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    As equipes de resgate no local do desastre: dois anos depois, Trajano voltou à Varig para comprar nova passagem à Europa, contou que estava no avião que caiu, nunca chegou ao destino e disse: “Acho até que merecia ganhar uma passagem” CRÉDITO: REPRODUÇÃO_MUSEU DOS BOMBEIROS DE PARIS_1973

anais da memória

O único passageiro sobrevivente da maior tragédia aérea da Varig

Como foi passar o dia 11 de julho com Ricardo Chust Trajano, que, há exato meio século, sobreviveu a um acidente aéreo que matou 123 pessoas

Pedro Tavares | Edição 203, Agosto 2023

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“Feliz segundo aniversário pro paps!!” A mensagem chegou às 9h34 de terça-feira, dia 11 de julho. Era só a primeira que Ricardo Chust Trajano, pai de duas filhas, receberia ao longo do dia. Ele havia acordado um pouco mais tarde que o habitual e, em torno das sete da manhã, tomou banho e depois ajeitou as fotos antigas que havia pendurado na parede da sala naquela semana, acima do sofá. Fez uma publicação no Instagram, onde tem 23 mil seguidores, e só então foi tomar uma xícara de café sem açúcar e comer seu biscoito de massa folhada. Foi quando recebeu a mensagem de Marina, 22 anos, sua caçula.

Enquanto respondia aos cumprimentos que pipocavam no celular, Trajano passou a manhã revendo artigos de jornais antigos e álbuns de fotografias. Às 12h30 dispensou a quentinha que normalmente compra de uma moradora do seu prédio e caminhou até um restaurante, a 500 metros do seu apartamento, no bairro Santa Amélia, em Belo Horizonte. Comeu peixe empanado com arroz. Às 13h40, estava terminando a sobremesa, um prato de pudim e figo em calda. “Uma delícia”, comentou. Ao sair, pegou uma dose de cachaça, cortesia do restaurante. Quando caminhava de volta para casa, exatamente no momento em que o relógio marcou 14 horas, bebeu o último gole e jogou o copinho de plástico na lixeira da calçada.

E deu um tímido sorriso.

 

Quando a torre do Big Ben, em Londres, bateu 14 horas no dia 11 de julho de 1973, há exatos cinquenta anos, Ricardo Trajano começava a cair do céu a bordo do avião da Varig, voo 820, que logo se espatifaria sobre uma plantação de hortaliças, nos arredores do Aeroporto de Orly, em Paris. O destino final era Londres, mas a tragédia interrompeu seu caminho. Sentado à janela na poltrona 27-F, na penúltima fileira do Boeing, Trajano percebeu uma fumaça fina e branca que vinha dos fundos, próxima aos banheiros. Numa atitude instintiva e aproveitando que não havia passageiros nos dois bancos ao seu lado, decidiu caminhar para a frente da aeronave. O comissário Carmelino Pires de Oliveira Júnior mandou Trajano retornar ao seu assento e colocar o cinto de segurança. Trajano ignorou a orientação.

A tripulação não estava conseguindo controlar o princípio de incêndio e a fumaça começava se espalhar. Na cabine, o comandante Gilberto Araújo da Silva e o copiloto Antônio Fuzimoto informaram à torre de controle de Orly que havia “problema de fogo a bordo” e precisariam fazer uma “descida urgente”. Faltavam menos de 10 km para alcançar a pista do aeroporto. A fumaça, antes branca e fina, agora ficara escura e densa. A tensão evoluiu para o pavor. Trajano, a essa altura, já estava próximo a cabine de comando. Dali, conseguiu ver que dois comissários estavam desesperados com o alastramento da fumaça que já preenchia todo o avião. Com a fumaça espessa já não se enxergava nada pelos corredores do Boeing. “Eu já não via um palmo a minha frente”, lembra Trajano. O oxigênio, soube-se depois, estava contaminado com gases tóxicos que foram liberados pela queima de alguns materiais a bordo. Trajano não se recorda de gritos nem tumulto entre passageiros, que possivelmente já estavam sob efeito da inalação tóxica. O comandante não liberou as máscaras para os passageiros porque, sendo próprias para o caso de despressurização, misturam oxigênio e ar ambiente, e seu uso é proibido em situações de incêndio. Para os tripulantes, havia máscaras de oxigênio puro. Alguns comissários conseguiram usá-las.

Assim que a torre autorizou o pouso, o avião desceu a 2 mil pés e, com o movimento brusco, quem estava de pé desabou no chão. “A sensação que dava era que o bico do avião estava apontando para o so­lo”, lembra Trajano. Às 14h03, quando o avião estava a 5 km da pista, o equivalente a 1 minuto de voo, os pilotos, ao perceberem que a fumaça espessa e tóxica tomava a aeronave, resolveram fazer o pouso forçado mesmo antes da pista. Além de espessa, a fumaça era viçosa e grudava nos aparelhos de controle e nos para-brisas da cabine, bloqueando a visão dos pilotos. Da cabine, abriram as janelas laterais para colocar a cabeça para fora e enxergar o solo onde iriam executar o pouso. Quando o avião tocou a plantação em Saulx-les-­Chartreux, a 20 km de Paris, deu-se um estrondo. “O barulho mais alto que ouvi na vida. Depois disso, desmaiei.”

 

O avião, parcialmente em chamas e dilacerado pelo impacto, conduzia 134 pessoas, entre passageiros e tripulantes, que fariam uma escala em Paris e, depois, seguiriam para a capital inglesa. No acidente, a maior tragédia da história da Varig, morreram 123 pessoas. Salvaram-se dez tripulantes. E um único passageiro: Ricardo Trajano, então com 21 anos, que viajava à Europa pela primeira vez na vida para voar até Londres, onde pretendia conhecer as pessoas que mais admirava na vida: os roqueiros ingleses.

Por isso, no dia 11 de julho passado, sua filha caçula lhe deu parabéns pelo “segundo aniversário” – não o dia em que nasceu, 27 de março de 1952, mas o dia em que chegou a ser dado como morto.

Ricardo Trajano teve uma infância tranquila numa família de classe média, no Rio de Janeiro. Morava em Copacabana e estudava no Colégio Santo Agostinho, uma escola católica tradicional. Aos 19 anos, mudou-se para Petrópolis para estudar engenharia. Depois que conseguiu um estágio no Rio, descia e subia a serra todos os dias. Era músico amador, tocava baixo e chegou a ter algumas bandas de rock, numa época em que a juventude da Zona Sul carioca vivia uma herança de Woodstock. A jornalista e escritora Ana Maria Bahiana, que mora nos Estados Unidos desde 1987, era parte do grupo. “A gente fazia os showzinhos da escola e o Ricardo tocava baixo superbem. A casa dele em Copacabana era nosso ponto de encontro. Eu nunca toquei nada, mas ajudava a compor algumas letras”, lembra ela.

 

No início dos anos 1970, alguns dos amigos músicos que haviam visitado Londres incentivaram Trajano a conhecer a cena musical inglesa. “O Ricardo estava vidrado por Londres. E a turma passou a botar pilha nele: ‘Você tem que ir a Londres, Ricardo!’” Na época, um voo internacional era caro e pouco acessível, mesmo para filhos da classe média. Trajano poupou dinheiro do estágio, fez planos para passar um mês em Londres e conseguiu comprar a passagem.

Na tarde do dia 10 de julho de 1973, seus pais o levaram no Aero Willys da família até o Aeroporto do Galeão. Trajano chegou ao Galeão seis horas antes do voo para escolher um assento no fundo do avião. Tinha lido que era o lugar mais seguro. Queria a última fileira, mas estava reservada aos tripulantes. Pegou então a penúltima, na janela. À sua frente, estava Agostinho dos Santos, um dos grandes cantores brasileiros, que viajava com o maestro e arranjador Carlos Piper. “Eles não pararam de falar o voo inteiro”, lembra Trajano. Havia outros nomes conhecidos: o senador Filinto Müller, que fez fama como chefe de polícia no período de Getúlio Vargas, a socialite Regina Léclery, o velejador Jörg Bruder e o locutor Júlio de Lamare, da TV Globo, que viajava ao lado do comentarista Antônio Carlos Scavone, ambos escalados para participar da transmissão da etapa inglesa do GP de Fórmula 1.

Durante a viagem, Trajano passeou pelo avião, visitou duas vezes a cabine dos pilotos e fez amizade com uma jovem de 19 anos, Reeta Singh, filha do embaixador da Índia no Brasil, que estava na primeira classe. “Trocamos contato, ficamos conversando sobre a vida. Uma menina muito simpática”, diz. Quando o avião já se aproximava de Paris, Trajano ficou observando a paisagem francesa que já se podia divisar da janela do seu assento. “De repente, vi a fumacinha vindo do fundo. Eu só tinha uma coisa na cabeça: não vou ficar aqui.”

Quando o avião desceu bruscamente, Trajano já estava na parte da frente da aeronave e caiu no chão. “Fiquei de barriga para baixo, bem próximo de uma das portas de saída do avião.” Nos quase 3 minutos em que o Boeing 707 descia aceleradamente, teve o flashback tão comum para os que estão à beira da morte. “Passou um filme da vida na minha cabeça, eu me despedindo dos meus pais, dos meus amigos. Eu senti a morte me abraçando.” No pouso, o teto da aeronave desabou, junto com pedaços da fuselagem. Uma parte dos destroços em chamas caiu nas costas de Trajano, até hoje marcadas. Ele mostra a cicatriz e diz: “É o troféu que carrego comigo.” Os bombeiros chegaram em 7 minutos. Trajano foi um dos primeiros a serem resgatados. Estava desacordado.

Nas paredes e nas gavetas, Ricardo Trajano guarda as relíquias de sua vida. A pintura de um gol de falta foi presente de sua filha mais nova, e retrata o momento em que Zico marca para o Flamengo na final da Libertadores de 1981 contra o Cobreloa. No escritório, há uma pilha de livros de Clarice Lispector, de quem é fã. “Eu soube depois que quando ela morava no Leme, nos anos 70, ela recebia estudantes na sua casa. Eu devia ter ido lá”, conta. Numa gaveta, ele guarda uma placa de vidro que emoldura uma foto de dezembro de 1968 em que está ao lado de Mick Jagger, vocalista dos Rolling Stones, em frente ao Copacabana Palace, numa das visitas do cantor ao Rio. Ao lado da foto, na mesma moldura, um autógrafo de Mick Jagger. “Preciso pendurar isso logo na parede”, diz. Em um dos retratos na sala, o vocalista também é destaque: Trajano aparece, ao lado de duas pessoas, conversando com ele na areia da Praia da Barra da Tijuca, no mesmo período.

Gentil e tímido, Trajano mostra uma folha de papel que contém os dados daquilo que vem dando outro propósito à sua vida e, junto com a aposentadoria como engenheiro, virou uma boa fonte de renda: as palestras. No papel, aparece a avaliação do público à sua última apresentação, em Juiz de Fora. Podem-se ler comentários como “palestra sensacional”, “me impactou demais!!!”, “melhor palestra de que participei”. Ele comenta: “Isso para mim se torna um grande divã; quando eu tô no palco as coisas começam a fluir naturalmente. Em toda palestra eu me emociono.”

Sua vida de palestrante começou por acaso, quando já passava dos 60 anos. Em 1994, ele se mudou para Belo Horizonte para abrir uma filial de loja de sapato – que fechou em definitivo durante a pandemia de Covid. Por coincidência, seu vizinho recebia com frequência a visita de um garoto de 7 anos, que vinha a ser filho de uma de suas amigas da infância carioca. Ele se afeiçoou ao menino, Daniel Simão, que até hoje o chama de “tio”. Anos depois, em 2015, Simão e dois colegas criaram uma revista, a Ernesto, em cuja primeira edição publicou a história pessoal do “tio”. Um evento cultural em São Paulo interessou-se pela Ernesto, convidou os editores para fazer o lançamento da revista na capital paulista, e eles resolveram levar Trajano. “Ele [Simão] me liga e fala: ‘Ricardo, a gente quer que você vá lá com a gente e faça uma palestra.’ Na hora, eu disse: ‘Daniel, você está louco? Eu não tenho problema de falar do acidente, mas não sei falar para um público grande.’”

Depois de muita insistência, Trajano aceitou. Como seria num domingo, estava certo de que não apareceria quase ninguém. Não levou roteiro, foto, nada. Apareceram duzentas pessoas. A plateia reagiu bem, e Trajano descobriu que podia causar – e colher – um impacto positivo nas pessoas. “O que tem de gente afetuosa, generosa, mandando força é impressionante. Isso é incrível. E esse é o outro lado da moeda que eu falo muito na palestra.” Ele conta que, vinte anos depois do acidente, reencontrou um amigo de escola, que queria saber sobre os minutos finais do pouso do avião. “Contei do flashback, que eu senti alguém me abraçando e falei que era a morte. Aí, ele me corri­ge e diz: ‘Ricardo, não era a morte te abraçando. Era a vida te protegendo.’ Isso daí me marcou demais”, conta, emocionado.

Quando relembra suas histórias, o senhor tímido e contido se transforma, como se estivesse diante de uma plateia. Com 1,92 metro de altura, ele caminha com vagar de um lado para o outro da sala, gesticula ao compasso das palavras e olha firme para o interlocutor. Gostou tanto do novo ofício que resolveu escrever um livro, em que conta os detalhes do acidente, de sua recuperação e sua empreitada como palestrante. O livro está pronto, tem treze capítulos. A orelha foi escrita pela amiga Ana Maria Bahiana.

No dia do acidente em Paris, Regina Helena Trajano, então com 18 anos, estava no Colégio Santo Inácio, em Botafogo, onde fazia um simulado preparatório para o vestibular. O coordenador da escola mandou chamá-la em sala de aula. “Eu lembro que ele me disse para voltar para casa porque tinha acontecido uma coisa grave com alguém da família. Mas não me deu detalhes”, relembra Regina. Quando chegou em casa, ela soube do acidente com o avião e que seu irmão havia morrido. A casa já estava cheia de parentes e vizinhos, naquela desordem típica da morte.

Em Ipanema, perto do apartamento onde morava a família de Ana Maria Bahiana, havia uma lanchonete onde a turma de Trajano costumava se encontrar para tomar sorvete com Coca-Cola. No dia do acidente, Bahiana entrou na lanchonete e foi surpreendida pelo choro dos amigos, que já estavam informados da tragédia. “O Ricardo morreu, o Ricardo morreu!”, diziam. Entre chocada e incrédula, Bahiana foi até um telefone público e ligou para a casa de Trajano. “O que mais me marcou foi a calma da dona Ketty”, lembra. A mãe de Trajano confirmou que o acidente era mesmo com o avião do seu filho, mas pediu calma porque tinha certeza de que ele estava bem.

Nos arredores de Paris, Trajano foi levado pelos bombeiros para o hospital Henri Mondor. Ao dar entrada no hospital, o jovem foi identificado como se fosse um dos comissários da Varig, o brasileiro Sérgio Balbino. “Nosso porte físico e altura eram bem parecidos. Então ali, naquelas condições, o pessoal da Varig me viu e disse que eu era o Balbino”, conta Trajano. Na capa da edição de 12 de julho, dia seguinte ao acidente, o jornal O Globo noticiou, sob o título Avião Brasileiro Cai em Paris, que todos os 117 passageiros haviam morrido. “Meu pai já estava encomendando o caixão.”

No dia 12, Trajano acordou dentro do CTI do Henri Mondor. Os médicos lhe deram papel e caneta para que escrevesse algo que o identificasse. Com muita dificuldade, Trajano escreveu seu nome, o nome dos pais, o telefone e o endereço. Ele guarda o bilhete original até hoje, dentro de uma pasta. Ao checar a lista de quem estava no voo, os médicos perceberam que havia uma confusão com o comissário Balbino – que estava entre os tripulantes mortos. Ligaram para a família no Rio de Janeiro. “Acho que foi minha tia que atendeu ao telefone”, relembra Regina. “Ela passou pra minha mãe ou meu pai e falaram da confusão dos nomes. Foi a maior emoção que recebi na minha vida. Todo mundo ainda estava lá em casa, tios, primos, avós, amigos, vizinhos. Foi uma comoção geral.”

As primeiras semanas de Trajano no hospital foram dramáticas. Chegou com queimaduras profundas, sobretudo nas costas, nádegas e coxas, e o pulmão muito danificado, em razão da inalação dos gases tóxicos. “A radiografia do pulmão parecia um atestado de óbito”, lembra Trajano. “Eu digo que Ricardo teve dois milagres, o da sobrevivência do acidente e o da recuperação no hospital”, diz Regina. “Não me davam uma semana de vida”, confirma Trajano. No dia 13 de julho, O Globo corrige a informação do dia anterior e noticia que “um sobrevivente do avião é passageiro”. Alguns jornais acompanham a saga de Trajano com sensacionalismo. No dia 14, a manchete do Última Hora dizia: Passageiro Vivo Está Morrendo. Trajano guarda um enorme caderno com recortes de jornais e revistas da época tratando do acidente, incluindo a edição especial da revista Manchete, publicada no dia 28 de julho, que saiu com o título Em Cores. A Tragédia do Boeing e trouxe imagens fortes dos destroços do avião. (Em protesto, a Varig deixou de anunciar na revista.) Folheando as páginas e olhando as fotos, Trajando suspira: “Às vezes, fico pensando se eu estava mesmo naquele avião.”

Ele atribui sua recuperação ao bom preparo físico, adquirido com natação e como atleta de basquete do Botafogo, e à dedicação diária do médico que o atendeu – Pierre Huguenard, a quem Trajano chama de “meu pai francês”. Mas diz que outros dois fatores também foram fundamentais: o bom humor das enfermeiras do hospital e os cartazes motivacionais que seus pais, que foram a Paris para acompanhar a recuperação, escreviam todos os dias e entregavam para que as enfermeiras levassem para o filho ler. “A melhor hora do meu dia era quatro da tarde, quando eu recebia os cartazes.” O primeiro deles, escrito em papel quadriculado com caneta azul, dizia: “Ricardo, filho querido, telefonamos para o Rio. Todos os seus colegas aguardam seu breve regresso. Beijos, Papai e Mamãe.” Trajano guarda até hoje os cartazes desse período de internação em uma pasta. Também recebeu fitas cassetes dos amigos, com músicas dos Rolling Stones e de Carly Simon. Como não podia ouvir com o som alto, para não perturbar os pacientes, usava o estetoscópio. “Sou o inventor do fone de ouvido”, brinca ele.

No dia 2 de setembro, quase dois meses depois do acidente, Trajano chegou ao Rio e foi encaminhado para a Beneficência Portuguesa, cujo prédio histórico abriga hoje o Hospital Glória D’Or. Um dia, Ana Maria Bahiana foi visitá-lo. “O Ricardo fez um sinal com a mão para mim, dizendo para eu me aproximar, e eu fiquei ajoelhada ao lado da cama dele. E percebi que ele estava querendo falar alguma coisa. Com o maior esforço do mundo, ele então falou baixinho: ‘Não era possível morrer antes de ir a Londres.’” Bahiana chorou, depois contou para os amigos e a frase virou refrão de uma música em ritmo de rock. Falando com a piauí por telefone desde os arredores de Los Angeles, onde mora, Bahiana canta: Não era possível morrer/antes de ir a Londres.

No dia 4 de setembro, Trajano recebeu uma carta da Embaixada da Índia em Brasília, assinada por Prithi Singh, o embaixador e pai de Reeta, a jovem que ele tinha conhecido durante o voo. A carta tem três parágrafos e termina com a seguinte frase: “Soube também pelos jornais que você esteve com a minha filha Reeta e conversou com ela no avião. Espero que ela tenha sido corajosa até o fim.” Trajano não chegou a responder a carta e nunca se encontrou com o embaixador. No ano seguinte, em novembro de 1974, Singh deixou a embaixada em Brasília.

Quatro anos depois do acidente, em 1977, Trajano recebeu uma visita ilustre: o médico Pierre Huguenard, que o tratou em Paris. A passeio no Brasil, o médico francês esteve no Rio de Janeiro justamente para reencontrar Trajano, um paciente que teve uma importância especial em sua carreira. Huguenard levou o caso do brasileiro a vários congressos médicos, apresentando-o como um episódio raro de recuperação. Depois dessa visita ao Rio, nunca mais voltaram a se ver. Huguenard morreu em março de 2006. “Foi como se eu tivesse perdido meu segundo pai”, diz Trajano.

Também recebeu a visita do piloto do Boeing, Gilberto Araújo da Silva, que teve ferimentos de pouca gravidade e deixou o hospital francês bem antes de Trajano. Na visita, Araújo da Silva fez questão de lhe apresentar a mulher e as filhas. (Pouco mais de cinco anos depois, em janeiro de 1979, ele pilotava um avião cargueiro da Varig, no voo 967 que saiu do Japão com destino ao Galeão, no Rio. A aeronave desapareceu no meio do Oceano Pacífico. Nunca encontraram os destroços. O episódio se tornou um dos maiores mistérios da aviação. Numa ocasião recente, Trajano fez uma publicação no Instagram, homenageando o piloto. Postou a foto em que aparecem juntos, sentados no sofá, durante a visita em sua casa, e escreveu a seguinte legenda: “Continue a voar, comandante!”)

No dia 6 de abril de 1976, quase três anos depois do acidente, o governo francês publicou pela primeira vez na íntegra o relatório oficial que mostra, ao final, a causa provável. Um dos últimos parágrafos diz: “A causa provável do acidente é um incêndio que parece ter se originado no banheiro de popa a estibordo. Ele foi detectado após a entrada de fumaça no banheiro adjacente. O incêndio pode ter sido provocado ou por incidente elétrico, ou pela imprudência de um dos passageiros.” Ou seja: como a caixa-preta não resistiu ao fogo, não se descobriu a causa exata, nem sua origem precisa. Mas, na imprensa e nos comunicados da Varig, disseminou-se a versão de que o fogo foi provocado por um passageiro que jogou um cigarro aceso na lixeira do banheiro.

Trajano nunca acreditou nessa versão. Para ele, faz mais sentido a especulação surgida no informativo do Sindicato Nacional dos Aeronautas. Entre os anos 1973 e 1977, o informativo publicou várias edições levantando uma dúvida sobre uma suposta carga clandestina que o avião transportaria em seu porão. A carga – “periculosa e por isso mesmo proibitiva” – teria mecanismos explosivos que reagiram durante o voo provocando a reação incendiária. A suspeita nunca veio acompanhada de qualquer indício e jamais passou de mera especulação. “Claro que era muito melhor para a Varig e para o governo vender a história do cigarro”, insiste Trajano. “Tem que lembrar que estávamos em uma ditadura. Imagina se vaza essa informação.”

Sobreviventes e familiares dos mortos receberam uma indenização de 10 mil dólares da Varig. Em troca, assinaram um documento em que se comprometiam a não processar a companhia aérea ou a fabricante do avião, a Boeing. Trajano não recebeu o dinheiro, nem assinou o acordo. E nunca esqueceu de suas suspeitas, nascidas poucas semanas depois que teve alta do hospital, no Rio de Janeiro. “Lembro bem da cena. O telefone do quarto da minha irmã tocou e eu fui lá atender”, diz. “Um homem disse que haveria um encontro para discutir o acidente no Hotel Nacional, em São Conrado, e que eles gostariam que eu não fosse. Era um tom ameaçador, dava para perceber.” Trajano não foi.

No final da tarde do seu “segundo aniversário”, Ricardo Trajano, que mora sozinho, foi até o apartamento de um casal de amigos no mesmo prédio. Nayara e Evandro Ribeiro haviam preparado uma mesa repleta de gostosuras mineiras: bolo de milho, queijo canastra, pães de queijo, canjica e café. Antes da festa, Trajano tentara falar por telefone com o comissário Carmelino Pires de Oliveira Júnior, aquele que o mandou voltar para o assento nos momentos finais do voo. Mas a ligação caía sempre na caixa postal. A última vez que conversaram havia sido em 2017, por Skype.

Agora, na festa, os amigos o incentivaram a falar com outros colegas de acidente. Trajano fez uma videochamada para Alain Tersis, o único francês entre os tripulantes do voo. Bonsoir, mon ami, atendeu Tersis. Conversaram em uma mistura de português e francês. Aujourd’hui il fait cinquante ans, disse Trajano, fazendo referência aos cinquenta anos do acidente. “É verdade, meu amigo Trajano. É verdade.” Foi um papo de 25 minutos. Como amigos que não se veem há muito tempo, perguntaram sobre filhos, netos e projetos. Tersis disse que está curtindo a sua casa da Normandia, ao lado dos netos. Trajano falou das filhas e do livro que está concluído. “É uma honra falar com você. Porque nossa vida está ligada. Não foi brincadeira, né?”, diz Tersis. “Estamos no lucro e no crédito da vida”, brinca Trajano.

O dia 11 de julho chegava ao fim. Depois da recepção no apartamento dos vizinhos, Trajano se arrumou, botou a calça jeans e a camisa, amarrou o suéter no pescoço e estava pronto para encontrar as duas filhas – Julia, de 26 anos, e Marina, de 22 – e a esposa Luciana. Reuniram-se para um jantar de comemoração. “A vida passou a ser para mim um presente cheio de propósitos e significados. Agradeço por mais um dia.”

Em janeiro de 1975, Ricardo Trajano voltou à mesma agência da Varig – onde havia comprado a passagem dois anos antes –, localizada nos fundos do Copacabana Palace. Queria comprar um bilhete para Londres, com escala no Aeroporto de Orly. “Quando a atendente me deu o preço do bilhete, eu falei para ela: ‘Lembra daquele voo em 1973 que caiu e só um passageiro sobreviveu?’ Ela lembrava, claro. E eu disse: ‘Esse passageiro sou eu. Gostaria muito de concluir aquela viagem, que paguei à vista e nem cheguei na primeira escala da ida. Acho até que merecia ganhar uma passagem.’”

A atendente ficou emocionada com a história e chamou o gerente para contar o caso. Trajano deixou a agência da Varig com a passagem nas mãos. De graça. Desta vez, embarcou com o amigo Maurício Valladares, que investia na carreira de fotógrafo de músicos e bandas. No dia da viagem, a Varig, que o presenteara com uma passagem de classe econômica, resolveu dar um upgrade para a primeira classe para os dois. Antes da decolagem, eles beberam uísque, champanhe e comeram caviar. Quando o avião decolou, Trajano sentiu o amigo meio nervoso e perguntou o que estava acontecendo. Já embalado por algumas doses, Valladares respondeu: “Olha, eu preciso te contar, se você levantar para qualquer lugar durante o voo eu vou atrás de você.”

A viagem transcorreu com tranquilidade. Quando faltavam cinco minutos para o avião pousar em Orly, Trajano apreciou a enorme colcha de retalhos em vários tons de verde lá embaixo de dentro da cabine de comando. Estava ali a convite do piloto, que lhe fez uma deferência especial. O comandante então mostrou a área do acidente, onde se deu o pouso forçado 20 meses antes. Neste momento, apenas neste momento, Trajano ficou nervoso. Mas logo passou. Concluída a escala, voou para a capital inglesa.

Não era possível morrer antes de ir a Londres.

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_203 com o título “Cinquenta anos num dia”.

Pedro Tavares
Pedro Tavares

Repórter da piauí

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