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CORONA NEWS

A pandemia segundo jornais verdadeiros e imaginários
Imagem <i>Corona news</i>

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Os desenhos e as pinturas que publico agora pela primeira vez surgiram como um diário visual durante a pandemia. Foram produzidos entre março e julho de 2020, numa vilazinha em São Paulo, onde atravessei parte da quarentena com meus dois filhos e minha mulher, de quem me separei antes da chegada da vacina. Por incrível que pareça, o início daquele tormento planetário está completando cinco anos. O surto na metrópole chinesa de Wuhan, que desencadeou a crise sanitária, eclodiu em dezembro de 2019.

Eu vivo de “rabiscar” há quatro décadas. Faço principalmente ilustrações, cartuns, quadrinhos e animação. Quando o coronavírus nos impôs o isolamento social, fiquei sem trabalho, mas não sem perspectivas. Entendi que chegara a hora de preencher uma importante lacuna na minha trajetória profissional.

Sou gaúcho de Vacaria. Nasci em outubro de 1962 e, três meses depois, segui para Porto Alegre. Lá cresci, estudei artes plásticas e comecei minha carreira. Sempre me considerei artista. No entanto, raramente pude desenvolver projetos 100% autorais. Passei um tempão prestando serviços para a indústria cultural e juro que não me arrependo de nada. Tenho o maior apreço pelas inúmeras aventuras em que me meti sob encomenda, inclusive a de transformar o romance Grande sertão: veredas numa graphic novel. Sentia falta, porém, da liberdade absoluta. Queria desenhar e pintar como na época da faculdade, sem a pressão dos prazos nem interferências de ordem editorial ou comercial. Precisava levar minha energia criativa de volta às origens.

O meu pai, advogado, defendia presos políticos na ditadura. Por isso, desde muito cedo, acompanho os sofrimentos do mundo. Com 7 anos, já devorava jornais. Lia sobre a Guerra do Vietnã na companhia de meu avô Otílio – um camponês admirador de bichos, árvores e reportagens. Lembro que, em 1973, caí doente quando descobri que os democratas não conseguiram barrar o golpe militar no Chile.

Assim que a pandemia estourou, resolvi copiar algumas capas de jornais e revistas publicados dentro e fora do Brasil. Todas, claro, tratavam da Covid. Não sei bem por que tive a ideia. Talvez pretendesse evitar o pânico olhando de frente para o monstro. O fato é que peguei gosto pela coisa e, em quatro meses, como bom obsessivo, reproduzi mais de cem capas à mão livre, com nanquim, tinta pastel ou lápis de cor. Pouco depois de iniciar a empreitada, notei que estava finalmente tocando um projeto todo meu, o que me encheu de ânimo para continuar. Enquanto tentava me proteger de um pesadelo, corrigi a rota da minha vida.

No fim das contas, acabei traçando um mapa bastante inusitado de uma tragédia histórica e de outros episódios que marcaram aquele período (como o assassinato do ex-segurança negro George Floyd pela polícia dos Estados Unidos). Também homenageei uma das criações mais fascinantes da humanidade, a incrível sequência de folhas impressas que registra o correr dos dias, a que chamamos de jornal. Não bastasse, me permiti uma singela molecagem. Inventei minhas próprias publicações (La Paura, The Zangado Heraldo, Quarentena Times, La Indiferencia…) e incluí suas capas no rol de primeiras páginas verdadeiras. A arte é assim: está sempre de sobreaviso para nos pregar uma peça.

CAPAS REAIS


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É artista plástico, ilustrador, quadrinista e diretor de arte de animação. Publicou, entre outros livros, Porto Alegre: guia inútil de lugares improváveis, e sua sequência, A casa azul: Porto Alegre (HQueria)