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No Martins Out 2023 17h14
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Apresentação de Tatiane de Assis
Quando a piauí chegou ao ateliê do artista visual No Martins, na Barra Funda, em São Paulo, ele estava terminando os novos trabalhos da série Encontros políticos. Havia ali nove telas de grande porte, que ocupavam boa parte do galpão de 400 m2. Na semana seguinte, as obras seriam enviadas para Chicago, a fim de serem exibidas na mostra individual de Martins na Mariane Ibrahim Gallery, a partir de 15 de setembro. Ibrahim é uma marchand negra em ascensão no circuito internacional e representa Martins (ele não é representado por nenhuma galeria no Brasil).
Martins é paulista, tem 36 anos, 1,70 metro de altura e usa dreadlocks de cerca de 1 metro de comprimento, arranjados numa espécie de coque. “Tem quase vinte anos que eu não corto o cabelo”, conta. “No” é o codinome que usava em seus tempos de pichador, na adolescência. Ele começou a fazer os cursos superiores de história e artes visuais (não terminou nenhum dos dois), e foi aluno da artista Rosana Paulino (uma das convidadas da 35ª Bienal de São Paulo, atualmente em cartaz)*. Em 2019, ele ganhou o Prêmio Sesc de Arte Contemporânea, durante a 21ª edição da Bienal Videobrasil.
A série Encontros políticos começou a ser pintada em 2019, retratando cenas da vida cotidiana de pessoas negras em casa, na rua e em bares. O título do trabalho indica o quanto há de político nesses momentos de ócio, conversa e convivência com familiares, amigos ou amores. “A conquista do lazer é algo muito importante para a população afro-brasileira, que tem jornadas exaustivas de trabalho”, diz o artista. A curadora Solange Farkas, criadora e diretora da Associação Cultural Videobrasil, observa: “No Martins inverte a lógica que associa cenas de felicidade apenas a quem é branco.”
A praia foi incorporada a esses momentos felizes em 2021. Mas não comparece nas telas apenas para criar um cenário agradável: é também um ambiente político. “As pessoas escravizadas foram trazidas ao Brasil por mar, em navios, e os fortes militares ficam na praia”, afirma o artista. Sem contar que, mesmo à beira-mar, o racismo espalha suas redes, como sabe Martins, de experiência própria. Em 2020, seguranças exigiram que ele e seus amigos negros saíssem de uma praia em Imbassaí, na Bahia. “Disseram que a gente ia deixar o local feio que nem os de Salvador.” A piauí publica nesta página e nas seguintes oito telas da série Encontros políticos cuja “paisagem” é a praia, todas elas realizadas neste ano.
Martins é um dos expoentes de uma geração de artistas que tem se destacado ao fazer uma pintura figurativa na qual pessoas negras são os protagonistas. Com isso, esses artistas realizam um ajuste político do imaginário da história da arte ocidental, que sempre retratou os negros numa condição subalterna: como escravizados e serviçais. Na pintura exuberante de Martins, esse ajuste afirma o orgulho das origens, a ocupação dos espaços, a dignidade do ócio e a intrepidez da alegria.
Continuidade (250 x 250 cm): “Criei aqui uma nova frase para a bandeira do Brasil – ‘Progresso é liberdade ao povo’ –, que contraria a mensagem oficial. A liberdade pode ser pensada em vários sentidos, inclusive o de ocupar espaços”
Conversa sobre Carolina (150 x 200 cm): “É uma das telas que mais gosto. Os corpos parecem entrar um dentro do outro. Coloquei um livro, Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, que é uma referência para mim. Em 2021, fiz a capa e o projeto gráfico para uma nova edição”
Vendedores (200 x 250 cm): “Se, ao fim do dia, você vai à Praia do Leme, no Rio de Janeiro, vai ver isso: os vendedores ambulantes, depois de caminhar horas pela areia, com o Sol a pino, se reúnem em torno de uma churrasqueirinha, para ouvir um som e trocar uma ideia”
Em família (230 x 200 cm): “Não é toda família que tem a possibilidade de fazer um passeio na praia. Como morávamos em São Paulo, fui com meus pais só uma ou duas vezes. A primeira foi em Bertioga, no litoral paulista. Meu pai tinha uma Kombi, porque trabalhava para o Baú da Felicidade. Foi muita gente na Kombi. Mó dia lindo”
Ela disse sim (230 x 200 cm): Duas jovens estavam conversando na Praia do Leme, no Rio de Janeiro, e Martins se aproximou. Pediu para tirar uma foto, pensando numa futura tela. As moças hesitaram, mas depois aceitaram. De quebra, contaram uma intimidade: uma delas, a de biquíni rosa, acabara de ser pedida em namoro. A resposta dela – “Sim” – ensejou o nome da obra
Day off (230 x 200 cm): “É a cena de uma folga de trabalho, quando você vai à praia para não fazer nada ou se prepara para ir a uma balada. Incluí também os caras jogando bola, que é algo bem típico das praias brasileiras”
Desenhando a estratégia (200 x 180 cm): “Existe nessa tela uma preocupação estética tanto com as cores quanto com a roupa que os personagens estão vestindo. Eles têm óculos bacanas e correntes. O penteado também não é qualquer um”
Continuidade (250 x 250 cm): “Criei aqui uma nova frase para a bandeira do Brasil – ‘Progresso é liberdade ao povo’ –, que contraria a mensagem oficial. A liberdade pode ser pensada em vários sentidos, inclusive o de ocupar espaços”
Conversa sobre Carolina (150 x 200 cm): “É uma das telas que mais gosto. Os corpos parecem entrar um dentro do outro. Coloquei um livro, Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, que é uma referência para mim. Em 2021, fiz a capa e o projeto gráfico para uma nova edição”
Vendedores (200 x 250 cm): “Se, ao fim do dia, você vai à Praia do Leme, no Rio de Janeiro, vai ver isso: os vendedores ambulantes, depois de caminhar horas pela areia, com o Sol a pino, se reúnem em torno de uma churrasqueirinha, para ouvir um som e trocar uma ideia”
Em família (230 x 200 cm): “Não é toda família que tem a possibilidade de fazer um passeio na praia. Como morávamos em São Paulo, fui com meus pais só uma ou duas vezes. A primeira foi em Bertioga, no litoral paulista. Meu pai tinha uma Kombi, porque trabalhava para o Baú da Felicidade. Foi muita gente na Kombi. Mó dia lindo”
Ela disse sim (230 x 200 cm): Duas jovens estavam conversando na Praia do Leme, no Rio de Janeiro, e Martins se aproximou. Pediu para tirar uma foto, pensando numa futura tela. As moças hesitaram, mas depois aceitaram. De quebra, contaram uma intimidade: uma delas, a de biquíni rosa, acabara de ser pedida em namoro. A resposta dela – “Sim” – ensejou o nome da obra
Day off (230 x 200 cm): “É a cena de uma folga de trabalho, quando você vai à praia para não fazer nada ou se prepara para ir a uma balada. Incluí também os caras jogando bola, que é algo bem típico das praias brasileiras”
Desenhando a estratégia (200 x 180 cm): “Existe nessa tela uma preocupação estética tanto com as cores quanto com a roupa que os personagens estão vestindo. Eles têm óculos bacanas e correntes. O penteado também não é qualquer um”
*Trecho corrigido. Anteriormente estava escrito que o artista fez o curso de história na União das Instituições Educacionais do Estado de São Paulo (Uniesp) e de artes visuais nas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU).