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    A mãe, em Manaus, na década de 1950: Neuza não gostava de dormir em cama, mas na rede ou no chão, ouvia os sons os mais inaudíveis, como o de uma mosca, e comia como um passarinho CRÉDITO: ARQUIVO PESSOAL

relato pessoal

O espelho da orfandade

A mãe, o pai, a filha, o irmão – e o impossível da história de cada um

Conceição Freitas | Edição 230, Novembro 2025

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Uma semana antes de minha mãe amanhecer morta, um pesado armário que eu tentava arrastar caiu para a frente. Se eu não tivesse saltado para o lado, aquele caixão de defunto poderia ter me matado. Depois do estrondo, recuei mais quatro passos, me sentei à beira da cama e fiquei observando o móvel que servira de armário de sapatos tombado no chão, com seu grande espelho, agora espatifado.

Nos dias seguintes à morte de minha mãe, três bichos apareceram em casa: uma estranha aranha de cabeçorra quadrada, uma centopeia de dorso vermelho e cem pés pretos, e algo parecido com um minhocuçu de mais de meio metro. Matei dois deles: a aranha desapareceu.

Minha mãe vivia repetindo que quase havia morrido para que eu nascesse. Depois de doze horas de dor, pediu a Nossa Senhora Imaculada Conceição, branca, e a Nossa Senhora Aparecida, preta, que aquilo tivesse um fim. Aí me tornei Conceição Aparecida, com o sobrenome do pai.

 

Tive mãe desde o fim daquelas doze horas até, mais ou menos, os meus 7 anos de idade. Tive sim, tenho testemunhas: fotos de festa de aniversário, roupinhas bordadas à mão, meias e sapatos, cabelinho pixaim penteado, bolo com confeitos coloridos. Nos dezembros, Papai Noel sempre deixava presentes debaixo da cama.

Tive mãe, aquela que cuida do filhote até que o pequeno sapiens consiga andar, falar e controlar a bexiga e o esfíncter. Aos poucos, os cuidados de mãe foram escasseando até sumirem de vez bem antes da minha adolescência.

A primeira aparição da mãe que guardo na memória é de uma mulher belíssima, nunca jamais houve outra tão bela. Pele cor de sapoti, e se eu pudesse sentir o gosto da mãe seria levemente adocicado e estonteantemente suculento e insinuante. O gosto vai logo embora, como o de uma fruta líquida, mas a boca fica sugando a saudade.

 

Minha mãe é filha de negro nordestino com indígena amazônica. Escrevo no presente do indicativo porque mãe nunca deixa de ser mãe, não importa de que tipo tenha sido. O pai da mãe era um cavador de buraco antes que a pessoa encarregada desse ofício passasse a se chamar bombeiro hidráulico. A mãe da mãe era filha de um tuxaua que foi sequestrada na aldeia, nas proximidades de Manaus e levada para a cidade. Assim minha mãe contava, misturando orfandade e fantasia. A mãe da minha mãe morreu muito jovem, com pouco mais de 30 anos. Minha mãe teve mãe apenas até os 9 anos de idade. Das poucas lembranças que guardou da infância, a mais viva era a dos piolhos que desciam dos cabelos longos, pretos e lisos do corpo de sua mãe, no caixão no meio da sala.

Neuza, minha mãe, era uma mulher sexualmente livre. Antes dos 20 anos, na Manaus da década de 1950, perdeu a virgindade com o namorado. Não se sabe como o acontecimento virou fofoca, mas o certo é que o pai botou a filha da porta para fora.

Não muito tempo depois, Neuza se amasiou com um viajante baiano 25 anos mais velho que apareceu em Manaus ostentando riqueza e prometendo levar a moça malfalada para conhecer o Brasil. Logo ela engravidou dele e, assim que eu nasci, os dois desceram o Rio Negro, atravessaram o encontro com o Rio Solimões e desaguaram no Amazonas até Belém, com a recém-nascida e uma mala de dinheiro.

 

Tudo o que sigo contando aqui é a costura de vagos retalhos cerzidos por uma quase memória, em que nítido mesmo é somente a geografia onde tudo aconteceu, desde a descida pelo rio, de Manaus a Belém, até a descida da estrada, de Belém a Brasília, por onde essa história vai passar e vai cair. Os nomes da mãe, do pai e do irmão são fictícios. Foi meu modo de escrever esse relato quase impossível de ser escrito.

Desde que descemos o rio, vivemos apartados da grande rede familiar. Da parte de mãe, duas tias ficaram em Manaus e um tio, marinheiro, foi para o Rio de Janeiro, e há décadas perdemos o contato com ele. Da parte do pai, o afastamento foi ainda maior. Esparsas lembranças de tios e primos, encontros desconfortáveis com desconhecidos com os quais se tem laços consanguíneos, mas nenhuma intimidade.

Quase todos estão mortos. De minha família nuclear, estamos vivos meu filho e eu. Segue viva também uma tia de 89 anos, com uma memória mais desejosa do que rememorativa. A minha é quase ausente, desde sempre. A que ficou está alojada na coxa esquerda, desde que, suponho, ficou insuportável lembrar. Ninguém, nem médico, nem psicanalista, nem mãe de santo, conseguiu até hoje explicar por que parte de minha perna é indiferente ao tato. A perna está aqui, mas se finge de morta.

 

Quando acordei para a vida, estava numa palafita sobre solo seco, a uns 200 metros do Rio Guamá. Na frente da minha casa passava um esgoto a céu aberto, resultado da política de boa vizinhança entre o Brasil e os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial.

Como se sabe, Belém serviu de apoio logístico para tropas e armamentos americanos, e por isso foi construída a Base Aérea de Val-de-Cans, onde hoje fica o aeroporto de Belém. Um surto de malária na época assustou os estrangeiros, que logo trataram de dar um jeito nos mosquitos. Construíram um dique de escoamento das águas da baixada até as margens do Guamá, o rio de mais de 1 km de largura que deságua na Baía de Guajará, que se mistura com a Baía de Marajó, que cai no Atlântico. Vinte e poucos anos depois, quando a minha história começa, o dique tinha virado um esgoto de tripas abertas.

Para eu chegar à rua que me levava à escola era preciso atravessar essa vala nojenta que, na minha escala de menina, era um precipício de lama, dejetos, baratas, lacraias, lagartixas, siris olhudos que entravam e saíam dos buracos, como se esperassem que eu caísse no esgoto para me devorarem.

Eu tinha que me equilibrar na ponte de madeira esburacada, olhando de rabo de olho para os bichos, até finalmente alcançar o asfalto. Três mil, seiscentos e cinquenta vezes atravessei o medo sem olhar para o esgoto, sabendo que ele me olhava. A conta é o resultado da multiplicação de cinco anos de minha infância pelo tanto de vezes que eu saltava sobre os bichos nojentos.

Estrada Nova era o nome muito apropriado para a pista de asfalto em linha reta – entre o rio e o dique/esgoto –, que conduzia até a Cidade Velha, o Centro antigo de Belém. À margem da estrada, havia os sucessivos pequenos portos de embarcações que chegavam da Amazônia profunda trazendo indígenas e caboclos para a cidade grande. De madrugada, quando tudo se aquietava e os bichos do esgoto iam dormir, o po-po-po-po-po dos motores dos barcos de madeira era minha canção de ninar.

Os amanheceres eram intensos. Eu podia, por exemplo, ver da janela de casa um pequeno grupo de homens (uns cinco ou seis, por aí) carregando uma cobra esticada e morta como num desfile cívico de caçadores amazônicos. Tudo era demasiado naquela estrada que, com a saída dos americanos, virou uma área de expansão de populações caboclas e indígenas.

A Estrada Nova me levava para a Belém exuberante que resultou dos primeiros anos de ocupação portuguesa e, bem mais tarde, do ciclo da borracha. Era uma cidade, era um esplendor, com as igrejas, os palácios, as praças, os navios de ferro, a revoada de urubus em voos rasantes e os estivadores musculosos carregando sacas nas costas e entoando um canto sincronizado. Mesmo o mais solitário deles ressoava uma melodia sem letra, ritmada pelos passos pesados do corpo-cargueiro.

Em casa, mãe era silêncio, e pai, distância. Na rua, a cidade semovente era minha família. Estava tudo ali, as gentes, as avenidas, os paralelepípedos, as calçadas de pedra portuguesa, as alamedas de mangueiras, as camadas de arquitetura, o barulho dos ônibus, o suor da existência humana, Nazaré no altar.

Como eu disse, minha mãe era belíssima, mais bela até que Nazinha, a santa adorada. Um metro e 65, magra, bundinha empinada, traços finos, boca desenhada em sorriso, dentes alinhados, como se moldados em joalheria, cabelo pixaim alisado a bobes e um silêncio que virava malícia quando um homem se aproximava se o pai não estava por perto.

Neuza não gostava de dormir em cama, gostava de rede, de colchão no chão ou, em dias de muito calor, de chão puro. Ouvia sons os mais inaudíveis, como o de um carapanã, uma mosca, uma osga, e qualquer cheiro um pouco mais forte lhe dava enxaqueca. Comia como um passarinho, não gostava de temperos fortes e todo prato de almoço tinha de ter uma banana-prata. Quase nunca jantava, no máximo um mingau ou chibé de farinha. Nunca a vi repetir ou colocar uma porção a mais no prato.

Tinha uma altivez lânguida, a mãe. À mesa, mantinha o corpo ereto diante do prato, usava talheres com perfeição – uma novidade onde só se usava colher; naquele tempo e lugar, garfo e faca só em situações sociais. Comia-se com a mão, fosse para fazer bolotas de comida, fosse para atirar a farinha à boca numa destreza malabarista. Até hoje, nos mercados e feiras, o caboclo prova a farinha-d’água lançando um jato certeiro de grãos à boca.

A voz da mãe era música calada que eu só ouvia quando chegava uma visita, rara. Até que um dia, o medo abriu a boca da minha mãe, ouvi a voz, vi os olhos me olhando, creio que nesse instante parei de respirar. O motivo era grave: um parceiro de negócios do pai havia sido morto por pistoleiros no Sul do Pará, terra conflagrada desde o começo da colonização da Amazônia, da política agrária da ditadura. Minha mãe temia ficar órfã de novo.

Decidiu me contar que o meu pai ganhava dinheiro com negócios nebulosos. Que era jogador viciado, varava dia e noite nos cassinos, perdia e ganhava pequenas fortunas, e perdia de novo e voltava a ganhar. O dinheiro vinha em levas e ia embora do mesmo jeito.

 

O pai era pai de três – da mãe, de mim e do filho que ele no fundo no fundo renegava (essa história vou contar mais adiante). Era homem sem estudo, mas sabia das coisas: me matriculou em colégio bom, de menina rica. Além de mim, menina de pele e cabelo cor de burro fugido, como o pai vivia repetindo, e de uma amiga de feições indígenas, só havia brancas no colégio de escada de mármore, freiras com hábitos até o pé e a imagem original de Nossa Senhora de Nazaré na capela da escola.

Não gostava quando o pai dizia que eu tinha “cor de burro quando foge”. Ele era um negro de cor um pouco menos fugidia que a minha. Muito mais tarde, descobri que essa expressão era uma das 136 que os brasileiros usavam para definir o tom da própria pele em uma pesquisa do IBGE feita em 1976 com o objetivo de mapear a mestiçagem brasileira. Branca suja, melada, retinta, morena bem chegada foram algumas das imprecisões anotadas, cujo significado é nítido. Quanto a mim, ter a cor de um burro fugido me atirava num vazio incolor, do qual só saí já adulta.

Também era do ibge um dos livros mais inesquecíveis da minha vida. Livrão gigante e pesado para meu tamanho de menina: 37 cm de altura x 27 cm de largura, 4 kg e letras douradas na capa dura, livro que eu folheava deitada no chão e com o qual descobria que o mundo era bem maior do que a Amazônia. Era um dos 36 volumes da Enciclopédia dos municípios brasileiros, obra de referência com informações sobre todos os municípios do país, publicada de 1957 a 1964. Servia de material de pesquisa para a corretagem de imóveis, o ofício visível do pai.

Outro livro inesquecível tinha o tamanho de uma carteira de cigarro. Na verdade, eram vários livros, talvez oito, talvez nove, que compunham a coleção As mil e uma noites, que o pai me trouxe de uma de suas viagens ao outro lado do mundo. Desde então, nunca mais parei de inventar histórias para seguir viva nos vãos do medo. Do silêncio da mãe aos sumiços do pai e o olhão do siri, tudo era medo em estado de suspensão.

Suspensa entre Belém e Manaus e entre Belém e Brasília, indo e voltando, voltando e indo. Às vezes, o pai nos levava. Numa dessas viagens, ele ficou para sempre. Íamos de Brasília para Belém num Opala prata, de longe o carro mais chique do pai: zero-quilômetro, sedã quatro portas, motor de seis cilindros, uma novidade no Brasil. Tinha até rádio, e íamos ouvindo “um gato preto cruzou a estrada”, estouro dos Secos & Molhados, naquele começo de 1974, gato preto premonitório.

Paramos num posto de gasolina na Belém-Brasília, almoçamos com cerveja num restaurante de beira de estrada, perto de Imperatriz, no Maranhão. Adolescente, eu já bebia uns goles com o pai. Ele ensinou os dois filhos, desde pequenos, a beber uma talagada de pinga com limão para abrir o apetite do almoço e aprender a ser forte.

Seguimos viagem e, alguns quilômetros adiante, o pneu furou. Com minha blusa listrada de costas nuas e shortinho – bonita para o pai –, rolei o pneu furado até o porta-malas, e voltamos para o carro, minha mãe na frente, eu e meu irmão atrás, num tempo em que ainda não era obrigatório o cinto de segurança.

Até que a mãe gritou: “Que é que é isso, Ezequiel?!” Entrei numa espécie de globo da morte. Me lembro de ver o meio-fio bem perto de mim, até que acordei dentro do carro ouvindo piar de passarinho e a voz do meu irmão, Ezequiel Filho.

Pela janela, vi a mãe ensanguentada sobre uma pedra e o mano intacto ao lado. Entendi de imediato que meu pai estava morto. Antes de sair do carro, pedi a um Deus ao qual eu nunca tinha dirigido a palavra e nunca tinha nem nada pedido: “Por favor, não me deixe ver o meu pai morto.” Saí do carro não sei por onde, passei pela minha mãe e meu irmão, e subi um morro até alcançar o asfalto ainda molhado de uma chuvinha fina que nos acompanhava havia algum tempo na viagem.

Segui andando na direção de Belém, me deixando levar pelo traçado amarelo da pista até que surgiu um pau de arara. Desceram homens e mulheres, correram na direção do carro. Ouvi uma voz feminina: “Seu pai tá aqui, só quebrou o braço.” Ridícula, não cheguei a pensar, mas tive o sentimento anterior ao pensamento.

Três órfãos subiram o barranco do Km 1700 da Belém-Brasília. Um carro meio troncho, de poltronas puídas e motor barulhento, nos levou à cidade mais próxima, Imperatriz. A mãe ensanguentada, mas andando, entrou no banco de trás com meu irmão ainda pequeno, eu fui no banco da frente. Não tive coragem de ir ao lado dela, não tive, e se fosse hoje eu também não teria. Não sei cuidar de gente com sofrimento físico.

Não muito longe de onde o carro capotou e despencou no barranco, um outro acidente havia matado Bernardo Sayão, num mesmo janeiro, quinze anos antes. Uma árvore caiu sobre o engenheiro da Belém-Brasília perto do local onde as frentes de trabalho do Norte e do Sul iriam se encontrar para juntar as pontas de dois Brasis, até então isolados, o do Norte e o do Centro-Oeste.

Antes de cair naquele barranco, o pai tinha subido e descido a Belém-Brasília inúmeras vezes, desde que ela ainda era a estrada das onças, como ficou conhecida pelos que duvidavam da necessidade de riscar a floresta Brasil acima. Sayão era um herói para meu pai, e é também o novo nome da Estrada Nova – Avenida Bernardo Sayão –, em homenagem a esse engenheiro que ligou os Brasis.

A Belém-Brasília era vermelha e tinha cheiro de suor antigo. Quando o pai descia do jipe pintado de poeira, o olor de falta de banho me enchia de inebriante alegria, que virava excitação quando ele abria as malas cheias de presentes: roupas compradas prontas que tinham o nome chique de prêt-à-porter, doce de leite em barra, marrom-glacê em lata, revistas com enormes fotos coloridas e cartões-­postais de uma cidade que estava nascendo e que, aos meus olhos de menina, parecia feita de cartolina branca.

Para a mãe, o pai trazia presentes de homem apaixonado – estojos de perfumes, espelhos, pentes e escovas de cabelo com cabos de metal, um robe acolchoado que me pareceu roupa de rainha sair do banho. Tudo para a mulher do pai, sob o testemunho invejoso e ciumento da filha do pai. Profusão de acontecimentos que moviam meu lado de dentro e paralisaram meu lado de fora.

O pai apaixonado que passava meses, às vezes quase um ano, viajando, não acreditou quando minha mãe anunciou que estava grávida do meu irmão, oito anos mais novo do que eu. “Se ele diz que o filho não é dele, pois agora eu vou ter esse filho”, Neuza contava para as visitas esporádicas. Minha mãe nunca foi de ter amigas. O pai registrou o menino, mas nunca acreditou que fosse filho dele, agia como se não houvesse outra criança em casa, além de mim. Éramos meu irmão e eu: filho órfão de pai vivo e filha órfã de mãe viva.

Com a morte do pai, seguimos os três em estado atordoado de orfandade. O caçula parou de estudar, a mãe-órfã começou a namorar, e eu continuei querendo fazer bonito para o pai morto (e desse amor por homens inexistentes nunca consegui sair). Adulto, Ezequiel Filho ficou a cara do pai. O mesmo porte, as mesmas entradas laterais no cabelo, o mesmo espirro escandaloso, a mesma agitação no fazer as coisas, a mesma entonação de voz, o jeito de comer uma banana inteira com apenas duas mordidas, até o cheiro do suor era o mesmo.

O pai deixou um dinheiro gordo no banco, quantia que nos permitiu viver por uns cinco anos. De uma casa num bairro popular passamos a morar em barracos de fundo de quintal até pararmos num quarto com banheiro coletivo. Empobrecemos, mas a viúva, no esplendor dos 40 anos, renasceu. Namorou o quanto pôde. Nesse tempo, eu tinha de ter cuidado para chegar em casa e não flagrar minha mãe com o namorado no chão da sala.

 

Até que um namorado de Neuza, policial militar, foi assassinado. A namoradeira caiu de cama, de onde só saiu quase perto de morrer. Nos trinta anos seguintes, minha mãe, quase sempre deitada vendo tevê, me manteve prisioneira – eu na rua, ela no quarto.

Não conheci ninguém mais inteligente e conhecedora da alma humana, com absoluto domínio sobre mim. Foram trinta anos de um jogo de vida e de morte, duas mulheres presas uma à outra, dominadora e dominada pedindo mãe uma à outra, invejando na outra o que uma não tinha. O que só acabaria, em termos, quando ela morreu, aos 90 anos. A herança que ela me deixou está petrificada dentro de mim, como se ela tivesse me moldado para que eu não pudesse existir – a minha vida pertenceu a ela, e eu não soube escapar. Mãe nunca sai de dentro da gente, não importa que tipo de mãe tenha sido.

Foi uma morte gentil, enquanto ela dormia. Neuza não era uma pessoa, era uma entidade soberana. Quase cega (porque se negou a fazer cirurgia de catarata), se arrastava da cama para o chão debaixo da cama. Via macacos, cobras e indígenas em alucinações amazônicas cada vez mais cinematográficas. Até que não mais voltou para a realidade comezinha.

Neuza era indomável, só fazia o que queria. Virou de cabeça para baixo o lar de idosos onde morou nos últimos sete anos. Xingava, arrancava botões dos jalecos de enfermeiras e cuidadoras, cantava, dançava, namorava. Uma vez tirou a roupa e entrou no quarto vizinho. O ocupante, respeitável professor universitário aposentado, a denunciou aos enfermeiros.

Meu irmão, Ezequiel Filho, morreu seis meses antes de minha mãe. Uma doença de nome comprido, linfoma difuso de grandes células B, matou Quiel em três meses e meio. Quando percebeu que ia morrer, ele me disse: “Fui o único na família que nasceu estragado.” Sentada na cadeira ao lado da cama do hospital, senti um frio gelado indo do cóccix ao pescoço. E não consegui dizer nada.

 

Dois anos e pouco depois das duas mortes minhas, voltei a Manaus para tentar acordar os nervos adormecidos da minha coxa. As referências eram poucas. Encontrei a única tia viva morando no mesmo lugar desde que nasceu. Tudo o que eu tinha, além do contato dela, eram algumas indicações toponímicas: Cachoeirinha, Educandos, São Raimundo, nomes que eu ouvia de minha mãe. São bairros antigos que abrigam populações pobres, os dois últimos ainda com palafitas e flutuantes à beira do Rio Negro.

Sabia também que minha mãe, depois que ficou órfã de mãe, foi trabalhar numa casa no Largo de São Sebastião. Encontrei a casa, bem ao lado do Teatro Amazonas, o monumento à fartança da borracha construído ao modo delirante de Fitzcarraldo. Todas as vezes em que estive diante do teatro, senti o coração apertado, nunca saberei a razão. Talvez seja uma extensão atávica do sentimento da minha mãe ao deixar, ainda menina, o bairro pobre onde vivia e ir morar bem perto de um edifício opressivo de tão grande, numa Manaus entremeada de igarapés e bordejada por um rio negro e uma floresta verde.

Tentei encontrar alguém da família dos que criaram minha mãe – era assim que ela se referia a eles, “os que me criaram”. Localizei uma neta da garota de quem minha mãe tinha sido “dama de companhia” – era essa a definição que ela dava à função que exercia na casa. Não consegui nenhuma informação, além das que eu já tinha.

Se minha mãe não existe na memória dos descendentes da garota a quem serviu como “dama de companhia”, guardo um relato que ouvi de uma das cuidadoras dela: quando foi levada, aos 9 anos, para a casa de brancos e ricos, minha mãe acreditou que iria fazer parte daquela família. Que seria, então, irmã da menina de mesma idade que ela. Demorou algum tempo para perceber, com a ajuda da cozinheira da casa, que era apenas mais uma das empregadas, só que sem nenhum salário.

A menina branca a quem a menina cafuza servia – escrevo cafuza porque é o termo que o dicionário me oferece, mas escrevo com certo constrangimento, o mesmo que nos deixa no vazio das denominações e considerações raciais desse país de 136 tons de pele. A menina branca a quem a menina cafuza servia tocava piano; vem daí o esforço vão que minha mãe fez para que sua única filha mulher aprendesse a tirar música do teclado preto e branco.

Na viagem a Manaus, conheci boa parte de minha família consanguínea. Prima, marido, filhos, netos, genros e noras me receberam com um churrasco de tambaqui, maionese, farofa e cerveja de litrão (o marido de minha prima me mostrou 2 litros de uísque, caso eu me animasse), ao som de sertanejo universitário. Gente que recebeu como visita ilustre aquela que a maioria não sabia nem que existia.

Percebi, depois de longas conversas com minha tia e da cerimônia amazonense de meus parentes, que nenhuma história, muito menos a minha, pode ser contada ao pé da letra. A letra é só a versão possível para o impossível da história de cada um, talvez da minha um pouco mais, dadas as circunstâncias extremas.

 

Na manhã seguinte ao churrasco de tambaqui manauara, acordei com a lembrança nítida de um sonho. Uma data passando em câmera lenta diante dos meus olhos, como uma cena em zoom: 2 de agosto de 1966, escrita com letras de um jornal em papel. Corri à Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e busquei as publicações diárias de Manaus. Havia só um jornal naquele dia, mês e ano, o Jornal do Comércio, com oito páginas.

A manchete do dia: “Atirador louco matou cinco e feriu dezessete.” A segunda notícia mais importante era sobre a nova política de aumento salarial dos trabalhadores, decretada pelo primeiro presidente da ditadura militar, Castello Branco. Colada na notícia do marechal estava a foto de maiô da nova Garota da Ponta Negra, a praia fluvial mais importante de Manaus. À esquerda, havia uma foto-legenda de galões com 900 litros de leite adulterados, sob o título de “O leite proibido”. Mais embaixo, noticiava-se a apreensão de “farta documentação subversiva” na redação do jornal Folha da Semana.

Vasculhei as oito páginas tentando lincar a data gritante do meu sonho com o motivo da minha estada em Manaus. Encontrei no jornal a notícia da prisão do “indivíduo Expedido Duarte, amazonense, solteiro, 28 anos de idade, pedreiro, residente à Avenida João Coelho, 817, que agredira a sra. Maria Helena Mota Silva, que mora na Boa Sorte, s.n.”. Não me disse nada.

Havia muitos anúncios nas oito páginas: de máquina de costura, radiotransmissor de mesa, geladeira, fogão, crediário em até 24 prestações, aniversários, mortes, missas de sétimo dia, editais de órgãos públicos. Soube que o Rio Negro baixara 7 cm e li a lista de navios atracados no maior porto flutuante do mundo.

Voltei à primeira página. Imprensada entre a notícia do marechal Castello Branco e a da expansão das linhas da Varig para os Estados Unidos, havia uma notinha vinda de Brasília: “Criança nasceu de mãe já morta.” A mãe, no oitavo mês de gestação, morrera subitamente, e os médicos do Hospital Distrital conseguiram salvar o bebê, que tinha sido “encaminhado à incubadora após aplicação do oxigênio sob pressão e continua com vida”. Senti no corpo o recado de que, de algum modo, eu tinha me libertado da mãe.

Conceição Freitas
Conceição Freitas

Conceição Freitas é jornalista, cronista e escritora. Escreve crônicas para o site Metrópoles. Publicou, entre outros, Bravos candangos e Guia fora do plano (publicações independentes).

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