Deputadas eleitas na última eleição do Congresso, junto do então presidente da casa, Arthur Lira Marina Ramos/ Câmara dos Deputados
As eleições do feminismo que não diz seu nome
Como as pautas das mulheres crescem na estratégia dos partidos à esquerda e à direita
Já se passaram 92 anos desde que a médica paulista Carlota Pereira de Queiroz foi eleita a primeira deputada federal do Brasil pelo Partido Constitucionalista de São Paulo. Filha de uma família tradicional da época, Carlota ganhou visibilidade durante a Revolução Constitucionalista de 1932 por ter liderado setecentas mulheres no Departamento de Assistência aos Feridos. Atendiam combatentes machucados na batalha contra as tropas de Getúlio Vargas. Os paulistas foram derrotados, mas estabeleceram o compromisso de que uma nova Constituição fosse escrita, depois de Getúlio ter anulado a Carta de 1891.
Carlota foi então eleita constituinte em 1933, atuando na Comissão de Educação e Saúde. Dali, seria alçada a deputada no ano seguinte, eleita para representar São Paulo.
Foi preciso uma nova Constituinte (1987-1988) para que as mulheres dessem um salto significativo de participação como deputadas. Ali, foram eleitas 26 representantes do sexo feminino, que ajudaram a escrever a nova Carta Magna do país. Até os anos 1980, o Brasil havia tido no máximo oito deputadas simultaneamente na Casa.
Desde 1998, quando a Câmara elegeu 29 mulheres, a representação feminina tem crescido em quase todas as eleições (a única exceção foi em 2010, quando se repetiu o número de 45 eleitas de 2006). Hoje as mulheres somam 91 cadeiras na Câmara dos Deputados, ou cerca de 17,7%.
Agora, com as eleições de 2026, o plenário da Câmara tende a romper a marca simbólica de três dígitos, segundo projeção da pesquisadora Ana Cláudia Santano, da ONG Transparência Eleitoral Brasil. Com maior fiscalização do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para que se cumpram as cotas de candidaturas de 30%, já é dado como certo que elas podem ocupar cerca de 20% da Câmara, ultrapassando o número de cem cadeiras pela primeira vez na história.
A primeira mulher a chegar ao Senado foi Eunice Michiles, em maio de 1979. Ela era suplente do deputado amazonense João Bosco, que havia assumido a vaga pelo Arena em fevereiro daquele ano, mas morreu três meses depois. Só então o Brasil pôde ter uma senadora que viria a defender os direitos das mulheres, assim como Carlota havia feito como deputada quase meio século antes.
Hoje, são 16 das 81 vagas, ou 19,7% – o dobro de 2010, mas ainda muito longe dos 51,5 % de mulheres na população brasileira. A casa renovará dois terços das cadeiras este ano e já tem uma lista de nomes tidos como fortes como pré-candidatas, como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF), a atual deputada Bia Kicis (PL-DF) e as ministras do Meio Ambiente, Marina Silva (Rede-SP), e do Planejamento, Simone Tebet (MDB-MS). Simone pode trocar de domicílio eleitoral e concorrer por São Paulo para entrar na peleja.
Hoje os partidos recebem o percentual proporcional ao número de candidaturas mulheres do fundo eleitoral, relativo aos recursos destinados a campanhas (30% no mínimo, ou seja, proporcional ao número de candidatas). Há, ainda, a obrigação de destinar o mínimo de 5% de verba do fundo partidário (verba pública distribuída aos partidos para custear água, luz, passagens etc.) para promover e ampliar a participação de mulheres, além dos 30%. Muitas das chefes dos diretórios femininos fizeram inserções na tevê em horário nobre convidando mais mulheres para se filiar às respectivas legendas. “Durante muito tempo a política foi construída sem ouvir as mulheres”, declarou a senadora Professora Dorinha (União-TO), na abertura de uma propaganda de 30 segundos do União Brasil Mulher, em agosto do ano passado. Ao lado dela, outras parlamentares da legenda diziam que o cenário estava mudando e era preciso mais mulheres para seguir em frente.
A violência de gênero também é assunto nas redes do União Brasil. “A violência contra a mulher não escolhe local”, diz a deputada estadual Catarina Guerra (União-RR), em um dos vídeos que tratam do feminicídio no Instagram do União Brasil Mulher. Em outro, uma personagem criada por inteligência artificial alerta para a existência de violência política de gênero contra candidatas, alvos de vídeos falsos para forçar uma candidata a desistir de concorrer.
É nesse ambiente que os partidos fazem planos para aumentar sua bancada de mulheres. O Podemos, por exemplo, espera fazer cinco mulheres deputadas federais, segundo Marcia Pinheiro, presidente do Podemos Mulher. Uma delas seria a atual vereadora Ana Carolina Oliveira (Pode-SP), segundo nome mais votado de São Paulo na eleição de 2024. Hoje, somente 2 das 16 cadeiras do Podemos na Câmara são ocupadas por mulheres – uma delas é da presidente da legenda, a deputada Renata Abreu (Pode-SP), que deve tentar a reeleição.
As cotas foram institucionalizadas nos anos 1990, com um mínimo de 20% de candidaturas femininas, e evoluíram para os atuais 30%. Mas não garantem um percentual nas cadeiras. A Bolívia, por exemplo, tem reserva de 40% de vagas para mulheres no Parlamento. Outros países, como Chile ou Argentina, têm cotas mais altas para mulheres candidatas, de 40% e 50%, respectivamente.
No Brasil, a luta tem sido árdua para manter e fazer valer a regra da candidatura. Desde a sua criação, os partidos recorrem a subterfúgios para driblá-la. De candidaturas femininas fantasmas a verbas prometidas e não repassadas, o espaço para mulheres continua sendo ditado pelos homens dos partidos.
Em janeiro do ano passado, o senador Marcelo Castro (MDB-PI) apresentou um novo relatório para a atualização do Código Eleitoral (PLP 112/2021) que sugeria a substituição da cota de 30% de candidaturas pela reserva de 20% das vagas, com validade pelos próximos vinte anos. A intenção inicial era boa, pois a regra valeria para a Câmara de Deputados, mas também para as Assembleias Legislativas e Câmara de Vereadores. Em 2024, mais de setecentas cidades brasileiras não elegeram uma vereadora sequer.
A proposta de excluir a cota de 30%, porém, foi rechaçada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado em agosto passado. A senadora Zenaide Maia (PSD-RN) fez as contas e viu prejuízo para as deputadas federais. “Já temos 19% de representatividade sem isso. Seria deixar as mulheres com 20% por mais vinte anos, e os homens seguindo com 80%. É absurdo.”
A única presidência feminina foi de Dilma Rousseff (2011-2016), e os espaços de poder hoje estão mais restritos ao papel de vice em eleições para cargos executivos. Em 2022, só duas governadoras foram eleitas, Fátima Bezerra (PT), no Rio Grande do Norte, e Raquel Lyra (eleita pelo PSDB, e agora no PSD), em Pernambuco.
“Muitos dos homens que fazem política enxergam as mulheres como a ‘vice dos sonhos’, argumentam que cotas para essas cadeiras são desnecessárias, e defendem o fim das multas aos partidos que não as cumprem”, diz Cinthia Ribeiro, ex-prefeita de Palmas (PSDB-TO), que integra a Executiva do partido, e é presidente Nacional do PSDB Mulher. Quando abrem espaço, ela diz, acreditam que a mulher só consegue discutir sobre o social, educação e saúde. “Não nos veem conduzindo a economia, o orçamento da gestão pública com eficiência”, completa Cinthia, que até meados de fevereiro era o nome cotado pelo partido para concorrer ao governo do estado.
Pouco depois da conversa de Cinthia com a reportagem, ela foi destituída da presidência do diretório tucano em Tocantins para dar lugar ao deputado Vicentinho Júnior (TO), recém-chegado ao PSDB saindo do PP, que assumiu o posto de pré-candidato ao governo do estado. O convite ao deputado busca reforçar o ninho tucano, que vem perdendo nomes fortes, como o governador Eduardo Leite, que trocou o PSDB pelo PSD. Ela recebeu a proposta de se tornar vice do agora pré-candidato ao governo, e deve deixar a legenda na qual fez sua vida política nos últimos doze anos. “É isso o que chamamos de violência de gênero”, diz Cinthia.
A mudança de planos movimentou o PSDB Mulher. As coordenadoras regionais se manifestaram diante do enfraquecimento de Cinthia, e já se vê um risco de que outras mulheres possam seguir o mesmo caminho da ex-prefeita de Palmas, e venham a deixar a legenda. Numa reunião tensa da Executiva Nacional no último dia 24 na presença do presidente do partido, Aécio Neves (MG), a presidente do PSDB Mulher do Ceará, Emília Pessoa, leu uma carta em nome de outras lideranças femininas contrárias à substituição no Tocantins. “A condução adotada pelo partido ao promover a alteração na presidência estadual, sem construção coletiva, fragiliza não apenas uma liderança, mas a própria dinâmica de amadurecimento democrático interno”, diz a carta entregue a Aécio, assinada por “representantes das coordenações regionais do PSDB Mulher Nacional”.
“Tal acontecimento e, especialmente, a forma de sua condução, fragilizam uma liderança feminina que dirige uma instância partidária de reconhecida relevância ao longo dos anos, como é o PSDB-Mulher.”
O espaço limitado para o protagonismo político das mulheres é comum a todos os partidos, com poucas exceções. A eleição municipal de 2024 mostrou como elas estão mais enquadradas como vices do que como cabeças de chapa. Levantamento do TSE mostra que entre as eleições de 2020 e 2024 aumentou em 15% o número de vice-prefeitas, enquanto o de prefeitas subiu 7%. Hoje as mulheres estão à frente de 13% dos municípios do país, ou 727 cidades.
Uma pesquisa do instituto Update, que monitora a participação feminina na política, identificou ainda em 2022, por meio de dois levantamentos feitos antes e depois da eleição, que 87% da população – 85% dos homens, e 90% de mulheres – se diz insatisfeita com o grau de representação das mulheres e de pessoas negras no Congresso.
Essa tendência tem beneficiado partidos de esquerda, que têm a ampliação dos direitos das mulheres como norte. No livro Brasil no espelho: Um guia para entender o Brasil e os brasileiros, lançado no ano passado, o cientista político Felipe Nunes, do instituto Quaest, divide a população em quatro categorias etárias: geração “Bossa Nova”, nascida entre 1945 e 1964, a “Ordem e Progresso” (entre 1965 a 1984), “Redemocratização” (1985 a 1999) e “Geração.com”, jovens nascidos a partir do ano 2000. “Quando comparamos o autoposicionamento ideológico de homens e mulheres nascidos na mesma época, fica claro que não apenas os mais jovens tendem a se posicionar mais à esquerda, como as mulheres das gerações Ordem e Progresso, Redemocratização e Geração.com se posicionam consistentemente mais à esquerda em comparação aos homens nascidos no mesmo período”, diz ele no livro, baseado em uma pesquisa nacional com quase 10 mil pessoas.
Em uma entrevista à BBC Brasil, Nunes explicou que esse posicionamento das brasileiras se reflete no voto. “É cada vez mais evidente a diferença de voto entre homens e mulheres: eles votando cada vez mais à direita, e as mulheres votando cada vez mais à esquerda”, explicou. “Ao que parece, quanto mais protagonismo elas ganham e mais força elas têm no processo político, mais os homens se ressentem e acabam puxando um maior grau de conservadorismo.”
A tendência é mundial, como mostrou também uma pesquisa do jornal Financial Times em 2024, sobre a discrepância de posição entre homens e mulheres em diversos países.
O Psol, fundado em 2004, cresceu junto com a primavera feminista da última década. Atualmente, é o único partido com mais mulheres do que homens na Câmara. Em 2022, foram eleitas sete deputadas e cinco deputados, entre eles Guilherme Boulos (Psol-SP), o deputado mais votado por São Paulo. Em outubro passado, ele assumiu o cargo de ministro da Secretaria-Geral da Presidência no governo Lula, e foi substituído pelo ex-presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Ricardo Galvão. O deputado Glauber Braga (Psol-RJ), afastado por seis meses pela Câmara em dezembro por decoro parlamentar, acabou substituído pela suplente Heloísa Helena (Rede-RJ).
Foi diante desse contexto que o PL, que responde pela maior bancada na Câmara, começou a trabalhar uma estratégia mais ambiciosa para fazer frente às mulheres progressistas. O partido elegeu dezessete deputadas em 2022 e conta com a senadora Dra. Eudócia (PL-AL), eleita em 2019 para um mandato de oito anos. Perdeu três mulheres na bancada com a cassação de Silvia Waiãpi (AP), Carla Zambelli (SP), que está presa na Itália, e o falecimento da deputada Amália Barros (PL-MT) em maio de 2024. As três tinham homens como suplentes.
A legenda colocou Michelle Bolsonaro como farol e puxadora de votos para aumentar a bancada de conservadoras. Há três anos, ela foi nomeada presidente do PL Mulher. Seu nome chegou a circular como potencial presidenciável, ou vice, para este ano, mas os planos do marido eram outros. Colocou o filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), como seu sucessor na corrida presidencial contra a reeleição do presidente Lula.
Michelle, porém, construiu capital político fazendo também a defesa da maior participação feminina na política, ainda que focada nas “mulheres do bem”, para que se tornem “protagonistas da sua própria história”, como costuma repetir nos encontros do PL Mulher. Uma pesquisa do instituto Atlas/Intel, divulgada no dia 21 de janeiro, mostrou que ela tinha 30,9% de intenções de voto naquele momento, o que a tornaria um coringa importante na eleição deste ano para ampliar as fileiras femininas no partido.
Ao longo de 2024, ela seguiu em caravana pelo país enquanto subia a rejeição a Bolsonaro, que àquela altura era investigado por tentativa de golpe de Estado, e foi indiciado em novembro daquele ano. A meta era fortalecer a eleição de mulheres no PL, participar da capacitação de novas candidatas para o pleito municipal, e defender a figura do pai de sua filha, Laura.
As viagens foram retomadas no ano passado com o mesmo propósito, e Michelle chegou a liderar encontros em 31 cidades. Uma das últimas em que ela esteve foi Londrina (PR), no dia 8 de novembro. Entre mensagens religiosas de perseverança diante das dificuldades – àquela altura Jair já estava preso havia três meses –, Michelle, vestida com uma camiseta cor-de-rosa com o logotipo do PL Mulher, falava com desenvoltura sobre a proposta de anistia ao marido, a necessidade de eleger mais parlamentares do PL, e a importância de Deus e da família.
A bandeira do PL é lutar contra a “agenda woke” das progressistas, como descrito na cartilha do Projeto Alicerça Brasil do PL, um e-book disponível no site do PL Mulher. “A Agenda Woke é um conjunto de ideias que promove mudanças radicais em temas como gênero, família e sociedade, muitas vezes em conflito com os valores tradicionais de uma família brasileira comum.”
Em sua trajetória para conquistar adeptas, Michelle foi para um embate direto contra o feminismo, justamente o movimento que abriu as portas para as mulheres ganharem o direito de entrar na política. “As mulheres de direita sofrem muita rejeição por parte das mulheres que se inspiram no feminismo. Elas não entendem os motivos pelos quais nós, mulheres de direita, queremos ser femininas e não feministas”, escreveu Michelle num artigo do e-book Edificando a Nação: Sobre Bases e Valores, que reúne textos de diversas parlamentares conservadoras, como Bia Kicis e Damares Alves. “Isso não é bem compreendido pelas mulheres progressistas, que são aquelas que querem transformar a sociedade segundo uma visão que, por um lado, toma os homens como inimigos, e, por outro, quer competir com eles, assumindo funções masculinas para provar uma pseudo-igualdade”, completa.
Para ela, a batalha contra o feminismo é necessária diante das “doces mentiras” desse movimento. “As mulheres de direita são diferentes: não têm preconceito com a maternidade e com o cuidado da família, valorizam a colaboração com os homens e gostam de ser protegidas em seus relacionamentos. A maioria de nós, mulheres conservadoras, não nos sentimos diminuídas ou usadas porque cuidamos dos nossos filhos, porque fazemos uma comidinha gostosa, ou porque fazemos compras”, escreveu Michelle.
“O campo progressista ainda é lido como o das pessoas que fazem um discurso gritado, atrelado a uma estética que já foi superada. Nós não conseguimos evoluir nesse sentido”, avalia Amanda Sobreira, advogada especialista em direito e processo eleitoral, e diretora nacional da Fundação João Mangabeira, do PSB.
Cinthia Ribeiro, do PSDB, se assume como feminista, mas sabe que o termo é carregado de estereótipo dentro da política e pode prejudicar uma candidata, conforme o público com o qual está falando. “Quando você diz que é feminista, logo te imaginam como a pessoa mais feia e solitária do mundo, discutindo coisas que não são necessárias”, conta ela, que é casada com um pastor evangélico. “Quando me veem ao lado dele, ficam perdidos”, se diverte.
Um efeito colateral desse marketing antifeminista transcende a política, com movimentos como o das tradwives (donas de casa tradicionais), as mães influenciadoras que glamorizam a vida de esposas que criam os filhos enquanto o marido trabalha.
A atração por esse estilo de vida é compreensível diante da jornada de trabalho cansativa das mulheres, analisa Manuela D’Ávila, pré-candidata ao Senado no Rio Grande do Sul pelo Psol. “Nós somos cobradas a sermos bonitas, trabalhar fora e cuidar da casa. Se a gente tira uma dessas tarefas, a mulher resolve, aparentemente, um dos problemas dela.” E se existe lugar para esse imaginário, é porque a esquerda não conseguiu apresentar uma alternativa para enfrentar a realidade feminina, avalia Manuela.
Ela cita o exemplo da falta de creches no país. “Como é que a falta de estrutura para as mães trabalharem ainda não se tornou um problema nacional? São Paulo é a única capital do Brasil que zerou o déficit de vagas de creche.”
A deputada Sâmia Bomfim (Psol-SP) diz que o “simulacro” glamorizado das tradwives que a direita abraça tem ibope porque o cansaço com a jornada tripla é igual para todas. “No fim do dia, há sempre uma mãe exausta, seja de direita ou de esquerda”, afirma.
Mas vê um paradoxo no avanço das mulheres conservadoras por negarem o feminismo, enquanto se utilizam das suas conquistas para estarem onde estão e negá-lo em seguida. No fim, a disputa pelas pautas no Congresso segue sendo a mesma, só muda o gênero. “Se antes a gente brigava com o Magno Malta ou com o Marco Feliciano, agora temos uma Carol de Toni, uma Júlia Zanatta discursando que elas têm lugar de fala para dizer que o feminismo não as representa. É ardiloso e complicado, não dá para menosprezar”, analisa a deputada. “Mas tem o seu papel”, completa.
Mais do que oferecer uma alternativa à jornada exaustiva das mães trabalhadoras, a direita conservadora tem uma vantagem sobre o campo progressista. Com maioria no Congresso, dispõem da maior fatia do fundo partidário, o que lhes garante capacidade financeira para investir e distribuir sua narrativa nas redes sociais, avalia a pesquisadora e ativista Ingrid Farias, diretora de articulação e parcerias do instituto Update. “Nós temos menos dinheiro para divulgar e compartilhar nossas mensagens”, diz ela. “Michelle tem dinheiro para fazer uma comunicação maravilhosa, lançar perfume, virar uma personagem de si própria, vendendo a feminilidade e atacando as mulheres que vão às ruas”, analisa. Dois anos e meio atrás, o maquiador Agustin Fernandez, amigo de Michelle e dono de uma linha de produtos de beleza, lançou uma linha de perfume e batom que leva o nome da ex-primeira-dama.
O campo progressista, porém, tem inovado por meio de movimentos sociais que ampliam o alcance de suas campanhas. Ingrid mapeou ao menos 124 organizações não governamentais, grupos e coletivos que trabalham iniciativas para apoiar novas mulheres a chegar ao poder, e têm despertado questões específicas, como o voto em mulheres negras, que representam a maior parcela da população brasileira. Em 2022, grupos como Mulheres negras decidem, ou Eu voto em Negra, foram às ruas e às redes dar visibilidade à causa. Naquele ano foram eleitas 29 deputadas federais autodeclaradas negras e pardas, mais que o dobro de 2018.
Na disputa pelo eleitorado deste ano, há obstáculos para os dois lados. Manuela D’Ávila avalia que a predominância masculina acaba sendo uma barreira de contenção para as mulheres conservadoras em partidos como o PL. “Elas estão no centro do ecossistema de violência contra as mulheres. Seus líderes são os porta-vozes das mensagens da nossa morte”, diz Manuela. Ela cita o que aconteceu com a influenciadora Cíntia Chagas, agredida pelo ex-marido, o deputado estadual Lucas Bove (PL-SP). “Apanhou, denunciou e ficou isolada”, diz ela.
O PL integra a bancada da bala, assim como a bancada evangélica, que impõe mais regras morais às mulheres através de projetos de lei, que buscam por exemplo reduzir o alcance do direito das mulheres vítimas de violência sexual. Um deles foi o projeto 1904 de 2024, de autoria do líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, que equiparava o aborto após a 22a semana de gestação ao crime de homicídio. Naquele ano, o Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA) mapeou mais de cem projetos, entre propostas de emenda à Constituição (PEC), decretos legislativos, ou projetos de lei, que têm o objetivo de mudar o Código Penal, que desde 1940 criminaliza o aborto, com exceção de casos de estupro e casos em que a mãe corre risco de vida. Desde 2012, o Supremo Tribunal Federal determinou que a interrupção da gravidez em gestações de feto anencéfalo não é crime.
Mas os projetos em questão querem discutir essas exceções. O mais recente embate no Congresso ocorreu no dia 5 de novembro do ano passado, com a derrubada na Câmara da resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), que está em vigor desde janeiro de 2025. O órgão dispensava a exigência de boletim de ocorrência e estabeleceu diretrizes para garantir o aborto legal de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. A resolução indica que os casos suspeitos ou confirmados de estupro deveriam ser comunicados à autoridade sanitária e ao Conselho Tutelar pelo hospital que receber a vítima de estupro, bem como às autoridades policiais. Mas que a regra não poderia ser impositiva a ponto de se caracterizar como “violência institucional”.
A regra leva em conta o fato de muitos estupros de menores serem cometidos por familiares, e por isso o assunto não ser levado à delegacia. A maioria do Congresso, contudo, entendeu que o projeto fere o direito à vida, e a ausência de um boletim de ocorrência poderia facilitar a burla às leis que amparam o aborto legal. O placar ficou em 317 a 111, e mostrou o terreno onde as divergências são mais explícitas entre os dois campos políticos.
Partidos como o PL e Republicanos votaram pela derrubada da resolução da Conanda, junto com o Centrão e até o PDT, com exceção de três deputados. PT, Psol e PSB fizeram o contrapeso, mas não foi o suficiente para derrubar o lobby conservador. O projeto seguiu para o Senado, onde ainda não foi analisado.
Embora o capítulo do Código Penal que trata do aborto legal seja de 1940, pouco se avançou no assunto no Congresso, onde prevalece o cabo de guerra. “Na medida em que o STF toma decisões e o Ministério da Saúde publica portarias sobre aborto, o Código Penal já não é a referência soberana acerca do tema”, avalia Maria Emília de Rueda, coordenadora do União Mulher Nacional. “A gente não pode tomar como média nacional do pensamento feminino desse país, que é imenso, os diálogos que aparecem nas novelas ambientadas na Zona Sul do Rio de Janeiro”, diz ela. “Uma alteração no Código tem de levar em conta que a regra vai valer também para a dona de casa da zona rural de Pernambuco, onde a realidade é totalmente diferente do ponto de vista cultural, da cobertura do sistema público de saúde e, sim, de valores religiosos.”
Márcia Pinheiro, do Podemos Mulher, esteve na Ilha de Marajó (PA) no ano passado e visitou comunidades em extrema pobreza. Ficou impactada com o abandono das famílias, e relata ter encontrado inúmeras crianças mães de vários filhos. “E depois de abortar, ela fica vulnerável para ser estuprada de novo, se o entorno não for cuidado também”, diz.
(Parênteses: Marajó tem sido nos últimos anos destino de muitos políticos conservadores que denunciam crimes de pedofilia. Moradores e pesquisadores se queixam, porém, que a forma como é feita esse tipo de divulgação, muitas vezes cercada de notícias falsas, tem criado um estigma de território tolerante com esse tipo de violência, o que termina por deixar as meninas do arquipélago mais vulneráveis.)
“Você acha que se votássemos por facilitar o aborto de crianças a gente iria resolver o problema da gravidez infantil no país?”, questiona Márcia. Toda a bancada do partido votou pela derrubada das diretrizes.
Ela reconhece que há demagogia em torno do assunto, uma vez que conhece mulheres de classe média que fizeram abortos em clínicas particulares e ninguém fica sabendo. O certo, a seu ver, seria investir em prevenção para que famílias vulneráveis pudessem se proteger.
Parece óbvio, mas hoje há bloqueios quase intransponíveis para tratar o tema de maneira eficaz. Partidos mais conservadores multiplicam as propostas contrárias à educação sexual básica das crianças, expondo a contradição de querer protegê-las, mas deixando em aberto os espaços que poderiam ajudá-las a identificar os sinais de abuso sexual.
Um dos poucos consensos no Congresso que fugiu da polarização foi o projeto sobre adultização de crianças nas redes sociais, apelidado de “Projeto Felca” ou “Lei Felca”. O tema ganhou projeção nacional após vídeo viral do influenciador Felipe Bressanim, o Felca, explicando como as redes sociais permitiam a monetização de vídeos que expunham menores de idade na internet. Diante da repercussão popular, a matéria foi votada com urgência nas duas Casas em agosto do ano passado.
Carolina Althaller, diretora executiva do Instituto Update, diz que apesar da polarização e a guerra narrativa entre mulheres progressistas e conservadoras, a convergência entre elas é maior do que parece. Uma pesquisa do Update, divulgada no ano passado, perguntou a 668 mulheres seu grau de concordância sobre alguns temas. A afirmação “As mulheres devem receber o mesmo salário que os homens quando ocupam cargos equivalentes” teve 87% de concordância total. Outras 7% concordavam em parte, e o restante se dividiu entre “não concordo e nem discordo”, e “discordo em parte”. Somente 2% discordavam totalmente.
Outras 72% concordavam totalmente que é preciso ter políticas de prevenção à violência contra a mulher.
“Há pautas em que é possível construir convergência sem abrir mão de princípios”, acredita Maria José Morais Costa, a Mazé, recém-eleita Secretária Nacional de Mulheres do PT. Ela cita, por exemplo, o enfrentamento ao tráfico de pessoas e exploração sexual, bem como saúde materna e combate à violência doméstica.
O tema da segurança pública tende a crescer este ano diante da alta de feminicídios no país, que bate recorde há dez anos seguidos, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em 2025, foram 1.470 casos.
A sensação de impunidade ainda prevalece no país, a ponto de os autores dos ataques desconsiderarem a presença de câmeras de segurança. Assim, o Brasil tem assistido às imagens de assassinatos de mulheres cada vez mais cruéis. Um dos crimes mais assustadores foi o da jovem Tainara, mãe de dois filhos, atropelada em plena Marginal Tietê, em São Paulo, por um ex-parceiro que se incomodou pelo fato de ela estar com outro homem num bar. Sobreviveu inicialmente, mas teve de ser internada às pressas e precisou amputar as duas pernas.
Ficou internada por mais de duas semanas no hospital e sua agonia foi seguida pelo Brasil todo, na esperança de que ela pudesse se recuperar. Tainara, porém, não resistiu e morreu no dia 24 de novembro do ano passado. Casos como esse vêm mobilizando a sociedade e devem respingar na campanha eleitoral.
Ao fim e ao cabo, uma ponte de diálogo entre as mulheres dos dois campos políticos para questões fundamentais como essa ajudaria a fazer o tema avançar. “A gente tem uma perda de energia muito grande com esse enorme racha e a resistência de olhar uma para a outra e dizer: ‘somos a mesma coisa diante desse problema‘”, reflete Ana Cláudia Santano, que também integra o Observatório de Violência Política contra a Mulher.
Seja pela esquerda ou pela direita, o aumento de mulheres na política só traz benefícios para além das fronteiras de Brasília. “Mulher na política ainda é um bicho estranho no Brasil, e se você naturaliza a presença dela, isso tem impacto lá na Câmara dos Vereadores das cidades do interior, que é lá onde o bicho pega”, explica ela, lembrando as mais de setecentas cidades que não elegeram nenhuma vereadora.
Outro efeito positivo, diz Ana, é o aumento das discussões de pautas que impactam diretamente o entorno da mulher, como o cuidado com os mais velhos da família. “Nós seremos responsáveis pelos cuidados dos idosos neste país e isso nos une”, diz ela, em referência ao envelhecimento da população brasileira com o fim do bônus demográfico. Tudo indica que, ao final do dia, as chefes de família continuarão cansadas e a política vai precisar dar conta delas.
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