fez um ofício para a Receita Federal e pediu para investigar os acessos aos dados dessas 100 pessoas durante um período específico. E, nesse estudo, que na verdade foi preliminar feito pela Receita, não foi um estudo que concluiu nada, não foi aberto um processo administrativo, nada parecido. Ela fez um levantamento prévio e aí detectou os acessos de um auditor da Receita Federal a um parente do ministro Gilmar Mendes e os acessos de três servidores que estavam cedidos para a Receita a pelo menos os dados da Viviane de Moraes. Esses servidores estão cedidos para a receita para atendimento ao público. Eles não são auditores fiscais, então é limitado o acesso deles a dados muito detalhados de um contribuinte. Enfim, ainda precisa se investigar como que esses servidores, que nem da receita são, conseguem ter acesso a dados tão particulares de uma pessoa politicamente exposta. Porque, em tese, quem consegue, de fato, ver isso são os auditores fiscais que têm mandato para isso, que têm acesso, senha para isso. Então, ainda está muito nebulosa essa questão do acesso. Se for isso, a Receita tem um problema. Se qualquer servidor de sei lá, de uma biboca qualquer, se eles conseguem entrar e ver a renda bruta de alguém sem nenhum tipo de de amparo ali, sem ter que ter autorização de ninguém, isso é um problema.
Celso Rocha de Barros: Sem ser parte de um procedimento de trabalho regular.
Ana Clara Costa: Exato.
Fernando de Barros e Silva: Há evidências de que aconteceu esse, esse acesso ilegal, mas a investigação não está concluída e essas pessoas foram expostas. Eu acho que é um dado muito ruim, nesse processo todo, a exposição do nome dessas pessoas, a vida dessas pessoas já está liquidada, independentemente da culpa que elas tiverem ou não. Em nome de quê você faz esse constrangimento público contra essas pessoas que não são… Enfim, a gente não citou nome aqui. Eu não citei de propósito, mas o Alexandre de Moraes fez questão de dar uma visibilidade, tratar como se estivesse prendendo o Pablo Escobar, entendeu?
Ana Clara Costa: No caso do servidor, da receita, do auditor fiscal, a explicação que ele deu, e ele não acessou nenhum dado de um ministro e sim de um parente do ministro Gilmar foi que era uma pessoa homônima. Ali, alguém que, enfim, ele estava pesquisando. Não foi um acesso específico, né? Enfim, até se provar que um mais um não é três, né? O fato é que essas pessoas estão afastadas, estão com tornozeleira, estão sem receber salário durante esse período das investigações e ainda tá muito difícil de entender qual realmente é o tipo de acesso que esses servidores poderiam ter. Eu estava conversando com alguns auditores, inclusive, que me falaram que a depender da sua posição dentro do organograma ali, você só consegue acessar dados cadastrais das pessoas. Você consegue ver o CPF, endereço, filiação e tal. Você não consegue ver a renda bruta dela. Mas outras pessoas acabaram me dizendo que existe uma página meio que um resumo do seu cadastro na receita e que eventualmente pode aparecer algum rendimento. O fato é que a gente não sabe se também a reportagem do Lauro Jardim tem qualquer coisa a ver com isso, entendeu? Então assim, essa que é a questão como que você depende de uma reportagem que houve um vazamento, você move todas as placas da República para tentar descobrir isso, essas pessoas aí estão com tornozeleira e enfim, sabe se lá, entendeu que ele pode querer fazer até com quem não tem nada a ver com isso, né? E a própria receita está sendo criticada pelos auditores por não ter bancado os seus profissionais e não ter pelo menos falado; “Olha, eu não vou entregar nada enquanto a gente não tiver uma conclusão definitiva de um uso indevido de dados”. A Receita não fez isso. Ela entregou um relatório preliminar só para entregar alguma coisa para ele, porque a gente sabe quando ele quer, ele, enfim, é um rolo compressor. Para todo o sistema, isso é muito complicado, né? Nem o Ministério da Fazenda, que em tese, é o órgão executivo ao qual a Receita responde, está no mesmo nível de poder que o Alexandre de Moraes para vetar qualquer coisa ou fazer um jogo mais equilibrado disso, entendeu? E o fato é que, assim, aparentemente o que foi revelado na nota do Lauro é verdadeiro, né? De 24 milhões para 79,7 milhões, é isso.
Fernando de Barros e Silva: Perfeito. O comportamento do Alexandre de Moraes nesse episódio todo, ele está exorbitando, claramente, de suas funções. Temos um problema grave aí, a meu ver. Celso, deixa eu te ouvir.
Celso Rocha de Barros: Então, Fernando, eu queria falar um pouco sobre essa substituição do Toffoli. Bom, ela foi muito bem-vinda, naturalmente. A gente já tinha falado isso no último programa. Não tinha a menor condição do Toffoli continuar na relatoria desse caso. Foi muito tardia. Já devia ter saído faz muito tempo e deu alguma esperança de que a coisa andasse melhor daqui em diante. Esperança que, na minha opinião, não durou tanto tempo assim, porque depois foi sorteado o André Mendonça como relator. Eu não tô querendo prejulgar aqui o André Mendonça dizer se ele vai ser bom ou mau relator. Bom, primeiro na saída do Toffoli, vazou para o site Poder360, o que parece é uma gravação, uma transcrição de uma gravação, da reunião dos ministros com Toffoli. Vários ministros disserem em off para a imprensa de que tem vários trechos ali citados, literalmente. Então assim…
Fernando de Barros e Silva: Trechos longos.
Celso Rocha de Barros: Trechos longos, assim, que uma pessoa necessitaria de memória, o que sugere, fortemente, que aquilo foi gravado. E, tanto os ministros do STF quanto eu, suspeitamos que o próprio Toffoli tenha gravado essa reunião. Por quê? Porque o que apareceu no poder 360 é só gente falando bem do Toffoli. Então, assim, se vocês pegarem lá os depoimentos que são citados na matéria, com exceção da Cármen Lúcia e em alguns trechos do próprio Fachin, todo mundo defende o Toffoli. Todo mundo fala que o Toffoli é 100%, que o Toffoli é ótimo, que o que estão fazendo com ele é uma injustiça, que o que a Polícia Federal fez é um absurdo. Enfim, o Fux diz que ele tem fé pública e pronto, acabou, é isso aí. E a verdade é o seguinte: se só isso tivesse sido dito na reunião, o Toffoli não tinha saído da relatoria.
Fernando de Barros e Silva: Exato.
Celso Rocha de Barros: Ele não queria sair. Você acha que ele saiu porque fez uma reunião com os caras que todo mundo disse que ele tinha razão? Isso não faz sentido. Então, me dá a impressão de que pelo menos alguns desses elogios ao Toffoli são o prelúdio de uma vírgula que depois terem um acréscimo de algo como você é legal, mas você fez um monte de besteira, você queimou nosso filme, você vai ter que sair desse negócio. Então assim, eu acho muito improvável que essa gravação tenha sido reproduzida em sua inteireza.
Fernando de Barros e Silva: Uma das coisas que vazou foi o fato dele ter aceitado, ou proposto, no código de Conduta que ele abriria todo o sigilo bancário dele, sigilos, etc, desde que os outros o fizessem também. “Não vou fazer isso sozinho”.
Celso Rocha de Barros: Exatamente.
Fernando de Barros e Silva: Isso é uma intimidação aos demais.
Celso Rocha de Barros: Sem dúvida. Sem sombra de dúvida.
Fernando de Barros e Silva: Claramente uma intimidação. “Eu abro o meu sigilo, mas não vou abrir sozinho”.
Celso Rocha de Barros: Exato.
Fernando de Barros e Silva: “Todo mundo vai abrir aqui”. Então é um clima bem bom, né? Saudável.
Celso Rocha de Barros: Pois é. Dá para ver que o ambiente de trabalho sensacional ali, o STF.
Fernando de Barros e Silva: Comportamento adequado ao que a gente espera de ministros da Corte Suprema do país.
Celso Rocha de Barros: Agora, se vocês pensarem bem, era assim antes do Bolsonaro tentar fechar o Supremo, né? Supremo tinha brigas homéricas antigamente, tinha Gilmar contra Barroso, uns negócios violentíssimos. Quando o Bolsonaro resolveu tentar fechar o STF, eles todos se uniram e acho até normal que agora volte um pouco…
Ana Clara Costa: É, mas as razões das brigas eram outras, eram disputas técnicas, de ego, entre o Barroso e o Gilmar. Era aquela coisa meio…
Celso Rocha de Barros: Talvez, talvez.
Ana Clara Costa: E agora é lama, né?
Celso Rocha de Barros: Exato. Exato.
Fernando de Barros e Silva: Do Barroso para o Fux, a gente tem um downgrade desgraçado. O Barroso tinha verve, né?
Celso Rocha de Barros: Tinha e sabia citar autores, né? Enfim.
Ana Clara Costa: Agora, falar um negócio, o Barroso deve estar tão aliviado de ter saído, né?
Celso Rocha de Barros: Nossa, com certeza.
Fernando de Barros e Silva: Eu acho, tenho quase certeza, que ele saiu já prevendo o que tá acontecendo.
Ana Clara Costa: Será?
Celso Rocha de Barros: Agora, o André Mendonça também elogiou Toffoli nessa reunião, inclusive, ele pensa porque o André Mendonça, agora que tá com o Master e já tava com o INSS. Quer dizer, ele no momento é um dos caras mais poderosos aí da República.
Fernando de Barros e Silva: Sim.
Celso Rocha de Barros: E no comentário que aparece dele na reunião, ele diz assim: “Ué, vão tirar o Toffoli desse jeito? E quem garante que um dia não vai acontecer comigo? Vamos fazer isso comigo também?”. Então, assim, na reunião, pelo menos ele parece ter ficado do lado do Toffoli. Mas eu, novamente, repito essa transcrição, eu tenho a impressão que é 100% picareta, que tem um monte de coisa faltando aqui. O Toffoli não teria deixado a relatoria se tudo que tiver sido dito na reunião fosse isso aí. Então, vamos ter uma uma certa dúvida com relação a isso. De qualquer maneira, eu preferia que a relatoria tivesse caído com alguém que claramente defendia o afastamento do Toffoli, mas as probabilidades estavam contra mim nessa, porque basicamente era a Cármen Lúcia e só. Então caiu com o André Mendonça, que tem suas histórias. Ele tem um Instituto de Estudos Jurídicos, Educação jurídica, um negócio desses que tem parcerias, por exemplo, com a Fiesp, recebe dinheiro da Fiesp. Em uma matéria do Estadão de 22 de outubro de 2025, do Weslley Galzo, ele comenta que tem casos de interesse da Fiesp, que estão com o André Mendonça, apesar do instituto dele ter convênios com gente que envolve recebimento de dinheiro com a Fiesp. Segundo a matéria, o caso mais emblemático deve ser a incidência de contribuição previdenciária patronal sobre os descontos de vale-transporte e vale-refeição dos trabalhadores. É uma causa trabalhista gigante de repercussão gigante, no qual a Fiesp tem evidentes interesses. Fiesp, uma entidade patronal. E aí é legal o cara que tem convênio com a entidade patronal julgar essa questão? É bastante duvidoso, né? Na época que isso veio à tona, inclusive, São Conrado Hubner Mendes escreveu uma coluna na Folha chamada “Pau que não bate em Mendes, não bate em Mendonça”. Quer dizer, a leniência com a história toda de Gilmar tem seu instituto, que faz convênio com um monte de gente, foi também estendida ao Mendonça e o seu instituto. Em 2 de Novembro 2025, o Eduardo Militão, no UOL, também fez uma matéria sobre o fato que o André Mendonça pediu visto e suspendeu, em agosto, o julgamento no TSE, que poderia cassar o governador de Roraima, sendo que em março o Instituto do Mendonça recebeu 273 mil do governo do Estado em um contrato sem licitação. O que eu achei mais legal é que um dos cursos que o instituto tem para instalar em Roraima era sobre como fazer licitações. Eu achei isso um negócio sensacional, mas não teve licitação para o curso de como fazer a licitação. E o André Mendonça, depois, ele agora veio à luz, o vídeo dele dizendo recentemente que tudo que ele ganhar do Instituto, 10% ele vai dar para a igreja como dízimo e 90% ele vai dar para caridade. Valeria a pena conferir, não estou aqui duvidando da palavra do ministro, mas enfim, o meu ceticismo natural me impele a sugerir que os órgãos de imprensa vão lá checar se é isso mesmo. Mas, de qualquer maneira, eu só queria deixar claro uma coisa: se você receber suborno e depois doar para a igreja ainda é suborno, filho. É questão de gosto pessoal seu, se você vai gastar na zona ou doar para igreja, mas o dinheiro que você recebeu como suborno, é suborno.
Fernando de Barros e Silva: Exato.
Celso Rocha de Barros: Então, o que precisa saber se esse dinheiro aqui está sendo doado em troca de decisões e não o que você faz com seu dinheiro depois, entendeu? Se você usar isso para descobrir uma vacina, parabéns para você, mas o dinheiro ainda era suborno. De qualquer maneira, a minha esperança, naturalmente, é que, diante da repercussão desse caso na opinião pública, o André Mendonça acabe tendo uma atuação melhor do que a do Toffoli, né? Até para tentar, enfim, não se envolver no mesmo tipo de escândalo que o Toffoli se envolveu.
Fernando de Barros e Silva: Esse episódio todo, a saída do Toffoli da relatoria não resolve mais o problema. Ela é bem-vinda, mas ela é insuficiente diante do que já se sabe. Isso para não dizer o que ainda vai surgir. O fato é que o Supremo, esses ministros, devem satisfações à opinião pública e à Justiça, e o Supremo está sob suspeita. Eu acho que a imagem do Supremo se degradou muito nessas últimas semanas, últimos meses. Estou vendo aí o comportamento desses ministros pavimentar a pista para a extrema-direita. É isso que eu estou vendo. Espero estar errado, mas eu acho que está se criando um ambiente por culpa deles. Daí vão falar “ah, a imprensa…”. Não tem nada a ver com a imprensa. Nesse caso, realmente não tem nada a ver com a imprensa. A imprensa está fazendo o trabalho que tem que fazer. É a minha percepção desse preocupante episódio, não sei se exagero aqui.
Ana Clara Costa: Agora, enquanto estamos aqui falando, os ministros estão preparando uma nova viagem para Frankfurt, do qual o principal organizador da parte do Supremo, é o André Mendonça. Mum seminário que acontece de um a 5 de março desse ano na Universidade de Frankfurt. Cota de patrocínio cobrada de quem quiser patrocinar a partir de 30 mil euros, a cota mais baixa.
Celso Rocha de Barros: Opa!
Ana Clara Costa: Presenças confirmadas: André Mendonça é o mestre de cerimônia, Luiz Fux, Tarcísio de Freitas e Ilan Goldfajn, do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Ministro Alexandre Silveira, Ministro Alexandre Padilha, Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, Hugo Motta, Presidente da Câmara dos Deputados do Brasil.
Fernando de Barros e Silva: Parece que já ficou velho esse esse código de conduta do Fachin, né? Ele nem saiu do papel, foi rechaçado e corre o risco de ser uma peça decorativa. Enquanto isso, a coisa vai, vai se desfazendo. Bom, vamos encerrar o primeiro bloco do programa por aqui. Vamos fazer um rápido intervalo e na volta vamos falar de Carnaval, acadêmicos de Niterói e etc. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem, estamos de volta. Mestre Casca, vou começar com você. Segundo bloco, a gente vai falar dessa homenagem que a Acadêmicos de Niterói fez a Trajetória do Lula. A gente não gostou, né?
Celso Rocha de Barros: Então, a primeira coisa que a gente vai dizer é o seguinte: eu acho que a Liesa, a Liga das Escolas de Samba, devia fazer uma regra da Liesa — não espera o governo fazer isso aí. Vai dar merda. — Uma regra da Liesa mesmo, dizendo que em ano de eleição não devia poder ter homenagem a político, pelo menos.
Ana Clara Costa: Mas essa organização super republicana chamada Liesa…
Celso Rocha de Barros: Exato. Exato. Pois é, mas eu acho que seria do interesse deles, pelo menos. Eu acho, assim, até para evitar grandes conflitos. Eu acho que enfim, podia ter uma regra, porque tem certas coisas que eu vou discutir aqui se são propaganda antecipada ou não, que são consequências de você fazer um enredo sobre o Lula. Se você for fazer uma rede sobre o Lula, vai ter que ter uma estrelinha vermelha ali no meio, cara. Uma das coisas que o Lula fez foi fundar o PT. Enfim, se você for fazer, vai ter que ter. Se fosse um enredo a favor do Bolsonaro, ia ter que ter os caras lá com a camisa do Brasil e tal. Uns Olavo de Carvalho de fio dental desfilando, umas coisas assim.
Fernando de Barros e Silva: Capitão de Deus. Tá uma lástima isso tudo.
Celso Rocha de Barros: Bom, já adianto meu diagnóstico: isso tudo foi uma má ideia. Isso não foi bem pensado, porque você vai dar margem a acusações de propaganda antecipada e, o que é pior, tipo o abuso de poder econômico, essas coisas todas que poderia levar a cassação da chapa, num ano em que o Tribunal Eleitoral vai estar na mão do Cássio Nunes Marques e do André Mendonça, os dois nomeados pelo Bolsonaro. Então, quer dizer, você tá dando bastante sopa pro azar aqui em tentar fazer coisas que dê qualquer margem para um cara argumentar um negócio desse. Não devia ter feito. Do ponto de vista acadêmico de Niterói, eu acho mais ou menos compreensível, porque a grande maioria das escolas que sobem para o primeiro grupo nos últimos 20 anos, caiu no ano seguinte. Isso tem até explicações que não envolvem favorecimento, nem nada. Elas, em geral, são escolas menores, que têm menos dinheiro ou pelo menos ficaram um tempo na Série Ouro, que é o segundo grupo ganhando menos dinheiro. Então, enfim, chegam com menos patrocínio. Então é até previsível que elas se deem mal, mas a regularidade é muito grande. É muito comum a escola que subiu cair no ano seguinte. E eu acho, para falar a verdade, que Acadêmicos de Niterói resolveu fazer uma homenagem ao Lula, em tese, para tentar fazer uma coisa de meio, jogar para a galera, para tentar ganhar o apoio, pelo menos dos apoiadores do Lula, alguma coisa assim, e tentar combater essa tendência, visto que eles, evidentemente, tinham muito menos dinheiro que todo mundo. Quem viu o desfile, viu que foi um desfile bem mais pobre do que o desfile das outras escolas do Grupo Especial. Eu vi os desfiles da série Ouro, que é a segunda divisão, e tinha desfiles ali que tinham mais dinheiro que o da Niterói. Me dava a impressão. E o que mais prova para mim que a coisa não foi pensada desde o início como propaganda eleitoral, é que se fosse propaganda eleitoral, teria sido bem diferente esse desfile. Aquele excesso de referências ao Bolsonaro, aquela ala dos conservadores em conserva que deu margem para Damares e o pessoal dizer que o Lula estava ofendendo os evangélicos. Eu não vi nada de evangélico ali, gente, desculpa. A questão é as fantasias eram uma lata de conserva que no rótulo era uma família feliz, mas a tampa aberta era um negócio mofado, então ela seria, no fundo, uma crítica aos conservadores hipócritas que defendem valores morais, mas são safados. Mas, aparentemente, isso que é até uma caricatura meio grosseira e sutil demais para o nível de atenção que as pessoas tem hoje em dia. Então, deu margem a esse mal-entendido. O governo, se pudesse ter planejado isso desde o começo, se o Sidônio tivesse cuidando disso desde o começo, eu duvido que tivesse um negócio desse. Eu duvido que tivesse tanta referência ao Bolsonaro.
Fernando de Barros e Silva: Exato. Uma coisa bastante grotesca, inclusive, que ajuda ele a se vitimizar. Ajuda a vitimização do Bolsonaro.
Celso Rocha de Barros: Nem sei se ajuda, mas o que me deu muita impressão… Se você pegar um bloco de carnaval que o pessoal é de esquerda e faz, aí vai ter piada com o Bolsonaro. E aí, cá entre nós, tudo bem. Maravilha. Perfeito. Me deu uma impressão um pouco esse clima de bloco de carnaval do pessoal meio de esquerda fazendo piada ali. Agora, alguma coisa ali foi ilegal? Então, do ponto de vista das acusações mais sérias, que seria abuso de poder econômico etc. É muito improvável que isso prospere, porque as outras escolas receberam o mesmo dinheiro que a Acadêmicos de Niterói. Você ainda poderia argumentar “não, mas é apoio ao Carnaval, que é uma população negra periférica do Rio de Janeiro… Muita gente, inclusive, de religiões de matriz africana, enfim, que seria eleitor do Lula”, sei lá. Alguém poderia argumentar uma coisa dessa, mas isso é diferente de dizer que é propaganda antecipada. Isso, por exemplo, os prefeitos de direita que fazem rodeio, que fazem festa do peão, que em geral também chama mais um público mais de direita, mas isso não é a mesma coisa de propaganda antecipada. A jurisprudência atual é mais ou menos favorável ao Lula. Por exemplo, a Escola Leandro de Itaquera, de São Paulo, em 2006, homenageou três tucanos, o Alckmin, o Serra e o Covas. Tinha um carro alegórico com três estátuas gigantes. Dos três, o PT reclamou na época e agora o pessoal tá chamando que é hipocrisia o PT fazendo… Tudo bem, é hipocrisia do PT, mas o fato é a candidatura do Alckmin não foi impugnado. O Alckmin foi candidato em 2006, então ninguém considerou isso abuso de poder econômico ou coisa que o valha. A mesma coisa as motociatas do Bolsonaro, elas tinham dinheiro público naquilo. Ele usava o cartão corporativo para pagar um monte de coisa e ele foi multado por isso. Mas a candidatura dele, ninguém cogitou em impugnar a candidatura por causa disso. Eu acho que o que pode acontecer aqui é uma multa para o PT. Se eles acharem que tem alguma coisa mais sutil, porque a lei autoriza, por exemplo, você falar bem para caramba do Lula, isso não é crime. A lei também autoriza falar mal do Bolsonaro. Isso não é crime, até porque o Bolsonaro não é o candidato rival esse ano. Mas eles podem achar que tem coisa subliminar, que tem coisa meio que, enfim, dá a entender que é melhor votar no Lula, alguma coisa assim. Se for e se der, pode render uma multa ao PT. E é bom dizer, independente da consequência concreta, vai gerar assunto, né? Os partidos de direita vão ficar entrando na Justiça, vão ficar recorrendo, vão ficar chamando a atenção sobre isso, vão ficar lançando notícias falsas, como essa história de que a ala seria crítica aos evangélicos, enfim, isso circulou imensamente nas redes sociais, de modo que, do ponto de vista do governo do PT, foi muito ruim o desfile da Acadêmicos de Niterói.
Fernando de Barros e Silva: E no ano em que houve muito enredo bacana.
Celso Rocha de Barros: Muito enredo muito bom.
Fernando de Barros e Silva: A Unidos da Tijuca fez homenagem a Carolina Maria de Jesus.
Celso Rocha de Barros: Sensacional.
Fernando de Barros e Silva: A Tuiuti fez uma coisa ousada com o refrão no idioma iorubá, falando do oráculo africano de origem nigeriana, o Ifá, que viajou com os escravizados para o Caribe, tem uma expressão em Cuba, na Santeria de Cuba e no candomblé brasileiro. Maravilhoso.
Fernando de Barros e Silva: Belíssimo. A Viradouro, né gente, que ganhou homenageando o mestre Ciça.
Fernando de Barros e Silva: O Heitor dos Prazeres também, que foi homenageado. Isso para não falar do Ney Matogrosso. Enfim, muitos enredos.
Sonora: Bem mais bem feitos.
Fernando de Barros e Silva: Bem mais bem feitos, com propósito. É um pouco triste para mim, porque você tem que ouvir esses caras de direita, esses comentaristas de direita, tipo Fernando Schuler, que só falta babar na gravata para falar.
Celso Rocha de Barros: Tá vivo o Shuler? Como faz tempo que eu não ouvia falar dele, eu achei que ele tinha se aposentado depois da tentativa de golpe. Ele passou aqueles anos todos dizendo que o Bolsonaro não ia fazer nada.
Fernando de Barros e Silva: Como tem dinheiro público para todas as escolas, a Embratur dá dinheiro, tem que dar mesmo. Mas daí fica esse aspecto, um pouco de parece um pouco Coréia do Norte, sabe? Assim vai ser idolatrando, idolatrando o grande líder e tal. Não precisa né? Não é bom para ninguém.
Celso Rocha de Barros: Não precisa. Exato. Não é bom. Eu acho, inclusive, assim, independente de ser legal ou não, é uma questão de bom senso. Inclusive, eu acho inteiramente legítimo você homenagear a política em certos contextos, entendeu? Por exemplo, eu tenho certeza que um dia vai ter um desfile homenagem a Marina Silva. Tenho certeza que um dia vai ter isso. Mas aí você faz quando ela não tiver concorrendo a eleição, você faz, enfim, com foco na questão ambiental. Se você quiser fazer uma homenagem ao Lula, daqui a alguns anos… Ele sai da presidência, você faz, perfeitamente legítimo. Pode fazer. Se a Leandro de Itaquera tivesse feito um desfile sobre o Plano Real, totalmente legítimo.
Ana Clara Costa: Socorro!
Celso Rocha de Barros: É chato pra cacete, mas assim, mais legítimo. Se conseguissem fazer um samba bom sobre isso, realmente aí os caras eram gênios.
Fernando de Barros e Silva: O destaque é o Alckmin sambando.
Celso Rocha de Barros: Exato.
Fernando de Barros e Silva: Plano Real representando. Os tucanos extintos.
Celso Rocha de Barros: Exato. Então não, isso não. Eu não acho que isso é legítimo, não. Eu só acho que em ano eleitoral, entendeu? E sabendo que com quem vai estar o TSE, sabendo do potencial do Bolsonaro para gerar notícia falsa e do domínio que eles têm da rede social, entendeu, foi claramente uma decisão muito ruim, né? Fazer esse negócio.
Fernando de Barros e Silva: Ana Clara, onde você estava nesse carnaval?
Ana Clara Costa: Estava apurando in loco e muito louca.
Fernando de Barros e Silva: Que a diretora estava lá, a diretora tem samba no pé. Nossa diretora é nosso orgulho. Orgulho do Foro.
Ana Clara Costa: Tô brincando. Eu não tava na Sapucaí, mas queria falar um pouquinho do que eu ouvi sobre esse assunto.
Fernando de Barros e Silva: Diga lá!
Ana Clara Costa: Foram decisões erradas, mas foi… Rolou um certo azar também ali no que estava acontecendo, porque no campo das decisões erradas, é complicado o pessoal da Acadêmicos de Niterói ir para o Palácio do Planalto visitar a Gleise junto com o André Siciliano. Você cria uma conexão política em algo que…
Ana Clara Costa: Teve isso, né?
Ana Clara Costa: Tem um cunho cultural, né? Uma figura? Sim, claro. Enfim, uma manifestação cultural como carnaval. Uma figura como o Lula, que é uma figura política, mas que também tem o seu peso cultural, né?
Celso Rocha de Barros: Uma figura de importância histórica, goste-se ou não.
Ana Clara Costa: Exato. Então, teve isso. Eles foram para o palácio, o pessoal da escola em outubro de 2025, outubro do ano passado, conversar com a Gleisi. Outra coisa, o Lula queria ir no desfile. Não é comum o Lula ir no desfile de escola de samba. Não é muito praxe dele, né? Mas aí ele acabou indo também ver o Galo da Madrugada, acabou indo para Salvador e foi para Sapucaí. Me parece, pela andança dele e ele fazer tudo isso, na verdade, poucas horas antes de ir para a Índia, me parece que ele foi para Olinda e para Salvador um pouco para diluir o peso dele de ele ir para Sapucaí. Embora as fontes com quem eu tenha conversado neguem isso veementemente. Mas enfim, ainda posso pensar o que quero pensar.
Fernando de Barros e Silva: Inclusive, ele foi orientado. Ele beijou as quatro bandeiras das escolas que ele viu, se apresentaram e não beijou só da Acadêmicos de Niterói.
Ana Clara Costa: Sim, teve uma preocupação em ficar em todos os desfiles, não só no desfile da Acadêmicos, e dar o mesmo prestígio para todas. Então, a tentativa ali, era de isonomia, manter a isonomia. E de fato, essa questão da família em conserva foi uma coisa que eles ficaram muito tensos depois porque não imaginavam que ia acontecer desse jeito e acharam que foi uma bola fora junto com o público evangélico, porque é justamente essa turma que eles vão tentar ganhar quando a campanha começar. Todo o trabalho da comunicação da campanha vai ter como foco o público evangélico. Vocês podem esperar.
Fernando de Barros e Silva: E quem impediu “a Janjinha de desfilar e sair”? Porque a Janja, a Janja, quase, quase foi para o desfile, né? Foi substituída na última hora pela Fafá de Belém. Não é isso?
Ana Clara Costa: Isso.
Fernando de Barros e Silva: Qual a nossa apuração sobre isso, Ana Clara?
Ana Clara Costa: Não. Todo mundo era contra, todo mundo era contra. Mas ela estava totalmente encantada com a ideia. Ela estava se projetando na Sapucaí.
Fernando de Barros e Silva: “Vamos segurar aqui Janjinha, por favor”.
Ana Clara Costa: Mas aí, no final, houve um bom senso ali, muito motivado pelo apelo do Lula. Mas assim, todo o entorno presidencial estava muito preocupado com isso. Foi tenso até o final. Agora, verdade seja dita, eu acho que o contexto do samba assim, o público do samba é um público diverso. Você tem povo, você tem todos os matizes políticos ali, você tem bicheiro, você tem o playboy lá no camarote, você tem tudo ali, né? E você se dispor a colocar a tua cara ali para ser vaiado, para ser aplaudido, num público tão diverso, eu acho que você tem que ter coragem. Eu acho que nesse aspecto ele mediu a popularidade dele na raça ali, entendeu? E teve aplauso, teve vaia, teve tudo.
Fernando de Barros e Silva: Eu não acho que seja coragem isso. Eu, bom, eu preferia que não tivesse político. É uma festa popular.
Ana Clara Costa: Mas se você pega o Bolsonaro, por exemplo, que só ia na festa do peão, onde era a bolha total dele, o samba não é a bolha progressista, o samba da Sapucaí não é. Se você for na Praça São Salvador, certamente. Aí você tá em território amigo.
Celso Rocha de Barros: Se vaiar o Lula, é porque ele não é de esquerda suficiente.
Ana Clara Costa: Exato. É uma temperatura de Brasil que não é todo mundo que está disposto a sentir, entendeu? E ele foi. Agora, se você pega o Bolsonaro, por exemplo, era só evento de bolha, né? Ele não ia em nada que não fosse totalmente o público dele, né? Ele vivia numa redoma. Até lembrando um pouco o que você falou, Celso, sobre as motociatas que ele fez na campanha de 2022. E aí estou falando da campanha, não da pré-campanha. Ou seja, é muito pior. Ele foi na Festa do Peão de Barretos e aí fez tudo discurso, fez, enfim, performou ali né? Nas imagens e tal dele na festa do Peão. E até nesse aspecto, eu até conversei com o pessoal do governo sobre isso e que eu acho que enfim, não sei como que eles vão fazer uso disso, mas pode ser que seja um uso positivo ou não, não sei. Mas que eles podem usar a imagem do sambódromo na campanha. Independente do que aconteça no TSE e que eu vou falar em seguida, eles podem usar, se eles quiserem, tudo que foi produzido naquele sambódromo, naquela noite, para a campanha. Então, eu acho que também o lado do governo que queria que ele participasse também estava olhando para isso. Bom, no TSE, qual que é a questão, né? Eles vão trabalhar muito com jurisprudência. E o Celso trouxe uma jurisprudência bem similar ao que aconteceu, porque no caso do Bolsonaro, que eu cito aqui, foi durante a campanha, não foi pré-campanha, então foi mais grave e não aconteceu nada.
Celso Rocha de Barros: É, o Bolsonaro teve 7 de setembro.
Ana Clara Costa: Exato. Na pré-campanha a coisa é um pouco mais permissiva do que na campanha. Então, acho que tem essa questão e a jurisprudência não é uma jurisprudência de inelegibilidade para esse tipo de coisa, ainda mais quando tem todo esse princípio da isonomia e tudo mais. A questão é o timing. O TSE, por ter membros do Supremo, indicados por membros do Supremo, é um ambiente que hoje está conflagrado. Por quê? Porque o Supremo está muito insatisfeito com o Executivo, com o governo de uma forma geral, porque ele acha que o governo não está defendendo os ministros e eles acham que o governo deveria defender porque o governo deve para eles muita coisa. Então, eles estão indignados com a postura do governo Lula nessa crise do Master, achando que foram deixados na chuva, entendeu?
Fernando de Barros e Silva: Ah, coitados na chuva, com 130 milhões. Na chuva.
Ana Clara Costa: Não mate, não mate o mensageiro. Não estou concordando.
Fernando de Barros e Silva: Não. Bangalô do Tayayá. Na Chuva. Ah, que chuva.
Ana Clara Costa: Não. Eu só estou aqui expondo a informação. Não mate o mensageiro. Eles estão achando que eles deveriam ser defendidos pelo governo. E teve o episódio do diretor geral da PF, o Andrei Rodrigues, ir ao Supremo entregar a carcaça do Toffoli ali naquele relatório da PF, entendeu, que muitos deles viram como uma atitude contra a instituição e não contra o Toffoli ou a favor da investigação. E aí, essa animosidade que está permeando a Corte neste momento, pode ser um fator de dor de cabeça para o governo na análise desse caso. Mas tem uma outra questão: essa análise é demorada. Assim, pode ser que essa análise seja feita até depois da eleição. Para vocês terem uma idéia, hoje o TSE está analisando o caso do Pablo Marçal em 2024, mas o fato é que, enfim, tudo está muito imprevisível. A gente não sabe qual vai ser o humor da corte daqui para frente, então isso pode dar dor de cabeça, mas não é algo que se espera que inviabilize qualquer coisa, entendeu? Vai ser uma pedra no sapato, digamos, no máximo. E aí pode resultar numa multa, como o Celso falou, mas não muito mais que isso, entendeu?
Celso Rocha de Barros: Eu só queria lembrar que a frase da nossa produtora aqui na nossa reunião de pauta, que é muito interessante, que no ano em que homenagearam o Presidente da República, um sambista foi o enredo vencedor do Carnaval, grande Mestre Ciça, da Viradouro.
Fernando de Barros e Silva: É isso aí. A gente encerra o segundo bloco do programa, fazemos um rápido intervalo. Na volta, vamos falar de controle sobre os livros didáticos da rede pública. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta, Celso, vamos começar com você. Mundo Agro está fazendo lobby para mudar os textos, mudar o teor dos livros didáticos. A gente vai contar um pouco essa história.
Celso Rocha de Barros: É isso, Fernando, que a matéria Aos Fatos mostrou é que a organização De Olho no Material Escolar, Dome, primeiro, eles estão pressionando as editoras para trocar termos e conteúdo mesmo de livros escolares, para deixá-los mais favoráveis ao agronegócio. E eu fui ler o relatório da Dome sobre os livros didáticos e é muito ruim. Para começar, é meio malfeito mesmo. Por exemplo, na página 19 nós temos essa sensacional frase: “De acordo com Barros, 2022 — que não somos nem eu nem o Fernando — a expressão ‘agronegócio’, é o resultado da fusão entre agricultura e negócio”. Porra!
Fernando de Barros e Silva: Isso aí parece o Pondé falando “se seu pai não transasse com a sua mãe, você não existiria”, né?
Celso Rocha de Barros: Exato parece aquele negócio do Pondé, né? Dizendo assim “não, se seu pai, sua mãe tivesse transado, você não existiria”. Uma informação que nenhum de nós tinha até agora.
Celso Rocha de Barros: Bom, eles fizeram o relatório em que eles analisaram uma amostra de livros didáticos para procurar viés a favor ou contra o agronegócio. Em si, esse tipo de estudo é inteiramente legítimo, entendeu? Inclusive, todo mundo pode fazer, a CUT pode fazer também, o pessoal do agronegócio pode fazer. Enfim, o que é ruim? É, primeiro lugar. Você depois vai fazer lobby nas editoras para mudar o conteúdo, inclusive de conteúdo, não é? Por exemplo, o tom da abordagem…. Não. Parece ser conteúdo científico mesmo. Enfim, você trocar agrotóxico por defensivo agrícola, não sei o que lá, tem uma razão para usar agrotóxico. Você tá querendo, justamente, chamar a atenção para o fato de que agride o meio ambiente, etc. E o relatório, sinceramente, o que eles fizeram foi assim, eles pegaram os especialistas e mandaram eles classificarem os livros didáticos, então marcarem pontos em que teria viés favorável ou desfavorável, muito favorável, muito desfavorável.
Ana Clara Costa: Especialistas, em tese.
Celso Rocha de Barros: Então, já vamos chegar por aí. E isso não é ilegítimo. Tem inclusive, um tipo de trabalho que é o survey de especialistas, de experts. Isso você pode fazer, mas tem regras para fazer isso. Se você for ver quem são os especialistas, no final tem uma lista de seis. E vários deles, claramente, deveriam ter deixado claro o potencial conflito de interesse entre sua análise e sua profissão. Por exemplo, o Christian Lohbauer, que é um dos fundadores do Partido Novo, ele tem um currículo acadêmico, ele é doutor em Ciência Política pela USP e tal, mas ele foi presidente executivo da Crop Life Brasil – Associação Brasileira das Empresas de Defensivos, Biotecnologia e Sementes. Pô, o cara era presidente da Associação dos Agrotóxicos e tá pedindo para tirar agrotóxico do livro didático e a gente vai tratar isso aqui como um observador imparcial, um especialista técnico distanciado? Ah, Pelo amor de Deus, né amigo? Vamos aí adquirir um pouco de vergonha na cara. O tal do Roberto Levrero, outro especialista aqui, ele foi diretor de Fertilizantes Organo Minerais de 2004 a 2011, na Abisolo – Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia e Nutrição Vegetal e presidente da mesma instituição entre 2012 e 2019. Gente, também, o cara, evidentemente, tem interesse econômico ligado à indústria de fertilizantes. Quer dizer, esse cara que vai dizer qual o termo vai ser usado para se referir, enfim, como você quiser, os agrotóxicos etc. É esse cara que ganha a vida trabalhando para os caras.
Fernando de Barros e Silva: Sim.
Celso Rocha de Barros: Isso é claramente bizarro, né? Mas como se não bastasse os especialistas serem muito provavelmente enviesados assim, não tem nenhum disclaimer aqui dizendo esse cara trabalhou não sei aonde, porque, por exemplo, esses caras não estão impedidos, obviamente, de escrever trabalhos científicos. Mas vocês mandarem para publicação um trabalho científico, eles têm que ‘Disclosure’. Eles têm que falar para publicação e acrescentar aquilo numa nota de rodapé. Esse cara tem um potencial conflito de interesses que ele trabalha para a indústria, para aquela. Pode até ser que o trabalho dele esteja certo, mas tem que ficar claro que ele poderia ter esse viés, entendeu? E isso não foi feito nesse trabalho. Mas o principal motivo desse trabalho ser muito vagabundo é que eles basicamente não divulgaram o que eles consideraram o gabarito aqui para dizer se o negócio havia enviesado ou não, o que foi considerado informação imprecisa, o que foi considerado informação enviesada, o que foi considerado informação incompleta. São vários quesitos deles. Não diz, entendeu? Só diz assim: “Chamamos esses três caras batutas aqui. E eles disseram pra gente que isso aqui tá bom, isso aqui tá ruim”. Então. Enfim, eu sou co-autor de livro didático. Eu sou co-autor de um livro didático de sociologia para o ensino médio. A gente recebe lá as instruções do governo, periodicamente, sobre o que tem que entrar no livro didático. Então, tem um elemento em livro didático que é decidido pelos governos, certo? Enfim, e obviamente isso vai ser objeto de disputa. E tem uma disputa, que é legítima, também tem gente de esquerda que reclama de livros didáticos, que reproduz certos padrões. Tudo legítimo. Agora, isso não pode ser resolvido com lobby do setor mais rico da economia brasileira. Você, obviamente, discutir os livros didáticos é totalmente legítimo. Inclusive, a direita tem o direito de discutir isso também. Agora, você não pode pegar uns caras aqui com evidente interesse econômico em certo tipo de propaganda, e botar esses caras para ser censor de livro didático, né? E, cá entre nós, é o fim do mundo.
Fernando de Barros e Silva: Esse episódio é um caso típico de Olavismo aplicado, viu?
Celso Rocha de Barros: E é bom que os caras, esses caras aí, aposto, são os mesmos caras que falavam de escola sem partido. Lembra da escola sem partido?
Fernando de Barros e Silva: Escola sem partido.
Celso Rocha de Barros: Então, pois é. Enfim, não é só partido que podem enviesar o ensino não, gente.
Fernando de Barros e Silva: É bem assustador isso tudo. Ana, você que chamou a atenção para gente desse caso.
Ana Clara Costa: Pois é, é porque o que essa reportagem do aos Fatos mostra não é que há lobby, é que o lobby está sendo bem sucedido. E aí vale um disclaimer aqui que a reportagem foi produzida em parceria com o Pulitzer Center, que é um instituto americano que financia jornalismo em vários países. Bom, o caso mais flagrante dessa reportagem do Aos Fatos é o caso da Summus Educação, que é dona das marcas Ática, Saraiva, Scipione, Anglo e Pitágoras. Eles fizeram uma parceria com a Dome e publicaram um vídeo e nesse vídeo eles dizem que a área total ocupada pela pecuária no Brasil é uma área que está estável e, portanto, não se pode dizer que o aumento do desmatamento tem a ver com as pastagens, porque se as pastagens estão estáveis, quer dizer que eles não desmataram. Só que, assim, eles estão ocultando mil nuances nesse vídeo. Eles não estão dizendo que você pode ter trocado pastagem por agricultura e aí não entra no cálculo de pastagem, mas entra no de agricultura. O fato é que assim a gente sabe, isso é documentado, tem o MapBiomas, tem todo mundo na Amazônia retratando isso, que o desmatamento está sendo feito justamente para aumentar a área de produção do agronegócio, seja com pastagem, seja com soja, enfim. Então, o vídeo, ele tortura os dados para fazer com que os dados corroborem a informação de que a pastagem não tem nada a ver com o desmatamento. E esse vídeo foi feito em parceria com a Summus Educação, que é o maior conglomerado de livros didáticos do Brasil. E pior, participou da produção desse vídeo, uma empresa chamada AgroTeca, que é como se fosse uma produtora de material de conteúdo próagronegócio, que foi elaborada em parceria com a ESALQ da USP, ou seja, foi elaborada em parceria com a USP, a Agroteca. Então, o que está acontecendo é que essa reportagem do Aos Fatos mostra, é uma certa forma, o sucesso dessa empreitada da Dome, né? Via editoras, ou pelo menos algumas editoras, eu acho que se há pressão nas editoras, ela existe e está rendendo algum fruto. Tudo bem que você não tem uma mudança na base do currículo, né? O governo não está pedindo livros em defesa dos defensivos agrícolas, né? Uau, ainda bem. Mas você tem essa pressão. Por outro lado, os professores continuam sendo vítimas de muito cerceamento. No caso desse tipo de assunto, não só desse tipo. Assim, eu acho que agronegócio é um tema. Toda a questão de gênero, é um tema, até questões religiosas, de certa forma. E tem no Brasil, uma parceria da Universidade Federal Fluminense com o Ministério da Educação, que chama Observatório Nacional da Violência contra Educadores. E eu conversei com o professor Fernando Penna, que é diretor da Faculdade de Educação da UFF e coordena esse observatório em que ele fez uma pesquisa sobre esse tipo de violência, de você ser cerceado pelo conteúdo que você ensina. E segundo essa pesquisa, que foi feita pelo Observatório em 2022-2023, que são anos em que não se tem um governo Bolsonaro na presidência. Ou seja, a tendência é que o professor se sinta um pouco mais livre para falar sobre o que ele quer. Essa violência, ou seja, o número de professores que alegam esse tipo de cerceamento nas escolas, se manteve alto. E aí, tem um dado curioso. Na época do governo Bolsonaro, o Disque 100, que é um telefone operado pelo Ministério dos Direitos Humanos para justamente atender casos de abuso, ele estava sendo usado sob a orientação da ministra, então ministra Damares, para denunciar professores que estavam defendendo supostamente o marxismo em sala de aula. E aí um dos projetos do pessoal do Observatório era usar o Disque 100 para justamente proteger os professores que estão sendo assediados, de certa forma, em sala de aula, por pais, por diretores, por alunos. Em relação ao conteúdo, você usar o Disque 100 para esses professores denunciarem os abusos que eles estão sofrendo, porque eles se sentem muito desamparados. A própria escola não acolhe e não banca os professores. Ela prefere, em geral, se eximir de qualquer responsabilidade. Então, tem esse plano de criar o Disque 100 para os professores. Só que esse plano está na gaveta do Ministério dos Direitos Humanos desde o ano passado e está parado lá. Não foi criado ainda. Então, eu acho que tem a questão do livro didático, mas tem um problema muito mais grave. E um terceiro ponto é: essas bancadas, a bancada evangélica, agora a bancada católica, enfim, bancada para tudo. Eles pressionam muito no Congresso para conseguir mudanças por meio do Legislativo. E se a gente olha depois do que aconteceu com o famigerado kit gay lá atrás, toda a discussão de gênero no livro didático deixou de existir mais por autocensura do que pelo fato de ter havido uma ordem para que não se fosse discutido o próprio Plano Nacional de Educação, a Base Nacional Curricular, a discussão de gênero foi muito diminuída, até como prevenção pelos ataques que estavam sendo feitos a essa discussão. Então, na verdade, a gente nunca se recuperou daquele período. De lá para cá, isso não evoluiu no livro didático. A gente não voltou a tratar do assunto. Isso que a gente está aí no quarto ano de um governo progressista, mas as coisas continuam um pouco como estavam, porque não há espaço. E aí teve um momento, a Base Nacional Curricular. Ela, na verdade, não passa pelo Congresso Nacional, mas as bancadas cristãs na bancada evangélica e a bancada católica queriam levar essa discussão para o Congresso. Elas estavam ameaçando e pressionando. Acabaram não conseguindo. Mas aí os próprios técnicos da base, com medo de terem a base deslocada para o Congresso, acabam se auto censurando para não atiçar a fúria do Congresso e acabar perdendo a base. Então, essa é a situação que a gente está. A gente tem a pressão nas editoras, a gente tem a pressão com os professores e a gente tem a pressão política. E isso não estamos no governo do Bolsonaro.
Fernando de Barros e Silva: Bem grave. A gente encerra, então o terceiro bloco do programa. Fazemos um rápido intervalo na volta Kinder Ovo carnavalesco. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem, Estamos de volta. Vamos ver o que a diretora preparou para gente nesses dias de carnaval. Diga lá, Mari Faria. Pode soltar.
Sonora: Mas se você volta na história todos os bons governos aqui no Brasil, Fernando Henrique um, Lula um, mandato tampão do Temer. Então eles entraram na terra arrasada, né? 94, terra arrasada. 2002, era terra arrasada. 2017, terra arrasada.
Ana Clara Costa: André Esteves! Eu vi esse vídeo.
Sonora: Quem entrar na cadeira ano que vem, não tem terra arrasada.
Ana Clara Costa: O seu azar é que eu assisti a CEO Conference do BTG semana passada na íntegra.
Fernando de Barros e Silva: E esse é o reposicionamento do André Esteves já, já vislumbrando que o Lula pode ganhar a eleição. Ele já está e já está se reposicionando. Os anos para trás, ele só estava fazendo coisa com o Tarcísio, com não sei o quê, quando sei que agora ele já tá falando não, “quem assumir não vai encontrar terra arrasada”.
Ana Clara Costa: Cara, ganhei a primeira vez esse ano, hein? Nossa, que isso! Eu tava numa derrota total!
Fernando de Barros e Silva: Olha só.
Ana Clara Costa: É isso.
Fernando de Barros e Silva: Então, para os anais, quem fala é o sócio sênior do banco BTG Pactual, André Esteves. Durante o CEO Conference, a conferência do CEO. Muito bem, pois este momento glorioso de Ana Clara. Vamos para o correio elegante. Melhor momento do programa. Momento de vocês, o momento das cartinhas. E eu vou começar aqui com a mensagem do Rivalmir Junior: “Tem muitas coisas positivas em ouvir o Foro, mas sem dúvida, a melhor de todas é voltar a incluir as palavras mutreta e picaretagem no meu vocabulário. Obrigado, Celso”. Ah! Muito bom!
Fernando de Barros e Silva: Isso aí. Muito bom, ri Valmir.
Ana Clara Costa: A Chayenne B mandou: “Gente, a alegria do Fernando em ganhar esse Kinder, é a alegria que a gente quer sentir no fim da escala seis por um e a redução para 40 horas”.
Fernando de Barros e Silva: Muito bom. Tá vendo? É isso mesmo.
Celso Rocha de Barros: Valeu, Chayenne! O Tom Cardoso mandou assim: “Minha companheira Lia e eu organizamos a terceira edição da já tradicional Feijão para a galera do coração pular o carnaval com energia, o famoso feijão da Caralia, Casa do Tom e da Lia. Ano que vem esperamos vocês aqui, se organizem. Beijos de Salvador! Tom, se der, ano que vem estarei na caralha.
Ana Clara Costa: Muito bom.
Fernando de Barros e Silva: Muito bom. E assim a gente vai encerrando o programa de hoje por aqui. Se você gostou, não deixe de seguir e dar five stars pra gente no Spotify. Segue no Apple Podcast, na Amazon Music. Favorita na Deezer e se inscreva no YouTube. Você encontra também a transcrição do episódio no site da piauí. Foro de Teresina é uma produção do Estúdio Novelo para a revista piauí. A coordenação geral é da Carolina Moraes. A direção é da Mari Faria, com produção e distribuição da Maria Júlia Vieira. A checagem é do Gilberto Porcidônio. A edição é da Carolina Moraes e da Mari Leão. A identidade visual é da Amanda Lopes. A finalização e mixagem são do João Jabace e do Luís Rodrigues, da Pipoca Sound. Jabace e Rodrigues também são os intérpretes da nossa melodia tema. A coordenação digital é da Bia Ribeiro, da Emily Almeida e do Fábio Brisolla. O programa de hoje foi gravado aqui na minha Choupana, em São Paulo, e no Estúdio Rastro, do grande Danny Dee, no Rio de Janeiro. Eu me despeço então dos meus amigos. Tchau, Ana.
Ana Clara Costa: Tchau, Fernando. Tchau, pessoal.
Fernando de Barros e Silva: Tchau, Celso.
Celso Rocha de Barros: Tchau, Fernando. Até semana que vem.
Fernando de Barros e Silva: É isso gente! Uma ótima semana a todos e até semana que vem.
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