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A GIGANTE

A expedição para encontrar a terceira árvore mais alta do Brasil
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Como a maioria das rodovias do Amapá, a BR-156 não tem pavimentação. Para evitar os buracos nas laterais, os veículos trafegam no meio da estrada, deixando um rastro de poeira. Em época de chuva, a pista fica escorregadia e cheia de atoleiros. Uma sequência de subidas e descidas deixam ainda mais assustadores os 270 km do trecho dessa estrada entre Macapá e Laranjal do Jari, a terceira cidade mais populosa do estado, com cerca de 52 mil habitantes.

Na manhã do dia 5 de novembro do ano passado, a preocupação do engenheiro florestal Diego Armando Silva da Silva era enfrentar os contratempos na rodovia para chegar à ponte sobre o Rio Vila Nova antes que ela fosse fechada. Com 100 metros de comprimento, a ponte vinha sendo interditada diariamente para reparos, durante algumas horas, depois de uma ação civil pública ter denunciado o iminente risco de colapso da estrutura.

A picape 4X4 dirigida por Silva e o veículo do mesmo tipo que ia atrás conseguiram passar a tempo pela ponte e seguiram pela BR-156, adentrando mais fundo na Floresta Amazônica. Pouco a pouco, a paisagem foi se tornando um opulento emaranhado vegetal, cada vez mais denso.

A caravana transportava o pessoal e os equipamentos de uma expedição em busca da terceira árvore mais alta do Brasil, com 83 metros de altura (equivalente a um edifício de 27 andares). Organizada por Silva e pelo também engenheiro florestal Eric Bastos Görgens, era composta de outras quinze pessoas: mais quatro engenheiros florestais, a geógrafa inglesa Jacqueline Rosette, dois estudantes de engenharia florestal, cinco homens da equipe de apoio, um assessor de imprensa e dois jornalistas, Matias Maxx e eu.

Graças a aparelhos de medição a laser, tornou-se possível, a partir da década de 2010, descobrir árvores gigantes em áreas pouco exploradas das florestas tropicais, em diferentes regiões do mundo. Em abril de 2019, um meranti-amarelo de 100,8 metros foi identificado na Malásia. Em agosto do mesmo ano, confirmou-se a existência de espécimes com mais de 80 metros na Amazônia – o que foi uma surpresa, pois, até então, cientistas achavam que o dossel amazônico (a camada mais alta da floresta) não passava dos 50 metros. “Nunca tivemos grandes estudos de altura no país porque medir com exatidão é algo recente”, explica Görgens, que é professor da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, no Norte de Minas Gerais. “Até pouco tempo, usávamos instrumentos ópticos e havia dificuldade para registrar grandes alturas.”

O professor se deparou com árvores de mais de 80 metros de altura na Amazônia quando trabalhava em um novo mapa de biomassa da região, parte de um projeto de monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Na feitura do mapa, utilizou-se um aparelho chamado Light Detection and Ranging (LiDAR), que acoplado a um avião é capaz de escanear um terreno por meio de feixes de laser e gerar dados para um modelo tridimensional da área. Mil trechos – ou transectos, na linguagem técnica, faixas de 12,5 km por 300 metros – de diferentes locais da Amazônia foram esquadrinhados com a ajuda do LiDAR.

“Quando vi os dados pela primeira vez, achei que havia cometido algum erro no processamento das informações do LiDAR”, conta Görgens. “Refiz os cálculos e eles apontaram os mesmos resultados. Árvores gigantes não eram o que eu estava buscando, e minha reação foi de espanto.” Os dados coletados por ele foram revisados por outros pesquisadores. Eles conseguiram comprovar que seis pontos com mais de 80 metros, que apareciam espalhados em uma grande região do Amapá e do Pará, eram árvores de fato.

Conhecê-las de perto se tornou a missão de Görgens. “Só o fato de ninguém ter descrito essas árvores antes já era um motivo para estudá-las”, diz. Ele assinala outros aspectos importantes da pesquisa: essas árvores podem levar a descobertas botânicas e climáticas, além de fornecerem dados importantes para a exploração comercial sustentável de madeira.

Görgens recebeu o convite para liderar a parte técnica do projeto do novo mapa da biomassa da Amazônia em 12 de dezembro de 2014, mesmo dia em que defendia na Universidade de São Paulo (USP) o seu doutorado sobre o uso do LiDAR para quantificar vegetação. Alto e magro, com biotipo atlético, ele nasceu há 38 anos em Belo Horizonte, no Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho. Quando criança, relutava em ir para o sítio da família, mas, crescido, tornou-se escoteiro e passou a se interessar pela vida no campo. Na época do vestibular, ficou em dúvida se faria engenharia ambiental, agrícola ou florestal – acabou optando pela última.

O pesquisador conheceu Diego Armando Silva da Silva, de 32 anos, quando preparavam a primeira caravana em busca das árvores gigantes no final de agosto de 2019. Silva era o encarregado da logística da expedição. Natural de Santana, na Região Metropolitana de Macapá, ele estudou engenharia florestal na Universidade do Estado do Amapá (Ueap) e fez doutorado sobre manejo sustentável de madeira em área de várzea. Desde 2018 é professor do Instituto Federal do Amapá (Ifap), em Laranjal do Jari.

O novo mapa da biomassa da Amazônia faz parte de um plano maior para modernizar o monitoramento da região que recebeu um financiamento de 67 milhões de reais proveniente do Fundo Amazônia. Criado por lei e gerido pelo BNDES, o fundo capta doações internacionais para monitorar, prevenir e combater o desmatamento, além de promover a conservação e o uso sustentável da Amazônia Legal, uma área de aproximadamente 5,2 milhões de km2. Desde 2019, o fundo está paralisado.

A primeira expedição do grupo liderado por Görgens e Silva, em agosto de 2019, foi em busca da mais alta de todas as árvores. Com 88,5 metros, ela está localizada na Floresta Estadual do Paru, no Oeste do Pará, uma unidade de conservação de uso sustentável de cerca de 3,6 milhões de hectares. Por questões logísticas, a recordista não pôde ser alcançada, mas durante a mesma jornada os pesquisadores chegaram à quarta árvore mais alta, um angelim-vermelho com 82 metros. Depois, veio a pandemia, e o projeto foi interrompido.

Em janeiro do ano passado, a segunda expedição encontrou na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru, no Amapá, a maior castanheira (Bertholletia excelsa) já registrada na Amazônia, com 66,66 metros de altura. Na terceira viagem, em setembro, na região do Rio Cupixi, na parte Leste da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru, foi localizada a segunda árvore mais alta do país, outra vez um angelim-vermelho, de 85,44 metros de altura e 9,45 metros de circunferência.

O angelim-vermelho é uma espécie comum na Amazônia, e ainda mais frequente no Amapá e Pará. Sua madeira firme tem grande interesse comercial, em particular para a construção civil e naval, sendo por isso uma das mais exploradas legalmente na região. É uma árvore em geral de grande porte, com o caule muito retilíneo, coberto por uma casca escamosa. A copa se abre acima do dossel em folhas miúdas. Suas flores são minúsculas, com tentáculos brancos que despontam no meio de minipétalas verdes. Seus frutos têm a forma de vagem, pois o angelim-vermelho é da família das leguminosas – essa árvore gigante cresceu a partir de uma semente do tamanho de um feijão.

Descrita pela primeira vez no início do século XX, a espécie recebeu o nome científico Dinizia excelsa Ducke. “Ducke” em referência ao sobrenome do botânico que a catalogou, “excelsa” indicando sua imponência, e “Dinizia” em homenagem a José Antônio Picanço Diniz, amigo do botânico e seu patrocinador. De origem austríaca, Adolpho Ducke (1876-1959) descreveu 900 espécies e 50 gêneros de plantas brasileiras, a maioria árvores. Exemplares de suas descobertas estão guardados no herbário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Em uma tarde chuvosa de junho do ano passado, visitei a botânica capixaba Rafaela Forzza, responsável pelo herbário. Ela me apresentou o acervo de Ducke, com amostras recolhidas há mais de um século, como fragmentos de galhos, folhas, vagens e sementes do primeiro angelim-vermelho identificado por ele, em 1915, às margens do Rio Tapajós, no Pará.

Forzza desenvolve pesquisas no Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, onde nasce o Rio Jari, que divide o Amapá e o Pará. Em suas viagens ao parque, o maior do Brasil, com 38,8 mil km2, ela também observou angelins-vermelhos de grande porte, mas ainda não esteve diante das árvores gigantes recém-descobertas. “Como seres vivos desse tamanho só puderam ser documentados em 2019?”, ela pergunta. “Esse é o tamanho do nosso desconhecimento. Se não conhecemos nem seres desse porte, imagina os pequenos. Essas árvores simbolizam o quanto estamos destruindo sem conhecer.”

A quarta expedição ocorreu pouco antes da divulgação do relatório anual do Inpe sobre desmatamento na Amazônia. Entre agosto de 2020 e julho de 2021 – o período da pesquisa mais recente –, foram desmatados 13 235 km2. O Pará é o estado recordista em desmatamento, com a devastação de 5 257 km2. O Amapá perdeu 39 km2 de floresta, equivalente a 0,29% de todo o desmatamento na Amazônia Legal. Parece pouco, mas representa um crescimento de 62,5% em relação ao período anterior no estado.

Silva e a equipe levaram três horas na viagem de carro de Macapá até a TWForest, empresa que explora uma concessão de manejo florestal em uma área da Floresta Estadual do Amapá. Ali, outro veículo se juntou às duas picapes, e todos seguiram por uma estrada estreita de terra. Foi necessário, porém, que uma máquina niveladora abrisse caminho para os carros avançarem, pois a estradinha não é mais usada pela empresa e estava coberta de lama. Dois quilômetros depois, uma fenda profunda no solo, interrompendo a via, obrigou todos a seguirem a pé. Os carros foram deixados no local, e as dezessete pessoas da equipe, com seus materiais às costas, se dirigiram para a área do Projeto de Assentamento Agroextrativista Maracá, onde estaria a árvore buscada pelos pesquisadores. Seria ela também um angelim-vermelho?

O primeiro trecho que percorremos tinha pouca vegetação. Ao chegarmos ao fim da estrada e antes de mergulharmos na floresta, a equipe decidiu almoçar. Uma fogueira foi acesa. O cardápio era feijoada em lata, linguiça calabresa assada na hora e, como acompanhamento, farinha de mandioca granulada, que dava uma textura crocante ao prato. Ninguém comeu muito, pois a partir dali o caminho seria pesado, em razão da topografia montanhosa, com aclives de até 500 metros, sem falar na vegetação densa. Por precaução, todos carregavam alguns litros extras de água.

Quando entramos na mata, fiquei um tanto distante de quem estava à frente. Görgens percebeu o que eu fazia e me transmitiu uma lição básica: antes de seguir caminho, eu deveria observar com cuidado os sinais deixados por quem abriu a trilha, como os galhos e cipós cortados com terçado, facão do tamanho de uma espada (que, quando não está em uso, é guardado numa bainha presa no cinto das calças). A floresta parece labiríntica e infinita – é fácil se perder ali.

O grupo seguiu por uma trilha ao lado de uma encosta, cujo solo em desnível era forrado por uma grossa camada de folhas e raízes. Tínhamos que pular troncos de meio metro ou mais, o que atrasava a caminhada. Depois de andar por uma hora, havíamos avançado apenas 400 metros dos 5 km que seria preciso percorrer até o ponto onde estaria a árvore. Ao cruzar o primeiro igarapé, todo mundo comemorou: não teríamos problemas de abastecimento de água. Os dois garrafões de 5 litros, transportados em esquema de rodízio pelos homens, foram logo enchidos com água fresca, depois tratada com gotas de hipoclorito. A maioria das pessoas não estava usando cantil e bebia direto do galão.

Entre subidas e descidas, algumas vezes passávamos por trechos planos com árvores maiores, espaçadas umas das outras, o que ampliava nosso horizonte visual. Eram os momentos mais agradáveis da trilha. Outras vezes, entravámos no emaranhado vegetal, em meio a troncos, galhos, cipós, onde a luz do Sol penetrava com parcimônia – mas, ao fazê-lo, produzia um inesperado jogo de luz e sombra que dava aos lugares um aspecto paradisíaco. A tensão maior ocorria quando a equipe se deparava com grotas, depressões causadas pela água que formam barrancos deslizantes, difíceis de subir ou descer.

A maioria das pessoas usava luvas. Mesmo assim, era aconselhável não tocar em nada sem olhar. Os perigos são muitos: cobras, aranhas, formigas e mesmo plantas. Duas palmeiras são especialmente traiçoeiras: a Astrocaryum murumuru (chamada comumente de murumuru), com o caule cheio de espinhos pretos e finos, e a Attalea microcarpa, que parece inofensiva, mas esconde no tronco uma lâmina afiada. As duas árvores são comuns nos baixios mais escorregadios.

Nos alagados, a lama fresca engolia as botas, que afundavam até o tornozelo. Os mais jovens reclamavam da subida, e os mais velhos, da descida ou dos dois. As pausas depois de uma subida começaram a ficar cada vez mais longas, e a exaustão era visível nos rostos e roupas, empapadas de suor. Rondava entre as pessoas o temor de alguém manifestar a “cara branca”, como Silva chamou o mal-estar que se sente na selva – a palidez que antecede a síncope –, causado pelo esforço físico e a temperatura, em torno de 28ºC.

Perguntei a Marcelino Guedes, engenheiro florestal e pesquisador na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em Macapá, experiente no trabalho de campo na Amazônia, em que nível de dificuldade ele classificaria a nossa expedição. Ele respondeu: “De zero a dez? Sete.” Como as expedições anteriores foram feitas com a ajuda de barcos, isso facilitou o transporte do equipamento, como motosserra, gerador de energia e fogão a gás. Desta vez, o percurso era quase todo a pé e, claro, nenhum desses equipamentos maiores foi levado pela equipe.

Mineiro de 49 anos, Guedes é mentor de outros engenheiros florestais da expedição. Foi coorientador do doutorado de Silva e dos amapaenses Anderson Pedro Batista, que hoje dá aula no Instituto Federal do Amapá (Ifap), e Robson Lima, professor da Universidade do Estado do Amapá (Ueap). Outro conhecido de Guedes da faculdade é o sargento da Polícia Militar João Ramos de Matos Filho, que concluiu o mestrado em engenharia florestal e está cedido à Promotoria de Justiça do Meio Ambiente e Conflitos Agrários de Macapá como assessor técnico. “Foram todos alunos que se destacaram desde a graduação”, diz Guedes. “Quando cheguei ao Amapá, em 2004, havia menos de dez doutores, e sempre houve muito problema de fixação deles no estado. Eram pessoas que vinham de fora, por concurso, e logo pediam transferência. Desde que entrei na pós-graduação, vi que era preciso formar pessoas daqui mesmo, que já tivessem a vivência, entendiam a realidade e a necessidade de o estado trabalhar com a conservação florestal.”

A expedição já estava imersa na floresta havia quatro horas quando a energia do grupo arrefeceu. Era o momento de parar. Alguém avisou que o acampamento seria montado perto de um igarapé. O fio de água muito límpido e raso sobre um leito de areia clara dividiu o local escolhido para o pernoite em dois: em um lado, a cozinha, com “área social”; em outro, o barraco com as redes. Eram pouco mais de quatro da tarde.

Os mateiros rapidamente limparam a área com golpes certeiros de terçado. Uma árvore de 15 metros de altura foi ao chão para que seu tronco servisse na construção da estrutura do barraco, coberto com as lonas trazidas pelo grupo. Mas não havia lona suficiente, e folhas da Attalea microcarpa foram retiradas com cuidado e usadas para cobrir o abrigo. A cobertura, que fez as vezes de telhado, é conhecida na região como “rabo de jacu”, em referência ao pássaro preto que leva na cauda um leque proeminente de penas.

A cozinha ficava sobre um chão lodoso que colava na sola dos chinelos – todos haviam tirado suas botas. Era preciso caminhar ali muito lentamente, para não escorregar, o que produzia passos quase cômicos. No dia seguinte, para atenuar o problema, folhas da Attalea microcarpa foram dispostas sobre o barro, formando um tapete.

Na hora do banho, no igarapé, usamos canecas ou garrafas plásticas cortadas para jogar água sobre o corpo. Já estava escuro quando o jantar foi servido. Grupos de dois ou três homens comeram de pé, no mesmo prato, um iluminando o outro com suas lanternas de cabeça. Foi servido arroz branco e frango com molho, de ótimo sabor, preparados por Onei Cantidio da Silva. Com 41 anos, ele vive em Pancada do Camaipi, comunidade a 85 km de Macapá, a mais próxima da árvore que visitamos. Como os outros mateiros da expedição, ele é um faz-tudo.

O líder dos mateiros era um vizinho de Cantidio, conhecido como J. Bala – ele não quis revelar seu nome à piauí. Homem de sorriso largo e cabelos compridos, Bala, de 41 anos, sabe fazer qualquer serviço na floresta. Quando não está metido em expedições, pilota uma catraia (canoa pequena com motor) para ajudar sua companheira, Simone, a fazer testes de malária nas populações ribeirinhas. Bala tem licença para pescar e usar a motosserra profissionalmente. Sabe como viver da coleta do açaí e da castanha-do-pará e, nas horas de lazer, é atacante no futebol. Durante a expedição, sempre esteve no pelotão da frente, abrindo caminho ao lado de Batista, o engenheiro florestal de 31 anos que traçou a rota até a árvore gigante a partir das coordenadas do GPS.

Os pesquisadores usavam o facão com tanta habilidade que pareciam ter crescido na região. Mas, de todos eles, o único nascido em uma comunidade tradicional era o estudante de engenharia florestal Renan Mendes Santos, de 24 anos. Seus pais vivem numa ilha na foz do Amazonas, a 60 km de Santana, onde é farta a coleta do açaí, chamado na região de “ouro preto”. Foi graças a esse fruto que ele conseguiu chegar à universidade. Quando se formar, planeja colocar em prática as técnicas de manejo que aprendeu na faculdade.

Todos foram para suas redes por volta das oito da noite. Já estávamos deitados quando começou um debate entre os engenheiros sobre a necessidade de reforçar o barraco coberto de lona e folhas. Em menos de dez minutos, outra árvore foi derrubada, e o tronco encaixado na estrutura. Alguém lembrou, então, uma tragédia ocorrida meses antes: uma família morreu atingida pela queda de uma árvore durante um temporal na floresta. Não foi o melhor momento para ouvir essa história.

Debaixo do mosquiteiro que protegia a minha rede, vi alguns raios pulsarem no horizonte. Era um aviso de chuva, que veio fraca e passou rapidamente. A temperatura era agradável – uma brisa leve e fresca. Não havia pernilongos. O coaxar dos sapos, abafado e grave, como uma série de marteladas emitidas ao longe, ajudou a embalar o sono.

Acordamos às cinco da manhã com a notícia de que a árvore buscada pela expedição estaria muito próxima. Em clima de euforia, tomamos o café da manhã, com cuscuz de milho e coco preparado por José Jussian Silva, potiguar que desde criança vive na cidade de Laranjal do Jari. Com mais de 1,90 metro, cabelo preto e liso, ele é um parataxonomista, alguém que sabe identificar as plantas e reconhecer algo diferente no meio delas, embora não tenha formação acadêmica. Em 2020, quando já estava com 41 anos, começou a cursar engenharia florestal no Ifap, à noite.

Sem o peso de boa parte dos equipamentos, que foram deixados no acampamento, o trajeto de 1 km até a árvore gigante se configurava quase como um passeio. Logo vimos que não. Em uma escarpa muito lisa, Matias Maxx, meu parceiro de trabalho, escorregou e caiu sobre a perna direita, gritando de dor. Em minutos, Cantidio apareceu com uma espingarda nas mãos, temendo que o jornalista tivesse sido atacado por um animal. Jussian, que estava à frente, voltou rapidamente para fazer os primeiros socorros. Maxx ficou sob os cuidados dele, e nós continuamos.

Andamos cerca de 100 metros – e então chegamos à terceira árvore mais alta do Brasil. Outra vez, era um angelim-vermelho.

O tronco, coberto de escamas grossas, tem impressionantes 7,10 metros de circunferência acima das sapopemas, que são as raízes aéreas que ajudam a manter a estabilidade da árvore. Essas estruturas medem cerca de 4 metros de altura, e são como apoios triangulares, a partir do solo.

Olhamos para o alto. O tronco largo erguia-se até um ponto que era impossível vislumbrar, por causa do emaranhado de copas de outras árvores. O angelim é muito esguio, mas fica em um bosque onde está cercado de perto por outras espécies. Por causa disso, não me causou de início o mesmo impacto visual que a sequoia-gigante General Sherman, que visitei na Califórnia em 2018. De altura equivalente ao angelim-vermelho, mas com circunferência de 31,3 metros, a sequoia-gigante é considerada o maior ser vivente da Terra (em termos de massa) e um dos mais antigos, com idade estimada entre 2,3 mil e 2,7 mil anos. Fica numa área de platô, sem concorrentes ao redor e protegida por uma cerca de madeira, o que permite ao visitante se dar conta de imediato de toda sua exuberância.

Não se sabe ainda a idade da árvore encontrada em nossa expedição – alguns pesquisadores ouvidos pela piauí calculam que tenha entre 300 e 600 anos. Ela possui uma característica comum às outras da sua espécie visitadas pelo grupo: está posicionada no meio de uma encosta. Isso reforça a hipótese de que o terreno ajuda a protegê-la de ventos fortes, causa primária da queda de árvores.

No cume da encosta em que vive o angelim, o professor Batista abriu uma pequena clareira com o terçado para permitir a decolagem do drone que iria verificar o tamanho da gigante. O equipamento foi transportado em uma mochila quadrada, dentro da qual caberiam três caixas de pizza. Batista posicionou o aparelho sobre um toco e se afastou para vê-lo subir. Na tela do celular, a imagem da câmera mostrou a árvore a 50, 60, 70 metros – e ainda não havia sinal de que o aparelho estivesse chegando ao topo. Só depois de o drone ultrapassar os 100 metros conseguimos ver o angelim de cima. O céu estava carregado de nuvens, e gotas d’água pesadas começaram a cair. Batista achou melhor recolher o drone antes da chuva, mas ele já havia confirmado a altura: 83 metros.

O trabalho de campo dos engenheiros florestais consistiu então em realizar o que chamam de “inventário”. O primeiro passo é delimitar com barbantes quatro “parcelas” – áreas de 20 por 50 metros – onde recolhem amostras do solo e catalogam todas as árvores com circunferência superior a 30 cm. O inventário foi feito em três locais distintos: o terreno acima, ao redor e abaixo do angelim-vermelho. Os pesquisadores se organizaram em três equipes para dar conta do trabalho, cada um com uma diferente função: anotar os dados, pregar placas de identificação, medir altura e largura etc. Às vezes, era necessária a ajuda do parataxonomista para nomear alguma espécie vegetal.

De repente, Bala chamou a minha atenção para algo. “Olha a árvore do seu presidente”, ele brincou. Era uma quina, da qual se extrai o princípio ativo da hidroxicloroquina, remédio eficaz para o tratamento de malária, endêmica naquela região, mas ineficiente para a Covid, apesar do que Jair Bolsonaro propagandeia. “A quina é um dos primeiros casos de biopirataria da Amazônia. Antes de ser sintetizada em laboratório, ela foi levada e cultivada na Europa”, explicou Marcelino Guedes.

A geógrafa Rosette sacou de sua mochila um LiDAR portátil e começou a percorrer as parcelas demarcadas, segurando o equipamento acima da sua cabeça com o braço direito estendido. O aparelho tem 40 cm de altura, contando o bastão para empunhá-lo. É um semicírculo espelhado que gira em torno do próprio eixo, ligado por fios a uma caixa quadrada com alça a tiracolo, escaneando o terreno. A ideia de Rosette é, depois, cotejar os dados do lidar com os que foram coletados pelos engenheiros florestais. “É preciso saber o que existe dentro da floresta”, disse. “Não podemos pensar em explorar os recursos sem conhecê-los.”

Rosette é bolsista da Royal Society – a prestigiada academia de ciências do Reino Unido – e pesquisadora da Universidade Swansea, no País de Gales. Chegou à expedição por intermédio de Eric Görgens, com quem desenvolve projetos no Brasil. Tem 48 anos, olhos azuis e pele claríssima; suas maçãs do rosto ficam muito vermelhas quando o calor aumenta. Somos as únicas mulheres do grupo e não queremos demonstrar nenhum tipo de fraqueza, mesmo diante das piores adversidades.

Aos pés do angelim-vermelho, Görgens ajuda a demarcar uma parcela, segurando a ponta da trena. “Nada em uma árvore desse porte é trivial. Elas são um grande reservatório de carbono, têm uma importância no balanço da floresta. Cada uma delas guarda o carbono equivalente a 1 hectare de uma floresta normal”, explicou. Um angelim-vermelho como este ajuda a sustentar todo um ecossistema, influenciando outras plantas ao redor e até os animais. “Como essas árvores são bem estabelecidas, o sistema radicular provavelmente também é, além de ser muito amplo”, disse Görgens, referindo-se ao complexo de raízes. “Por isso, há a hipótese de que elas redistribuam água entre as árvores menores, para que elas sintam menos em períodos de estiagem.”

O sistema radicular também é o ponto que mais intriga Guedes. “Imagino o quanto ela precisa de água. Nos períodos de verão amazônico, são três ou quatro meses com pouquíssima chuva. Essas árvores precisam ter um sistema radicular muito profundo, para pegar água lá embaixo.” E também para sustentá-las.

Passamos o dia perto do angelim-vermelho. Antes de voltarmos, começaram as últimas medições da árvore. Todos se reuniram em torno dela, enquanto os engenheiros bolavam estratégias para fazer com que a trena pudesse chegar acima das sapopemas e envolver o tronco. Renan Santos tentou escalar uma das raízes e, ao mexer em um cipó, fez com que grandes placas de casca caíssem do tronco. Por fim, alguns pedaços de pau com uma forquilha na ponta ajudaram a segurar uma fita ao redor da árvore para a conclusão do trabalho.

Foram feitas fotos do grupo em torno das sapopemas – e partimos. O clima era festivo e leve. No acampamento, encontramos Maxx deitado na rede, medicado e sem dor, o que reconfortou a equipe. As conversas e brincadeiras avançaram noite adentro sob o barraco de lona. Ainda não sabíamos a gravidade do estado real do jornalista, revelado três dias depois por um raio X feito em Macapá: ele tivera fraturas na região do tornozelo.

O retorno à civilização envolveu uma operação de resgate, já que Maxx precisou ser carregado por todo o caminho. No início, foi levado em uma rede armada em um pedaço de pau comprido, mas o peso do conjunto estava ferindo os ombros de quem carregava. Por isso, decidiram carregar o jornalista nas costas. Cantidio, Jussian, Bala e Santos se revezaram no transporte. Quando nos aproximávamos da pequena estrada que conduzia de volta ao pátio da TWForest, caiu uma chuva torrencial. Longe de nos incomodar, o aguaceiro produziu uma sensação de alívio, amenizando o calor.

Mais alguns passos e avistamos nossos carros, mas àquela altura a estradinha havia se transformado em um lamaçal, e as picapes tiveram grande dificuldade para sair de lá. Seguimos para Pancada do Camaipi, onde Simone Oliveira dos Santos, a mulher de J. Bala, nos recebeu com um almoço farto. Cerca de dez famílias vivem na comunidade, instalada em torno de um campo gramado de futebol. Uma pequena praia de areia clara dá acesso ao Rio Camaipi, onde tomamos um banho providencial. Os pesquisadores passaram boa parte da tarde tomando cerveja dentro do rio. O plano de seguir para Macapá no mesmo dia foi frustrado por outro pé-d’água que deixou a estrada intransitável.

Na equipe dos pesquisadores Diego da Silva e Eric Görgens, a conversa agora é sobre a próxima expedição: qual será a complexidade dela e o que será investigado. O plano é realizá-la em meados de agosto próximo e chegar até a árvore mais alta, a que tem presumidos 88,5 metros. Neste momento, eles buscam recursos para viabilizar a empreitada. Como ocorre sempre após uma descoberta científica, os caminhos da pesquisa se bifurcam e abrem outros campos à investigação, entre eles o que estudará a idade dos angelins gigantes recém-encontrados. Um modo de descobrir a idade é examinando os anéis impressos na madeira, parte da anatomia de algumas árvores.

Pesquisadora no Laboratório Tree Ring, da Universidade do Arkansas, em ​​Fayetteville, nos Estados Unidos, a botânica Daniela Granato de Souza, de 39 anos, estuda esses anéis. Por meio dessa observação é possível reconstruir não apenas informações sobre a árvore e a espécie, mas também sobre o ambiente. É uma ciência conhecida como dendrocronologia, a especialidade do laboratório onde Souza atua em Fayetteville, comandado pelo pesquisador David Stahle. “Dá para calcular a idade, a taxa de crescimento, que é importante para o manejo florestal sustentável, além de observar acontecimentos ecológicos dentro do ambiente da floresta, pelas marcas deixadas por períodos de crescimento limitado por interferência da luz e do clima”, diz a botânica.

Os estudos dos anéis de crescimento do angelim-vermelho feitos por Souza estão em fase inicial. É preciso construir um modelo a partir de discos de madeira de árvores já cortadas. Depois, dependendo desse primeiro passo, pode-se recolher uma amostra da árvore viva, usando um trado que fura o tronco até a medula. É um método agressivo, e os cientistas avaliarão com cuidado se há necessidade de realizá-lo.

A árvore mais antiga que a equipe do TreeRing conseguiu datar até o momento na Amazônia é um cedro de 259 anos. “A região tem mais ou menos 16 mil espécies, a gente não conhece todas”, explica Souza. “No mundo inteiro, há uma deficiência de dados muito grande, que é ainda maior na Floresta Amazônica. As estações meteorológicas e os controles contínuos são muitos recentes, datam de 1980 para cá. Isso não é suficiente para avaliar mudanças na questão hidrológica, por exemplo. O objetivo é tirar essas informações das árvores.”

Souza afirma que nem sempre a árvore mais alta é a mais velha. Mesmo assim, a esperança é que os angelins gigantes da Amazônia possam contar o que testemunharam nos últimos séculos na floresta mais ameaçada do planeta.


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É jornalista, pesquisadora e roteirista