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    Abdelmassih no jradim de sua casa no Paraguai, onde ficou gorafido por três anos. "Tive muitos casos extraconjugais, inclusive com pacientes. Mas foram todos consensuais. Todos." FOTO: ARQUIVO PESSOAL

questões médico-criminais

“Eu era o melhor”

Roger Abdelmassih fala da vida na prisão, dá sua versão sobre as acusações de estupro e se diz vítima da inveja dos concorrentes

Daniela Pinheiro | Edição 107, Agosto 2015

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Vestindo um casaco preto com a insígnia do estado de São Paulo, a agente penitenciária permanecia de cabeça baixa, concentrada em preencher os dados para a autorização da visita. “Ah, entrevista? Então hoje ele não vai ser só o Roger. Hoje ele vai ser o doutor Roger Abdelmassih. Quero só ver”, disse, vidrada no formulário. Sem que houvesse perguntas, ela continuou: “Ele chegou aqui meio metido, mas logo ficou na boa. Ele não é preso nojento.”

Estávamos em uma pequena sala – as paredes pintadas de azul-claro e branco, grades no lugar das portas – no presídio de Tremembé, a 150 quilômetros de São Paulo. A penitenciária é considerada uma exceção no mundo das instituições carcerárias. É limpa, ampla e livre de organizações criminosas – como o Primeiro Comando da Capital. Por ali circulam 250 presos, alguns dos quais famosos, como Alexandre Nardoni (acusado de jogar a filha pela janela), os irmãos Cravinhos (assassinos confessos do casal Richthofen) e o jornalista Pimenta Neves, que matou a namorada com um tiro nas costas e outro no ouvido.

O médico Roger Abdelmassih – outrora tido como o papa da reprodução assistida no Brasil, com uma carteira de clientes que reunia celebridades, políticos e grã-finos – cumpre em Tremembé uma pena de 278 anos de prisão por 52 estupros e 4 tentativas de abuso sexual de 37 pacientes, que foram a seu consultório na tentativa de engravidar de seus maridos.

 

“Nojento era aquele Luiz Estevão”, retomou a agente, referindo-se ao ex-senador que passou um breve período ali, depois de condenado por fraude e superfaturamento nas obras da sede do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo. “Nardoni é um amor, Cravinhos também. Aqui todo mundo fica bonzinho, ninguém é pior do que o outro. Até porque seria o costurado falando do remendado. Pimenta Neves é um lorde”, disse.

Duas grades, um detector de metais e um pátio cercado de arames farpados depois, encontrei Roger Abdelmassih de pé, atrás de uma mesa retangular, numa sala reservada da administração do presídio. Ele abriu um sorriso e estendeu a mão direita para um cumprimento firme. Estava acompanhado de seu advogado, José Luis Oliveira Lima, e da mulher, a ex-procuradora Larissa Maria Sacco Abdelmassih, vestida com um tailleur Chanel preto e sapatos de salto agulha.

Era o começo de uma manhã de julho, e Abdelmassih usava camiseta branca e calça cáqui – uniforme comum a todos os detentos. Nos pés, tênis de couro branco. Dez quilos mais magro – o que deixou profundos sulcos em seu rosto –, e sem o bigode que era sua marca registrada, exibia manchas de sol no topo da careca e cabelos cor de neve que cresciam das orelhas para baixo, enrolando-se em microcachos na altura da nuca.

 

De largada, o preso quis esclarecer as razões do encontro. “Eu estou aqui com você por causa disso”, falou apontando para uma pasta de plástico em cima da mesa. Dentro dela havia uma fotografia dos filhos gêmeos, de 4 anos, fantasiados de caipira. Ao olhar para a foto, seus lábios começaram a tremer.

“Isso aqui é a minha vida”, disse, já com lágrimas no rosto. Enxugou a face com um lenço branco que tirou do bolso, de onde também saiu uma medalhinha – beijada antes de ser guardada de volta. “O pai deles não é um monstro. Porque é isso que dizem, não é? O monstro, o estuprador. Isso é tão absurdo, mas tão absurdo…”

Ele queria falar sobre o que considera as injustiças de seu caso. Alegou ter sido prejudicado pelo exagero da denúncia do Ministério Público, pelos métodos pouco convencionais da investigação da polícia e pela “obsessão da juíza” em prendê-lo. Também pela interferência negativa de concorrentes e até desafetos. Entre eles, mencionou o ex-marido de Larissa, de quem ela se separou para ficarem juntos. Haveria ainda, continuou, uma sucessão de mal-entendidos sobre seu jeito de ser, a exploração implacável do caso pela imprensa, a mudança da definição de estupro na lei e, sobretudo, decisões equivocadas de sua parte. “A fuga foi a pior delas”, disse.

 

A luz do sol entrava pelo basculante estreito, cegando os interlocutores. Abdelmassih verificou se havia como evitar a claridade, ajeitou-se na cadeira e começou a discorrer sobre sua vida. Falou sobre a infância, a juventude, sobre como tinha optado pela medicina; contou que se casara com a primeira mulher só porque lhe havia tirado a virgindade (“Essa era a minha ética”) e que era católico fervoroso, com particular devoção à Virgem Maria; explicou as razões de ter assumido os três filhos da segunda mulher (“Na prática, eu já era o pai”), os percalços pelos quais passou até se estabelecer no mercado, ficar rico e famoso.

Apesar dos relatos grandiloquentes sobre o passado, ele exibia um ar derrotado. Os ombros caídos, a voz lenta e pálida, as lágrimas recorrentes. Nos dez minutos seguintes, ele chorou mais três vezes: quando soube que uma jornalista amiga dele era minha prima; ao mencionar o médico e ex-deputado José Aristodemo Pinotti, morto em 2009 (“Se ele estivesse aqui, estaria me dando muito apoio”) e quando arriscou uma conexão entre sua religiosidade e a prisão. “Não estou aqui porque Deus quer me castigar, Deus é só amor”, disse, com a voz embargada. “O que ele quis foi me dar uma lição, foi quebrar toda aquela prepotência que eu tinha e que causava inveja nos meus concorrentes.”

Como se atingido por uma rajada de frio, ele segurou os próprios cotovelos, deixando em primeiro plano os braços queimados de sol e cobertos de longos pelos brancos. Nos últimos tempos, ele disse, ficou mais espiritualizado, mais centrado e humilde – inclusive parou de falar de si na terceira pessoa. “Mas eu era o melhor mesmo. Me desculpe, isso não é prepotência. Eu era o melhor médico, minha clínica era top, uma das melhores do mundo. Eu pesquisava, eu estudava, eu comprava o que fosse preciso para ter o melhor tratamento, a tecnologia de ponta.”

 

A primeira denúncia de assédio sexual contra Abdelmassih no Conselho Regional de Medicina foi feita em 1997. Houve outras até 2006, mas apenas dois anos depois as acusações passaram a ser investigadas. Foi quando uma ex-recepcionista da clínica registrou um boletim de ocorrência afirmando que o médico havia tentado molestá-la. A Polícia Civil e os promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, conhecido por Gaeco, entraram no caso.

Na época, a funcionária pediu 15 mil reais ao patrão para deixar a história longe da imprensa. “Ela me extorquiu. Achei que não tinha que fazer nada porque era uma acusação tão absurda que não fazia sentido encompridá-la”, afirmou Abdelmassih. “Mas foi um erro.” Ele se diz arrependido por não ter tido uma “postura como a do David Uip”, ex-diretor do Instituto do Coração e atual secretário de Saúde do Estado de São Paulo.

Em 2007, Uip foi chantageado, ameaçado e roubado por uma ex-funcionária e pelo marido dela, que pediam dinheiro para não revelar que o infectologista teria amantes e teria desviado recursos no InCor – o que nunca se provou ser verdade. “Ele convocou uma coletiva de imprensa, expôs tudo e o assunto morreu”, disse Abdelmassih. Por meio da assessoria de imprensa, David Uip declarou ser descabida a comparação, já que os contextos eram absolutamente distintos: ele fora vítima e nunca acusado de qualquer crime.

Foi em janeiro de 2009 que o caso Abdelmassih veio a público. A Folha de S.Paulo publicou uma reportagem dizendo que oito ex-pacientes e a ex-recepcionista o acusavam de assédio sexual. “Um amigo me ligou e disse que isso tinha saído no jornal. Eu nem sabia. Fiquei chocado. Era uma coisa tão louca, tão inverossímil, que eu me recusava a acreditar”, comentou.

Um advogado, que logo se afastou do caso, orientou o médico a responder às acusações em uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. “Outra idiotice. Depois que eu falei, choveu mulher no Ministério Público para fazer denúncia.” Em apenas quatro dias, 14 pacientes apareceram para depor. Àquela altura, ele já havia percebido a gravidade da situação. Foi a Brasília conversar com alguns advogados que julgava influentes. Entre eles, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, e Alexandre Jobim, filho do ex-ministro Nelson Jobim – cujas mulheres haviam se submetido a tratamentos de sucesso em seu consultório. “E quero deixar clara minha decepção com Kakay, que me falou que não me defenderia porque estava longe e, meses depois, declarou que, na verdade, não pegava esses casos.”

Contratou um time jurídico de peso. Além de José Luis Oliveira Lima e sua sócia, Jaqueline Furrier – que também havia tentado engravidar em sua clínica –, contava ainda com os serviços do ex-ministro Márcio Thomaz Bastos. Na sala do presídio de Tremembé, Oliveira Lima se lembrou de que a sócia havia engravidado, tempos depois, de maneira natural. “Natural? Ela teve filho porque tomou hormônio que eu dei, ora essa!”, interrompeu Abdelmassih. Num átimo, ele mesmo se corrigiu em voz alta. “Olha o prepotentezinho surgindo. Ai, baixa a bola”, falou para si mesmo, balançando a cabeça em negativa.

Em paralelo às denúncias de cunho sexual, outras vinham à tona. Que ele misturava o próprio sêmen ao dos maridos das pacientes; que injetava DNA de ratos para bombar embriões; que trocava óvulos de mulheres. Chamava atenção o índice de resultados na clínica. A taxa de sucesso nos tratamento passava de 50%, muito maior do que em outros consultórios. “Falar que eu misturava meu sêmen, que trocava óvulo… Pelo amor de Deus! Eu cansei de dizer: pagaria exame de DNA de 500 pacientes, se elas quisessem.”

Há cinco anos, uma reportagem da revista Época teve acesso a uma investigação do Ministério Público, na qual três casais que passaram pela fertilização na clínica tinham em mãos resultados de DNA provando que os bebês não eram seus filhos biológicos. Atualmente, os gêmeos de um dos casais movem uma ação contra Abdelmassih – vitoriosa na primeira instância judicial. “Meu resultado era o que incomodava”, afirmou o médico. “E eu tinha uma taxa de êxito no tratamento melhor porque eu era a pessoa que mais investia em pesquisa nessa área”, insistiu. E evocou a terceira pessoa. “Depois que o Roger saiu, o que se faz de pesquisa hoje? Estão parados no tempo. Eu estava de olho no futuro.”

 

Em meados de 2009, o Ministério Público já colecionava dezenas de denúncias contra o médico. Na maioria delas, o modus operandi descrito era o mesmo: ele tentava agarrá-las e beijá-las à força ao final da consulta, ou quando elas estavam grogues se recuperando da anestesia, depois da aspiração dos óvulos. Em alguns casos, diziam, ele prevenia os maridos (que estavam na sala de espera) sobre eventuais efeitos alucinógenos do anestésico usado na sedação. Se elas falassem absurdos, deveriam ser ignoradas.

Uma disse tê-lo visto com o pênis para fora da calça; outra falou que ele se masturbava a seu lado; quatro afirmaram terem sido bolinadas. Havia uma sucessão de narrativas sobre beijos na boca forçados. As histórias eram cabeludas. Duas mulheres contaram ter sido penetradas por ele, e outra disse ter chegado em casa com dor e sangramento no ânus – o que, posteriormente, teria sido atestado por um especialista (cujo nome ela nunca revelou) como coito anal consumado. A juíza desconsiderou o caso. Em longos depoimentos à Justiça, as mulheres detalharam as cenas de horror descrevendo o hálito, o cheiro da pele e a textura da língua do médico dentro de suas bocas.

A maioria justificava ter mantido o silêncio pelo fato de Abdelmassih ser uma figura pública, poderosa e influente. Muitas delas haviam retornado ao consultório depois do assédio do médico para completar o tratamento de fertilização.

Ele sempre negou veementemente as acusações. Repetia que se tratava de orquestração de clínicas concorrentes, frustração das mulheres que não haviam conseguido engravidar ou resultado dos efeitos desinibidores do anestésico. Em um momento, a defesa brandiu que os depoimentos eram frágeis, já que eram anônimos, sem rosto. Foi quando as mulheres resolveram aparecer em público.

Na sala em Tremembé, falava-se sobre os casos quando mencionei detalhes – como o da descrita masturbação –, e ele se irritou. “Eu não vou entrar nisso porque isso é tão nojento para mim, mas tão nojento, que não tem comentário.” Ele começava a falar do anestésico quando ele próprio se repreendeu. “Não vou falar porque foi essa merda que depois disseram que não tinha a ver…” Durante o julgamento, representantes dos laboratórios fabricantes do medicamento foram ouvidos. Alguns admitiram os possíveis efeitos delirantes, mas garantiram que a ocorrência era raríssima. Por isso, o argumento foi rechaçado pela juíza. O advogado fez sinal para que ele continuasse o relato.

“Bom, você já tomou Propofol, aquele anestésico do Michael Jackson?”, perguntou. “Pois bem, aquilo tira a sua censura, entende? Você fica desinibida, pode falar coisas que queria – e que estavam reprimidas – ou que imaginou, sem a barreira social.” Ele me pediu uma folha do caderno para desenhar. “O que acontecia, provavelmente, é a mulher querer alguma coisa e o remédio fazia com que ela perdesse a censura, imaginasse e achasse que foi real”, disse.

Traçando uma planta baixa da clínica, ele rabiscava linhas retas simulando salas, corredores e janelas. “Impossível elas falarem que estavam dopadas. Elas saíam andando daqui, que era a sala da coleta. E andavam até aqui, que era a do repouso! Como podem falar que estavam desacordadas?” Apontava onde haveria entradas e saídas – que nunca eram trancadas – para provar ser impossível não haver testemunhas. No processo, funcionários da clínica afirmaram nunca ter visto nada suspeito.

Ele continuava a rosnar as palavras. “Coito anal! Pelo amor de Deus.” Virou a cadeira de lado em direção à parede e explicou como ocorria a aspiração de óvulos. “Aqui é a vagina e aqui é o ânus”, disse fazendo uma mímica com as duas mãos. “Quando você entra com uma cânula para ir para o ovário, pode arrebentar algum vasinho e babar sangue, que pode correr para o ânus. Esse procedimento também pode causar incômodo depois. E com isso a outra diz que teve coito anal. Pelo amor de Deus.” À sua frente, Larissa Abdelmassih comentou que, quando ela também se submeteu à fertilização – com outro médico –, havia passado pela mesma coisa.

 

Aos 37 anos, Larissa Sacco Abdelmassih é alta, tem os cabelos longos tingidos de loiro acinzentado e a pele muito branca. Costuma se vestir de preto, o que realça os olhos cor de mel. Ela tem um tom de voz manso, às vezes inaudível, como se tivesse que fazer força para falar. Ex-paciente dele, largou o então marido e a bem-sucedida carreira para estar ao lado do médico. Topou fugir do país, passar três anos na clandestinidade, ter dois filhos com ele e viver hoje num quase claustro à mercê de olhares acusatórios.

Ela é inteligente, tem o raciocínio rápido e todo o processo contra o marido na cabeça. É capaz de citar trechos de depoimentos, detalhes das alegações finais, argumentos usados pelos dois lados no tribunal. Conhece leis, discute em pé de igualdade com a defesa de Abdelmassih e faz suas próprias investigações e conjecturas a respeito do caso. Entra com frequência nas comunidades e blogs mantidos pelas vítimas, a fim de monitorar a quantas andam os comentários.

Em uma tarde de junho, ela me recebeu no amplo apartamento em que mora com os filhos, atrás do Shopping Iguatemi, em São Paulo. A sala é decorada com portentosos móveis da antiga residência do casal, em tons de verde e dourado. Há muito veludo, seda e prataria. Nas paredes, pinturas são enquadradas em molduras pesadas na cor de ouro velho. O marido nunca esteve ali, mas há fotos dele e dos filhos por todo lado.

Conheceram-se em 2005, quando ela foi à clínica para uma fertilização – malsucedida. Ali, médico e paciente começaram um envolvimento. “Mas não foi de uma vez. Ele insistia, jogava charme, mas nunca me convidou para nada. Eu enrolei e ele parou de me procurar”, contou. Ela era casada e a mulher dele (a segunda) estava em estado terminal. Em determinado momento, voltaram a se falar e, por semanas, trocaram telefonemas e mensagens. Começaram a se encontrar escondido. Logo engataram um namoro, viajavam juntos, viviam pendurados no telefone.

Com a morte da mulher dele, ela largou o marido e o casal assumiu a relação. Quando soube da traição, o ex foi à clínica pedir a restituição do dinheiro do tratamento. Nunca mais se falaram. Em Tremembé, Abdelmassih levantou a hipótese de ele – que é procurador da República – ser um dos responsáveis pelos “abusos e exageros” no seu caso. “Ele tinha muita amizade com os promotores do Gaeco que fizeram a investigação e três dias antes de eu ser preso voltou à clínica perguntando se eu ia me casar com a Larissa. Mandei ele plantar batatas”, contou. Ela preferiu contemporizar o envolvimento do ex. “Eu não vou dizer que sim, nem que não”, disse. O promotor Luiz Henrique Dal Poz, que era do Gaeco, afirmou não saber de quem se trata. A reportagem não conseguiu contatar o ex-marido de Larissa.

Quando ela apresentou o novo namorado à família, Abdelmassih já aparecia na capa de jornais e revistas em reportagens com títulos como “O médico monstro”, “A clínica do terror” ou “Doutor terror”. Ela se lembra em detalhes do almoço na casa de seus pais em Jaboticabal, no interior paulista. “Ele chegou e já disse: ‘Eu sou o cara de quem estão falando aquelas coisas. Vocês vão me conhecer e ver quem eu sou de verdade.’” Dali em diante, segundo ela, o assunto morreu. Nunca mais houve perguntas ou cobranças. “Minha família sabe quem é o Roger. Ele cuida, se importa genuinamente com as pessoas. Ele vive uma situação absurda. Meu pai tem adoração por ele.”

Uma empregada trouxe uma bandeja com café e água. Perguntei a Larissa se os relatos das mulheres não a incomodavam. “Não, porque não são reais”, respondeu. Não acreditava em nada? “Nada. É tudo mentira”, disse, enfática. Para ela, a questão passava pela personalidade do marido – um sedutor por natureza, em suas palavras. “Sempre foi. Ele seduz a todos, é o jeito dele. Jogava charme, era envolvente. Foi assim comigo”, falou. “Eu sei como ele é, eu sei como ele se aproxima. Por isso, eu, mais do que ninguém, posso atestar que ele jamais fez o que essas mulheres dizem.”

Em sua opinião, algumas pacientes haviam confundido demonstrações de afeto. Outras teriam fabulado ataques sob o efeito do anestésico. E havia as que se sentiam frustradas por terem sido descartadas por ele. Era impossível, ela disse, que ele tenha forçado alguma delas a fazer qualquer coisa. Ao contrário, ele só avançava o sinal quando sentia que o terreno era propício.

“Há duas situações em que uma mulher procura a fertilização: quando o casamento está bom e o casal celebra o bebê, e quando a relação está péssima e a criança vira a salvação da convivência”, afirmou. “Quem está com o casamento bom cai em cantada de médico? Dá bola para médico?”

Ela bebericou o café e prosseguiu. “O Roger nunca foi santo, mas eu te pergunto: ser um sedutor é crime?”, indagou. “É moral ter uma relação íntima com uma paciente? Não é moral. É crime? Não é crime.” Ela disse ter certeza de que ele foi julgado “pelo que acham que ele é”, e não pelos fatos em si. A estridência da imprensa, disse, também teria sido decisiva para acabar com a reputação do marido.

Muitas das mulheres que denunciaram o médico dizem acreditar que Larissa também seria uma vítima. Costumam mencionar até a “síndrome de Estocolmo” – termo popular para o estado psíquico em que o oprimido passa a ter simpatia ou amor pelo algoz. Ela cerrou a expressão num misto de ironia e desprezo. “Falem o que quiserem. Cada um sabe de suas limitações. E eu sei que não sou uma débil mental”, disse, encerrando o assunto.

Depois que pediu exoneração do cargo de procuradora, ela virou dona de casa. Administra babá, empregadas, motorista, advogados. Pouco sai. Passa mais tempo com a cunhada, Maria Stela, que a visita quase diariamente. Algumas vezes, foi reconhecida na rua e até no elevador do prédio como “a mulher do Roger”, mas, segundo disse, jamais foi hostilizada. Na escola, a ascendência dos filhos é ignorada, uma vez que eles não têm o sobrenome paterno. A eles, Larissa justifica a ausência do pai dizendo que ele está no trabalho.

Todos os fins de semana a família se reúne no tal trabalho – a sala de visita dos presos, lotada de mesas redondas com “jeito de festa de casamento de interior”, definiu. As crianças também são submetidas à revista íntima, quando as carcereiras pedem para “olhar lá para ver se não tem bichinho”.

Segundo Larissa, eles têm uma percepção particular da situação. Numa ocasião, quando a mãe se negou a lhe dar um brinquedo, o menino disse que pediria ao pai “porque ele trabalha o tempo todo, então ele tem dinheiro”. Depois, corrigiu-se: “Mas lá não tem dinheiro, né?” Ela disse que visitá-lo na cadeia é doloroso, mas o pior é a ausência cotidiana do marido. “O almoço, o jantar, as segundas-feiras.” Ela sabe que, em alguns anos, os questionamentos e a cobrança dos filhos serão inevitáveis. Quando lhe perguntei o que imaginava fazer, ela desabou a chorar. “O que posso fazer é dar amor, muito amor, é o que eu posso fazer por eles.”

 

Eu sempre fui de ‘Minha querida’, ‘Meu amor’, de dar beijinho. Esse era o meu jeito”, contou Abdelmassih, na sala do presídio, sobre sua relação com as pacientes. “Às vezes, eu achava até que elas queriam sentir um bem-querer do médico.” Pedi que explicasse melhor. “Receber mais atenção, perceber que eu as valorizava… Daí a dizer que eu ataquei, forcei, fiz alguma coisa é absurdo.”

A mulher dele ouvia o relato com a expressão de quem sabia a história de cor. “Eu não vou mentir para você”, continuou. “Tive pacientes que eram mulheres lindas, mulheres mais receptivas.” E o que seria “mais receptivas”? “É estar aberta…”, disse sem concluir a frase. Abertas a quê? A uma cantada? “Sim, a cantadas”, respondeu. Com o tom de voz sério, ele continuou: “Não nego… Tive muitos casos extraconjugais. Muitos, inclusive com pacientes. Mas foram todos consensuais. Todos.”

Dentre os casos amorosos que teve, ele admitiu, estavam duas das denunciantes. No processo, a defesa anexou bilhetes e fotos de presentes que uma delas enviou até para o neto do médico. Em uma das notas, ela pede desculpas por persegui-lo. “Fui namorador, metido a conquistador, prepotente. Eu queria, se fosse o caso, dar uma namorada. Mas nunca ataquei nenhuma mulher.” Nem tentou beijar as outras? “Nunca.” Ele se ajeitou na cadeira e pigarreou. “Eu olho para a foto de algumas delas e me dá até arrepio. Olha, eu não precisava disso, entende?”

Larissa Abdelmassih corroborou o assédio ao marido. Mencionou uma ex-paciente, “bonita, famosa e casada”, que o perseguia sem pudor. Uma vez, ela disse, interceptou – ao acaso – uma mensagem da mulher, que insistia em vê-lo, e passou a responder como se fosse ele. “Era muito claro que ela queria ter um caso com o Roger. Eu vi”, afirmou. Segundo ela, a tal mulher soube que tinha sido enganada no celular e chegou a ligar para a casa deles no dia do casamento.

“Essa mulher levou um fora da mulher do Roger. Você já pensou que humilhação, que raiva ela deve ter sentido?”, disse ele, voltando à terceira pessoa. O mesmo, prosseguiu, poderia ter acontecido com algumas das denunciantes: a recusa dele poderia ter provocado a fúria delas.

Sorri e disse ficar surpreso por haver tantas mulheres atrás dele. “Olha, eu nunca fui um Alain Delon, mas eu era famoso, rico, toda hora na imprensa…”, afirmou. “E galanteador”, completou Larissa. “É, e galanteador”, concordou. Ele pediu licença para ir ao banheiro. “Minha próstata está grande e não quero operar”, disse caminhando em direção à porta. O advogado aproveitou a deixa para ir embora.

 

Em junho de 2009, Abdelmassih foi indiciado. Mas, mesmo com o escândalo e o movimento da clínica reduzido à metade, ele continuava a trabalhar normalmente. Três meses depois, em agosto, uma lei alterou a definição de estupro no Código Penal. “Aí, a passada de mão virou estupro”, comentou Abdelmassih na cadeia. Até então, estupro era apenas a conjunção carnal mediante violência entre homem e mulher. Depois, o que se entendia por assédio sexual ou atentado violento ao pudor também virou crime hediondo nas letras da lei. “Aí jogaram estupro para cima de mim. Ninguém fala assédio, atentado. Virou estupro, o Roger virou um monstro.”

Ele se disse convencido de que os promotores que o investigavam esperaram a mudança na legislação para que as acusações ganhassem um peso muito pior. “O Ministério Público pediu minha prisão dez dias depois que a lei mudou.” O procurador Luiz Henrique Dal Poz, que ofereceu a denúncia, considerou o comentário “absurdo”. “Estupro e atentado violento ao pudor têm a mesma penalidade – seis a dez anos – antes e depois da lei. Na prática, não fazia a mínima diferença prendê-lo antes ou depois”, disse.

Como advogada, Larissa Abdelmassih pensa diferente. Já que a juíza baseou o cálculo da pena na redação anterior da lei – quando estupro era só conjunção carnal –, seria absurdo insistir em carimbá-lo com o crime mais terrível. Na sentença, ele é acusado de dois estupros e 54 atentados violentos ao pudor. “Mas eu queria saber se é por ignorância ou má-fé que continuam insistindo em dizer que ele foi condenado por cinquenta e tantos estupros”, afirmou. E deu um exemplo jocoso: “Se você é condenado por tráfico, muda a terminologia e tráfico vira abobrinha, você não pode ficar falando que foi condenado por abobrinha! Você foi condenado por tráfico.” De sua parte, o promotor Dal Poz foi enfático: “É só uma questão de semântica. A lei mudou, mudou a nomenclatura, e isso não altera em nada a pena – que é a mesma – e o peso dos atos hediondos que ele cometeu contra essas mulheres.”

 

Dois meses depois do indiciamento, Abdelmassih foi preso quando chegava ao consultório. Levado à carceragem de uma delegacia policial, lá permaneceu por dois meses antes de ser mandado para sua primeira encarnação em Tremembé. Depois de quatro meses na cadeia, na véspera do Natal – durante o recesso legislativo –, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, concedeu um habeas corpus autorizando o médico a aguardar o julgamento de um recurso em liberdade.

De volta a casa, ele mantinha uma rotina reclusa recebendo amigos para jantar ou passando o fim de semana na fazenda em Avaré, no interior paulista. No início de 2010, casou-se com Larissa, numa cerimônia íntima em casa. Dentre as convidadas, havia três carcereiras da delegacia em que havia ficado preso.

Ainda que o estilo de vida fosse o mesmo, algo mudara drasticamente na vida pessoal do médico: a relação com os cinco filhos do segundo casamento. Hoje é praticamente inexistente. Em um momento da entrevista, ele chegou a esclarecer que, quando dizia “meus filhos”, referia-se apenas aos gêmeos que teve com Larissa.

Durante quarenta anos, no entanto, Abdelmassih viveu com Sônia – ex-enfermeira de sua clínica. Ela era a mãe biológica dos cinco herdeiros. Os três mais velhos – Vicente, Soraya e Juliana — foram perfilhados por Abdelmassih ainda crianças, logo depois de eles se casarem. Com ela, ele teve ainda Mirella e Karime. As desavenças remontavam a 2008, quando Sônia Mara Teixeira Abdelmassih morreu de câncer. Havia uma fortuna a ser dividida entre os filhos. Só em joias, ele disse, eram 4 milhões de dólares. “Era brilhante, brilhante desse tamanho”, fez uma rosca juntando o polegar e o indicador.

A briga começou quando a mulher do único filho homem – por orientação da falecida – foi excluída da partilha. Piorou quando o pai se casou com a nova mulher e atingiu o ápice quando começaram a pipocar as denúncias.

O estilo de vida nababesco da família era notório. O médico tinha três Mercedes, dois Maseratis, fazendas, apartamentos, uma casa avaliada em 20 milhões de reais no Jardim Paulistano – com três adegas, uma das quais destinada a guardar somente garrafas de Château Pétrus. Costumava passar fins de semana em Paris. Era conhecido por pagar conta de amigos em restaurantes caros e distribuir gorjetas extraordinárias. “Você sabe quanto eu ganhava?”, virou-se para o advogado. “Dois milhões e meio de reais por mês”, ele mesmo respondeu.

No entanto, disse Abdelmassih, o que os filhos não sabiam era que, da mesma maneira que ganhava, ele gastava como se não houvesse amanhã. Apenas a um banco, devia 17 milhões de reais. Quando as denúncias começaram a tomar corpo, ele chamou novamente a prole. “Sabe o que o goiaba aqui fez? Dividiu tudo”, falou. Segundo ele, ficou com um barco, a fazenda e a clínica. “Eu tinha certeza de que essa história toda era uma crise passageira e por isso contava com o dinheiro da clínica para pagar as contas e o que eu devia no banco.”

Com o sumiço dos clientes, os rendimentos despencaram e ele passou a se desfazer de parte do patrimônio para quitar compromissos. Em um determinado momento, todos os seus bens também foram bloqueados pela Justiça. Os filhos herdaram dívidas e a fonte de dinheiro secou. A família rompeu. “Eu não tenho mais dinheiro”, disse Abdelmassih. Segundo ele, a mulher e os gêmeos sobrevivem de renda – que tem data para acabar. Quando se mencionou que algumas vítimas intentavam buscar reparos financeiros na Justiça, ele foi direto. “Não tenho nada. Não vou dar uma de Paulo Maluf, mas se acharem dinheiro podem ficar”, disse, referindo-se à declaração do ex-deputado, que nega ter conta no exterior.

No começo da onda de denúncias, Vicente Abdelmassih, que hoje só usa o sobrenome Ghilardi e também trabalha com reprodução assistida, deu uma entrevista pregando a inocência do pai. No ano passado, mudou de opinião. Ao Fantástico, relatou abusos psicológicos dele com os filhos e lançou dúvidas sobre os métodos de trabalho de Abdelmassih. Procurado, Ghilardi não quis falar à reportagem. “Não bastasse essa tragédia, é uma família destruída. Não sobrou nada. Nada. E tudo por causa de dinheiro”, disse Larissa em uma das cinco ocasiões em que estivemos juntas nos últimos meses.

 

Em Tremembé, sentia-se o cheiro do almoço dos presos, mas ninguém na sala parecia ter fome. Gesticulando muito, Abdelmassih se disse estupefato por ter atendido 25 mil mulheres e a palavra de 37 ter acabado com sua reputação. “Levei 160 testemunhas a meu favor. Como isso pode ser ignorado?”, questionou. Perguntei se ele acreditava na Justiça. “Quem sou eu para dizer?” Depois, disse ter ficado “abismado” com a pena imposta pela juíza. “Seis anos por um beijo no rosto!”, exaltou-se. Sua mulher lembrou que a magistrada era “muito ligada” ao direito das mulheres – o que tornava o caso uma questão de honra. Procurada, a juíza Kenarik Boujikian Felippe disse não comentar os processos que julgou.

O casal passou a alternar relatos minuciosos, segundo eles ignorados durante o julgamento. O fato de uma paciente japonesa ter voltado à clínica e ter dado um beijo de despedida nele ao final do tratamento; uma paciente de Cuiabá, que deu à luz trigêmeos, que o perseguia em casa e lhe mandava flores; outra que tirou retrato com ele segurando os bebês gêmeos no consultório. “Tem uma, que já está com o pé na cova, que disse que eu fiz alguma coisa com ela quando ela tinha 18 anos e eu ainda era urologista… Agora que vem falar?”

Ele continuava: “E eu te pergunto: você voltaria ao lugar em que foi molestada, atacada? Responde. Responde”, perguntava com a voz alterada. “Dez entre dez não voltariam. Então o que é isso?” Ele levou as duas mãos à altura do rosto, dobrou os dez dedos e fechou os olhos – numa cena que me lembrou o ator Antônio Abujamra num papel dramático. “O que me mata é que não tem prova… Elas voltaram à clínica… Como é que pode? Por que não gritou, não fez escândalo, não me gravou, não saiu de lá e foi à polícia, porra?” (Uma gravou, mas disse à Justiça que os diálogos eram inaudíveis.)

 

Em uma tarde recente, no lobby de um hotel em São Paulo, a paranaense Helena Leardini – uma mulher articulada e decidida – contou por que voltou à clínica. “Foi uma decisão racional”, disse. “Eu havia pago 30 mil reais, tinha ainda duas tentativas pagas, resolvi continuar. Ter um filho para mim era o mais importante.” No tribunal, ela afirmou que Abdelmassih a agarrou quando se despediam depois da consulta. Segundo ela, ele a segurou e deu-lhe um beijo na boca à força. “No ranking do horror, meu caso é considerado leve”, disse. Talvez por isso, ela argumentou, tenha sido mais fácil retornar ao consultório. Ela era a paciente cujos bebês haviam sido fotografados no colo do médico. “Levei meus filhos lá porque quem cuidou de mim depois do ataque foi outra médica”, explicou. “E eu queria que ela conhecesse as crianças.” Quando Abdelmassih entrou na sala em que estavam tirando fotos, ele pegou os bebês no colo e trocou olhares com o marido de Leardini, que não se opôs. “Não ia fazer escândalo ali”, ela justificou.

Na avaliação do promotor Luiz Henrique Dal Poz, uma clínica de fertilização é vista pelas mulheres como a última chance da maternidade. “Quando chegam lá, estão fragilizadas, vulneráveis emocionalmente. Fora as que gastaram o dinheiro de uma vida para pagar o tratamento.” Por isso, ele disse, voltar ao consultório, mesmo depois dos ataques do médico, não era algo inverossímil. “Na cabeça dela, a chance de ser mãe – que é a coisa que ela mais queria no mundo – estava naquela clínica.” Em sua opinião, o caso tinha contornos perversos. “A mulher é estuprada por alguém que promete lhe dar uma vida.”

O caso, ele disse, destruiu famílias. Casamentos foram desfeitos, uma das mulheres apanhou do marido quando contou sobre o ataque, várias tiveram que passar por acompanhamento psicológico por anos. “Ele se aproveitou delas num momento de extrema vulnerabilidade para aplacar sua ânsia libidinosa”, concluiu.

 

Desde que chegou à penitenciária, há quase um ano, Abdelmassih vive a rotina de um detento comum, que rumina a modorra do tempo que não passa. Acorda às seis e meia da manhã, de vez em quando faz exercícios, duas vezes por semana frequenta grupo de orações. Chama os carcereiros de “doutor” e “senhor”, limpa a própria cela, que divide com outros quatro detentos: dois empresários acusados de estelionato, um ex-delegado e um ex-guarda municipal. Dorme na parte de baixo de um beliche porque já caiu da cama de cima.

Também vê muita televisão. Acompanha a situação política e acha impossível um impeachment de Dilma Rousseff. “Na minha cela tem um que é louco pelo PSDB. Quando ele começa a meter o pau no governo, eu falo: ‘Ah, PSDB, é? Humm, conheço todos”, disse, deixando um suspense no ar.

Durante a tarde, ele se ocupa de suas memórias. Está escrevendo o livro sobre a sua versão dos fatos – quer deixar um “legado” para os filhos no futuro. O título provisório é “Minhas várias vidas”. “Eu vou falar o que é e o que foi a vida do Roger”, disse. Será a quarta publicação editorial tratando de sua história. Uma foi lançada em maio e outras duas devem sair até outubro. Contratou um detento, que transcreve num caderno espiral o que ele dita. Até agora, acredita ter escrito umas 280 páginas. O rascunho está nas mãos de sua mulher.

Não fez amigos na cadeia, mas disse ter uma relação boa com os detentos. “É difícil, aqui a coisa é pesada. Tem matador, tem cara que abusou do filho com Down”, disse. Segundo ele, os próprios carcereiros o alertaram quando da visita das crianças ao presídio, que abriga quase trinta pedófilos.Com os outros presos famosos, ele tem pouco contato. Em relação a Alexandre Nardoni, disse ter pena da mãe, com quem cruza no dia de visita: “Tão boazinha, tão sofrida, parece diferente do pai dele.”

Em outras penitenciárias, crimes de estupro são punidos internamente com regras próprias. “Aqui é uma penitenciária calma”, afirmou. “Quando cheguei, o meu delito, digamos, era visto de maneira negativa. Agora me conheceram, viram quem sou e me dou bem com todos.” Sobreviver na cadeia, ele disse, era andar nos limites da civilidade. “Dar bom-dia, boa-tarde, não se meter em confusão.” Ainda não conseguiu autorização para trabalhar no presídio, onde gostaria de arrumar a biblioteca.

Pelo menos duas vezes por semana, recebe a mulher, que por ser advogada pode visitá-lo à vontade. É quando ela o abastece com o farnel semanal permitido na cadeia: duas garrafas de refrigerante, seis frutas, conservas de berinjela ou queijo – que sobrevivem fora da geladeira. Pães, bolos e biscoitos. Nos outros dias, encontra-se com um advogado local. Os amigos desapareceram.

Ao longo da conversa, ele mencionou sentir uma “injustiça doída”. Um dos poucos a visitá-lo é o empresário Marcelo de Carvalho, sócio da RedeTV! e marido da apresentadora Luciana Gimenez. Em vários momentos, citou dezenas de nomes, de políticos a artistas. Gente que queria saber se ele estava bem (o ex-senador Hugo Napoleão, o senador Fernando Collor e até o cantor Roberto Carlos); gente que havia virado a cara (“Ruizito Mesquita passava o Natal na minha casa”, disse, referindo-se a um dos acionistas do jornal O Estado de S. Paulo); gente que o havia decepcionado (a atriz Luiza Tomé, “que um dia me defendia, no outro muda de ideia”). Também contou que o senador piauiense Ciro Nogueira – investigado na Operação Lava Jato – sofreu muitas críticas quando tentou defendê-lo. “É curioso, mas ao mesmo tempo entendo. Ninguém que ver seu nome misturado a uma situação dessas.”

 

No final de 2010, ainda que condenado pela Justiça, aguardando o julgamento de um recurso em liberdade, Abdelmassih teve a ideia de passar o Réveillon em Paris, onde se encontraria com o advogado José Luis Oliveira Lima – que já estava na França. Deu-se conta de que seu passaporte expiraria dali a dois meses. Ligou para o advogado Márcio Thomaz Bastos para saber se haveria algum problema em pedir outro documento. “O Márcio falou que não tinha problema. Depois de eu ter feito o pedido, o José Luis falou que eu era louco, que ia me ferrar”, disse.

Quando a Polícia Federal tomou conhecimento da requisição do médico, acendeu-se o sinal amarelo. Entenderam que era um indicativo de que ele pretendia deixar o país. “Eu teria que ser muito burro de querer fugir e ir renovar passaporte”, comentou. O documento não saiu e o casal passou a virada do ano em Paraty. De volta a São Paulo, perceberam que engrossara o burburinho sobre uma nova prisão movida pela suposta intenção de fuga.

No dia 6 de janeiro de 2011, resolveram descansar na fazenda “para fugir da confusão toda”. De manhã, entraram no carro com a cachorrinha Nina e partiram para Avaré. Na altura do quilômetro 50 da rodovia Castelo Branco, o celular tocou. Era o advogado avisando que o mandado de prisão havia sido expedido. “Aí começou o pesadelo. Tudo por causa de uma droga de um passaporte. Nunca tinha pensado em fugir, ia pedir autorização para viajar, tudo certinho”, contou Abdelmassih.

No carro, o casal não sabia o que fazer. Havia uma questão: Larissa estava grávida de dois meses de gêmeos. “A gente só pensava nos bebês”, ela me disse em uma ocasião. Debateram como criar as crianças sem o pai, a pressão da Justiça e da imprensa no Brasil. “Vamos tocar”, ele decidiu. A possibilidade de fuga já havia sido discutida com seus advogados. Um deles era a favor. Outro, contra. Ele, segundo disse, também preferia ficar no Brasil.

O Paraguai foi, de cara, a primeira opção. Era terra de ninguém, seria fácil arrumar documentos falsos e, além disso, o casal conhecia um influente empresário local. Da estrada, telefonaram para a irmã do médico, Maria Stela, para informar sobre o plano. A outra ligação foi para o empresário. O Ministério Público paraguaio acusou Atílio Juan Gabriel Cortázar de ser o cúmplice da fuga.

As dez horas de estrada até Medianeira, no Paraná, foram feitas praticamente em silêncio. O casal temia ser flagrado no meio do caminho, não atendia ligações pelo celular e evitou parar em postos de gasolina. Na pequena cidade, encontraram-se com um emissário do empresário. Em uma rua na frente de uma igreja, abandonaram o carro, os celulares, a bolsa. Entraram no outro automóvel, cruzaram a fronteira e quatro horas depois chegaram a Assunção, capital do Paraguai. No dia seguinte, a irmã de Abdelmassih pegaria o veículo abandonado e o levaria de volta a São Paulo. No Paraguai, Roger e Larissa Abdelmassih ficaram hospedados durante vinte dias na casa do homem que lhes facilitou a fuga. Pouco saíam, ficavam sobressaltados a cada toque do telefone. Um advogado providenciou o documento falso. A partir daí, o médico se tornaria o pecuarista Ricardo Galeano. Larissa não mudou de identidade. Alugaram uma casa e compraram um Mercedes – marca que ele sempre adorou.

O médico raspou o bigode, passou a usar uma peruca grisalha, óculos e, em algumas situações, boné. Muitas vezes, sem ter o que fazer ou para onde ir, rodavam de carro pela cidade ouvindo música. Quando escutavam português na rua, tratavam de mudar de calçada ou virar a cabeça para outro lado. Por duas ocasiões, quase se encontraram com conhecidos. Um deles era o capo da Confederação Sul-Americana de Futebol, Nicolás Leoz, hoje preso por corrupção da Fifa. No Brasil, os boatos eram de que o médico estaria no Líbano. “Eu nunca saí do Paraguai. Eu nem tinha dinheiro para ir para o Líbano”, contou.

 

Foragido, Abdelmassih entrou para a lista dos 160 brasileiros procurados pela Interpol. Na internet e nas redes sociais, Vanuzia Lopes, uma das vítimas, montou comunidades no Facebook e no Orkut, conclamando ex-pacientes a prosseguir em suas denúncias contra o médico. Ao longo de vários meses, ela colecionou informações e pistas que poderiam indicar o paradeiro do casal fugitivo. De outro lado, o jornalista Leandro Sant’Ana, produtor da Rede Record, recebeu a incumbência de achar Abdelmassih. Ele tinha experiência. Havia descoberto Suzane Richthofen – mandante do assassinato dos pais – numa praia deserta, quando a polícia ainda não tinha notícia de seu paradeiro.

A partir de então, deu-se uma parceria inédita na caçada ao médico foragido: vítimas, jornalistas, polícia e promotores passaram a trocar informações diretas sobre o caso. Baseando-se sobretudo em fontes anônimas, Vanuzia Lopes teve acesso a contas bancárias, faturas de cartão de crédito e dados privados sobre as famílias Sacco e Abdelmassih. Ao todo, foram reunidos 110 documentos, repassados ao Ministério Público, à Polícia Civil e à Interpol. Uma informante de Jaboticabal revelou o endereço de uma encomenda que a irmã de Larissa mandaria a um destinatário em Ciudad del Este, no Paraguai. A pista foi decisiva para indicar que havia algo próximo à fronteira do país.

A gravidez de Larissa avançava. A mãe dela se juntou ao casal em Assunção quando os gêmeos Jorge e Maria nasceram em agosto de 2010. Recentemente, Larissa voltou ao Paraguai para registrar os filhos no consulado brasileiro, o que lhes deu dupla nacionalidade. Durante três anos, o falso pecuarista Ricardo Galeano viveu com a família sem ser perturbado. Cuidava do jardim da casa – onde plantou uma jabuticabeira e um pé de lichia –, ficava com as crianças, frequentava a igreja local.

O casal costumava sair para jantar às seis e meia da tarde, quando os restaurantes ainda estavam vazios. As gorjetas de Galeano eram tão polpudas quanto as de Abdelmassih. Espantavam-se com o baixo custo de vida. “Sabe quanto custava uma M Chandon argentina rosé no melhor restaurante de lá?”, perguntou-me o médico. “Quarenta e cinco reais! Acredita? Quarenta e cinco!”, frisou. A escola bilíngue das crianças, disseram, 350 reais. “Mas não era vida. O Paraguai é um lugar horroroso, onde nada funciona, nada é bom, onde a corrupção permite arrumar qualquer coisa por 50 mil guaranis, o equivalente a 30 reais”, Larissa me disse uma vez dentro do carro, no caminho de volta a São Paulo.

Para se comunicar com os familiares, Abdelmassih providenciou linhas de celular pré-pagos que apenas receberiam as chamadas no Brasil, nunca as fariam. As ligações deveriam sempre partir do casal, que não seria grampeado no Paraguai. De vez em quando, falavam-se por Skype.

Durante uma batida policial na fazenda de Avaré, os investigadores descobriram as contas de telefones usados no Brasil. Havia dezenas de ligações recebidas de números paraguaios. Quando um agente adicionou um dos números ao WhatsApp, o retrato de Larissa Abdelmassih ocupou a tela do aparelho. Perguntei a ela como, sendo foragida, pôde ter colocado a própria foto no celular. Ela passou um tempo em silêncio. “Não sei”, disse. Os números foram grampeados. Com isso, os investigadores passaram a ouvir as conversas com familiares e até com o psiquiatra dele.

Na operação policial, também foram encontrados documentos que davam pistas de como o casal se sustentava fora do país. Uma empresa de fachada em nome de Elaine Sacco Khouri, irmã de Larissa, triangulava movimentações financeiras de negócios das fazendas de Abdelmassih. Um inquérito sobre lavagem de dinheiro contra as irmãs Sacco ainda corre na Justiça. Em uma das ocasiões em que nos encontramos, perguntei a Larissa Abdelmassih de que eles viviam no Paraguai. “Não vou te responder”, disse, em tom doce. Quis saber se a suspeita da polícia era correta. “Não vou te responder”, insistiu.

Em um dos grampos, os promotores ouviram Abdelmassih contar à irmã que estava frequentando uma igreja. E mencionou ter ficado apreensivo, já que um dos missionários era brasileiro. De posse da informação, o produtor de tevê Leandro Sant’Ana localizou o religioso, que admitiu ter estado com o pecuarista Galeano, sua mulher Larissa e os filhos gêmeos. Bingo. Trocando informações diárias com a polícia e os promotores, o repórter estendeu a estadia no Paraguai. Ficou de campana em frente à casa de uma amiga do casal, que havia sido identificada numa das interceptações telefônicas. Ventilou-se que o aniversário das crianças seria comemorado em breve. Ao ver a tal amiga sair de casa com uma sacola de presentes, seguiu seu carro e deu de cara com a residência dos Abdelmassih.

Dias depois, quando o casal deixava as crianças na escola, uma equipe da polícia apareceu. Abdelmassih foi encostado em um muro branco e algemado. A seu lado, Larissa estava atônita. Uma policial paraguaia a segurava, afastando-a do marido. A ação foi rápida. O jornalista da Rede Record estava lá e filmou tudo. O vídeo está disponível na internet.

 

Em maio, Vanuzia Lopes, que havia montado as comunidades nas redes sociais e ajudado na caçada ao médico, lançou Bem-Vindo ao Inferno, escrito pelos jornalistas Claudio Tognolli e Malu Magalhães. O prefácio é assinado por Rosângela Moro e seu marido, o juiz Sérgio Moro, responsável pelas investigações da Operação Lava Jato. No livro, Lopes –que hoje tem 55 anos – conta ter sido estuprada, contaminada por uma bactéria que evoluiu até uma histerectomia e que teve os óvulos coletados roubados pelo médico – ainda que na época, 1993, não houvesse técnica para mantê-los congelados.

Também descreve uma jornada de horror, depressão, obesidade e traumas decorrentes da violação sofrida quando tentava engravidar. Boa parte do livro é dedicada aos passos da caçada e de como sua colaboração foi definitiva para a prisão no Paraguai. Até o final de julho, tinha vendido 1 400 exemplares – cuja renda, ela disse, seria doada a instituições de caridade.

Em uma manhã recente, Lopes me recebeu em seu despretensioso apartamento, em São Paulo. Havia preparado uma mesa de café da manhã que serviria seis pessoas. Naqueles dias, ela lidava com uma novidade: depois de anos unidas na caça ao médico, o grupo de vítimas havia rompido relações. Ela ficara isolada. Publicamente, as outras passaram a chamá-la de desonesta, acusavam-na de ter roubado a ideia do livro e de ter mentido em vários trechos – dando-se uma importância irreal e narrando episódios falsos. De sua parte, ela respondia que as demais eram movidas por inveja e ressentimento. Curiosamente, Lopes não era uma das vítimas do processo, já que seu caso estava prescrito.

Sentada em uma poltrona vermelha na sala de sua casa, ela me mostrou e-mails e torpedos trocados com as outras mulheres para provar que os ataques eram infundados. Era impressionante como os dois lados haviam se grampeado. Na briga, uma outra vítima também tinha guardado várias mensagens que desqualificavam a ex-amiga. “Eu que passei as madrugadas indo atrás de informação, eu que fiquei na internet, eu que ajudei a investigar. Elas não fizeram nada. O livro é a minha história. Eu tenho direito”, rebateu Lopes.

Nas redes sociais, ela disse que começou a ser difamada por estranhos. Mas tinha uma suspeita. “Existe apenas uma pessoa no mundo com acesso a e-mail, informações privilegiadas, jurídicas, que teve a vida destruída pelas denúncias e agora quer me desqualificar.” E não se tratava de outra vítima. No final do mês, ela entrou com uma queixa por danos morais contra as ex-companheiras do grupo.

Em meio à balbúrdia do lançamento nacional do livro e do rompimento das mulheres, as intrigas ganhavam força e o circo em volta do caso Abdelmassih, idem. Recentemente, Larissa Abdelmassih foi procurada por uma moça chamada Paula Berçotty, que havia morado um mês na casa de Vanuzia Lopes – a quem se referia como “mentirosa”, “enganadora”, “psicopata”. Estava disposta a revelar “todas as mentiras” da ex-amiga em troca de não se sabe o quê. Conversaram durante três horas sem saber que a mulher do médico a gravava escondido. “É clara a obsessão dessa Vanuzia pelo Roger, pela minha família. Ela só faz isso da vida”, disse-me Larissa. Para Vanuzia Lopes, Larissa é uma vítima e Berçotty uma pessoa doente com sérios problemas emocionais. A jovem negocia a ida ao programa de Luciana Gimenez para breve.

 

“Não tirem fotos minhas, por favor. O anonimato é condição essencial para o meu trabalho investigativo”, disse o produtor Leandro Sant’Ana, da Rede Record, no começo de julho. Ele se preparava para dar início à palestra “A Caçada: A Busca ao Homem Mais Procurado do País”, num congresso para estudantes e jornalistas, em São Paulo. Ao longo de duas horas, contou a uma plateia atenta sobre as horas sem comer nem ir ao banheiro enquanto fazia campana na casa do médico, a monitoração dos passos do fugitivo, a troca de informações com promotores e policiais, as viagens a cinco países atrás de pistas falsas, as abordagens para obter dados até o momento do flagrante – quando era o único jornalista no local.

“Foram três anos da minha vida que eu dediquei a isso. Estou escrevendo um livro que vai contar os verdadeiros bastidores da caçada”, comentou ao final da palestra. “Não vai ser essa peça de ficção que está nas ruas”, disse, referindo-se ao livro de Vanuzia Lopes. Antes parceiros na investigação, eles nunca mais trocaram uma palavra. “Fui apunhalado pelas costas. Ela me traiu como faz com todo mundo”, disse. A razão da mágoa era profissional. Ela teria comunicado à revista Veja a prisão de Abdelmassih antes que o furo de Sant’Ana fosse ao ar. “Eu telefonei para ela avisando, pedi para ela esperar a chamada na tevê. Até antes de ligar para as outras vítimas, ligou para a Veja. Quis aparecer e traiu a todos.” Ela nega. O livro de Sant’Ana – ainda sem editora – deve sair em outubro.

A terceira investida literária sobre o caso Abdelmassih é do jornalista paulista Vicente Vilardaga, que há pouco teve o contrato com a editora LeYa cancelado. Com o título de A Clínica, ele quer contar como o médico fez o que quis em seu consultório ao longo de décadas, sem qualquer fiscalização ou controle externo. Tanto no que diz respeito à manipulação de óvulos e embriões quanto no âmbito privado. E também como a imprensa, os famosos e os políticos ajudaram a construir a imagem do médico das estrelas – o que, segundo ele, teria dado a Abdelmassih um tremendo senso de impunidade. “Depois dos filhos do Pelé, ele virou intocável”, disse, numa tarde em um restaurante na Zona Oeste de São Paulo.

Em sua avaliação, o corporativismo da classe médica permitiu que ele continuasse agindo sem freios. “A fama dele era conhecida por todos, mas o tratavam como um ‘mal menor’”, disse o jornalista. Segundo ele, a omissão do Conselho Regional de Medicina era inaceitável. “Antes de tudo vir à tona, chegou a haver dezesseis denúncias contra ele, inclusive uma de assédio sexual. Nunca nada foi devidamente apurado”, afirmou. No futuro, Vilardaga cogita transformar o livro no roteiro de um longa-metragem.

 

Em Tremembé, falou-se dos desentendimentos entre as vítimas, dos livros e até do projeto de filmar sua história. Quando os blogs e o livro de Vanuzia Lopes eram mencionados, Abdelmassih se inflamava. “Aquela senhora, um horror, uma péssima. Chegou com as trompas entupidas, endometriose grave, depois veio dizer que fui eu, que fiz isso ou aquilo. É uma louca, completamente louca.” Seriam todas loucas? “A sua pergunta é capciosa, mas vou responder”, disse, grave. “Não cabe a mim julgar a cabeça de ninguém. Eu vou julgar a minha. E eu digo que não fiz o que elas falam.”

Ele atribuía o fascínio pela história à gana financeira dos autores e ao escarcéu feito pela imprensa. “Se eu não tivesse fugido, talvez estivesse em casa com minha mulher e meus filhos aguardando o recurso em liberdade. Não teria essa confusão toda de livro, de nada, mas é um ‘se’”, comentou. “O interesse não seria porque o senhor foi condenado pelo maior crime sexual do país?”, sugeri. O clima azedou. Ele fechou os olhos, como se estivesse contando mentalmente até três, virou-se para a mulher e disse: “Assim não dá, não tenho mais nada o que fazer aqui. Dói demais ouvir isso. Chega.” Depois, falou como num desabafo: “Entra aqui na cadeia e vê o que realmente é estupro, estuprador. Para mim, chega.”

Expliquei que eu não o acusava, apenas repetia sua sentença. “Eu olho para você e sei o que você está pensando: ‘Ele está falando tudo isso e eu não acredito em nada’”, disse, virando-se de lado. Continuei dizendo que não se tratava disso. Ao meu lado, Larissa havia tapado o rosto com um lenço e chorava copiosamente. Ele baixou a cabeça, esperou um tempo e retomou a conversa. “Você não sabe o que é para mim ouvir isso. Você não tem ideia.” E ela: “É muito duro, é muito duro.”

Ele colou a barriga na mesa, espalmou as mãos sobre o tampo de fórmica e disse num murmúrio, como se a voz estivesse entalada na garganta: “Eu não fiz isso! Tô te falando. Eu não fiz isso! Eu-não-fiz-isso!” Houve um longo silêncio. Ele chorava, e a mulher tinha a face vermelha, molhada de lágrimas. Ninguém falava nada. “Meu amor, diz alguma coisa. Meu bem, fala… Por favor, fala. Se você não falar nada, acaba aqui agora”, ele suplicou à mulher. Ela sussurrou para o marido: “Não tenho nada para falar. Por favor, continue.”

 

A defesa de Abdelmassih prepara novo recurso no Supremo Tribunal Federal. Um dos argumentos é que os relatos das vítimas nunca poderiam ter sido aceitos como prova no processo. Pela lei, denúncias de crimes sexuais devem ser reportadas até seis meses depois do fato ocorrido. Todas as acusações contra o médico remontam a anos e até décadas. Os advogados também vão argumentar que a ação penal deveria ter partido das vítimas, e não do Ministério Público – o que abre espaço para rediscutir o caso.

Estávamos na sala havia quase cinco horas. Ele havia chorado doze vezes. Disse que precisava conversar a sós com a mulher – o que se daria no parlatório, onde ficariam separados por uma parede com uma abertura gradeada na altura do rosto. Ainda sentado, indagou: “O que é mais ressocializante, mais conveniente, mais humano? Deixar um homem de quase 72 anos, que nega o que falam que ele fez, que é casado, tem dois filhos pequenos, ficar dentro de casa e poder conviver com os filhos e tentar fazê-los gente, ou mantê-lo trancado aqui?” Ele exigia uma resposta, que não veio. “Até ficaria com aquilo no pé”, emendou. “Aquilo que está na moda? Tornozeleira?”, disse sua mulher. “É, qualquer coisa.”

Ele se levantou e caminhou em direção à porta. Tinha a mão enterrada nos bolsos da calça e revolvia pedacinhos de papel dobrados meio amassados. Perguntei se ele poderia mostrá-los. Havia um bilhete de um companheiro de cela recomendando uma loja de vinhos ao advogado; outra nota de um detento que pedia um favor jurídico a Larissa; dois santinhos com orações e uma longa carta de Gil Rugai (acusado de matar o pai e a madrasta) falando como funcionava o site de compras Alibaba. “É coisa de gente daqui de dentro. Nada de mais”, declarou.

De novo, estendeu a mão para um cumprimento rápido e vigoroso. Antes de sair, arriscou o que seria uma vida em liberdade. “Iria arrumar algo para fazer, porque sei que não vou mais ser médico. Seria uma vida reclusa, com minha mulher e meus filhos, sem constranger nada ou ninguém.” Uma nesga de sorriso lhe entortou a boca. “Só queria deixar claro que eu amava o que eu fazia. Eu amava, amava mesmo.”

Daniela Pinheiro
Daniela Pinheiro

Daniela Pinheiro foi jornalista da piauí entre 2007 e 2017

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