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Maturidade inventada

    Amigos no enterro de Thiago, assassinado aos 13 anos: “Mesmo depois que aprendemos a falar, que aprendemos a escrever, é com o choro que vamos expressar o indizível” CRÉDITO: SELMA SOUZA_VOZ DAS COMUNIDADES_2023

anais da fotografia

Maturidade inventada

Em uma foto, o pranto que devolverá a humanidade a mais um corpo negro abatido pela polícia

Jeferson Tenório | Edição 204, Setembro 2023

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Um menino de 13 anos foi morto em agosto. Ele tinha ao menos cinco balas espalhadas pelo corpo – resultado de mais uma operação policial no Rio de Janeiro. Mais uma morte brutal, e o país não parou por causa disso. Houve pouca comoção. Pouco engajamento. Não se reclama pelo corpo negro alvejado.

De uma hora para outra, Thiago Menezes Flausino, morador da Cidade de Deus, se tornou mais um número. Ganhou um lugar na estatística fria e impessoal, que normaliza a desumanização de crianças e adolescentes negros nas periferias.

Observo as fotos do funeral de Thiago, especialmente a tirada por Selma Souza, repórter fotográfica da ONG Voz das Comunidades. Amigos do menino choram pelo fim precoce de alguém que, semanas antes, convivia com eles. Lembro-me de ter lido, certa vez, que o pranto é a nossa primeira língua. É o modo que temos para dizer algo quando a palavra ainda não existe. E, mesmo depois que aprendemos a falar, que aprendemos a escrever, é com o choro que vamos expressar o indizível.

 

Lamento pela morte prematura de Thiago e penso nos que ficaram. Nos amigos e colegas da mesma faixa etária que, agora, diante daquele que se vai, terão de lidar com sua ausência. O lu­to é um tempo de tristeza necessária. O luto é esse rompimento dos vínculos afetivos. Uma fratura inesperada daquele que nos era familiar e que subitamente deixa de existir para nós.

Talvez a infância e a adolescência sejam os lugares mais difíceis para entender o fim da vida. Porque, nessas fases, ainda não construímos aqueles mecanismos psíquicos que nos permitem lidar com o inesperado. A violência não cabe na infância e na adolescência ou não deveria caber. Para seguir, para ir adiante depois da morte de alguém tão novo, é preciso inventar uma maturidade, improvisar um jeito adulto de lidar com o trágico. De lidar com o mundo interno que ruiu e que jamais voltará a ser o mesmo.

A morte de pessoas negras são mortes anunciadas. Corpos matáveis, sob o aval do Estado. A morte de um adolescente, assim, sem aviso prévio, sem qualquer possibilidade de despedidas, provoca uma fratura interior sem volta. Por isso, penso nos que ficaram. Penso nos que permaneceram. Nos que terão de lidar com a dor, com a falta e com a tristeza.

 

O choro de crianças enlutadas da Cidade de Deus é um choro de desespero. E o desespero ainda é um modo de dizer não. O desespero ainda é um modo de discordar da vida. É o último recurso para a gente se manter humano. Aquele pranto das crianças enlutadas é uma busca pelo direito de ter infância.

Sinto que o luto nunca vai acabar, nunca cessará. O corpo de Thiago continuará morrendo para meninos e meninas que ficaram. Continuará morrendo para os pais e parentes próximos. Sem ele, será difícil jogar futebol no Projeto Canelinhas. Será difícil inventar brincadeiras, dar prosseguimento às conversas e percorrer o caminho até a Escola Municipal Dorcelina Gomes da Costa. Será difícil orar nas igrejas, em qualquer igreja.

Esse é o luto que o Estado não verá. O Estado apenas reduzirá o menino de 13 anos e sua existência a um efeito colateral de mais uma operação policial. Entretanto, observando as fotos do funeral, de repente percebo que é justamente o pranto das crianças enlutadas que conseguirá devolver a humanidade a Thiago.

 
Jeferson Tenório
Jeferson Tenório

Escritor e doutor em letras, publicou, entre outros, de Estela Sem Deus e O Avesso da Pele (ambos pela Companhia das Letras).

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