Bolsonaro avança, Ratinho recua e Cláudio Castro implode
Semanalmente, os apresentadores mencionam as principais leituras que fundamentaram suas análises. Confira:
Conteúdos citados neste episódio:
“Dr. Moraes and Mr. Barci”, artigo de Fernando de Barros e Silva para a piauí.
“Chapa Valdemoro tem golpe de Estado, Banco Master e Moro tentando boquinha”, coluna de Celso Rocha de Barros para a Folha.
“J&F injetou R$ 25,9 milhões em empresa que comprou parte de Toffoli em resort do Paraná”, reportagem de Gustavo Côrtes, Vinícius Valfré e Aguirre Talento para o Estadão.
“Thaís Oyama revela por que Ratinho Jr. desistiu”, apuração para o Canal Meio.
TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO
Sonora: Rádio piauí.
Fernando de Barros e Silva: Olá, sejam muito bem-vindos ao Foro de Teresina, o podcast de política da Revista piauí.
Sonora: Nós, que conhecemos intrinsecamente as patologias das quais ele é portador, percebemos que o ambiente domiciliar é um ambiente humanamente mais saudável.
Fernando de Barros e Silva: Eu, Fernando de Barros e Silva, da minha casa em São Paulo, tenho a alegria de conversar com os meus amigos Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros, no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Olá Ana, bem-vinda!
Ana Clara Costa: Oi, Fernando! Oi, pessoal!
Sonora: Ele aí entendeu que deveria declinar, por motivos familiares, questões locais de política. Não é que pegou de surpresa… É natural isso, né? As pessoas vão, vão se definindo, às vezes mudam.
Fernando de Barros e Silva: Diga lá, Celso Casca de Bala.
Celso Rocha de Barros: Fala aí, Fernando. Estamos aí mais uma sexta-feira.
Sonora: Hoje eu encerro o meu tempo à frente do Governo do Estado. Vou em busca de novos projetos.
Fernando de Barros e Silva: Mais uma sexta-feira. Mas antes de anunciar os assuntos da semana, trago notícias da nossa caravana. Foro de Teresina ao vivo, em Recife, já tem data, horário e local confirmados. Vai acontecer no dia 25 de abril, sabadão, às cinco da tarde, 17h, no Paço do Frevo, Centro Cultural, no Recife Antigo. Sim, é muito chique. A gente também acha.
Celso Rocha de Barros: Última boa notícia do programa de hoje.
Fernando de Barros e Silva: Bom, penúltima, porque a última é que logo mais os ingressos estarão à venda. Fiquem de olho nas redes sociais da piauí. A gente quer muito ver vocês por lá. Agora sim, vamos aos assuntos da semana. Alexandre de Moraes mandou Jair Bolsonaro para casa. Em decisão proferida na terça-feira, o ministro do STF decidiu que o ex-presidente ficará em prisão domiciliar por 90 dias, a contar a partir de sexta-feira, hoje, para você que nos ouve. Ao deixar o hospital onde ficou internado com broncopneumonia, Jair estará acompanhado de sua tornozeleira eletrônica. Com ela na canela, vai cumprir a pena no condomínio em Brasília, onde vive com Michelle. A decisão pela domiciliar veio depois que Paulo Gonet, Procurador-Geral da República, deu parecer favorável à medida. A ida do ex-presidente para casa ocorre no momento em que o Supremo está fragilizado e a imagem de Xandão se desgastou muito com o escândalo do Banco Master. A hipótese de um agravamento do quadro de saúde de Bolsonaro sob custódia era um risco alto demais para ficar na mesa do ministro. Mas há mais coisas em jogo. O cunhado de Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel, também vai partir para a delação premiada. Seu advogado é Celso Vilardi, o mesmo defensor de Bolsonaro. Ana Clara, vai explicar para gente as implicações e as complicações deste novo capítulo da delação que vai se desenhando no horizonte. No segundo bloco, a gente vai falar da desistência do governador do Paraná, Ratinho Júnior, que pulou fora da disputa presidencial aos 45 minutos do segundo tempo. Estava tudo pronto, discurso preparado, ele anunciaria oficialmente sua candidatura na terça, mas na segunda mudou de rumo. O dono do PSD, Gilberto Kassab, foi pego de surpresa no domingo à noite, quando soube da reviravolta e ficou bastante contrariado. Ratinho, na avaliação do partido, teria condições de atingir os dois dígitos nas pesquisas com certa rapidez. O primeiro na fila para ocupar seu lugar agora é Ronaldo Caiado, governador de Goiás, que mudou para o PSD justamente porque não tinha espaço para concorrer pelo União Brasil, federado com o Progressistas. Dificilmente Caiado deixará esse cavalo branco passar, embora o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, ainda esteja no páreo, mas como franco azarão. Caiado é descaradamente de direita e a sua candidatura trafegaria no universo que, por ora, já está ocupado por Flávio Bolsonaro, hoje disparado o nome mais forte para enfrentar Lula. Por fim, no terceiro bloco, a gente fala do Rio de Janeiro, onde o mais comum nas últimas décadas tem sido o governador do Estado ser preso ou destituído antes de terminar seu mandato. Agora foi a vez de Cláudio Castro, que renunciou ao governo na véspera de seu julgamento pelo Tribunal Superior Eleitoral. Isso para não ser cassado e ficar inelegível. A fuga pela porta dos fundos, no entanto, não deu certo. Castro foi condenado por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. Ele delinquiu, conforme veremos. Com o governo acéfalo, também sem vice-governador, a famigerada Alerj elegeu o Presidente da Casa, o ex-secretário de Cidades de Castro, que atende pelo sugestivo nome de Douglas Ruas. Em razão do desmanche na linha sucessória fluminense, Ruas passaria a ser o novo governador em caráter interino. Passaria porque, no mesmo dia em que ele virou virtualmente governador, teve que desvirar. Na noite desta quinta, a Justiça do Rio anulou a sessão que havia elegido Ruas presidente da Alerj. A degringolada do Estado não tem fim, é o que parece. E o Celso vai nos explicar tudinho. É isso. Vem com a gente.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Celso, vou começar com você. Jair em casa, não sei se tomando leite condensado, coitado, ele está doente. Mas enfim, a prisão de fato dele não durou nem meia dúzia de meses, né? Também temos um novo quadro político. Evidentemente, essa decisão do Moraes está ligada a essa mexida nas placas tectônicas da política brasileira e do escândalo master.
Celso Rocha de Barros: Sem dúvida, Fernando. A decisão do Moraes de dar a prisão domiciliar para o Bolsonaro é sintoma direto da fraqueza do Moraes, desde as revelações do caso Master. Se ele ainda estivesse com o prestígio e a força que ele tinha alguns meses atrás, eu acho muito difícil que ele desse agora a domiciliar. E, aqui vale um parênteses: dar ou não a domiciliar não quer dizer, necessariamente, condenar o cara morrer na cadeia. Porque o lugar onde ele estava preso tinha um acesso bastante fácil ao hospital, se fosse necessário a cuidados médicos… É importante deixar claro que o Bolsonaro é um criminoso muito perigoso, né? Se esse golpe tivesse dado certo, milhares de pessoas teriam morrido sob tortura porque o que ele tentou fazer é violentíssimo. Assim, ele num dia teria batido o recorde dos piores internos do sistema prisional brasileiro. Então, você mandar ele para casa não é tranquilo. É como você mandar o Marcola para casa, você mandar o Beira-Mar para casa. E eu, particularmente, duvido que algum desses caras um dia na vida ganha domiciliar e provavelmente vão morrer num hospital penitenciário ou coisa que o valha. Mas enfim, o Bolsonaro é um político que tem bastante gente que apoia ele. O filho dele está inclusive liderando numericamente as últimas pesquisas. E o STF, que é quem devia cuidar desse caso, está muito fraco por sua própria culpa, por ter se envolvido com as mutretas do banco Master. Então, naturalmente, para o STF agora teria sido muito ruim se o Bolsonaro morresse na cadeia. O discurso de que, olha só, esses mesmos caras que ganharam dinheiro do Master deixaram o Bolsonaro morrer na cadeia, ele foi um perseguido, etc… Explodiria, né? A gente não tem nem ideia do que poderia acontecer.
Fernando de Barros e Silva: É, e consequências imprevisíveis no ambiente político também, no andamento da eleição, etc. Mas a martirização do personagem seria mais ou menos… É o mais provável.
Celso Rocha de Barros: Exatamente. Exatamente. Depois, até a gente não sabe o que aconteceria, enfim, até o dia da eleição…
Fernando de Barros e Silva: Sim.
Celso Rocha de Barros: Mas que haveria um esforço de martirização, haveria. E, com ele em casa, enfim, na mansão que o Waldemar paga para ele, a coisa é bem mais difícil de dizer “Olha só, o martírio dessa pessoa nessa mansão aqui, cercada de luxo por todos os lados”.
Fernando de Barros e Silva: De latas de leite condensado.
Celso Rocha de Barros: É. pois é. Enfim…E aqui também, é sempre bom lembrar como é emocionante a conversão da família Bolsonaro aos direitos humanos depois que o Jair foi preso. Por exemplo, o Flávio chegou a fazer um apelo, reclamando muito da prisão que o Bolsonaro estava, dizendo: “Não tinha nenhuma flor para ele poder olhar”. Vocês imaginam o que diria a extrema direita brasileira se um criminoso comum pedisse domiciliar dizendo “não tenho nenhuma flor para eu ver”? Cara, olha só… Sem contar que todos nós sabemos que o Bolsonaro é realmente uma alma muito sensível, né? Um cara muito dado ao lirismo, né? Assim… A apreciação da beleza delicada das coisas, né? Enfim.
Ana Clara Costa: Pô, eles não deram clorofila para as emas?
Celso Rocha de Barros: Exato. Pois é, entendeu? Aquela ema, aliás, eu sempre achei que ela devia ser considerada um herói da resistência. Também tem uma coisa que eu notei no noticiário que, eu não sei, eu acho um pouco esquisito O médico do Bolsonaro é primo do Caiado. Não sei se vocês notaram isso. Eu acho isso meio esquisito, pelo seguinte: digamos que o Bolsonaro morra, pode ter uma teoria da conspiração qualquer dos bolsonaristas de que, “olha só, também o médico era primo do cara que tava na eleição”… Eu acho isso meio arriscado assim, politicamente, não tô aqui questionando absolutamente a competência técnica do Brasil Ramos Caiado, inclusive, dizem que o Ronaldo Caiado era bom mesmo, mas eu não sei. Eu acho isso meio arriscado. Sobre o discurso de vitimização, tanto o STF quanto, inclusive, o governo, estão torcendo para que a ida para domiciliar enfraqueça o discurso de vitimização. Eu vou ser honesto, eu não sei se isso era uma coisa tão forte assim nas pesquisas até agora, não. Eu acho que o cara para comprar o discurso de vitimização do Bolsonaro já devia estar orbitando ali em torno da direita. O fim dessa possibilidade seria relevante se ele agora falasse “ah, tá bom, o cara não é mais um perseguido, eu vou procurar um candidato” e tivesse outro candidato da direita. E não tem, né? A gente vai falar no segundo bloco, o outro cara que tinha era o Ratinho, saiu. E a gente não sabe o que vai entrar no lugar. Então, eu, sinceramente, não acho que vai mudar a pesquisa eleitoral essa coisa dele ir para domiciliar, não. O que muda é o fato que agora ele tá ali sentado, articulando politicamente, o STF botou um monte de restrições a atuação dele, a visitas…
Fernando de Barros e Silva: A vitimização não tem a ver com a ida para domiciliar, não. Isso beneficia ele, beneficia o Flávio Bolsonaro, a ida dele para casa, porque o cara tá mais à vontade para articular.
Celso Rocha de Barros: Exato.
Fernando de Barros e Silva: A vitimização é a fragilização do Supremo.
Celso Rocha de Barros: Claro.
Fernando de Barros e Silva: Que joga suspeita sobre a legitimidade da decisão. Os caras confundem o Banco Master com a condenação por golpe e joga tudo no liquidificador e se vitimiza. Isso que está em curso, isso que vocês vêm dizendo isso nas últimas semanas. Isso é o que alavancou o Flávio Bolsonaro para essa condição aí de empate técnico com o Lula.
Celso Rocha de Barros: Sem dúvida. Agora ressuscitou aí um, digamos, um meme de que a domiciliar fortalece a Michelle, que deve fortalecer mesmo. Mas que a Michelle agora poderia tentar convencer o Bolsonaro a lançar o Tarcísio. Tem muito pouco tempo para fazer isso. Inclusive, se isso acontecesse, a minha impressão seria que o Bolsonaro realmente está muito mal de saúde, que esses parentes dele estão jogando ele para um lado, para o outro, explorando uma fraqueza dele. Eu também acho.
Ana Clara Costa: Eu acho isso muito implausível.
Celso Rocha de Barros: Eu também acho.
Ana Clara Costa: De qualquer forma, você precisaria construir uma solução para São Paulo, dentro do prazo…
Celso Rocha de Barros: Exato. Não dá tempo fazer um negócio desse, né?
Ana Clara Costa: E o Flávio, pelas últimas pesquisas, é um nome consolidado. Então assim…
Celso Rocha de Barros: Exato. Então, enfim, eu acho que o saldo dessa ida dele para casa atualmente é: mostra que o Supremo está fraco e não só naquilo que tem que estar fraco mesmo, quer dizer, nas denúncias de corrupção, etc. Mas ele ficou mais fraco para combater o golpismo. Ele perdeu a legitimidade para combater o golpismo. E que o Jair agora consolida seu papel ali de poderoso chefão, que vai ficar em casa recebendo recado, mandando recado para decidir as estratégias da direita na eleição.
Fernando de Barros e Silva: Ana, deixa eu te pôr na conversa. Há muito mais coisas do que a ida de Jair para casa.
Ana Clara Costa: Olha, Fernando, antes de entrar no campo da defesa do Zettel e do Vorcaro e do Mansur e do Beto Louco que está se formando um blocão de defesas que querem fazer delação. Já que estamos falando de defesa, eu tava lendo aqui a ação que o Daniel Vorcaro moveu contra aquele investidor Vladimir Timerman, que, enfim, acabou expondo todo o esquema do Master e tal, fez reclamações para o Banco Central, para CVM e tal.
Fernando de Barros e Silva: Sujeito que foi de fato prejudicado.
Ana Clara Costa: O que acontece? Esse cara atazanou muito essa turma do Tanure, Daniel Vorcaro, durante muitos anos, e, em 2024, precisamente no mês de outubro, o escritório da senhora Viviane Barci de Moraes entra com uma ação, na verdade, uma queixa-crime contra o Vladimir Timerman, porque, justamente, ele estaria difamando os ilibados clientes dela na imprensa e nos órgãos reguladores. Como o contrato dela com o Master começou no começo de 2024, imagino que deva ter sido uma das primeiras ações que ela talvez tenha advogado em favor deles, do Daniel Vorcaro e do Banco Master. Mas prestem atenção nessa data, outubro de 24, foi justamente o mês que saiu a reportagem da Piauí sobre o Master, já contando todo o esquema. E era um momento em que o mercado todo desconfiava do Master, embora a XP e o BTG continuassem vendendo CDBs nessa época ainda. Mas já havia alertas no Banco Central, já havia várias reclamações na CVM. Todo mundo sabia que alguma coisa estava errada ali, mas a Viviane, na queixa-crime, ela escreve que o cliente dela é “um respeitado empresário financeiro de demasiado sucesso, sempre celebrando negócios lícitos e nunca tendo sofrido qualquer condenação criminal”. Isso ela se refere ao Daniel Vorcaro. Sobre o Master, ela diz: “é uma empresa com mais de quatro décadas de ilibada atuação, fundada em 74, com soluções inovadoras, comprometimento em resultados, transparência e melhoria contínua. Pilares chaves que desde 2019, com a mudança de controle acionário, tornou se um novo banco digital, ágil e moderno”. Neste momento, o Banco Master já tinha sido alvo da Operação Fundo Fake do Ministério Público, que investigava o uso das RPPS para um monte de sacanagem que eles já faziam, né?
Celso Rocha de Barros: Ai, ai.
Fernando de Barros e Silva: Incrível essas palavras, Ana Clara. Agora, que história é essa que o Banco Master está na praça desde 1974?
Celso Rocha de Barros: Eles devem estar contando como…
Ana Clara Costa: Como Banco Massima.
Celso Rocha de Barros: É.
Ana Clara Costa: Que era o banco anterior que ele comprou.
Fernando de Barros e Silva: Não tem nada a ver com o Vorcaro.
Celso Rocha de Barros: Não tem nada a ver.
Fernando de Barros e Silva: A fraudulência começa por aí, nesse argumento aí.
Ana Clara Costa: Bom, enfim, eu queria trazer essa ação aqui só para ilustrar que a gente vem falando, né? Bom, fechando esse capítulo, eu queria entrar no capítulo das defesas dos nossos personagens aqui, o Fabiano…
Fernando de Barros e Silva: E o mesmo capítulo. Estamos, continuamos na defesa.
Ana Clara Costa: É que agora é a defesa do cidadão que não tem reputação ilibada, que não é um empresário de sucesso mais, entendeu? Agora virou um pouco a chave do personagem aí. Menos de dois anos depois, um ano e meio depois, né?
Fernando de Barros e Silva: Vamos falar de Mr. Reid.
Ana Clara Costa: Boa, Fernando. Leiam o artigo do Fernando.
Celso Rocha de Barros: Exatamente.
Ana Clara Costa: Na edição de março da revista piauí. Bom, o que aconteceu nessa semana foi mais um movimento em direção a essa construção de uma delação conjunta que foi a ida do Fabiano Zettel, ou melhor, a contratação do Celso Vilardi pelo Fabiano Zettel, porque ele também quer delatar, o Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, casado com a irmã dele Nathália, e que também foi preso na mesma operação que levou Daniel. E eu acho que o quadro que a gente pintou aqui na semana passada de o Vilardi, junto com o Juca, que é o novo advogado do Vorcaro, e que defende também o Mansur, que é o dono da Reag, o Vilardi defende o Beto Louco, que é o empresário que, segundo o inquérito da polícia, teria relações com o PCC e usava fundos do Master na Reag para os seus negócios. Todo esse bloco Master está sendo assessorado agora por um bloco de advogados, a OAB não proíbe que isso aconteça, porque ela deixa muito aberto para os advogados escolherem se eles acham que a conduta dele está sendo ética ou não. Então, assim, dificilmente a OAB vai, de ofício, impedir algum advogado, sobretudo essas estrelas do direito penal, de advogar para alguém, né? Isso não vai acontecer. E a lei da delação não é muito clara sobre isso também, porque também é uma lei nova da delação. É um instrumento novo no direito para a gente. Então, não existe um amparo legal. Mas a questão é: você ter um bloco de delação que pode ser coordenado de forma a beneficiar os clientes desse bloco de advogados e não a Justiça, no sentido de entregar para a Justiça tudo o que houver que seja de interesse da justiça. Então, você ter uma delação coordenada de forma a criar uma solução que seja mais vantajosa para os delatores é uma coisa inédita, digamos, porque, por exemplo, na delação da Odebrecht, em que você teve lá os 70 executivos da Odebrecht delatando durante a Lava Jato, em muitos casos os advogados se repetiam, mas não era a mesma coisa. Primeiro, porque a PGR tinha uma função naquela delação de liderança do caso. Ou seja, a PGR estava coordenando as delações, havia reuniões diárias da PGR, dos procuradores com os advogados e tal. Era algo que estava sendo construído junto com a PGR. Ou seja, a PGR era o órgão principal. Da forma como as coisas estão sendo conduzidas agora, me parece que quem está definindo os termos são os advogados. E aí, eu quero falar um pouco do papel da imprensa. Quando a imprensa publica um off ou um on de alguém da defesa de um deles falando: “ah, ele quer delatar tudo, mas quer poupar ministros do Supremo”, a imprensa está servindo de instrumento para a estratégia de defesa, porque daí foi isso que aconteceu. Foi publicado em todo lugar na imprensa, “ah, ele quer delatar, mas não vai falar de ministro do Supremo”. Aí, surge uma outra notícia, em outro veículo, falando: “ah, André Mendonça, diz nos bastidores que só aceitará uma delação completa”. Ou seja, está o André Mendonça respondendo a notícia que foi veiculada, de que ele não vai delatar ministros do Supremo. Então, assim, não existe a PGR, acima de tudo, dizendo “eu quero isso, eu quero aquilo. Eu vi nas mensagens que tem isso, isso e aquilo aquilo me interessa, aquilo não me interessa”. A PGR está como coadjuvante nesse caso. E quando a gente vê que o ministro André Mendonça tem funcionários da Polícia Federal dentro do gabinete dele, que estão atuando diretamente com os delegados da Polícia Federal que estão nos seus postos coordenando as investigações…
Fernando de Barros e Silva: Ele, que foi ministro da Justiça do Bolsonaro, é sempre bom lembrar.
Ana Clara Costa: Exato. A impressão que a gente tem é que quem na verdade está coordenando isso é o André Mendonça. E aí eu acho que o Celso, quando ele disse alguns programas atrás que ele elogiou a condução da…
Celso Rocha de Barros: Ah! Eu já me arrependi completamente. Quando eu tava falando, eu já tava vindo um arrependimento. Quando eu tava falando, já tinha acendendo uns alarmes assim na cabeça. Pen, pen, pen.
Fernando de Barros e Silva: Fazia sentido naquele momento. Primeiro, o Celso criticou, falou: “A gente não teve nem tempo de ficar feliz, porque já foi sorteado o André Mendonça”. Mas depois a gente falou e eu endossei o que ele falou, de fato. Mas a gente já fez aquele aquela ressalva que aqui a gente…
Celso Rocha de Barros: De vez em quando, precisa se iludir com alguma coisa, né?
Fernando de Barros e Silva: Exato, exato.
Celso Rocha de Barros: Mas não durou. Não durou 15 dias.
Fernando de Barros e Silva: Senão não se vive, né, Celso?
Celso Rocha de Barros: Exato.
Fernando de Barros e Silva: Não se vive nem na Suécia sem ilusão. Imagina no Brasil.
Ana Clara Costa: O que está se desenhando é uma coordenação de um grupo muito claro. Até agora, por exemplo, eu não li em nenhum lugar, nenhum tipo de informação sobre qualquer pessoa relacionada ao grupo Bolsonaro que eles tenham a intenção de delatar, sendo que o Master floresceu também no governo Bolsonaro, não se sabe de qualquer tentativa de delatar Roberto Campos Neto. Ou seja, pode ser prematuro dizer isso, mas a forma como as peças estão se movimentando na defesa elas dão a entender que existe uma intenção de você priorizar entes do governo nessa delação.
Fernando de Barros e Silva: Priorizar figuras do atual governo e poupar figuras do governo Bolsonaro, a exemplo do ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que foi presidente durante o primeiro período do governo Lula.
Ana Clara Costa: Eu não estou dizendo que eles não falem de Rueda, de Ciro Nogueira, mas a verdade é que Rueda, primeiro, não tem mandato. Então, para ele é tudo mais simples. Ciro Nogueira é tanta coisa que é mais um…
Celso Rocha de Barros: E é facilmente substituível dentro do esquema geral das coisas.
Ana Clara Costa: Agora, se você tem um foco ali em figuras ligadas à Casa Civil, por exemplo, como é o caso do Rui Costa. O uso disso na campanha é muito mais pesado do que você usar o Ciro Nogueira. Ah, mas o Ciro Nogueira tá junto com o Flávio na campanha e foi ministro do Bolsonaro. É mais pesado o Rui Costa, entendeu? As movimentações das defesas indicam uma intenção maior em relação ao governo do que a gestão anterior. Até agora não se viu nada que possa ser ligado à gestão anterior. E, diante dessas falas de bastidor do André Mendonça, de que quer uma delação completa, isso foi lido também como uma delação completa, que contemple Alexandre de Moraes e Toffoli. E eu acho que aí isso está conectado diretamente com a decisão do Alexandre de Moraes de dar domiciliar para o Jair Bolsonaro. Mas também tem uma questão que me chamou a atenção, relacionada ao Toffoli, que está cada vez mais enrolado nessa história. Esses pagamentos da J&F, que foram revelados pelo Estadão, para a empresa do resort Tayayá de 25,9 milhões, se não me engano, colocam o Toffoli ainda mais dentro da história. E aí, teve um movimento que eu achei curioso, né? Um dos advogados de defesa do Vorcaro, que era o Roberto Podval, ele é considerado, assim, a pessoa mais próxima do Toffoli hoje. E, justamente, na semana em que há essa comoção da direita pela domiciliar, o Podval assinou um artigo pedindo a domiciliar para o Bolsonaro. Tem muita gente que leu isso como uma sinalização do próprio Toffoli para o grupo do Bolsonaro, que é o grupo que, digamos, se beneficiaria de uma delação direcionada do Daniel Vorcaro. Quando a gente fala parece que não tem saída, né? E, na verdade, poderia ter saída, porque a PGR, se ela tivesse cumprindo o papel dela de autoridade máxima e coordenando a delação e dizendo as diretrizes que devem ser cumpridas, e não as defesas dessas pessoas darem o tom pela imprensa. Se fosse da forma certa, a PGR poderia pedir para uma nova composição de advogados. Se ela julgar que há situação de conflito. E, até agora, não se sabe se a PGR vê conflito nisso, até para tentar estancar questionamentos… Eu achei curioso isso, que as defesas estão jogando essa tese de que vai ser uma delação conjunta acompanhada por PF e PGR, como se isso fosse um hedge, uma garantia. “Olha como é super republicana essa delação”, entendeu? Tem a PGR e a PF, a PF não precisaria estar nessa delação. O órgão que, necessariamente, tem que estar é a PGR. Na verdade, depois houve um entendimento do Supremo que a PF pode fechar uma delação sozinha. Tanto que a delação do Mauro Cid foi uma delação com a PF. Mas assim, falando em hierarquia, o órgão investigador e que tem o poder de acusar alguém de fato, de denunciar alguém de fato, melhor dizendo, é a Procuradoria. A impressão que a gente tem nesse caso, é que as defesas estão coordenando tudo, que a Polícia Federal tem uma influência grande do André Mendonça, seja pelos seus assessores policiais federais, seja pelo precedente que o Alexandre de Moraes construiu, aproximando a PF do Supremo no caso do golpe e que, enfim, naquele momento fazia sentido. E agora, a gente vê que talvez não tivesse sido tão bom…
Fernando de Barros e Silva: Alexandre de Moraes, que é próximo do diretor geral da PF, lembrando que o André Mendonça, na decisão dele, uma das primeiras decisões dele, foi justamente impedir que superiores hierárquicos na PF tivessem conhecimento do que estava sendo investigado pelos delegados encarregados diretamente do caso.
Ana Clara Costa: Exato. Mas para você ver, quando uma instituição se transforma para viabilizar um caso e que a gente via como primordial, que era a defesa da democracia. Depois, a mesma transformação pode ser usada para o movimento contrário.
Celso Rocha de Barros: Eu acho que eu acho que esse tipo de sacanagem é mais antigo. Não sei. E, por exemplo, nesse caso, assim, você não pode informar seu superior… Imagina se o Banco Master fosse assim? Imagina se o analista do Banco Central não pudesse informar a diretoria do Banco Central? “Pegamos aqui uma fraude”. É esquisito isso, mas enfim…
Fernando de Barros e Silva: É esquisito. Bom, a gente encerra, então, o primeiro bloco do programa por aqui. Vamos fazer um rápido intervalo. Na volta, vamos falar de sucessão, de PSD, de Lula, de Ratinho, de Flávio Bolsonaro. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem, estamos de volta. Ana Clara, vou começar com você. Vamos começar pela desistência aos 45 do segundo tempo do Ratinho Junior. Era o candidato indicado pelo PSD para concorrer à Presidência da República. Já havia definido, já tinha, inclusive, pronunciamento marcado para terça-feira agora e entrevista coletiva agendada, ia ser comunicada à imprensa que ia ser na quarta-feira e ele na segunda-feira. Puff! “Não sou mais. Vou ficar aqui no Paraná”. Tem muita coisa para ser esclarecida a respeito dessa decisão. Aparentemente, o candidato que irá sucedê-lo, aparentemente não, provavelmente, vai ser o Ronaldo Caiado. O martelo ainda não está batido porque Eduardo Leite também está se colocando, embora a chance dele seja muito diminuta neste momento.
Ana Clara Costa: Bom, esses movimentos últimos têm sido meio definitivos, dado o pouco tempo que se tem até a desincompatibilização. Mas quem encontrasse conversasse com o Ratinho até sábado passado tinha certeza de que ele sairia candidato, porque ele estava convicto, embora sem confiar muito no Kassab ou na predisposição do Kassab em investir de fato na candidatura dele. Por que o que pode acontecer num caso como esse, quando uma candidatura, ela é uma, digamos, uma fonte de negociação futura? Pode ser que, enfim, a campanha comece e eles regulem o dinheiro. Não invistam o tanto que deveriam investir na campanha. Então, tinha um pouco essa dúvida em relação ao Kassab. Até que ponto ele iria fundo nessa campanha se, enfim, ela fosse acontecer. Mas, apesar dessa desconfiança, o Ratinho estava convicto de que queria sair. Tanto que, duas semanas antes, mais ou menos, o senador Rogério Marinho, do PL, super aliado do Flávio, foi para Curitiba e ofereceu para o Ratinho a vaga de vice do Flávio e mais o ministério que ele quisesse. E, ainda, deu um aceno para o Ratinho com a possibilidade de sucessão ao Flávio, porque ele disse que o Flávio era contra a reeleição e que…
Celso Rocha de Barros: Quem é que ainda acredita nessas coisas?
Ana Clara Costa: Seria um mandato. Exato. Eles sempre são contra. E até para chancelar essa estratégia, que claramente é uma estratégia para atrair aliados para essa coalizão da direita ou da extrema direita, como se queira chamar. O Flávio até protocolou uma PEC no começo de março pedindo o fim da reeleição, para ele poder negociar. Ou seja, ele estava negociando o segundo mandato, já agora, na campanha.
Fernando de Barros e Silva: Essa mentira de um mandato só quando pode ter reeleição é uma mentira de criança, né? Assim…
Celso Rocha de Barros: Não, quem foi enganado por isso merece ser enganado, entendeu? Pelo amor de Deus, você tem mais de 18 anos, entendeu? Sua mãe não troca mais sua fralda, Você já não pode mais cair…
Fernando de Barros e Silva: Ana, você falou dessa conversa do Marinho com o Ratinho. Eu tenho também uma apuração de uma conversa mais antiga do Lula com o Ratinho Pai, o Ratão, meses atrás. Eles têm um relacionamento pessoal de anos, de muitos anos. Conversa na qual o Lula sugeriu que o Ratinho Júnior poderia ser o seu vice. É óbvio que não dá para comprar essa oferta ou essa sugestão pelo valor de face, porque o Lula deve ter feito isso, aí não tem informação, estou supondo. O Lula deve ter feito isso com meia dúzia de pessoas. “Olha aqui, se você for meu vice, a gente fecha tudo e tá tudo resolvido nessa eleição”. E o Lula é um sedutor profissional, sabe fazer política melhor do que nós três juntos.
Ana Clara Costa: Pois é, muito assediado Ratinho nesses últimos tempos, né? Ratinho Júnior. O que eu acho curioso é que para o Flávio estar negociando a sucessão para tentar fechar uma aliança agora, é porque a situação para o lado dele não estava muito boa e o Ratinho não topou, né? Agradeceu, mas disse que ia ser candidato de qualquer forma. E, diante dessa não negociação com Ratinho, o PL decidiu apoiar o Moro no Paraná, que era o que ele já queriam, né? Mas condicionavam o não apoio ao Moro, a entrada do Ratinho na chapa do Flávio que não aconteceu. E assim as coisas estavam até domingo, e domingo no jantar com a família, decidiu-se que ele não iria mais. O que aconteceu nesse jantar pessoal? Eu não sei. A história contará um dia. Deve ter sido alguma coisa importante, porque até o Gilberto Kassab, que é essa figura que dificilmente é pega de surpresa por qualquer coisa, foi pego de surpresa. Ele foi avisado no domingo à noite e ficou totalmente sem chão. Tanto que ele está sem chão até agora, porque ele não esperava por essa. Então, ele está tendo que arbitrar ali o Caiado com o Eduardo Leite e tal. Enfim, a versão oficial de que ele vai focar na sucessão do grupo político dele no estado, que realmente está em baixa. O Moro está melhor em todas as pesquisas e, sobretudo, no interior do Paraná. Mas assim, é muito difícil essa versão colar, né? Acho que ela é plausível, mas ela é um cenário que está construído já faz meses. Já faz algum tempo que não há candidato para a sucessão do grupo político dele no Paraná. Já faz algum tempo que o Moro está na frente nas pesquisas… Então, assim, se fosse essa razão real, nada tinha sido decidido de forma tão brusca, né?
Fernando de Barros e Silva: É, exato.
Ana Clara Costa: Há essa hipótese, assim, de ele estar preocupado com o caso Master, porque, de fato, o grupo Massa, no caso, entrou no negócio do Tayayá, chegou a fazer um aporte financeiro, mas depois desistiu do negócio. Acabou não entrando na segunda unidade do Tayayá no Paraná.
Fernando de Barros e Silva: E um Tayayá do B ali, né?
Celso Rocha de Barros: É o Tayabê.
Fernando de Barros e Silva: Tayabê! Exato.
Ana Clara Costa: Enfim, e outras negociações feitas ali com o Master, né? Que isso preocuparia o grupo Massa, família Massa, mas que também é uma coisa que não foi descoberta ontem, né? Se há algum conflito em relação ao Master, é uma coisa que eles já sabem faz tempo. Então, para ele ter decidido do dia para a noite, a impressão que a gente tem é que foi algo muito brusco. Eu, infelizmente, não tenho a resposta para o nosso ouvinte. Vocês apurem por aí e contem pra gente caso vocês descubram.
Fernando de Barros e Silva: Celso, vamos lá.
Celso Rocha de Barros: O fim da candidatura do Ratinho Jr, agente ainda não sabe o que vai acontecer. A gente não sabe se vai ser Caiado, se vai ser Eduardo Leite, se vai ser sei lá quem. Mas por enquanto, fracassou a tentativa do Kassab de mudar de divisão na política brasileira. Os partidos brasileiros tiveram uma divisão funcional ao longo da história da Nova República, dos partidos que disputavam a Presidência da República, que era PT, PSDB. Depois chegou o bolsonarismo, que não é bem organizado como partido, mas enfim, é um movimento bastante estruturado. E aqueles partidos que se especializam em eleger deputados e vender apoio para quem ganhar. O Kassab é o melhor operador da geração dele, dessa divisão dos partidos que vendem apoio para quem ganhar. E ele se empolgou aí com essa confusão que se estabeleceu na direita depois do golpe do Bolsonaro e pensou “bom, pode ser que agora eu consiga mudar para a divisão dos partidos que elegem presidente”. E a saída do Ratinho da parada é uma derrota gigante, né? E ele já tinha sofrido a derrota principal, que é a não entrada do Tarcísio na corrida. Então, até agora, a gente continua sem um exemplo de um partido que começou vendendo apoio para quem ganhar e conseguiu subir de divisão para partido de projeto nacional, para partido que comanda um pedação grande do eleitorado em majoritário.
Fernando de Barros e Silva: Perfeito.
Celso Rocha de Barros: O pessoal todo que eu conhecia do Paraná para conversar sobre a história do Ratinho, como disse a Ana, tá todo mundo ainda meio tateando para descobrir do que se trata. Foi bastante surpreendente para todo mundo. O que de fato parece ter influenciado, embora dificilmente tenha sido decisivo, é essa questão da sucessão no Paraná. O Ratinho estava tentando fazer uma coisa meio difícil, que era ter o apoio do PL no estado, mas não apoiar o Flávio nacionalmente, ao menos no primeiro turno. O PL não topou e articulou a candidatura do Moro. A candidatura que eu chamei na coluna de Valdemoro Costa Neto. O Moro estava bem isolado. Ele tinha apoio só de um ou dois deputados estaduais e, nessa jogada, pareceu ter ganho uma base de apoio grande para concorrer na eleição. Sempre é bom lembrar que na chapa do Moro, que renunciou ao Ministério da Justiça porque o Bolsonaro ia usar a Polícia Federal para salvar o Flávio de ser preso no negócio da rachadinha, o Flávio Bolsonaro, que era quem ia ser preso no negócio da rachadinha e escreveu um artigo na Folha dizendo que o Moro que tinha soltado o Lula e o Felipe Barros, aquele nosso amigão, que defendeu o artigo 142 no no Congresso em 30 de novembro de 2022 e tentou também, como Ciro Nogueira, mudar o teto do FGC para salvar o banco Master. Uma chapa realmente sensacional, que o Ratinho ao longo da semana já está conseguindo minar. A notícia que se tem aqui no momento que a gente está gravando: mais de 40 prefeitos do PL do Paraná devem sair do partido. Era um pessoal de direita que estava no PL porque o PL era partido de direita, mas que já estava fechado com Ratinho. De repente, o Moro entra no PL e fecha essa história toda com o Flávio por cima da cabeça deles. E eles falam: “Não, aqui não.” E vão sair, vão seguir o Ratinho para onde ele for. O ratinho, basicamente, tomou uma rasteira do Moro, né? Agora, como disse o Rogério Galindo, do Plural Jornal que é uma iniciativa Jornalismo Independente bacana, lá de Curitiba: “se você perde a capacidade de articulação para o Sérgio Moro, você vai empatar com quem?”. O Moro é notório por ser um péssimo articulador. Se você toma uma rasteira do Moro assim, a sua situação tá difícil. E agora, o Ratinho está tentando recuperar sua reputação aqui para não passar pelo vexame de tomar uma rasteira do Moro. O quadro no Paraná é muito complicado. O Ratinho queria lançar para candidato o Guto Silva, do PSD, que é o secretário de Cidades dele, mas ele vai mal nas pesquisas. E, enquanto ele tava tentando articular o Guto Silva, outros candidatos mais fortes que estão no PSD, como o ex-prefeito Rafael Greca, saiu e foi o PMDB ser candidato. E agora, no desespero, o Ratinho está tentando convencer o Eduardo Pimentel, prefeito de Curitiba, a se desincompatibilizar e sair candidato na última hora, o que é bem difícil de conseguir uma mudança de planos para o cara a essa altura. Mas enfim, a direita do Paraná está em caos completo. Ao mesmo tempo que a chapa do Moro pode ter derrubado a candidatura presidencial do Ratinho Júnior, o Ratinho Júnior pode estar derrubando a candidatura do Moro, roubando os prefeitos que fariam campanha para ele no interior. E o Game of Thrones está declarado.
Fernando de Barros e Silva: O Moro, de qualquer forma, é forte como candidato ao governo do Paraná.
Celso Rocha de Barros: Claro, sem dúvida, sem dúvida.
Ana Clara Costa: Agora, só para completar essa atitude do Ratinho, quando ele avisa o Kassab que ele desistiu, ele liga para o Valdemar Costa Neto falando o seguinte: que se ele desistisse de se candidatar — ele já tinha desistido, tá — mas lançou essa pro Valdemar… Se caso ele desistisse de se candidatar, eles retirariam o apoio ao Moro? E aí o Valdemar falou que não, que eles fizeram uma conferência lá com Flávio, Rogério Marinho e falaram: “não, você pode desistir que a gente vai apoiar o Moro mesmo assim”. A apuração da Thaís Oyama no canal Meio.
Fernando de Barros e Silva: O Kassab realmente sofre um revés porque o Ratinho era cria dele, né? Projeto dele. E o Ratinho, numa perspectiva realista, falando com o pessoal lá de dentro da campanha, o Kassab falava que ele podia ganhar, etc. Mas, realisticamente, ele tinha um terceiro lugar com dois dígitos. Ocupar o lugar que já foi do Ciro Gomes, que já foi…
Celso Rocha de Barros: Marina Silva.
Fernando de Barros e Silva: Marina Silva. Exato. O Ratinho tinha potencial, realmente. Sobrenome do pai, as características… Era mais fácil vender um discurso moderado, com alguma diferença em relação ao bolsonarismo, mais diferença em relação ao PT, já estava com 7%. Segundo algumas pesquisas, passar de dez não era nada improvável. Colocaria o PSD para 2030 numa posição melhor, com mais de dois dígitos, para negociar em condições bem favoráveis à situação do partido. O mais provável é que o Kassab, como faz sempre, libere as bancadas estaduais para fazer o que querem. Mas o Ratinho tenderia, pelas características dele, a apoiar o Flávio Bolsonaro se o segundo turno realmente for Flávio e Lula, né?
Celso Rocha de Barros: Sem dúvida.
Ana Clara Costa: E, sobretudo no estado em que ele está.
Fernando de Barros e Silva: A desistência do Ratinho, nesse aspecto, favorece o Lula, se o candidato for de fato o Caiado, que não é o candidato dos sonhos do Kassab, muito longe disso. O Caiado acabou de entrar no PSD. O prêmio de consolação do Caiado já estava definido. Ele ia cuidar da parte de segurança pública de um eventual governo Ratinho. O carro-chefe da campanha do Caiado, se ele for de fato candidato, vai ser segurança pública.
Celso Rocha de Barros: Não dá para Kassab contar com ele, né?
Fernando de Barros e Silva: O cara está longe de ser a pessoa dos sonhos do Kassab. O Eduardo Leite, pensando no futuro do PSD, seria mais interessante. Agora, é muito difícil você demoveu Caiado, porque ele quer muito, porque ele está no final da vida política dele, tem praticamente 80 anos, é um candidato que não tem nada a perder. Mudou para o PSD justamente para poder disputar. É o único que está falando que é candidato a presidente desde a eleição passada. Enquanto todos os outros tergiversaram, ficaram mapeando terreno, enfim, como acontece. Agora, o PSD, Celso, acho que adiou esse, essa mudança de visão, como você disse, é um partido ainda forte. Tem o Eduardo Paes para 2030, tem a Raquel Lyra, que a gente não sabe o que pode acontecer que é governadora de Pernambuco. O Kassab foi arregimentando, né? PSD está cheio de quadros que podem vir a ser quadros nacionais.
Celso Rocha de Barros: Aí tem uma curiosidade que a gente tem que lembrar da política da Nova República. A maioria dos presidentes eleitos não foi de gente que veio crescendo pela política local e virou presidente. Não teve nenhum… O único ex-governador que virou presente na Nova República, foi Collor e deu merda. Então, assim, num certo sentido, a gente vem elegendo presidente que tem pelo menos um pezinho do lado de fora da política.
Ana Clara Costa: Quer dizer, você sabe que o Antônio Carlos Magalhães disse para um amigo meu que houve o Foro, que presidência é destino.
Celso Rocha de Barros: É, pois é…
Ana Clara Costa: Não é construção política.
Celso Rocha de Barros: Não, exato, que se pensar o FHC, cara, o FHC tinha perdido tudo que era eleição, só tinha ganho uma, que se você fosse do MDB você ganhava de qualquer jeito, que era a eleição do Plano Cruzado, foi o único cargo que ele ganhou foi senador antes de ser presidente. O Lula foi deputado constituinte, não gostou de ser deputado, foi deputado constituinte só para aumentar a bancada do PT mesmo. Nunca mais concorreu a nada até virar presidente. A Dilma nunca tinha disputado nem para síndico.
Fernando de Barros e Silva: O Lula concorreu ao governo do estado em 82, na primeira vez. Depois foi a presidência.
Celso Rocha de Barros: E o Bolsonaro era um daqueles cara baixíssimo clero, né cara? Não é nem peixe pequeno, já é plâncton. Sabe aquele negócio de ficar boiando? Então, assim, se algum desses caras conseguisse se eleger construindo uma carreira da política local para nacional, vai ser, no fundo, uma certa novidade nas últimas décadas. Não quero profetizar. Tudo pode acontecer, mas o passado não é bom para o Tarcísio. Todo cara que eu já vi deixar passar a vez para tentar a próxima.
Ana Clara Costa: Não consegue.
Celso Rocha de Barros: Se ferrou. Na outra, o contexto é completamente diferente, enfim…
Fernando de Barros e Silva: É, essa ideia de que deixa para daqui a quatro anos, os quatro anos… Tudo mudou.
Celso Rocha de Barros: Lembra do Aécio, entendeu? Não quis em 89, teria a chance. 94 já tava, já tinha escândalo de corrupção, já estava completamente desmoralizado. Teve Plano Real, não sei o quê. Tem um desempenho ridículo.
Fernando de Barros e Silva: Exatamente.
Ana Clara Costa: É destino. Bom, falando um pouco do Flávio, vocês avaliaram que é positivo para o Lula, caso Caiado seja o candidato aliado do PSD. Mas é também, sobretudo, positivo para o Flávio também porque uma coisa que a gente não falava muito aqui, as pesquisas iam aparecendo, com o Flávio crescendo e tudo mais e a gente avaliando esse crescimento dele e tudo mais… Mas o fato é que dentro da campanha, eles estavam extremamente inseguros com a candidatura do Ratinho, porque eles viam o Ratinho alcançando dois dígitos e pegando um espectro eleitoral maior do que o que o Flávio conseguiria, porque ele resvalava para o centro. E além de tudo, eles viam aquele Renan Santos, do MBL, que agora é desse partido Missão chegando a quatro pontos nos trekkings. Não que eles considerassem, obviamente, o Renan Santos concorrente, não é isso, mas a conta que eles faziam era assim: o bolsonarista raiz, o cara fechado com Bolsonaro, eles colocavam em cerca de 15% do eleitorado. Se o Ratinho pegasse outros 15% e o Renan Santos ficasse com os 4% de jovens de direita que quem vai votar nele é o jovem de direta.
Celso Rocha de Barros: Entre os jovens, ele tem uma votação significativa.
Ana Clara Costa: São quatro pontos que está tirando o Flávio, não do Lula, entendeu? Então, eles estavam extremamente preocupados com ir para o segundo turno. Enquanto as pesquisas mostravam ali o Flávio crescendo e se aproximando do Lula no segundo turno. Dentro da campanha dele, eles não tinham autoconfiança nem para dizer que eles estavam indo para o segundo turno. Essa era a realidade ali dentro. Como Caiado pega, caso seja ele de fato, um espectro menor dessa centro direita, porque ele é muito caracterizado como de direita, falou que daria anistia para o Bolsonaro. Enfim, faz a defesa do Bolsonaro, disse que não teve golpe e tudo mais. Ele poderia ter um espectro eleitoral menor que o do Flávio, deixando o Flávio mais tranquilo para ir para o segundo turno.
Fernando de Barros e Silva: Exatamente isso.
Ana Clara Costa: É também uma boa notícia para o Flávio , o Caiado. Vocês avaliaram que é para o Lula, mas talvez seja melhor para o Flávio nesse aspecto.
Fernando de Barros e Silva: Para os dois.
Celso Rocha de Barros: Cada um ganha de um lado.
Fernando de Barros e Silva: Bom, a gente encerra então o segundo bloco do programa por aqui, fazemos um rápido intervalo. Na volta, nós vamos falar do governador Cláudio Castro. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem, estamos de volta. Celso, a bola está com você. Cláudio Castro, cassado, inelegível por quatro anos pelo TSE, tentou fugir pela porta dos fundos, renunciou na véspera, não conseguiu obter êxito. O que a gente tá achando? Eu tô com medo que o próximo governador do Rio seja sorteado e que você vire governador do Rio, Celso, imagina isso?
Celso Rocha de Barros: Bom, vamos embora, vamos embora.
Fernando de Barros e Silva: A gente está quase nessa situação que vai ser, vai ser escolhido por sorteio…
Celso Rocha de Barros: Não, vai ser a força, né? Vamos pegar um cara e obrigar ele. Você não pagou IPTU, você vai ter que governar o Rio. Bom, então, Fernando, o negócio é o seguinte: o Cláudio Castro é ladrão. Além de ser o principal doador de dinheiro de aposentado para o Banco Master, de 1 bilhão. E eu digo doador, porque o dinheiro que você investia no Master era para perder, né? Você basicamente deu esse dinheiro para o Vorcaro.
Fernando de Barros e Silva: Você não sabia, mas era.
Celso Rocha de Barros: Ah, sabia!
Ana Clara Costa: Alguém ganhou uma corretagem…
Celso Rocha de Barros: Exato.
Ana Clara Costa: Claro.
Celso Rocha de Barros: O aposentado nunca soube nem que o dinheiro dele tava lá, né?
Fernando de Barros e Silva: Exato. Isso que eu quero falar.
Ana Clara Costa: Quem fez a operação, obviamente ganhou.
Celso Rocha de Barros: É claro.
Ana Clara Costa: O caso da Rio Previdência é o caso do dinheiro pela janela, né? Lembra?
Celso Rocha de Barros: Exato. Exatamente, que aí pegaram um cara e o cara jogou dinheiro pela janela. Quem deu sorte de tá passando ali embaixo, pode ter ganho um cacau.
Fernando de Barros e Silva: Mas isso não foi em Balneário? Foi um cara do Rio que tava em Balneário?
Ana Clara Costa: Era o cara da Rio Previdência.
Celso Rocha de Barros: Era o cara da Rio Previdência. Exato.
Fernando de Barros e Silva: Tudo faz sistema, Celso, tá vendo?
Celso Rocha de Barros: Olha só, viu? Mas o que pegou para o lado dele dessa ve, é que o Cláudio Castro montou um esquema na última eleição para governador, que vale dizer, ele ganhou em primeiro turno, que olha como está a situação do Rio de Janeiro. Ele montou um esquema em uma fundação ligada a UERJ, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que levou a contratação de um número absurdo de funcionários fantasmas. Para vocês terem uma ideia, a estimativa é algo em torno de 18 mil funcionários fantasmas. O governo encheu de dinheiro essa fundação da UERJ e o pessoal lá ganhava sem trabalhar. E aí, vocês vão vendo que coisa sensacional, entre um desses caras que era acusado de ganhar sem trabalhar, estava um sujeito chamado Daniel Martins, que, em março, o Cláudio Castro nomeou para secretário. Para que ele nomeou o cara que ganhava sem trabalhar? Para secretário do Trabalho, é claro, né? E tá lá o Daniel Martins, secretário do Trabalho. A história foi descoberta pelo trabalho heróico dos jornalistas Ruben Berta e Igor Mello, do UOL. Ruben Berta tem uma longa história de denunciar a mutreta no Rio de Janeiro. E aqui, é bom lembrar que esse cara aí que deu o dinheiro dos aposentados para o Banco Master e que agora foi pego inventando 20 mil empregos fantasma, ele pretendia concorrer a senador com a bandeira da lei e da ordem, com a bandeira do combate ao crime, porque ano passado ele invadiu o Complexo do Alemão e matou 100 pessoas. Agora, vocês lembram da barreira do BOPE que tinha no Complexo do Alemão para impedir os caras de fugirem para a floresta? Não tinha barreira do BOPE para impedir o Cláudio Castro de colocar grana de aposentado no Master. Não tinha barreira do BOPE para impedir o Cláudio Castro de montar um esquema com 20 mil picaretas que ganhavam sem trabalhar. Enfim, o Cláudio Castro seguiu em frente e fez. E agora o Cláudio Castro renunciou para tentar escapar da inelegibilidade. Mas não deu certo para o lado dele. Ele foi declarado inelegível do mesmo jeito. Aí você vai dizer: “Bom, mas se ele renunciou, quem vai assumir o vice”, certo? Não. O vice, que foi eleito junto com o Cláudio Castro, era o cidadão com o singelo nome de Thiago Pampulha. Só que aí, nesse último ano, o Castro e o resto do pessoal mais da direita do Rio de Janeiro estavam articulando pesadamente para que o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, fosse o candidato da situação ao governo do Estado, fosse o sucessor do Cláudio Castro. A Ana Clara já está rindo porque ela sabe a história. Mas aí, para facilitar a vida do Bacellar, o que o Cláudio Castro fez? Ele nomeou o vice dele para o Tribunal de Contas. E aí, um rápido parênteses, esse cara que concorria na chapa que inventou 20 mil empregos fantasma para poder ganhar a eleição, agora ele vai cuidar das contas dos próximos governantes. Então, vocês vão vendo que a coisa vai se perpetuando. Sem o Thiago Pampulha de vice, assumiria o Rodrigo Bacellar. Ia ser o plano do Cláudio Castro, porque aí ele concorreria já com a máquina na mão. Mas não deu, porque o Rodrigo Bacellar foi pego ajudando um deputado ligado ao Comando Vermelho a fugir da polícia. O glorioso TH Jóias. Ele foi preso em dezembro passado. O Bacellar foi preso em dezembro do ano passado e agora está em casa com tornozeleira eletrônica. Enquanto ele tem aí esses, esses problemas de trajeto, não sobrou ninguém para assumir o governo do Rio de Janeiro.
Ana Clara Costa: Gente, a gente ri, mas é que é surreal.
Celso Rocha de Barros: Tem que rir de nervoso. Pois é.
Fernando de Barros e Silva: Duvido que o a equipe de roteiristas da Netflix, da HBO, tem essa capacidade de…
Celso Rocha de Barros: O Cláudio Castro só virou governador porque, assim, ele foi eleito como vice do Witzel, naquela época de 2018. Aquela campanha em cima da Lava Jato. Então todo mundo lá com bandeira contra a corrupção.
Ana Clara Costa: E ele era vice, porque ninguém queria ser vice.
Celso Rocha de Barros: Ninguém queria ser vice do Witzel porque parecia que ele não ia ter chance nenhuma.
Ana Clara Costa: Enfim, ele meio que foi.
Celso Rocha de Barros: Ele era cantor da igreja em Copacabana.
Ana Clara Costa: Exato.
Celso Rocha de Barros: E aí ele virou vice do Witzel, que se elegeu com a bandeira da corrupção, mas também era ladrão, então foi impichado por corrupção. E nessa, Cláudio Castro chegou ao governo e todo mundo sabia que o Cláudio Castro também estava enrolado naquele negócio de algum jeito. Mas se o Claudio Castro fosse também preso, haveria uma crise constitucional, porque todo mundo na linha de sucessão tava em cana, entendeu? Naquele momento, no Rio de Janeiro. E o coitado do deputado constituinte só previu, sei lá, a possibilidade de três na linha de sucessão. Ele falou Não, não é possível que vão aprender nove. Eu tenho que dizer quem entra em décimo lugar, não sei o quê, mas é porque ele não conhecia o Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro sempre desafia esse critério constitucional. Na falta de alguém para se pegar essa bomba, entrou o presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, o Ricardo Couto de Castro, de quem eu já tenho muita pena. Coitado desse cara. Enfim.
Fernando de Barros e Silva: Calma, cara.
Celso Rocha de Barros: Pois é, vamos ver. Mas ele só vai ficar no cargo o tempo suficiente para organizar uma eleição indireta na Alerj, Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, tantas alegrias já deu o Brasil. Dali saíram Eduardo Cunha, Flávio Bolsonaro, Picciani.
Ana Clara Costa: Jair Bolsonaro.
Celso Rocha de Barros: Jair Bolsonaro! Só gente do mais alto calibre. Quem era o favorito para ganhar essa eleição na Alerj? Calma que ainda vai ter mais. O favorito para ganhar era um cara chamado Douglas Ruas, do PL, que é o candidato do Castro. O cara queria que ele ganhasse essa eleição.
Ana Clara Costa: E ele era favorito.
Celso Rocha de Barros: Ele era favorito.
Ana Clara Costa: Ou seja, o cara com essa biografia ainda fazia o favorito.
Celso Rocha de Barros: Exatamente.
Ana Clara Costa: Na Alerj.
Celso Rocha de Barros: E o Flávio Bolsonaro deve apoiar o Douglas Ruas para governador do Rio esse ano. E aí, qual era a graça? A mesma coisa que eles planejavam com o Bacellar. Ele vai assumir o governo e fica com a máquina na mão. Facilita a vida dele para ele concorrer na eleição, certo? Só que aí entra em cena Luiz Fux. Luiz Fux foi lá, fez uma decisão que, aliás, é correta no meu ponto de vista. Ele decidiu que assim você não pode se incompatibilizar da máquina pública hoje e amanhã ser candidato ao governo do Estado em situação nenhuma. Tem um prazo de seis meses, por exemplo, o Tarcísio se ele se desincompatibilizar agora, se ele quiser ser candidato a presidente, então nessa eleição indireta também só pode concorrer quem tiver desincompatibilizado de cargo no Executivo nos últimos seis meses. Isso matou o Douglas Ruas, que é secretário do Castro e matou um outro pretendente, que para quem for de fora do Rio de Janeiro vai achar estranho, que era um cara do PT, o André Ceciliano. Ele é dessa facção do PT, bem centrão mesmo, bem tipo o Quaquá, sabe? Aqueles caras ali que fazem acordo com todo mundo…
Ana Clara Costa: Centrão, você tá sendo gentil.
Celso Rocha de Barros: Exato.
Ana Clara Costa: O Quaquá era amigo do, da família…
Celso Rocha de Barros: Exato. Mas eles todos são.
Ana Clara Costa: Da família Brazão.
Celso Rocha de Barros: Enfim, mas o André Ceciliano tem um cargo no governo Lula, então ele também não pode concorrer, porque ele não se incompatibilizou a tempo. De modo que, no momento, ninguém sabe quem vai ser o governador do Rio nesse mandato-tampão. Tá correndo todo mundo de um lado para o outro lá, tentando articular alguma coisa, tentando ver como é que isso vai se relacionar com a disputa para governador. Porque bem ou mal, vai ser alguém que vai ter a máquina nesses seis meses. E, bom, se o Cláudio Castro conseguiu inventar 18 mil empregos fantasma no finalzinho da eleição, esse cara poderia fazer também. Então, vai ser uma negociação complicada aí para ver quem vai ser o governador do Rio. A única certeza é que ele vai ser ruim, porque eu lembro a vocês que, entre as pessoas que vão elegê-lo, entre os deputados estaduais do Rio de Janeiro, estão o Rodrigo Amorim, do PL, que é aquele outro cara que rasgou a placa da Marielle junto com o Daniel Silveira, Rafael Picciani, filho do Jorge Picciani. Samuel Malafaia, irmão do Silas Malafaia, Renan Jordi, irmão de Carlos Jordi, o nosso último Kinder Ovo aqui e é daí para baixo, sinceramente. De modo que, enfim, a Assembleia Legislativa do Rio é muito ruim. E eu aproveito para dizer que eu, em geral, acho as Assembleias Legislativas do Brasil muito ruins, porque elas são muito menos fiscalizadas. A Câmara de Vereadores e o Congresso Nacional, por mecanismos diferentes, são bem mais fiscalizados. A população em geral sabe o nome de algum vereador ou de algum deputado e a maioria das pessoas não sabe o nome de um deputado estadual, ninguém sabe direito quais são as competências dele, aí acaba se elegendo qualquer um, né? Mas enfim, a única certeza é que não vai ser dessa vez que o Rio de Janeiro vai sair dessa draga que ele está.
Fernando de Barros e Silva: Como eu falo às vezes, eu já falei em algum momento que não é mais política de metáforas. De que vai chamar isso? É um desmanche, uma anomia, um negócio inominável. E a gente ri porque, realmente, porque tem um lado engraçado nisso tudo.
Celso Rocha de Barros: Porra! O que é que eu vou fazer? Exato.
Fernando de Barros e Silva: Enfim, Ana Clara, que também pode ser sorteada para governar o Estado do Rio.
Celso Rocha de Barros: Aí sim!
Fernando de Barros e Silva: Aí ia ficar bom. Aí sim.
Ana Clara Costa: Ai, ai. Pois é, né? Depois dessa, dessa linha do tempo que o Celso traçou, é difícil ter o que dizer.
Fernando de Barros e Silva: O Celso fez o verdadeiro PowerPoint do caos.
Celso Rocha de Barros: Isso aí.
Ana Clara Costa: Esse é o PowerPoint.
Celso Rocha de Barros: Quem quiser, precisar de PowerPoint, estamos aí.
Ana Clara Costa: Bom, falando um pouco da situação do Cláudio Castro, que eu acho que ela é um emblema da situação para a eleição presidencial também. Primeiro, ele renunciou antes, porque também a principal questão era: se ele saísse antes, ele conseguiria tentar se candidatar ao Senado subjudice, porque o processo estaria correndo e ele corria o risco de ganhar e depois, enfim, brigar ali no TSE. Só que daí você tem o Nunes Marques — ele já tava contando com isso —, Nunes Marques vai assumir a presidência do TSE no meio do ano, né? E adivinha como o Nunes Marques votou nesse caso?
Celso Rocha de Barros: Ah, moleza!
Ana Clara Costa: Obviamente, não condenou Cláudio Castro, nem Nunes Marques e nem André Mendonça. Ambos fazem parte do TSE colegiado.
Celso Rocha de Barros: Pausa só para reiterar minha autocrítica que fui garoto, fui menino quando elogiei André Mendonça.
Ana Clara Costa: Agora, no caso do André Mendonça. Bom, vamos lá. Foi fácil essa condenação do Cláudio Castro, porque tinha uma coisa chamada batom na cueca. Foi fácil provar a criação dos quadros fantasmas. Foi fácil provar o pagamento dessas pessoas.
Celso Rocha de Barros: Na boca do caixa.
Ana Clara Costa: Na boca do caixa.
Celso Rocha de Barros: O cara nem para abrir a conta no banco, ia lá e dava um dinheiro para ele.
Ana Clara Costa: Então assim, a prova é cabal, não tem… Por isso foi rápido, por isso foi fácil. Não é fácil você declarar um governador do segundo estado mais rico, inelegível.
Fernando de Barros e Silva: Exato. Não é trivial isso.
Ana Clara Costa: E aí, olha só, né? Você tem o André Mendonça, relator do caso do Master, em que o governo do Rio, o governo do Cláudio Castro, investiu 1 bilhão do dinheiro da Previdência dos aposentados no Banco Master, e perdeu provavelmente a maior parte desse dinheiro. Você tem o André Mendonça votando pela absolvição dele, sabendo o que existe no processo do Master. E o André Mendonça poderia, se ele quisesse, não ter passado esse recibo agora. Ele está com o INSS, ele tá com o caso Master, ou seja, ele tá com rosário de instrumentos de atuação política ali que ele pode ter, em que ele poderia ter poupado esse recibo, que ele passou essa semana nessa votação e ele não quis poupar-nos desse recibo. Então, assim, essa votação do Cláudio Castro, ela deixou muito clara a posição do André Mendonça dentro do tabuleiro. Quando a gente vê o que aconteceu com Cláudio Castro no mesmo dia que ele é declarado inelegível, tem o PP e União Brasil convidando ele, deixando a Federação de portas abertas para recebê-lo… Ou seja, né, não existe nenhum conflito ético. Pô, o cara foi declarado inelegível e é recebido de braços abertos? O PL, primeiro, deu todo o apoio para ele, né? Elogiou, jamais criticou. “É uma injustiça e tal”. Mas o PL começou a abrir mão dele agora, né, passada a inelegibilidade, porque, como fazer o Senado? Talvez mais, mais importante para o PL do que fazer a Presidência da República. Você colocar na vaga do Rio, em uma das vagas do Rio, um candidato que pode perder a vaga é arriscado para o PL. Então, só por isso e apenas por isso, eles querem substituí-lo pelo Felipe Curi, que é o secretário da Polícia Civil dele, que foi um dos coordenadores da operação do BOPE.
Fernando de Barros e Silva: E é o ideólogo dessa coisa do narco-terrorista. Está em documentário do Brasil Paralelo, etc. Felipe Curi era o formulador da coisa toda, da operação do Alemão, etc. É o cara mais sintonizado com a doutrina de segurança trumpista.
Ana Clara Costa: Pois é. E só por isso, só por uma questão de conveniência e de contagem de senadores do PL, que o PL está abrindo mão do Cláudio Castro, não por ter achado que ele de fato tenha infringido a lei, entendeu? Mesmo o cara tendo sido condenado. Ainda conectando o assunto Master, o problema todo foi na Rio Previdência, na Previdência do Estado do Rio. Para vocês verem, né? O Cláudio Castro nem demitiu o chefe da Rio Previdência. No processo de saída dele, mostra que ele que pediu para sair. Ou seja, nem sequer ele demitiu o cara que desviou 1 bilhão de dinheiro de aposentado para dar para o Daniel Vorcaro. Dar não, né? Porque daí provavelmente eles receberam algo em troca. Dado o que foi encontrado, foi encontrado nas buscas que fizeram nessa operação da Rio Previdência foram encontrados mais de 420 mil reais em espécie e vários carros de luxo. E teve o episódio do cara jogando dinheiro pela janela em Balneário Camboriú, que também foi nessa operação. Enfim, agora o fato de você ter um ministro do Supremo que coordena o Master e o Nunes Marques, cujo filho recém-formado, tem mais de 500 clientes.
Celso Rocha de Barros: O garoto é bom, gente. Ele pegou a OAB em fevereiro e fez, acho que 100 processos no ano. Coisa assim, porra…
Ana Clara Costa: 500 clientes em um ano de OAB.
Celso Rocha de Barros: Trabalha enquanto eles dormem.
Ana Clara Costa: Enfim, eu acho que essa questão do Claudio Castro, que é um problema que não tem a ver com o Master, eu acho que acabou preenchendo algumas lacunas que a gente tinha em relação a conduta desses ministros no caso do Daniel Vorcaro. Mostra um bloco político, a composição desse colegiado essa semana, nessa votação, é a composição de um bloco político, sem dúvida.
Celso Rocha de Barros: E falando em bloco político, só queria lembrar um último episódio, ano passado, depois do massacre lá no Complexo do Alemão, os governadores de direita todos baixaram aqui no Rio de Janeiro para declarar apoio a Cláudio Castro num negócio que eles botaram o nome de Consórcio da Paz. Olha que bonito! O Consórcio da Paz tinha o Romeu Zema, o Jorginho Melo de Santa Catarina, o Caiado, o Eduardo Rider, de Mato Grosso do Sul, o Tarcísio, segundo informação do G1, participou da reunião de forma virtual e a Celina Leão, vice-governadora do Distrito Federal, ou seja, a vice do Ibaneis. Esse Ibaneis aí que não precisa nem explicar. Só gente boa. Mas era o consórcio da paz. Olha só!
Fernando de Barros e Silva: Muito bem lembrado. A encrenca é grande, da Aquarela Fluminense para a Aquarela do Brasil. Vamos encerrar então o terceiro bloco do programa. E que programa! O Celso avisou que a nossa ida ao Recife era a última notícia boa do dia. Encerramos. Fazemos um rápido intervalo, na volta Kinder Ovo.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta com a nossa diretora acompanhando de casa, porque ela está enferma, mas está tudo bem. É o Danny Dee quem vai soltar hoje. Solta o som aí, Danny Dee.
Sonora: Essa história de ‘ah, você quer ganhar a mesma coisa trabalhando menos’. Isso não dura. Isso é o mesmo que você chamar mais gente para o churrasco, mas não aumentar a carne. Você impor situações para os setores é como alguém que calça 39 e você ficou que não tem que ser o 37,5, mas aí vai ficar apertado o negócio.
Ana Clara Costa: Skaf! Paulo Skaf!
Fernando de Barros e Silva: Acertou!
Ana Clara Costa: Pô, a primeira vez no ano, eu acho, sei lá. Primeira vez em dois anos que eu acerto.
Fernando de Barros e Silva: Paulo Skaf! Muito bom! Essa é quase do universo do Celso.
Celso Rocha de Barros: Não, é profundo do meu universo.
Fernando de Barros e Silva: O Paulo Skaf é o é quem vai pagar o Pato, lembra? No impeachment da Dilma, ele “quem é que vai pagar o pato?”. O pato da Fiesp. Não foi ele que pagou o pato. Quem fala é o empresário e atual presidente da Fiesp, Paulo Skaf, em entrevista ao canal da revista Veja, no YouTube. Depois deste momento glorioso de Ana Clara Costa, como se precisasse de mais esse momento glorioso, não deixou nada aqui para a imprensa paulistana que está na seca. A gente encerra e vai para as cartinhas, para o melhor momento do programa, o momento de vocês. Eu vou começar então, com uma mensagem da Marta Domingues: “Eu ouço o Foro e fico imaginando que o escritório da Ana deve ser igual ao dos investigadores de filme, com fotos de políticos espalhadas e um fio ligando cada uma delas. Ela saca umas relações entre políticos da atualidade com CPIs da época do descobrimento do Brasil, que são inacreditáveis. Bela memória ou método de organizar a complexa malha política brasileira! Pode já fazer um agente de IA para consultarmos.” Ana Clara abrindo frentes de trabalho. Possibilidades
Ana Clara Costa: Não é. Olha a minha mesa, a minha sala, não é. Mas você sabe que eu fiz um prompt do chat GPT que foi uma trend outro dia, nas redes sociais que todo mundo pôs a foto com a sua profissão, eu não postei, mas eu fiz o chat GPT fazer a minha e ele fez exatamente isso. Eu vou mostrar para vocês, cada uma com uma tela, com um monte de foto linda, interligada assim…
Celso Rocha de Barros: Caramba! Muito bom!
Ana Clara Costa: Mas não é realidade.
Fernando de Barros e Silva: Essa negócio de político espalhado com o fio ligando eles não está não é muito recomendável.
Ana Clara Costa: É né? É uma estética…
Celso Rocha de Barros: Tá meio em baixa.
Ana Clara Costa: O Walter Cancela escreveu de Belém: “ábado, 21/03 foi meu aniversário e, por uma coincidência infeliz, o do Jair também. Dito isso, eu e minha noiva sempre tentamos assistir ou escutar algo que o outro gosta para que possamos ter mais coisas em comum. E neste final de semana finalmente conseguir fazer ela escutar o fórum. Então, se possível, mandem abraços para a Lorena”. Lorena, obrigada por ouvir a gente.
Celso Rocha de Barros: Valeu, Lorena!
Fernando de Barros e Silva: Valeu, Lorena! Muito bom.
Celso Rocha de Barros: O Leandro Rios quis se solidarizar com a gente e escreveu: “Não é fácil ouvir o Foro, mas ultimamente tem sido muito pior”. E olha que ele não ouviu o de hoje. “Parabéns para o trio. Espero que façam muita coisa prazerosa para limpar a mente, pois é insalubre o trabalho de vocês”. Leandro, anda difícil mesmo…
Ana Clara Costa: É, gente, tende a piorar.
Celso Rocha de Barros: É.
Fernando de Barros e Silva: É. A gente desopila quando tá fazendo. É mais insalubre às vezes, para quem ouve . Bom, o que é bom acaba. E o que não é tão bom também acaba. A gente vai encerrando o programa de hoje por aqui. Se você gostou, não deixe de seguir e dar five stars para a gente no Spotify. Segue no Apple Podcast, na Amazon Music. Favorita na Deezer e se inscreva no YouTube. Você também encontra a transcrição do episódio no site da piauí. O Foro de Teresina é uma produção do Estúdio Novelo para a revista piauí. A coordenação geral é da Bárbara Rubira. A direção é da Mari Faria, com produção e distribuição da Maria Júlia Vieira. A checagem é da Ethel Rudnitzki. A edição é da Bárbara Rúbira e da Mariana Leão. A identidade visual é da Amanda Lopes. A finalização e mixagem são do João Jabace e do Luis Rodrigues, da Pipoca Sound. Jabace e Rodrigues, que também são os intérpretes da nossa melodia tema. A coordenação digital é da Bia Ribeiro, da Emily Almeida e do Fábio Brisolla. O programa de hoje foi gravado aqui na minha choupana, em São Paulo, e no Estúdio Rastro, do Danny Dee, que hoje fez o Kinder Ovo, no Rio de Janeiro. Eu me despeço então dos meus amigos. Tchau, Ana.
Ana Clara Costa: Tchau, Fernando. Tchau, pessoal.
Fernando de Barros e Silva: Tchau, Celso.
Celso Rocha de Barros: Tchau, Fernando. Até semana que vem.
Fernando de Barros e Silva: É isso, gente! Uma ótima semana a todos e até semana que vem.
