Mulher carregando Jerusalém (1979), de Sliman Mansour: “Não somos estranhos em nenhuma terra árabe. Os estranhos são aqueles que apontam para o nosso exílio com dedo de acusação” CRÉDITO: MULHER CARREGANDO JERUSALÉM_SLIMAN MANSOUR_1979
A política da memória
Escritores palestinos buscam fazer da literatura um documento do passado de sua terra
Ricardo Lísias | Edição 235, Abril 2026
No final de Retorno a Haifa, a mais recente novela de Ghassan Kanafani publicada no Brasil,[1] Said S., um velho palestino que voltou à cidade natal de onde saíra quase duas décadas antes, confessa, diante de uma senhora judia e do filho adotivo dela, que procura “a verdadeira Palestina, uma Palestina que é mais do que memória, mais do que penas de pavão, mais do que um filho, mais do que rabiscos a lápis”.
Ele acaba de rever a sua antiga casa, onde se passa a conversa, e notou que foram mantidos intactos, depois de sua partida, alguns objetos, quadros e rachaduras. Mais difícil do que matar a saudade é equacionar os sentimentos de perda e desolação com a súbita consciência que o atinge ao se ver diante daquelas pessoas, a judia e seu filho, que ocuparam seu antigo imóvel.
Pouco depois daquela primeira confissão, Said se vira para sua mulher, que o ouvia em silêncio, como os outros, e revela que aquela terra de onde os dois fugiram, a Palestina, tornou-se para ele a “busca por algo enterrado sob a poeira da memória”. Antes de ir embora, ele conclui, dirigindo-se à judia: “Sabe de uma coisa, senhora? Acho que todo palestino pagará um preço. Conheço muitos que pagaram com os filhos. Agora sei que também eu paguei com um filho, de uma maneira estranha, mas paguei o preço.”
O trecho resume, com indisfarçável melancolia, a prosa dos escritores palestinos: a referência a um lugar do qual serão expulsos, restando-lhes apenas a memória – uma das palavras mais repetidas na literatura e na arte em geral desse povo. Ao mesmo tempo e como consequência, as personagens vivem assombradas por algum tipo de perda, que, no caso de Said S., vem a ser, além da sua casa, o próprio filho.
Se todos os povos têm suas datas de referência, a marca central da história do povo palestino é a Nakba – “catástrofe”, em português. É à memória desse acontecimento que quase toda a prosa palestina, por ângulos e estilos diferentes, se dedica. No fim de novembro de 1947, a Assembleia Geral da ONU aprovou o Plano de Partilha das Nações Unidas para a Palestina em dois Estados independentes: um árabe e outro judeu. Os territórios eram muito diferentes – a maior parte para Israel, que, no entanto, tinha a menor população. Entre março e maio de 1948, ocorreu a Nakba: militares sionistas invadiram as terras de palestinos e os expulsaram de várias aldeias e cidades, como Haifa, Yafa e Akkā, além de Jerusalém Ocidental.
Em Retorno a Haifa (traduzido por Ahmed Zoghbi), a família de Said representa uma espécie de metonímia do que foi o êxodo do povo palestino. No dia 21 de abril de 1948, o personagem vê a administração de Haifa colapsar com o conjunto da autoridade palestina, enquanto a milícia invasora ocupa rua após rua. Se a Nakba é o dia da catástrofe para o povo palestino, uma desgraça ainda maior ocorreu à família do protagonista do romance: em meio ao desastre, Said luta para voltar à sua casa e resgatar a mulher e o filho recém-nascido. Ele consegue reencontrá-la, mas não recupera o bebê, que durante o tumulto na cidade escapara das mãos da mãe, Safiya, como se levado por uma enxurrada.
A maior parte da trama do livro se passa em um único dia, 30 de junho de 1967, quase vinte anos depois da Nakba. É quando Said e sua mulher retornam a Haifa e vão até a casa de onde foram expulsos. A mulher que os recebe, a judia Miriam, passou a ocupar o imóvel poucos dias depois da expulsão do casal de palestinos. Em um diálogo travado entre ela e Safiya, o escritor revela o passado de Miriam. A mulher de Said pergunta à judia:
– De onde você veio?
– Da Polônia.
– Quando?
– Em 1948.
– Quando exatamente?
– No início de março de 1948.
O trecho a seguir é ainda mais revelador:
Miriam perdera o pai em Auschwitz havia oito anos. Antes disso, quando invadiram o lugar onde morava com o marido, refugiou-se com os vizinhos do andar de cima. Os soldados alemães não encontraram ninguém, mas, quando desceram, esbarraram em seu irmão menor, que ia ao encontro dela. Tinha 10 anos e subia para informá-la – foi o que supôs – de que o pai havia sido levado para o campo de concentração e ele estava sozinho. Quando percebeu os soldados alemães, virou-se e correu. Ela assistiu a tudo por uma fresta estreita, um pequeno vão entre os degraus. De lá, viu atirarem no irmão.
Said e Miriam são da mesma geração: ela sofreu a tragédia do Holocausto; ele, a Nakba. Ao menos no início do livro, e no caso das pessoas mais simples, há uma rarefeita mas perceptível sensação de que os dois grupos – judeus e palestinos – foram, de formas diferentes, espoliados e manipulados pelas grandes potências em seus jogos de interesse e poder. Com o passar dos anos – e o olhar que cada geração irá lançar sobre os episódios que determinaram o deslocamento de tanta gente –, essa sensação vai mudando. O breve sinal de solidariedade entre dois povos desaparecerá, substituído pela certeza de que o outro lado é exclusivamente um inimigo.
No meio da visita, aparece um rapaz, que acaba de prestar o serviço militar e se apresenta como filho de Miriam. Não demora para que Said e sua mulher confirmem que ele é, de fato, o bebê que o casal não conseguiu resgatar no dia da Catástrofe. O jovem jamais foi desterrado: é filho de palestinos, o que ele ignora, mas foi educado como judeu, como alguém que deve ocupar aquela terra a qualquer custo (terra que já era dele, mas como palestino).
Kanafani percebe que há algo de novelão na trama que constrói: “Said foi tomado por uma sensação estranha, como se estivesse assistindo a uma peça ensaiada com antecedência e minúcia. Tudo isso o fez lembrar os melodramas baratos e suas cenas artificiais, que provocam emoções rasas.” Aqui, a forma é adequada: o dramalhão tem seu roteiro previsível, exatamente como o escritor palestino enxerga o destino de seu povo.
O filho cresceu com a ocupação israelense do território palestino já consolidada. Para ele, ao contrário da mãe adotiva e dos pais biológicos, todos expulsos de suas próprias terras, a pátria é o chão onde foi criado:
Eu não sabia que Miriam e Efrat não eram meus pais até cerca de três ou quatro anos atrás. Desde pequeno, sou judeu. Vou à sinagoga, à escola judaica, como comida kosher e estudo hebraico. Quando eles me disseram que eu não era seu filho biológico, isso não mudou nada. Mesmo quando me disseram, mais tarde, que meus genitores eram árabes, ainda assim nada mudou. Não, nada mudou. Uma coisa é certa, em última análise: o homem é uma causa.
Quem se define exclusivamente por uma ideologia não irá atentar a nenhum tipo de argumento que relativize suas certezas. Menos ainda colocará suas conclusões sob qualquer outra perspectiva que não seja a das próprias razões, que estarão acima inclusive de seus antepassados. Ou, dizendo de outro jeito, o passado aqui será escolhido conforme for mais conveniente à causa.
No final de maio de 1972, enquanto no Brasil o Exército começava a dizimar a Guerrilha do Araguaia, três japoneses partiram da Itália, desembarcaram no aeroporto de Lod (atual Ben Gurion, perto de Tel Aviv) e retiraram com cuidado seus estojos de violino das esteiras de bagagem. A intensa segurança no local não notou que, em vez de instrumentos musicais, os militantes do Exército Vermelho Japonês traziam rifles. Com eles, atiraram a esmo na área de passagem do aeroporto, matando 26 pessoas e deixando 80 feridos. Dos três atiradores, dois morreram no ataque. O terceiro foi capturado pela atônita força de defesa.
O ataque foi reivindicado pela Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), um grupo que desde o final dos anos 1960 tentava resistir à ocupação israelense recorrendo à pressão política e ataques terroristas. A participação de militantes japoneses serviu para despistar a segurança, ao mesmo tempo que expunha a capilaridade da organização antissionista.
Pouco depois, em julho de 1972, um carro explodiu no Centro de Beirute, no Líbano, logo depois de o motorista acomodar alguns livros e revistas no banco de trás e ligar o motor. Havia um explosivo no para-choque, plantado pelo serviço secreto do governo de Israel, que logo assumiu o atentado e declarou que com isso vingava o que a FPLP havia feito no aeroporto de Lod.
A explosão matou Ghassan Kanafani, o autor de Retorno a Haifa, que era também porta-voz da FPLP, e sua sobrinha de 17 anos. Àquela altura, Kanafani já havia publicado mais de dez livros, dera aulas para crianças palestinas em campos de refugiados e trabalhara como jornalista e editor em diversos jornais e revistas do mundo árabe. Com 36 anos, estava no auge da força criativa e tinha decidido que seus livros precisavam aliar a força estética tanto à preservação da memória do povo palestino – memória que para ele funcionava como a própria pátria – quanto à construção de uma consciência política útil à resistência e à luta.
Kanafani nasceu em Akkā (ou Acre, hoje parte de Israel), em 1936, durante o Mandato Britânico na Palestina, filho de um advogado que atuava pela libertação do seu povo. Com a Nakba, o escritor deixou o território ocupado e passou a circular por todo o mundo árabe, até se estabelecer no Líbano. Em 1963, então com 27 anos, publicou seu primeiro livro de ficção, Homens ao sol (traduzido por Safa Jubran), que imediatamente o projetou como um dos principais autores palestinos.
A Nakba é também o ponto de partida de Homens ao sol, mas um problema mais recente forma o centro narrativo do romance: o transporte clandestino de pessoas entre fronteiras, realizado no interior de caminhões-tanque em um dos pontos mais tórridos do Oriente Médio. A habilidade de Kanafani nas descrições e situações aflitivas é evidente:
Enquanto o caminhão acelerava como uma flecha, deixando um rastro de poeira atrás de si, Varapau sangrava suor pela testa, que escorria pelos sulcos do rosto até o queixo. O Sol brilhava e o vento quente carregava um pó fino como farinha. Nunca na minha vida vi um clima tão terrível! Ele desabotoou a camisa, seus dedos tocaram os pelos do peito, densos e encharcados. A estrada ficou reta e o caminhão não se sacudia mais como antes, então ele acelerou. O velocímetro saltou adiante como um cão branco amarrado a um poste.
Expulsos de casa junto de milhares de compatriotas, três homens palestinos tentam cruzar o Iraque para chegar ao Kuwait e ali, quem sabe, melhorar de vida para depois trazer suas famílias. Há outros personagens: os corruptos e irresponsáveis guardas de fronteira e os variados tipos de atravessadores.
Os três homens, torturados pelo calor no interior do caminhão, com o motorista quase em pânico, seguem um trajeto que é uma síntese da história dos palestinos: seu êxodo provoca pouca empatia nas demais pessoas, e eles seguem em frente, sem um destino seguro e acolhedor. Desde o início do romance, fica claro que aqueles homens morrerão sufocados pelo calor dentro do veículo. O final, algo patético, apresenta o que talvez seja uma premonição do destino do povo palestino:
Ele conduziu seu caminhão para fora da estrada asfaltada e seguiu por uma pista de areia que o levava para o deserto. À tarde, ele decidira enterrá-los um por um, em três sepulturas. Mas à noite estava exausto, como se uma droga tivesse sido injetada em suas veias. Não tinha forças para trabalhar. Não seria capaz de empunhar uma pá por longas horas para cavar três sepulturas.
Em 1966, Kanafani publicou O que lhes restou, novela da mesma dimensão que a anterior, mas ainda mais ousada do ponto de vista da forma. O sucesso de Homens ao sol deve ter animado o escritor, que no novo livro embaralha as temporalidades, multiplica as vozes narrativas e trabalha com recursos tipográficos. Uma vez que Kanafani pretende recorrer à literatura como fonte de esclarecimento e arma de combate político, ele aposta que a ousadia estética pode impulsionar o leitor a se engajar na luta pela resistência palestina.
O principal livro de Ghassan Kanafani, Umm Saad, foi lançado em 1969 (no Brasil, em 2023, traduzido por Michel Sleiman). Além de sinalizar a sua maturidade artística, a obra apresentou uma disposição para o diálogo com outras tradições literárias ainda mais profunda que no livro anterior, O que lhes restou. Em vista disso, fica claro que o assassinato do escritor teve como objetivo não apenas silenciar o porta-voz da FPLP, mas sobretudo impedir o desenvolvimento de uma obra literária capaz de se tornar uma das mais relevantes do seu tempo.
Com Umm Saad, o escritor parte de uma personagem conhecida entre o povo palestino, a mesma que dá nome à obra. A história, inspirada em fatos reais, é contada por um narrador não nomeado, primo da protagonista. Assim começa o livro:
Umm Saad é uma mulher real. Eu a conheço bem, temos um certo parentesco. Ainda a vejo, conversamos e aprendo com ela. Contudo, não é exatamente isso que faz dela uma escola diária, pois o parentesco que nos une é algo fraco se comparado com os laços que a conectam à classe de gente valente, esmagada, pobre e jogada nos acampamentos de misérias nos quais vivi – com ela e por ela, não sei o tanto.
O livro coloca as reflexões e angústias dessa mãe palestina que, acossada pela miséria e pela violência do colonizador, tenta sobreviver e cuidar da família em um campo de refugiados. As preocupações dela também se concentram em um dos filhos, que entrou para um grupo armado. O que pode acontecer ao rapaz tira o sono da mãe, já perturbada pela situação de seu povo. No entanto, ela tenta compreender a opção do filho, evita condená-lo e, mais do que isso, passa a apoiá-lo. Atento a Umm Saad e sua angústia, o narrador diz:
Eu ainda olhava para aquelas mãos, escondidas como duas coisas afligidas pela decepção, gritando dentro das profundezas, perseguindo as imigrações até o perigo do incógnito… Por que, meu Deus, está reservado para as mães perderem seus filhos? Pela primeira vez, eu via aquela coisa que parte o coração ao meio, atingido por uma palavra minha, como se estivéssemos num teatro grego, dando vida a uma dessas cenas de tristeza que não tem cura.
A menção ao teatro (que aparece várias vezes na obra de Kanafani) assinala que o sofrimento do povo palestino está se dando diante de nós, que o acompanhamos como meros espectadores. Desde sempre, o mundo inteiro sabe exatamente o que acontece na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Depois que o governo de Benjamin Netanyahu decidiu operar um genocídio como reação ao ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro de 2023, o mundo recebe imagens das operações de destruição promovidas pelo governo israelense enquanto elas acontecem. E, como o público em um teatro, acompanha tudo sem intervir de fato no que se passa no palco.
A conversa entre o narrador e a personagem principal em Umm Saad evolui até o ponto em que ambos concluem que o trabalho do escritor e a resistência dos combatentes são a mesma coisa – o que coloca a literatura em um espaço francamente político. Diz a personagem Umm Saad:
– O que é que eu posso dizer, primo? De noite, senti que tava próxima do fim… Mas do que adianta? Quero viver até ver o fim. Não quero morrer aqui, na lama e na sujeira das cozinhas… Você entende isso, primo? Você sabe como escrever as coisas, eu nunca fui pra escola. Mas a gente sente igual. Meu Deus! O que é que eu posso dizer? Ontem de noite, pensei direitinho nisso, encontrei as palavras certas, mas agora de manhã esqueci… Tá bom! Você escreve o que pensa, eu não sei escrever. Mas eu mandei meu filho pra lá… e com isso eu disse a mesma coisa que você diz. Não é igual?
Aí está, condensada, a proposta estética do principal romancista palestino, que mostra no livro, em sua disposição pela clareza, que a metonímia é o motor recorrente de sua literatura:
No entanto, Umm Saad não é só uma mulher e, se ela não permanecesse como um corpo, uma mente e uma labuta no coração das massas e no cerne de suas preocupações, como uma parte inextricável de seu dia a dia, não teria sido capaz de ser o que é. Por isso, ela sempre teve, para mim, a voz daquela classe palestina que pagou caro o preço da derrota.
Além de Umm Saad, outra figura histórica importante para o povo palestino que se tornou personagem de ficção foi Karima Abbud (1893-1940), primeira fotógrafa do mundo árabe. Suas fotos, que no início do século XX captaram com vigor e beleza a expressividade humana, são referência até hoje. Também são importantes documentos históricos, por registrar a presença dos palestinos em sua terra antes da chegada dos invasores.
O romance Biografia de um olho, publicado no Brasil em 2024 (tradução de Safa Jubran), conta a vida da fotógrafa, que morreu alguns anos antes da Nakba. O autor, Ibrahim Nasrallah, nasceu em 1954, em um campo de refugiados palestinos na Jordânia, filho de um casal expulso de suas terras em 1948. Ele cresceu nesse mesmo campo, de onde só saiu na juventude, para estudar psicologia e depois trabalhar na imprensa jordaniana. Considerado um dos escritores palestinos mais importantes da atualidade, Nasrallah tem se dedicado nos últimos anos a fazer um enorme painel ficcional da história da Palestina.
O romance é formado por capítulos curtos, como se fosse um álbum de fotografias que recriam a vida de Karima Abbud, desde a infância no lar cristão até a movimentada e bem-sucedida carreira como fotógrafa. Também descreve a crescente violência na região, com o povo palestino tentando resistir à gradativa perda de suas terras, um processo que começou nos anos do Mandato Britânico. O livro mostra como as fotos de Karima Abbud, ao documentar a invasão do território palestino, são fundamentais para desmentir as falsificações históricas que tentam apagar os palestinos de suas terras. O trecho a seguir, com a conversa de dois judeus, baseado em um fato real, é eloquente:
A luz do poste elétrico ao lado fazia da noite um dia.
– Por que devemos nos sentar aqui, já que você é o mensageiro do comando? Poderíamos ter ficado em casa.
– Não queria incomodar sua família; além disso, trata-se de uma conversa que não deve ser ouvida por mais ninguém.
Moshe estava prestes a perguntar a qual conversa se referia, mas a mão de Levi foi mais rápida e tirou um jornal da sacola que carregava. Moshe avistou a câmera, a mesma câmera, a dele, que trocara com Levi por um rifle.
– O que está acontecendo? – perguntou Moshe. – Não me diga que você veio aqui a essa hora, e a pedido do comando, para me mostrar um jornal árabe.
Levi abriu o jornal diante de Moshe e, sem preâmbulos, disse com muita raiva:
– Uma fotógrafa palestina me derrotou. Quer dizer, derrotou você… nos derrotou!
Não foi difícil para Moshe, que teve na câmera seu primeiro amor, entender o que acabara de ouvir. Ele leu a matéria, pois descobrira que tinha outro talento: além de dominar seu rifle, dominava bem a língua árabe. As fotografias estavam claras, eram as dele, as fotografias que foram enviadas para Londres havia meses. Mas não eram as mesmas, porque essas estavam repletas de pessoas.
– Espero que não tenha errado e enviado essas fotos sem meu conhecimento!
– Moshe, você não está entendendo, essas não são nossas. Essas foram tiradas por uma fotógrafa árabe.
– Fotógrafa?! Árabe?!
– Pois é, fotógrafa e árabe. E ela publicou as fotos para provar que as nossas são mentirosas e que as casas que fotografamos têm proprietários árabes e são habitadas por árabes, está entendendo?
A literatura palestina ultrapassou as fronteiras com Mahmud Darwich (1941-2008), considerado um dos principais poetas da segunda metade do século XX. Cinco anos mais novo do que Kanafani e treze anos mais velho que Nasrallah, o poeta nasceu em um vilarejo da Galileia, àquela altura região do Mandato Britânico na Palestina. Ainda criança, precisou fugir às pressas com a família por causa da Nakba.
No Brasil, foram publicados dois livros de prosa de Darwich. Um deles, Diário da tristeza comum (também traduzido por Safa Jubran), com textos entre o conto e a crônica, tem como motivo principal o sofrimento dos palestinos, desde o deslocamento forçado de sua terra até o preconceito que experimentam no exílio, que atinge inclusive as crianças:
Você não foi capaz de conter sua raiva no exílio quando seus colegas de turma lhe lembraram que você era palestino e não tinha o direito de se destacar. Esses insultos foram as primeiras chaves de uma consciência que se apoderaria de você em poucos anos, quando percebeu que sua situação não era simplesmente uma questão de reivindicar direitos iguais ou de conseguir mais pão em situação de crise. Mesmo naquela tenra idade você sentia instintivamente que se libertar desses insultos significava se livrar das circunstâncias que os provocavam. E esse foi o início de sua necessária – não acidental – ligação com seu mundo primeiro. Foi então que sua aldeia vagamente lembrada, com seus becos estreitos, situada em morros na planície de Akkā, se transformou na solução para um problema que você ainda não havia compreendido. Assim, as coisas da infância, que você havia deixado para trás, e seu retorno para recuperá-las tornaram-se o meio pelo qual você poderia provar que não era diferente dos outros: eram evidências de que você possuía os acessórios da vida e não precisava se sujeitar a insultos.
Como em Kanafani, é a evocação da memória que ajuda a constituir a identidade do povo palestino. No texto que dá título ao livro, Diário de uma tristeza comum, o mais forte do volume, Darwich junta pequenas crônicas, com personagens em situações, regiões e momentos históricos distintos, mas que terão o mesmo destino: a violência a que serão submetidos por causa de sua origem. Porém, a necessidade de esclarecer ao mundo a situação palestina torna muitas vezes outros textos do livro um tanto didáticos, prejudicando sua elaboração estética.
Esse não é o caso do ótimo romance Memória para o esquecimento (outro traduzido por Safa Jubran). Nele, Darwich aciona toda a herança dos grandes autores modernistas para narrar um único dia de agosto de 1982, quando Israel bombardeou Beirute. Já no início o autor busca definir o tipo de literatura que almeja para narrar a tragédia palestina:
Quanto a mim encerro a busca por linguagem figurativa. Paro completamente minha procura por interpretação, pois a essência da guerra é degradar os símbolos e levar as relações humanas, o espaço, o tempo e os elementos de volta a um estado primordial, que faz com que a visão da água jorrando de um cano quebrado na rua nos deixe felizes, porque aqui a água chega até nós feito um milagre.
Também no início, o narrador toma uma decisão radical, descrita com grande vigor dramático:
Não quero morrer desfigurado sob os escombros. Quero ser atingido no meio da rua, de repente. Quero queimar completamente, virar carvão, de modo que nem mesmo os vermes daquele romance possam fazer o seu eterno dever em mim: vermes não comem carvão.
Assim vou dizer para mim mesmo que estou procurando um jornal, para justificar meu vagar numa rua vazia até de cães e gatos.
Não me importo com o que acontece para além da janela. Bombas, foguetes, navios, jatos, artilharia, todos soprando no meu caminho feito um vento furioso, caindo qual chuva, sacudindo um lugar como um terremoto.
Certos personagens aparecem apenas com suas iniciais, procedimento usado para demarcar as figuras que o poeta pretende identificar e outras que, a seu ver, seriam apenas modelos para esse ou aquele tipo humano. Alguns outros são claramente nomeados, a exemplo do trecho a seguir, que acomoda as angústias do poeta:
– No entanto nosso grande amigo paquistanês, Fayiz Ahmad Fayiz, está ocupado com outra questão.
– Onde estão os artistas?
– Quais artistas, Fayiz? – eu pergunto.
– Os artistas de Beirute.
– O que quer deles?
– Que desenhem esta guerra nos muros da cidade.
– O que você tem, Fayiz? Não vê os muros desabando? – exclamo.
Fayiz Ahmad Fayiz (1911-84) foi um escritor e intelectual paquistanês que aliou a poesia à militância, inclusive na imprensa e nos debates intelectuais e políticos. A discussão de fundo que Darwich levanta é como trazer para a literatura uma guerra que retira inclusive o suporte de trabalho dos artistas. Se vão destruir os muros para que não sobre nem mesmo um grafite sobre a situação palestina, o narrador está decidido a não deixar seu corpo debaixo dos escombros. Em estado onírico, vaga pela cidade, enquanto evoca contatos, dialoga com antigos interlocutores e reflete sobre a cidade que está sendo destruída:
Beirute é bonita em si mesma? O movimento, a conversa, a multidão e o burburinho do comércio costumavam esconder esta percepção, transformando Beirute em um conceito, um significado, uma expressão, um significante. Esta cidade imprimiu livros, distribuiu jornais, realizou seminários e conferências para resolver os problemas do mundo, mas não prestou atenção a si mesma. Estava sempre ocupada mostrando a língua, zombando da areia e da repressão ao seu redor. Era uma oficina para a liberdade. Suas paredes carregavam a enciclopédia do mundo moderno: era uma fábrica de cartazes.
A colagem é outro procedimento modernista adotado por Darwich, o que permite que o leitor se depare, em Memória para o esquecimento, com um famoso editorial/manifesto que o poeta escreveu no mesmo ano do bombardeio de Beirute, a fim de alertar sobre a despolitização oportunista de alguns artistas árabes:
Na verdade, atribuímos ao fenômeno um endereço político adequado e prestamos atenção; prestamos atenção às armas da literatura, que são poderosas o suficiente para esconder sua traição, alegando santidade e fragilidade dos sonhos, sob a capa do “nojo da política”, ou seja, da luta. Não. Não somos estranhos em nenhuma terra árabe. Os estranhos são aqueles que apontam para o nosso exílio com dedo de acusação, porque eles são alheios à própria história e ao significado de sua existência, alheios numa onda passageira, em que o ladrão não vê nada além do rosto de outros ladrões. No entanto, se não conseguimos lisonjear o tradicionalismo, também não estamos contentes em nos estabelecermos no caos de um experimentalismo que não tem nada a dizer além de declarar sua modernidade.
O trecho mais famoso do livro remete a uma passagem de Ulysses, de James Joyce: o desjejum de Leopold Bloom. Em Memória para o esquecimento, porém, não são preparadas vísceras de animais nem está em causa a vida sexual e conjugal, mas, sim, a violência das bombas, durante um prosaico café:
Mas será que cinco minutos são suficientes? Sim, bastam para eu me esgueirar por este corredor estreito que dá para o quarto de dormir, que dá para o escritório, que dá para o banheiro sem água, que dá para a cozinha, onde estou tentando chegar faz uma hora, mas não consigo, nunca consigo.
Enfim, o flâneur vai agora vagar em meio à destruição – como se o poeta dissesse que cada escritor tem o modernismo que a história lhe reservou.
Em 2023, um incidente sintomático acabou levando um romance palestino à fama. Dias antes do ataque do Hamas a Israel, a Feira do Livro de Frankfurt havia conferido um de seus prêmios ao romance Detalhe menor, da escritora Adania Shibli (mais uma tradução de Safa Jubran). Embora não tenha retirado o reconhecimento ao livro, a feira resolveu cancelar a cerimônia de entrega do prêmio porque Shibli é palestina.
É possível comparar esse fato com o comportamento de boa parte do mundo diante do que acontece há décadas na Palestina. Mesmo tendo promovido um genocídio na região, Israel não sofre nenhuma sanção realmente efetiva. Nem mesmo do Brasil, cujo presidente é uma das mais loquazes autoridades no mundo a condenar os ataques à Faixa de Gaza.
Shibli é radicada na Alemanha e, como todos os prosadores palestinos citados neste texto, além de se dedicar à literatura, tem uma relevante formação acadêmica. Fez o doutorado em estudos de mídia e cultura na Universidade de East London, o pós-doutorado no Instituto de Estudos Avançados em Berlim e lecionou na Universidade de Nottingham, na Inglaterra. Com 51 anos, talvez seja a escritora palestina mais jovem a ganhar considerável repercussão internacional.
Detalhe menor, formado por duas ficções distintas e complementares, vai dos dias seguintes à Nakba ao tempo presente. Na primeira novela, uma patrulha de elite israelense segue pelo deserto e estabelece ali um posto avançado. A data exata é o dia 9 de agosto de 1949, e Shibli descreve os militares assim: “Eles eram o primeiro e único destacamento a chegar a esse ponto extremo no Sul, desde que a trégua fora anunciada, e era deles a total responsabilidade de mantê-lo seguro.” A patrulha permanece atenta, mas nada a ameaça mais que o calor terrível e os insetos agressivos do local. Três dias depois, os militares prendem uma pré-adolescente palestina. O comandante então começa um jogo doentio com seus soldados:
Depois de alguns momentos, durante os quais ninguém se atreveu a proferir uma palavra, o que aumentou a tensão dentro da barraca, ele retomou a palavra e disse que lhes ofereceria duas opções, das quais deveriam escolher uma: ou eles mandavam a menina para a cozinha, para que trabalhasse ali, ou todos poderiam se divertir com ela.
Mais tarde, ele dirá, sorrateiro, que “se algum deles tocasse na menina, a consequência seria ‘esta’, apontando para o rifle apoiado à direita”.
O que aconteceu com a menina o leitor só saberá na segunda novela, que conta sobre uma pesquisadora palestina que descobriu o caso da garota capturada pela patrulha e se impressionou com uma coincidência: “O que mais me chamou atenção foi o detalhe relacionado com a data do referido incidente, ocorrido numa certa manhã que coincidiria, passado um quarto de século, com a manhã do meu nascimento.”
Essa coincidência e a pesquisa sobre os fatos ocorridos com a menina no deserto fazem a condição psicológica da pesquisadora deteriorar. Em busca de algum conforto, ela resolve procurar mais informações sobre o episódio. Tudo está, no entanto, muito bem escondido nos arquivos israelenses, e de modo bastante inacessível, ainda mais para ela, que é palestina:
Tanto o local do incidente como os museus e arquivos que contêm os documentos que podem me interessar, conforme a divisão do país feita pelo Exército, se localizam fora da zona C, e até mesmo para além dela, mais próximas da fronteira com o Egito, sendo que a única viagem que minha carteira verde, na qual consta que pertenço à zona A, me permite fazer é da minha casa para o meu novo emprego.
A narradora vai ao local no deserto onde tudo ocorreu, e uma de suas primeiras observações é a de que quase não há mais palestinos por lá. Ela nota ainda como os israelenses não estão dispostos a mostrar documentos sobre a ocupação da área, menos ainda algo que denuncie o estupro como arma de guerra, como ocorreu com a garota. Mas a pesquisadora consegue disfarçar a própria origem e encontra um oficial que, no passado, participou de ações na região. Ele aceita contar a sua versão, que é a mesma do governo que ele defende, segundo a qual as próprias vítimas são culpadas pelo crime:
Ele responde que um dia, durante uma de suas rondas, eles encontraram o corpo de uma jovem beduína num poço próximo; e explica que, quando os árabes suspeitam do comportamento de uma jovem mulher, eles a matam e jogam seu cadáver num poço. E que ele se sente mal por isso, diz, por existirem costumes assim entre eles.
Para Ghassan Kanafani, a pátria palestina depende da memória para existir. Adania Shibli dá um passo além e mostra como a própria documentação a respeito dos palestinos é continuamente apagada, o que dificultará bastante o trabalho da memória no futuro. Esse apagamento não expressa somente o desejo de que os palestinos sumam do mapa. O invasor e seus aliados tentam fazer de tudo para que o mundo acredite que os palestinos nunca existiram. A literatura não vai deixar.
[1] Todos os livros de escritores palestinos comentados neste texto foram publicados pela Editora Tabla, com exceção de Detalhe menor, que saiu pela Todavia.
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