CRÉDITO: CÁSSIO LOREDANO_2025
Efeito Trump
O cachorro louco veio para ficar
Fernando de Barros e Silva | Edição 227, Agosto 2025
Agosto, dizem, é o mês do cachorro louco, mas este ano os cães da extrema direita resolveram antecipar o calendário. É verdade que Donald Trump não escolhe data para espumar. A raiva, no caso dele, é um modo de vida. Sua cólera funciona em moto-contínuo contra tudo o que possa parecer civilizado. No mês que passou, ela se manifestou na direção do Brasil. Trataremos aqui dos aspectos políticos de sua investida, começando por uma rápida recapitulação dos fatos.
1_No dia 9 de julho, Trump anunciou que os produtos brasileiros seriam taxados em 50% a partir de 1° de agosto. E justificou a medida com um ataque inaudito à soberania do país. Primeiro, alegou que o julgamento de Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal era uma caça às bruxas e que deveria cessar IMEDIATAMENTE, com maiúsculas. A seguir, na mesma carta que endereçou a Lula e divulgou pelas redes sociais, disse que o STF estava patrocinando atos SECRETOS e ILEGAIS, também com maiúsculas, contra as big techs dos Estados Unidos. Só depois de se imiscuir na política brasileira e torcer os fatos conforme suas conveniências, numa mistura de soberba, truculência e delírio, Trump decidiu invocar as razões comerciais de sua decisão. E o fez para mentir, dizendo que o Brasil impunha “déficits insustentáveis” aos Estados Unidos. Como todos sabem, ocorre exatamente o contrário: os Estados Unidos são historicamente superavitários nas transações entre os dois países.
2_Pesquisas de opinião realizadas nos dias seguintes ao tarifaço registraram a melhora dos índices de aprovação a Lula e a rejeição da maioria da população às medidas de Trump. O governo aproveitou a maré e espalhou pelas redes sociais o slogan “Lula quer taxar os super-ricos, Bolsonaro quer taxar o Brasil.”
3_No dia 15 de julho, radicalizando sua ofensiva, o governo americano anunciou ter aberto investigação sobre o que chamou de práticas comerciais “desleais” do Brasil. Entre elas, o uso do Pix, que compromete o rendimento das bandeiras de cartão de crédito americanas e os sistemas de pagamento das big techs.
4_Dois dias depois, em 17 de julho, Lula convocou a rede nacional de rádio e tevê para rebater Trump. Falou por quase 5 minutos, rechaçou a interferência estrangeira em assuntos internos e, sem citar nomes, chamou de “verdadeiros traidores da pátria” os políticos locais que apoiavam a cruzada trumpista.
5_No dia seguinte, 18 de julho, Alexandre de Moraes impôs medidas cautelares contra Bolsonaro, acusando-o, junto com o filho Eduardo, de atentar contra a soberania nacional para interferir no curso do processo judicial de que é réu. O ex-presidente passou a usar tornozeleira eletrônica, ficou proibido de acessar as redes sociais e de sair de casa à noite e nos fins de semana, entre outras restrições. Bolsonaro e Eduardo – que está nos Estados Unidos desde março, conspirando contra a democracia brasileira – também ficaram proibidos de conversar.
6_Nesse mesmo dia em que Bolsonaro virou um “tornozelerer eletrônico”, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, anunciou que estavam suspensos os vistos de Moraes e de outros sete ministros do STF. Dali em diante, até ordem em contrário, na Corte brasileira, só Luiz Fux, André Mendonça e Kassio Nunes Marques continuam autorizados a passear na Disney.
7_No dia 21, a Primeira Turma do STF ratificou, por 4 votos a 1, as medidas cautelares de Moraes. O voto divergente foi de Fux, o neobrother do bolsonarismo.
8_Bolsonaro foi ao Congresso no dia seguinte e discursou rapidamente diante de jornalistas, exibindo a canela com o adereço eletrônico, que chamou de “suprema humilhação”. Moraes ameaçou prendê-lo e intimou seus advogados a prestar esclarecimentos. O ministro ouviu os argumentos da defesa e se manifestou dias depois: o ex-presidente descumpriu, sim, a medida cautelar, mas cometeu uma “irregularidade isolada” e, por isso, não cabe sua prisão preventiva. Por enquanto.
A agressão de Trump ao Brasil não é um ato isolado. Ela integra os esforços para articular a extrema direita ao redor do mundo, sob a influência dos Estados Unidos. É o que diz, entre outros, o cientista político Jan-Werner Müller, professor da Universidade Princeton, em artigo recente intitulado Trump está tentando construir uma Internacional de extrema direita, republicado no Brasil pelo jornal Valor Econômico, com título levemente alterado (Trump e a aliança global de extrema direita). Falando em nome da “liberdade de expressão”, que é por ele instrumentalizada, Trump age para atender aos interesses poderosos das empresas de tecnologia que não querem ser reguladas por governos de outros países, a exemplo do que ocorre no Brasil e na União Europeia.
Em fevereiro deste ano, lembra Werner Müller, o vice de Trump, J. D. Vance, repreendeu as iniciativas dos europeus no sentido de proibir o discurso do ódio e regular a esfera digital, acusando-os de desrespeitar a “liberdade de expressão”. Em relação ao Brasil, o governo americano foi mais longe.
Não deixa de ser um choque de realidade. O cachorro louco (embora Trump pareça mais um porco gordo com voz pastosa) veio para ficar. O último mês deu o tom do que virá pela frente. Os Estados Unidos já entraram em campo para interferir no processo político brasileiro e a sucessão presidencial definirá, sim, os rumos (e, no limite, a possibilidade de existência) da nossa democracia. É isso o que está em jogo.
No meio de muitas dúvidas, há algumas certezas. Eduardo Bolsonaro é carta fora do baralho para 2026. Se, ao viajar para os Estados Unidos, tinha alguma pretensão de ser indicado pelo pai como candidato à Presidência (e tinha), o deputado fujão em vias de perder o mandato hoje parece condenado a apostar as suas fichas numa improvável ruptura institucional. Zero Três esfarelou como opção de poder. Morreu pela boca. Sua imagem está indelevelmente associada à traição dos interesses nacionais em nome de benefícios familiares. Se for esperto, ele fica nos Estados Unidos, onde vai poder andar na rua e trocar inclusive de nome: Bananinha é o #$%%&*, meu nome agora é Zero Three.
Trump pegou os patriotas de surpresa e muita gente não sabia onde enfiar o boné do Maga. Foi o caso de Tarcísio de Freitas. Depois de embarcar na pregação bolsonarista de primeira hora, que atribuiu a responsabilidade pelo tarifaço exclusivamente a Lula, poupando o presidente americano de qualquer peteleco – e depois de apanhar dos representantes do PIB nacional por isso –, Tarcísio recalibrou seu discurso, tentando se equilibrar entre a lealdade ao chefe e as urgências concretas da turma do dinheiro (leia reportagem sobre o governador na página 16).
Na mesma linha, Romeu Zema chegou a declarar que “a gente não briga com cliente” e “a gente procura fazer aquilo que é o melhor para o cliente”. O governador de Minas não costuma usar boné. Mas, se lhe fizessem um exame de ressonância magnética no crânio, é provável que encontrassem a sigla Maga gravada em seu lobo frontal. Zema também apanhou do empresariado e teve que retocar a maquiagem de sua retórica.
Depois do baque inicial, tudo indica que a direita vai se reorganizar e será competitiva em 2026. Há interesses financeiros, base social e agenda política conspirando para isso (mais até do que a economia, a violência neste momento ocupa o topo das preocupações da população). E a direita vai se reorganizar compondo com o bolsonarismo e rendendo homenagens a Bolsonaro, e não rompendo com ele. Tarcísio deixou de ser a barbada da Faria Lima, mas segue vivo no jogo.
Quem, no entanto, no campo conservador, mais se beneficiou desse imbróglio até agora foi Michelle Bolsonaro. No momento em que o clã entrou em parafuso, quando a tal “narrativa” lhes fugiu de controle e tivemos a impressão de que falavam em línguas – cada um na sua –, a figura de Michelle, pouco ouvida pela “macholândia”, se impôs como contraponto. Ela, que é iniciada na glossolalia, mas de quem nada se esperava que dissesse sobre a tarifália, acabou se beneficiando da balbúrdia sem fazer esforço. Dificilmente será candidata à sucessão de Lula. Mas, por ora, desponta como a vice dos sonhos dos marmanjos.
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