carta de Buenos Aires
Haley Cohen Gillliland Jul 2025 13h25
12 min de leitura
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Vários laboratórios podem afirmar que já melhoraram a vida de muitas pessoas – seja, por exemplo, criando terapias genéticas que aliviam o sofrimento provocado pela anemia falciforme, seja por inventar novos tratamentos contra o câncer. O que parece improvável é que algum laboratório tenha transformado vidas humanas de maneira tão fundamental quando o Banco Nacional de Dados Genéticos, na Argentina.
Há quase quatro décadas, o BNDG tem sido o guardião de evidências científicas e de uma justiça esperada há tanto tempo: o banco trabalha para restaurar a identicidade de centenas de crianças roubadas pelos militares durante a ditadura no país (1976-83) e, ao fazê-lo, contribui para que essas crianças se reúnam com suas famílias biológicas.
Agora que a pesquisa científica vem sofrendo amplos cortes no seu orçamento, além de ataques cínicos – na Argentina, nos Estados Unidos e outros países –, o futuro do BNDG está sob ameaça. Trata-se de uma ameaça que preocupa qualquer pessoa que valorize o papel da ciência em revelar a verdade e reparar as injustiças do passado. Mas é uma ameaça especialmente alarmante para as avós que tanto lutaram para criar o banco e também para os netos que esse banco conseguiu identificar e encontrar.
Um deles se chama Daniel.
Em abril de 2023, um homem de 46 anos chamado Daniel Enrique González entrou no Banco Nacional de Dados Genéticos, no Centro de Buenos Aires. Seu objetivo era investigar um crime cometido há 46 anos, do qual a vítima poderia ser ele mesmo. Daniel sentou-se numa cadeira azul com braços largos e arregaçou a manga da camisa para que o profissional fizesse a coleta do seu sangue. Quando a agulha lhe perfurou a pele, ele sentiu uma grande animação.
Sempre disseram a Daniel que sua data de nascimento era 24 de março de 1977, exatamente um ano depois que uma brutal junta militar tomou o poder na Argentina. Ele foi criado na província de Buenos Aires por um policial e sua mulher. O pai tratava o revólver como se fosse uma extensão do próprio corpo, tirando-o da cintura apenas durante as refeições, ocasiões em que o colocava, carregado, ao lado do prato. A mãe tinha uns bons 20 anos a mais do que as mães dos amigos de Daniel – já estava na casa dos 50 quando ele era pequeno. Mas Daniel nunca pensou muito no assunto. Afinal, todas as famílias são meio estranhas, certo?
Quando sua mãe morreu, Daniel estava pelos 20 e poucos anos. Sua irmã adotiva, que era bem mais velha, resolveu então fazer uma confissão surpreendente: disse desconfiar que Daniel também não era filho biológico do casal. Certo dia, disse ela, durante os anos mais ferozes da ditadura, o bebê Daniel simplesmente apareceu em casa – como se tivesse sido trazido pela cegonha.
Em 24 de março de 1976, as Forças Armadas tomaram o poder, prometendo acabar com a violência política que há anos assolava a Argentina. No entanto, em nome da ordem, o governo militar rasgou as leis do país. Os conhecidos carros Ford Falcon tomaram as ruas. Não tinham chapa e eram dirigidos por policiais à paisana que arrancavam pessoas de suas casas, escritórios, igrejas e hospitais, levando-as para prisões secretas, onde a maioria foi torturada e assassinada em sigilo.
Os alvos incluíam não só militantes dos movimentos revolucionários de esquerda, que as forças de segurança queriam aniquilar, mas também jornalistas, artistas, advogados, freiras, padres que atendiam os pobres – e qualquer pessoa com “ideias contrárias à civilização ocidental e cristã”. Grupos de direitos humanos estimam que, nos quase oito anos de ditadura no país, cerca de 30 mil argentinos desapareceram nas mãos das Forças Armadas.
O ato mais hediondo cometido pelos militares argentinos foi o desaparecimento de pelo menos 358 mulheres grávidas. Capturadas, elas eram mantidas em centros clandestinos de detenção até darem à luz. Em seguida, eram separadas de seus bebês e levadas embora – para nunca mais serem vistas. Os recém-nascidos eram então entregues a outras famílias, muitas delas chefiadas por militares e policiais. O mesmo destino tiveram meninos e meninas capturados junto com os pais nas batidas policiais: as crianças recebiam certidões de nascimento falsas, com novo nome, novas datas e nova família. Seus vínculos familiares eram eliminados, tal como foi feito com seus pais.
No entanto, os mandantes da ditadura não perceberam um fato fundamental: muita coisa pode ser “desaparecida” à força, mas nem tudo. A identidade não pode ser extinta, como se faz com um corpo. Nem, tampouco, o amor materno e paterno. São inalteráveis, irrefreáveis, eternos.
As avós das crianças roubadas pelos militares compreenderam isso instintivamente. Numa época em que, por muito menos, a pessoa podia ser arrancada de casa e torturada, elas logo se mobilizaram para encontrar seus netos. Com a ajuda de uma renomada cientista americana, foram pioneiras na elaboração de métodos genéticos capazes de revelar o que o governo militar desejava esconder. A genética, perceberam elas, lhes daria uma arma muito mais poderosa e duradoura do que as metralhadoras da ditadura: a verdade.
Quando a ditadura começou, quase tudo estava obscuro para essas avós, de quem foram arrancados não só os filhos, mas também os netos. Elas acorriam às igrejas, aos tribunais, ao Ministério do Interior – a qualquer lugar onde pudessem obter informações. Por fim, muitas se encontraram e formaram uma organização, Abuelas de Plaza de Mayo. Nessa praça tão simbólica, localizada em frente à Casa Rosada, o palácio do governo, as avós passaram a protestar, corajosamente, uma vez por semana.
Juntas, as abuelas escreveram cartas com súplicas a organizações internacionais e até ao papa. Algumas se disfarçaram de vendedoras de artigos infantis ou empregadas domésticas para se aproximar de crianças que talvez fossem seus netos. (Uma delas chegou a se internar num hospital psiquiátrico para conseguir informações sobre um possível neto.) “Nós trabalhávamos como formiguinhas, trabalhávamos como espiãs”, contou depois uma delas para a bióloga argentina Rita Arditti. “Ninguém nos deu treinamento. Aprendemos tudo sozinhas.”
Esses atos de coragem começaram a atrair a atenção – e também pistas anônimas. Homens e mulheres se aproximavam das abuelas que protestavam na Plaza de Mayo e lhes entregavam papeizinhos amassados com nomes e endereços, fugindo em seguida. Essas pistas permitiram às avós localizar diversos netos, mesmo com a repressão dos militares a todo vapor.
Foi então que, em 1983, depois da humilhante derrota na Guerra das Malvinas e a crescente condenação internacional por sua brutalidade, a ditadura finalmente caiu. Os militares devolveram o país à democracia – a contragosto –, mas não devolveram os netos das abuelas: centenas continuavam desaparecidos. Muitos foram raptados quando ainda estavam no ventre da mãe.
As abuelas juntaram suas economias, doações de grupos internacionais e organizações religiosas, e passaram a viajar pelo mundo, repetindo uma pergunta simples a qualquer cientista disposto a ouvi-las: “Nosso sangue pode servir para identificar nossos netos?” Na época, o teste de paternidade já era comum, mas um teste de DNA para identificar uma avó – sem o sangue da geração intermediária – ainda não existia. Por isso, durante anos, ninguém deu uma resposta definitiva à pergunta das abuelas.
Finalmente, enquanto a ditadura ia se desintegrando, as abuelas encontraram alguém capaz de ajudá-las: a geneticista americana Mary-Claire King. (Mais tarde ela se tornaria mundialmente conhecida pela descoberta do gene BRCA1 ligado ao câncer de mama.) Na época, King já era reverenciada na área da genética. Progressista convicta, havia participado de campanhas contra a Guerra do Vietnã na época do seu doutorado na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e testemunhou pessoalmente os horrores da ditadura militar no Chile, onde lecionou em 1973 num programa de intercâmbio. Sua filha tinha a mesma idade dos netos que as abuelas procuravam. “Se eu tivesse nascido em Buenos Aires, e não em Chicago, provavelmente eu mesma teria sido uma dessas desaparecidas”, disse King à revista Science for the People. “E minha filha teria sido sequestrada.”
Junto com outros colaboradores, King criou uma equação chamada Índice de Avosidade, que permitia às abuelas demonstrar seu vínculo biológico com crianças que elas acreditavam serem seus netos. Foi a primeira fórmula do tipo e, segundo King, representou “a criação da genealogia genética” – uma ciência cuja aplicação depois se generalizou, tanto nas investigações policiais, quanto nas pesquisas de ancestralidade familiar, realizadas por firmas como Ancestry.com.
Com acesso às análises do DNA, as abuelas passaram a incorporar métodos genéticos ainda mais eficazes. No fim dos anos 1980, King as ajudou a implementar o teste do DNA mitocondrial. Em contraste com o DNA nuclear, que é herdado do pai e da mãe, o DNA mitocondrial é transmitido exclusivamente pela mãe e permanece praticamente inalterado geração após geração. Sendo assim, tornou-se uma ferramenta poderosa para ligar as avós maternas aos seus netos, mesmo na ausência de outros familiares.
Com bom humor, King costuma dizer que a existência do DNA mitocondrial prova que Deus é mulher – e que a colocou no mundo especialmente para as abuelas. Estas, no entanto, estavam plenamente conscientes de sua mortalidade. Muitas já estavam na casa dos 50 ou 60 anos quando seus netos foram raptados. Ainda no início do seu trabalho conjunto, as abuelas perceberam a necessidade de garantir que sua missão continuasse, mesmo depois que elas se fossem.
Em 1987, depois de anos de intensa pressão, as abuelas convenceram o governo da Argentina a criar um banco nacional para armazenar seus dados genéticos, de modo que, mesmo após sua morte, os netos pudessem ser encontrados. Desde então, os dados genéticos das abuelas estão preservados no BNDG – o primeiro biobanco desse tipo – à espera de um match.
O presidente da Argentina, Javier Milei, vem lançando dúvidas sobre o futuro do biobanco. Ao longo do seu ano e meio no poder, Milei, o libertário excêntrico de cabeleira desgrenhada, dono de uma matilha de cães clonados da raça mastim inglês, vem se chocando constantemente com grupos como as Abuelas de Plaza de Mayo. E vem tentando reescrever a história da ditadura, retratando-a como uma “guerra” justificada – e não como um período de terrorismo do Estado.
No ano passado, como parte da sua agressiva campanha para “cortar com motosserra” os gastos públicos – iniciativa que inspirou o bilionário Elon Musk a criar, nos Estados Unidos, o tal Departamento de Eficiência Governamental –, Milei desmontou a unidade investigativa de um órgão estatal que colaborava estreitamente com as abuelas na busca dos seus netos roubados. Também extinguiu os subsídios que elas recebiam do governo há muito tempo, tornando-as mais dependentes das doações para continuar o seu trabalho. Embora o Estado argentino tenha arrancado os netos das avós, o governo Milei, ao que parece, julga que reencontrá-los é um gasto desnecessário.
Agora, Milei está mirando diretamente a instituição que durante décadas sustentou e protegeu a missão das abuelas: o BNDG. Em 22 de maio, ele emitiu um decreto para reestruturar o banco genético. Embora seu ministro da Desregulamentação tenha classificado a medida como “uma questão de bom senso” para combater o inchaço burocrático, a ação gerou pânico entre as abuelas, que consideram a iniciativa, na prática, como uma tomada de controle por parte do governo. Elas já apelaram à Justiça para barrar o decreto e garantir que todos os dados genéticos do BNDG sejam copiados e preservados. Em junho passado, um tribunal respondeu que qualquer mudança que Milei deseje implementar no banco genético deverá ser previamente submetida ao Judiciário.
Enquanto isso, o BNDG continua trabalhando, mesmo sob condições precárias. O governo Milei não atualiza o orçamento nacional desde 2023, permitindo, assim, que a inflação continue corroendo as finanças de instituições como o banco genético. Além disso, ainda não foi iniciado um processo de seleção para substituir Mariana Herrera Piñero, cujo mandato de dez anos como diretora do BNDG expirou há pouco. Herrera Piñero continuará temporariamente no cargo até que seja nomeado um sucessor. Segundo ela, o banco contém informações genéticas de 180 famílias que ainda buscam seus parentes sequestrados. Ela própria está entre essas famílias: três primas desapareceram durante a ditadura, duas delas estavam esperando seus bebês.
Cerca de três meses depois de Daniel González visitar o BNDG para retirar sangue, ele foi chamado a Buenos Aires, onde recebeu uma pasta branca com os dizeres: Memoria. Verdad. Justicia. Ciencia. Identidad. No interior, um breve laudo descrevia os testes genéticos aplicados à sua amostra.
A chance de compatibilidade era de 49.400.000.000.000.000.000.000 contra apenas 1. E, segundo o texto, Daniel não era filho do casal que o criou, e sim de Cristina Silvia Navajas, desaparecida pelas Forças Armadas em julho de 1976 quando estava grávida, e de Julio César de Jesús Santucho, que fugira do país durante a ditadura e ainda estava vivo – uma raridade, um verdadeiro milagre, já que na maioria dos casos tratados pelas abuelas, ambos, pai e mãe, estão desaparecidos.
A avó materna de Daniel, Nélida Gómez de Navajas, era uma integrante ativa das abuelas, especialmente nos esforços científicos do grupo. Ela faleceu em 2012, mas Daniel ficou sabendo que todos os anos, desde o sequestro de sua filha grávida, a avó fazia um bolo de aniversário para ele, na data em que ele deveria nascer – uma torta de ricota com chips de chocolate. Apagava sozinha as velas e depois levava o bolo para comer na sede do movimento, com as abuelas.
Pouco depois, Daniel se conectou com um de seus irmãos biológicos, por chamada de vídeo. Entre soluços, conseguiu dizer: “Obrigado por continuar me procurando, por nunca desistir, e por manter vivo o legado da nossa avó.” Logo depois mudou seu nome para Daniel Santucho Navajas e tatuou no antebraço sua verdadeira data de nascimento, 10 de janeiro de 1977, junto com o desenho de um lenço branco, como os que as abuelas usavam na cabeça em seus protestos semanais na Plaza de Mayo.
Daniel Santucho Navajas foi o neto número 133 localizado pelas abuelas. Desde então, com o apoio do BNDG, elas já identificaram mais sete, elevando o total de netos encontrados para 140. O mais recente sucesso de match genético ocorreu em janeiro passado, quando o banco analisou uma amostra de sangue de uma mulher e a relacionou com as famílias de um casal desaparecido em 1977.[1] Os técnicos do BNDG acorreram ao laboratório para fazer e refazer os testes, e ali ficaram até o cair da noite, analisando a amostra de sangue – o DNA mitocondrial, o DNA nuclear, os microssatélites e outros marcadores genéticos. Com cada método, a verdade surgia – sólida e incontestável como um rochedo.
Obstruir a missão do bndg iria não só dificultar o possível reencontro de dezenas de argentinos com suas famílias biológicas, como também atrasar ainda mais o caminho do país rumo a uma cura completa. A janela para a ação está se fechando – hoje, as abuelas sobreviventes têm entre 90 e 106 anos de idade. Muitas já faleceram sem ter o privilégio de abraçar seus netos. Estes, que ainda estão à deriva, já se aproximam dos 50 anos, restando, assim, apenas algumas décadas para encontrá-los.
De neto em neto, as abuelas e o BNDG obrigaram a Argentina a encarar as consequências da fase mais trágica da sua história. Enquanto cada identidade roubada não for revelada e cada linhagem destruída não for restaurada, essa fase não poderá passar para a História. Ela continuará pesando como um fardo sobre o presente e o futuro do país.
[1] No dia 4 de julho, houve mais um caso de sucesso: um homem de 48 anos submeteu-se aos testes genéticos e soube que era filho de um casal desaparecido em dezembro de 1976. Sua mãe estava grávida de 5 meses. Em abril do ano seguinte, segundo o testemunho de sobreviventes, a jovem estava recolhida a um centro clandestino em Bahia Blanca, na província de Buenos Aires, quando deu à luz um menino.