questões ludopédicas
Felipe Botelho Corrêa Mai 2023 16h45
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Eu assisti ao primeiro jogo do Brasil na última Copa do Mundo do Catar na casa de Rajeev Nair, em Londres. Ele me contou que quando compraram o apartamento em Greenwich, um bairro bucólico na parte Sul da cidade, em meados de 2021, só pediu uma coisa para sua mulher: queria ter uma televisão gigante na sala para poder ver os jogos de futebol. Não se importava com mais nada. A televisão foi o primeiro item a ser comprado pelo casal e a enorme embalagem serviu de cortina para a janela da sala por alguns meses. Naquele fim de novembro, enquanto o Brasil pressionava a Sérvia no campo, Nair falava com desembaraço sobre figuras históricas do futebol brasileiro, pronunciando nomes como Vavá, Garrincha, Tostão ou Zico sem qualquer sotaque.
Rajeev Nair nasceu em 1985 e se formou em engenharia de computação antes de migrar de sua terra natal, Kerala, um estado no extremo sudoeste da Índia. Primeiro, viveu nos Estados Unidos, onde começou a trabalhar no mercado financeiro. Depois, recebeu uma proposta para trabalhar na sede londrina do JP Morgan Chase, um dos maiores bancos de investimento do mundo. Conheci Nair numa conversa desinteressada no parquinho onde nossos filhos costumam brincar. Como era um pouco antes da Copa, a conversa não demorou muito a chegar no assunto, e fiquei intrigado com o que ele contou sobre sua paixão e a dos seus conterrâneos pelo futebol.
Durante a Copa do Catar, esta pequena localidade indiana onde Nair nasceu – um pouco menor que o estado do Rio de Janeiro e com uma população de 35 milhões de habitantes – chamou a atenção do mundo por um vídeo que viralizou, mostrando dezenas de torcedores keralitas se enfrentando a socos e pontapés. Brigas entre torcidas são um fenômeno universal. Mas os torcedores no vídeo em questão não vestiam a camisa da seleção da Índia – que, apesar de ser um dos países pioneiros no futebol, com a mais antiga associação fora da Europa, nunca participou de uma Copa do Mundo da Fifa. Os torcedores vestiam as camisas da Seleção Brasileira e da seleção argentina.
Há décadas que algumas regiões do subcontinente asiático se transformam em época de Copa do Mundo, com as duas seleções sul-americanas como protagonistas. Os rituais dos torcedores não são muito diferentes dos nossos: ruas são pintadas, casas decoradas, compromissos adiados, tambores fazem a marcação e multidões se juntam para ver partidas em telões instalados em espaços públicos. A rivalidade em Kerala é tão intensa que chega a contextos inusitados. Recentemente, uma estudante do quarto ano de uma escola no estado se recusou a responder a uma questão de prova que tinha como tema o craque argentino Lionel Messi. No espaço para a resposta, a aluna Riza Fathima escreveu: “Não vou responder a isso. Sou fã do Neymar e torço pelo Brasil. Eu não gosto do Messi.”
Com a possibilidade de uma semifinal entre as duas equipes, houve quem temesse uma situação perigosa nas ruas, pois em mundiais passados houve mortes causadas por ânimos exacerbados, embriaguez e brigas entre torcedores rivais. Há estudos que alegam haver um aumento nas taxas de suicídio de torcedores na Índia e em Bangladesh, país vizinho, em razão da eliminação das seleções.[1] A derrota do Brasil para a Croácia nas quartas de final, portanto, criou uma mistura de frustração com alívio, e o foco passou então a ser a equipe liderada por Messi. No dia da final contra a França, Nair – que, apesar de dominar a pronúncia dos nomes de ídolos brasileiros, torce para a Argentina – me escreveu: “Esse jogo está uma loucura. Assim eu vou enfartar. Já não tenho mais fôlego.”
Massas de torcedores que assistiam ao jogo nas ruas de Kerala explodiram de emoção quando o lateral direito argentino Gonzalo Montiel bateu o último pênalti. A vitória desencadeou uma espécie de Carnaval no Sudeste Asiático. Renjith Jacob Mathews, funcionário público de 42 anos que vive em Cochim, a maior cidade do estado de Kerala, lamentou não ter acompanhado as celebrações nas ruas. “Foi uma grande festa varando a madrugada”, ele me disse, em entrevista pelo telefone. “As pessoas estavam nas ruas com bandeiras e muita animação. Houve buzinaços de motocicletas e muita bebida. Como tenho um filho pequeno, não pude me juntar aos outros torcedores, mas fiquei acompanhando pela internet.” A magnitude das celebrações chamou a atenção da própria seleção argentina, que tuitou em sua conta oficial um agradecimento aos keralitas, reproduzindo um vídeo da fanfarra de centenas de torcedores com tambores, bandeiras e vuvuzelas. O foco do vídeo, porém, era um solitário torcedor com a camisa da Seleção Brasileira, que, à maneira sul-americana, era alvo de chacota dos rivais que o rodeavam.
Alguns dias depois da vitória argentina, o clima era outro. Mesmo antes da poeira das celebrações assentar, a Federação de Futebol da Índia (AIFF, na sigla em inglês) declarou luto por sete dias, em respeito à vida e às realizações de Edson Arantes do Nascimento (no Brasil, o luto oficial foi de três dias). A morte de Pelé rodou os noticiários do mundo, mas na Índia a dor da despedida teve um tom peculiar que estudiosos sobre o sentimento de pertencimento nacional talvez tivessem certa dificuldade em explicar. No primeiro dia de 2023, o jornalista Ruchir Joshi, colunista do jornal indiano The Economic Times – um dos principais do país, lido diariamente por mais de 1,1 milhão de pessoas –, dedicou um texto a Pelé, discorrendo sobre sua importância no imaginário dos indianos. “Ele era um de nós”, escreveu Joshi.
Apesar do esporte nacional da Índia ser o críquete, o futebol tem uma importância simbólica na luta anticolonial do país. Lá, o esporte se desenvolveu seguindo padrões comuns a outros lugares: britânicos levaram o jogo na bagagem, com expectativas de distinção social, cultural e, principalmente, racial. Como a Índia era colônia britânica, as primeiras décadas do futebol, ainda no final do século XIX, foram dominadas por equipes militares, já que oficiais e alguns missionários tinham sido os primeiros a levar o esporte ao país. Os principais campeonatos eram só entre equipes de britânicos, excluindo a participação dos locais. As primeiras competições, portanto, permaneceram totalmente dominadas por times regimentais de britânicos brancos. Aos poucos, as regras discriminatórias começaram a ser questionadas e as equipes locais foram autorizadas a participar de forma limitada no IFA Shield, a competição anual da Associação de Futebol da Índia, que tinha um caráter mais “aberto” em comparação aos torneios mais segregados e de caráter fechado – torneios como a Copa Durand (criada em 1888) e a Copa Rovers (criada em 1890), exclusivamente formada por brancos e britânicos até meados da década de 1920.
Pelas regras discriminatórias do IFA Shield, um máximo de apenas duas equipes locais podia participar do campeonato. Foi nesse contexto que o Mohun Bagan, clube fundado em 1889 e formado por jogadores indianos, conseguiu uma façanha histórica, tornando-se campeão do torneio em 1911 ao derrotar o East Yorkshire Regiment, equipe de militares britânicos, por 2 a 1. A vitória da equipe de Calcutá, do estado de Bengala Ocidental, ocorreu apenas dois anos depois de ter sido admitida na liga, em 1909, e teve efeitos para além do esporte. O feito foi encarado por muitos como uma grande vitória política, uma espécie de impulso ao movimento de independência que começara a ganhar força com a divisão de Bengala em 1905.[2] Nas décadas seguintes, esse sentimento anticolonialista foi crescendo e o futebol foi atuando como uma espécie de válvula de escape, muitas vezes encenando a derrota dos colonizadores pelos heróis locais.
No livro A Social History of Indian Football: Striving to Score (Uma história social do futebol da Índia: Lutando para marcar), os autores Boria Majumdar e Kausik Bandyopadhyay afirmam que, nesse período, o apelo do futebol passou a diminuir as diferenças de casta, classe e comunidade na sociedade indiana, impulsionando um vínculo social de cunho nacional. Ganhar dos britânicos dava uma enorme satisfação aos indianos, que eram proibidos de expressar o sentimento anticolonial em público. Segundo os autores, dar uma cotovelada, um soco ou uma canelada em um militar britânico em campo, sob o disfarce de uma jogada mais dura, também dava um sabor especial às partidas, seja lá qual fosse o placar final.
No livro Fútbol que Estás en la Tierra, publicado em 2016, o jornalista espanhol David Ruiz de la Torre descreve como Mahatma Gandhi usou o futebol durante seus primeiros anos na África do Sul para divulgar suas ideias de justiça social e igualdade, que foram a base de sua luta no processo que levou à independência da Índia em 1947. Antes de ficar conhecido como o “pai da Nação”, Mohandas Karamchand Gandhi conheceu o futebol durante seu período como estudante de direito na Inner Temple, em Londres, de 1888 a 1891. Quando se mudou para a África do Sul, em 1893, chegou a um país onde o futebol já era muito popular, principalmente entre os imigrantes indianos. Centenas de milhares de seus conterrâneos haviam chegado à África do Sul entre as décadas de 1860 e 1900 para trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar, e, mais tarde, em minas de carvão e ferrovias.
Em meio a crescentes tensões raciais e leis segregacionistas, Gandhi viu no futebol a possibilidade de falar com as massas. Ajudou a fundar três clubes de futebol (em Durban, Pretória e Joanesburgo), todos com o mesmo nome: Passive Resisters Soccer Club (Clube de futebol resistentes passivos). Gandhi e seus associados usavam as partidas para distribuir panfletos, fazer discursos e arrecadar fundos para organizar uma oposição feita por milhares de torcedores. Tomando esses espaços como uma espécie de laboratório para desenvolver suas ideias e retórica, falava aos curiosos sobre o Satyagraha.[3] A ideia era usar o apelo popular do esporte como uma ferramenta de conscientização.
É difícil saber se nesse momento o esporte chegou a atrair Gandhi para além da questão política. Há fotografias dele junto a jogadores dos Passive Resisters, mas não há registros de qualquer partida que ele tenha jogado. Na autobiografia sobre sua juventude, publicada em 1932, Gandhi afirmou: “Antes de se tornarem obrigatórios na minha escola, eu nunca fiz exercícios físicos e não jogava críquete nem futebol. Minha timidez foi um dos motivos desse distanciamento, e agora vejo que eu estava errado. Na época, eu tinha a falsa noção de que a ginástica não tinha nada a ver com educação. Hoje sei que o treinamento físico deve ter tanto lugar no currículo quanto o treinamento mental.” Ainda que alguns estudiosos da vida e obra de Gandhi, como Yogendra Yadav, afirmem que ele jogava e gostava do esporte, tal inclinação parecia estar ligada apenas ao aspecto físico e não à cultura popular que crescia ao redor do esporte. Quando Gandhi retornou à Índia em 1915, suas opiniões sobre o futebol e sua crescente popularização foram ficando cada vez mais críticas. É certo que as partidas por vezes funcionavam como encenações da luta anticolonial, mas esses sentimentos sozinhos não tinham a potência de levar a cabo a independência. E, nesse sentido, Gandhi via com maus olhos a cultura de torcedores que crescia. Em diversas ocasiões, escreveu com veemência contra o futebol e outros esportes: “Nossos indianos nascidos na colônia se deixam levar por essa mania de futebol e críquete. Esses jogos podem ter seus lugares em certas circunstâncias. Mas tenho certeza de que para nós, que agora estamos tão fragilizados, eles não têm espaço algum.”
Logo depois da independência da Índia em 1947 e da morte de Gandhi no ano seguinte, a seleção indiana ficou próxima de jogar a Copa do Mundo de 1950, no Brasil. A expectativa era grande, mas não se sabe ao certo por que a equipe acabou não participando. Alguns sugerem que o governo não financiou a viagem, outros que a Fifa impedia os jogadores de entrar em campo descalços, como era hábito da seleção indiana. Na Olimpíada de Londres em 1948, por exemplo, ficou anotado no livro oficial que nove membros da equipe tinham jogado a primeira partida, contra a seleção francesa, sem chuteiras, mesmo com chuva e frio. (O costume só mudou a partir de 1952, quando os campeonatos nacionais passaram a exigir a proteção dos pés.) O mais provável, contudo, é que a formalização da classificação do país tenha chegado tarde demais, depois que o Mundial começara, após as desistências de Filipinas, Indonésia e Birmânia, atual Mianmar.
Apesar de a seleção indiana não ter vindo ao Brasil, pode-se dizer que o Brasil foi à Índia. Isso aconteceu quando o futebol começou a se tornar um fenômeno global, alavancado pelo avanço dos meios de comunicação. Pelé talvez seja o maior símbolo desse processo. Mas, para os indianos, ele representava algo mais. Num país recém-independente, em que os estados ainda estavam sendo formados, surge a figura de um homem de pele escura que, ainda jovem, desbanca os europeus e leva sua equipe a se tornar a melhor do mundo em três mundiais: 1958, 1962 e 1970. Não bastasse alcançar o tricampeonato, a Seleção Brasileira nunca perdeu para a Inglaterra nesses três mundiais, fazendo a equipe inglesa praticamente virar freguesa. “Para nós, o futebol não é algo que se remete a um espírito nacional”, me contou Nair. “O futebol foi inventado pelos ingleses e é dominado pelos europeus. Em vários aspectos, podemos dizer que inicialmente era um esporte do colonizador, um jogo de homens brancos. No entanto, historicamente equipes latino-americanas conseguiram vencer os europeus. O Brasil dominou o período pós-guerra, bem como os anos 1990 e início dos anos 2000, com a Argentina subindo ao topo em meados dos anos 1980 e no último Mundial. Para nós, esses países têm funcionado como uma espécie de modelo de como o colonizado pode ganhar. Nós tentamos nos espelhar neles.” Ainda assim, Nair afirma que se deu conta dessas conotações anticoloniais em Kerala só aos poucos, quando já era mais velho. “Sou de uma geração que nasceu quando a rivalidade entre torcedores da Argentina e do Brasil estava apenas começando. Naquela polarização de torcidas, escolhi o meu time e entrei na dinâmica. Mas eu não questionava o porquê de as pessoas ao meu redor gostarem daquelas duas seleções.”
As vitórias brasileiras também eram apreciadas por meio de jornais e revistas locais, como aponta Ruchir Joshi em seu artigo sobre Pelé para o Economic Times. Nascido em 1960, ele relembra o impacto do jogador brasileiro em sua infância: “À medida que a Copa do Mundo de 1970 se desenrolava, o nome Pelé ganhava mais destaque entre nós. Crianças como eu ficavam cada vez mais conscientes de que um homem de pele escura tinha sido não só o melhor do Mundial, mas também de que era, disparado, o melhor jogador do mundo.”
Essa superioridade chegou até a ser estampada nas páginas de livros escolares utilizados pelos colégios de Kerala, o que ajudou a popularizar a figura de Pelé a partir da década 1970. Nair lembra que um perfil do futebolista aparecia de forma destacada: “Quando eu estava na escola primária, lembro-me de ler sobre Pelé em um dos nossos livros didáticos. Era um perfil sobre os grandes feitos dele. Curiosamente, ele aparecia em meio a outras figuras nacionais importantes, como Bhagat Singh.”[4] Escrito na língua local de Kerala (malaiala), o livro para os alunos do quinto ano contava com um artigo de três páginas intitulado Um Milagre no Futebol, alçando Pelé a mito mundial. Além disso, filmes de curta duração sobre o jogador eram exibidos em algumas sessões de cinema na época, ressaltando suas incríveis habilidades. O conjunto dessas ações fez com que uma geração inteira começasse a endeusar Pelé não por vê-lo jogar, mas ao ler, ver imagens de arquivo e escutar histórias sobre ele. Curiosamente, a única oportunidade de os indianos verem Pelé jogar num estádio local foi em sua penúltima partida como profissional, quando ele já jogava no New York Cosmos. Numa espécie de turnê de despedida, que passou pela Ásia, ele entrou em campo justamente contra o Mohun Bagan, a pioneira equipe indiana que fez história em 1911 vencendo o IFA Shield e ajudando a derrubar as barreiras raciais no esporte.
Como aconteceu em muitos países, foi no período entre as duas copas do mundo realizadas no México – entre 1970 e 1986 – que a cultura de torcedor passou a ser mediada mais pela televisão. Torcer por uma equipe já não dependia tanto de ir aos estádios e estar geograficamente próximo dos jogadores. Para milhares de indianos, ver o esporte pela tevê estimulava desejos e fantasias, e aumentava o apelo simbólico e internacional do esporte. Isso pode ser sentido em Striker (Artilheiro), um famoso romance publicado em 1976, escrito pelo autor e jornalista indiano Moti Nandi. O livro, que saiu primeiro em bengalês e depois em inglês, conta a história de Prasun Bhattacharya, um jovem aspirante a jogador, e começa com a descrição pelo protagonista de um sonho que teve na noite anterior. Nele, Bhattacharya vê um estrangeiro de meia-idade, vestindo casaco e calças brancos, saindo de uma limusine estacionada na estrada principal do povoado onde vivia. Moradores da localidade nunca tinham visto uma limusine e se aglomeram para saber do que se trata. Ao ser questionado, o estrangeiro diz que é brasileiro e que atua como secretário do Santos Futebol Clube; eles querem contratar Bhattacharya para jogar pelo time. Ao saber disso, um dos moradores corre para informar o pai de Bhattacharya sobre a oferta, e fica muito emocionado ao mencionar que o estrangeiro representa justamente o clube pelo qual Pelé jogou. A maneira como Pelé é descrito na história dá uma ideia da dimensão da admiração pelo jogador brasileiro na região em meados da década de 1970.
Apesar de a Copa de 1970 ter sido a primeira a ter partidas transmitidas ao vivo e em cores em alguns países, foi a Copa de 1986 que se tornou um divisor de águas na Índia. Na década de 1970, apenas uma parcela ínfima da população indiana tinha televisores. Em 1986, no auge da carreira de Maradona, muito mais gente já podia ver partidas pela tevê. Ainda assim, o processo de incorporação dos keralitas a esse modo de ver mundiais de futebol foi desigual e atravancado. “A [Copa] de 1994 foi a primeira que eu acompanhei e a que mais me marcou”, disse Nair. “A maioria das casas da minha cidade [Kottayam, que na época tinha cerca de 170 mil habitantes] não tinha eletricidade nem tevê. Para assistir aos jogos, tínhamos que encontrar alternativas. Conseguimos convencer a biblioteca pública, que tinha um aparelho, a abrir de madrugada para que pudéssemos assistir aos jogos. Na de 1998, a família de um vizinho com algum dinheiro comprou uma antena parabólica, e a gente tinha que se alternar para subir no telhado e sintonizar a antena.”
A Copa costuma ocorrer no auge do período das monções de junho, e Nair se lembra de estar encharcado no telhado em 1998 quando houve um blecaute. No dia seguinte, conseguiram um gerador a diesel para não ter mais interrupções. Nos anos 2000, segundo ele, a maioria das casas já tinha eletricidade, mas ainda assim havia muitos cortes de energia. Na Copa de 2006, vencida pela Itália, durante uma partida houve outro blecaute. “Um de nossos amigos conhecia o cozinheiro do hospital Mercy, o único lugar que tinha eletricidade naquela hora, e fomos para os fundos do hospital. A cozinha já estava fechada, mas conseguimos ligar uma tevê e virá-la para a janela que dava para a área externa. Cerca de cem pessoas assistiram ao jogo ali.”
Até a ascensão futebolística de Diego Armando Maradona na virada da década de 1970 para 1980, a Índia ainda era uma grande massa de torcedores da Seleção Brasileira. A vitória da Argentina em 1986 é o marco inicial de uma feroz rivalidade entre os indianos, principalmente entre os keralitas – que finalmente passam então a se dividir entre os que torcem pelo Brasil e os que torcem pela Argentina. Mas o gosto de alguns keralitas pelos argentinos não era somente por causa do avanço da televisão. Havia também um elemento político envolvido na preferência.
O estado de Kerala é ímpar na Índia. Foi oficialmente fundado em 1956 seguindo a divisão de estados por línguas, e é por isso que os keralitas são também chamados de malaialas. Localizado a quase 3 mil km de distância da capital do país, Nova Delhi, o estado tem uma longa trajetória de governos de esquerda com características bastante peculiares. O Partido Comunista da Índia – conhecido pela sigla em inglês CPI – chegou ao poder lá não por meio de uma revolução, mas pelas primeiras eleições democráticas, em 1957. Em vez de impor o controle estatal dos principais meios de produção, o CPI optou por promover uma reforma agrária para tentar atacar a pobreza rural na região, trabalhando para que empresários e grandes produtores investissem no estado.
Não demorou para que o governo central, comandado pelo então primeiro-ministro Jawaharlal Nehru, interviesse e dissolvesse o governo local em 1959, em grande parte pela tentativa do CPI de controlar todo o sistema de educação, incluindo as escolas particulares. A partir da década de 1960, entram em cena no estado outros partidos, que acabam por definir duas amplas frentes partidárias que se alternam no poder desde então: a Frente Democrática Unida, de centro-esquerda, liderada pelo partido Congresso Nacional Indiano, do qual Gandhi e Nehru foram membros, e a Frente Democrática de Esquerda, liderada pelo Partido Comunista da Índia (Marxista) criado em 1964 após uma ruptura com o CPI (o adendo “Marxista” na sigla, escrito assim mesmo, entre parênteses, passou a diferenciar o partido novo do progenitor original, fundado em 1925).
A longa alternância de poder entre centro-esquerda e esquerda no estado teve importantes consequências para o desenvolvimento da região, que chegou a ser apontada como um modelo único no mundo. Em menos de duas décadas depois da independência, Kerala conseguiu atingir níveis de desenvolvimento e bem-estar humanos muito mais elevados que o restante do país, comparáveis a países desenvolvidos que tinham uma renda per capita muito mais alta. Em outras palavras, o modelo de desenvolvimento de Kerala (como ficou conhecido internacionalmente) desafiava a ideia de que o crescimento econômico era o principal fator no desenvolvimento humano, como apontou o relatório de 1975 do Comitê para a Política de Desenvolvimento, da Organização das Nações Unidas (ONU). Kerala surgia como um ponto fora da curva e as estatísticas de seu progresso apontavam na mesma direção de novos entendimentos teóricos sobre desenvolvimento, como sugerido pelo economista paquistanês Mahbub ul Haq e o economista indiano Amartya Sen (ganhador, em 1998, do Nobel de Economia). Em vários de seus trabalhos, como em seu clássico livro de 1989 – Hunger and Public Action (Fome e ação pública), escrito em conjunto com Jean Drèze –, Sen utiliza Kerala como exemplo de suas ideias sobre desenvolvimento, propondo uma abordagem mais holística que inclua não apenas a renda per capita, mas também níveis de educação, saúde e riqueza de um país ou região – as principais categorias do que depois ficou definido como Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), criado em 1990.[5]
Aparna John, que cresceu em Kerala e é pesquisadora e consultora independente sobre desenvolvimento internacional, pesquisou o tema em sua tese de doutorado. Para ela, as altas taxas de desenvolvimento humano de Kerala não se devem somente aos governos: “Quando se discute os níveis de desenvolvimento de Kerala, muitas vezes a longa história de mobilização social no estado é negligenciada. Isso é um equívoco. O estado tem uma longa lista de lideranças sociais que lutaram por uma vida melhor, como os incontornáveis Narayana Guru e Ayyankali, que desafiaram a opressão baseada em castas e trabalharam para o progresso de suas comunidades. Como eles, há muitos outros em Kerala. Essa tradição de mobilização política também ajuda a entender a expansão da educação e da saúde no estado, tanto para homens quanto para mulheres.”
A principal crítica ao modelo de desenvolvimento de Kerala é que, apesar de ter uma população com bom IDH, historicamente o estado tem baixa atividade econômica e industrial, com pouca geração de empregos, o que leva boa parcela da população a migrar para outros países, onde encontram empregos com salários mais altos. Por sua vez, são esses imigrantes que acabam por manter viva a economia de Kerala, enviando remessas de dinheiro aos familiares (em 2017, ano do dado mais recente, as remessas estrangeiras chegaram a 35% da receita total do estado).
Como imigrantes de alta escolaridade, Aparna John e Rajeev Nair são exemplos das complexidades desse modelo de Kerala, muitas das quais aparecem na cultura do futebol. Ao longo da Copa de 2022, comentaristas das partidas enfatizavam o ambiente de festa que tomava conta das partidas do Brasil e da Argentina no Catar. Contudo, poucos se davam conta de que boa parte das torcidas era composta por keralitas. Quando assistíamos à primeira partida do Brasil, Nair chamou a minha atenção para esse detalhe. Alguns dos torcedores presentes provavelmente tinham ajudado a construir os estádios do Catar. Tathagatan Ravindran, antropólogo nascido em Kerala e hoje professor na Universidade Icesi, em Cali, na Colômbia, me explicou: “Kerala tem uma grande emigração, com muitos keralitas indo para os países do Oriente Médio. Grande parte da imponente infraestrutura desses países foi construída por imigrantes de Kerala.”
Entre os torcedores estavam amigos de infância com os quais Nair ainda mantém contato. “Quando eu tinha cerca de 8 anos, fiz amizade com Prasanth, que era alguns anos mais velho que eu e fazia parte da ala jovem do Partido Comunista. Foi ele quem me influenciou a torcer pela Argentina. Eu me lembro que ele me deu de presente nessa época um livro: O Manifesto Comunista de Marx e Engels. Claro, eu não tinha ideia do que se tratava e para mim era impossível entender aquilo. Mas me lembro que o livro vinha com um marcador de páginas que tinha a famosa figura de Che Guevara impressa.”
Embora o Brasil fosse o time com maior torcida em Kottayam, sua cidade, Nair diz que foi muito influenciado pela figura de Maradona. O jogador argentino era visto como um espelho dos keralitas não por motivos raciais, como Pelé, mas por sua origem pobre e sua enfática admiração por figuras como o ditador Fidel Castro. Maradona conseguira proezas como arrasar o time inglês em 1986, com os dois gols que se tornaram os mais marcantes de sua carreira: a antológica arrancada desde antes do meio de campo em que dribla meia dúzia de ingleses até passar pelo goleiro e o gol feito com a mão, episódio depois batizado de La Mano de Dios. “Aquele Mundial foi o primeiro após o governo de Margaret Thatcher conseguir vencer a guerra das Ilhas Malvinas”, disse Nair.
Para Subhash Chandran, renomado escritor nascido no estado, Maradona tinha uma imagem que ia além do status de jogador de futebol. Numa entrevista para o site indiano The News Minute, publicada em novembro de 2020, ele disse: “Estávamos procurando freneticamente por um ícone para a juventude. Após a Copa de 1986, os keralitas abraçaram Maradona como um herói que se levantou contra os opressores. Já gostávamos da política e da literatura latino-americana daquela época, e ouvir as declarações políticas de Maradona era como música para nossos ouvidos.”
Foi essa a imagem que se consolidou entre os keralitas. Imagem que não arrefeceu. Quando Maradona morreu em novembro de 2020, o governo local de Kerala declarou luto de dois dias. O proprietário do Hotel Blue Nile, localizado na cidade de Kannur, transformou o quarto 309, onde a estrela ficou por dois dias durante uma viagem de 2012, em uma espécie de museu. Itens que o jogador argentino havia tocado, usado ou deixado para trás – guimbas de charuto, um lençol, uma toalha, uma xícara de chá, um prato, colheres e uma saboneteira – foram cuidadosamente emoldurados e pendurados nas paredes. O quarto foi renomeado como “The Maradona Suite”. E a admiração continua com força. Pouco antes do início da Copa de 2022, os donos colocaram uma estátua em tamanho real do jogador na entrada do hotel.
Para a maioria dos jovens de hoje, essas referências históricas muitas vezes passam despercebidas. Torcer fanaticamente pela seleção argentina ou pela brasileira já faz parte de uma rivalidade embrenhada no tecido social da sociedade keralita. Assim como é improvável que um jovem brasileiro explique sua paixão por um clube em decorrência de questões sociais, políticas ou históricas, a paixão dos indianos pelo futebol sul-americano não é vivida por meio de explicações históricas ou sociológicas. O antropólogo Tathagatan Ravindran reconhece a questão ideológica e a racial que ajudam a explicar a admiração por ídolos como Maradona e Pelé, mas para ele é importante ressaltar também outro aspecto: “Tradicionalmente, as seleções do Brasil e da Argentina têm um estilo de jogo bonito, muito diferente de como jogam os europeus. Para nós, o futebol precisa ter esse aspecto estético e lúdico. Em grande parte, é por isso que os torcedores keralitas usam a primeira pessoa do plural – nós – para se referir às seleções pelas quais eles torcem. O futebol jogado aqui tenta ter essa estética também.”
Um recente documentário de média metragem (Maitanam – The Story of Football in Kerala), lançado pela própria Fifa em 2022, tenta dar conta dessa paixão singular pelo “futebol bonito” no estado e mostra como brasileiros, argentinos, nigerianos e outros jogadores de países do Sul global têm sido contratados por times locais para impulsionar o futebol profissional no estado e no país, com uma ênfase no “jogo bonito”. Além da liga profissional, há também uma forte cultura de equipes amadoras que jogam com sete jogadores de cada lado.
Semanas depois da final do Mundial, conversei com Nair sobre o significado da vitória de Messi e sua equipe. “Acho que sempre vou ser um torcedor da Argentina,” disse ele. “Isso fez parte da minha infância e é o elo de várias das minhas amizades. Mas desde que saí de Kerala e morei em outros países por causa do meu trabalho, conheci muitos argentinos e brasileiros. Curiosamente, sinto que não tenho nada em comum com os argentinos, que em geral me parecem bastante arrogantes. Mas encontrei várias afinidades com os brasileiros. A morte de Maradona me impactou muito. Quando o Pelé morreu, foi diferente. Eu senti o vazio que ele tinha deixado em Kerala e no mundo.”
Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_201 com o título “Entre Pelé e Maradona”.
[1] Alguns estudos na área de psiquiatria já constataram que a vitória e a derrota de uma seleção de futebol em um mundial estavam associadas à redução e ao aumento da taxa de suicídio na população de alguns países participantes das competições (Hassanian-Moghaddam et al., 2018; Encrenaz et al., 2012) e também em países cujas seleções não participaram das competições mundiais de elite, principalmente na Índia e em Bangladesh (Arafat & Hossain, 2018).
[2] Em 1905, a região de Bengala foi dividida por ordem do vice-rei da Índia, George Nathaniel Curzon – o marquês Curzon de Kedleston –, em parte oriental (majoritariamente muçulmana) e parte ocidental (de maioria hindu) com o propósito de produzir eficiência administrativa. A decisão gerou inúmeros protestos e sentimentos anticoloniais, forçando os britânicos a reunificar a região em 1911. Em 1947, no contexto do processo de independência e fim do domínio britânico, o território indiano foi repartido em dois estados soberanos – Índia e Paquistão. A Bengala Ocidental continuou a fazer parte da Índia, enquanto a Oriental passou a se chamar Paquistão Oriental. Em 1971, o Paquistão Oriental se tornou um país independente, Bangladesh.
[3] Termo em hindi e sânscrito composto por duas palavras: satya, que pode ser traduzida como verdade, e agraha, que significa firmeza, constância. A ideia foi desenvolvida por Gandhi e teve grande influência no movimento de resistência não violenta no processo de independência da Índia.
[4] Bhagat Singh foi uma figura mítica e carismática do nacionalismo revolucionário indiano, tendo participado do assassinato de um policial britânico, de um bombardeio da Assembleia Legislativa Central em Nova Delhi e de uma greve de fome na prisão. Foi executado aos 23 anos, em 1931, e é frequentemente citado como um mártir da história do país.
[5] Em 2021, Kerala continuava tendo o maior IDH da Índia, equivalente ao da Colômbia. O IDH médio do país é equivalente ao de Gana, no Oeste da África.