Em novembro do ano passado, Emicida iniciou o lançamento de uma trilogia que homenageia a obra dos Racionais MC’s, o mais importante grupo de rap do país. A trilogia é também um modo encontrado por Emicida para se reconectar com o gênero do qual ele esteve afastado. Naquele mês, ele lançou Emicida Racional VL 3 – As aventuras de DJ Relíquia e LRX. VL é a abreviação de “vida loka”, tal como utilizada pelos Racionais, e também da palavra “volume”.
No mês seguinte, o rapper lançou Emicida Racional VL 2 – Mesmas cores & mesmos valores, como se numerasse os álbuns de trás para frente. O álbum é composto de mashups – a combinação de antigas músicas de Emicida, cantadas por ele, com beats (batidas que acompanham as letras) de clássicos dos Racionais.
Uma turnê foi organizada para o lançamento deste álbum. Começa no fim deste mês de abril, em São Paulo, e depois segue para Rio de Janeiro, Curitiba, Recife e Belo Horizonte. “Mano, está foda”, diz Emicida, sobre as complicações que vem encontrando para o espetáculo. A maior dificuldade é encaixar uma banda em um show de rap, que costuma contar apenas com um DJ, que produz a música, e um MC (mestre de cerimônia), que canta os versos e comanda o palco.
O terceiro lançamento da trilogia, ainda mantido sob sigilo, deve acontecer em novembro próximo. Em reportagem publicada na edição deste mês da piauí, Guilherme Henrique conta que no volume derradeiro Emicida vai cantar pela primeira vez algumas músicas dos Racionais, e não somente utilizar as batidas das canções.
Os lançamentos ocorrem em meio a uma disputa judicial entre Emicida e seu irmão Evandro Fióti, que é também músico e empresário. No dia 28 de março de 2025, ambos foram às redes sociais anunciar o fim da parceria no Laboratório Fantasma, empresa da qual eram sócios.
A disputa começou, ao menos juridicamente, em 22 de novembro de 2024, quando o rapper comunicou ao irmão o desejo de encerrar a parceria, segundo o processo que tramita no Tribunal de Justiça de São Paulo. Em 20 de dezembro de 2024, os irmãos assinaram um documento que estabelecia um prazo de três a seis meses para avaliação completa do patrimônio. Pouco tempo depois, a situação começou a degringolar. Em 30 de janeiro do ano seguinte, Emicida revogou uma procuração outorgada a Fióti em janeiro de 2015 para gerir o Laboratório Fantasma. Fez isso porque, segundo ele, identificou uma série de saques das contas da empresa feitos pelo irmão que não foram devidamente comunicados.
A briga tem mais nuances. No processo, Emicida diz que nunca teve um salário e que 80% do caixa da empresa vinha de sua atividade musical – ele também fez saques num total de 1,6 milhão de reais entre junho de 2024 e fevereiro do ano passado. O irmão, por sua vez, considerava insuficiente a remuneração mensal de 40 mil reais. Procurado pela piauí, Fióti não quis dar entrevista.
No dia 9 de abril de 2025, o Tribunal de Justiça decretou o sigilo do processo e, a pedido dos irmãos, determinou pausa de sessenta dias para que as partes tentem resolver o conflito de maneira amigável.
A notícia de que a parceria entre os irmãos estava ruindo demorou a chegar aos funcionários e funcionárias. “O burburinho começou em fevereiro. Ficamos apavoradas”, descreveu uma funcionária. Outra contou que a empresa se tornou um “ambiente tóxico” depois da briga dos irmãos. “Ficamos uns três meses no limbo. Passávamos os dias sem fazer nada e esperando alguma novidade. Não tinha mais nenhum projeto.” Em meados de junho do ano passado, os funcionários foram reunidos na sede da empresa para um processo de demissão coletivo.
Apesar da disputa judicial, o rapper demonstrou afeto pelo irmão na nossa conversa. “Uma vez minha esposa me disse: ‘Ele [Fióti] é o maior amor da sua vida e ficar brigando com isso vai fazer você sofrer’”, conta Emicida. “Eu amo meu irmão. Mas chegou um momento em que ele tem a busca dele, que é um desejo profundo de ser reconhecido como artista. Espero que ele seja muito feliz nessa trajetória. E eu tenho o desejo de conduzir as coisas que faço de outra maneira. Infelizmente, não conseguimos chegar a um denominador comum. Mas não necessariamente a ruptura precisa ser um fim.”