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    Ilustração contrasta as faunas dos períodos Edicariano (esq.) e Cambriano (dir.): “Também nunca veremos o primeiro de nós a se arrastar para fora da água, a tirar as patas da lama” CRÉDITO: DAVID W. MILLER_1997

ficção

Explosão cambriana

Nunca a veremos, linda Hallucigenia

Jerônimo Teixeira | Edição 183, Dezembro 2021

A+ A- A

Scuttling across the floors of silent seas.[1]

S. Eliot

 

A lembrança de suas costas curvadas, vértebras salientes sob o tecido fino do jaleco, vem me assaltar com silenciosa violência no meio da aula de paleontologia. Um toque feminino empurrou-me delicadamente em sua direção, tropecei em alguma corda ou fio que não consegui distinguir na penumbra da sala, o que me encheu de receio – será que quebrei alguma coisa? –, mas ele ainda não dera por mim; eu já o via de perfil, o olho direito cerrado e cercado de rugas, a boca meio aberta exibindo os dentes manchados de nicotina e o olho esquerdo imerso em um objeto negro que a princípio não identifiquei, mas que um passo adiante descobri ser muito obviamente um microscópio. Havia balcões à direita e à esquerda, mas ele preferira apoiar o aparelho sobre a perna desajeitada, daí a posição tão retorcida. Ele ergueu o rosto, piscou duas ou três vezes, e só então percebeu a figura que se postara a seu lado – eu.

 

Endireitou-se, sorriu. A corcunda, as rugas sumiram. Vou gostar desse cara, lembro que pensei isso, talvez tenha até sussurrado essas exatas bobas palavras: vou gostar desse cara. Ele me conduziu de volta ao corredor (estarei lembrando corretamente – por que no corredor haveria mais luz do que em sua sala?) e de lá para a rua, e para o outro lado da rua, um boteco onde me ofereceu um refrigerante. Pedi um pingado (gostava de pedir pingados, não tanto de bebê-los). A conversa logo morreu na nossa falta de jeito. Sentado no tamborete do bar, eu não olhava mais para ele. Só via meus tristes pés que não alcançavam o chão.

A tolice que é falar em livre associação – se nunca é livre, se eu não queria, não devia estar pensando nele no momento em que Hallucigenia era projetada sobre a parede com sua beleza cheia de arestas.[2] Foi a luz, decerto, a penumbra dessa sala de aula com projetor de slides que me fez lembrar a penumbra de seu laboratório (era um laboratório? o que ele faria lá?). Não, tolice: se nunca em um cinema me lembrei dele, se na meia-luz dos encontros amorosos ele nunca me perturbou.

Foi a segunda vez que o vi, no laboratório (a lâmina – o que estaria vendo na lâmina?). Dias antes ele estivera em nossa casa. Bateu à porta, cerimonioso, visita inesperada, aliás, indesejada. Trouxe um caminhão de bombeiro, com um êmbolo de borracha que apertávamos para espirrar água pela mangueirinha. (Borracha vagabunda: um mês depois estava ressecada.) Ficou para o almoço, elogiou a comida. Conversamos, não sei sobre o quê.

 

Janelas abertas, dia bonito de outono: havia luz naquele dia. Mas é no escuro que lembro seu rosto.

 

Sete pares de patas geométricas, cones sem articulação. Parece desafiar todo nosso senso de equilíbrio. Corpo cilíndrico, terminando em um bulbo mais grosso. O professor conjeturou extensamente sobre a fisiologia da Hallucigenia, mas não ouvi: assombrado, invadido, possuído pela memória de uma espinha curvada e de quatro rugas fundas convergindo para o canto de suas pálpebras cerradas.

Trazia algodão-doce na mão. “Oi”, ele me disse, a única palavra sua de que me recordo claramente. Corri. Talvez não quisesse fugir dele, mas assim me instruíram, obedeci. Havia luz, sol forte naquela praça – tampouco nesse dia me lembro de ter visto seu rosto. Lembro o rosa-choque do algodão e o vermelho das unhas que seguravam meu braço com força. Não lembro rostos.

 

A conversa foi áspera. Fiz força para não ouvir, e parece que consegui. Olhei o tempo todo para o chão. Seus sapatos eram pretos, muito bem engraxados. Foi a última vez que o vi.

 

Três encontros. Por que deveria ser pouco? Lembro um rosto vago, uma sala escura, um aparelho, uma palavra. Não basta? Recolhi outro tanto de informação que não sei compor em um retrato coerente. O advogado, o golpista, o fugitivo – o que ele buscaria nas lentes de um microscópio?

Sete pares de arestas palmilhando o chão dos oceanos primitivos. Nunca a veremos, linda Hallucigenia. E tampouco o primeiro de nós a se arrastar para fora da água, o primeiro a tirar suas patas trêmulas da lama, o primeiro a puxar este ar e a urinar neste chão. Nunca veremos, nunca saberemos dele, nunca.

Distraído a aula toda. Preciso revisar os livros para a prova.


[1] “Esgueirar-se pelo chão de mares silenciosos”, verso do poema The Love Song of J. Alfred Prufrock., na tradução de Ivan Junqueira, em Poesia, de T.S. Eliot (2006).

[2] Hallucigenia é um gênero extinto de animais do período Cambriano, entre 541 e 485 milhões de anos atrás, cujas evidências fósseis foram encontradas no Folhelho de Burgess, no Canadá. O biólogo Stephen Jay Gould, que divulgou os achados de Simon Conway Morris no livro Vida Maravilhosa, sugere que o nome dado pelo paleontólogo em 1977 celebrava uma era de “experimentos sociais”, ou seja, o tempo da psicodelia e do LSD. No entanto, a aparência alucinógena que Conway Morris viu nesses bichos se deve em parte a um equívoco. Nos anos 1990, descobriu-se que o modelo usado estava de cabeça para baixo: o que ele julgou serem tentáculos nas costas do animal eram pernas, e o que julgou serem pernas eram espinhos. Neste conto, preferi ficar com a estranheza da descrição original. O projetor de slides na sala de aula pode indicar o tempo em que se passa a história. (Nota do Autor)

Jerônimo Teixeira
Jerônimo Teixeira

É jornalista e escritor. Publicou o romance Os Dias da Crise (Companhia das Letras)

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