CRÉDITO: LUIZ BRAGA_2013
Do quintal esquecido
Luiz Braga | Edição 173, Fevereiro 2021
No início de 2013, uma amiga sugeriu que eu conhecesse a comunidade quilombola de Pau Furado, na Ilha de Marajó, no Pará. Eu estava desiludido com o cenário de violência que havia tomado a minha Belém, cidade onde nasci, onde construí grande parte da minha obra e onde circulava livremente pelos trapiches e pelas periferias.
Estava exilado do meu lugar de afeto.
A forma como me acolheu essa comunidade marajoara (que depois soube ser uma entre outras quase vinte existentes na área) mudou a minha vida. Ali, recuperei a fé na fotografia humanista cujo veio herdei de meu pai, Dorvalino, médico psiquiatra.
Passei a visitar com frequência os igarapés, as casas de farinha, procissões, ladainhas e festas de aniversário. A passear com as crianças ouvindo as lendas, aprendendo sobre as ervas, as frutas. A perceber a reverência à matriarca dona Diquinha, a força das mulheres da região.
No mesmo ano, fiz uma exposição em Belém com parte das imagens desse tempo feliz. Depois, num movimento de retorno, levei a mostra para uma exibição no barracão central da comunidade de Pau Furado. Na ocasião, também fizemos uma oficina de fotografia pinhole com as crianças de lá.
Na apresentação da oficina, perguntei às crianças nome, idade e o que desejavam ser quando crescessem. Duas delas me tocaram fundo. A primeira, Júlia, filha da líder comunitária, respondeu: “Quero ser médica!” A outra, Cássia, foi até o quadro e apontou para a palavra “alguém” que estava escrita a giz. Meus olhos marejaram.
É a primeira vez que a foto de Cássia é publicada.
A Amazônia é tratada como o quintal do Brasil e, nesse quintal, Marajó é o canto esquecido, onde um povo trabalhador luta para ser tratado dignamente. A esperança dessas duas meninas revela a potência do desejo justo e a capacidade de lutar por ele.
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