Felicidade conjugal: o casamento foi firmado de forma quieta. Os cônjuges, que já não se queixavam da saúde, rejuvenesceram a olhos vistos. “Os ciclos hormonais recomeçaram”, ria-se o marido
Alissa compra a morte
Em algum lugar, ao longe, não desaparecia a ideia de que aquela felicidade duraria pouco
Liudmila Ulítskaia | Edição 206, Novembro 2023
Para Tânia Rakhmánova
Tradução de Irineu Franco Perpetuo
Quando a vida foi levada à perfeição, veio a velhice. O último toque a custar caro foi uma pequena banheira, instalada depois de longas reflexões e buscas. Alguns recomendaram um box de banho, mas Alissa rejeitou completamente: o que há de bom em ficar de pé com uma chuva caindo na cabeça? Outra coisa é deitar-se na água quente, com uma almofada de borracha sob a cabeça, e rolar com os pés macios duas bolinhas de plástico que picam de forma agradável…
Alissa pertencia à rara estirpe de pessoas que sabem com plena clareza o que querem e o que não querem de jeito nenhum.
O sangue misturado, recebido da mãe, meio báltico, meio polonês, desde a tenra idade esfriou quaisquer ímpetos apaixonados de Alissa, e o medo de cair sob o poder de outrem era mais forte do que os demais medos característicos das mulheres: o medo da solidão, ou da falta de filhos, ou da pobreza. Sua mãe, Marta, que ainda antes da guerra casara-se com um oficial militar e tivera Alissa desse matrimônio, enterrou seu general e por todo o restante de sua jovem vida apaixonou-se e sofreu intensamente, até chegar ao hospital psiquiátrico. Estava sempre pronta a deitar aos pés do amante da vez tudo de que dispunha, inclusive o apartamento de general deixado pelo marido…
Após o rompimento com o último amado, Marta deu cabo de si de uma forma indecorosamente literária: tendo ido previamente ao cabeleireiro e à manicure, jogou-se embaixo de um trem. Essa conduta insana da mãe paralisou completamente em Alissa a capacidade de qualquer autossacrifício vazio e infrutífero.
Aos funerais de Marta compareceu certa quantidade de ex-amantes e também o último, que a largara e assim assentara-lhe o golpe mortal. Eles descarregaram uma montanha de flores no caixão fechado, e Alissa, aos 20 anos, de encantos esquálidos e ainda não manifestos, desprezando e envergonhando-se com a desmesura de sentimentos da mãe, jurou que nunca seria, como ela, o brinquedo daqueles animais. E não foi mesmo. Não foi um claustro pesado, mas sim romances raros e insignificantes que equipararam sua experiência de vida à de suas contemporâneas.
Trabalhou como desenhista projetista, deleitava-se com a excelência de seu próprio trabalho, sabia que ninguém no escritório conseguia traçar uma linha melhor do que ela. No fim do século XX, apareceram os computadores, e todos os desenhistas, mesmo os mais eméritos, tiveram que pousar o lápis e começar a dominar aflitivamente um programa que cumpria ordens de forma precisa: “Erguer caneta, baixar caneta, deslocar para o ponto…” – mas foi exatamente aí que Alissa deslocou-se para a aposentadoria.
A parte mais feliz de sua vida prolongou-se por mais de dez anos: o valor da aposentadoria não era grande, mas Alissa encontrou um excelente bico para complementá-la – três vezes por semana, passeava com crianças no jardim público, das dez até o almoço. E depois estava maravilhosamente livre. Ia às vezes ao teatro, mais a concertos, ao conservatório, travou lá conhecimentos interessantes e vivia a seu bel-prazer até que, certa vez, sem mais nem menos, junto à otomana de seu apartamento, perdeu a consciência. Depois de ficar deitada por tempo indeterminado, voltou a si e estranhou o ângulo de visão: avistou uma xícara quebrada numa pocinha fina, os pés da cadeira caída, o felpudo tapete rubro-azul bem junto ao rosto. Levantou-se com facilidade. O cotovelo contundido doía. Refletiu e chamou um médico. Mediram-lhe a pressão e prescreveram-lhe comprimidos. E tudo parecia como antes, com uma exceção: a partir desse dia, Alissa passou a pensar na morte.
Não tinha nenhum parente decente – os lituano-poloneses tinham se esvaído há tempos, devido ao desamor pelo poder soviético que o finado general representava. A estirpe do general, por seu lado, não queria bem nem Marta, nem sua filha Alissa, por motivos que todos tinham esquecido há tempos…
Alissa tinha 64 anos. A saúde, caso não levasse em conta o desmaio, recordação inesperada da finitude da vida, era boa. Contudo, surgiu uma questão: e se ficar doente?
De cama? Com quem contar?
Alissa perdeu o sono. Não dormiu por algumas noites e depois chegou a uma decisão genial. Muito simples: quando se abatesse uma doença e esta se tornasse insuperável, poderia envenenar-se. Preparar de antemão um bom veneno, de preferência um soporífero, para tomar e não acordar. Sem qualquer manifestação estúpida, como as que a mãe organizara em sua época. Nada a ver, Anna Kariênina. Simplesmente tomar – e não acordar. E, desta forma, como que evitar a própria contrariedade da morte…
Quando essa ideia passou pela cabeça de Alissa, ela ergueu-se de um salto da cama e foi até a mesa – em algum lugar havia uma caixinha branca de porcelana para pó de arroz ou outro cosmético que a mãe lhe deixara. Pois lá poderia deixar seu pó, colocar perto da cama e, quando chegasse a hora, ingerir…
Não, ainda não será amanhã. Mas está na hora de pensar. Para isso, a primeira coisa de que precisava era encontrar um médico fiel, que receitasse esse pó na quantidade necessária. A tarefa não era simples, mas praticável…
Alissa, depois do desmaio, vivia como de hábito – passeava com Arsiúcha e Gálotchka. Crianças queridas do prédio vizinho, com uma mãe educada, não uma boca-suja, mas uma professora de música que dava aulas de manhã, ocupando-se dos filhos na segunda metade do dia.
À noite, Alissa divertia-se como antes, mas não se esquecera do bom médico. Conversando com uma de suas companheiras de teatro disso e daquilo, deu-se que ela tinha um primo médico. Judeu, ainda por cima. Ora, ora. Talvez não fosse em vão que falassem todo tipo de coisa a respeito deles – sabotadores, envenenadores… Em suma, Alissa pediu à sua conhecida que a pusesse em contato com seu primo para uma consulta médica.
Em uma semana, veio o primo – Аleksandr Iefímovitch. Um homem triste e magro, com expressão facial interrogativa. Entendeu que tinha sido chamado para uma consulta privada, mas Alissa o fez sentar à mesa, serviu-lhe chá. Ficou levemente perplexo, mas a paciente era educada, de aparência muito atraente. Mulheres assim nunca antes tinham caído em seu campo de visão.
Em geral, não caía nenhuma já há muito tempo. Ele examinava os pacientes exclusivamente do ponto de vista médico. Há três anos se tornara viúvo, angustiava-se na solidão e não queria nem ouvir as alusões dos parentes aos danos de seu isolamento.
A mesa estava nobremente posta, com xícaras finas de porcelana na toalha cinza de linho, os bombons eram pequenos, importados, e não os pesados Ursos no Bosque de Pinheiros. A própria Alissa Fiódorovna era, como as xícaras e os bombons, elegante, com uma boca fina que não sorria, cabelos claros, bem alisados. Ela serviu o chá e falou de seu problema de forma direta: preciso de um sonífero forte, ademais em uma quantidade que, depois de tomar, eu não acorde mais.
Depois de pensar um pouco e tomar um pouco de chá, Aleksandr Iefímovitch perguntou:
– A senhora tem alguma doença oncológica?
– Não. Sou perfeitamente saudável. A questão é que quero partir saudável no momento em que tomar essa decisão. Não tenho parentes que cuidem de mim e não tenho o menor desejo de desmoronar em hospitais, sofrer e urinar em mim mesma. Preciso de um soporífero que eu possa tomar quando essa decisão estiver madura. Simplesmente quero comprar para mim uma morte leve. O senhor vê algo de mau nisso?
– Quantos anos a senhora tem? – depois de uma pausa prolongada, o doutor fez uma pergunta absolutamente médica.
– Sessenta e quatro.
– Está com uma aparência maravilhosa. Ninguém lhe daria mais do que 50 – ele observou.
– Eu sei. Mas não o chamei aqui para elogios. Diga-me com certeza, o senhor pode me receitar o remédio necessário em quantidade suficiente?
O doutor tirou os óculos, botou-os diante de si e esfregou os olhos.
– Tenho que pensar. Entenda, em princípio, os barbitúricos são prescritos com receitas especiais… é um caso sujeito à lei.
– E, neste caso, bem pago – observou, de forma seca, Alissa Fiódorovna.
– Sou médico e para mim esta é primordialmente uma questão moral. Admito que é a primeira vez na vida que me defronto com uma proposta dessas.
Terminaram de tomar o chá. Separaram-se combinando que o doutor pensaria e ligaria para comunicar sua decisão.
Agora era Aleksandr Iefímovitch que não dormia. Ela não lhe saía da cabeça, aquela mulher magra e esbranquiçada tão diferente de todas que ele encontrara na vida. Muito diferente de sua esposa, Raia, alegre, de madeixas onduladas a escaparem do penteado, com a blusa sempre surrada sobre os seios grandes, barulhenta, até escandalosa… e como fora torturante a partida de Raia, devorada pelo sarcoma, com monstruosos acessos de dor não aliviados por qualquer morfina.
Durante uma semana inteira ele não conseguiu tomar uma decisão, todo dia preparava-se para ligar para aquela espantosa Alissa, porém não conseguia resolver a questão moral que ela lhe propusera. Uma mulher direta, honrada, digníssima! Pois não lhe teria custado nada queixar-se de insônia, pedir soníferos e ele receitaria, e ela juntaria umas dez, doze doses – quem poderia verificar? – e tomaria para dormir o sono eterno.
Encontraram-se, sem planejar, no conservatório, em um concerto de Pletnev,[1] no intervalo, depois da suíte de A bela adormecida, de Tchaikovsky, e antes da sonata de Chopin. Alissa não o reconheceu de imediato, ele a reconheceu já no primeiro segundo.
Ela estava no bufê com um copo de água, em pé, buscando com os olhos uma cadeira livre. Aleksandr Iefímovitch cumprimentou-a de longe. Levantou-se, acenou de forma convidativa e ela se sentou na cadeira que ele liberara.
Depois do concerto, ele foi acompanhá-la até em casa. Enquanto eles ouviam música, caíra uma enxurrada. Poças frondosas cobriam toda a rua e o Tchaikovsky de bronze sentava-se em sua poltrona de bronze num pequeno lago de água de chuva. O doutor tomou Alissa Fiódorovna pelo braço. Seu braço era leve e firme, como o de sua esposa Raia, quando ele a acompanhara pela primeira vez na festa de formatura. E ele caminhou, maravilhando-se com aquela sensação tátil há tempos esquecida.
“Eis um homem que não quer nada de mim”, pensou Alissa, “sou eu que espero um favor dele…”
Eles falaram de Pletnev, ele lembrou-se de Iúdina,[2] observando que desde a morte dela era justamente Pletnev quem representava aquele tipo de musicista que assumia o direito de uma leitura nova e pessoal dos clássicos da música. Alissa Fiódorovna compreendeu que estava conversando com alguém que percebia a música de forma profunda, como profissional, e não como ela mesma, uma ouvinte superficial.
Ele a conduziu com segurança até o prédio, encontrando sem dificuldade, no pátio sem iluminação, o anexo de dois andares, escondido nos fundos, onde estivera uma semana antes. Ele tinha um senso de orientação espacial notável, tanto no bosque quanto na cidade: era sempre fácil encontrar um lugar que vira uma vez. Detiveram-se à entrada.
Já tinham se despedido e ela decididamente não fazia a pergunta por causa da qual chamara-o à sua casa.
Veio uma pausa incômoda, que ele interrompeu com a mesma expressão interrogativa que lhe era peculiar:
– Alissa Fiódorovna, estou pronto para responder ao seu pedido de forma afirmativa, mas queria voltar a isso depois, quando… – era evidente que escolhia as palavras certas – quando as circunstâncias estiverem maduras. Até então, assumo os cuidados da sua saúde.
Ela assentiu – ninguém jamais assumira seus cuidados e ela nem deixaria! Mas fora agradável ouvir aquilo. Ela estendeu-lhe a mão leve e firme, e pegou a maçaneta da porta de entrada. O local estava escuro.
– Permita-me… – ele veio atrás dela na escuridão úmida da entrada.
Ela tateou o primeiro degrau com o pé no escuro, quase tropeçando. Ele pegou-a por trás, pelas costas.
Assim começou seu romance – uma volta à juventude devido a um toque casual, o primeiro beijo no escuro da entrada, a queimadura do inesperado, acendendo na alma de Alissa um sentimento de plena confiança no homem…
E Alissa confiara-lhe mais do que as mulheres confiam na juventude – não a vida, mas a morte.
Começou o ano mais feliz da vida de Alissa. Aleksandr Iefímovitch não destruiu aquele suave casulo de solidão que ela tecera e no qual sentia-se protegida. De forma surpreendente, com sua presença ele até reforçara essa proteção. Como se a tivesse coberto com uma redoma. Mas o que espantava particularmente Alissa era a capacidade de Aleksandr Iefímovitch de adivinhar-lhe os gostos exigentes. Sem fazer qualquer pergunta sobre suas preferências, ele lhe trazia maçãs verdes firmes e merengues cor-de-rosa, bombons de sua marca favorita, lilases roxos, e não brancos, e queijo de Kostromá. Tudo de que ela gostava.
Alissa sempre fora sensível aos cheiros, e todos os homens com que se relacionara cheiravam a ferro, a fumo ou a bicho, mas aquele, o amante de sua velhice, cheirava ao singelo sabonete infantil com que lavava as mãos de médico antes e depois de todo exame de doente.
O mesmo sabonete que Alissa sempre preferira a todos de morango e outros aromas artificiais…
Aleksandr Iefímovitch, que passara a vida inteira com uma mulher poderosa e exigente, de numerosas demandas, incansável nos desejos variados e mutuamente excludentes, descobria pela primeira vez que, ao lado de uma mulher, era possível ser livre do poder feminino inesgotável. Da contida Alissa, tímida até nos momentos de intimidade, emanava uma gratidão silenciosa. No final da sexta década, ele se sentia não um assistente pessoal vitalício contratado, mas um pródigo fornecedor de alegria. E, nos momentos de ternura, chamavam um ao outro pelo mesmo nome de adolescência – Alik.
Aleksandr Iefímovitch, que por muitos anos trabalhara como neurologista na policlínica da Sociedade Teatral Russa, tinha amplos contatos graças a seus pacientes, e levava Alissa, no meio da semana, aos melhores espetáculos da temporada, ao conservatório e, aos sábados, ia à casa dela para jantares íntimos. Pela primeira vez na vida, Alissa não fazia comida só para si…
A vida mudava, a idade recuava, e só uma coisa inquietava: em algum lugar, ao longe, assomava e não desaparecia a ideia de que aquela felicidade não planejada duraria pouco tempo.
Alissa sabia que, depois da morte da esposa, ele vivia com Marina, filha caçula e solteira, que não era completamente saudável e nem plenamente bem-sucedida. Ánia, a mais velha, saudável e bem-sucedida, há muito tempo vivia à parte, com o marido e os dois filhos em idade escolar.
Por todo inverno encontraram-se como adolescentes apaixonados, e no verão foram descansar a dois, perturbando os planos da filha caçula, acostumada a passar as férias de verão com os pais.
Mas Aleksandr Iefímovitch não confiou a Alissa esse conflito desagradável com a filha. Ele comprou dois vouchers para Komarovo e, no meio do verão, quando as noites brancas já começavam a arrefecer, e o calor gelado de Píter[3] era infatigável, eles chegaram à Casa de Criação.
Tinham quartos separados, em extremidades diferentes do corredor, e ambos se divertiam com as visitas noturnas mútuas.
– Alik, somos como colegiais se escondendo dos olhos dos pais – ria-se Aleksandr Iefímovitch quando Alissa abria-lhe a porta do quarto, depois de uma batida débil e ritmada.
Alissa respondeu a piada apenas como um sorriso enigmático: seu primeiro e flácido romance da vida sucedera cinco anos depois da morte da mãe, quando suas colegas de classe e contemporâneas já tinham arrumado maridos, filhos e amantes, se separado e voltado a se casar, de modo que ela não tinha noção de como os adolescentes escondiam seus romances dos pais. Sua mãe, Marta, nem pensara em esconder seus romances de Alissa, todos eles estavam abertamente à mostra, e Alissa sofrera com as ruidosas paixões maternas.
Tudo que Alissa deixou de ter na juventude desabou sobre ela na idade avançada, e ela constrangia-se de leve em sua situação de amante, especialmente pela manhã, quando eles desciam ao refeitório, onde estavam sentados quase exclusivamente casais envelhecidos, cansados há tempos da vida conjugal.
Depois do café da manhã eles saíam em longos passeios, por vezes saltando o almoço, regressando apenas ao anoitecer. Era a primeira vez em que ambos estavam naquela terra finlandesa, pouco sabiam da história e geografia daqueles lugares, e vagavam a esmo, ora através das dunas, para dar numa praia arenosa, com raros penedos, esquecidos na encosta na Era do Gelo, ora embrenhando-se no Lago Shhuchye, onde era bem mais agradável de se banhar do que no Golfo da Finlândia, recoberto de uma espécie de lodo pardo.
No lago, Aleksandr Iefímovitch encontrou um ator famoso, um de seus antigos pacientes, da ex-Leningrado, frequentador daquele local. Ele estava sentado com uma vara de pesca, sonolento, na esperança infrutífera de fisgar na água, se não um lúcio, pelo menos uma perquinha; ficou contente ao ver o doutor e, ao saber que ele estava pela primeira vez naquele lugar, pôs-se a mostrar-lhes a antiga Kellomäki.[4] Guiou-os por todo o povoado, mostrando as velhas dachas finlandesas, as que não tinham sido levadas desmontadas para a Finlândia quando aquele território passou para a Rússia, conduziu-os à casa de Shostakovitch, à cabana de Akhmátova, renovada e pintada em cor verde viva, à dacha do pouco conhecido acadêmico Komarov e do acadêmico Pavlov, conhecido de todos…
Caminharam por três dias com esse guia voluntário de excursão, e depois se separaram dele e perambularam pelos bosques ralos de pinheiro, colhendo mirtilo e framboesa ácida…
Os 24 dias do voucher prolongaram-se infinitamente, e nestes dias longos e noites curtas aproximaram-se tanto quanto se tivessem vivido anos em comum.
Quando eles voltaram a Moscou, Aleksandr Iefímovitch fez uma proposta de casamento a Alissa. Ela ficou calada por um bom tempo, depois lhe relembrou de seu pedido, que ele não satisfizera. Ele conseguira se esquecer do que se tratava. Do soporífero…
– Alissa, Alinka, por quê? Mas por que agora?
– Especialmente agora – sorriu Alissa.
– Não entendo…
– Porque isso vai acabar… e quero estar pronta para isso.
Ele já sabia que não fazia sentido discutir com Alissa.
– É uma loucura. Mas concordo.
Alissa tirou da gaveta da mesa a caixinha branca de porcelana e estendeu-a a Aleksandr Iefímovitch:
– Ponha aqui.
Isso era uma certa mudança de consciência, mas não dava para fazer nada a respeito.
– Está bem, está bem. Mas primeiro nos casamos. Depois eu ponho – vai ser o presente de núpcias.
Ele riu, ela nem sequer sorriu em resposta.
– Esse casamento… É para fazer as pessoas rirem? E o que vão dizer suas filhas?
– Isso não tem nenhuma importância – ele respondeu, e ficou pensativo. Para a caçula, desajustada, de psique instável, aquilo de fato podia ser um golpe…
No outono, logo depois do aniversário de quando se conheceram, Aleksandr Iefímovitch completou 70 anos. No trabalho, organizou um modesto chá, recebeu de presente dos colegas uma nova pasta de couro, que se distinguia da antiga apenas pela troca do número da placa de prata – 70 em vez de 60.
Para família e amigos, reservou um jantar no restaurante Âncora. Alissa não queria ir. Ele insistiu – seria a melhor ocasião para conhecer suas filhas. Аleksandr avançava, Alissa recuava. Ele a apresentara antes para seus amigos próximos, os colegas de colégio Kóstia e Aliona, e os colegas de universidade, o doutor psiquiatra Tobólski e o doutor obstetra Pritzker. A família era a última fronteira.
Depois de certa hesitação ele convidou a prima que os apresentara e Mússia Turman, amiga mais íntima da finada esposa. Era um gesto arriscado, porém estrategicamente irrepreensível. Fazia os preparativos para uma frente ampla.
Alissa hesitava. Fez manha até o último minuto, ora concordando em ir àquela recepção, ora recusando. Já estava há tempos acostumada a uma vida de rainha: não lhe importava em absoluto se agradaria ou não aos que a rodeavam – as rainhas não experimentam esse sentimento de dependência da opinião alheia… Daí se agitava, e imediatamente sentia-se irritada consigo mesma.
Aleksandr Iefímovitch convenceu-a uma hora antes de sair de casa: você importa demais para mim, e não posso mais escondê-la. Além disso, preciso preparar todos eles…
E ela se rendeu.
Todos chegaram quase ao mesmo tempo, às sete e dez os convidados estavam sentados à mesa.
– Conheçam Alissa Fiódorovna – proferiu Aleksandr Iefímovitch, orgulhoso, e apresentou a amiga sucessivamente aos convidados: Ánia, com seu marido e os dois netos, Marina, Mússia Turman. A seus amigos ele já conseguira apresentá-la anteriormente.
Alissa estava impecável, e sabia disso. A blusa de seda cor de tabaco estava envolta em um leve cinto de couro, e sua cintura fina era a única cintura dentre as figuras em forma de barril de todas as outras damas. Os convidados ficaram algo aturdidos, mesmo as filhas, previamente advertidas de que o pai convidaria sua amiga. Mússia Turman perdeu o dom da fala – fitava aquela pessoa com os olhos da falecida Raia, e sentia-se ofendida.
– Aguada e sem sal – sussurrou a Ánia. Mas Ánia não a apoiou.
– O que é isso, tia Mússia, é uma mulher até muito interessante. E a estampa dela…
– Que estampa, que estampa? – bufou Mússia, sussurrando. – Ela o levou no bico e ainda vai mostrar a todos, você vai se lembrar de minhas palavras.
Mas o garçom já servira o champanhe, e o amigo Kóstia ergueu a taça…
Kóstia, grisalho, bochechudo, de formato esférico, pôs-se a falar: que conhecia Sachka[5] há 60 de seus 70 anos, que se conheciam tão bem que às vezes não conseguiam discernir onde ficava a fronteira entre seus pensamentos, que ele não sabia há tempos quem dissera primeiro, quem pensara primeiro, que eram mais do que amigos e mais do que irmãos e que por toda a vida ele, Kóstia, iria atrás dele, mas jamais o alcançaria… e mais outras palavras, que eram todas laudatórias e, de certa forma, alegres. E no final disse que estava feliz por ver Sachka ao lado da mágica Alissa que viera até ele do País das Maravilhas. Alissa deu um sorriso frio…
Um mês depois, firmaram o casamento de forma quieta e corriqueira. Aleksandr Iefímovitch cumpriu a promessa: a caixinha de porcelana, cheia de um pó branco granuloso, estava na mesa, atrás de uma pilha de papel de carta, envelopes e passagens velhas.
Aleksandr Iefímovitch inseriu-se com espantosa delicadeza no apartamento de Alissa, não perturbando nada por lá, mas, pelo contrário, consertando solidamente tudo que estava colado com esparadrapo e pendurado em barbante. Ele fixou a ponta solta de um lustre, trocou uma boca de fogão que não funcionava há tempos, e fortaleceu-se em Alissa a vaga sensação de que sua profissão médica consistia em curar tudo que tocava. Sem qualquer ajuda externa, desabrochou uma flor na janela, onde isso nunca ocorrera antes.
Os cônjuges, que antes já não se queixavam da saúde, rejuvenesceram visivelmente.
– Os ciclos hormonais recomeçaram – ria-se o marido.
À primavera, deu-se mais um evento imprevisível e improvável: Marina, a filha caçula de Aleksandr Iefímovitch, de 40 anos incompletos, engravidara. Seu defeito congênito – fenda labial e palatina, e as pequenas cicatrizes faciais de uma operação plenamente bem-sucedida – deformara-lhe mais o caráter do que a aparência. Desde a infância, fugira de qualquer tipo de companhia, escolhera a profissão de revisora, na qual lidava exclusivamente com textos, e não com pessoas. A circunstância de ter conseguido engravidar deixou o pai pasmado. Contudo, ele logo ficou alegre, entendendo que não deixaria a filha sozinha, mas com uma criança, que poderia substituir para ela o mundo inteiro, considerado hostil.
Alissa meneou a cabeça de forma indefinida: tinha suas próprias considerações referentes à procriação, mas não considerou necessário compartilhá-las com o marido. Ainda mais que suas considerações há tempos tinham perdido qualquer atualidade.
Na época em que Aleksandr Iefímovitch deu a notícia para Alissa, a gravidez, que há meio ano arrastava-se na barriga gorda, era imperceptível até para um olho atento. Marina continuava sendo a tia gorda e obesa que fora na juventude.
Quando se aproximou a hora do parto, o pai colocou a velha parturiente de primeira viagem em uma boa maternidade da Rua Chábolovka, onde o chefe era seu colega Pritzker. Levando em conta idade e peso, resolveram fazer uma cesárea. A operação foi marcada para uma manhã de terça-feira.
Aleksandr Iefímovitch ficou esperando o telefonema do cirurgião, recebeu a informação de que tudo estava em ordem – a menina não tinha quaisquer defeitos ou, pelo menos, não tinha lábio leporino… Aleksandr Iefímovitch lembrou-se do horror que experimentou quando a esposa trouxe da maternidade a menina com um buraco triangular escancarado da boca ao nariz. Agora suspirava aliviado.
– Bem, vamos à maternidade – disse a Alissa.
Reuniram alimentos para a parturiente – kefir, leite, bombons e um pedaço de queijo. Ele saiu de casa, teve sorte na floricultura mais próxima – tinham trazido justamente os lindos jacintos de que Alissa gostava, e ele comprou uma braçada inteira para a filha e as enfermeiras. A vendedora fez-lhe um buquê em papel de presente. Ele saiu para a rua vazia na hora parada de depois do almoço, com as flores e o pacote de plástico de comida. No ponto de ônibus havia uma multidão rala. Postou-se a uma certa distância, para que as pessoas que se empurravam não machucassem os lindos jacintos quando o ônibus viesse.
Nesse momento, um carro preto que ia pelo meio da rua em alta velocidade bateu em outro, igualmente grande e preto, e jogou-o na calçada. O carro chocou-se com um poste de luz, atingindo três pessoas no caminho. Uma, com um buquê de flores, mortalmente…
À noite, Alissa ligou para Pritzker. Ele disse que tudo estava em ordem com Marina e o bebê, mas que Aleksandr não havia chegado. Alissa começou a telefonar. Em quinze minutos, informaram a Alissa que seu marido encontrava-se na morgue. Tinham tentado localizar sua família o dia inteiro, mas ninguém atendeu ao telefone no endereço residencial.
Era o fim. “Sim, sim, eu estava esperando algo assim.” A caixinha de porcelana da mesa…
Na manhã seguinte, Alissa começou pela maternidade – levou a Marina leite, kefir e queijo. Depois foi à morgue. Os funerais estavam atrasados devido à perícia médica.
Comunicaram a Marina a morte do pai apenas três dias depois. Ela começou a ter psicose aguda, e o segundo amigo de Aleksandr Iefímovitch, o professor Tobólski, colocou-a no Instituto Káschenko. Enquanto isso, a menina ficaria na maternidade… Ánia, a irmã mais velha de Marina, não podia levar o bebê – insurgira-se o marido, que não suportava Marina.
Duas semanas depois, a criança foi levada da maternidade pela avó, Alissa Fiódorovna. Que sua felicidade com Aleksandr Iefímovitch não seria longa, Alissa pressentira, mas, quanto ao bebê recém-nascido, nenhum pressentimento se manifestou.
A menina vivia num carrinho, ao lado da cama de Alissa, que não queria mudar-se para o apartamento mais espaçoso do finado marido. Lá havia sujeira, e uma banheira horrível, com esmalte rachado, e a daqui era novinha, de um branco reluzente.
Só meio ano depois Marina saiu da clínica psiquiátrica. Mas como seria possível confiar a pequena Aleksandra àquela mulher mole, desmazelada, psiquicamente doente?
A caixinha de barbitúricos estava na gaveta da mesa, mas Alissa já não podia utilizar o presente de núpcias do marido. Ou melhor, teoricamente podia. Uma hora… quando as circunstâncias estiverem maduras…
[1] Mikhail Pletnev, destacado pianista e regente russo da atualidade.
[2] Maria Iúdina (1899-1970), legendária pianista russa.
[3] São Petersburgo.
[4] Nome de Komarovo até 1948.
[5] Diminutivo de Aleksandr.
