Reinaldo Azevedo, Raquel Sheherazade e Marco Antonio Villa foram contratados para converter a Jovem Pan em palanque contra Dilma, Lula e o PT. Dono da rádio e fiador da mudança, Tutinha exulta com o fato de não fazer mais "jornalismo água de salsicha": "Aos poucos vou reerguendo essa merda" ILUSTRAÇÃO: NEGREIROS_2015
A nova sinfonia paulistana
Como a rádio Jovem Pan se reinventou ao dar voz para o sentimento antipetista em São Paulo
Julia Duailibi | Edição 106, Julho 2015
“Bom dia! Muito bom dia para você que nos ouve. Hoje é segunda-feira, então coraaaagem, amigos”, diz a locutora, em tom esportivo, esticando o “a”. Os relógios marcam sete e meia. “Estamos em pleno verão brasileiro. Vinte e um graus neste momento na capital paulista. Faz um friozinho gostoso”, continua ela, com animação. Naquele momento, o trânsito na cidade ultrapassava os 50 quilômetros. A voz dá lugar ao som de uma orquestra nervosa e apressada – e a buzina dos instrumentos de metal anuncia de maneira estridente que o dia começou. “Vambora, vambora/Olha a hora, vambora” – o refrão da Sinfonia Paulistana, longa peça musical escrita pelo paraense Billy Blanco há mais de quarenta anos, é inequívoco: estamos na frequência AM 620 kHz. É a rádio Jovem Pan.
A jornalista Rachel Sheherazade é a dona da voz que apresenta o Jornal da Manhã, carro-chefe da emissora paulista, no ar desde 1972. Nos estúdios da Jovem Pan, no 24º andar do edifício Sir Winston Churchill, na avenida Paulista, Sheherazade chama as manchetes do dia 9 de março. Dois locutores de voz grave e empostada começam a ler os destaques, como num jogral. “Dilma Rousseff pede paciência, e brasileiros respondem com vaias e panelaço em doze capitais”, diz um deles; “Em rede de rádio e tevê, presidente defendeu ajuste fiscal e cobrou apoio da população”, emenda o outro. Sobe o som. Um barulho de panelas, vaias e apitos invade o estúdio.
“Olha o apoio da população aí, gente”, ressurge Sheherazade, agora com uma risadinha, inaugurando seus comentários do dia. Pelas próximas duas horas e meia, a jornalista emitirá opiniões sobre diversos assuntos, mas principalmente sobre a política nacional. Naquela manhã, mirou o “demorado e demagógico” discurso de véspera da presidente Dilma Rousseff, que usara a cadeia nacional de rádio e tevê, “se aproveitando do Dia da Mulher”, para “ludibriar o eleitor”. “O panelaço que aconteceu ontem à noite é uma amostra do que deve acontecer no próximo dia 15, nas manifestações pró-impeachment”, diz Sheherazade. E avisa: “O bicho vai pegar, Dilma!”
Desde novembro de 2014, Sheherazade compõe a bancada do Jornal da Manhã, da qual também participam o historiador Marco Antonio Villa e o jornalista Joseval Peixoto. E lá, de fato, o “bicho pega” para Dilma e o PT. Neste ano, o trio passou a liderar a audiência das manhãs no rádio, temperando as notícias com a pimenta da opinião – invariavelmente de oposição ao governo petista e quase sempre ultraconservadora, na linha “bandido bom é bandido morto”.
O Jornal da Manhã e, particularmente, Os Pingos nos Is, programa comandando pelo jornalista Reinaldo Azevedo às seis da tarde, restituíram à Jovem Pan o protagonismo que teve no passado. A rádio – que se orgulha de estar presente em 2 500 cidades, numa rede de 100 afiliadas – já foi casa de Roberto Carlos e Hebe Camargo, de Reali Júnior e Joelmir Beting, Fausto Silva e Osmar Santos. Nos últimos tempos, flertava com a irrelevância, atropelada pela concorrência.
Eleita ainda nos anos 90 “a cara de São Paulo”, a Jovem Pan sempre teve como vocação falar para a classe média do estado mais rico e populoso do Brasil, onde o sentimento antipetista é antigo e alcança altos decibéis. Para voltar ao topo, a emissora fez uma aposta: converter em negócio – leia-se audiência e, portanto, publicidade – o crescimento da insatisfação com o PT. O mesmo público que nunca permitiu a chegada do PT ao poder no estado em que o partido nasceu, numa espécie de no pasarán às avessas, e que tem na revista Veja seu oráculo impresso, encontra agora no rádio uma frequência em que se reconhece.
O artífice da operação é o empresário Antonio Augusto Amaral de Carvalho Filho, neto do fundador da rádio. Tutinha, como é conhecido por todos, chegou à presidência da Jovem Pan no ano passado. Até então confinado ao comando da Jovem Pan FM, o braço musical do grupo, ele vislumbrou a oportunidade histórica de patrocinar um aggiornamento da emissora, apropriando-se da onda antipetista.
“O Tutinha, por ser uma pessoa muito antenada e aberta, sacou que havia um vazio, e que esse era o momento de ir contra o governo federal, de aprofundar essa oposição”, me disse um ex-executivo da Pan ao descrever as transformações recentes. A rádio passou a ser chamada entre jornalistas e nas redes sociais de “Fox News Brasileira” – referência ao grupo de mídia conservador norte-americano –, mas também de “Ku Klux Pan” e de “Jovem Klan”.
Rachel Sheherazade Barbosa (Sheherazade é um segundo nome, dado pela avó, inspirada pela leitura de As Mil e Uma Noites) não se incomoda com apelidos ou memes que a apontam como heroína da direita ou princesa dos reacionários. Pelo contrário. Diz ser “conservadora como a maioria da população brasileira” e comemora o fato de a direita estar agora “mostrando a sua cara”. “Sou contra o aborto, a favor de penas mais duras para crimes hediondos. Então, não estou em dissonância com a sociedade, posso estar em dissonância com os meus coleguinhas jornalistas. Estes, sim, têm motivos de sobra pra me atacar”, falou, durante uma entrevista na tevê, ao citar pesquisas de opinião que apontam o apoio popular avassalador à redução da maioridade penal.
Sheherazade tem 41 anos e nasceu em João Pessoa, na Paraíba. É evangélica (inclusive doa o dízimo) e casada com um corretor de imóveis, com quem tem dois filhos. Pensou em ser escritora na infância, brincou de atriz na adolescência (interpretou Maria Madalena no teatro), foi professora de inglês na juventude, mas acabou se formando jornalista pela Universidade Federal da Paraíba, profissão que acumulou com a carreira de servidora do Tribunal de Justiça do estado.
A jornalista apresentava um telejornal da afiliada do SBT na Paraíba, onde fazia dois ou três comentários semanais sobre as notícias do momento, até que em 2011 se insuflou contra o Carnaval de João Pessoa. Com firmeza na voz e indignação no olhar, atacou os “abadás e camarotes VIPS” que teriam transformado a comemoração em “negócio dos ricos”. A bronca caiu no gosto do povo e acabou vista por mais de 1 milhão de pessoas nas redes sociais. Silvio Santos farejou o sucesso e imediatamente mandou chamar a moça de lábios carnudos, olhos puxados, sobrancelhas grossas e cabelos lisos, ora dourados, ora cor de mel. Alçou-a estrela de seu noticiário nacional da noite, o SBT Brasil.
Na emissora de Silvio Santos, Sheherazade soltou o verbo, sempre ao lado do “cidadão de bem”. Em setembro de 2013, ao comentar a execução, dentro de um presídio, dos assassinos de um menino boliviano de 5 anos, disse estar “aliviada”. “Que me perdoem os defensores de bandidos, mas esses colheram o que plantaram! […] Se a Justiça legal não funciona, do tribunal do crime ninguém escapa: estuprou, é estuprado; matou, não merece viver.” Como uma justiceira, talhando em pedra um Código de Hamurabi próprio, decretou: “Aqui se faz, aqui se paga.”
Meses depois, reeditou o mesmo estilo ao comentar a ação de outros justiceiros, responsáveis por agredir um rapaz negro acusado de cometer assaltos no Aterro do Flamengo, no Rio. Depois de deixá-lo nu, o grupo o amarrou a um poste, usando uma trava de bicicleta. “A atitude dos vingadores é até compreensível. O Estado é omisso, a polícia, desmoralizada, e a Justiça é falha. O que resta ao cidadão de bem, que ainda por cima foi desarmado? Se defender, é claro”, declarou. Sempre em tom indignado, desafiou: “E aos defensores dos direitos humanos que se apiedaram do marginalzinho preso ao poste, eu lanço uma campanha: façam um favor ao Brasil, adotem um bandido.” O episódio a lançou aos píncaros da fama, mas com ela veio a acusação de incitação ao crime. Acuada pelo Ministério Público, por parte da opinião pública e por jornalistas da própria casa, a direção do SBT cortou seus comentários.
A Jovem Pan ficou seduzida com as mil e uma de Sheherazade, e Tutinha a levou para soltar o verbo na rádio. Seus comentários vão do pastiche de artigos publicados pela Veja a teorias supostamente próprias que envolvem “ex-gays”, “aborto eugênico” e “cristofobia”. Cita com reverência Silas Malafaia, “uma das lideranças cristãs mais respeitadas do Brasil”, e defende propostas do deputado Jair Bolsonaro, como a “castração química” de estupradores. Em fevereiro, ao comentar a reação de um comerciante a um assalto, disse: “Ele […] baleou dois dos marginais. Os assaltantes morreram. Ainda bem. Melhor eles que a vítima!”
Sheherazade não improvisa: seus comentários são lidos em tom dramático, ora acelerando a fala, como se narrasse uma caçada policial, ora pausando a voz, para imprimir a cada sílaba sua dose de indignação. Na Pan, ganhou o apelido de “Garota Wikipédia” pela frequência com que recorre ao Google procurando informações do tipo “Winston Churchill frases”. No afã de atacar o PT, alivia até para o PMDB: “O partido se desgastou por demais andando de braços dados com o sujo Partido dos Trabalhadores. Tem um ditado que minha avó dizia: quem anda com porco farelo come.”
A agressividade das opiniões contrasta com o biotipo mignon e feminino. Sheherazade está sempre maquiada, de batom e base, e dá preferência às saias quando aparece publicamente, sobretudo em programas de auditório. De Ratinho a Palmirinha, lá está ela, uma Sarah Palin brasileira, pregando sobre a família e Deus, falando com simpatia de sua inaptidão para a cozinha (só se arrisca no brigadeiro), do fascínio por cemitérios (pediu a um professor que a levasse ao Instituto Médico Legal para ver um cadáver) e do gosto por rock’n’roll (anda com CDs do Iron Maiden no carro).
A desmoralização recente do PT inflou ainda mais a celebridade da apresentadora. Foi eleita uma das personalidades do ano de 2014 pela revista Veja São Paulo, onde apareceu ostentando os muques; nas manifestações pró-impeachment, foi apontada como a jornalista em que o público mais acredita, ao lado da revista Veja, veículo mais confiável.
“Fora PT, fora PT”, diziam os manifestantes no dia 15 de março. Na manhã do dia seguinte, o grito de guerra era reproduzido pela Jovem Pan. Havia certa euforia nos estúdios da emissora, que na véspera deixara de transmitir o futebol, fato raríssimo, para dedicar-se aos protestos. “Brasil paaaaara em protesto contra o governo federal e a corrupção”, anunciou um locutor, dando início ao jogral das manchetes. “Em todo o país, 2 milhões de pessoas fizeram história neste domingo em manifestações pacíficas”, rebateu o colega, devolvendo a bola. “São Paulo tem o maior protesto desde as Diretas Já.”
No estúdio, enquanto Sheherazade repetia que o Brasil “clamava” pelo impeachment de Dilma, “persona non grata número 1 do país”, seu colega Marco Antonio Villa destacava que os protestos não tinham “paralelo na história” e defendia a expulsão do poder “desses criminosos de lesa-pátria que nos governam”. Villa não se conformava com a medição do Datafolha, que estimara o público da Paulista em 210 mil pessoas, número muito discrepante do divulgado pela Polícia Militar – 1 milhão de manifestantes. “É uma mentira! Eu estive nas Diretas Já, no impeachment do Collor, nas passeatas nos anos 70”, bradava o historiador, furioso. “A presidente Dilma está mais perdida que o Lula em biblioteca”, ironizou. O comentário jocoso arrancou risos de Sheherazade e Joseval Peixoto, além de pedidos dos ouvintes para que o repetisse. “Ela não tem a mínima ideia do que está acontecendo. É uma Maria Antonieta em 1789”, improvisou o comentarista.
Villa nasceu há 60 anos em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, e é ex-professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos. Em 2003, publicou o livro Jango: Um Perfil, no qual questiona a “mitificação” do ex-presidente João Goulart. Virou alvo da esquerda ao atacar a “vitimização” dos movimentos de luta armada contra a ditadura e as indenizações pagas aos anistiados. Em contrapartida, tornou-se comentarista do Jornal da Cultura, emissora de tevê controlada pelo governo tucano, analista na TV Veja e colunista do jornal O Globo. Mais recentemente, publicou Década Perdida: Dez Anos de PT no Poder e Um País Partido: 2014, a Eleição Mais Suja da História.
Villa é um homem magro, de estatura mediana. Fala de maneira ligeira e anasalada, fazendo tremer a língua na pronúncia dos erres, no típico sotaque paulista de influência italiana. Não tem o apelo de Rachel Sheherazade nem a desenvoltura de Reinaldo Azevedo, mas se desdobra como pode. “Ou o Brasil acaba politicamente com o petismo, ou o petismo destrói o Brasil” é um de seus bordões. Refere-se a Lula como “chefe da quadrilha”, “Pedro Malasartes de São Bernardo” e “Marcola de barba”. Andou enfurecido com a oposição, que não estaria se esforçando o bastante para apear Dilma do Planalto. “Com todo o respeito ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ele faria um bem para o país ficando calado”, disse quando o tucano se pronunciou contra o impeachment. Durante uma entrevista ao vivo com o senador Aloysio Nunes Ferreira, do PSDB paulista, sustentou que as declarações do parlamentar estavam “na contramão da história” e eram “opostas ao que pensa o povo brasileiro”. Levou um chega pra lá: “Propor impeachment é faculdade de qualquer cidadão brasileiro. Se você acha que tem de propor agora, por que você não propõe?”
No 13º andar de um prédio no Centro de São Paulo fica o escritório de advocacia de Joseval Peixoto, também âncora do Jornal da Manhã, ao lado de Villa e Sheherazade. Com 76 anos, dedica-se há mais de quarenta não apenas às notícias do dia, mas a matérias penais, sua especialidade. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, no Largo de São Francisco, em 1965; atuou como promotor na Justiça Militar e hoje também é advogado da Pan, onde trabalha desde 1963 (salvo breves períodos em que esteve nas concorrentes, as rádios Bandeirantes e Tupi).
Passava do meio-dia quando Joseval Peixoto entrou na sala de reunião do seu escritório. Bronzeado, com cabelos grisalhos e sorriso de dentes brancos, parece mais alto na tevê. Assim como Sheherazade, passou a integrar o telejornal SBT Brasil em 2011, após convite de Silvio Santos, ouvinte da Jovem Pan. Simpático, começou a contar com voz pausada e familiar histórias da época de locutor esportivo: é dele a narração radiofônica da vitória do Brasil na Copa de 70, no México, assim como a letra da música Ói Nóis Aqui Traveis, gravada pelos Demônios da Garoa.
Depois de dez minutos de conversa, Joseval Peixoto abordou o tema: “A direita está crescendo em todo o mundo. Na Jovem Pan, o que aconteceu? O dono é o seu Tuta, que tem 84 anos. Está fazendo hemodiálise, está muito mal. Ele foi o construtor de tudo aquilo.” Fez uma pausa e prosseguiu: “Esse homem saiu e os filhos o substituíram. O Tutinha e o Marcelo [Carvalho, que cuida da parte administrativa]. Não é que eles estejam errados, porque estão acertando em audiência. Mas mudaram completamente o conceito.” Explicou: “Prestação de serviço. Sou radialista desse conceito. A gente não tem a preocupação de fazer manchete como os jornais. Se tiver um incêndio no Empire State, em Nova York, e um buraco na 23 de Maio, a gente vai para a 23, porque nossos ouvintes passam por lá.”
Peixoto fez então uma digressão para contar que a rádio costumava ouvir a todos, de esquerda ou de direita, “com dignidade e respeito”. “Você recebia um Lula, um Suplicy, uma Marta ou um Maluf. O que a gente queria? Colher deles informações para os nossos ouvintes.”
De volta ao presente, continuou com perguntas que ele próprio respondia: “O que eu vejo hoje? Acho que o surgimento da direita no jornalismo até demorou. Principalmente no nosso estado, onde o PT sempre foi derrotado.” Mesmo na eleição de 2012 para a prefeitura da capital paulista, quando o petista Fernando Haddad venceu José Serra, a insatisfação com o PT predominava no público da emissora, que se manifestava sobre o pleito em enquetes informais. “Eu botava trinta ouvintes no ar. Dava 28 a 2 para o Serra. O que isso quer dizer? Quer dizer que o público da Jovem Pan é anti-PT, sempre foi. Então, criticar o PT na Jovem Pan é como bater em cego.”
O radialista fala com respeito dos colegas, a quem chama de “homens de direita” – e sobretudo de Sheherazade, que diz ser “sua irmã”. Foi ele quem a apresentou à Pan, a pedido de Tutinha, num almoço entre a então estrela do SBT, Marcelo Carvalho e José Carlos Pereira, diretor de jornalismo da rádio, onde começou em 1966. “O Jornal da Manhã e Os Pingos nos Is viraram uma trincheira contra o PT. É pau no PT direto, direto. Não é a forma como eu faço jornalismo”, lamentou Peixoto. Ele atribui à formação como advogado criminal o desconforto que diz sentir. Reus sacra res est, asseverou em latim. “O réu é uma coisa sagrada. Então, me machuca quando esses colegas, que são grandes colegas, acusam apenas pela leitura dos jornais, isso me agride.”
Joseval Peixoto está longe de ser considerado uma voz do rádio a serviço da esquerda. Até a chegada dos dois companheiros de bancada, era uma das referências do conservadorismo na Jovem Pan. Hoje, brinca que, perto dos colegas, é marxista. “Eu, na verdade, não sou nem de direita nem de esquerda. Sou jornalista, entendeu? Sou um profissional de prestar serviços. Eu não me sinto bem. Realmente, não me sinto bem”, voltou a dizer, questionado sobre o rumo da emissora. Perguntei se ele já havia conversado com a direção da rádio sobre o assunto: “Eles sabem, têm perfeita noção disso.” E confidenciou: “Eles pedem para, de vez em quando, eu dar uma levantada de voz. Sendo possível, a gente faz uma ponderação.”
Saímos para almoçar. Caminhando pelas ruas do Centro, Peixoto cumprimentava pessoas e distribuía sorrisos. No restaurante por quilo, frequentado por advogados e estudantes de direito, o radialista voltou a recorrer ao direito penal. Citando Nicola Dei Malatesta, jurista italiano do século XIX, autor de A Lógica das Provas em Matéria Criminal, lembrou: “No processo crime, tudo há de ser claro como a luz, certo como a evidência e cristalino como qualquer grandeza algébrica. Dentro desse conceito, acho que são levianos quando acusam o Lula de chefe da quadrilha, a Dilma de chefe da quadrilha. ‘Mas não é possível que ela não soubesse.’ Isso é uma hipótese”, concluiu. Seu filho, que também é advogado, nos acompanhava no almoço. Ao ouvir os argumentos do pai, achou por bem fazer uma breve intervenção: “Isso não é jornalismo. Isso aí é conversa de boteco.”
Quando Joseval Peixoto começou a trabalhar na Pan, a emissora ainda era conhecida pelo nome de batismo, Rádio Panamericana, oficializado em decreto de Getúlio Vargas, de 1942. A rádio, porém, só entrou no ar às 18 horas do dia 3 de maio de 1944, ao som da Quinta Sinfonia de Beethoven, conforme consta do livro JP: 50 anos, do jornalista e poeta Álvaro Alves de Faria. Seis meses depois da estreia, o advogado, empresário e futuro dirigente do São Paulo Futebol Clube, Paulo Machado de Carvalho, comprou a emissora dos primeiros donos, entre os quais o autor e diretor Oduvaldo Vianna (pai do dramaturgo Vianinha).
A Panamericana, que tinha como carro-chefe programas voltados para as colônias estrangeiras em São Paulo, tornou-se uma das três emissoras de Machado de Carvalho, avô de Tutinha e dono das rádios Record e São Paulo. Machado de Carvalho entrou para a história por chefiar a delegação brasileira de futebol nas campanhas vitoriosas de 1958 e 1962, o que lhe rendeu o apelido de “Marechal da Vitória” e o nome na porta do Estádio do Pacaembu. Em 1953, fundou a TV Record, vendida 36 anos mais tarde para Edir Macedo, o bispo fundador da Igreja Universal do Reino de Deus.
A partir da Copa de 50, com Pedro Luiz, um dos vultos da locução esportiva, e o comentarista Mario Moraes, a Panamericana começou a fazer sucesso como “a emissora dos esportes”. Teve em seus quadros Casimiro Pinto Neto, radialista de Bauru – que deu nome ao sanduíche de queijo, rosbife e tomate que pedia no Ponto Chic, tradicional restaurante do Centro –, e Wilson Fittipaldi, o Barão, pai dos pilotos de automobilismo Emerson e Wilsinho. Não durou muito. A tevê roubou as estrelas do rádio, e a Panamericana entrou em decadência.
“Aquilo era um cachorro morto”, diz o jornalista e musicólogo Zuza Homem de Mello, autor de A Era dos Festivais: Uma Parábola, uma espécie de enciclopédia da cultura musical dos anos 60. Ele trabalhou na TV Record e na Pan, onde por mais de dez anos teve um programa de música. “Ninguém queria pegar aquela mandioca. Ela ficou jogada às traças durante anos, com uma audiência mínima”, lembra Zuza, de bermuda e tênis, sentado de costas para um gramofone numa poltrona de seu apartamento em Pinheiros.
A “mandioca” foi parar nas mãos de Tuta, caçula dos três filhos de Paulo Machado de Carvalho. Antonio Augusto Amaral de Carvalho – ou A. A. A. de Carvalho e, mais tarde, “seu Tuta” – começara a trabalhar aos 18 anos na Panamericana. Depois foi para a TV Record, onde se destacou como diretor no Fino da Bossa, na Família Trapo e na Jovem Guarda. Fazia parte da chamada “Equipe A” da emissora, formada por Manoel Carlos, futuro escritor de novelas da Globo, e pelos diretores Nilton Travesso e Raul Duarte.
Foi nessa época que Tuta teve uma ideia para transformar o mico em sucesso: promover a rádio com artistas da TV Record. Ofereceu programas a Roberto Carlos e Hebe Camargo. “Os caras praticamente não cobravam, porque o salário vinha da tevê e, na rádio, eles anunciavam seus shows. O Tuta teve essa sacada, mais barata impossível. Levantou assim a Panamericana”, contou Zuza. Os “Machado de Carvalho”, como ele se refere à família, sempre tiveram uma meta: “O Tuta era um cara que queria ficar rico. O Tutinha também.”
Inspirado pela Jovem Guarda, o velho Machado de Carvalho sugeriu a troca do nome da rádio para Jovem Pan. “Isso foi a pedra de toque do sucesso da emissora”, avaliou o musicólogo. “Rádio Panamericana” é complicado de dizer, não tem impacto. “É comprido, ruim de se pronunciar, não tem condição. Agora, ‘Rádio Jovem Pannnnnn…’”, disse, imitando a vinheta da emissora, que deixa ecoar o “n” no ar, como na vibração de um instrumento. “Puuuuta! Nego fica doido”, completou, sorrindo e levantando ligeiramente os joelhos da poltrona. Nos anos 70, a pedido de Tuta, Zuza Homem de Mello foi a Dallas para criar a identidade sonora da rádio. Algumas vinhetas idealizadas por ele estão no ar até hoje.
A transformação da Pan em referência do jornalismo radiofônico veio da parceria entre Tuta e Fernando Vieira de Mello, que saiu da TV Record em 1966 para comandar a redação da rádio. Vieira de Mello instituiu o binômio “informação e prestação de serviço”. Em 1974, quando a comunicação instantânea engatinhava e a tevê ainda encontrava muitas dificuldades para operar ao vivo, a Pan fez história ao deixar de transmitir a Voz do Brasil, obrigatória, para cobrir o incêndio do edifício Joelma, no Centro de São Paulo, convocando a população para doar sangue aos feridos na tragédia.
O dono da emissora e seu diretor de jornalismo se completavam. Tuta, discreto, tímido e avesso a eventos sociais, tinha ojeriza a receber políticos. Reza a lenda que chegou a se esconder no banheiro durante uma visita de Paulo Maluf à redação. Já Vieira de Mello, que acumulava a função na Pan com a de diretor de marketing da loja de departamentos Mappin, desempenhava com gosto o papel de relações-públicas.
O Jornal da Manhã já teve como apresentadores nomes como Ney Gonçalves Dias e Oswaldo Sargentelli, conhecido pela voz de trovão – e, mais ainda, pelos shows que promovia com mulatas em suas casas noturnas. Foi nessa época que Vieira de Mello criou outra marca registrada da emissora, o “Repita”, momento em que os locutores falam a hora em dobradinha. Certa manhã o radialista Antonio Alexandre apresentava o programa quando pediu a um colega que repetisse a hora que acabara de informar. Vieira de Mello adentrou o estúdio gritando “sensacional”. O bordão foi adotado.
“A cidade não desperta, apenas acerta sua posição/Porque tudo se repete, são sete/E às sete explode em multidão:/Portas de aço levantam, todos parecem correr/Não correm de, correm para/Para São Paulo crescer/Vambora, vambora, olha a hora/ Vambora, vambora, vambora, vambora” – o famoso trecho de Amanhecendo, uma das quinze canções que compõem a Sinfonia Paulistana, anuncia desde os anos 70 o começo do Jornal da Manhã.
O ritmo marcado e agitado da melodia – uma dose de cafeína sonora – combina com os versos quase caricatos de uma letra que, em sua versão completa, faz referências às chaminés da cidade, ao metrô, ao “dinheiro, mola do mundo”, e sobretudo, inúmeras vezes, ao trabalho. No fim das contas, funciona como uma versão mais elaborada de um apito de fábrica, exortando quem a ouve a sair da cama com o único objetivo de trabalhar e produzir. “Na reza do paulista, trabalho é Padre-Nosso”, diz um dos versos. A música é uma homenagem ambígua à cidade de São Paulo – às vezes parece um comentário irônico, às vezes uma adesão ingênua aos mais conhecidos clichês sobre os paulistas. Talvez não seja à toa que tenha sido concebida no Rio de Janeiro, em pleno Arpoador.
“Nos anos 60, nós íamos à praia com meu pai, bem cedo, antes de amanhecer. Mas tínhamos escola logo depois, então, quando chegava a hora de voltar para casa, meu irmão lembrava meu pai: ‘Vamos embora, olha a hora, vamos embora’”, contou o músico Billy Blanco, filho do autor da sinfonia. Billy Blanco, pai, que estava escrevendo a Paulistana como um presente à mulher, paulista, aproveitou para inserir o apelo do filho na peça que demorou dez anos para completar. Quando ficou pronta, pegou o grande carretel de fita com a gravação e seguiu para o Jardim Botânico, no Rio, onde ficava a TV Globo.
Nilton Travesso lembra: “Ele me disse: ‘Ouça.’ E foi realmente assustador. Tinha um encantamento e uma poesia inacreditáveis.” Travesso, que naquela época comandava o Fantástico, disse a Blanco: “Olha, tem uma rádio em São Paulo todinha voltada para a cidade. Deixa eu mostrar para eles.” A sinfonia agradou. Nos anos seguintes, a Paulistana se tornaria a companheira de todas as manhãs dos paulistas – e trilha sonora da infância de muita gente que ia para a escola ouvindo a Jovem Pan no carro dos pais.
Da música que abria o Jornal da Manhã às escolhas políticas, Tuta construiu uma emissora 100% voltada para São Paulo, conforme dizia. A emissora flertava com o malufismo e nunca foi uma voz de oposição ao regime militar. Em 1973, Tuta comprou as ações dos irmãos e se tornou o único dono da Jovem Pan.
Como na divisa do brasão da cidade, que se pode ler na lataria dos ônibus na capital paulista – Non Ducor Duco –, o empresário conduzia, não era conduzido. Da escala de cobertura dos jogos de futebol às requisições para comprar pilhas, tudo passava por sua mesa. Se alguém insistia numa tese de que discordava, dizia: “Compre uma rádio para você, por enquanto essa é minha.” Gostava de circular pela redação, sempre com as mãos para trás, e conversar com os funcionários, que ainda hoje falam com carinho de “seu Tuta”.
Em 1976, a sede da emissora foi para a Paulista. Um amigo ajudou seu Tuta na época: João Carlos Di Genio, dono do cursinho Objetivo e, mais tarde, da Universidade Paulista, a Unip. O cursinho anunciava de graça na rádio, que distribuía bolsas de estudos para os ouvintes. Além de dar à emissora o primeiro carro de reportagem, Di Genio presenteou Tuta com um Porsche, e foi retribuído com um Rolex. No final dos anos 80, decidiram embarcar juntos no sonho de Tuta de voltar a fazer tevê. Criaram a TV Jovem Pan, no canal 16 UHF.
Logo se desentenderam sobre a entrada de um novo sócio no negócio. Hamilton Lucas de Oliveira, dono da IBF (Indústria Brasileira de Formulários), que fazia as “raspadinhas” e foi acusado de atuar no esquema de PC Farias, fora apresentado a Tuta pelo mais velho de seus cinco filhos, o Tutinha. A briga entre os sócios resultou na instalação de uma CPI no Congresso em 1993. Em seu relatório final, a CPI citou o suposto envolvimento de Tuta com documentos falsos e até com o sumiço de tapetes comprados para a nova emissora de tevê – as investigações mostraram que as peças haviam ido parar nas casas dos filhos do dono da Pan.
O jornalismo da Jovem Pan envelheceu com “seu Tuta”. A partir dos anos 90, começaram a surgir no Brasil as emissoras FM dedicadas exclusivamente à transmissão de notícias – primeiro a CBN, e, já nos anos 2000, a BandNews. A Pan e seu jornalismo pareciam jurássicos. Quando assumiu a emissora, no ano passado, Tutinha enfrentou o processo de decadência, “mas sem mudar seu DNA conservador”, afirmou o ex-executivo da emissora. “O que houve nessa transição foi a soma de duas coisas: uma exacerbação ideológica, por questões de mercado, e a defesa da posição política em que eles, de fato, acreditam. Tanto assim que, se você for nas redes sociais, o Marcelo, irmão do Tutinha, dá pau na Dilma todo dia.”
No ano passado, antes do segundo turno das eleições, Tutinha participou de manifestação a favor do tucano Aécio Neves, apelidada pela revista The Economist como “Revolução do Cashmere”, em razão do público formado por “barões dos negócios” e “socialites” que pediam a vitória do candidato de “centro-direita” (a família Neves é dona de uma retransmissora da Pan em Minas). Na ocasião, o dono da Pan foi apontado como autor da foto em que um dos herdeiros do Estadão, Fernão Mesquita – casado com a irmã da mulher de Tutinha –, protestava segurando um cartaz com a frase “Foda-se a Venezuela”.
Com seu sotaque italiano, Claudio Carsughi tem uma das vozes mais familiares do rádio esportivo brasileiro. Nascido em Arezzo, na Toscana, veio com a família para o Brasil em 1946, aos 14 anos. O pai, advogado, não queria que o filho perdesse a fluência no idioma materno e lhe arranjou uma posição como correspondente esportivo do jornal de um amigo, na Itália. Carsughi chegou a cursar a Escola Politécnica da USP, mas seus bicos como jornalista se mostraram mais rentáveis do que as perspectivas de um engenheiro em início de carreira. Começou na Rádio Panamericana em 1953, onde trabalharia praticamente a vida toda. Em abril deste ano foi demitido, em pé, numa escada da emissora de Tutinha.
Num fim de tarde de maio, Carsughi, com 82 anos, me recebeu em seu apartamento, a poucos metros da Rádio Jovem Pan. Formal, de terno e gravata e semblante sério, me conduziu à sala, onde uma tevê sem som transmitia uma partida do futebol europeu. A decoração do cômodo, com enfeites de centro e cortinas volumosas, parece ser herança de sua mulher. Carsughi é viúvo e há algum tempo mora sozinho no apartamento. O jornalista sentou numa poltrona, de costas para a janela, e cruzou elegantemente suas pernas finas. Atrás dele, da janela do apartamento, no 19º andar, era possível ver uma imensa antena.
Carsughi se orgulha de ter trabalhado com as três gerações dos Machado de Carvalho. A preocupação com as despesas da emissora cresceu na gestão mais recente, de Tutinha, ele disse. O tema surgiu sem rodeios numa conversa com Marcelo Carvalho, em que discutiam a possibilidade de a Pan voltar a cobrir as corridas de Fórmula 1. “O Marcelo me disse: ‘Quando tinha meu pai, se faltavam 3 milhões, ele fazia um cheque e estava resolvido. Se hoje faltam 3 milhões, preciso ir ao banco levantar isso.’”
A sala já estava escura no momento em que o relógio de pêndulo, apoiado na parede, soou seis badaladas. Carsughi levantou para acender a luz, sem interromper seu raciocínio: “A rádio tem uma despesa muito grande porque não é só a família, mas uma árvore genealógica que está pendurada lá: netos, bisnetos, sobrinhos.” Sua demissão, ele disse, “foi uma coisa absolutamente empresarial”. Mas fez uma ressalva: “Não que o meu ordenado fosse nababesco.”
“Essa atitude do Tutinha, para mim, não causou nenhum rebuliço. Se tivesse sido com o Tuta, eu teria ficado surpreso.”Questionou, contudo, o que chamou de “opções políticas” de Tutinha. “Ele contratou a Sheherazade e o… me foge sempre o nome…” Reinaldo Azevedo, completei. “Sim.” E o Marco Antonio Villa? “Quem é esse?”, perguntou, sem esperar a resposta: “Se eu sou um empresário, posso abominar o Lula, a Dilma, o PT. Mas não vou fazer publicidade numa rádio que diga isso, porque amanhã preciso de dinheiro do BNDES. Então, negócio é negócio. Gosto pessoal é outra coisa.” Fez uma pausa, parecia refletir. “Vê se uma multinacional da indústria automobilística vai anunciar num troço desse? Mas nem por sonho.”
Ao final da conversa, Carsughi me acompanhou até o elevador e disse “fazer votos” para que as mudanças na Jovem Pan, onde trabalhou por mais de 60 anos, deem certo. Mas não parecia confiante. “Se fossem ações da Bolsa, diria que não são blue chips. São ações de risco. Eu não compraria”, falou, destacando que o rádio, assim como a televisão, é uma concessão do governo. A da Jovem Pan AM foi renovada em 2009. Vence daqui a quatro anos. “O Tutinha não tem problema porque é rico. Mas todos os funcionários, os demais membros da família, sei lá… É uma jogada. Acho arriscada. Talvez porque eu seja mais velho.”
Depois da tevê, o rádio é o meio de comunicação mais acessado no Brasil. Seu uso, porém, caiu nos últimos dois anos – de 61% para 55% da população, segundo a Pesquisa Brasileira de Mídia (PBM), realizada pelo Ibope por encomenda da Secretaria de Comunicação da Presidência da República. No ano passado, movimentou 1,3 bilhão de reais em publicidade, conforme levantamento do Projeto Inter-Meios, elaborado pelo jornal Meio & Mensagem. O estudo, baseado no faturamento declarado de 350 veículos, mostra que há dez anos o rádio representa invariáveis 4% do bolo publicitário, diferentemente do que ocorre com jornais e revistas, cuja participação do total está em queda.
Mas essa aparente estabilidade é contestada por gente do mercado. “Na agência, o meu share de rádio caiu absurdamente nos últimos anos. Migrou muito para mídias digitais e para a tevê a cabo”, disse o publicitário Daniel Chalfon, vice-presidente de Mídia da agência Loducca e presidente do Grupo de Mídia de São Paulo, entidade que divulga informações sobre o mercado brasileiro de anúncios.
Chalfon tem uma hipótese para os números que parecem não bater. “A grande questão é que o crescimento do dinheiro está indo para o Google e para o Facebook. E esses caras não reportam aqui [no Inter–Meios]. Face, Twitter, Buscapé, Google não revelam faturamento. O Google hoje só perde para a Globo. A Globo fatura 16 bilhões de reais, eles faturam uns 4,5 bilhões de reais no Brasil. O Face deve bater os 2 bilhões este ano, duas vezes a Abril”, arrisca. Em 2014, as receitas da Pan foram de 63 milhões de reais, contra 64 milhões no ano anterior. O carro-chefe do faturamento é a Jovem Pan AM, na qual estão os anunciantes de maior peso, como bancos e grandes varejistas. Trinta segundos na emissora custam 9 739 reais, mais do que cobram suas concorrentes CBN e Bandeirantes.
Segundo o Ibope Monitor, que acompanha 85 emissoras pelo país, nove dos dez maiores anunciantes de rádio no Brasil são empresas privadas. O único sob influência direta do governo é o Banco do Brasil, que no ano passado gastou 18 milhões de reais com publicidade nas rádios, entre elas a Pan. Para integrantes da equipe e amigos, Tutinha disse que sua decisão de bancar vozes de oposição ao governo lhe custou 12 milhões de reais em publicidade. De fato, na programação da emissora, não são significativos os anúncios do governo federal ou de estatais. A Petrobras, por exemplo, que neste ano já gastou 2 milhões de reais com rádios, alocou apenas 20 mil na Pan.
“Mas ninguém tem verba do governo, ninguém”, insistiu o vice-presidente de rádios do Grupo Bandeirantes, Mario Baccei, que controla onze emissoras, entre as quais as rádios Bandeirantes e BandNews. Estávamos em sua sala, no último andar do prédio em que funciona o Grupo Bandeirantes, no Morumbi. “Pega qualquer rádio. As minhas, por exemplo. Não tem um anúncio da Caixa, dos Correios. Eu tenho um contrato com o Banco do Brasil, mas é um contrato histórico, que só a Rádio Bandeirantes tem”, argumentou Baccei, mencionando a crise política e econômica do país.
Na programação da Pan, em contrapartida, a Sabesp e o Metrô, empresas ligadas ao governo estadual tucano, anunciam com frequência. Neste ano, o Metrô investiu 235 mil reais na rádio. No ano passado foi 1 milhão de reais. Parte da propaganda da empresa aparece disfarçada na programação, com o que chamam eufemisticamente de “publieditorial”: reportagens exaltando o Metrô feitas pelos repórteres da casa, mas encomendadas pelo anunciante. Na gestão de Gilberto Kassab, do PSD, a prefeitura costumava pagar cachê aos repórteres da Pan por esse tipo de serviço, e um jornalista poderia receber até 10 mil reais extras fazendo uma reportagem pautada pelos marqueteiros da prefeitura. Nas últimas semanas, porém, a crise parece ter chegado aos anunciantes do governo do estado. As verbas de publicidade para a Pan diminuíram – o que gerou queixas internas em relação ao governador Geraldo Alckmin.
Em seu livro de memórias Ninguém Faz Sucesso Sozinho, Tuta disse que “o governo simplesmente nega anúncio das empresas públicas aos meios de comunicação que falam mal dele”. O livro é assinado por Tuta – ele registra tanto o apelido quanto o nome cheio de iniciais, A. A. A. de Carvalho, na capa –, mas foi escrito por José Nêumanne Pinto, editorialista do Estadão e comentarista de política da Pan, que até a chegada dos novos colegas era considerado um radical do antipetismo.
Na obra, Tuta ainda conta ter sofrido pressão para acabar com a campanha “Brasil, país dos impostos”, levada ao ar durante o governo FHC. “Com o presidente Lula, temos total liberdade, nunca recebemos recados, nunca fomos pressionados, falamos mal, às vezes, de certas coisas do governo, e nada”, registra no livro publicado em 2009, num momento de alta popularidade de Lula. Tuta chega a dizer que “temos uma liberdade de imprensa maior que com FHC”. Mas fez um senão: “Só que, com Lula, nenhuma verba publicitária do governo e nem das estatais é destinada à rádio.”
Quando assumiu a Presidência em 2003, Lula e seu então ministro de Comunicação, Luiz Gushiken, operaram uma reforma na distribuição de recursos de publicidade do governo. Pulverizaram a verba, distribuindo-a para veículos de comunicação do interior do país, abastecendo assim a chamada “mídia regional”. Desse modo, o dinheiro de publicidade para as rádios passou a ser dividido com emissoras minúsculas Brasil afora. No primeiro ano de governo petista, 270 rádios recebiam propaganda oficial. Hoje são mais de 3 mil. O governo também começou a abastecer com dinheiro oficial sites e blogs de jornalistas favoráveis à administração petista, numa tentativa de fazer frente ao crescimento das vozes de oposição na imprensa tradicional.
Mario Baccei, da Band, elogia o trabalho do concorrente, apesar dos riscos da empreitada. “A Pan é uma empresa que está entrando novamente nos trilhos. Os caras estão fazendo um belo trabalho. Num mundo em que todo mundo é politicamente correto, se alguém se diferencia vão dizer: ‘Ah, está tendo uma posição radical, de direita.’ Eu elogio a posição: ‘Vou fazer essa marca voltar a ser de verdade.’ Acho do cacete. Brilhante. Valoriza o rádio.” Fez uma pausa e arrematou: “É a posição de cada um. Como é que eu coloco minha cabeça no meio da multidão e apareço um pouco mais? ‘Ah, xinga a mãe.’ Xinga a mãe, então.”
Em termos de receita e prestígio, a Jovem Pan AM é mais forte que a Jovem Pan FM, originalmente só musical. A frequência AM, porém, é fraca e chega aos rádios baixa, com chiados e interferências. Na Paulista, onde estão os estúdios da Pan, mal se ouve a programação, emitida pela antena de Balneário Mar Paulista, a 20 quilômetros dali, numa espécie de brejo às margens da represa Billings. “Os adolescentes com 17, 18 anos são a primeira geração educada 100% digitalmente. Esses caras agem com muita naturalidade com e-mail, WhatsApp. Estão acostumados a ver tevê em 4k (Ultra High Definition). E aí? Você vai dar uma rádio AM para eles?”, questionou o publicitário Daniel Chalfon, sentado em uma das oito cadeiras de couro branco na sala de reuniões da agência, com quadro de arte abstrata, geladeirinha modelo vintage e vista para o Parque Ibirapuera.
De acordo com a pesquisa da Secom, as AMS são preferidas por apenas 14% dos brasileiros (e 12% dos paulistas). Quando ainda comandava a Jovem Pan, Tuta pai começou a retransmitir parte da programação jornalística do AM no FM, numa tentativa de alcançar os concorrentes que, a partir dos anos 90, começaram no FM com conteúdo all news.
Tutinha confidenciou recentemente à equipe que gostaria de transformar a FM, que “só dá prejuízo”, numa all news, a exemplo da CBN e da BandNews. Disse, porém, que ainda lhe falta coragem. “O Tutinha pode ter mil problemas, mas ele entende essa movimentação perfeitamente. O Brasil deve a ele esse modelo de rádio FM que a gente teve durante vinte anos. Foi o primeiro a buscar uma rede nacional para falar com jovens e a colocar humor. Claro que ele copiou de fora, não inventou isso, mas foi o primeiro”, avaliou Chalfon, o publicitário da Loducca.
Há mais de trinta anos Tutinha chegou a ser apontado pela Veja como uma das pessoas que revolucionavam o rádio. Criou o humorístico Pânico, transmitido desde 1993 pela Jovem Pan FM, inspirado no radialista americano Howard Stern, conhecido por ofender seus ouvintes.
As recentes mudanças implantadas por Tutinha no jornalismo da Jovem Pan também guardam paralelo com um movimento que ocorreu nos Estados Unidos nos últimos dez anos: o fortalecimento das talk radios. Lá, com o surgimento das novas tecnologias para se ouvir música, as emissoras musicais perderam importância e encontraram sobrevida retransmitindo programas jornalísticos, esmagadoramente conservadores, de apoio aos republicanos e contrários à administração de Barack Obama. O formato dos programas é sempre o mesmo: um apresentador polêmico comenta as notícias do dia, enquanto recebe ligações dos ouvintes. Esse tipo de programa se tornou possível em 1987, com o fim da Fairness Doctrine, lei que determinava às emissoras que dessem tratamento igualitário a diferentes pontos de vista.
No paper Understanding the Rise of Talk Radio, o professor de ciência política Jeffrey M. Berry, da Universidade Tufts, em Massachusetts, diz que há vinte anos havia nos Estados Unidos 500 all news ou all talk radios. Hoje são 3 500. Segundo Berry, dos dezesseis apresentadores de talk radios com maior audiência, onze são conservadores. O líder é Rush Limbaugh, um gordinho careca, com charuto na mão. Seu programa tem mais de 20 milhões de ouvintes por semana e é retransmitido por 600 emissoras de rádio de todo o país.
Em junho, a candidata democrata Hillary Clinton sugeriu que a “retórica inflamada” das talk radios poderia ser o gatilho de massacres que ocorrem pelo país, como o de Charleston, onde nove negros foram mortos por um jovem branco. Limbaugh respondeu: “É a linguagem da esquerda que está destruindo a fé das pessoas no futuro. É a linguagem da esquerda, de seus intelectuais e de seus cientistas, que está dando às pessoas ideias apocalípticas.”
Na opinião de Otavio Frias Filho, a ascensão do pensamento de direita na esfera cultural remonta a 1989. “Por mais que muita gente de esquerda tenha sido crítica, a União Soviética não deixava de ser um paradigma. De repente, sumiu esse pedaço do mundo. Foi um golpe”, disse-me o diretor de redação da Folha de S.Paulo, durante um café, em junho.
O ano de 2001 pode ser tomado também como um marco: “A Estrada de Damasco foi o ataque do 11 de Setembro”, afirmou o jornalista e dramaturgo, em referência à conversão de são Paulo, de perseguidor dos cristãos a anunciador da fé em Jesus. “Foi um divisor de águas na medida em que a esquerda sempre foi mais simpática ao antiamericanismo. A partir dali, muitos intelectuais e jornalistas foram para a direita”, comentou.
No Brasil, Frias Filho aponta o ensaísta Olavo de Carvalho, nos anos 90, como o “são João Batista”, aquele que veio antes e nunca deixou de ser uma espécie de pai espiritual de uma leva de polemistas que passou a ocupar espaço na imprensa, principalmente após a chegada do PT ao poder. Entre eles, Diogo Mainardi, Demétrio Magnoli, Luiz Felipe Pondé e o próprio Reinaldo Azevedo, os três últimos colunistas da Folha (ao lado deles, o jornal também publica colunistas de esquerda, como André Singer, Vladimir Safatle, Guilherme Boulos e Ricardo Melo).
De certa forma, a presença da direita nos meios de comunicação do país até demorou para chegar. A ditadura, feita em nome de valores conservadores contra a “ameaça comunista”, permitiu à esquerda ser detentora de uma “hegemonia moral” no debate intelectual, segundo Frias Filho, mesmo muito depois de encerrado o regime militar. O pensamento de direita ficava circunscrito basicamente à esfera econômica, com protagonismo de Roberto Campos, Delfim Netto e Mario Henrique Simonsen.
Depois dos sucessivos escândalos de corrupção envolvendo lideranças do PT e da fadiga de material após tantos anos no poder, alterou-se o diapasão político da sociedade. Os colunistas de direita se legitimaram, muitas vezes lançando mão de um discurso histriônico. “Há um nível de exagero na forma desses polemistas que obscurece o conteúdo”, avaliou Frias Filho.
A jornalista Mariza Tavares comanda há treze anos a CBN, emissora das Organizações Globo, a primeira FM com formato all news. Da sala de reuniões da CBN em São Paulo, enquanto pedia à equipe informações sobre a liberação do balanço da Petrobras – prestes a sair naquela noite de abril –, Tavares concordou que “o modelo musical das rádios está em xeque”. “Por que agora tá todo mundo ‘Ah, fazer jornalismo é a melhor coisa do mundo’? Porque o mercado vê que o musical está se diluindo. Aí, parece que todo mundo passou a gostar muito de jornalismo. Mas dá trabalho fazer a coisa direito”, disse ela, que comanda uma redação com mais de 100 repórteres em São Paulo, Brasília e Rio.
“Então, quando você fala em cobertura das rádios, é cobertura ou é apresentador dando pitaco?”, provocou, discretamente. Tavares se dispôs a conversar com piauí desde que não precisasse se pronunciar sobre o modelo de negócios dos concorrentes. Mas não deixou de mandar seu recado. “Qual é o maior patrimônio que a gente tem? Isenção, credibilidade. Procurar o tempo todo juntar as versões para contar as histórias. É claro que isso não faz com que a gente abra mão de opinião. E os comentaristas estão aí para isso. Mas zelamos pela pluralidade de comentaristas”, disse a diretora executiva.
Ela discorda da tese, muito difundida, de que o público paulista é conservador e que, por isso, as emissoras teriam de se enquadrar nesse perfil de audiência. “São Paulo tem de tudo, como qualquer cidade. O principal é que as pessoas querem se informar, e rádio é muito serviço. Fica parecendo que o principal é uma opinião, mais ou menos raivosa. As pessoas querem saber como chegar em casa quando tem chuva. Não é só opinião. A opinião é muito importante, mas o rádio não se resume a isso.” Ainda que não diga, o alvo principal da diretora de jornalismo da CBN tem nome.
Às seis da tarde em ponto, um locutor da Jovem Pan anuncia em tom solene que está no ar Os Pingos nos Is. A trilha sonora grandiloquente que precede a abertura do programa cessa e Reinaldo Azevedo assume o microfone enunciando o bordão que repete, com convicção, de segunda a sexta: “A partir de agora, informação, os principais fatos do dia e a melhor análise.” Mas a solenidade logo se dissipa: “Ó nóis aí. Vai!” Azevedo dá a largada a seu show.
No ar desde abril de 2014, na Jovem Pan AM e FM, o jornalista pode ser surpreendentemente engraçado e terrivelmente agressivo. Criou uma versão radiofônica – portanto mais ruidosa, mais histérica e histriônica – do blog que há nove anos abriga no site da Veja, onde se consolidou como voz de oposição ao petismo. A fórmula rendeu a Os Pingos nos Is a liderança de audiência, com aproximadamente 98 mil ouvintes por minuto, à frente da Rádio Bandeirantes e da CBN. Azevedo não hesita em se gabar do feito, colocando no ar o funk de Valeska Popozuda: “Beijinho no ombro pro recalque passar longe/Beijinho no ombro só pras invejosas de plantão.”
No programa, já mandou Dilma, a quem chama de “governanta”, “calar a boca”. Em defesa da redução da maioridade penal, ataca “merdas” e “vagabundos” que são contra. Diz ter “nojo” do PCdoB, “gente que vive com dinheiro de pobre, desdentado”. Adversários são “essa gente”; a esquerda, “bostinhas”, a quem manda “coçar as partes pudendas em boteco”. Chama o “petismo” e variações “esquerdistas” de “doenças do espírito”. Sugeriu à professora Marilena Chaui que pegasse sua vassoura: “E não é vassoura de varrer. É aquela que voa mesmo.”
No mês passado, inflamou-se contra os “blogs sujos”, financiados com dinheiro do governo federal, referindo-se a eles como “prostitutas barbudas disfarçadas de jornalistas”. Xingou de “canalha ética”, “bandido moral” e “delinquente intelectual” um grupo de pessoas que defendia o regime venezuelano, entre as quais o escritor Fernando Morais, “aquele mistificador”. “É por isso que a esquerda é nojenta. Eu sou conservador. Tentem achar um texto meu defendendo o Pinochet, a ditadura militar argentina ou a brasileira”, desafiou.
Na boca de Azevedo, Raúl Castro vira o “anão assassino”; Che Guevara é o “porco fedorento”; Cristina Kirchner, a “beiçola de Buenos Aires”; Kim Jong IL, o “gordinho tarado”. Lula é sempre o “babalorixá de Banânia”. Aliás, na sua versão radiofônica, Azevedo imita com frequência – e bem – o ex-presidente, a quem costuma mandar recados: “Você, Lula, é o pior caminho entre dois pontos.” Ao dizer que o petista é um “cadáver político”, parafraseou o filme O Sexto Sentido: “I see dead people. Quando vejo o Lula, ‘eu vejo gente morta’.” Às vezes empolga-se tanto na virulência que tropeça nas palavras. Ele mesmo brinca, dizendo que se “afogou com guspe”, citando expressão de Dois Córregos, cidade do interior paulista onde nasceu.
Era uma segunda-feira, dia 22 de junho, e Azevedo parecia especialmente animado. “E aí, tomou umas Brahma, Reginaldo?”, perguntou de saída, gargalhando. Reginaldo Lopes, a quem chega a citar dezenas de vezes enquanto está no ar, é o operador de som do programa. Ao lado do jornalista Patrick Santos, de 42 anos, e de Victor LaRegina, de 20 anos e ainda estudante, Lopes é um personagem que serve de escada para Azevedo brilhar.
“Esse negócio de Brahma tá rendendo, hein, Reginaldo?”, continuou. Fazia alusão ao noticiário do fim de semana, no qual Lula aparecia numa suspeita troca de e-mails entre empreiteiros, com a alcunha da marca de cerveja. Naquele dia, o ex-presidente era o alvo do “editorial”, comentário que Azevedo lê no ar logo no início do programa: “Eu diria que ele está abaixo do volume morto. Mas, também, não é boa a expressão. Volume morto é a água que está abaixo da linha de captação. Pode ser tratada e consumida. O Lula já não tem mais como ser consumido. Nem o PT. É incompatível com o consumo humano.”
Por quase onze minutos, Azevedo criticou declarações de Lula sobre o PT, a imprensa e a democracia. Referiu-se à “espantosa ignorância” do “chefão petista” para concluir seu editorial: “É impressionante que o Brasil tenha produzido essa monstruosidade política disfarçada de operário bonachão e bom camarada. #ProntoFalei.”
Naquela tarde, ironicamente, Azevedo comentou que não precisava “sair xingando” ninguém “para aparecer em rede social”. Era uma alusão velada ao jornalista Ricardo Boechat, da BandNews, que dias antes havia virado hit nas redes depois de mandar, ao vivo, o pastor Silas Malafaia “procurar uma rola”.
No dia 16 de abril, um dos assuntos de Os Pingos nos Is era uma manifestação em São Paulo contra o prefeito Fernando Haddad. Prato cheio para Azevedo, o alvo era o projeto “De Braços Abertos”, que oferece tratamento e abrigo em hotéis do Centro da cidade, além de uma pequena remuneração – em troca de serviços de varrição – a usuários de crack. “Imagina o que é, caro ouvinte, o prefeito juntar no mesmo prédio viciados, dando a eles uma renda.” Nesse instante, Lopes subiu o som da música, para criar o clima de tensão adequado, recurso dramático que abunda no programa.
Azevedo retomou: “E aí vêm essas esquerdas vagabundas, esses canalhas do patrimônio alheio, falando ‘Ah, é discriminação’. Por que não leva o drogado pra sua casa, seu filho da mãe?” Ele grita: “Leva pra sua casa! Você, esquerdinha chique de Moema, da Vila Nova Conceição, da Vila Madalena, de Higienópolis, do Itaim. Leva pra sua casa, seu banana!” Parece que vai bater com um cassetete na mesa. “Os jornalistas que gostam disso façam a mesma coisa. Leva lá! Aproveita e já puxa um fumo com o craquelado. Faz lá um negócio de droga geral, já que um bando de jornalista queima mato mesmo. Ou não queima?!”
O jornalista dá uma trégua a si próprio. O som do estúdio diminui. “Eu falo aquilo que as pessoas sabem que é verdade e fica todo mundo escondendo. É gente que fica dando passinho miudinho, que anda segurando o pum. Aqui é o seguinte: eu falo, não tenho medo, não!” Mais batidas na mesa. Ele respira. Pede então a Lopes que coloque Gustav Mahler. Entra o Adagietto, da Sinfonia nº 5 do compositor austríaco. Azevedo diz que a música o acalma. Soam as cordas e a harpa que compõem a trilha sonora do filme Morte em Veneza, de Luchino Visconti.
E assim é de segunda a sexta, diariamente. Durante sessenta minutos, Reinaldo Azevedo é o showman. No estúdio azul da Pan, cujas paredes são recortadas por grandes círculos envidraçados, apoiado na mesa de fórmica cinza e com um microfone a sua frente, ele vai do berro à gargalhada em fração de segundos. Alterna fúria e zombaria, gravidade e escárnio, sem cessar.
Para muitos leitores do blog e ouvintes da rádio, Tio Rei, como se autodenomina, virou uma espécie de guru. Seu programa alimenta isso. Azevedo dá conselhos do tipo “Use camisinha, vai com calma, não adianta reclamar para Deus se fizer besteira, Deus tem mais o que fazer do que cuidar do seu peru”. Indica bandas indies, filmes, cita autores e recomenda bibliografia. Vai de Rimbaud às novelas globais, da epopeia grega à canção sertaneja. Não perde a chance de corrigir o português dos outros, dos petistas em especial, e discorre sobre o significado de palavras que cita nos editoriais, como “condestável” ou “inefável” – e então uma vinheta em tom meio galhofeiro anuncia o “momento cultural” do programa.
Reinaldo Azevedo estreou seu blog na Veja em 2006, quando Lula já caminhava para a reeleição, recuperado do escândalo do mensalão, que eclodira em 2005. O PT, no entanto, havia perdido no curso da crise seus principais quadros. Mais do que isso, deixara definitivamente de ser o partido da ética. Foi nesse terreno fértil, com uma disposição inesgotável para enfrentar Lula, que Azevedo pavimentou sua estrada. A expressão “petralha”, que cunhou, é um de seus orgulhos.
Caiu no gosto de milhares de pessoas, e seu blog passou a ter mais de 500 mil acessos por dia. Em 2013, a Folha o convidou a assinar uma coluna semanal. No mesmo ano, ele aceitou participar como convidado de uma das edições do Jornal da Manhã, na Pan. Os ouvintes gostaram e, a partir de dezembro, começou a fazer comentários diários na rádio, gravando-os em casa, de madrugada (ele vai dormir quando o dia está amanhecendo e acorda por volta de meio-dia). Em março de 2014, propôs a Tutinha um programa.
A princípio, o dono da Pan ficou reticente – avaliava que Azevedo, com trajetória no jornalismo impresso, tinha uma fala complexa demais para o rádio. Depois de três pilotos, topou. Bastaram três meses para o programa se alçar à liderança. Na aldeia antipetista da Pan, Reinaldo Azevedo é a principal figura. Tem trânsito direto com Tutinha, a quem considera um amigo. É o único dos comentaristas que desfruta de sala própria, onde costuma fumar (até um maço de cigarros por dia) e se entupir de café (teve seu fumódromo denunciado à Vigilância Sanitária por algum colega incomodado, não se sabe se com a fumaça ou com a presença do fumante).
Azevedo foi de esquerda durante muito tempo. Ex-trotskista, na juventude atuou no movimento estudantil Liberdade e Luta, a Libelu. Ainda em 1995, era possível vê-lo elogiando alguém como o petista Emir Sader. Na Folha, ao resenhar o livro O Anjo Torto, do cientista político, saúda a obra que “não se limita a justificar o presente, mas a interrogá-lo”, afirma que “os patrulheiros do antiesquerdismo fashionable podem ficar tranquilos”, já que o autor “não absolve a esquerda de seus erros”, e diz ser evidente que “o neoliberalismo tem fracassado na tentativa de revigorar o capitalismo”. Então conclui: “Sader escreveu um livro simples e necessário.” Hoje com 53 anos, Azevedo tinha 33 quando assinou essas linhas. Como Paulo Francis, converteu-se à direita tardiamente.
Sua infância foi pobre. O pai era operário e moleiro de caminhão, a mãe foi empregada doméstica e trabalhou numa granja depenando frangos. “Às vezes, eu ia com ela. Tenho dificuldade de comer ave até hoje”, declarou numa entrevista recente à revista Playboy. A família mudou para Santo André, no ABC paulista, quando ele tinha nove meses. Morando numa casa de um quarto, muitas vezes dormia na cozinha. Na escola, gordinho, de óculos e ruim de bola, tomou gosto pelos livros e, depois, se tornou professor de cursinho. “A gente tinha várias maneiras de ganhar a vida. Várias desonestas e uma honesta: trabalhar”, declarou à revista. No rádio, diz que ele e seus ouvintes são da turma que “trabalha e estuda”. Dá “pau no pobrismo”, segundo ele o ato de transformar a pobreza em valor ou em estética, e condena à fogueira o “vitimismo triunfante” e a “apologia da ignorância” que vê em Lula.
Azevedo cursou faculdade de letras, mas não concluiu. Formou-se em jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo. Foi redator-chefe do Diário do Grande ABC, passando depois pela Folha e pelas revistas República, Bravo!, Primeira Leitura e, finalmente, Veja.
Apesar de dizer sobre os usuários de crack a mesma coisa que Sheherazade declarou sobre o rapaz amarrado ao poste – “Leva para casa” –, o astro de Os Pingos nos Is se incomoda ao ser comparado à colega de emissora ou a figuras como Jair Bolsonaro. Não passa um programa sem fazer a defesa do “estado democrático de direito”, que vê permanentemente ameaçado ou desrespeitado pelo petismo. Define-se como “liberal, católico e conservador”, o que não o impede de ser a favor do casamento entre homossexuais e da adoção por casais gays, ou de se colocar contra a independência do Banco Central. Seu pensamento, ele sempre diz, tem matizes que os adversários insistem em omitir.
Em 2006, Azevedo sofreu uma cirurgia para retirar dois tumores da cabeça. A partir daí, passou a andar com um chapéu-panamá, que por um tempo se tornou sua marca registrada. Uma pessoa próxima ao jornalista me disse ter a impressão de que depois desse episódio ele consolidou o estilo que mantém até hoje. A iminência da morte lhe deu um sentido de urgência das coisas e reforçou o desassombro e a falta de medida que o caracterizam. O tucano José Serra, de quem Azevedo é amigo, certa vez o definiu como uma “locomotiva desgovernada”.
O jornalista não retornou os pedidos de entrevista de piauí. No ar, disse outro dia: “Esse programa é meu e no meu programa eu faço o que eu quero! Quando o Tutinha não quiser mais, ele me manda embora. Você entendeu como funciona, meu fio? É rottweiler! Vem aqui brincar, vem botar a mão na minha boca pra ver o que te acontece.”
“Vai se f…” Um apito interrompe o palavrão. “Essa mulher aí quer acabar com o Brasil”, reclama Doutor Pimpolho, personagem do quadro de humor Chuchu Beleza, que vai ao ar na Jovem Pan FM. Com sua voz desafinada, num sotaque típico paulistano, Pimpolho desabafa com um amigo: “Não dá para ser rico no Brasil, Almeida. Meu sonho era morar num lugar em que eu pudesse andar de Porsche sossegado, de vidro aberto. Com meu Rolecão de ouro no pulso.” Pimpolho é um empresário bem-sucedido, porém mau-caráter, egoísta e mimado, que trata mal todos a sua volta, principalmente a secretária. Seu bordão é “Vai se f…, meu”. O radialista Felipe Xavier, criador do humorístico de rádio Sobrinhos do Ataíde, inventou o personagem num período em que havia saído da Pan. Sua inspiração foi Antonio Augusto Amaral de Carvalho Filho, o Tutinha.
O atual presidente da Jovem Pan cresceu pelos corredores das emissoras da família. Na Record, costumava levar os amigos de escola para ver filmes que ainda não haviam estreado e os professores para assistir aos festivais de música. “Eu era um ídolo”, contou em entrevista recente à revista de uma companhia aérea. O empresário diz que costumava fazer bullying na escola como forma de se proteger de eventual troça dos colegas, em razão de um sinal de nascença que tem no lado esquerdo do rosto, uma mancha vermelha que marca parte da testa e do olho. Tutinha nunca foi chegado aos estudos. Começou a trabalhar cedo. Aos 15 anos, dirigia um programa na Record, enquanto nas horas vagas saía com as bailarinas da emissora. Na época, os comerciais eram ao vivo, e ele conta que se divertia quando garotas-propaganda tinham de tomar xixi no ar, porque alguém trocara o conteúdo da bebida que elas anunciariam. “Pegadinha” parecida com o tipo de humor que faria anos depois, no Pânico.
Em 1976, recebeu do pai a missão de tocar a Jovem Pan FM.Diz ter sido o responsável por lançar Madonna, Lulu Santos, Titãs, Mamonas Assassinas, entre outros. Em entrevista à Playboy, em 2006, contou que, certa vez, mandou Renato Russo “pro inferno” porque ele não queria gravar um “Jovem Pan” no meio da melodia de uma música sua que tocava na rádio. Depois, fez as pazes e promoveu um show do Legião Urbana, que foi um sucesso. “Ganhei tanto dinheiro que saí com a caixa igual à da Igreja Universal.”
Tutinha colocou muita banda para tocar na rádio em troca da receita de shows. Ficou famosa uma briga com o Ultraje a Rigor, por causa desse acordo informal. Roger, o vocalista, se insuflou contra o empresário e gritou no meio de um show: “Tutinha, filho da puta, Tutinha, jabazeiro.” Tutinha institucionalizou o jabá na rádio (a prática de receber dinheiro das gravadoras para tocar determinadas músicas), embora refute esse nome, alegando que a operação é comercial, com emissão de nota fiscal e pagamento de imposto. Disse à Playboy ter faturado 1 milhão de dólares para lançar a cantora Shakira no Brasil e ter conhecido vários países de graça por causa dos pacotes pagos pelas gravadoras. “Recebo trinta artistas novos por dia na rádio. Seleciono dez, vou à gravadora e dou preferência para aquela que me dá alguma vantagem.”
Como disse certa vez, sempre foi “bamba”em ter ideias. Criou personagens humorísticos que se tornaram clássicos da rádio, como Mike Nelson e Djalma Jorge, os quais ele mesmo interpretava, com piadas escatológicas sobre hemorroidas e afins. Sua criação de maior sucesso, porém, foi o Pânico, que depois levou para a tevê ao lado do parceiro Emílio Surita. A atração persegue personalidades e coloca “gostosinhas” para servir de escada aos apresentadores. O empresário admite que, às vezes, sua equipe foge dos limites. Disse ter ficado uma semana sem dormir quando Sabrina Sato masturbou um porco em cadeia nacional.
O seu senso de humor é particular. Recentemente, em conversa com os repórteres da Pan, mostrou um aplicativo de vídeo no celular, pelo qual é possível interagir com outros internautas. Exibiu, então, um filme que fez da mulher dormindo, e a reação dos internautas que pediam para ele, entre outras coisas, soprar no rosto dela.
A lista de seus negócios já incluiu uma parceria com a UNE para confeccionar e vender as carteirinhas de estudantes (disse ter vendido mais de 150 mil delas), site de entretenimento e torneio de lutas marciais. “Na verdade, só tenho de agradecer ao meu pai, pois ele, com todo esse gênio, terminou me fazendo ganhar mais dinheiro na família”, disse, em depoimento ao livro de Tuta pai.
Certa vez, o pai encomendou uma pesquisa sobre a qualidade das águas minerais. Verificou-se que determinada marca tinha coliformes fecais. O dono da água ofereceu 500 mil reais para que não fosse veiculada a informação, proposta que teria sido negada pelo presidente da Pan. “Você está louco!”, reagiu Tutinha, censurando a decisão do pai. Anos depois, ao comentar a história, contemporizou, dizendo que era muito “moleque e ambicioso”.
O presidente da Pan parece estar sempre mal-humorado. Com frequência usa expressões como “some daqui”, “vai pra o inferno” e “de quinta categoria”. O estresse já lhe rendeu gastrite e asma. “Sou um empreendedor. As pessoas assim são mais infelizes”, disse à revista Trip em 2005. Tutinha foi procurado pela piauí diversas vezes, desde o dia 23 de março. Não respondeu a nenhuma das mensagens e orientou os demais profissionais da emissora a não falar para essa reportagem.
Em fevereiro deste ano, ele convocou uma reunião com a equipe de jornalismo no restaurante Ráscal, que fica no térreo do prédio onde funciona a Jovem Pan, na Paulista. Queria contar sobre as mudanças que estava implementando e explicar a demissão de Carlos Belmonte, chefe de reportagem da emissora, que saiu da Pan alegando ter sido dispensado por ser “um homem de esquerda”. “Desprezo a escola Reinaldo Azevedo, ou melhor, desprezo Reinaldo Azevedo”, disse Belmonte, numa rede social, após 24 anos de Jovem Pan.
Durante duas horas, intercalando um “bosta” aqui e um “merda” acolá, Tutinha expôs sua visão da conjuntura política do país e as razões que o levaram a apostar numa linha editorial antipetista. Admitiu que alguns comentaristas falavam “umas merdas”, mas disse que traziam audiência, citando os vídeos de Sheherazade no portal da emissora. Disse que sua decisão era ousada e que por enquanto lhe dava prejuízos. Mas que precisava fazer algo, afinal os jornais da emissora eram uma “bosta”. “Aos poucos vou reerguendo essa merda.”
Apesar do discurso e da guerra declarada ao governo nos microfones da rádio, os donos da Jovem Pan andaram passando o chapéu pelos corredores do Palácio do Planalto. No dia 12 de março, segundo registros da Presidência, ele e o irmão estiveram reunidos com o então ministro da Comunicação Social, Thomas Traumann, no 2º andar do Palácio do Planalto, a poucos metros da “governanta”. Dois meses depois, em meados de maio, representantes da Pan voltaram a Brasília, dessa vez para fazer pontes com o novo ministro, Edinho Silva. Após uma semana, em 26 de maio, nova reunião, na redação da Jovem Pan, da qual participaram sete pessoas, entre as quais o diretor de jornalismo, José Carlos Pereira. Os encontros seguiram rituais parecidos: um lado reclamou da verba publicitária rarefeita, o outro questionou a linha editorial e a abundância de adjetivos contra Dilma e o PT. No meio da conversa, Tutinha exaltou o fato de não fazer mais um jornalismo “água de salsicha”, insosso, para o qual ninguém dava bola. Comemorou a alta na audiência, mas reclamou, de novo, que a liderança não havia se traduzido em dinheiro.
O governo sinalizou com novas campanhas, entre elas uma pregando mais “tolerância” entre os brasileiros. Dias depois da visita do ministro, estreou um quadro no Jornal da Manhã, chamado “Boa notícia”. O patrocinador é a administradora de cartões Elo, controlada pelo Bradesco, Caixa e Banco do Brasil.
Há pouco mais de um ano, a Jovem Pan promoveu um evento com o mercado publicitário para formalizar a chegada de Tutinha à presidência da emissora. No encontro, com seu ar enfadado, o empresário anunciou: “Eu me coloquei uma margem: se for mal em três anos, tchau. Nova York que me espere. Eu não fico mais aqui.”
Doutor Pimpolho, com certeza, aprovaria a decisão.
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