O grupo de humoristas ligados a Marcius Melhem e Marcelo Adnet (os primeiros à esquerda) está em consonância com uma tendência mundial que coloca o humor na linha de frente das críticas a governos conservadores, como ocorre nos Estados Unidos, em relação a Donald Trump MARCOS MICHAEL_2019
Humoristicamente correto
Como Marcius Melhem e sua equipe desafiam a tradicional comédia brasileira
Tiago Coelho | Edição 151, Abril 2019
Seis dias depois que Marielle Franco foi assassinada com quatro tiros na cabeça, o humorista Marcius Melhem, criador, ator e redator final de Tá no Ar, da Rede Globo, convocou a redação do programa humorístico para uma reunião extraordinária. No encontro, disse que sentia a necessidade de haver na próxima edição do programa uma homenagem à vereadora. Em seguida, pediu uma reunião com o diretor-geral da emissora, Carlos Henrique Schroder, contou sobre sua intenção e mostrou as duas opções de homenagem que tinha elaborado junto com sua equipe.
O projeto escolhido foi levado para o setor de computação gráfica. “Bota no ar”, disse o diretor-geral à Melhem, depois de ver o resultado. Na noite de 20 de março do ano passado, terça-feira, o programa humorístico terminou com uma mudança inesperada para o espectador: o miolo do tradicional logotipo esférico da emissora transmutava-se na silhueta em negro do perfil da vereadora e seu cabelo black power, adornado com uma faixa colorida nas cores do arco-íris. Ao lado da imagem, aparecia escrito: “Marielle Presente”.
“Deu trabalho, corremos contra o tempo, mas ficamos todos satisfeitos”, contou Melhem, num camarim dos Estúdios Globo, em Jacarepaguá, no último dia 14 de janeiro, segunda-feira, véspera da estreia do primeiro programa da temporada 2019 de Tá no Ar: A tv na tv. O humorista de 47 anos, vivaz e eloquente, mas com um tom de voz sempre tranquilo, falava sobre sua interlocução com a diretoria da Rede Globo na aprovação de conteúdo. “Uma vez, em Nova York, a redatora final da sitcom Everybody Loves Raymond me disse: ‘Nunca tenha medo de conversar com os executivos de tevê. Eles são ótimos para avaliar os problemas e os riscos. Só se assegure de que a solução dos problemas seja sua.’”
Melhem se ajeitou na cadeira e disse: “Tem um esquete que vai ao ar amanhã, a ‘Vila Militar do Chaves’. Era perigoso gravar sem dividir com a chefia antes, porque, se errássemos no tom, não tinha como regravar.”
“Quais seriam os riscos?”, perguntei.
“É uma cena em que o Capitão é o novo dono da Vila do Chaves.”
“E o Capitão é…?”
“O Capitão”, ele respondeu, sério. “Eu contei ao Schroder sobre a cena, li para ele o trecho. Foi dado o o.k., gravamos e vai ao ar agora. Mas a gente deu uma esquentada no final, né?”, explicou. “A gente modifica as cenas o tempo todo. O Brasil vai oferecendo as notícias, a gente vai mudando.”
No ano passado, a equipe de Tá no Ar decidiu que a temporada atual do programa, a sexta, será a derradeira. Para a criação dos esquetes que começaram a ser exibidos em janeiro, a equipe reuniu-se, como sempre fez, entre abril e julho e seguiu o processo habitual: cada um dos treze redatores apresentou suas ideias, que, pouco a pouco, foram ganhando sugestões de todos – até se tornarem um conjunto de propostas coletivas. As cenas criadas são sátiras da vida política e social, baseadas na forma dos programas e comerciais de tevê, que se misturam caoticamente, como se o controle remoto do espectador tivesse enlouquecido, zapeando por diferentes canais.
Um dos esquetes é o “Jardim Urgente”, paródia dos jornalísticos mundo cão, e cujo âncora, em um dos episódios, em vez de disparar sua sanha punitivista contra criminosos, o faz contra crianças malcriadas. “Cadê o Bope pra dar uns cascudos nesses moleques?”, diz ele. Mudando de canal, tem o “Magnata Connection” – sátira do programa Manhattan Connection –, com milionários que reclamam do Brasil, instalados confortavelmente em países ricos.
As ideias dos redatores costumam surgir daquilo que eles, atentos, veem na televisão. Mas não apenas. O redator e ator Maurício Rizzo levou para a redação uma ideia de seu filho Bernardo, de 8 anos: um coro de Chiquinhas, com base na personagem chorona do seriado mexicano Chaves, cantando Staying Alive, dos Bee Gees: “Uá, uá, uá, uá! Stayin’Alive!” A redação aprovou. Como a equipe de cenografia iria reproduzir à perfeição a Vila do Chaves para uma cena que duraria apenas vinte segundos, o diretor artístico do programa, Maurício Farias, 58 anos, sugeriu que a redação pensasse em mais um esquete para aproveitar o cenário.
No final de setembro, a equipe liderada por Melhem voltou à mesa de redação para criar o novo quadro para a vila cenográfica. Alguém sugeriu um trocadilho com o nome de Hugo Chávez, mas a ideia não vingou. Certo dia, em um brainstorming, surgiu a expressão “Vila Militar do Chaves”, que agradou a todos. Como o humorista Marcelo Adnet, um dos criadores e também redator final do programa, fazia imitações muito bem-sucedidas dos candidatos à Presidência em vídeos para o jornal O Globo, ele foi incumbido de encarnar Jair Bolsonaro na Vila Militar do Chaves.
Em 11 de janeiro, a cena foi gravada. O Capitão, como se chama o personagem, invade abruptamente a vila, vestindo um uniforme verde-oliva do Exército, acompanhado de um cabo e um soldado, e diz: “Sou o novo dono dessa vila, Jair. Depois de anos de incompetência e má administração, vim resolver essa cuestão.” Exímio imitador, Adnet ressaltou os gestos duros, os erres arrastados, a língua presa e sibilante e o hábito de Bolsonaro de enfatizar o “u” na palavra “questão”.
“Seu Madruga, melhor já ir pagando os catorze meses de aluguel que você deve!”, diz o Capitão em tom autoritário para Madruga, interpretado por Melhem. Quando o personagem argumenta que não pode pagar, pois está desempregado, o Capitão dispara: “Desempregado? VA-GA-BUN-DO!” Chiquinha e Chaves, interpretados por Luana Martau e Márcio Vito, choram de medo com a truculência do personagem. “Homem não chora. Mas você, eu entendo, porque seu pai deu uma fraquejada”, diz o Capitão para a menina, repetindo uma expressão usada por Bolsonaro, que disse numa palestra: “Eu tenho cinco filhos. Foram quatro homens; a quinta eu dei uma fraquejada e veio uma mulher.”
A cena prossegue. O Capitão manda as crianças irem para casa. Chaves diz que não tem casa e mora dentro de um barril. “VA-GA-BUN-DO! Imprestável, já tem idade pra trabalhar. Chega de Bolsa Barril.” O Capitão ainda condena Dona Florinda e Quico – interpretados por Georgiana Góes e Maurício Rizzo – por formarem uma família sem a figura paterna. E acusa o professor Girafales, encarnado por Danton Mello, de ensinar ideologia de gênero e darwinismo na escola. Na hora de ir embora, o Capitão espera a carona do motorista cedido por seu filho. “Cadê o motorista que meu filho me emprestou? Não pôde vir? Um problema nisso daí, no tocante a cual questão?”
A cena foi gravada em quase duas horas e durou três minutos no ar. Adnet soltou de improviso o bordão “VA-GA-BUN-DO”. A referência a Fabrício Queiroz, motorista de Flávio Bolsonaro e suspeito de desviar salários de funcionários do gabinete do senador, foi acrescida na véspera. Adnet ficou mexido com a evocação do seriado Chaves. “Esses personagens fazem parte da minha infância. Coube a mim fazer o personagem que os maltrata. Mas o Chaves é um garoto pobre, um sobrevivente, como muitos brasileiros”, disse.
Quando o quadro foi exibido, as falas reverberaram na internet, por apresentarem uma sátira do presidente recém-empossado e de um seriado que não faz parte da grade da Globo, mas do SBT. Até agora, é o esquete de maior sucesso desta temporada.
A redação de Tá no Ar fica numa rua residencial do Jardim Botânico, num casarão antigo, com telhado colonial e janelas e portas de madeira. Por dentro, entretanto, a decoração é moderninha: chão de cimento queimado e paredes com tijolos aparentes. Numa estante, um troféu de melhor humorístico da tevê concedido em 2014 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). No meio da sala, uma mesa comprida de oito lugares.
Em uma das cabeceiras da mesa, Daniela Ocampo, 38 anos, chefe de redação, coordenava a reunião. De sorriso largo, voz grave e cabelos negros com franja, Ocampo, com uma jaqueta de couro preta, tem um estilo que destoa do informal combo carioca dos seus colegas, que vestiam jeans ou bermuda e camiseta. De um lado da mesa, estavam Marcius Melhem, com um laptop, Maurício Rizzo, 45 anos, e Thiago Gadelha, 32. Do outro lado da mesa, de bermuda e chinelos, Marcelo Adnet, 37, comia arroz com brócolis e peixe em uma marmita de plástico. Ao seu lado, estava Renata Corrêa, 36. Na outra cabeceira, Carolina Warchavsky, a mais nova do grupo, com 24 anos. Sentados num sofá, largadões, Wagner Pinto, o Waguinho, 45, Leonardo Lanna, 40, e Alexandre Pimenta, 37. São todos redatores de Tá no Ar. Na reunião daquele dia faltavam apenas Edu Krieger, Luiza Yabrudi e Marcelo Martinez.
Acompanhei a fase de redação em que os esquetes já criados são revisados e debatidos pela equipe. Como redator final do programa, Melhem é quem consolida as cenas ali mesmo, no computador. Sua função é também cortar. “Deixar só o filé”, como disse.
“Vamos para a cena 36? O comercial da Margayrina. Alguma consideração?”, perguntou Ocampo.
Como ninguém falou nada, ela disse: “Achei estranho colocar casais inter-raciais héteros num comercial cuja sacada é falar de famílias LGBT como uma representação possível de um comercial de margarina. Mistura propostas diferentes, eu acho.”
“A gente já discutiu isso”, disse Lanna, um cara corpulento e de voz grave.
“Eu sei, mas vamos debater mais. Tem algo a se pensar por aí”, afirmou Ocampo.
Warchavsky, a caçula de voz fininha, argumentou: “Esse comercial tem um slogan que justifica outros tipos de casais. O locutor diz: ‘Margayrina possui altos níveis de aceitação de diferenças. Livre de conservadores, fazendo bem para você e para quem você ama.’ Isso dá a ideia de que a Margayrina aceita as diversidades.”
“A gente traz outras representações de carona, não vejo problema”, disse Melhem. Por fim, o nome da margarina ficou sendo Itambém, sem a referência aos gays.
Ocampo lê mais um esquete. É sobre um apresentador de televisão que olha para a câmera e diz aos espectadores: “Quando eu ligar para sua casa, não diga ‘Alô!’, diga: ‘Câncer no pâncreas!’”
“Sou contra”, afirmou Rizzo torcendo a face com desgosto. “Câncer no pâncreas? Conheço gente que morreu disso”, afirmou. Alguns roteiristas abafaram risadinhas.
“Ah, eu também conheço pessoas que morreram disso, ué”, disse Melhem.
“Aquele seu amigo?…”, perguntou Lanna.
“Não. Aquele foi infarto mesmo… O que a gente põe no lugar de câncer no pâncreas, então?”
“Tem que ser alguma coisa que todo mundo tenha. Sei lá, algo no fígado”, disse Lanna.
“Não diga ‘Alô’, diga: ‘Meu avô morreu de cirrose’”, Melhem sugeriu.
“Que tal: tenho uma verruga no pau?”, sugeriu Waguinho.
“Acho legal. Parte considerável da população sexualmente ativa tem verruga no pau”, concordou Renata Corrêa.
“Muito engajado”, disse Melhem, rindo.
“Qual o nome mesmo daquele procedimento que queima verruga no pênis?”, perguntou Corrêa.
“Cauterização”, responderam em uníssono três dos homens presentes.
“Verruga no saco?”, “Minha mãe tem HPV”… As frases sobre doenças venéreas pipocavam e provocaram uma algazarra.
Quando Melhem percebeu que o falatório iria afundar a discussão, chamou a atenção: “Gente, gente, vamos concentrar! Se a gente terminar rápido, não vai precisar trabalhar no fim de semana.”
Outro esquete. Uma reportagem sobre um assassino sexy e sedutor chamado Rogério, acusado de matar mais de vinte pessoas. Na cena, a repórter vai ao encontro dele e diz: “Estou aqui com esse tesudo do Rogério…”
“O Edu Krieger fez uma observação sobre essa cena”, disse Ocampo, que leu o comentário do colega ausente: “Não gosto da ideia do Rogério ser um assassino. Por ele ser sedutor, pode dar a entender que a piada justifica o feminicídio, colocando a culpa nas vítimas, nas mulheres que se apaixonaram por ele.” Ocampo comentou em seguida: “Eu concordo com o Krieger, pode ter esse ruído.”
“Também concordo”, disse Renata Corrêa.
“Talvez ele possa ser estelionatário, ladrão. Assassino é pesado”, acrescentou a chefe de redação.
No texto, Melhem mudou o personagem para “ladrão”.
“A repórter podia falar: ‘E esses olhos?’”, disse Adnet, com voz voluptuosa. “A piada vai ficar longa demais. Na hora em que a repórter chama o ladrão de tesudo, a gente já entendeu que ela o acha atraente”, pontuou Melhem.
“E se a repórter perguntar para o Rogério: ‘Essa boca só fala ou também beija?’”, sugeriu Warchavsky. A redação gargalhou.
Melhem, rindo, balançou a cabeça em concordância e voltou para o laptop: “Vou tirar todo o resto da cena. A repórter só vai dizer isso. A cena ficou mais curta e engraçada.”
A risada ou a celeuma que uma piada provoca na equipe é uma espécie de termômetro para o redator final, que está sempre atento na hora de fechar uma cena.
O esquete seguinte era uma sátira em que grandes nomes da dramaturgia da Rede Globo liam em tom poético mensagens de grupos de família no WhatsApp.
“Esse esquete é maravilhoso, mas a gente pode melhorar”, disse Adnet. “O Lima Duarte podia ler alguma frase sensacionalista como: ‘Dessa vez Pabllo Vittar foi longe demais’”, sugeriu o humorista, fazendo uma imitação ruim do veterano ator, mas que ainda assim divertiu a redação.
“Foi a melhor pior imitação do Adnet”, afirmou Gadelha.
“O barato dessa cena são as sutilezas das mensagens de família”, disse Melhem, depois dos minutos de diversão da turma. “Essa frase que escreveram para a Fernanda Montenegro é ótima: ‘Bom dia, família linda! Que do sol caiam raios de alegria e amor para todos.’ Isso é frase de grupo de família.”
“Mas cada vez é mais comum essa difusão sensacionalista de notícias falsas. Tipo a mamadeira de piroca”, Adnet argumentou, referindo-se à fake news de que a Prefeitura de São Paulo, durante a gestão Fernando Haddad, teria distribuído nas creches mamadeiras com bicos no formato de pênis.
“Que tal: ‘Gente, a Brahma está em promoção, a 1,99 no Mundial’”, disse Waguinho, com seu sotaque carioca carregado.
A risadaria encheu a sala.
Como foi a última fala a entrar no esquete, e a única atriz que ainda estava sem fala era a Zezé Motta, a frase sobrou para ela.
“Não vamos dar essa frase para a Zezé Motta”, disse Ocampo com uma voz ainda mais grave do que o habitual. Todos ficaram em silêncio. “Ela é a única atriz negra que vai participar dessa cena. Não vamos dar essa fala de promoção de cerveja para ela.”
“Tem razão. A gente dá a fala da Lilia Cabral para a Zezé Motta”, disse Melhem fazendo a troca no texto.
A equipe seguiu debatendo e revisando dezenas de cenas, até que o redator final olhou para o relógio e depois para mim. “Faz tempo que você está aí, né?”, disse, duas horas depois que entrei na sala. “Acho que você já viu muita coisa por aqui. Não quer conhecer a redação do Zorra no andar de cima?” Foi um convite educado para eu encerrar a visita.
T á no Ar estreou na Rede Globo em 10 de abril de 2014. A primeira temporada conseguiu uma média de audiência de 9,6 pontos no Ibope, que não é extraordinária, mas foi julgada satisfatória para o horário de terça, às 23h20. A recepção crítica na imprensa foi muito boa e o programa conseguiu um feito considerável junto ao público: desde então, alguns de seus esquetes curtos viralizaram na internet e encabeçam o ranking dos programas mais vistos nas plataformas de vídeo da Globo, que já não tem a hegemonia que desfrutava em décadas anteriores. Na temporada seguinte, o programa aumentou sua audiência e a manteve estável: média de treze pontos em 2015, 14,6 em 2016, 14,2 em 2017 e 14,4 em 2018.
Por fazer sátira da televisão, Tá no Ar foi comparado a TV Pirata, criado pelo diretor Guel Arraes e pelo roteirista Cláudio Paiva no fim dos anos 80 e que tinha na equipe de roteiristas nomes como Luis Fernando Verissimo, Pedro Cardoso, Laerte, Glauco e os humoristas do Planeta Diário e do Casseta Popular – que nos anos 90 se juntaram para criar o programa Casseta & Planeta, Urgente! Esses programas trouxeram para a Globo uma nova geração de autores, que apostava no humor nonsense e na linguagem ágil e caótica.
Essa turma é referência para os redatores de Tá no Ar. Mas há outras influências importantes. O formato do programa, por exemplo, foi inspirado em um clipe interativo da canção Like a Rolling Stone, de Bob Dylan, feito para a internet em 2013 pelo diretor israelense Vania Heymann. O clipe foi considerado inovador, pois o espectador podia mudar de canal como em uma tevê, independentemente de qual escolhesse, ouvia a mesma música, apresentada com diferentes imagens e em contextos distintos. “Essa é uma geração de humoristas que cresceu num mundo com muitas mídias: internet, YouTube, redes sociais. Nos anos 70, tínhamos só cinco emissoras de tevê. Tudo de audiovisual estava ali”, disse Jorge Furtado, roteirista da Globo há quase trinta anos.
Fazer sátiras do conteúdo da tevê é uma característica de Tá no Ar, mas não é a sua principal novidade. O programa balançou certas estruturas do humor televisivo, há décadas muito ancorado em preconceitos de todo tipo, com piadas machistas, homofóbicas e mesmo racistas. E, sem deixar de assumir posições críticas, Tá no Ar enfrenta e ridiculariza o conservadorismo moral que vem ganhando corpo no Brasil.
Para entender o caminho que a Globo percorreu até o programa Tá no Ar é preciso retornar a 2010. Naquele ano, exibiu o programa Junto & Misturado, cuja linguagem meio naturalista, de esquetes curtos e ágeis, também destoava do modelo habitual de humor da emissora. Criado por Bruno Mazzeo e dirigido por Maurício Farias, tinha na equipe Fábio Porchat, Gregório Duvivier e Ian SBF. Obteve audiência satisfatória e boas críticas, mas sua segunda temporada foi cancelada, sob a alegação de que o programa se dirigia a um público restrito. Fartos das limitações de criação que encontravam na Globo, Porchat, Duvivier e SBF se juntaram a Antonio Tabet e ao publicitário João Vicente de Castro e criaram o Porta dos Fundos, que se tornou um dos maiores fenômenos de humor na internet.
Em 2013, Carlos Henrique Schroder deixou a direção de jornalismo da Globo e assumiu a direção-geral. Criou um fórum para ouvir os profissionais de humor sobre suas demandas. “Dissemos a ele que o humor da Globo tinha perdido o contato com a realidade e estava dentro de uma bolha, com uma estética irreal, longe do público. Não podia mostrar e falar de marcas de produtos, de outras emissoras e nem rir da própria Globo. E que o único jeito era conversar com setores que colocavam empecilhos à criação, como os departamentos comercial e jurídico”, contou Farias. “O Schroder foi pessoalmente abrindo caminho, dialogando sobre onde queríamos chegar, avaliando os prós e contras de cada reivindicação. E tudo o que colocamos foi levado adiante dentro da emissora”, disse Melhem. Foi então que ele, Farias e Adnet se reuniram para criar o Tá no Ar.
Oriundo da MTV, Adnet tinha protagonizado na Globo, em 2013, a sitcom O Dentista Mascarado, que teve baixa audiência e pouca repercussão. Melhem conta que, em sonho, imaginou ter criado um programa parecido com Chico City – estrelado pelo humorista Chico Anysio nos anos 70 –, em que Adnet interpretava vários personagens dentro de um mesmo universo, no caso, a televisão.
Melhem, Adnet e Farias se uniram à atriz Daniela Ocampo, que foi professora de humor no Tablado e tinha dirigido Adnet em sua primeira peça, Z.É. Zenas Emprovisadas, Prêmio Shell de Teatro de 2004. E o programa sonhado foi se tornando realidade. Farias, diretor de A Grande Família e Tapas & Beijos, foi encarregado da direção artística, e Melhem, da equipe de redação.
Logo na primeira temporada de Tá no Ar, um personagem inventado por Adnet testou os limites da liberdade artística que a equipe reivindicava. Era o Militante, que costuma surgir no humorístico inesperadamente, com uma transmissão clandestina, cheia de falhas no som e na imagem, para atacar a Globo com acusações baseadas em teorias da conspiração. Com um eloquente sotaque pernambucano, o personagem, parodiando os haters da emissora, já esbravejou num programa que a Globo é uma instituição “sustentada por George Soros” e ligada aos Illuminati, uma suposta sociedade secreta secular. (Atacar o financista Soros, aliás, tornou-se uma bandeira de certa extrema direita, como a que hoje governa a Hungria.) O Militante também costuma citar fatos delicados para a Globo, como o apoio da emissora ao golpe militar de 1964 e a edição tendenciosa do debate presidencial do segundo turno em 1989, que favoreceu Fernando Collor de Mello em detrimento de Luiz Inácio Lula da Silva. “Fiquei cabreiro no início. Será que vai ser aprovado? Mas foi. Schroeder foi um grande incentivador desse personagem e disse: ‘Fala as coisas que você quer falar’”, contou Adnet.
Marcius Melhem gravaria, naquele 14 de janeiro, um esquete com Lázaro Ramos e Taís Araújo, dirigido por Vicente Barcellos. O humorista chegou ao camarim vestido de calça jeans, jaqueta verde e sapatênis, as roupas do personagem que iria encarnar, um homem que pede informação na fila do táxi.
Sentou-se numa poltrona acompanhado de uma assessora da Central Globo de Comunicação, olhou para o relógio, bateu nos braços da poltrona e antes mesmo que pudéssemos falar do calor que fazia no Rio ou das últimas do noticiário político, apenas para aquecer o início da conversa, ele disparou: “Vamos começar?” O humorista é gentil e educado, mas passa quase o tempo todo controlando seu próprio tempo, sem muita disposição em gastá-lo.
Começamos. Melhem nasceu em 1972, em Nilópolis, município da Baixada Fluminense, cuja população é majoritariamente de classe média baixa e onde há uma significativa presença de imigrantes sírio-libaneses – dos quais ele descende. Com o pai, doutor Jamil, médico pediatra, costumava assistir a quase todos os programas humorísticos da tevê, estrelados por Chico Anysio, Jô Soares, Os Trapalhões e Ronald Golias, seu preferido. Quando criança, Melhem foi apenas uma vez ao teatro e raramente ia ao cinema, pois não havia salas em Nilópolis – as mais próximas ficavam em Nova Iguaçu, a mais de meia hora de carro.
Na adolescência, enquanto torcia pela redemocratização do país, passou a consumir os quadrinhos inovadores de Laerte, Angeli e Glauco, publicados na Folha de S.Paulo. “Eu era muito politizado, e o jornalismo virou um caminho natural para mim”, contou. No início dos anos 90, entrou na faculdade de jornalismo da PUC-Rio e, para ficar mais próximo da escola, mudou-se para um apartamento que os pais mantinham na Barra da Tijuca.
Depois de formado, trabalhou na redação do jornal O Fluminense, um diário de Niterói, e nas agências de notícias Meca e Zap. Acabou fundando sua própria agência, a Leia, voltada para o mercado financeiro, e virou sócio de outra agência que fazia um serviço similar, a CMA.
Quando ainda estava na faculdade, um casal de amigos o convidou para assistir a uma aula de teatro no Tablado. Melhem gostou tanto que se matriculou no mesmo dia. E o teatro foi, por uma década, um hobby que ele levou a sério. No Tablado, acabou se destacando como ator e redator, muito influenciado pelo teatro besteirol, um estilo de comédia que teve grande êxito nos anos 80.
O sucesso de Melhem no palco o levou, em 2003, a uma pequena participação dramática na novela Mulheres Apaixonadas, de Manoel Carlos, experiência que o humorista define como a “pior atuação de um ser vivo”. Mesmo os espectadores mais generosos tendem a concordar com a autoavaliação do humorista. A cena, em que ele interpreta um marido ansioso com o nascimento do filho, está no YouTube.
Na época, Melhem lotava sessões com o espetáculo infantil Festa na Floresta, no qual dividia o palco com Leandro Hassum, ator de papéis secundários em Zorra Total. Hassum e um produtor de elenco da Globo recomendaram que ele batesse à porta do programa humorístico. “O Leandro disse: ‘Vem comigo, vamos bolar um quadro pra gente e vender para o programa.’ Aí a gente criou ‘Os Seguranças’.” Melhem passou a fornecer seus textos semanalmente para a emissora, como freelancer.
Em 2004, foi contratado para o time de redatores por Cláudio Torres Gonzaga, redator final de Zorra Total, e abandonou definitivamente o jornalismo. Na redação, aprendeu a escrever humor para a tevê, trabalhando na companhia de roteiristas de programas que tinha visto na infância, como César Cardoso, de Os Trapalhões e TV Pirata; Ayres Vinagre, de Os Trapalhões; e Roberto Silveira, dos programas de Chico Anysio.
Melhem criou esquetes de sucesso em Zorra Total, como o da espalhafatosa socialite Lady Kate, ex-prostituta sustentada por um senador da República que tinha como professor de etiqueta um homossexual caricato interpretado pelo próprio Melhem. “Suguei tudo o que podia daquela experiência com os veteranos da redação. Escrevia e propunha ideias, incessantemente”, disse. Porchat, que trabalhou com ele na equipe de redação do programa, define Melhem como um obstinado: “É trabalhador, dedicado e vai atrás daquilo que quer e acha certo.”
Em Zorra Total, Melhem começou a se dar conta de como o humor televisivo reforçava estereótipos negativos de alguns grupos sociais. “Se eu disser que desde o início me incomodou, estarei mentindo. Porque cresci vendo esse tipo de humor, e você naturaliza”, afirmou. “A questão da mulher gostosa, objetificada, foi a primeira coisa que me causou desconforto. E foi como ator, gravando. Eu via uma superexposição dessa situação. Você vai evoluindo, aprendendo. Pensa no quanto o que você faz impacta a sociedade e reforça determinadas opressões. Mas no começo não tem poder para mudar, é parte de uma engrenagem que gira – e que girava daquele jeito havia muito tempo.”
Em 2008, Melhem deixou a redação de Zorra Total. O sucesso de audiência do quadro “Os Seguranças”, no qual ele e Hassum interpretavam a dupla Pedrão e Jorginho, os levou para um programa novo chamado Os Caras de Pau, com os mesmos personagens, exibido em 2010 nas tardes de domingo. A redação final era de Melhem. E foi ali que, para ele, acentuaram-se as preocupações com o modo de representar, na comédia, os diferentes grupos sociais.
Uma vez, inspirado em uma situação da série americana Friends, Melhem escalou a travesti Rogéria para interpretar o pai de Pedrão, seu personagem. O síndico do prédio em que os protagonistas moravam acaba se apaixonando pela travesti, achando que ela é a mãe de Pedrão. “Em uma cena, o Pedrão dizia ao síndico: ‘Não dá para vocês namorarem, porque ele é meu pai e mora em Paris.’ E o síndico respondia: ‘Mas então o nosso amor é impossível, porque Paris é muito longe.’ Era o que importava: Paris é longe. E não a sexualidade da personagem que é um impedimento. Foi a primeira vez que a gente afirmou essas questões numa redação”, disse Melhem.
Depois que o programa Os Caras de Pau acabou, Melhem e Hassum seguiram caminhos diferentes no humor. Hassum se mudou para Miami e fez carreira no cinema, Melhem encontrou novos parceiros na tevê.
Em 2015, Melhem, bem-sucedido com Tá no Ar, foi convidado a reformular Zorra Total, que era exibido desde 1999 e restava na Globo como um exemplar do antigo humor televisivo. Junto com Maurício Farias, ele cogitou, inclusive, em mudar o nome do programa. Entretanto, como a marca ainda tinha alguma força, ficou Zorra, apenas. O restante mudou: conceito, equipe, elenco, redação e direção.
O custo da renovação foi pesado para Melhem, mas, segundo ele, foi necessário. “Causou descontentamentos. Tive que abrir mão do talento de pessoas com quem trabalhei. Mas eu não conseguiria mudar aquela formatação do esquete clássico só conversando com a equipe. Precisava de novas cabeças. Eu tinha uma missão e a cumpri. Fiz com humanidade, sinceridade, mas é do jogo.”
O esquete clássico do humor brasileiro é uma herança do teatro de revista e do rádio, por isso é muito descritivo e pouco audiovisual, disse Melhem. “Tudo era explicado em diálogos. A gente começava uma cena e antes de entrar no principal conflito, fazia uma piada, duas piadas, alguns bordões, implementava o conflito da cena, desenvolvia a piada, levanta, corta, virada, bordão, conclusão do conflito.”
Em Tá no Ar, um esquete pode durar alguns segundos e é resolvido sem rodeios. Uma cena de dois minutos é considerada longa. Algumas são essencialmente imagéticas. Se o espectador der uma piscadela, perde a piada. Edição, direção e texto focam no essencial para tirar o riso.
Acompanhei a gravação de uma cena em que Melhem contracenava com Taís Araújo e Lázaro Ramos – uma paródia de Mister Brau, a série protagonizada pelo casal, que no programa de humor passou a se chamar “Mister Vrau” (“vrau” é uma gíria da internet e significa “resposta curta e grossa”). O casal está numa longa fila do táxi. Melhem se aproxima e pergunta: “Aqui é a fila do táxi?” E Mister Vrau responde: “Não. É uma linha de conga.” O locutor, então, diz: “Ele é grosso, ele é rude, ele não deixa passar.”
“No esquete clássico, eu entraria, olharia a fila, diria que está enorme, falaria mil coisas antes da piada sobre a falta da tolerância do personagem”, exemplifica Melhem. “Hoje em dia, mudou como você faz esquete: o tamanho das cenas, o contexto delas. Antes, o personagem não aprendia; hoje, você procura fazer com que o personagem aprenda algo, que ele não volte para o mesmo ponto.”
Em entrevista ao Ofício em Cena, programa da GloboNews, o humorista disse pensar na piada como uma equação que gera um resultado. E é também dessa maneira que ele pensa seus projetos e sua relação com a equipe. “Trabalhar com jornalismo para o mercado financeiro me deu isso: organização, prazo, data, um tempo para apurar, fazer a reportagem, o horário do fechamento”, disse. “Nós dávamos notícias em tempo real, não podíamos atrasar um segundo, pois as pessoas dependiam da nossa eficiência para ganhar dinheiro. O modo como organizo as redações se parece muito com as redações do jornalismo.”
Apesar das cobranças frequentes, Melhem está sempre disposto a ouvir, segundo Ocampo, braço direito do humorista. “Marcius é um assembleísta, ouve todo mundo. E é a pessoa mais coletiva que conheço. Aquariano. Tudo para ele é o grupo, a galera, e só faz sentido se um trabalho for feito em parceria. Ele dá espaço para todo mundo crescer. Se você for bom, competente e justo, você vai chegar ao seu auge ao lado do Marcius.”
Em setembro passado, Melhem tornou-se gerente de conteúdo de projetos de humor na Globo. “É apenas um cargo para dar um tratamento nos produtos de humor. Não abro mão de escrever e atuar; é o que realmente gosto”, ele explicou. O humorista coordena mais de quinze projetos com sua equipe.
Conta-se que na Walt Disney World, os empregados que se vestem de Mickey Mouse carregam sempre um GPS para não esbarrarem uns nos outros, enquanto entretêm os turistas – o que deixa a impressão de que o personagem é onipresente no parque. Nos bastidores da Globo, circula a piada de que existem três versões de Marcius Melhem cruzando os corredores da emissora: o redator, o ator e o executivo. E que todos usam um GPS para não esbarrar um no outro. “O Marcius se insere numa tradição de atores-autores que é muito rica na história do humor. Grandes autores foram também atores. Eles têm uma noção do humor a partir do palco, que faz com que tenham uma noção sobre a reação do público a uma piada”, disse Jorge Furtado.
Melhem parece ter adquirido também uma liberdade inédita de criação na Globo, graças em parte a seu diálogo com áreas da empresa que eram tenazes entraves para os humoristas.
No ano passado, Tá no Ar decidiu fazer uma homenagem ao humorista Carlos Alberto de Nóbrega, ligado há décadas ao SBT, com o programa A Praça é Nossa. A equipe de Melhem o convidou para participar de um esquete em que foram reproduzidos o cenário e um quadro do programa do SBT. A presença e a reverência a um artista de outra emissora repercutiu na mídia. O humorista Claudio Manoel chegou a dizer que, em sua época na Globo, referências a programas e artistas que não os da emissora eram sempre vetados, o que levou a equipe do Casseta & Planeta, onde ele atuou, a criar a empresa fictícia Organizações Tabajara para se referir a marcas e produtos diversos.
“Ninguém bate na tua porta e te oferece liberdade. Você conquista, briga por ela, argumenta, enche o saco, faz reunião, faz reunião de novo. Dá trabalho”, disse Melhem. “Eu fui atrás da minha. Vou todo dia, na verdade, muitas horas por dia. E nada que levei jamais foi negado ou censurado pela emissora.”
Deve ser por isso que, em junho do ano passado, Melhem esteve no Supremo Tribunal Federal com Porchat, do Porta dos Fundos, e o ator e autor Bruno Mazzeo, da Globo, para conversar com o ministro Alexandre de Moraes sobre a suspensão de um trecho da lei eleitoral que proibia, durante o período de campanha, “ridicularizar” candidatos e partidos. Moraes era relator de uma ação de inconstitucionalidade apresentada pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, a Abert. A lei prejudicava não só Zorra como dezenas de humorísticos na tevê e na internet. Em 21 de junho, os ministros do STF confirmaram a inconstitucionalidade da proibição de sátiras políticas.
Em meados de janeiro, Melhem, Leonardo Lanna e três jovens roteiristas criaram o quadro “Isso a Globo não mostra”, exibido no Fantástico e composto de imagens de arquivo de programas famosos da emissora ou momentos constrangedores de seus atores e locutores, acrescido de comentários ácidos sobre política. Na estreia do quadro no Fantástico, Melhem chegou à Globo antes de o programa dominical começar e só foi embora depois que a sua atração foi exibida. Queria se certificar de que iria ao ar. E exatamente como sua equipe tinha realizado.
Um dos quadros de “Isso a Globo não mostra” exibiu um vídeo da repórter Sandra Passarinho dizendo que Flávio Bolsonaro tinha foro privilegiado por ser senador e logo em seguida mostrou flashes de uma reportagem do Globo Rural sobre plantação de laranja. Os internautas riram com gosto, e o quadro alcançou o primeiro lugar entre os assuntos mais comentados do Twitter naquela noite. Sucesso parecido costuma ocorrer com Tá no Ar. A equipe se comunica bem com o público jovem da internet, que está evadindo da tevê aberta. Numa ação surpreendente, Melhem levou os humoristas do Choque de Cultura, um programa criado em 2016 no YouTube, para comentar os filmes exibidos pela Globo aos domingos à tarde, na sessão chamada Temperatura Máxima.
O grupo de humoristas ligados a Melhem está em consonância com uma tendência mundial que coloca o humor na linha de frente das críticas a governos conservadores, como ocorre nos Estados Unidos em relação a Donald Trump.
“Tentei assistir Saturday Night Live – inassistível! Totalmente tendencioso, não é engraçado, e a imitação de Baldwin não pode ser pior. Triste”, escreveu Trump certa vez em que o ator Alec Baldwin o imitou no famoso programa humorístico semanal. Bolsonaro nunca se manifestou a respeito das sátiras que fazem dele nos programas de humor, mas seus apoiadores reclamam. Um usuário do Twitter, @sergiofrei&, escreveu: “O programa Tá no ar deveria ser Tira do ar, não tem nenhum quadro que possa rir e 70% é crítica a Bolsonaro. Perda de tempo, mudei de canal.”
Quem procurar vídeos antigos desses programas vai encontrar esquetes com zombarias a Lula e outros políticos. Num deles, um sujeito bonachão está numa mesa de bar reclamando das amolações que lhe dão seu sítio e sua casa de praia. Na paródia de um comercial de chá gelado, o garçom aparece e faz propaganda do “Luiz In – Ice tea: que refresca tudo, menos a sua memória”.
Marcelo Adnet com frequência se posiciona politicamente nas redes sociais e é chamado de “comunista” por pessoas alinhadas à direita. Melhem é mais discreto nas redes, mas em 27 de outubro último, véspera do segundo turno das eleições, tuitou: “Nunca declarei voto porque acredito que humor é oposição crítica a qualquer governo e não aceita alinhamento partidário. Mas nessa eleição não se trata de partidos, mas de defesa da democracia, da cidadania, dos direitos. Então voto Haddad 13. É a ele que quero fazer oposição.”
No final de janeiro de 2017, Tá no Ar exibiu um esquete em que um homem branco de terno e gravata, à mesa de um restaurante, diz: “Eu sempre sou bem atendido nos melhores restaurantes.” Na cena seguinte, um jovem branco, fala: “Eu tive acesso às melhores escolas e universidades públicas do Brasil.” Outro branco, numa reunião de negócios, olha para a câmera e, no mesmo tom de satisfação dos outros, afirma: “Eu tenho acesso aos melhores empregos, às melhores oportunidades e, é claro, ganho sempre os melhores salários.” Uma mulher branca que entra numa agência bancária diz: “No meu banco, além de ter acesso aos melhores investimentos, eu tenho atendimento exclusivo. E, claro, nunca fui barrada na porta giratória.” Por fim, uma mulher negra fica retida na entrada do banco. Emulando o comercial de uma agência bancária, um locutor afirma, no final do esquete: “Branco no Brasil: há mais de 500 anos levando vantagem.”
No dia seguinte à exibição, segundo Melhem, diretores do Banco do Brasil teriam feito uma reunião para avaliar o impacto da piada sobre a marca. Concluíram que o programa não trazia exatamente uma crítica ao banco, mas ao racismo brasileiro.
A desigualdade racial e os direitos de minorias são temas que acirram a polarização ideológica no país e aparecem com frequência em Tá no Ar e Zorra. Por isso, os programas têm sido identificados como “de esquerda” por parte do público conservador. Melhem, porém, tem outra definição para suas criações. “Eu definiria o Tá no Ar como um programa humanista, antenado às liberdades e direitos civis. É isso o que a gente defende”, disse. “Se confundem com uma bandeira de esquerda, a culpa não é nossa.”
Daniela Ocampo, que também lidera a equipe de roteiristas mulheres que criou o quadro “Mulheres Fantásticas”, exibido no Fantástico, me disse: “Não acreditamos num humor que reforce o racismo, a misoginia ou qualquer desrespeito a um grupo que seja sempre oprimido.” No que é seguida por outros roteiristas e atores com os quais conversei na Globo: Melhem, Farias e Adnet. E a mesma ideia já foi repetida por humoristas de fora da emissora, como Fábio Porchat e Gregório Duvivier, do Porta dos Fundos.
Há quem não veja muita graça no humor politicamente correto. Um ano atrás, durante uma entrevista do programa de rádio Pânico com os humoristas Raul Chequer e Leandro Ramos, do Choque de Cultura, o apresentador Márvio Lúcio resolveu reagir contra a correção política: “Humor sempre ofende alguém”, disse. Chequer, então, retrucou: “Não concordo. Acho muito merda usar o humor para perpetuar preconceito.”
O humorista do Casseta & Planeta Marcelo Madureira, por sua vez, não admite qualquer cuidado com o politicamente correto na hora de criar. “Acho essa coisa um defeito da contemporaneidade. Acho que é uma preocupação que não cabe a um artista”, disse. “Quem faz humor não tem que se preocupar em agradar. Como humorista, eu me vejo como um equilibrista, eu me equilibro sobre o risco. Às vezes me dou mal, erro, mas é isso aí. Essa coisa de politicamente correto é de quem faz humor bunda-mole, de quem não quer se comprometer. Eu faço humor é pra criar problema.”
“O politicamente correto nunca nos atrapalhou no Porta dos Fundos. Muito pelo contrário”, afirmou o roteirista Antonio Tabet, um dos criadores do canal humorístico. “Ele muitas vezes corrigiu nossa ‘alça de mira’ mirando no opressor. Contudo, apesar de darmos a importância devida a essas questões, não podemos esquecer que a prioridade do humor é ser engraçado. Senão a piada vira o que alguns comediantes têm chamado de ‘lacromédia’, aquela que não faz rir e apenas quer dar uma lição de moral.”
Quis saber de Melhem se a decisão de poupar determinados grupos sociais não seria uma limitação ao humor. “De jeito nenhum. Isso que chamam de politicamente correto, eu considero um avanço social. Significa que uma parcela da sociedade adquiriu conquistas”, afirmou. “Tem comediantes que dizem que representa censura, que o politicamente correto vai acabar com o humor. Para mim não é assim. Cada um que arque com a sua biografia, com a sua relação com o seu público e com as reações que o seu humor provoca e afeta a sociedade. Prefiro pensar bem em quem merece ser satirizado, exposto, ridicularizado, por isso costumo focar nos poderosos, nos que oprimem.”
Na noite em que o esquete do “Branco no Brasil” foi ao ar, quem concordava com o posicionamento do humorístico vibrou. “Esse anúncio do Branco no Brasil é bizarramente sério. Esses caras são gênios demais!”, tuitou @be_soares. “O Tá no Ar chega com o pé na porta”, disparou @pqpezzini.
Discordâncias também ocorreram: “No Brasil tem muito branco que se fode também, mas no Tá no Ar só tem branco mesmo levando vantagem”, apontou @Garcia_Itaipu, postando junto da mensagem uma foto da equipe de redação e do elenco. Nenhum negro trabalha como redator ou ator em Tá no Ar.
Perguntei para Ocampo se, pelo menos, havia diversidade social entre os roteiristas. “Eu vim do Rio Comprido; o Pimenta, da Tijuca, na Zona Norte; o Lanna veio do subúrbio de Niterói; o Waguinho mora até hoje no Cachambi, no subúrbio”, respondeu ela, elencando os bairros de classe média e classe média baixa de onde provêm. “Quase todos têm o passado no subúrbio e melhoraram de vida. Na verdade, acho que tem uma diversidade de vivências, e isso foi uma conexão entre todos nós. Mas, mesmo a gente, com essa vivência, sempre é muito ‘classe A’ perto do que é o Brasil de verdade. E mesmo a Nilópolis em que o Marcius viveu não tem comparação com o Brasil do qual a gente está falando. É importante estar atento a isso.”
Não existe um levantamento sobre o número de roteiristas negros na tevê brasileira, mas a Ancine, a Agência Nacional do Cinema, reuniu dados sobre a presença de negros na produção cinematográfica do país. Constatou que, em 2016, dos 142 longas-metragens lançados comercialmente, apenas 2,1% foram escritos por homens negros. Nenhuma roteirista negra assinou qualquer projeto de cinema naquele ano. Na direção de filmes, a desigualdade também se confirma: 138 filmes dirigidos por brancos e apenas três por negros.
Vira e mexe, a Globo se vê acusada de racismo por causa de sua programação. No ano passado, foi duramente criticada por reunir um elenco majoritariamente branco na novela Segundo Sol, passada em Salvador, na Bahia. “A diversidade ainda é estruturalmente problemática nas redações de humor. A gente herda uma prática de homens brancos escrevendo. A única maneira de superar isso é formando autores negros”, disse Melhem.
Hoje, entre os 27 autores de Zorra, há apenas nove mulheres e dois negros, Pedro Alvarenga, de 26 anos, e Renata Andrade, de 37 – ela, selecionada depois de uma oficina de humor para roteiristas negros realizada por Melhem e sua equipe no ano passado. “No Zorra, temos petralhas, coxinhas, conservadores, religiosos e ateus”, conta Gabriela Amaral, 43 anos, redatora final do programa. “O debate de ideias começa aí, abrindo espaço para a presença de negros e mulheres. Uns dizendo para os outros que determinada ideia é ruim, preconceituosa.”
Em maio de 2016, segundo ano do novo Zorra, repercutiu na imprensa o caso de uma jovem vítima de estupro coletivo numa favela da Zona Oeste do Rio. As roteiristas chegaram consternadas na redação. “Estavam mobilizadas com o assunto. E, não querendo deixar aquilo passar em branco, propuseram uma esquete para tratar do caso”, disse Amaral. Os redatores finais e alguns roteiristas ficaram receosos. “Afinal, como fazer humor com esse tema num programa de sábado à noite? A gente trabalha com ironia, acidez, mas deprimir o espectador não é nossa intenção.”
A discussão levou horas. As sugestões foram debatidas, até que se encontrou um caminho. “Abandonamos a ideia do estupro e fomos para a da culpabilização da vítima, fazendo uma analogia com a crucificação de Jesus Cristo.”
Na cena que foi ao ar, Maria, a mãe de Jesus, desesperada, sai pelas ruas clamando por socorro. “Estão crucificando Jesus, alguém me ajuda?”, ela implora. Passa um grupo de homens, e eles dizem: “Jesus de Nazaré? Desculpa, mas ele pediu pra ser crucificado… Fica pra cima e pra baixo em bando, tomando vinho… Claro que ia acontecer isso.”
Eles dizem que Jesus “pediu” para ser executado, enquanto Maria tenta convencê-los de que seu filho é apenas uma vítima.
“Falamos do que estava mobilizando as meninas, sem precisar falar de estupro. E nem recebemos reclamações de cristãos”, disse Amaral.
Primeiro negro a integrar a redação de Zorra, em abril do ano passado, Pedro Alvarenga vem de uma família de classe média baixa do interior de Minas Gerais. Estudou cinema como bolsista na PUC-Rio e cursou belas artes na UFRJ, antes de entrar na emissora, primeiramente para um projeto de dramaturgia dramática que não teve continuidade. Depois, foi pinçado para a equipe de humor. Alvarenga nunca tinha pensado em fazer humor, e nem tinha qualquer experiência na área.
A presença de negros na redação, ele diz, tem um efeito muito prático e significativo. “Desde a minha entrada, e isso não tem a ver necessariamente com a minha pessoa, mas, sim, com a presença de um negro na equipe, teve um aumento da produção de esquetes que abordam o racismo.”
Perguntei quais eram, em sua opinião, os gargalos que limitavam a entrada de negros nas equipes. “A população negra é segregada em todos os espaços. Passa pela segregação na formação educacional e na inserção nos círculos sociais”, respondeu. “Muitas vezes você precisa fazer parte de um determinado círculo para que seja indicado a uma vaga de roteirista. Se não participa desse meio onde só tem brancos, como seu trabalho será conhecido e recomendado?”
Alvarenga disse se sentir integrado no ambiente de trabalho e satisfeito com o conteúdo produzido. “É um evento, para mim, participar de um grupo que está aberto a discutir questões raciais. Essa é uma característica desse núcleo, no qual me sinto representado também como espectador”, afirmou. “No passado, as pessoas achavam engraçado um negro alcoólatra, como o Mussum. Mas é algo que remete ao modo como a população negra, após a Abolição, foi segregada e se entregou ao álcool. Para mim, nunca teve graça. Piadas racistas reforçam a discriminação.”
Logo que chegou à redação de Zorra, Alvarenga participou de uma reunião em que a equipe fazia um balanço da temporada e ouviu Melhem dizer que o programa deveria bater no racismo, no machismo e na homofobia. “Me lembro de ele dizer: ‘O humor que se faz na tevê veio do rádio, de uma tradição que tem mais de cem anos. E nesses cem anos foi feito de um jeito, reiterando preconceitos. Estamos tentando fazer de outro jeito. É preciso uma vigilância constante. Se cairmos na inércia, voltamos para o mesmo lugar.’”
As questões identitárias também ocupam as séries de humor americanas. Numa das mais exemplares, Atlanta, criada e estrelada por Donald Glover, dois primos sonham em fazer sucesso e ganhar dinheiro no mundo do rap. E, ora fazendo rir, ora causando um desconforto sardônico, traz à luz o preconceito racial nos Estados Unidos. Outras séries de humor flertam com questões espinhosas. Brooklyn Nine-Nine é uma comédia sobre a rotina de uma corporação policial, mas que recorrentemente fala da violência dos “homens da lei” contra negros. Nanette é uma comédia stand-up que aborda, com um humor indignado e às vezes amargo, o machismo e a homofobia.
Na atual temporada, Tá no Ar exibiu uma paródia musical sobre relações abusivas, em que uma mulher era constantemente humilhada pelo parceiro. O quadro terminou com o número de telefone para denúncias de violência contra a mulher.
Nem sempre o tom das piadas agrada. “Globo adota linha de humor que não faz rir”, foi o título de uma crítica do colunista Flávio Ricco, no UOL, referindo-se a Tá no Ar e Zorra. José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, de 83 anos, diretor da emissora por várias décadas e um dos criadores do “padrão Globo de qualidade”, afirmou que ninguém entende as piadas de Tá no Ar.
Melhem faz vista grossa a essas críticas. “Tem uma frase do Chico Anysio que diz: ‘Humor é tudo, até engraçado’”, afirmou. Ele também discorda de que o humor de Tá no Ar é “elitista”, como dizem alguns. “Além de equivocada, essa é uma premissa que ignora a própria missão da televisão, que é de provocar o público, fazê-lo pensar”, afirmou numa entrevista ao crítico Mauricio Stycer.
“Marcius Melhem é incansável na busca de novas formas de humor”, disse Silvio de Abreu, diretor de dramaturgia da Globo. “Possui uma inteligência privilegiada para detectar as mazelas do país e sabê-las denunciar através do riso. Pelo sucesso dos programas, é evidente que o público entende e gosta desse tipo de humor, e o resultado na avaliação da emissora é totalmente satisfatório.”
Apesar disso, neste ano, Tá no Ar registrou em seus seis primeiros episódios uma das mais baixas audiências médias: 11,6 pontos.
A audiência de Zorra, por sua vez, é crescente. No lançamento do programa, em 2015, foi de dezoito pontos; em 5 de maio do ano passado, chegou a 25 pontos de média. “Só posso considerar que estamos no caminho certo”, disse Melhem.
Quando Melhem terminou a gravação da cena com Taís Araújo e Lázaro Ramos, perguntei se poderíamos conversar mais meia hora. “Não mesmo. O programa estreia amanhã e tenho coisas para acertar”, ele disse. Mas olhou a hora no celular e decidiu: “Vem comigo. Me pergunta no caminho.”
Saímos do estúdio de gravação e caminhamos pela parte externa dos estúdios Globo com seus jardins bem cuidados. Com o celular na mão, Melhem aprovava modificações de uma paródia musical que lhe enviaram via WhatsApp.
“E religião? Pode fazer piada?”, perguntei, tentando alcançar os passos dele.
“Não pode ofender a fé, mas é permitido criticar quem explora a fé”, respondeu, sem tirar os olhos do telefone. “Ei, você recebeu meu e-mail?”, ele acenou e gritou para um rapaz gorducho a uns 30 metros de distância.
“E-mail?”, perguntou o rapaz.
“É, mandei ontem. Era para tirar a tarja. E falta a legenda creditando o analista na cena.” O funcionário da pós-produção prometeu resolver os pedidos. Melhem agradeceu.
“Você cuida de todo o processo?”, perguntei, enquanto passava pela roleta do prédio de pós-produção.
“Para quem cria, é um ganho entender e dialogar com todas as áreas da empresa. A Globo é um mundo. Falar com muita gente é um modo de assegurar de que o que você criou vai chegar ao espectador, da sua maneira.”
Melhem entrou numa salinha, fui atrás. A assessora de comunicação da Globo interceptou minha entrada. “Deixa”, ele intercedeu.
Um técnico dentro da sala mostrou um clipe. “Era o chroma que fazia uma sombra. Ficou ótimo agora”, disse Melhem, referindo-se ao recurso técnico de colocar um fundo infinito na cena para fazer fusões de imagem, chamado chroma key.
“Por que o Tá no Ar vai acabar?”, eu quis saber, quando saíamos da sala.
“A equipe é inquieta. A gente quer criar coisas novas. É melhor que termine quando as coisas estão dando certo. O sucesso não é confortável… Ei, eu queria ver o programa mixado. Falta muito?”, falou Melhem a um outro funcionário da pós-produção. Subimos uma escada.
“E o que você faz quando não está trabalhando?”
“Fico com minhas filhas e assisto jogo do Flamengo no Maracanã”, disse. E foi a primeira vez que o vi sorrir naquele dia. Melhem é casado com a estilista Joana Rosenfeld e pai das gêmeas Nina e Manuela, de 9 anos.
“O presidente Bolsonaro não tem uma relação amistosa com a Globo. Já fez ameaças. Isso afeta o seu trabalho de alguma maneira?”, perguntei.
O humorista estacou no corredor. A sola de seu tênis assoviou no piso escorregadio. A assessora de comunicação também parou abruptamente. Por um momento, me perguntei se a resposta que viria seria dada pelo ator, pelo roteirista ou pelo executivo.
“A gente continua onde sempre esteve. Dialogando com a sociedade nas questões que dizem respeito a ela. O governo é uma instituição que a gente respeita. Mas a liberdade é uma instituição maior que qualquer governo. E eu respeito mais a liberdade que governos. Continuaremos provocando. E o humor é oposição sempre. Num governo conservador ou progressista, estaríamos apontando questões”, respondeu Melhem. “Com relação às ameaças, isso é com a direção da empresa, a gente segue com nossa missão de divertir o público.”
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