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TEIA DE ABUSOS

Modelos acusam agente e maquiador de assédio sexual
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Desde que 38 mulheres denunciaram que foram sexualmente assediadas ou estupradas pelo francês Gérald Marie, então poderoso chefe europeu da Elite, uma das maiores agências de modelo do mundo, sabe-se que as modelos são alvo constante de predadores sexuais. Desde que treze modelos masculinos e assistentes revelaram que foram sexualmente assediados pelo peruano Mario Testino, um dos mais famosos fotógrafos de moda do mundo, sabe-se também que nem só as mulheres são vítimas de abusos criminosos no universo da moda. No Brasil, um mercado em que agências e modelos proliferam cada vez mais, a situação não é diferente. Como os modelos e as modelos trabalham numa atividade que vende a beleza física, explora a sensualidade e incita o desejo, a fronteira entre o que é aceitável e o que é abusivo sempre foi tênue – mas nada prepararia Clemerson de Souza para o que estava por vir.

Em um sábado de 2019, aos 17 anos, 1,88 de altura, pele morena, olhos verdes e dentes alvíssimos, ele estava se preparando para deixar o shopping center em Natal, no Rio Grande do Norte, onde acabara de participar de um concurso de modelos promovido pela maior agência do Nordeste, a Tráfego Models, quando um dos jurados o procurou. Era Anderson Meira Medeiros, então com 39 anos, representante da agência paulista Another, patrocinadora do concurso. Clemerson de Souza não ficara entre os finalistas, mas o agente, conhecido como Anderson Meyer, achou que o jovem tinha potencial e convidou-o para uma sessão de fotografia no dia seguinte.

Na manhã de domingo, as fotos foram feitas no estacionamento do mesmo shopping, onde havia vários candidatos a modelo. Meyer fotografou um a um, em poses e roupas diversas, inclusive apenas de sunga. Nem se preocupou em pedir a presença ou a autorização de um responsável para fotografar quem era menor de idade, como manda a praxe no setor. Concluídas as fotos, feitas com celular, Meyer aparentemente fez contato com a Another e logo deu um retorno positivo para Souza. “Em dez minutos, ele me disse que todo mundo da agência tinha me aprovado”, me disse Souza, em setembro passado. Por WhatsApp, tratariam de sua ida para São Paulo.

Clemerson Vitor Leocádio de Souza, que cresceu na periferia pobre de Natal, ficou empolgado. Finalmente, aparecia uma chance de mudar de vida. Ele trabalhava desde os 12 anos, abastecendo prateleiras de um mercado e vendendo água e sanduíche na praia. Tinha 4 anos quando sua mãe sobreviveu a uma tentativa de feminicídio por parte do seu pai. A mãe casou-se pela segunda vez, teve uma filha diagnosticada com autismo, o novo marido também era violento, e a pobreza continuava a fustigar a família. “Para mim, trabalhar nunca foi uma opção. Era obrigatório”, diz Souza. Como modelo em São Paulo, ele vislumbrou ganhar o suficiente para ajudar a mãe a se separar de novo e ter uma vida independente.

O agente Anderson Meyer voltou para São Paulo e deixou orientações claras para Souza. Até maio de 2020, quando faria 18 anos e teria idade para se mudar para a capital paulista, Souza deveria deixar o cabelo na cor natural, usar cremes para acabar com os cravos do rosto, treinar em academia para tornear o corpo e mandar fotos sem camisa e de sunga, de modo que o agente pudesse acompanhar a evolução do seu físico – no mundo da moda, qualquer gordurinha pode ser fatal para a carreira. Uma vez que Souza estivesse em São Paulo, Meyer pagaria seu book fotográfico (que não sai por menos de 2 mil reais), bancaria três meses de aluguel em uma república de modelos (que custava 300 reais por mês) e daria uma ajuda de custo mensal, que não foi estipulada.

No Natal de 2019, entretanto, a situação familiar de Souza se deteriorou. Ele testemunhou uma briga – mais uma – do casal e protestou contra o padrasto, que o expulsou de casa. Abrigado na casa de uma amiga, Souza fez contato com Meyer para saber se podia antecipar a viagem para São Paulo. O agente comprou para ele uma passagem de ida. No dia 31 de dezembro, o jovem despediu-se da namorada e conseguiu embarcar sozinho, apesar de ser menor de idade e não ter autorização dos pais. Era sua primeira viagem de avião. No início da noite, poucas horas antes da virada do ano, desembarcou no Aeroporto de Guarulhos, onde um Uber encomendado por Meyer foi apanhá-lo. O rapaz levava uma mala pequena e 100 reais na carteira, mas estava feliz e curioso para conhecer a república de modelos onde ficaria hospedado.

Quando o carro de aplicativo estacionou numa rua do bairro Higienópolis, Souza animou-se. “Vi o prédio e pensei que a minha vida iria mudar mesmo, que teria uma boa estrutura para trabalhar.” Entrou no prédio e, no andar combinado, apertou a campainha. Meyer abriu a porta. Não era a porta da república de modelos, mas do apartamento do agente, que estava sozinho. Na hora, o rapaz pensou: “Acho que me fodi.” Ele conta que tentou manter a calma. “Eu não podia demonstrar raiva ou receio. Não conhecia nada nem ninguém na cidade. Tentei manter a naturalidade. Se ele me mandasse embora, eu não saberia o que fazer.”

Meyer o abraçou e disse que tinha comprado algumas peças de roupa para Souza vestir no Réveillon. Entregou uma camiseta, uma calça e uma cueca. Orientou o garoto a tomar banho na sua suíte, dizendo que o banheiro social estava interditado. A porta de correr do banheiro da suíte estava sem trinco. O adolescente tomou banho de cueca, com receio de alguém aparecer ou de estar sendo filmado.

Dois amigos de Meyer, ambos do mercado de moda, chegaram para a ceia. Um deles era Zeca Barreto, 49 anos na época, agente da Mega, a maior agência de modelos do Brasil. O outro era Eduardo Assis, produtor de moda. “O Anderson me olhava de cima a baixo, dizendo que eu era lindo, forte, moreno de olho claro. Na hora, pensei em ligar para a minha mãe, mas ela já estava com problemas demais. Ele falava que eu era um achado, que ia bombar muito e que todas as marcas iriam me querer. Eu achei que ia mudar a minha realidade e a da minha mãe também. Eu só falava ‘obrigado’.”

Depois da ceia, todos foram para a Avenida Paulista ver a queima de fogos. No caminho, Meyer pediu que Souza andasse de mãos dadas com ele dizendo que o lugar era perigoso. Ao fim dos fogos de artifício, os dois convidados da ceia foram embora. Meyer e o adolescente voltaram para o apartamento. “Eu nunca tinha passado o Ano-Novo sem minha mãe. Daí o Anderson foi tomar banho, e eu liguei para ela. Quando ele voltou e me viu no celular, ficou bravo. Disse que modelos precisam ser desapegados, que quem sente saudades de casa e dos parentes acaba não dando certo.” Depois, o agente convidou o adolescente para dormir com ele na suíte. “Na minha cama tem espaço”, disse, segundo o relato do jovem, que recusou o convite e dormiu no sofá.

Na manhã do dia 1º de janeiro, Meyer falou ao adolescente que estava planejando ir a Santos, no litoral paulista, com os mesmos amigos da noite da virada. Meyer deu uma sunga para o jovem, que se recusou a usá-la, porque era muito pequena. Souza conta que, na praia, Meyer o fitava sem parar e dava risadas com os amigos, como se tivesse ganhado um troféu. Quando decidiu tomar banho de mar, o rapaz foi acompanhado por Zeca Barreto, que, dentro da água, sugeriu que ele fizesse uma “simpatia de Ano-Novo”: bater o pênis no mar três vezes seguida. Ele se recusou, cada vez mais assustado com o que acontecia.

Na noite do dia 1º, já de volta a São Paulo, mais uma vez Meyer convidou Souza para dormir em sua cama. Ele não quis e voltou ao sofá. De madrugada, incomodado com o vento que vinha da varanda, ele acordou duas vezes para se cobrir, depois que o lençol escorregou do sofá. Então, acordou uma terceira vez e deparou com Meyer sentado no sofá, vestindo um jockstrap – modelo de cueca que deixa as nádegas de fora – e alisando a sua coxa, “já perto da virilha”, com um lubrificante. A tevê estava ligada em um filme pornô. “Quando vi tudo aquilo, surtei. Não bati nele, mas falei: ‘O que você tá pensando? Você me trouxe da minha cidade para isso?’”, recorda o jovem. Meyer disse que o tinha trazido para ser seu namorado e que se separara de seu companheiro justamente para começar uma nova relação com Souza. “Nunca foi falado de namoro, eu vim a São Paulo para trabalhar”, respondeu o jovem. Meyer insistiu. Perguntou se o rapaz o estava repelindo porque ele era “velho” e “gordo”. Souza retrucou: “Não. É porque sou hétero, e vim aqui para trabalhar.” Quando já era de dia, o agente pediu que ele arrumasse suas coisas e despachou-o de Uber para a república de modelos.

Na tarde do dia 2, assim que chegou à república, Souza soube que, em vez de um quarto, ele dormiria em uma garagem transformada em dormitório. No mesmo dia, contatou Meyer e perguntou se ele não tinha medo de trazer um menor de outro estado para fazer “aquele tipo de coisa”. O agente disse que estava se sentindo ameaçado e chamaria um advogado. “Quando conheci esse menino, o Clemerson, perguntei se ele queria registrar um boletim de ocorrência”, me disse a governanta da república de modelos, que pediu para ser identificada apenas com as suas iniciais. Ex-diarista, C.E.M.S. saiu do interior de São Paulo para acompanhar a filha que, ainda criança, fora aprovada para trabalhar como modelo em uma agência.

Com receio de não conseguir trabalho, Souza não quis procurar a polícia. Chegou a fazer o book fotográfico financiado por Meyer, que, entretanto, nunca lhe ofereceu um contrato como modelo. Um dia, Meyer chamou Souza na Another para dizer que não via perspectivas para ele ali. “Ele falou que não tinha jeito, que não ia ter tesão de me vender para o mercado”, conta. Meyer disse que, depois dos três meses de aluguel pagos por ele, Souza teria que se virar por si próprio.

Sem emprego como modelo, o jovem conseguiu uma vaga como bartender, mas teve que mentir sua idade. Ganhava pouco. Às vezes, seu almoço e seu jantar eram apenas bananas. Alguns colegas de república perceberam que ele não comia direito e compartilhavam as refeições. As coisas se agravaram durante a decretação da quarentena na pandemia. Souza entendeu que não dava para seguir em São Paulo. Para voltar a Natal, foi preciso que sua namorada fizesse um empréstimo. E, assim, o sonho de ser modelo se transformara em martírio.

Em agosto de 2024, depois de cinco anos de vida autônoma, a Another foi anexada à agência Mega, que lançou modelos como Isabeli Fontana, Raquel Zimmermann e Ana Beatriz Barros. Com a fusão, Luiz Pretti e Anderson Meyer, responsáveis pela Another, se transferiram para o escritório da nova agência. A mudança não foi bem recebida por todos. Modelos que haviam trocado a Another pela Mega não gostaram de ver Meyer integrando o comitê responsável por contratar novos talentos – e com ascendência hierárquica sobre esse elenco jovem.

D.C., de 40 anos, não demorou a entender a reação adversa. Ele era modelo na Another, mas, com a fusão, passou a trabalhar com os jovens modelos masculinos da Mega, coordenando os books fotográficos, dando aulas de passarela e aconselhando os mais novos sobre o mercado. Na nova função, teve mais contato com o elenco jovem. Em junho passado, recebeu uma mensagem de WhatsApp de um rapaz de 20 anos. Ele reclamava que Meyer havia pedido que fizesse fotos sensuais no estúdio da Mega, onde é proibido fotografar sem roupa. Contou que, na sessão, Meyer tinha “ficado de gracinha” e disse que outro colega havia passado pela mesma situação. D.C. ligou para esse outro colega.

Foi o início da descoberta de uma teia de abusos e assédios. “Esse novo modelo me contou coisas absurdas, como oferta de dinheiro pelo Anderson para fazer sexo oral e vantagens de trabalho se os dois virassem namorados.” D.C. acabou se tornando uma espécie de confidente da turma. “Por eu ter três filhas, ser heterossexual e trabalhar nesse mercado há muitos anos, o pessoal se sentiu à vontade para falar comigo”, diz. Nas conversas, um modelo foi levando ao outro. Em questão de dias, D.C. falou com outros três jovens, que relataram histórias parecidas e complementares.

Em contato com um advogado, D.C. foi orientado a procurar o RH da Mega e informar sobre todos os casos. No dia 4 de julho, ele contou tudo o que ouvira para outro booker da Mega, Danilo Sanchez, de 43 anos, que também gerenciava a carreira de jovens modelos. D.C. exibiu prints de conversas e áudios que os rapazes haviam lhe fornecido. Ao tomar pé de tudo, Sanchez ficou possesso, segundo me contou quando conversamos em um restaurante no bairro do Paraíso, em setembro: “Eu me vi no lugar dos pais daqueles jovens e quis ir a fundo para saber mais do caso, depois de ler prints e escutar áudios.”

No fim de semana, Sanchez resolveu falar com dez ex-colegas de trabalho de Meyer, entre eles agentes, fotógrafos, produtores e C.E.M.S., a governanta da república. Também ligou para vários modelos, perguntando se já tinham sofrido algum assédio da parte de Meyer. O resultado das conversas foi robusto: 18 modelos aceitaram falar e autorizaram que a conversa fosse gravada. “As histórias eram parecidas. As vítimas disseram ter sido contatadas por mensagens de visualização única, dessas que apagam logo após a leitura”, diz Sanchez. (Hoje, o material, ao qual a piauí teve acesso parcial, está com o Ministério Público e a Polícia Civil, que investiga o assunto.)

Um dos casos aconteceu há quase dez anos. O modelo, que hoje atua fora do Brasil, mostrou prints de conversas com Meyer no Instagram em 2017, quando venceu um concurso para trabalhar na agência Oxygen, da qual o agente era sócio na época. “Gosta de bucetinha rosinha? Kkk Vou te apresentar umas putinhas amigas. Posso assistir um dia você em ação?”, lhe escreveu Meyer. O agente propôs pagar para o modelo agenciar algum parente heterossexual: “Se [você] tiver um primo hétero, mas que ame $, me apresenta que viro amante secreta dele e ajudo sem ninguém saber. […] Já percebi que a família aí tem potência kkk quase um Kid Bengala kkk.”

Outro modelo, contratado em Minas Gerais quando tinha acabado de completar 18 anos pela mesma Oxygen, revelou ter sido assediado várias vezes por Meyer, que, ao conhecê-lo, disse que o rapaz era muito parecido com um ex-namorado. Na conversa gravada por Danilo Sanchez, esse modelo relatou: “Ele [Meyer] falou que estava procurando um outro [namorado, parecido com o antigo], como se fosse um fetiche, sabe? Então, a gente fica naquela posição, sem poder falar nada”, disse ele. Seu primeiro ensaio fotográfico feito pela agência foi sem roupa, algo que lhe causou estranheza. “Eu ouvi dele coisa do tipo: na moda existem dois caminhos, um fácil e outro difícil. O difícil seria você batalhar duro até conseguir o que almeja, sabe? O outro seria a troca de favores sexuais.” O modelo nunca cedeu aos assédios.

No Instagram, Meyer conversou com ele nos seguintes termos:

Me acha uma bicha fofa? – pergunta o agente.

É sim kkkkk bobo – responde o modelo.

– Fofa gorda? Ou fofa legal? Ou Fofa que dá para comer kkk?

Fofa legal, carismático, divertido, humilde e com senso de humor.

Ixi, essas coisas é que ninguém come aff [emoji de carinha triste].

Um rapaz de Mato Grosso do Sul, que se mudou para São Paulo para trabalhar na Oxygen, contou para Sanchez o que ouviu assim que foi apresentado a Meyer. O rapaz tinha 18 anos e, logo na primeira conversa, Meyer perguntou qual tipo de modelo ele gostaria de ser, nos seguintes termos: “Se eu ia deixar ser chupado por uma bicha ou se ia me foder trabalhando.” O modelo cortou qualquer investida. “Foi um choque de realidade. Eu era pintor de parede antes, nunca tinha escutado nada parecido com isso.”

Outro modelo afirmou que Meyer pedia fotos dele pelado, via rede social, e sempre lhe dizia que o caminho mais fácil para ascender na moda era o da “troca de favores”. Outro, ainda, disse que, ao recusar o convite para transar com Meyer, escutou dele uma segunda proposta: fazer sexo com uma mulher na sua frente. Um modelo do interior de São Paulo relatou que em 2018, quando foi fazer as fotos pela primeira vez, Meyer lhe disse que “no meio da moda eu teria de comer viado, que eu era um pedaço de carne”. O rapaz tinha 18 anos, filho de um vendedor e uma costureira, e Meyer sabia de sua situação financeira precária. O jovem também relata ter ido a um bar com o agente e outros modelos, quando Meyer apontou para um homem que descreveu como “filho de um dono de banco” e disse que ele “poderia mudar a minha vida”. “Eu fiquei em choque.” O modelo deixou o bar.

Os relatos de abuso não se restringem aos homens. C.E.M.S. conta que, em 2019, Meyer, ainda na agência Another, levou duas meninas, uma delas entre 16 e 17 anos – “não sei ao certo, mas certamente era menor”, disse ela –, para uma festa numa residência chique de São Paulo. “A menor me ligou chorando, pedindo socorro, dizendo que homens mais velhos queriam que as duas bebessem e ficassem de lingerie ou biquíni. Elas se recusaram”, contou C.E.M.S. “Eu liguei para o Anderson dizendo que, se essa garota não chegasse em casa em meia hora, eu chamaria a polícia.” A jovem voltou pouco depois do telefonema, mas teve que se mudar dias mais tarde para uma república de modelos mais velhas, porque Meyer queria que ela adquirisse um jeito de “mulherão”.

Depois de colher os relatos, Danilo Sanchez ligou para Anderson Meyer. A conversa que tiveram em 6 de julho passado, domingo, foi gravada. Durou 12 minutos. Sanchez começou assim:

Chegou até mim, através de modelo. Isso que [você] está fazendo na Mega não vai ficar barato. Isso é crime sexual. Você traz um cara lá da pqp, sem dinheiro, moleque, que nem perfil de modelo tem. […] São meninos que são modelos da Mega, que estão passando por essa situação, que vão na sua casa. Não são só homens, há menores de idade. Quando o moleque não te quer, você chama amiguinha para ir junto.

Claramente nervoso, Meyer negou ter assediado sexualmente os jovens, mas assumiu ter se relacionado com modelos e subordinados em troca de dinheiro. “Eu não nego que dei dinheiro e já sustentei vários”, disse ele a Sanchez. Quando indagado se coagia os meninos a fazer sexo oral, o agente disse: “Eles sabem o que fazem, eles são adultos.” Dos 18 rapazes ouvidos por Sanchez, apenas Clemerson de Souza ainda era menor de idade quando aconteceram os fatos relatados.

No dia seguinte, uma segunda-feira, quando chegou à Mega às 8h30, Sanchez foi comunicado que, em pleno fim de semana, Meyer esteve no local e retirou algumas pastas e seu computador. Quem contou a Sanchez sobre a movimentação de Meyer foi um segurança da agência, de acordo com uma troca de mensagens à qual a piauí teve acesso. Informado do que estava acontecendo, Eli Hadid, o dono da Mega, marcou uma reunião com Meyer para a tarde da mesma segunda-feira. O agente apareceu com dois advogados e negou ter cometido assédio. Disse que o propósito de Sanchez era levar todos os modelos para uma agência concorrente.

Hadid deixou a sala de reunião para conversar com Sanchez, que não só negou que estivesse atuando para outra agência, como falou que levaria o caso para a esfera criminal por estar muito abalado com os abusos e assédios. Ao retornar à reunião, Hadid disse a Meyer: “Se alguém nessa sala sabe toda a verdade, esse alguém é você. O que prefere fazer?” Meyer decidiu deixar a empresa, sem qualquer acordo rescisório. “Fora da Mega, ele pode se defender junto às autoridades competentes”, me disse Hadid. “Não falo do caso dele, mas de modo geral: aqui dentro, nenhum modelo pode ser fotografado pelado, nem jamais um agente pode oferecer dinheiro em troca de sexo, ponto final.”

Aparentemente, Meyer chegou à reunião decidido a pedir demissão. Tanto que, antes disso, Meyer mandou mensagem para quatro rapazes agenciados pela Mega que sublocavam uma quitinete alugada por ele no bairro do Bixiga e pediu que deixassem imediatamente o local. “Os garotos foram avisados por Whats­App e tiveram de ir para casa de amigos ou parentes. O que o Meyer queria esconder, limpando sua sala na Mega e encerrando uma república de modelos?”, indaga Sanchez. O agente disse que um dos modelos estava fumando maconha no local, algo que ele disse não tolerar.

No dia 19 de julho passado, Sanchez fez um post em seu perfil do Instagram com o título O mercado da moda é sério, no qual falava, que nesse ramo cheio de “profissionais apaixonados por arte, moda, cinema, imagem, criativos”, havia “uma minoria medíocre”. E acrescentou: “Vocês, modelos, saibam que uma agência de modelos sem modelos é só parede.” Seis dias depois, Sanchez criou uma lista de transmissão no WhatsApp com mais de duzentos modelos da Mega, para os quais enviou a gravação da conversa com Meyer.

A postagem e o áudio levaram mais quatro modelos a procurarem Sanchez para formalizar suas denúncias, fazendo o total de denunciantes subir de 18 pa­ra 22. Entre eles, estava um modelo de 32 anos que hoje trabalha na Ásia (ele pediu que a piauí não revelasse o país). Em 2014, quando tinha 21 anos e morava no interior de São Paulo, o jovem foi descoberto em uma rede social por Meyer, que o convidou para fazer um teste na capital. Uma vez aprovado, lhe disseram que a campanha de moda iniciaria no dia seguinte. “À noite, saímos para jantar eu, ele e mais dois modelos”. Daí, foram à casa de um estilista e, a certa altura, o jovem disse para Meyer que havia decidido ir embora. Meyer lhe deu o endereço da casa dele.

“Cheguei lá sozinho e fui dormir para trabalhar no dia seguinte, mas notei que a tranca do quarto estava quebrada”, contou ele a Sanchez. Ele decidiu se deitar de calça. Horas depois, quando ainda dormia, sentiu um peso na região de sua genitália. “Quando abri o olho, vi o Anderson ajoelhado na cama tentando abrir a minha calça. Daí xinguei o filho da puta. Ele falou ‘shhhh’, pedindo silêncio e dizendo que iria me dar dinheiro. Sorte que não achei uma faca, senão teria picado ele”, disse o modelo. O rapaz deixou o apartamento e ligou para o pai, que saiu da cidade onde morava, a 180 km de São Paulo, para buscá-lo. Ele não quis fazer denúncia nem contou à família o que acontecera. Ele autorizou a piauí a ter acesso ao seu depoimento a Sanchez, mas não quis dar entrevista.

No conjunto dos 22 depoimentos, Danilo Sanchez soube de outro acusado de assédio sexual: o prestigiado maquiador Marcos Costa, que havia três décadas trabalhava na Natura, a gigante dos cosméticos. Costa está entre os profissionais de beleza mais bem-sucedidos do país, mas seis modelos contaram que foram assediados por ele – alguns dos quais já prestaram depoimento na investigação da Polícia Civil. E, aparentemente, havia uma operação conjunta entre o maquiador e o agente Anderson Meyer.

Interrogado pela polícia, um dos modelos contou que, em 2019, quando ainda trabalhava na Another, foi enviado por Meyer até o apartamento de Costa para fazer um teste de trabalho em nome – supostamente – da Natura. Ao chegar no local, estranhou ter encontrado apenas o maquiador, mas nenhuma equipe de teste, geralmente integrada por produtor, fotógrafo e figurinista. O jovem foi então convidado a entrar em uma “sala de reunião”, que, na verdade, era um quarto de hóspedes. Estranhou ainda mais quando Costa ligou a tevê do quarto com um filme pornô.

No quarto, ainda segundo o depoimento policial, o maquiador lhe entregou uma cueca asa-delta e mandou que se trocasse na sua frente. Em seguida, Costa pegou um barbeador e, a pretexto de aparar os pelos pubianos do modelo, abaixou-se na frente dele e fez menção de praticar sexo oral. O modelo se afastou, dizendo não ser “esse tipo de pessoa” e que iria embora. Costa então se levantou e lhe deu de presente um óleo de cabelo da Natura. O garoto entendeu que era um agrado, a fim de comprar o seu silêncio, e voltou diretamente para a república de modelos administrada por C.E.M.S.

A governanta da república, que também já foi chamada para depor, relatou outros episódios envolvendo Meyer e Costa. Ela disse que três rapazes lhe contaram que, por orientação de Meyer, se deslocaram até o apartamento de Costa, onde foram recebidos com a tevê exibindo filmes pornô. Em seu depoimento, C.E.M.S. disse que a explicação de Costa era sempre a mesma: “[É] para você ter ereção e ficar bonito na cueca para tirar fotos.”

Um modelo gaúcho – que não conhece a governanta nem Anderson Meyer – contou seu caso à piauí, em entrevista por telefone. Entre 2010 e 2011, quando tinha 23 anos, o jovem foi contatado por Costa por meio do Facebook. “Ele se apresentou como maquiador da Natura e pediu para eu dar um Google para comprovar quem ele era.” As conversas migraram para o Skype, quando Costa pediu que o modelo ficasse apenas de cueca. Como avaliação física é comum no mundo da moda, o jovem não achou o pedido descabido. Mas, já com alguma experiência como modelo da Ford Models, ele achou estranho que o maquiador famoso tivesse lhe procurado diretamente, e não via agência, como é praxe no mercado. “Fiquei com medo de questionar e perder o trabalho”, diz.

Costa enviou para o rapaz a passagem aérea de Porto Alegre a São Paulo e deu como endereço de trabalho o seu apartamento nos Jardins. “Eu me lembro como se fosse hoje”, diz o modelo. “Ele usava uma calça tailandesa larga e estava na frente do computador.” Havia uma empregada na casa, que deixou o local em seguida. Costa pediu para ele tomar banho em uma suíte e, em seguida, vestir “cueca ou sunga” para fazer as fotos, que foram tiradas dentro do banheiro pelo próprio maquiador. “Daí ele falou que a minha perna estava peluda e pediu para aparar. E veio depilando a minha perna na direção da virilha, afastando para o lado o pênis por cima da sunga.”

O modelo ficou paralisado. Costa percebeu seu desconforto e disse que o “cliente”, cujo nome nunca mencionava, definira um pagamento de 50 reais por dia ao modelo, mas que ele decidira aumentar o cachê, por conta própria, para 100 reais. “Eu voltei para o quarto pensando que tinha alguma coisa errada. O cara nada de mencionar o nome do tal cliente. Eu tinha vindo do Rio Grande do Sul para um trabalho fechado, não para um teste.” Ele prossegue: “Depois, fui à casa de uns amigos modelos em São Paulo e, chegando lá, falei o nome do Marcos Costa. Um deles deu uma risadinha. Na hora, percebi que eu tinha caído em uma furada.”

No dia seguinte, Costa entrou em contato para cancelar o trabalho, dizendo que o “cliente” tivera um imprevisto. Semanas depois, o rapaz entrou em contato com o maquiador e pediu para ter acesso às fotos feitas no banheiro. Nunca as recebeu e ainda foi excluído por Costa do Facebook. “Levei um tempo para perceber que aquele trabalho não existia. Aquilo foi me causando uma revolta”, diz ele. “Quando fui contatado por uma pessoa que se apresentava como maquiador da Natura, pensei que me abriria portas. Até hoje tenho receio de que ele me prejudique, mas estou feliz por ter sido procurado para falar do assunto. Esse assédio ainda tem impacto na minha vida.”

Depois que colheu os depoimentos dos modelos, Danilo Sanchez procurou a Natura para avisar que, durante a investigação interna da Mega, o maquiador Marcos Costa tinha sido acusado de assédio sexual. A empresa pediu mais informações, mas Sanchez achou mais conveniente manter os detalhes em sigilo. No final de setembro, Costa ainda representou a empresa em um evento em Paris. Em seguida, os fatos se precipitaram.

No dia 8 de outubro, a piauí fez contato para ouvir a Natura sobre o caso. No dia seguinte, a empresa tomou uma providência concreta: suspendeu o contrato com Costa e notificou o maquiador para retirar de suas redes qualquer menção à companhia. Em nota à piauí, a empresa afirmou: “Os processos de seleção de modelos da Natura são conduzidos exclusivamente por agências homologadas e equipes internas da empresa.” Em outras palavras, os testes que Costa promovia em sua casa não eram em nome da Natura, mas uma iniciativa pessoal do maquiador.

Em sua defesa, Costa nega ter usado o nome da Natura para fazer castings com modelos em seu apartamento. “Não faço casting de marca nenhuma na minha casa”, ele me disse, em conversa por telefone. O maquiador contou que faz “ensaios autorais”, sempre por meio de agências, e negou ter pedido aos modelos para ficarem nus. Também negou depilar os jovens, entregar cuecas cavadas e exibir filmes pornôs na tevê. “Eu entrego roupão quando tem de fazer algo artístico, ao lado de fotógrafo e de outros modelos inclusive, dentro da minha casa.” As pessoas que o acusam dizem que não havia ninguém na residência de Costa, fora ele mesmo, quando estiveram lá.

Perguntei ao maquiador onde as fotos dos “ensaios autorais” são publicadas. Ele afirma que estão em seu perfil no Instagram e que, além disso, sairão em livro. (No seu perfil no Instagram, a piauí não encontrou nenhuma dessas imagens, apenas fotos de maquiagem.) Perguntei se ele de fato conhecia um modelo que o acusou em depoimento à política:

– Um menino que está na Mega? Há muito tempo nos conhecemos – respondeu Costa.

– Ele nunca pisou na sua casa? – indago.

– Não lembro de ele ter vindo em casa, são vários castings – disse Costa, voltando a dizer que só faz trabalho autoral em sua casa. – Nada a ver com marca.

Nos dias seguintes à nossa conversa, o maquiador contratou a advogada Laura de Azevedo Marques para fazer sua defesa. “Marcos não foi intimado, não foi notificado e soubemos de um inquérito que é sigiloso através da reportagem. Não temos conhecimento oficial da existência de uma investigação, e a defesa será feita nos autos”, disse a advogada. Na São Paulo Fashion Week de outubro passado, já demitido da Natura, Costa assinou a maquiagem do desfile do estilista mineiro Ronaldo Fraga, que se inspirou em Milton Nascimento.

Nos últimos anos, muitas agências de modelo criaram canais internos e regras de compliance. Poucas marcas contratam menores de idade. E, quando um menor entra em estúdio, é obrigatório que esteja acompanhado por um responsável da família ou da agência. Castings dentro de residências, sem a presença de testemunhas, são vetados. “A indústria da moda está entre os cinco maiores setores da economia brasileira. É inadmissível alguém no mercado tentar usar de poder para assediar modelos, prometer carreiras estreladas ou dinheiro em troca de benefício particular”, afirma Anderson Baumgartner, dono da Way, a agência que representa nomes como Carol Trentini e Alessandra Ambrósio. “Nós, agentes de modelos, tiramos pessoas de suas casas para começar uma jornada de trabalho. Temos a obrigação de zelar pela segurança de todas elas. Oferecer dinheiro por sexo é inaceitável”, diz Hugo Marcel, que hoje trabalha como agente do potiguar Clemerson de Souza.

Vestindo calça jeans e camisa verde, Anderson Meyer recebeu a piauí em uma tarde de outubro, ao lado de dois advogados, Mailson Mendonça e Kátia Santos, na sala de um coworking na região da Avenida Paulista. O agente de modelos estava nervoso e abatido – e agradeceu à reportagem por procurá-lo. “Estou sendo vítima de um massacre, essa é a chance de me defender”, justificou. Meyer disse que está sendo perseguido por seus dois ex-colegas da Mega – D.C. e Danilo Sanchez. Acredita que ambos têm algo contra ele, mas não sabe o que seria. Contou que, desde o início das denúncias, tem tido crises de pânico e anorexia nervosa, e já foi a um hospital algumas vezes para tomar soro. Disse que, em momentos mais graves, até já tentou suicídio.

Sobre as acusações de Clemerson de Souza, disse que havia encerrado um namoro e confirmou que pretendia ficar com o rapaz de 17 anos. Acrescentou que foi “ingênuo” por acreditar que ele e Souza estavam vivendo uma relação amorosa. Para justificar sua posição, colocou um áudio de uma mensagem que o jovem lhe enviou:

Nunca me interessei em fazer academia. Você perguntou se eu era muito mulherengo, sim, ocupava muito meu tempo com meninas. Inclusive tô até me relacionando com menina… Você falou que não é ciumento, né? Só Deus sabe se vai dar certo com ela. Eu já cheguei a entrar em carros de homens que me ofereceram dinheiro, mas eram homens mais velhos, mais de 50 anos, como nunca tinha feito, ficava nervoso. Mas com você, combinando de agora, eu acho que é diferente.

Meyer disse que, de fato, sugeriu ao jovem algumas melhorias em sua imagem para que começasse a trabalhar como modelo, mas não necessariamente na sua agência na época, a Another. “Ele poderia ir para outra agência ou trabalhar em shopping.” Disse que comprou passagem aérea para o rapaz ir para São Paulo quando soube que ele fora expulso de casa pelo padrasto. Meyer admitiu que nunca falou com a mãe de Souza, mas afirmou que o próprio rapaz não queria. O agente tampouco informou à Tráfego Models, que promovera o concurso em Natal, sobre a ida de Souza para São Paulo. “O Anderson sempre foi muito honesto e correto comigo, mas quem me conhece sabe que abomino esse tipo de relação entre agentes e modelos”, disse George Batista, sócio da Tráfego, ao confirmar que, de fato, não sabia da mudança de Souza para São Paulo.

Na versão de Meyer, ele nunca alisou o corpo de Souza, nem usou cueca jock­strap, nem ofereceu dinheiro a ninguém em troca de sexo. “Só se eu estivesse bêbado, pois não me recordo de nada disso”. Ele admitiu que, na madrugada de 1º de janeiro de 2020, tentou beijar Souza na sua casa, mas o rapaz se esquivou. Ali, ele entendeu que não haveria uma relação entre os dois. “Então eu preparei o sofá para ele dormir.” O agente mostrou à piauí uma troca de mensagens entre ele e Souza na madrugada, enquanto os dois estavam em cômodos diferentes do apartamento:

– Se preferir, não fazemos nada. Desculpa se fiz algo que não gostou – escreveu Meyer para Souza, às 2h48.

– Hey, Anderson, eu realmente tô afim, sim, até porque foi combinado e eu tenho palavra. E não estou fazendo só em troca do que tem a oferecer, carreira e tals, consequentemente dinheiro – respondeu Souza, às 3h43.

Clemerson Souza mantém suas acusações contra Meyer. Quando voltamos a falar, ele disse que não se lembra das mensagens na madrugada de 1º de janeiro de 2020 e levanta um ponto. “Agora, uma coisa é curiosa: se eu escrevi que ficaria com ele, por que ele me expulsaria da casa dele no dia seguinte, justamente por não ficar com ele? Isso não faz o menor sentido”, disse. “Eu estou com a minha consciência tranquila.” Acrescentou que nunca lhe passou pela cabeça ter relação amorosa com Meyer. “Ele dava algumas investidas, me chamava de lindo e gostoso. Eu não queria perder a oportunidade. Mas nunca ele falou: ‘Eu quero ficar com você.’ Eu vim a São Paulo para trabalhar como modelo. Não vim para namorar com ele.” Souza também negou que Meyer tenha pedido para falar com a sua mãe antes de levá-lo para São Paulo e que tenha tido relações sexuais com homens. “Pela minha aparência e por ser pobre, já fui muito assediado por homens da minha cidade, mas nunca fiz nada.”

Em sua defesa, Meyer afirmou que nunca teve problemas com o modelo que hoje trabalha num país asiático e o acusa de assédio. Disse que, depois de conhecer o rapaz em um concurso, passou a receber dele mensagens de cu­nho sexual. Meyer mostrou uma delas, cuja leitura dá a entender que o rapaz lhe mandou uma foto de visualização única mostrando seu pênis ereto. Em outra, o modelo lhe enviou uma imagem semelhante, à qual Meyer reage assim: “Onde é isso, seu delícia? Olha essas coxas, passo mal. Tô loca para dar para vc, sabia?” O rapaz diz que está num motel. Meyer então lamenta que ele não tenha feito um vídeo “em ação”. Como o modelo não quis dar entrevista, a piauí não pôde colher sua reação à versão de Meyer.

Além do rompimento do contrato do maquiador Marcos Costa, o pedido de demissão de Meyer o levou a desistir de continuar no ramo da moda. “Não me vejo mais em uma agência de modelos”, diz ele. Zeca Barreto, o agente que sugeriu a Souza a simpatia de Ano-Novo de bater o pênis três vezes na água do mar, foi demitido da Mega. Eli Hadid, o dono da agência, justificou: “Agentes não confraternizam com menores justamente para não ter qualquer tipo de problemas.”

Clemerson de Souza, hoje com 23 anos, mora em São Paulo e já desfilou na Itália e na Índia. Sua namorada, a mesma de quando tinha 17 anos, está concluindo o curso de direito em Natal e, depois, mudará para São Paulo. A mãe e a irmã de Souza já não vivem com o padrasto. O modelo está longe de ter uma situação financeira estável, mas ajuda a família como pode. “Ainda estou no corre para melhorar de vida, mas todo mês, o que sobra eu mando para as duas em Natal.”

A teia de assédios virou um caso de polícia quando Anderson Meyer entrou com uma representação civil contra Danilo Sanchez e D.C., pedindo indenização de 15 mil reais e solicitando que Sanchez fosse obrigado a apagar sua postagem no Instagram, aquela em que deu o título O mercado da moda é sério. Depois, fez uma representação criminal contra os dois ex-colegas por calúnia e difamação, entre outros crimes. Argumentou que está sofrendo um linchamento moral, com danos graves à sua imagem.

No documento, Meyer diz que os ex-­colegas da Mega ameaçaram e coagiram as pessoas a mentir e fazer acusações: “A motivação, ao que tudo indica, reside em sentimentos como inveja, desejo de protagonismo e busca de projeção à custa da reputação alheia.” O objetivo de tudo, segundo ele, seria tirá-lo da agência Mega. Meyer chega a pedir a prisão preventiva de Danilo Sanchez e D.C. Incluiu testemunhas a seu favor, como um modelo, um fotógrafo e duas agentes.

Foi em resposta a essa representação criminal que Danilo Sanchez decidiu, no dia 31 de julho, apresentar uma denúncia online ao Ministério Público. Na denúncia, contou sobre a conduta de Meyer e encaminhou todos os áudios e prints com os relatos de assédio dos 22 modelos. Poucos dias depois, a denúncia foi acatada e a investigação encaminhada à 5ª Delegacia de Polícia de São Paulo, onde Sanchez deu depoimento no dia 26 de agosto, quando a polícia já estava de posse de todo o material fornecido antes ao Ministério Público. Até agora, oito pessoas já depuseram na delegacia.

Na segunda semana de novembro, o inquérito policial ganhou novos elementos. O ex-agente de uma modelo mineira mandou um áudio à garota pedindo a ela que não falasse à imprensa nem prestasse depoimento à polícia contra Meyer. O ex-agente, que hoje vive no México, é amigo de Meyer e estava fazendo o papel de mensageiro, como ele próprio diz à modelo: “O seu nome está lá [no inquérito], o próprio Meyer me falou: ‘Pede para ela não falar contra mim.’ Eu peço em nome dele para [você] não fazer isso […] Ninguém tem que saber o que a gente viveu no passado, não acho legal você se envolver. […] Até porque uma coisa puxa outra, puxa você, puxa eu…” Os áudios, aos quais a piauí teve acesso, foram juntados ao inquérito policial.


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Repórter da piauí, publicou A Beleza da Vida: A Biografia de Marco Antonio de Biaggi (Abril)