Diário de um julgamento inédito
Os detalhes solenes, cômicos e desprezíveis da condenação da trama golpista
Terça-feira, 9 de setembro, 10h48. O ministro Alexandre de Moraes, sentado na bancada da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) em Brasília, lê um trecho crucial de seu voto no julgamento central da trama golpista. Ele toma o sétimo gole de água desde que começou a falar há mais de uma hora e faz menção a uma expressão-chave: a “unidade de desígnios”. Essa expressão, que Moraes vai repetir e repetir e repetir durante seu voto, é a condição necessária para caracterizar uma organização criminosa. O objetivo final dessa organização, insiste Morais, era a permanência de Bolsonaro no cargo.
Na leitura do voto, os membros da organização criminosa vão aparecendo um depois do outro – além de Bolsonaro, os civis Anderson Torres e Alexandre Ramagem, e os militares Augusto Heleno, Mauro Cid, Paulo Sérgio Nogueira, Walter Braga Netto, Almir Garnier – para esclarecer a “cronologia criminosa lógica”. Moraes explica a ação de cada um.
Naquele mesmo minuto, a Embaixada dos Estados Unidos publica um tuíte, assinado por Darren Beattie, alto funcionário da diplomacia americana baseado em Washington. O tuíte está endereçado ao “ministro Alexandre de Moraes” e aos “indivíduos cujos abusos de autoridade têm minado […] liberdades fundamentais”. Ele faz uma ameaça inespecífica: “Continuaremos a tomar as medidas cabíveis”, conta Camille Lichotti, que acompanhou todo o julgamento no STF e relata o que aconteceu, momento a momento, na edição deste mês da piauí.
Moraes só termina de ler seu voto às 14h32. Condena todos os oito réus por organização criminosa armada, tentativa de golpe de Estado e tentativa de abolição do estado democrático de direito. “É o voto, senhor presidente”, diz, virando-se para o ministro Cristiano Zanin. Toma dois goles de Coca-Cola com um sorriso no rosto. Ajeita a gravata de seda rosa decorada com cachorrinhos, da grife Ferragamo, e recosta-se na cadeira.
Em Washington, Karoline Leavitt, porta-voz da Casa Branca, reage à decisão, menos de 20 minutos depois do voto de Moraes. Diz que os Estados Unidos taxaram o Brasil “para garantir que países ao redor do mundo não punam seus cidadãos dessa maneira”. E lança uma ameaça exorbitante. “O presidente [Trump] não tem medo de usar o poder econômico e militar dos Estados Unidos para proteger a liberdade de expressão ao redor do mundo.”
Às 15h45, o ministro Flávio Dino começa a ler seu voto, que terminará dali uma hora e 20 minutos. Ele também condena todos os oito réus e menciona o tuíte que o diplomata americano Darren Beattie postara pela manhã. “Eu me espanto”, diz, ao apoiar a cabeça nas mãos e inclinar o rosto. “Será que as pessoas acreditam que um tuíte de uma autoridade, de um governo estrangeiro, vai mudar o julgamento no Supremo? Será que alguém imagina que um cartão de crédito ou o Mickey vão mudar o julgamento no Supremo?” Com um sorriso largo, Moraes, recostado na cadeira e longe do microfone, corrige: “É o Pateta.”
No dia seguinte, 10 de setembro, às 9h10, no plenário da primeira turma do STF, soa o sinal que anuncia a entrada dos ministros. Todos se levantam. “Vai começar a missa”, brinca o veterano enfermeiro do STF, Pedro Izidoro Giovanetti, ao sentar-se novamente na ponta da quarta fileira de poltronas, onde cumpre seu plantão, para a eventualidade de uma emergência. O plenário está repleto de jornalistas; os brasileiros de um lado, os estrangeiros de outro. O ministro Luiz Fux toma a palavra.
Às 19h49, com Fux ainda votando, Moraes boceja e sorri para o advogado de Mauro Cid, que se divertia com o comportamento do ministro. Ausenta-se do plenário por 4 minutos. Volta a tempo de ouvir Fux dizendo que, como Bolsonaro já estava fora do poder nos atos golpistas do 8 de janeiro, o ex-presidente “não tinha dever algum” – ele enfatiza o algum – “de desmobilizar essas manifestações”. Exaustos, os poucos jornalistas que restam no plenário têm dificuldade de entender o significado das palavras de Fux. “Ele absolveu o Bolsonaro? É isso?”, sussurra um deles. “Acho que sim, tá livrando o Bolsonaro de tudo”, responde outro.
Assinantes da revista podem ler a íntegra do texto neste link.
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