O governador e seu labirinto: a vassalagem que Tarcísio tem prestado a Jair Bolsonaro, inclusive ecoando seu discurso, machuca a Faria Lima, mas nada que um Melhoral não resolva CREDITO: LEON RODRIGUES_2024
A biruta
Por que Tarcísio enfrenta seu pior momento na corrida presidencial
Ana Clara Costa | Edição 227, Agosto 2025
No terceiro dia do Gilmarpalooza, o jocoso apelido do evento promovido pelo ministro Gilmar Mendes em Lisboa, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, deu duas palestras – uma sobre política externa, outra sobre segurança pública. As duas ocorreram no principal auditório da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e contaram com audiência ilustre dos mundos jurídico e empresarial, incluindo o próprio Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. Na abertura de uma delas, Tarcísio foi apresentado pelo mediador Raul Jungmann, ex-ministro da Defesa, como um “inequívoco presidenciável”. A plateia, composta quase totalmente de brasileiros, aplaudiu. Tarcísio sorriu com ar calculadamente envergonhado.
Em sua fala, o governador abordou temas nacionais, como vinha fazendo com certa frequência, para desgosto de seu padrinho político, Jair Bolsonaro, que se incomoda ao vê-lo por aí calçando sapatos de presidenciável. Também falou sobre geopolítica e multilateralismo. A certa altura, afirmou que, diante das incertezas globais, sempre haverá necessidade de segurança alimentar – e o Brasil, grande produtor agrícola, certamente se beneficiará disso. “Se o mundo precisa de um parceiro confiável em segurança alimentar, nós estamos aqui”, disse.
Em 9 de julho, cinco dias depois do tour em Lisboa, Tarcísio jogou o “parceiro confiável” na fogueira. Quando Donald Trump anunciou o tarifaço de 50% sobre as exportações brasileiras para os Estados Unidos, um meteoro atingiu em cheio a agricultura e toda a cadeia industrial paulista – e levou o governador de arrasto. Como Trump anunciou que seu objetivo era punir o Brasil em razão da “caça às bruxas” que o país estaria promovendo contra Bolsonaro por sua maquinação golpista, Tarcísio achou que havia uma escolha a fazer: defender publicamente o ex-chefe ou a economia do país – em especial a de São Paulo, principal exportadora para o mercado americano. Tarcísio, que já se deixou fotografar vestindo o boné do Maga, o movimento da direita trumpista, não titubeou e, em vez de criticar o presidente dos Estados Unidos, criticou o do Brasil:
– Lula colocou sua ideologia acima da economia, e esse é o resultado – postou nas suas redes sociais. – A responsabilidade é de quem governa. Narrativas não resolverão o problema.
Estava seguindo uma ordem de cima. Assim que a carta de Trump foi divulgada, Bolsonaro se consultou com aliados e decidiu que a posição do seu grupo político seria responsabilizar a política externa de Lula e a reunião de cúpula do Brics pela imposição da tarifa. Com 473 palavras, a carta de Trump não mencionava nenhum desses argumentos, mas Tarcísio obedeceu à ordem sem pestanejar. Em seu post, não disse nada em favor da economia nacional e ainda acusou o governo brasileiro de ter agredido “o maior investidor direto do Brasil”, o que colocou Trump como autor de um ataque justificado contra o país, quase um ato de legítima defesa. E, achando que narrativas resolverão o problema, escreveu que “não adianta se esconder atrás de Bolsonaro”, rebatendo o próprio Trump que atribuiu o tarifaço à defesa do ex-presidente.
A agricultura e a indústria de São Paulo – de onde saem mais de 13 bilhões de dólares em exportações anuais para os Estados Unidos, onde estão localizadas potências como a Embraer, a Suzano e a Cosan, onde se produz o suco de laranja que abastece 50% do mercado americano – ficaram órfãs de defensores em casa. O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, um político do MDB que vive bajulando Tarcísio para obter seu apoio a uma eventual candidatura ao governo estadual em 2026, cerrou fileiras ao ataque contra o Brasil. Sobre o post de Tarcísio, comentou: “Pontual. Preciso.” Guilherme Piai Filizzola, o secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado, também alinhou-se à posição do governador e atribuiu a tarifa à “ditadura” brasileira. “Viver em ditadura custa caro. E a fatura chegou.”
Ainda antes da publicação do post de Tarcísio, um editorial de O Estado de S. Paulo, jornal insuspeito de apoio ao presidente petista, demonstrou o incômodo do PIB paulista com a subserviência do governador ao trumpismo. Escreveu: “Vestir o boné de Trump, hoje, significa alinhar-se a um troglodita que pode causar imensos danos à economia brasileira. Caso Trump leve adiante sua ameaça, Tarcísio e outros políticos embevecidos com o presidente americano terão dificuldade para se explicar com os setores produtivos afetados. Eis aí o mal que faz ao Brasil um irresponsável como Bolsonaro, com a ajuda de todos que lhe dão sustentação política com vista a herdar seu patrimônio eleitoral.”
Depois da divulgação do post do governador, o coro das críticas subiu de tom. Em novo editorial, comentando a reação ao ataque de Trump, o Estadão classificou de “ultrajante” a complacência de Tarcísio, do mineiro Romeu Zema e do goiano Ronaldo Caiado, todos governadores da direita ávidos pelo espólio eleitoral do ex-presidente. “As reações públicas dos três serviram para expor a miséria moral e intelectual de uma parcela da direita que se diz moderna, mas que continua a gravitar em torno de um ideário retrógrado, personalista, francamente antinacional e falido como é o bolsonarismo.” Até o colunista do jornal O Globo, Merval Pereira, cujo currículo não contém deslizes esquerdistas, escreveu que a atitude submissa de Tarcísio demonstrava sua “falta de autonomia para se colocar a favor dos interesses nacionais” e acusou o governador de se comportar “como um direitista radical, não um político de direita com propensão ao diálogo”.
Um advogado que conhece Tarcísio há vinte anos assistiu a sua palestra no Gilmarpalooza em Lisboa e, depois, testemunhou o efeito do tarifaço em São Paulo. Ele conta a mudança dos ventos. “Em Portugal, quando o Tarcísio terminou de falar, ficou muito tempo ainda ali recebendo os cumprimentos das pessoas. Todos encantados. Era como se houvesse um fluxo inexorável de apoio a ele. Um movimento meio avassalador, desses que acontecem na política e ninguém consegue parar”, diz. A cena remete a outro ex-governador paulista, o tucano José Serra, que um ano antes da eleição de 2002, já era tratado como virtual presidente do país. Perdeu para Lula.
Em Lisboa, entre os encantados por Tarcísio, havia velhos amigos de Lula, como o empresário Marcos Molina, da Marfrig, gigante da exportação de carne que, assim como a concorrente JBS, seria alvo do tarifaço mais adiante. Depois, em São Paulo, a romaria era outra. “Há uma frustração meio geral”, diz o advogado. “A verdade é que Tarcísio não consegue ser tudo o que as pessoas querem que ele seja. Gestor e estadista ao mesmo tempo. Democrata, bolsonarista e tucano. Ele tem uma visão tática, não tem visão estratégica. Ele pensa na conjuntura do dia, o que faz com que as suas mudanças de vento sejam bruscas. Aí ele perde a consistência e as pessoas se perguntam: ‘No que ele acredita, afinal?’”
As reclamações do empresariado começaram no mesmo dia 9, quando Trump anunciou a tarifa. Tarcísio farejou o erro de sua reação inicial e, no dia seguinte, tentou recuperar terreno. Embarcou para Brasília, reuniu-se com Bolsonaro e colocou um novo plano em prática. Pediu uma reunião com o encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel Escobar, na tentativa de mostrar que estava empenhado na busca de uma solução negociada. Sem traquejo na diplomacia, meteu os pés pelas mãos. Funcionário de quarto escalão, Escobar foi nomeado pelo ex-presidente Joe Biden e não tem qualquer interlocução com a Casa Branca. Só continua em Brasília em razão da indiferença com que Trump vinha tratando o país. Escobar não tem mandato, nem cargo, nem caneta para interceder a favor do Brasil.
No mesmo dia, Tarcísio teve outra ideia extravagante. Segundo revelou a jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, o governador procurou o STF para pedir a liberação do passaporte de Bolsonaro. Assim, o ex-presidente poderia viajar aos Estados Unidos, acompanhando os presidentes da Câmara e do Senado, para tentar revogar o tarifaço – afinal, Trump dissera numa rede social que Bolsonaro era um “grande negociador comercial”. Era uma solução estapafúrdia, já que Bolsonaro não tem mandato, nem cargo, nem caneta para negociar em nome do Brasil. Segundo a Folha, alguns ministros do STF classificaram a saída como “surpreendente” e “esdrúxula”.
Em uma só tacada, Tarcísio cometeu um strike nas instituições: pleiteou um salvo-conduto internacional para o ex-
chefe junto à Corte que está em vias de julgá-lo; desqualificou a diplomacia brasileira, que é um órgão de Estado reconhecido pela sua competência para tratar temas comerciais; e aboliu o papel do presidente da República, que recebeu votos em 2022 justamente para descascar esse tipo de abacaxi. Como que para ampliar seu desrespeito ao STF, Tarcísio disse a jornalistas que “qualquer candidato da centro-direita daria um indulto a Bolsonaro”, caso a Corte venha a condená-lo, e, dias antes do tarifaço, escreveu numa rede social que Bolsonaro devia “ser julgado somente pelo povo brasileiro”. Tudo isso levou um ministro do STF a dizer o seguinte à piauí: “Tarcísio demonstrou ignorância quanto a parâmetros institucionais básicos.”
O empresário de um dos setores mais atingidos pelas tarifas, que pediu anonimato para não aumentar a cizânia, reconhece a falta de profissionalismo na atitude do governador, tanto que procurou o governo estadual para pedir um ajuste no discurso. Ele pondera que até a Frente Parlamentar da Agropecuária, o poderoso lobby da bancada ruralista no Congresso, mediu as palavras na hora de se manifestar sobre o tarifaço, tentando baixar a temperatura e estimular o diálogo, coisa que Tarcísio não fez. “Não é a primeira vez que o Tarcísio não fica atento a certas características do estado de São Paulo. Às vezes acho que pesa o fato de ser carioca. E não é bairrismo. Mas, quando você é paulista, você cresce com a cultura de que é o estado da cana, da carne, do suco de laranja. E isso, no interior, tem muita importância para as pessoas. Ele não tem a sensibilidade de pensar que o Brasil é o maior exportador do mundo de muitas dessas coisas, e ainda tem a aeronáutica, o aço… Faltou bom senso, faltou uma abordagem técnica. Ele sempre foi um cara técnico e acho que está se perdendo um pouco na política.”
Comportando-se como uma biruta, Tarcísio não conseguiu ganhar nem a gratidão da família do ex-presidente. Ao contrário. O deputado Eduardo Bolsonaro, que disputa com o governador o “dedaço” presidencial de Bolsonaro, não gostou. “O Tarcísio tem que entender que o filho do presidente está nos Estados Unidos e tem acesso à Casa Branca. Qualquer tentativa de nos dar bypass será brecada e freada”, disse, em entrevista à Folha de S.Paulo. Jair Bolsonaro também malhou o governador numa entrevista à CNN: “Não adianta um governador de estado, por mais respeito que eu tenha por ele, tentar resolver esse assunto dentro do seu estado, porque não resolve.”
Tarcísio decidiu então baixar o tom. Em mais uma mudança de rota, deixou de ser o governador que politizou o assunto desde o primeiro minuto, ao acusar Lula de priorizar a “ideologia”, dizer que “a reponsabilidade é de quem governa” e defender “o maior investidor direto do Brasil”. Em viagem ao interior de São Paulo no calor dos acontecimentos, parou de mencionar Bolsonaro e pregou “união de esforços e sinergia” porque “os poderes precisam estar de mãos dadas agora para resolver”. Elogiou a diplomacia que antes desprezara e redefiniu seu papel: “Eu sou governador do estado, existem interesses que precisam ser preservados, interesses das nossas empresas, dos nossos produtores, e é isso que a gente tem que botar em primeiro lugar. Eu estou falando de empregos, estou falando de pais de família.”
Na terça-feira, 15, seis dias depois do anúncio do tarifaço, assim que teve acesso a números então inéditos da pesquisa da Quaest, Bolsonaro também recalculou sua rota. Os números indicavam que, pela primeira vez desde a intentona golpista do Oito de Janeiro, a direita estava batendo cabeça. Nem os bolsonaristas vinham tocando pela mesma partitura. Para 48% deles, Trump estava errado, mas 42% achavam que estava certo. Pior ainda: 44% culpavam Lula, como era previsível, mas 36% atribuíam o tarifaço a outras razões, todas elas ligadas a Bolsonaro, ao seu filho Eduardo ou às gigantes da tecnologia, as chamadas big techs. À noite, Bolsonaro então deu uma entrevista ao site Poder360. Elogiou Tarcísio, disse que a direita não podia se dividir e colocou “uma pedra em cima desse assunto”. Tarcísio parecia voltar às águas mansas.
Na manhã do dia 18 de julho, uma sexta-feira, agentes da Polícia Federal bateram na porta da casa de Bolsonaro em Brasília, apreenderam 14 mil dólares em dinheiro vivo, acharam um pen drive escondido no banheiro e levaram o ex-presidente para colocar tornozeleira eletrônica. As suspeitas de que podia fugir do país e vinha tentando subverter seu processo judicial levaram a Procuradoria-Geral da República a pedir as medidas cautelares. Desde então, Bolsonaro está proibido de se ausentar de Brasília, sair de casa à noite, entrar em contato com outros investigados, usar as redes sociais e aproximar-se de embaixadas – inclusive a da Hungria, onde se homiziou por dois dias em fevereiro do ano passado.
Tarcísio então retornou à artilharia bolsonarista. Em uma nota, protestou contra as medidas cautelares, defendeu o ex-chefe, elogiou sua notável “coragem” e decretou: “Não haverá paz social sem paz política, sem visão de longo prazo, sem eleições livres, justas e competitivas.” A frase final produziu nova perplexidade: afinal, no que o governador acredita? Em março, durante um evento no Tribunal de Justiça de São Paulo, Tarcísio fizera elogios à Justiça Eleitoral, reconhecendo sua competência, rapidez e confiabilidade. “A gente tem que fazer o agradecimento à Justiça Eleitoral por todo esse trabalho, por todo esse empenho como garantidora da democracia brasileira”, disse. Agora, quatro meses depois, Tarcísio afirma que, se o nome de Bolsonaro não estiver na tela da urna eletrônica, as eleições não serão nem livres, nem justas, nem competitivas?
À noite do mesmo dia, Trump despachou outra sanção. Seu secretário de Estado, Marco Rubio, anunciou que estava cancelando o visto do ministro Alexandre de Moraes, do STF, e “seus aliados na Corte”. Mais tarde, soube-se que a sanção incluía o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e sete outros ministros do tribunal. Poupava apenas Kassio Nunes Marques e André Mendonça, nomeados por Bolsonaro, e Luiz Fux, indicado pela ex-presidente Dilma Rousseff. Tarcísio não se manifestou. Então, sua sexta-feira terminou assim: de manhã, com o anúncio de que Bolsonaro teria que usar uma tornozeleira, criticou duramente a decisão judicial; de noite, diante da tentativa de uma nação estrangeira de intimidar membros de uma instituição nacional, silenciou.
No labirinto dos acontecimentos, o caminho que Tarcísio vinha fazendo para obter o apoio de Bolsonaro à sua candidatura presidencial se alterou dramaticamente. As tensões – tarifas escorchantes, vistos cancelados, ameaças de novas sanções, tornozeleira eletrônica – tumultuaram o cenário que antes parecia claro: o candidato do ex-presidente em 2026 seria um membro de sua família ou Tarcísio. Eduardo, o filho mais interessado em concorrer, enrolou-se de maneira talvez irreversível ao ameaçar o Supremo e atentar contra a soberania nacional. Fez bonito para a base radical do bolsonarismo, tanto que ganhou terreno nas pesquisas, mas assustou outros segmentos com seu destempero.
Apesar da atitude errática, é prematuro dizer que o governador tenha perdido o apoio do PIB ou do Centrão à sua candidatura presidencial. Em conversas privadas, empresários de setores afetados e dirigentes da Fiesp, a entidade que reúne os industriais paulistas, têm dito que, diante da hecatombe, Tarcísio foi o menor dos problemas – e, para muitos deles, os negócios são mais importantes do que a soberania nacional. No entanto, um termômetro da frustração do mercado está no comportamento de Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central. Ele é amigo de Tarcísio, tanto que seu nome é tratado como o futuro ministro da Fazenda caso o governador vire presidente, mas sua confiança está abalada. Na campanha presidencial, Campos Neto ajudou Bolsonaro rodando modelos econométricos para medir suas chances eleitorais. Está fazendo o mesmo agora com Tarcísio. Em junho, seus modelos indicavam que o governador tinha 80% de probabilidade de vencer Lula no ano que vem. Agora, ressabiado, tem dito a amigos que seria prudente buscar um outsider para 2026. Parece que Tarcísio terá de remar um pouco mais para continuar sendo o plano A.
Desde que foi nomeado ministro da Infraestrutura do governo de Jair Bolsonaro, Tarcísio sempre procurou mostrar ao empresariado, a portas fechadas, que desaprovava as atitudes radicais do chefe. Era visto como integrante do núcleo político que discordava das críticas à vacina e da agenda ideológica, e se atritava com o tenente-coronel Mauro Cid, ajudante de ordens do presidente que insuflava a ala radical.
Nada disso impediu Tarcísio de acompanhar Bolsonaro em atos de aglomeração durante a pandemia e manter-se indiferente às discussões sobre “alternativas constitucionais” para segurar Bolsonaro no poder. Já eleito governador, condenou a quebradeira do Oito de Janeiro, mas apareceu na primeira fila das manifestações pela anistia aos golpistas. “A pauta da anistia ele sempre defendeu. Ele esteve em todas as manifestações. Foi o único governador que foi em todas”, elogia o deputado Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara.
Quando assumiu o governo paulista, Tarcísio anistiou por decreto as multas de quem promoveu aglomeração durante o isolamento. Com isso, Bolsonaro recuperou quase 1 milhão de reais em multas que já haviam sido depositados em juízo. Outras 11 mil multas foram anistiadas. O governador também havia sido autuado por infringir a lei (três vezes), mas, quando a anistia chegou, já havia saldado sua dívida. Como um dos primeiros atos de sua gestão, ele fez outro aceno ao bolsonarismo: retirou a obrigatoriedade de comprovantes de vacinação para entrada em locais públicos e privados. Ao montar sua equipe, atendeu a um pedido de Bolsonaro e seus filhos e entregou a Secretaria de Segurança Pública a Guilherme Derrite, um ex-policial acusado de integrar um grupo de extermínio.
Enquanto fazia concessões ao bolsonarismo, o governador tentava costurar alianças do lado oposto, na ilusão de transitar sem obstáculos entre Berlim e Stalingrado. Acatou a indicação bolsonarista de Derrite, mas também aceitou a sugestão do ministro Alexandre de Moraes, que foi secretário de Segurança Pública em São Paulo, segundo a qual deveria nomear um adjunto experiente no órgão para compensar os defeitos e as carências de Derrite. Tarcísio nomeou o delegado Osvaldo Nico, da Polícia Civil. O governador também ouviu Moraes na nomeação do procurador-geral de Justiça. Escolheu Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, que ficara em terceiro lugar na votação da lista tríplice do Ministério Público de São Paulo, preterindo o primeiro colocado, José Carlos Cosenzo, que era desafeto do ministro. Moraes fora advertido que Cosenzo dizia por aí que ele cometera plágio. (Em 2017, o ministro foi acusado de copiar trechos do livro de um ex-juiz espanhol ao escrever sua obra Direitos humanos fundamentais. Ele negou o plágio. A Universidade de São Paulo, sua alma mater, referendou sua defesa afirmando que não encontrara evidência de cópia.)
As deferências a Moraes não passaram despercebidas ao núcleo do ex-presidente, e suas demonstrações de fidelidade começaram a ser vistas como demonstrações de falsidade. Um aliado de primeira hora de Bolsonaro diz que não há problema em Tarcísio dialogar com Moraes. O problema está no fato de que ele não exerce qualquer influência sobre o ministro. “Ele não é o segundo nome mais poderoso da República, o governador do maior estado? Tinha que estar continuamente no pé dos caras, mas ele está engolido pela Corte”, diz. Para ele, por exemplo, Tarcísio precisava ter obtido garantias de que o passaporte de Eduardo Bolsonaro não seria apreendido. “Mas não teve isso.”
Ainda no governo Bolsonaro, o então ministro Tarcísio aproximou-se de Alexandre de Moraes, num movimento que contou com a ajuda do ex-presidente Michel Temer. Na época, tanto Temer quanto Tarcísio faziam parte da turma dos bombeiros que tentavam apagar os incêndios que Bolsonaro armava contra o STF. Recentemente, Tarcísio também se tornou próximo de Rodrigo Garcia, ex-governador paulista e um dos amigos mais íntimos de Alexandre de Moraes. Neste ano, porém, as relações entre Tarcísio e Moraes estremeceram depois que o governador passou a subir em carros de som na Avenida Paulista em defesa dos golpistas do Oito de Janeiro. Mesmo milimetrando seus movimentos – a ponto de só usar a camiseta azul da Seleção, em vez da amarela –, Tarcísio não escapou das críticas do STF, que não engoliu a defesa da anistia – sobre a qual, aliás, o governador agiu em termos práticos.
Tarcísio esteve entre os que se empenharam em recolher assinaturas para aprovar a urgência da votação do projeto na Câmara. Em maio, durante conversa com a piauí, o deputado Sóstenes Cavalcante contou que precisava do apoio de deputados do Republicanos, mas não conseguira ajuda do presidente do partido, Marcos Pereira. Recorreu a Tarcísio. “Eu tinha a ajuda do Ciro [Nogueira], que é do Progressistas, tinha a ajuda do [Gilberto] Kassab, do PSD, e tinha ajuda do [Antonio] Rueda, do União Brasil. Eu não tinha a ajuda do Marcos Pereira. Nem dele, nem do líder dele. Aí liguei para o Tarcísio e falei: ‘Governador, o senhor é do Republicanos. Eu preciso da sua ajuda para fechar essas 247 assinaturas’.” Tarcísio entregou quatro assinaturas de São Paulo. O projeto nunca foi pautado, mas o líder do PL reconhece o esforço. “Ele fez o papel de governador, de aliado de primeira ordem de Bolsonaro, dentro do limite do cargo que hoje ele ocupa. E fez bem, na minha avaliação”, diz Cavalcante.
Entre o cravo e a ferradura, Tarcísio vem angariando antipatias discretas. “Ele acha que engana quem?”, desabafou um ministro do STF numa conversa com um amigo. “Ele diz que respeita as instituições, mas fica no carro de som enquanto o [pastor] Silas Malafaia fala contra o Alexandre? Não critica o STF, mas fica no carro?” Um amigo de Moraes, ouvido pela piauí sob a condição de não ter seu nome exposto, avalia que, até o tarifaço, Tarcísio vinha exibindo mais proximidade com o ministro do STF do que de fato tem. Era sua forma de vender a imagem de “direita moderada”.
O mesmo interlocutor observa que, em seus salamaleques em direção ao STF, Tarcísio estava pavimentando o caminho de um acordo para indultar a Bolsonaro sem causar uma crise institucional, caso fosse eleito. Em troca do indulto, Tarcísio trabalharia contra a pauta de impeachment de ministros do STF no Senado, um risco que pode crescer com a eleição do ano que vem, na qual Bolsonaro, mesmo preso, almeja eleger uma bancada robusta – o PL diz ser favorito para 32 das 54 vagas, embora ainda não haja pesquisas que corroborem essa previsão. Não à toa, Carlos Bolsonaro disputará a vaga por Santa Catarina e Michelle Bolsonaro é considerada vitória certa no Distrito Federal. Eduardo Bolsonaro, diante do provável ocaso de sua empreitada presidencial, agora é cotado para concorrer por São Paulo – se ainda estiver solto. Não se sabe se o toma lá dá cá chegou ao ministro Alexandre de Moraes, mas políticos do Centrão interessados em viabilizar Tarcísio têm feito questão de ventilar a proposta nos bastidores. “Nunca existiu a menor possibilidade de acordo. O STF cassaria o indulto”, aposta o amigo de Moraes. Em um despacho anexado ao processo do golpe, depois da cassação dos vistos americanos, Moraes afirmou que a anistia é “inconstitucional”, sinalizando que o indulto também não seria aceito pelo tribunal.
A notável maleabilidade das convicções de Tarcísio é, a um só tempo, alvo de críticas e elogios. Um de seus secretários, que falou com a piauí sob a condição de ficar anônimo, diz que é um comportamento positivo, tanto que levou o governador a voltar atrás na decisão de acabar com as câmeras corporais dos policiais militares. “Ele disse: ‘Eu errei.’ Tarcísio achava que a presença da câmera significava desconfiança do soldado e depois entendeu que era para a própria segurança do soldado.” Um ex-
colega de Esplanada, no entanto, classifica a flexibilidade do governador como coisa de “bolsonarista fajuto”, que tenta se cacifar como aliado fiel de Bolsonaro, enquanto delega a Gilberto Kassab a função de fazer política no estado. Para interlocutores mais ligados à esquerda, Tarcísio já disse, em outro lance camaleônico, que só usou o boné do Maga porque precisa jogar iscas para agradar o bolsonarismo a cada dois meses.
Donde volta a pergunta: No que o governador acredita, afinal?
Um influente operador de Brasília, que conhece Tarcísio bastante bem, atribui a facilidade com que o governador altera seu rumo – ora radical, ora moderado, ora tecnocrata – ao contexto político atual. “Ele tem o estilo de ficar agradando todo mundo. E político, para ter voz, tem que ter lado. A pior coisa para um político é não ter discurso. Até agora, ele não precisou ter discurso porque a eleição caiu no colo dele. Ele não precisou ter bandeira”, pondera. Já o economista José Márcio Camargo, sócio do Banco Genial, em uma conversa com a piauí em junho, avalia que Tarcísio é habilidoso e não se deixará tutelar. “Ele trabalhou para a Dilma, para o Temer, para o Bolsonaro. Sempre foi muito independente no sentido de fazer as coisas que precisavam ser feitas. Ele tem uma história. Ele não é servidor do Bolsonaro. Ele tem lealdade, com toda a razão, pois foi o Bolsonaro que o indicou para o cargo de governador. Não dá para jogar isso no lixo.” Quando voltei a procurá-lo depois do tarifaço, Camargo disse que sua avaliação continuava a mesma.
Na sua ciranda, Tarcísio tem feito testes com múltiplas máscaras. Em eventos no exterior, sobretudo aqueles patrocinados por bancos brasileiros em Nova York, ele capricha no discurso sobre a pauta nacional, toma vinho e discute sobre o “pipeline de projetos” com o mercado financeiro. Em viagens ao interior de São Paulo, já arrastou o erre caipira, escondendo seu carioquismo, e enalteceu a música sertaneja, ou o “modão”, como ele costuma dizer em vídeos nas redes sociais. Quem o conhece desde os governos petistas lembra que ele jamais mencionara dois dados de sua biografia que hoje nunca esquece: seu passado militar e sua devoção religiosa. Esses traços só vieram a público quando Tarcísio tornou-se ministro de Bolsonaro.
Até então, era católico não praticante, mas agora revela certa destreza no mundo evangélico. Na última Marcha para Jesus em São Paulo, embrulhou-se numa bandeira de Israel e cantou louvores de olhos cerrados, como se estivesse em transe. Em abril passado, no aniversário de 50 anos do empresário Ricardo Faria, conhecido como Rei do Ovo, comemorado no Hotel Fasano Boa Vista, a advogada Guiomar Mendes, mulher do ministro Gilmar Mendes, puxou um cântico muito usado no rito católico para homenagear o aniversariante. Os convidados vips da festa, entre senadores, governadores, ministros do STF e banqueiros, foram puxados ao palco para cantar junto – e lá estava Tarcísio, entoando a plenos pulmões o refrão religioso.
Na festa, ao passar por rodas de empresários, ele ouvia cumprimentos efusivos e apelos para que os “salvasse”. Salvar, neste caso, significava candidatar-se à Presidência da República e ganhar de Lula em 2026. Uma colunista social do site Infoverus, especializado em notícias do agro, registrou a cobertura da noite em suas redes sociais. Tarcísio, a estrela do pedaço, aparecia em mais fotos do que o próprio aniversariante.
Tarcísio Gomes de Freitas tem 50 anos e é filho de um carregador de caixas que depois fez carreira no Banco do Brasil e de uma empregada doméstica. Em boa parte de sua trajetória, viveu em condições modestas. Antes de tornar-se ministro, morava num apartamento de dois quartos em Águas Claras, cidade-satélite de Brasília, com a mulher, Cristiane, e um casal de filhos. De início, ascendeu no governo graças a suas ligações com o PT. Em 2011, ainda era apenas um auditor recém-ingressado na Controladoria-Geral da União, quando procurou o engenheiro Bernardo Figueiredo, diretor da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Apresentou um diagnóstico que traçara sobre o setor, com especial atenção ao Dnit, órgão federal que cuida das estradas. Figueiredo gostou muito do que viu. Quando quis conter a roubalheira no Ministério dos Transportes, comandado pelo pl, a então presidente Dilma Rousseff pediu a Figueiredo sugestões técnicas para as diretorias. Figueiredo indicou Tarcísio, que acabou diretor executivo do Dnit. Quando batia de frente com malfeitos da turma de Valdemar Costa Neto, Tarcísio, quem diria, procurava o pt em busca de apoio político. Era atendido.
Enfraquecida politicamente em 2014, Dilma começou a perder a queda de braço no Dnit e, quem diria, Costa Neto conseguiu derrubar Tarcísio. Demitido, ele fez concurso para consultor da Câmara dos Deputados, passou em primeiro lugar e assumiu o cargo em 2015. Durante o impeachment de Dilma, Tarcísio criticou os governos petistas em audiências na Câmara. A oposição cresceu o olho. Convidou-o para integrar o governo de Michel Temer, ocupando cargo na Secretaria Especial do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), chefiada por Moreira Franco. Em entrevista à piauí em 2022, Moreira Franco contou que Tarcísio foi uma contratação técnica, que “nem sabia” de sua proximidade com o PT e tampouco fora informado de que tinha formação militar. “Naquele período ele tinha uma conversa muito mais tucana do que bolsonarista”, diz Moreira Franco. Ele se lembra que Tarcísio trabalhava muito e não demonstrava inclinação política, nem simpatia pela extrema direita.
Com a vitória de Bolsonaro, formou-se a equipe de transição entre os governos. Moreira Franco nomeou outro membro de sua equipe para compor o grupo. Mas Tarcísio arrancou uma indicação por meio de empresários da soja que conhecera na época do Dnit. Foi então nomeado auxiliar de Tereza Cristina, que viria a ser ministra da Agricultura. Chegou a ser sondado para chefiar uma das secretarias de Romeu Zema, governador de Minas Gerais, mas recusou: queria um cargo de mais destaque em Brasília. Com ajuda dos empresários do agro e da própria Tereza Cristina, ganhou a vaga de ministro da Infraestrutura. Estava consolidado o seu voo: de Dilma para Bolsonaro, com escala em Temer.
Em meados de 2020, quando Bolsonaro decidiu que Tarcísio seria candidato ao governo de São Paulo, ele não botou fé, mas não se opôs. Colocou placas de porcelana nos dentes, passou a vestir-se melhor e intensificou sua agenda com o empresariado paulista. Filiou-se ao Republicanos, ainda magoado com o tratamento que recebera do PL no Dnit. Como o eleitorado paulista rejeitava Bolsonaro no auge da pandemia, Tarcísio foi aconselhado a moderar o discurso e migrar para o centro. Nesse período, chegou a dizer em entrevista ao site Agência INFRA que Dilma “era uma pessoa honesta” e que “pode ter errado em deixar que a corrupção acontecesse no governo dela”, mas que ela “não tinha nada” de corrupta. Bolsonaro, porém, logo passou a recuperar prestígio entre os eleitores paulistas, e Tarcísio já não tinha interesse em distanciar-se dele. Os filhos do ex-presidente jamais perdoaram a inflexão oportunista.
Quando Bolsonaro tornou-se inelegível até 2030, as atenções da direita se voltaram para o possível sucessor – e Tarcísio surgiu como nome favorito do “bolsonarismo sem Bolsonaro”. Era um desafio contrário ao da mulher de César, que, além de ser honesta, precisava parecer honesta. No caso de Tarcísio, a direita considera até bom que seja um bolsonarista, mas que não se pareça um. Para o Centrão, considerando que a Faria Lima e o empresariado nacional nunca engoliram o PT, era a solução ideal. O único obstáculo é que nenhum deles – nem Centrão, nem Faria Lima, nem empresários – mobiliza votos e eleitores. Tarcísio precisaria então dos votos e dos eleitores de Bolsonaro.
Desde que deixou a Presidência da República, Jair Bolsonaro comanda uma disputa velada pelo seu espólio que, segundo os cálculos da Quaest, chega a 11% do eleitorado – ou 34%, se incluídos aí os bolsonaristas menos sólidos. Depois que se tornou inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral, em junho de 2023, a disputa ganhou maior tração, mas Bolsonaro faz questão de adiar a sua escolha o quanto pode. Tarcísio até pode acabar sendo o escolhido, mas o ex-presidente já disse a aliados mais próximos que sua escolha só recairá sobre o governador se não tiver nenhuma outra opção dentro da sua família.
No vácuo da indecisão, a família se insinuou: Eduardo, o Zero Três, reunia as melhores chances devido à ausência de rolos com a Justiça – até tropeçar nas tarifas contra o Brasil. Michelle, a ex-primeira-dama, corre por fora. “A Michelle reúne mulheres, evangélicos, bolsonaristas e a direita”, diz o pastor Silas Malafaia, ao listar as razões pelas quais considera a ex-primeira-dama um nome imbatível. Mas Michelle, embora carregue o sobrenome Bolsonaro, tem duas fragilidades: ela não desfruta da confiança dos filhos do ex-presidente, e o casamento com alguma frequência bate pelas tabelas. Quando Bolsonaro partiu para a Flórida, às vésperas da tentativa de golpe, aliados tiveram que insistir para que a ex-primeira-dama o acompanhasse. Caso contrário, Bolsonaro, além de derrotado nas urnas, também ficaria com a pecha de marido abandonado.
Com o cenário assim configurado, os maiores adversários de Tarcísio estão dentro da própria família Bolsonaro, num processo autofágico que o cientista político Antonio Lavareda chamou de “primárias da direita”. O tarifaço de Trump acabou expondo uma cisão em cujas profundezas encontra-se um fato singular: os filhos e a mulher acreditam que, além deles próprios, ninguém é tão bolsonarista a ponto de merecer a distinção de levar o balaio dos votos de Bolsonaro. Nem Tarcísio, é claro.
No primeiro semestre deste ano, o mercado financeiro lançou especulações de que o ex-presidente havia tomado a decisão de apoiar Tarcísio. A máquina bolsonarista, sob o comando dos filhos, entrou em ação. Começaram a circular nas redes sociais vídeos feitos por inteligência artificial em que pessoas vestidas de verde-amarelo criticavam o governador. Em um deles, um patriota atacava: “Esse vendido amigo do Xandão só é governador para o Centrão, para a Faria Lima e para o STF.” Em grupos de WhatsApp, apareceu um dossiê, sob o título São Paulo na engrenagem verde, que denunciava Tarcísio pelo pecado de implementar uma “agenda climática” no estado. Na última manifestação na Avenida Paulista, enquanto Tarcísio discursava a favor da anistia, o canal no YouTube da AuriVerde Brasil, hoje o maior reduto de bolsonaristas raiz, exibia mensagens depreciativas ao governador.
O jogo de pressões e intrigas – a Faria Lima empurrando numa direção, os filhos empurrando em outra – contaminou Bolsonaro. Ele chegou a se indispor com Tarcísio, alegando que seu pupilo nunca desmentia com veemência rumores de que era candidato. Bolsonaro disse publicamente que o governador não era “excepcional” e que era “um bom político, como tem outros nomes pelo Brasil”. Um interlocutor do Centrão, hoje mais próximo do governador do que do ex-presidente, conta: “O Bolsonaro chegou a chamar o Tarcísio de lado e dizer que ele mesmo ia ser candidato e que o Tarcísio sairia por São Paulo.” Em razão desse aviso, Tarcísio disse mais tarde, durante um evento de bancos brasileiros em Nova York, que não havia “direita sem Bolsonaro”.
As leituras, embaladas nos interesses de cada um, se multiplicam. Ainda em Nova York, um empresário se reuniu com Tarcísio e saiu com a impressão de que, entre todos os presidenciáveis, ele era o que menos aparentava a intenção de concorrer. O círculo mais próximo de Tarcísio explica que, naquela altura, ele andava irritado com as demonstrações de desprezo por parte de Bolsonaro. Mas continuava engolindo sapo, bajulando o ex-presidente e batalhando para fazê-lo ver que não tinha intenção de sabotá-
lo mais adiante. Um entusiasta de sua candidatura, também em Nova York, viu tudo e aconselhou Tarcísio a ter cuidado em sua relação com Bolsonaro, que era manipulador e conduziria a situação de tal modo que Tarcísio ainda sairia como traidor, e não como vítima.
Na conversa que tivemos em maio, Sóstenes Cavalcante, o líder do PL, cravou a razão de Bolsonaro cozinhar sua sucessão em banho-maria. “No dia em que ele anunciar que o candidato é o Tarcísio, ele perde todo o capital político, né? E transfere isso para uma outra pessoa num momento em que ele está fragilizado, com um processo nas costas. Então ele não pode”, afirma. Quando seria o momento ideal? Há quem sugira que Bolsonaro defina seu candidato antes de ser condenado e preso. Assim, teria mais força para emplacar um filho ou Michelle como vice de chapa, além de negociar um indulto e indicações para ministérios. Mas outros avaliam que esticar a corda até o último minuto pode aumentar o valor de seu passe, sobretudo se ele mantiver acesa a dúvida sobre lançar ou não o filho ou a mulher ao cargo.
Mas tudo isso fazia mais sentido até o dia 9 de julho, quando Trump tarifou o Brasil em nome de Bolsonaro – e Bolsonaro passou a acreditar que o presidente americano vai acabar com a “caça às bruxas”, possivelmente evitando sua prisão e restituindo seus direitos políticos. O cenário, então, entrou em convulsão. Um punhado de aliados afirmam que o ex-presidente está ainda mais radicalizado e disposto a partir para o tudo ou nada. Os sintomas apareceram em uma entrevista à CNN, na qual reincorporou a figura do desequilibrado. Aos berros, disse: “Porra, que golpe? Que golpe é esse? Sem tropa? Sem Forças Armadas? Sem nada?” Depois, disse que “eleição sem oposição é golpe”, deixando claro que só ele, ninguém mais, pode representar o campo da oposição.
Tarcísio, por sua vez, além de tropeçar nas próprias pernas, está mais fragilizado porque o tarifaço atiçou apetites alheios. Os governadores Romeu Zema, de Minas, e Ronaldo Caiado, de Goiás, que andavam meio apagados diante da força de Tarcísio, correram para avisar ao público que fariam de tudo para indultar Bolsonaro, caso se elegessem. Outro que voltou a levantar a cabeça é o governador Ratinho Junior, do Paraná, embora seu discurso seja mais comedido, tanto nas promessas ao bolsonarismo, quanto nas expectativas para 2026. Em rodas de empresários paulistas, o paranaense já disse que “perder do Lula é quase uma vitória, porque meu nome ficaria nacional”. Depois, em 2030, sem Lula nem Bolsonaro na jogada, Ratinho calcula que poderia ser a sua vez.
Feitas as contas, a aparente unidade da direita se quebrou e, entre todos os nomes na berlinda, Tarcísio tem uma peculiaridade que não o ajuda: ele é o mais dependente da boa vontade do ex-
presidente. A avaliação é de Aldo Rebelo, o conselheiro de Bolsonaro que já foi comunista e ministro de Lula e Dilma: “Ao contrário do Caiado, do Ratinho e do Zema, que construíram uma história própria em seus estados, Tarcísio em São Paulo é uma criação de Bolsonaro. Com o apoio de Bolsonaro, é um forte candidato. Sem ele, é inviável.” Sua opinião não mudou com o tarifaço.
Não se sabe o que o governador Tarcísio de Freitas sentiu às 17h17 do dia 9 de julho, quando Trump postou na sua rede, a Truth Social, o aviso do tarifaço. Mas, considerando-se sua primeira reação pública, é fácil concluir que Tarcísio não entendeu nada – e, portanto, não deve ter pressentido que a muralha de certezas do Centrão que o cercava até então estava começando a ruir. E eram muitas certezas. O senador Ciro Nogueira (PP-PI) era um dos mais otimistas em relação às chances eleitorais da direita. Ignorando o fato de que Bolsonaro está inelegível, chegou a garantir ao ex-presidente que tanto ele quanto Michelle derrotariam Lula. Os irmãos Eduardo e Flávio, na avaliação de Ciro Nogueira, também poderiam derrotar o petista, embora não fossem favoritos. E Tarcísio, então, era um tiro tão certo que, provavelmente, Lula até deixaria de concorrer à reeleição, assustado com o apoio massacrante ao rival. Tudo isso porque, para o senador, Tarcísio tem o potencial de Bolsonaro, mas sem sua rejeição.
Gilberto Kassab, o homem do PSD, fazia projeções menos espetaculares, mas ainda positivas. Segundo os trackings que acessava, Lula ganharia de todos os outros, mas ficaria quatro pontos percentuais atrás de Tarcísio. Era pouco, mas o suficiente para que Kassab abandonasse seus instintos anfíbios e encarasse o projeto de lançar Tarcísio. Até o final de 2024, Kassab era peremptório sobre o futuro político do governador: a reeleição. A partir do início deste ano, virou a chave e passou a dizer publicamente que, se Tarcísio concorresse à Presidência, o PSD estaria do seu lado. Era um recado inusitadamente sólido para um partido de gelatina. Na única vez em que conduziu uma operação sem ter um pé em cada canoa, Kassab se deu bem. Desembarcou do governo de Dilma, abraçou o impeachment e embarcou no governo de Temer. Agora, fechado com Tarcísio, Kassab vinha repetindo a mesma estratégia até que Trump apareceu. Resgatando as inclinações anfíbias, Kassab se absteve de entrar na briga retórica do tarifaço. E as canoas voltaram para onde sempre estiveram, à espera de um pé qualquer.
Antonio Rueda, presidente do União Brasil, partido que detém três ministérios no governo, tem dito que a candidatura que levará o apoio da sigla será “do centro para a direita”. Apoiar Lula, desde já, não é uma opção. Mas ele tampouco se refere a Tarcísio como uma aposta concreta. “O esforço é para que tenha um nome único do centro [é como ele se refere ao Centrão]. O União Brasil tem hoje um pré-candidato, que é o Caiado. Eu vou tentar trabalhar pelo Caiado. Mas isso só vai ser definido no ano que vem. Tarcísio não se anunciou pré-candidato. Desses todos, é o que está melhor, mas não é pré-candidato”.
Enquanto isso, o fato é que Lula voltou ao jogo – pelo menos por enquanto. A mais recente pesquisa da Quaest, pós-
tarifaço, mostra que o presidente ganharia de todos: de Michelle, de Eduardo, de Bolsonaro e do próprio Tarcísio, embora, neste caso, com apenas quatro pontos à frente, o que fica dentro da margem de erro. O quadro deixa Tarcísio mais uma vez na corda bamba. É improvável que o governador agora comece a se distanciar do padrinho, mas o custo de se associar a ele aumentou. “Hoje, 44% dos eleitores têm medo de Bolsonaro voltar ao poder. E 41% temem a vitória de Lula. A direita está se organizando para ter os benefícios do apoio do Bolsonaro. Mas ninguém está olhando para os problemas associados a isso”, diz Felipe Nunes, sócio do Quaest, referindo-se à alta rejeição.
Na política, a perda de combustível tem efeito dominó. A candidatura presidencial de Tarcísio e a sua sucessão no governo de São Paulo pareciam encaminhadas, mas agora nem isso está garantido. Neste cenário, Tarcísio também se comporta com a dubiedade que lhe é característica. O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, do MDB, quer concorrer ao governo do estado. Gilberto Kassab, do PSD, também almeja o mesmo cargo. Guilherme Derrite, o acusado de atuar em grupo de extermínio, é outro que articula para se candidatar ao Executivo paulista. Em público, Tarcísio não fala nada. Em privado, diz que Ricardo Nunes não tem estatura para ser governador, que Kassab é “pesado demais” para carregar numa campanha e que o problema de Derrite não é o excesso de sangue, mas o fato de não ser “um bom gestor”. No retrato de hoje, o bolsonarista André do Prado (PL), presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, seria a sua aposta para a sucessão.
No final de maio, o banqueiro André Esteves, dono do BTG Pactual, reuniu cerca de trinta clientes importantes na sede do seu banco, no Rio de Janeiro, e fez uma declaração sem margem para dúvidas. Estava mais do que na hora de Bolsonaro anunciar Tarcísio como candidato ao Palácio do Planalto para salvar o Brasil. Lula, disse ele, não tinha mais saída. No mês seguinte, em um evento para agentes autônomos em Mendoza, na Argentina, Guilherme Benchimol, da XP Inc., seguiu na mesma linha: era Tarcísio na cabeça e Lula na aposentadoria. Antes disso, no Carnaval passado, até o empresário Luciano Hang, o Véio da Havan, que chegou a perseguir seus funcionários para forçá-los a votar em Bolsonaro, não escondia de seus amigos e interlocutores que estava ao lado de Tarcísio. A parada parecia ganha.
Esse clima de certezas festivas se evaporou, mas Tarcísio continua sendo – de longe – o nome preferido do mercado financeiro, da Faria Lima, do empresariado, das elites industriais, dos banqueiros. E Roberto Campos Neto, que irritou a Faria Lima em razão da negligência com que tratou as denúncias sobre o Banco Master durante sua passagem pelo Banco Central, segue sendo o candidato do coração para ministro da Fazenda em um eventual governo Tarcísio, ainda que esteja recomendando a busca por um outsider.
A boa relação do governador com o empresariado começou ainda no Dnit, nos anos 2010, quando se aproximou da turma do agro. No início, via com ressalvas as relações entre gestores públicos e o setor privado. Com o tempo, habituou-se à nova realidade e passou a fazer parcerias com empreiteiros e produtores rurais, interessados em escoar sua produção por estradas melhores. Nesse período, um de seus principais aliados era o empresário Eraí Maggi, primo do ex-senador Blairo Maggi, um gigante da soja. Num acidente em que seu carro capotou oito vezes, Tarcísio foi socorrido por Eraí. Ficaram amigos, e Eraí acabou sendo fundamental para que Tarcísio virasse ministro de Bolsonaro.
Quando já estava fora do governo Dilma, depôs numa CPI sobre a Funai e o Incra, e teve que responder a dois questionamentos do PT: o privilégio que dava a produtores rurais, em detrimento do bem-estar de comunidades indígenas, e as caronas que pegava em jatinhos de um empresário com negócios no Dnit. Não defendeu, nem negou, a prioridade aos ruralistas, mas disse que, se Lula podia voar de carona com empresários, ele também podia. No governo Temer, ao tocar as parcerias público-privadas, ampliou contatos com o setor de infraestrutura, deixando boa impressão entre os empresários da área e se cacifando para integrar o governo Bolsonaro. “Isso não me surpreendeu”, diz um interlocutor do mercado que o conheceu na época em que Tarcísio dava expediente na Câmara. “Ele de fato colocou de pé o projeto das parcerias. É um cara afável, simpático, explica com paciência. Mas é um malandro. Nunca tinha comentado que era militar. É um carreirista, né? Um sobrevivente em Brasília.” A fonte, note-se, usa “malandro” e “carreirista” como elogio.
Como ministro de Bolsonaro, não atraiu mais atenção porque os contatos com o meio empresarial eram monopolizados pelo chefe da Economia, Paulo Guedes. Por isso, só passou a ser observado no detalhe quando se tornou candidato ao governo de São Paulo – e foi rapidamente assimilado. Antes mesmo de vencer nas urnas, já circulava com naturalidade entre os principais nomes do PIB paulista. Ao assumir, lançou um plano de ajuste fiscal prevendo cortes de gasto de custeio e desonerações de ICMS para empresas – a mesma ideia de Fernando Haddad, mas aplicada aos impostos estaduais.
Em sua gestão, cortou 84 benefícios fiscais e revisou 17, mas, em razão da concessão de novas isenções e estimativas incorretas sobre o desempenho da economia e da inflação, a projeção de gastos acabou subindo quase 20% para o ano que vem. Na prática, seguiu uma política tucana de controle fiscal. Um ex-secretário da Fazenda reclama que o governador costuma fazer o que políticos fazem: colocar-se como autor de todas as coisas boas, quando, na verdade, está seguindo o que foi planejado em governos anteriores. “Parece que quando ele assumiu não tinha nada. Parece que ele começou a fazer o metrô e todo o resto”, diz. “Não há nada de extraordinário no que ele faz, mas a Faria Lima se empolga por causa do antipetismo evidente.” Um empresário paulista que integra a escassa fauna que vota no PT diz que, nos eventos empresariais, Tarcísio é especialista em expor pilhas de estatísticas que ninguém entende direito. “Mas como ele fala tudo o que o mercado quer, tratam ele como rei, né? Isso é bom para o Brasil. Não acho ruim, não. Mas governar não é só isso.”
Nos eventos com empresários, Tarcísio nunca é questionado sobre políticas sociais, a matança policial que beira o descontrole, os assaltos crescentes. O analista político Lucas de Aragão, da consultoria Arko Advice, cuja clientela inclui empresas e fundos nacionais e estrangeiros, atribuiu o comportamento ao “pragmatismo dos agentes econômicos”. Diz ele: “É um jeito de pensar o Brasil que o mercado enxerga como o mais adequado. Previsibilidade de gastos públicos, privatizações, atração de investimento, proximidade com o mercado. Como existe um cansaço, uma falta de esperança e uma visão negativa sobre o governo atual, o andar de cima da economia naturalmente vê o Tarcísio como o candidato ideal. Até porque eles não se sentem confortáveis com a retórica do Bolsonaro e de sua família.”
A vassalagem que Tarcísio tem prestado a Bolsonaro, inclusive ecoando seu discurso, realmente machuca as coroas do PIB, mas nada que um Melhoral não resolva. Os modelos matemáticos que o mercado tem rodado – à semelhança do que faz Campos Neto – ajudam a manter o empresariado ao lado do governador. Segundo os dados que circulam nas mesas de operação, Lula tinha, em março passado, 44% de probabilidade de se reeleger. Em junho, caiu para 41%. Agora em julho, depois do estouro do tarifaço, oscilou para cima e chegou a 43%. Para o mercado, trata-se de uma variação muito pequena diante de tanto barulho. E ninguém ali tem muito interesse em saber no que Tarcísio realmente acredita, contanto que suas ideias econômicas continuem no mesmo diapasão.
A piauí procurou o governador para esclarecer algumas de suas opiniões. Como ele não quis dar uma entrevista presencial ou virtual, a revista enviou dez perguntas por escrito. Perguntou se ele acreditava que os participantes do golpe de Oito de Janeiro deveriam ser anistiados e se ele estava determinado a conceder indulto a Bolsonaro caso fosse eleito. A respeito do golpe em si, a revista queria saber se o governador achava que “alternativas constitucionais” ou “estado de sítio e de defesa” eram medidas legítimas para alterar o resultado de uma eleição. Sobre o STF, a piauí perguntou se Tarcísio considerava que a Corte estava sendo injusta com Bolsonaro e se concordava com a afirmação do senador Flávio Bolsonaro de que talvez fosse preciso usar a força contra o tribunal. Por fim, a piauí perguntou sobre arrependimentos: ele se arrependia de ter politizado o tarifaço e de já ter usado do boné do Maga?
Tarcísio não respondeu a nenhuma das perguntas.
Em 21 de julho, ao comparecer a um evento em Bebedouro, região do interior paulista onde se concentram os maiores produtores de suco de laranja do país, Tarcísio voltou a falar. Em seu discurso, insinuou que o governo brasileiro não estava cumprindo seu papel de baixar a temperatura da crise, e não fez menção ao maior causador das tensões – Bolsonaro. Até o fechamento desta edição, Tarcísio não havia feito uma única crítica à conduta de Bolsonaro ou do filho Eduardo. Terminou seu discurso em Bebedouro afirmando o seguinte: “Quem fala em nome do Brasil tem que ter essa compreensão, tem que trabalhar para distensionar as relações, tem que trabalhar para pacificar […], entender que o Brasil não ganha nada ao se alinhar a determinados blocos em detrimentos de outros.” Foi aplaudido. Ninguém lhe perguntou se quem apoia o Maga, com boné e tudo, tem essa compreensão.
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