Eu estava apaixonado e não havia caminho de volta. Mas agora sabia sobre ela algo que precisaria levar em conta. Ela era capaz de pensar um milhão de vezes mais rápido que eu PEDRO FRANZ_2018
Düssel…
Eu te amo, mas, por favor, me diga se você é de verdade
Ian McEwan | Edição 147, Dezembro 2018
Você pergunta se foi bom para mim. Para responder, preciso voltar atrás uns cinquenta anos – até a meia-noite de uma sexta-feira quente e o momento em que, com o máximo de delicadeza, sussurrei junto ao ouvido de minha nova amiga a indelicada pergunta. Eu estava por baixo dela, que se mostrava em toda sua glória, nua, só com uma gargantilha de ouro cravejada de lápis-lazúli. Mesmo sob a luz âmbar do abajur, sua pele reluzia, branca. Seus olhos estavam fechados enquanto ela se mexia em cima de mim, para trás e para a frente, os lábios um pouquinho entreabertos, permitindo vislumbrar seus dentes perfeitos. Sua mão direita repousava carinhosamente em meu ombro esquerdo. Dela se desprendia uma leve fragrância, não de perfume, mas de sabonete de sândalo. Aqueles sabonetes, com um antigo veleiro gravado em baixo-relevo, embrulhados em papel de seda e acomodados dentro de uma longa caixa retangular de pau-de-balsa, já tinham sido meus. Ela se encantou por eles assim que pôs os pés em meu banheiro. Por que eu deveria me importar?
Quando fizemos uma pausa, ela se inclinou para a frente e eu, aproximando os lábios do lóbulo de sua orelha, dei-lhe uma lambida; lutando contra uma lufada de prazer sensual que parecia arrancar as palavras de minha boca, eu disse: “Meu bem, sei que não devia, mas preciso te perguntar uma coisa. Não que eu tenha algum direito de saber, mas, depois dessas duas semanas maravilhosas… eu sinto… Jenny querida… me perdoe, eu te amo e sempre vou te amar… mas, por favor, me diga a verdade. Você é de verdade?”
Antes de descrever a reação dela, devo explicar – em nome dos leitores mais jovens – como eram as coisas naquela época. Tínhamos atravessado uma revolução social cujas consequências já foram totalmente absorvidas. A garotada, venho notando, tende a agir como se nada houvesse acontecido. Eles têm pouca ou nenhuma percepção da história. Os milagres realizados pelas gerações anteriores são tão banais quanto a própria vida. Porém, como deve saber todo aquele que se interesse sobre o assunto, o debate começou muitos séculos atrás, talvez com Platão ou com o Frankenstein de Mary Shelley, ou com Charles Babbage e Ada Lovelace, ou com as especulações de Alan Turing, ou quando, na aurora do terceiro milênio, um programa de computador, aprendendo com os próprios erros por meio de profundas redes neurais e “jogando sozinho”, derrotou um grande mestre de Go, o velho jogo de tabuleiro chinês. Ou, o que é mais significativo, quando a primeira androide engravidou de um humano e pariu o primeiro bebê de carbono e silicone. Apenas a três ruas de distância do meu apartamento, numa encantadora pracinha circundada de cafés e sombreada por plátanos aparados, há uma estátua em homenagem a Molly. Qualquer um pensaria que não há nada de especial nesse monumento. Só que, em vez de um general, um poeta ou um astronauta, quem nos encara de cima de um pedestal, atrevida, é uma garota de uns 8 anos, bonita, de camiseta e jeans, com as mãos nos quadris.
Será que uma máquina pode ter consciência? Ou, dito de outro modo, será que os humanos não passam de máquinas biológicas? Respostas afirmativas a ambas as questões consumiram décadas de discussões internacionais entre neurocientistas, bispos, filósofos, políticos e o público em geral. Por fim, bem depois do que seria razoável, os seres artificiais ganharam plena proteção nos termos de diversas convenções de direitos humanos. O mesmo ocorreu com os filhos de uniões mistas. Outros direitos se seguiram oportunamente, inclusive o de contrair matrimônio, possuir bens, obter passaporte, poder votar e ter estabilidade no emprego. Um androide podia abrir um negócio, ficar rico, ir à bancarrota, sofrer um processo judicial e até mesmo ser morto, em vez de ser destruído. Em todo o planeta surgiram várias “leis de alforria” que tornaram ilegal comprar ou possuir um ser manufaturado. A linguagem jurídica intencionalmente invocou as leis contra a escravidão do século XIX. Com os direitos, vieram as responsabilidades – o serviço militar foi uma questão inconteste, incontornável. Em matéria de participação em júris, os androides foram uma conquista, dados os defeitos cognitivos e a memória fraca e maleável dos humanos.
A nossa foi uma geração que chegou após anos turbulentos em que reinaram a paixão e a reflexão angustiada. A compreensão do que se entendia por ser humano se ampliava de forma estimulante – ou trágica. Se o consenso das elites científicas era de que nossos amigos recém-concebidos sentiam dor, alegria e remorso, como podíamos prová-lo? Havíamos indagado o mesmo sobre outros humanos desde o despertar da reflexão filosófica. Deveríamos nos preocupar ou nos maravilhar por serem, em geral, mais inteligentes, mais bondosos e mais bonitos que nós? Estariam errados os religiosos dentre nós que se recusavam a lhes conferir uma alma?
Então, como acontece frequentemente com mudanças sociais controversas, depois que tais matérias foram discutidas à exaustão e aprovou-se a legislação, a vida seguiu e logo ninguém se lembrava do motivo de tanta confusão no passado. Costuma-se dizer que as grandes questões filosóficas nunca são resolvidas: elas se dissipam. Marchas de protesto, monografias, discursos, conferências e profecias catastróficas, nada disso serviu. Afinal, nossos novos amigos se pareciam muito conosco, só que eram mais amáveis. Eram também confiáveis, e por isso tantos foram trabalhar na advocacia, nos bancos e na política, iniciando uma reforma razoável, e muito necessária, daquelas instituições. Tinham um temperamento profundamente solidário que os tornava excelentes profissionais no campo da medicina e da enfermagem. Fortes e rápidos, representaram dois terços de nossa equipe de atletismo nas Olimpíadas, embora os praticantes de corrida com obstáculos levassem outros quinze anos para se aperfeiçoar. Em particular, destacaram-se como músicos e compositores brilhantes em todos os gêneros. Se chegamos a nos preocupar que parecessem bons demais em tudo, podíamos nos congratular por serem uma criação nossa, à nossa imagem, a última e mais rica floração de nosso gênio artístico e técnico. Eram, como dizíamos, os mais refinados produtos de nossa natureza.
De forma lenta, ainda que bastante evidente por afetar tanto nossa vida social quanto os processos jurídicos, compreendeu-se e em geral se aceitou que nossos semelhantes fabricados mereciam um tratamento digno e deviam ter sua privacidade respeitada. Em outras palavras, em poucos anos se tornou socialmente inaceitável – o que não ocorria quando éramos jovens – perguntar.
Por exemplo, num jantar de gala por ocasião de algum importante prêmio literário, era inconcebível que você, estimulado por uma arguta observação de seu encantador vizinho de mesa, perguntasse se ele, um editor altamente respeitado, era um artefato de produção local feito de biossílica. Vinte anos antes era possível – na verdade, seria a primeira coisa que você gostaria de saber. Seria um modo trivial de entabular uma conversa. Como se você dissesse: “Ouvi dizer que o senhor tem uma casa de campo na Turíngia. Que coincidência!” Findos os derradeiros resmungos de rebeldia sobre o que era ou não politicamente correto, junto com as velhas e idiotas histórias de horror do tipo “eles vivem entre nós”, passou a ser ofensivo, até mesmo indecente, indagar – seria uma pergunta essencialmente grosseira do ponto de vista físico, uma vez que a questão de lhes atribuir consciência já tinha sido decidida havia tempos. Seria tão inconveniente quanto perguntar a um humano, no momento da sobremesa de musse de chocolate: “E então? Todo mundo está dizendo que você fez uma colostomia!”
Outro exemplo. Quando a sra. Tabitha Rapting se tornou primeira-ministra com apenas dois assentos de vantagem no Parlamento, houve quem se perguntasse se ela era “de verdade”, outra expressão ofensiva que foi abandonada. Mas o ponto é o seguinte: socialmente, já tínhamos vencido um grande abismo porque tais dúvidas não eram suscitadas em público, apenas em bares de clubes de golfe ou em manifestações organizadas por grupos radicais e marginalizados. Formular ostensivamente a pergunta teria sido vergonhoso, obsceno, similar ao racismo e, por isso, provavelmente ilegal. Isso tudo ocorreu faz muito tempo, e mesmo agora ainda não temos certeza quando um androide assumiu pela primeira vez a cadeira de primeiro-ministro. Se é que algum deles o fez. Ou se temos vivido sob uma ininterrupta sucessão deles. Nem sabemos se um androide já ganhou o simples de tênis, masculino ou feminino, do torneio de Wimbledon. Ou se um humano foi campeão nos últimos vinte anos.
Logo, se aos leitores mais moços minha pergunta a Jenny naquela abafada noite de julho parece desprezível, desejo lembrá-los de que pertenço a uma geração que viveu durante a transição. Horríveis adolescentes que éramos, com a indesculpável mania de mexer com as mulheres que circulavam pelos shoppings, pensávamos conhecer uma dezena de truques para testar a diferença. Estávamos errados, é claro – e pouco ligávamos para isso. Exceto mediante uma análise de DNA ou uma microcirurgia profunda, não há como saber. Mas sabíamos que sempre seria possível exigir uma resposta das vítimas de nossos gracejos, e a resposta estava sempre programada para ser verdadeira – até que isso também começou a mudar.
Jenny, eu lembro com orgulho, não se ofendeu. Aninhou-se ainda mais. Seus olhos, agora abertos, profundos e negros, estavam fixos nos meus. Eu a sentia – as palavras mal dão conta do recado – líquida, macia, calorosa, envolvente. Sensitiva e sensual. Ah, que ser adorável! Uma descarga elétrica de amor e prazer ameaçou me deixar surdo. Mas minha curiosidade era tão forte que escutei cada palavra que ela disse. São momentos como esse que levaremos para a cova. O beijo que trocamos antes que ela falasse foi terno e extasiante. Seus lábios, sua língua – milagres, não importa como haviam sido formados. Eu sabia, mesmo antes de ter minha resposta, que jamais a deixaria. Então o que importava do que ela era feita?
“Você é meu.” Ela disse isso como quem enuncia um fato óbvio. Já tinha empregado essa frase vez por outra em nossas horas de amor, e ela sempre me agradara. “E eu sou tua. Nada mais conta.”
Como ela fez uma pausa, imaginei deslealmente que tais demonstrações de afeto, embora sinceras, fossem um tipo de subterfúgio. Mas com que direito eu ousava duvidar dela?
“Pensei que você já soubesse. Fui feita em Düsseldorf, na Grande França. Assim como meus pais e as tias com quem você é tão simpático. Mas o primo que encontramos no restaurante, aquele que você tentou bater no squash, é de Taiwan.”
“Düsseldorf!”, foi tudo que consegui dizer, embora a última sílaba não passasse de um som engolido, pois acreditava estar desaparecendo. Essas poderosas sensações não pertenciam a mim, mas ao mundo das coisas, ao vazio entre as coisas, à essência da matéria e do espaço. Em torno dessas duas entidades se erguia uma devastadora maré de êxtase. A confirmação de sua bela e estranha alteridade excitava o mundo em que eu estava incluído até torná-lo um ponto evanescente de singularidade esquecida. Em segundos – na divertida expressão que empregávamos nos shoppings da minha adolescência –, eu tinha “pulado do avião sem paraquedas”. Levei a mão ao peito e desmaiei por instantes. Envergonhei-me por ser um amante tão egoísta, e disse-lhe isso quando voltei a mim. O perdão, é claro, fazia parte de sua natureza.
Estava apaixonado e não havia caminho de volta. Mas agora, com certeza, eu sabia sobre ela algo que eu precisaria levar em conta. Sua velocidade de processamento chegava à metade da velocidade da luz. Ela era capaz de pensar um milhão de vezes mais rápido que eu. Por tato e outras considerações ela não o demonstraria. No entanto, se fôssemos viver juntos, eu teria de reconhecer que seria difícil ganhar uma discussão ou me opor a alguma decisão tomada por ela. No exato momento em que eu precisaria dar de ombros, afastar o rosto e organizar os pensamentos, ela teria podido repassar, numa reflexão íntima, a maior parte do que se sabia sobre a natureza humana e a história da civilização.
Assim, era essa a situação em que me encontrava. Minha geração havia erguido uma ponte sobre um dos maiores despenhadeiros daquela cordilheira cada dia mais longa que chamamos corriqueiramente de história da modernidade. Acredite: se você nunca pediu desculpa a uma máquina por ter feito uma pergunta indelicada, então não tem ideia da distância histórica que eu e minha geração percorremos.
