Ressentimento: “Até hoje tenho raiva de quem foi ao Japão assistir à final do Mundial de Clubes de 2012. Dizem que muitos corintianos parcelaram o valor. Quem tem tanto crédito assim?” CRÉDITO: PEDRO FRANZ_2024
Cássio no campinho
São dezesseis anos longe, mas continuo sendo um moleque da Cohab 1
Ricardo Lísias | Edição 215, Agosto 2024
Na Cohab 1, nos dias de semana o ponto de ônibus enche logo cedo. Eu chegava por volta das seis da manhã, o que me dava uma hora para ir à escola. Dependendo da época do ano, já amanheceu. A padaria, que a gente enxerga do outro lado da rua, atrás de pequenos comércios àquela hora ainda fechados, só tem duas ou três pessoas, meio sonâmbulas, com o pão debaixo do braço. Todos esfregam os olhos e às vezes sai uma fumacinha do chão. Se isso acontecer, estamos no inverno. Eu não gostava quando chovia. O ponto é pequeno e alguns de nós chegaríamos molhados ao metrô. Pouca gente comprava leite na padaria. A prefeitura tinha um programa de distribuição gratuita de leite em pó. Não lembro a época. Durou um bom tempo.
No ponto, a gente cruza com todo mundo. Alguns caras que fizeram o ensino fundamental comigo agora vão trabalhar. O Anderson, por exemplo, será logo assassinado pelo pai. Ele arranjou um posto de repositor em um mercado no Brás. De resto, no meu horário, há uma auxiliar de enfermagem, um encarregado de padaria, gerentes de lojinhas e por aí vai. Claro que inúmeros ali eu não conhecia e outros tinham uma frequência errática. O desemprego é foda.
Ninguém quer conversar muito, o que é compreensível: além do sono escorrendo pelo corpo, não é bom dar confiança para os outros na Cohab 1, embora todo mundo saiba mais ou menos como anda a vida dos vizinhos. A Zoraide faz aborto e o próprio Anderson, ali do meu lado, está voltando drogado do trabalho, o que tem deixado seus pais em desespero. Ele toma ônibus comigo às 6h05 e entra às 7 horas no supermercado, mas ultimamente está aparecendo em casa só depois da meia-noite. Outro dia criei coragem e o olhei de rabo de olho: envelheceu, o meu colega de quinta e sexta séries.
Como na Cohab 1 não havia escolas públicas com ensino médio diurno, minha mãe me matriculou em um colégio na Mooca. Com o meu emprego, ela repetia orgulhosa (mas só dentro de casa), meus filhos não precisam trabalhar enquanto estudam. Só não posso pagar uma escola particular.
E nem a gente tem como sair aqui da Cohab 1.
Quando eu era criança, minha mãe trabalhava em uma escola da região mesmo, mas que não dava para ir a pé: era meia hora de ônibus. Já meu pai precisava se deslocar para longe todo dia e, quando perdeu o carro por causa de uma dívida, passou a gastar por volta de duas ou três horas no transporte público para ir e o mesmo tempo para voltar. Ele saía muito cedo e retornava bem de noite. Eu via meu pai exclusivamente aos fins de semana. Como sempre estava muito cansado, nunca levantava antes do meio-dia. Na minha infância, meu pai é um espectro cheio de sono.
Quanto à molecada, crescíamos por ali mesmo. Um passeio ao Parque do Ibirapuera, por exemplo, custa horas no transporte. Fui descobrir essa região da cidade só no final do ensino médio, quando eu tinha 18 anos. A mesma coisa me aconteceu com a Avenida Paulista.
Bem no meio da minha rua há um descampado que a gente usa de praça, espaço de futebol, lugar para bolinha de gude e por aí vai. Ali, logo depois da nossa chegada, bem no comecinho da Cohab 1, duas moças foram estupradas. Os pais se reuniram, capinaram o mato e fizeram uma ligação clandestina de luz para dois postes improvisados iluminarem o local. Três anos depois um deles pegou fogo, numa cena que hoje parece um ritual: a gente grita de longe, em círculo, enquanto os adultos tentam dar um jeito de chamar os bombeiros. Ninguém tem telefone em casa e o orelhão mais próximo fica a oito quarteirões, em frente à escola, à banca de jornal e ao ponto final do ônibus Metrô Brás-Cohab 1.
Provavelmente por exaustão, o fogo se dissipou apenas ao amanhecer. Essa foi a minha primeira noite em claro. Vou ser bombeiro, o Fabinho grita enquanto corre empurrando um carrinho velho de pedreiro; eu também, mas vou fazer salvamentos. Eu quero ser polícia, só para não deixar mais fazerem essas ligações. Mas foi seu pai que fez, caralho. Esse é o Li provocando o Dé. Era tudo assim.
Nos fins de semana o movimento se inverte: da padaria a gente vê o ponto de ônibus vazio. No sábado o pão não é amanhecido e quem sabe o pessoal compre até algumas fatias de mortadela. Na minha casa nunca demos muita bola para esse tipo de prensado. Em compensação, a margarina jamais faltou. Da nossa parte, ainda, lembro que sim, eu trazia 1 litro de leite. Vinha em um saquinho, que minha mãe cortava nas pontas e depois nos pedia para não derrubar. No geral, dava uma caneca para cada um dos três irmãos.
A partir das nove da manhã o primeiro grupinho de homens na padaria pede uma cerveja. Alguma coisa mais forte só depois dos petiscos aparecerem, no geral não antes das 11 horas, já que a padaria aproveita a máquina de assar frango para repassar o bacon. Ao meio-dia, a fila do frango com farofa e batata já está enorme. De vez em quando uma vizinha pede para o marido ir para casa. Ela nunca é atendida. Não tínhamos esse problema: meu pai se mandou quando completei 10 anos.
Sócrates, o cara que liderou a Democracia Corintiana, prometeu sair do Brasil para jogar na Europa se as eleições diretas não fossem aprovadas. Meu pai foi embora de casa antes. Não lembro exatamente a data. Deve ter sido no final de 1983. A imagem, por outro lado, é clara: eu estava com um vizinho sentado no morro que separava a quadra da escola do estacionamento dos professores, um pouco antes do pôr do sol, quando ele passou em direção ao ponto de ônibus carregando uma mala de viagem enorme e muito velha. O Fabinho me perguntou aonde ele estava indo, e eu, com vergonha de dizer a verdade, falei que meu pai ia passar um tempo com a minha avó, que estava doente. Naquele tempo, na Cohab ao menos, os divórcios não eram conhecidos.
Lembro-me de ter saído de casa depois do almoço. Até ali, e talvez até hoje, foi o dia mais tenso da minha vida – se a gente considerar sobretudo que eu tinha 8 anos. Meus pais brigaram feio logo cedo. Vou correndo (sozinho) para a escola, que fica a alguns quarteirões. No portão de casa ainda ouço um baque surdo e um grito da minha mãe. Dos irmãos sou o único que estuda de manhã: ao meio-dia, a aula acaba. Às dez e meia, porém, a inspetora me chama e me leva, já com o meu material, para uma sala perto da saída. Minha mãe está com um curativo no rosto e explica que iria para a casa do meu avô. Tem comida no fogão e minha irmã vai nos servir. Ela tem 12 anos. Depois, a Fabiana e meu irmão sairão para a escola. Às duas da tarde, no máximo, terei que deixar a casa vazia, e meu pai vai entrar para pegar as coisas. Até hoje me lembro da gastura no meu estômago.
Fiquei andando pela Cohab 1 mesmo. Por volta das cinco e meia da tarde fui com o Fabinho até a escola, pois meus irmãos iriam sair. Meu pai passou e logo voltamos para casa. Pouco depois, meu avô chegou de Fusquinha com a minha mãe, que tem outro curativo no mesmo lugar do rosto. Então, depois de algum tempo, que meço pelo choro do meu irmão, aparece minha avó, a mãe do meu pai. Ela veio só para ouvir um recado: tudo será feito dentro da lei, mas que meu pai nunca mais se aproxime da minha mãe, porque, ela sabe bem, temos parentes poderosos. Minha avó chorou, fez um gesto com os braços para os netos e saiu.
Na noite anterior à agressão do meu pai contra a minha mãe, o agredido foi ele. Não sei se o acontecimento precipitou a separação. De toda forma, aconteceria. Para a minha formação, foi um momento decisivo.
Meu pai passava o tempo inteiro em casa deitado no sofá assistindo a desenhos animados. Nesses momentos, ficava mudo. Se estivesse vendo futebol, ele só conversava sobre os resultados e no máximo os acontecimentos do Corinthians. Depois de alguns anos de casamento, a minhocona só se erguia do sofá para gritar com a minha mãe e os filhos.
A gente apanhava muito pouco. No entanto, quando ia nos bater, meu pai tinha um chinelo de couro, com a sola gasta, mas ainda assim grossa. Meu irmão fez alguma grosseria, e meu pai pegou o pé direito do chinelo e foi para cima dele. Eu estava decepcionado com alguma coisa e sem pensar muito corri atrás e, com mão forte apesar da minha idade, empurrei meu pai, puxei o chinelo e o atirei pela janela.
Na vida, em alguns momentos o tempo se congela. Quando nos acontece, nunca mais as coisas serão as mesmas. O mundo paralisou quando o chinelão caiu no quintal da frente e meu pai ficou alguns instantes se perguntando que porra foi aquela.
Quando o tempo por fim voltou a passar, meu pai tentou me bater com as mãos, mas desviei o seu braço. Sem o chinelão ele não era nada. Ele escorregou e só não caiu porque se escorou na mesa do meu irmão. Agora estavam todos gritando. Não tenho mais tanta memória desse dia. Sei que meu pai foi buscar o chinelo e voltou para o sofá. Todos nos fechamos nos nossos quartos. Devo ter passado o resto do tempo em que fiquei acordado preenchendo algum caderno com os resultados dos jogos que ouvia no rádio que tinha ganhado da minha avó.
Depois, meu pai agrediu minha mãe e por fim o casamento acabou.
O conforto não foi a única razão para a minhocona se acostumar logo com o divórcio. Aqui, porém, admito que minha surpresa foi enorme: ainda durante o velório do velho, décadas depois de eu lhe arrancar o chinelo das mãos, minha irmã Fabiana (a única que foi ver o corpo, pois àquela altura meu irmão já morava fora do país e eu sinceramente não estava nem aí) me liga indignada para dizer que o enteado dele, que acaba de entrar para a literatura, estava cortando um pedaço do cabelo do cadáver.
Acho que o rapaz se chama Everson ou Ederson, ou Eberson ou Lucas, sei lá. Ele tem exatamente a idade do meu irmão. Segundo a Fabiana, Everson ou Ederson, ou Eberson ou Lucas fez isso para provar algo simples: que não era enteado porra nenhuma. Era filho! Meu pai, portanto, sempre teve duas famílias!
Fiquei abismado. Se meu pai não saía do sofá, como por Deus conseguiu ter duas esposas, e no mínimo outro filho? Não tenho e nem terei nenhuma explicação para isso. Quando descobriu, minha mãe não deu a menor bola. Minha irmã ficou brava por uns três dias e depois também esqueceu.
Entre as últimas consequências de que me lembro da agressão do meu pai, há algo que até hoje não sei se veio de uma ameaça ou se minha avó, no caso a mãe dele, tomou a iniciativa de fazer para não correr risco. Ela, que sempre se chamou Julia (e foi enterrada como Julia), tinha dois RGs naquela época e, para efeito de registro e recebimento de pensão, era duas pessoas diferentes. Às vezes, quando eu estava com ela, Julia Lopes se apresentava como Alzira. Não acontecia em muitos lugares, basicamente no banco e quando ia fazer compras a crédito. Todas as vezes ela nos pedia para de jeito nenhum contar aquilo a qualquer pessoa. Uma vez vi o documento de identidade da Alzira, que era bem mais novo que o da Julia Lopes, minha avó. A foto era a mesma.
Não sei qual de nós três perguntou para a minha mãe se a sogra dela afinal de contas se chamava Julia ou Alzira. A dúvida gerou uma pequena investigação por parte da minha mãe, que depois de descobrir a verdade ficou alguns anos reprovando lenientemente a fraude: minha avó faz isso para ganhar uma pensão a mais do governo. Não pode, é crime, mas também a aposentadoria é muito pequena e o governo só prejudica os idosos, então deixa.
Logo depois da agressão do meu pai, Julia Lopes cancelou o RG de Alzira. Não sei como fez, se a Alzira morreu, sumiu dos cadastros, ou se o RG simplesmente foi para outra pessoa. Depois, ela me pediu para falar para a minha mãe que a fraude tinha acabado. A resposta foi um muxoxo. Enfim, já estava claro que meu pai nos deixaria em paz.
Em 1992, o clima da minha rua na Cohab 1 ficou muito pesado. Primeiro, não víamos graça em voltar a jogar bola no campinho. Crescemos, e alguns de nós, inclusive, já trabalhavam como office-boy. Eu estudava de manhã e depois só saía de casa, às vezes, para ir à padaria. Com o salário da minha mãe, dava para a gente ter leite. Preso havia dois anos, o pai do Anderson morreu no massacre dos 111 presos do Carandiru. Dava uma sensação ruim. Sem falar que de repente uns moleques do nosso tamanho reunidos só pode ser tóxico. E agora a viatura não passa apenas no começo da noite. Aparece a qualquer hora.
O primeiro posto policial surgiu na Cohab 1 no começo de 1990, doze anos depois do bairro. O problema do tóxico estava saindo do controle. Além disso, a Constituição de 1988, afinal de contas, tinha sido muito clara no que diz respeito à segurança pública: se a polícia não acabar com as drogas, daqui a pouco não sobra nada.
O perímetro das casinhas é contornado por uma grande avenida (que, depois de atravessar um córrego, uma favela e um bairro um pouco melhor dá acesso à Radial Leste, uma das vias mais movimentadas da cidade de São Paulo), por parte dos prédios da própria Cohab 1 e, bem do outro lado da rua da minha casa, por um morro. À direita de quem sai do nosso quintal dos fundos, uma longa escadaria logo se divide entre um caminho mais curto até um centro comercial (onde fica a padaria) de um lado, e do outro um matagal que dá para a nova delegacia.
Quem não for pela direita, mas erguer o pescoço na calçada da nossa casa, vai ver no cume do morro uma construção, já um tanto carcomida, de uma quadra poliesportiva, com vestiários, arquibancada e inclusive sala para enfermaria, erguida pela prefeitura para ser um centro para os jovens praticarem esportes e fugirem do tóxico. Funcionou por três meses. Ao lado havia uma guarita abandonada e uma escadaria, que dá para outra parte dos prédios. Àquele conjunto íngreme de degraus, a gente deu o nome de escadão.
Claro que o problema está justamente em todo esse matagal que cerca uma parte das casinhas. Quando foi inaugurada a estação Artur Alvim do metrô, em 1988, uma parte dos moradores se animou a ir a pé e pular os arbustos durante o dia, ganhando uns 15 minutos de caminhada, já que o ônibus demorava meia hora para passar e, pior ainda, custava 30 cruzados. De noite, pouca gente passa por ali. É só escurecer que aparecem as faíscas de luz distantes, se movendo, sobretudo no calçadão, visível da minha casa, se subirmos no tanque na ponta dos pés. Logo minha mãe acabou com a brincadeira: se vocês testemunharem alguma coisa vai ser pior.
Um pouco antes de escurecer, a polícia faz uma ronda por ali para ver se captura alguém ansioso para entrar no matagal e fumar sei lá o quê. Três moleques parados na frente da minha casa não podem ser coisa boa e levam logo uma geral: Mão na cabeça! Mão na cabeça! Quando não é isso que falam, pulando da viatura, a gente ouve da sala: Cospe aí! Cospe aí! Se tiverem fumado maconha, a saliva desaparece. O Caliandro, filho da Maria do PT, chegou uma vez a apanhar da polícia. Pelo que a gente soube, o problema não foi o tóxico, mas parece que ele falou alguma coisa que não devia.
De vez em quando, à noite, ouvíamos barulho de tiro. A gente já sabe que, de manhã, no mínimo um corpo aparecerá perto do escadão. No caminho da escola dá para ver a luz das viaturas.
Três anos depois do massacre do Carandiru, fui embora. Morador da periferia, estudando a vida toda em escola pública, entrei em uma universidade pública. Um feito! Fiquei lendo e tirando o atraso nos estudos naqueles três anos em que me fechei em casa, na Cohab 1, depois da morte do Anderson. Com isso, passei na USP, na Unicamp e na Unesp. Escolhi Campinas.
Com uma mochila nas costas, desci a rua para sair atrás de uma acomodação na cidade universitária, em Barão Geraldo, em uma terça-feira pela manhã. Quando cruzei o campinho, vi dois moleques do outro lado. Eram mais novos que eu e chutavam uma bola velha. Apertei os olhos, mas não os reconheci. Não eram parentes de nenhum de nós.
Fiz um acordo com a minha mãe, que agora era diretora de escola. Nossa renda aumentara. Ela irá me pagar um quartinho e a permanência em Campinas. Do resto, vou atrás. No primeiro ano, o resto é só a biblioteca e o cinema da faculdade mesmo. Eu voltava uma ou duas vezes por mês, mas minha cabeça já não tinha espaço nem para olhar na direção da padaria. Em pouco tempo, meu irmão saiu do Brasil, minha irmã se casou e meu padrasto quis ir embora da Cohab 1. Minha mãe lamentou a casa própria ficando para trás, mas logo a trocou por um apartamento perto de onde irá se aposentar.
Quando eu já tinha idade para perceber que estávamos saindo da Cohab 1 para visitar alguém, vi que sempre íamos de ônibus até o metrô Brás. Demorava duas horas. Uma vez machuquei a perna (será que quebrou, meu Deus?), e o ônibus parecia uma tartaruga. Uns anos depois, o metrô chegou até o Tatuapé. Aí, para sair da Cohab 1 demorava só uma hora. O problema é que as filas aumentaram muito. Quando eu estava quase terminando o ensino fundamental, finalmente o metrô veio para mais perto e, uns meses antes de alguma eleição, inauguraram a estação Artur Alvim.
Faz dezesseis anos que não venho aqui. Parei um minuto e respirei fundo antes de me virar na direção da Neo Química Arena.
Estou de volta.
Assim que chego à padaria, que parece não ter mudado nem mesmo a velha máquina de assar frango, o Corinthians está entrando em campo no Japão. Não tem mesa livre. Uma mulher pede que o marido volte para casa. Não: deixa a conta do pão aí, mais tarde eu pago. Sobre o programa de distribuição gratuita de leite em pó, eu nem lembro. A tevê foca o rosto do Cássio, e eu acho um lugar no balcão. Quem o observasse direito e com cuidado perceberia que já ali, antes da partida, havia algo de especial no grande goleiro. Ele estava determinado a não permitir que ninguém na Cohab 1 tivesse um domingo triste.
Algumas pessoas me olham e não se interessam. Alivia-me saber que não tenho nada demais. São dezesseis anos longe daqui e muita coisa entranhada no meu corpo (inclusive todos esses diplomas), mas continuo sendo um moleque da Cohab 1.
Agora o time do Chelsea recebe, aqui na padaria, uma vaia enorme. Gringos filhos da puta, meu vizinho de balcão grita. O campinho onde passei minha infância fica a três quarteirões e será ali que os moleques da Cohab 1 acabarão campeões do mundo daqui a 90 minutos, um gol de cabeça e cinco defesas extraordinárias do nosso goleiro. Para nós, o Japão é a infância na terra, a bola velha e o dedão estourado. Não dá para gastar o tênis da escola jogando bola por aí, então tem que ser descalço mesmo.
Hoje o campinho vai ganhar. Vai, Cássio.
Peço um pingado e um pão com manteiga. Na mesma hora, o cara ao meu lado se vira.
– É que eu não tinha nada em casa – corro para explicar.
Como o jogo começou às oito e meia da manhã no Brasil, achei que era verossímil. À minha volta, por outro lado, todo mundo já toma cerveja.
– Você é aqui das ruas ou do lado dos apartamentos? – ele quer saber.
– Sou da 12.
Tomara que ele seja de longe. Se não, vai estranhar: e como nunca te vi?
– Sou lá da 3.
– A padaria de baixo não está transmitindo o jogo?
– Preferi vir pra cá. Joguei muito no campinho daqui.
Agora, Cássio faz uma defesa impressionante. A bola se enfronha nas pernas dele e para. Olhem como todo o corpo do grande goleiro parece um complemento das traves. Não vai passar nada: Cássio Ramos está no dia mais importante de sua vida e ninguém irá atrapalhá-lo. Hoje o dia vai ser da Cohab 1.
A padaria inteira se levanta. Peço uma cerveja. Meu vizinho se distrai com o cara ao seu lado. Ainda bem: se perguntar por que nunca cruzamos no campinho, terei que dizer a minha idade.
Passo os olhos pela padaria. Alguns pais estão com os filhos, mas apenas os meninos. As mesas estão todas cheias. Como não há garçons, o tempo todo alguém vem buscar no balcão um pratinho disso ou daquilo e cerveja. Muitas vezes as crianças é que levantam. Uma delas se perde no meio da bagunça e começa a chorar. O pai vem correndo e ergue o moleque no colo. Todo mundo grita e, na mesma hora, suspira. Cássio agora se estica todo e com a ponta dos dedos manda a bola para fora.
O primeiro tempo não demora a acabar. Só falta o gol, porra, alguém reclama. Vai tomar no seu cu, um outro responde, em um diálogo que já não compreendo. Ouço um “gringo filho da puta” e com isso pego um caderno na mochila acomodada no meio dos meus pés. Logo percebo o erro e disfarço chamando outra cerveja.
Pretendo ainda em 2012 escrever um conto sobre a minha visita à Cohab 1 para assistir à final do Mundial de Clubes. Não vou anotar nada. Apesar da tentação, estou me sentindo muito bem ao lado dos moleques do campinho. Todo mundo aqui jogou bola a infância inteira nesses descampados com a trave de madeira, a terra batida e o dedão cortado. Outro grito, outra defesa do Cássio. Alguém xinga. Se quero mesmo escrever, preciso prestar atenção.
Só que não consigo ficar atento. O tempo inteiro minha cabeça vai do Japão para o Anderson, a rua toda pintada na Copa de 1982 e o dia em que fui embora de metrô para não voltar mais. Em 2012, quando finalmente tomei um ônibus e saí da Cohab, com os meninos do campinho agora campeões do Mundial de Clubes, entrei em outra padaria ao lado do metrô Artur Alvim. Antes de voltar para o meu apartamento em Moema, anotei tudo que lembrava. Passei o ano de 2013 inteiro rascunhando o conto, mas no final só gostei do nome: Cássio no campinho. O lançamento tumultuado do meu romance Divórcio não me deixou um minuto de concentração.
O primeiro tempo acabou agora mesmo. Viro o rosto para perguntar ao meu vizinho da Rua 3 o que ele está achando, mas não o encontro. Sinto a vista levemente turva. Já foram quatro cervejas e ainda não são dez da manhã. Peço algo bem salgado para comer e controlar o efeito do álcool. Uma mordida só e meu estômago avisa que não aguenta. Constranjo-me: muita gente aqui está mastigando isso. Na primeira vez que tentei escrever este texto, há dez anos, lembro-me de ter falado que era uma coxinha. Já não tenho tanta certeza. As padarias da Cohab 1 sempre inventam uns salgados novos.
Meu vizinho na verdade achou uma mesa e agora fala alto com seus amigos. Sou um dos únicos que está sozinho. Mesmo assim, ninguém dá a menor bola para mim. Continuo, portanto, sendo um deles, o que me tranquiliza: deixo o salgado sem nome de lado e peço outro pão com manteiga.
O Corinthians está arrasando o Chelsea, e o gol ainda não veio porque com a gente tem que ter sofrimento. É o que todos acreditam. Procuro na memória se sempre foi assim que a Cohab 1 pensou e percebo que, nos anos todos em que morei ali, nunca assisti a um jogo no meio de todo mundo.
De fato há algumas crianças andando aqui e ali. São elas que vêm ao balcão buscar o pedido que os pais gritam das mesas, já que não há garçons. É uma padaria. Um coleguinha se perde e começa a chorar. Nessa idade, meu pai já tinha se mandado. Não havia a menor chance, portanto, de eu ter estado ali. Passo de novo a vista ao redor, um pouco menos turva por causa da manteiga, e encontro uma ou duas mesas com uns caras de 18 anos. Como sou ruim com fisionomias, devem ter na verdade 16. Tomam cerveja e discutem entre si. Fui embora da Cohab 1 com 18 anos, de modo que eu poderia ter vivido algo assim. Por que será então que…? Interrompo o raciocínio: não quero me sentir mal hoje.
Os times vão voltando ao campinho. Estamos ansiosos na padaria. A tevê fixa o rosto do goleiro Cássio, sem dúvida a estrela do jogo. Ele ganhará o troféu de melhor jogador do torneio e com certeza acreditará que seu nome vai aparecer na lista de convocados para a Seleção Brasileira de 2014. Mas não! Melhor que não tenha passado aquele vexame, o nosso goleiro. Depois, a câmera filma lentamente a torcida do Corinthians. Li no jornal que o Japão está assistindo a uma verdadeira invasão. Enxergo apenas gente branca.
É um ressentimento que no meu caso não passa de jeito nenhum: até hoje tenho raiva de quem foi a Yokohama, no Japão, assistir à final do Mundial de Clubes de 2012. Dizem que muitos corintianos parcelaram o valor. Ora, quem tem tanto crédito assim? E se eu fizer uma vaquinha? Ninguém vai acreditar que não tenho dinheiro para a viagem: seus livros devem render alguma coisa. O fato de não ter de forma alguma qualquer condição de ir ao Japão assistir ao jogo é exatamente o mesmo de eu ter crescido na Cohab 1: ninguém acredita.
Poucos anos depois do nascimento do meu irmão, acho que em 1979, minha mãe se inscreveu em um sorteio do Banco Nacional de Habitação, o popular BNH. Era uma empresa criada pelo governo militar para, ao menos no papel, oferecer empreendimentos imobiliários à população de menor renda. Concorríamos a um imóvel no Conjunto Habitacional Padre José de Anchieta, a Cohab 1. Eram grupos de casinhas construídas em ruas paralelas a uma avenida transversal maior, em um local de São Paulo afastado do Centro por uma viagem naquela época de duas horas no transporte público. Os prédios chegaram um pouco depois. O leitor mais jovem vai reconhecer logo: é aquele conjunto habitacional atrás da Arena Corinthians, o belo estádio construído em 2014, quando eu já estava longe havia bastante tempo.
Minha família foi uma das primeiras sorteadas. Depois, ficou claro que se tratou de um favor político obtido pelo meu avô através de um deputado qualquer que frequentava a igreja em que o velho era pastor. Aos poucos fomos descobrindo que todos os vizinhos conseguiram a casinha do mesmo jeito. Alguns anos depois, no começo de 1983, estourou um caso de corrupção que deixou minha mãe muito tensa.
Em janeiro de 1983, o jornal Folha de S.Paulo publicou algumas manchetes como: “BNH manda dossiê Delfin para o Tribunal de Contas” e “BNH abre o Caso Delfin à Folha”. Pela primeira vez, então, senti algo que jamais largaria minha mãe: uma preocupação excessiva e irreal com qualquer coisa. Ela achava que, com a descoberta da corrupção no programa de governo que possibilitou nossa casa própria, agora ela seria retirada de lá. Os pobres e a casa própria são um caso sério de amor.
Por fim, no dia 21 de janeiro, uma sexta-feira, o jornal informa que o governo está intervindo no Caso Delfin e que, no dia anterior, o craque Garrincha havia falecido, aos 49 anos, depois de afirmar à esposa que beberia até morrer. O caso do BNH desapareceria da atenção de todos algum tempo depois, e a gente continuaria na Cohab 1 por uns bons anos.
Depois de cinco minutos do segundo tempo, não dá para dizer que se trata de papo de torcedor bêbado: apenas o Corinthians aparece no campinho. O Chelsea praticamente só olha o jogo. Todo mundo que tem alguma experiência com futebol sabe, porém, que isso não garante muita coisa.
Na versão deste conto de dez anos atrás, que não consegui terminar, eu continuava o parágrafo anterior listando partidas em que um time jogou muito melhor que o outro e perdeu. Todo mundo da minha geração vai acertar na hora o primeiro exemplo: em 5 de julho de 1982, talvez aquela que tenha sido a melhor Seleção Brasileira da história entrou no campinho da Cohab 1 e perdeu para os italianos com três gols de Paolo Rossi. Esse jogo eu vi com o meu pai: ele se levantou e gritou que o endiabrado jogador da Azzurra não passava de um bandido. Vai tomar no cu, ele disse para alguém, antes de se trancar no banheiro. Só eu estava na sala.
Saí na rua um pouco depois da derrota brasileira. A Cohab 1 está imensa, parece mil vezes maior. Minha rua não acaba nunca. Quanta angústia! Lembro o silêncio. Minha cabeça martela atrás de algum barulho. Há inúmeros outros vultos na rua. Todos nós, os moleques de 7 anos em 1982, ao mesmo tempo em que Sócrates chorava lá na Espanha, estávamos na frente da nossa casa na Cohab 1. Se você cresceu no Shopping Iguatemi, não sabe porra nenhuma. A gente não queria escutar nosso pai chorando. Do Zico, não gosto de me lembrar até hoje. Não havia barulho algum na Cohab 1 inteira, e para uma criança isso pode ser perigoso.
Muito barulho, por outro lado, também não é bom. Oito anos depois da Tragédia do Sarriá, todo mundo diz que o tóxico vai acabar com as famílias. O Anderson arrumou um emprego de repositor. Ele sai de casa cedo e deveria voltar a tempo de comer alguma coisa e ir para a escola. Alguns dos meus colegas do campinho estão estudando à noite, pois precisam trabalhar. O Anderson só aparece em casa de madrugada. Todo mundo sabe a hora porque a mãe dele começa a gritar. O Anderson não fala coisa com coisa. Às vezes tem os olhos inchados, e outro dia ameaçou seu irmão caçula, o Dé. Era o pai deles, um sujeito enorme, que o mandava para a cama. Dizem até que na última vez jogou um balde, com água e tudo, no filho.
Pronto, agora vai resolver.
Não resolveu. Já tinha passado de meia-noite quando, na Cohab 1, aconteceu o contrário do dia 5 de julho de 1982. O barulho é insano: a mãe grita, o Dé grita, a Zoraide sai de casa e começa a gritar também, e o pai do Neno abre o berreiro, mas no próprio quintal, que talvez lhe pareça mais seguro. Eu ouço o barulho deitado na minha cama e tremo.
Aos 23 minutos do segundo tempo, depois de uma confusão na área do Chelsea, a bola espirra e vai parar, quase como uma predestinação, na cabeça do jogador peruano Guerrero, que num impulso faz a única coisa que faltava para o Corinthians no jogo. Com o gol, os berros na padaria dobram o quarteirão.
Há inclusive quem caia da cadeira e precise de ajuda para se reerguer. Que vergonha, papai, ouvi um moleque dizendo. O mais estranho de todos é um senhor com uma chupeta de bexiga enorme em volta do pescoço, chorando para chamar atenção dos três netos, que só por muita necessidade (na Cohab 1 bastante gente precisa sair aos domingos para trabalhar) a mãe confia a esse desmiolado.
O barulho não vai parar mais. Esse, porém, é muito diferente do que ouvi enquanto o pai do Anderson acertava uma pá na cara do filho. Aqui na padaria parece um tremor uníssono com todos balançando ao mesmo tempo: é campeão do mundo, porra, o Guerrero é nosso, porra, e aqui é campeão, porra. É o Cássio, porra. Aqui é Cássio!
Vinte anos antes, o pai do Anderson acerta a pá na cara do filho drogado uma vez, o Anderson solta um gemido surdo, a mãe dele e o Dé berram e tem gente chorando ao redor; depois o pai do Anderson acerta de novo a pá na cara do filho drogado. O Anderson solta um gemido surdo mais baixo, a mãe dele e o Dé gritam mais alto ainda e tem gente chorando ao redor; então pela terceira vez o pai do Anderson acerta com a pá na cara do filho drogado, o Anderson faz um som quase inaudível, a mãe dele e o Dé gritam tanto que toda a Cohab 1 ouve e tem gente que chora, até que por fim é tanto barulho, tanto e tanto, que o Anderson a gente não ouve mais. O pai dele começa a grunhir muito alto, muito alto mesmo, e aqui eu estou querendo dizer realmente alto, meu Deus. Ajuda, Senhor.
A gente não tem telefone, então ninguém sai de casa, minha mãe fala. O pai do Anderson só para de gritar com a sirene da polícia, que dessa vez não demora muito a aparecer. A mãe do Anderson não parou de gritar até hoje. Do Dé eu não tenho mais nenhuma notícia.
Depois do gol e do pessoal na padaria ter finalmente se acalmado, o Corinthians se entrincheirou, garantiu a vitória pela diferença mínima que o futebol permite e se sagrou bicampeão do Mundial de Clubes. A padaria de jeito nenhum vai se esvaziar: os homens pedirão mais uma rodada de cerveja e alguns garantirão o frango assado da casa, desde que a esposa finalmente leve o moleque embora. Da minha parte, comerei outro pão com manteiga para neutralizar as últimas cervejas. Como não fui notado, perdi o receio e resolvi andar um pouco pela Cohab 1, na periferia de São Paulo, que é o lugar onde nasci, cresci e portanto de onde venho. Se algum dia eu parar de esconder isso, capaz que Cássio no campinho seja escrito.
