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    El Trinche e o mural em sua homenagem: quando seu time vencia o amistoso contra a seleção argentina por 3 a 0, os técnicos combinaram tirá-lo de campo para evitar um vexame nacional CRÉDITO: JUAN JOSÉ GARCÍA_2019

questões ludopédicas

Um argentino melhor que Maradona?

Não é o Messi, mas sim El Trinche, o jogador celebrado como lenda por cidadãos de Rosário

Antonio Marcos Pereira | Edição 203, Agosto 2023

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Se você procura hoje informações sobre a cidade de Rosário, localizada na província de Santa Fé, na Argentina, provavelmente se deparará com dois grandes temas. Um é a presença do narcotráfico, com todas as consequências que conhecemos: ruptura do tecido social, aumento da violência urbana, poderes públicos atabalhoados e irresolutos. As reportagens mais densas, que não se limitam à contabilidade sensacionalista de mortes e assaltos, sugerem um cenário de gestação lenta, muito capilarizado e agravado com a crise econômica da Argentina que se arrasta há mais de duas décadas, embora a fama de Rosário como lugar violento venha de muito antes. Dona de um dos maiores portos do país e da América Latina, na década de 1930 a cidade era tratada como “a Chicago argentina” e, por mais reducionista que a analogia seja, ficou a aura de um mundo fora da lei e de uma vida hostil em certos rincões da cidade.

O outro grande tema local é uma espécie de contrapartida simbólica do sucesso rosarino diante da falência no controle do narcotráfico: a cidade se orgulha de seu futebol. A campanha bonita da seleção argentina na Copa do Mundo de 2022 e a final espetacular contra a França geraram, como era de se esperar, uma onda ufanista no país. Essa onda foi ainda mais exacerbada em Rosário. Além de ser a cidade natal de Lionel Messi e de Ángel Di María, o próprio técnico da seleção, Lionel Scaloni, nasceu em um povoado próximo e começou sua carreira como jogador na cidade. Durante a Copa, a imagem de Messi estava em todo lugar, e era impossível encontrar suas camisas nas lojas, tamanha a procura.

No dia da vitória saí para as ruas, para celebrar com os argentinos, me misturar, beber da felicidade dissipada e comum daquele domingo do verão mais quente dos últimos cinquenta anos na região. Por WhatsApp, parabenizei meu simpático senhorio, que me agradeceu dizendo que “nós, argentinos, precisávamos dessa vitória”. E de fato era contagiante o movimento de tanta gente excitada em torno dessa ficção que é uma identidade nacional.

 

Vivi no Rio de Janeiro e atualmente vivo em Salvador, onde trabalho como professor de literatura na Universidade Federal da Bahia (UFBA), e é difícil aquilatar o contraste de dimensões e intensidades entre um festejo popular nessas cidades e em Rosário, onde o ar relativamente tranquilo das celebrações sempre me deu uma sensação de segurança (apesar da fama violenta da cidade). Depois de viajar para lá muitas vezes para visitar amigos, me fascinei pela idiossincrática cena literária local, e no início de 2022 decidi tirar um ano sabático para viver na cidade. Naquela noite depois da final da Copa, havia muita gente com sua garrafa de água térmica para o mate debaixo do braço, num parque à beira do Rio Paraná, cantando junto com os bebedores de cerveja, agitando bandeiras, perdendo a voz de tanto gritar. Famílias inteiras, dos avós aos netos, juntas. Muitas pessoas se concentravam ao redor do monumento à bandeira, que se mescla a um memorial pelos soldados mortos na Guerra das Malvinas.

A certa altura, já cansado, no início da noite, me encostei em uma balaustrada perto do rio e me preparei para a longa caminhada de volta para casa. Ao meu lado, um casal de jovens, um deles com o cabelo pintado de azul, se abraçava e parecia estar vivendo a forma particular de cansaço dos felizes e despreocupados com o dia de amanhã. Um estava com a camisa da Argentina, número 10, Messi, a indumentária de milhares ali naquela noite. O outro usava uma camiseta comum, de algodão, com o escudo de um time local, da quarta divisão argentina, o Central Córdoba, e nas costas um estêncil com o rosto de um sujeito meio hippie, cabeludo e bigodudo, que lembrava Che Guevara (outro rosarino célebre).

Era Tomás Carlovich, o grande número 5 da história do Central Córdoba. Que alguém de cerca de 20 anos estivesse com uma camisa do Carlovich – um jogador de uma equipe menor, aposentado em 1986 – me pareceu algo notável. Nascido em 1946, filho de um imigrante iugoslavo que ganhava a vida como encanador, Carlovich jogou apenas quatro partidas na primeira divisão, passou quase a vida toda em Rosário e nunca saiu da Argentina. Mas seu nome e sua reputação têm ressonâncias míticas na cidade. As pessoas sempre conhecem alguém que o viu jogar e quem o viu jogar sempre reforça seu caráter extraordinário, sua habilidade superlativa, seus jeitos e manhas. É possível que o pai daquele torcedor tivesse visto El Trinche jogar – talvez o avô. Imagino que os que testemunharam a multiplicação dos pães por Jesus tenham contado a história a seus vizinhos com os mesmos recursos de hipertrofia do assombro que ressoam nos relatos que escutei e li a respeito das proezas de Carlovich enquanto vivi em Rosário. Se é verdade que, no noticiário, a cidade é a capital argentina do narcotráfico e, no futebol, Rosário é Messi, Di María e Scaloni, é também verdade que há uma versão dessa cidade representada por Carlovich, na maneira como é lembrado pelos rosarinos.

 

 

Carlovich era como aparecia na escalação dos times. Mas o conheci como El Trinche e é assim que ele é mencionado e preservado na história oral da cidade, inclusive na história literária – há um poema recente do escritor argentino Edgardo Dobry intitulado Meditación en la Muerte del Trinche Carlovich. Dobry, um rosarino que se mudou para Barcelona há muitos anos e lá fez carreira como professor de literatura, tradutor e poeta, escreve: “O Trinche pensava a respeito dos treinos o mesmo que Miles [Davis, o trompetista] pensava a respeito dos ensaios: só trazem proveitos aos medíocres, alheios à graça da improvisação.” O poema também descreve um episódio supostamente ocorrido em fevereiro de 2020. Alguns meses antes de morrer, Diego Armando Maradona, então treinador do Gimnasia y Esgrima La Plata, foi a Rosário para uma partida. O Trinche então se apresentou no hotel. Os seguranças já estavam por expulsá-lo quando Maradona o viu, o abraçou e disse: “Você foi maior do que eu.”

No poema, Dobry escreve:

Los fotógrafos porteños se miraban

 

sin saber quién era ese viejoven que exhibía

tal desprecio por el arte de la peluquería.

Él declaró: “Ahora puedo morirme tranquilo”.

Um trinche é um utensílio de mesa, espécie de garfo grande usado em churrascos, similar em forma ao tridente do capeta, ou um ancinho, desses de catar folhas no outono. A primeira vez que ouvi o apelido foi numa reunião em casa de amigos. “Um jogador maravilhoso daqui”, me disse um deles. “Um tipo meio esquivo, não gostava muito de treinar, meio Mágico González.” Isso me dava uma vaga orientação: Mágico González é um salvadorenho, famoso por não gostar de treinar, gostar de dormir e de farrear e, mesmo assim, ser excelente, brilhante em campo. Mas, como vim a saber depois, o Trinche não era exatamente assim. Era mais obscuro, mais peculiar. Funcionava de maneira meio fantasmal no futebol que viveu e no qual atuou. Era uma presença indecifrável e suas peculiaridades geravam todo tipo de narrativas.

Conta-se que, certa vez, o Trinche foi convocado a se apresentar para a seleção pelo então técnico César Menotti e abdicou de ir para pescar (chegou a desmentir isso, disse que sequer era muito de pescarias), ou que teria se distraído tomando mate com um amigo e esquecido de ir a Buenos Aires. Os comentários convergem na construção da fisionomia moral de um grande jogador que, embora pudesse e tivesse talento para tanto, nunca alcançou a fama. Seu nome era respeitado, seus feitos conhecidos e cantados. Mas sua trajetória foi bastante modesta, feita de façanhas locais, nada transcendentes em termos do futebol global.

Os feitos, porém, são narrados com devoção religiosa por seus fãs. Talvez tenha sido esse fervor em torno de sua pessoa o que gerou minha curiosidade: a celebração em contínua passagem, por meio de tradição oral, de uma geração para a outra. Um jogador formidável que habitou um momento da história do esporte no qual se podia, ao mesmo tempo, ser um profissional da bola, ganhar a vida com isso, e ainda assim não jogar o jogo da fama, exterior ao que ocorria no campo de futebol. Em sua figura emerge um gesto crítico à legislação dos modos usuais de ser e de viver – suas artimanhas para escapar do que não queria fazer, sua proverbial preguiça de treinar, sua timidez e seu jeito esquivo, seu apego à cidade natal, à casa, aos amigos, sua evasão do lugar de goleador e sua excelência no lugar de meio-campista canhoto, grande apoiador de goleadores.

Carlovich não era exatamente o escrivão Bartleby – ele queria jogar bola, amava jogar bola, jogava com brilho e era celebrado por isso. Mas, como o célebre personagem de Herman Melville, ele também “preferia não fazer” um monte de coisas. Não ceder às pressões uniformizantes das estratégias de treinamentos, recusar uma vida nômade, apartado da cidade, da família, dos seus, e se negar a contribuir abertamente com a própria mitificação. Isso o distanciou de uma carreira mais padronizada e uma ascese provavelmente garantida. Deixou de jogar em maiores e melhores clubes, circular mais e ganhar mais dinheiro. Depois de muitos anos jogando nos clubes da segundona argentina, tentou um percurso como treinador – igualmente modesto e lateral – até que, aos 42 anos, se retirou do futebol profissional e ficou trabalhando como pedreiro e faz-tudo por anos. A certa altura, conseguiu uma aposentadoria modesta paga pela Prefeitura de Rosário por sua condição de “esportista reconhecido”, e era uma figura vista pela cidade, sempre andando de bicicleta, e muito frequente nos jogos de futebol, torcendo nas arquibancadas, em especial na de seu time, cuja camisa defendeu por anos, o Central Córdoba.

 

Não sou exatamente um entusiasta de futebol – longe disso. Esse futebol de torcidas inflamadas e competições cíclicas, de grandes fortunas e tendências reacionárias normalizadas: isso tudo me dá, me deu, sempre, muito asco e tédio, e me mantive em minhas relações com o futebol cultivando figuras como Garrincha, Sócrates ou Reinaldo. Todos com um jeito meio avesso de fazer a coisa, mas ainda assim fazendo tudo com excelência. Para figuras como esses jogadores, até a distinção prosa/poesia nos estilos de futebol criada por Pier Paolo Pasolini me parecia falha: eles faziam outra coisa, prosa como poesia, ou vice-versa, colocando o vocabulário habitual do jogo em transe, em xeque, em estado de desafio.

De modo similar, a figura do Trinche exerceu sobre mim um magnetismo imediato e intenso. Em retrospectiva, julgo que isso se deu pelo fato de escutar nos relatos uma espécie de mensagem existencial, digamos, cuja alçada transcendia o futebol. Sua condição de anti-­herói me fascinava. E à medida que buscava mais coisas me dava conta da exiguidade do material visual. Há algumas coisas no YouTube: várias entrevistas com o Trinche já idoso, aposentado, convidado a diversos exercícios de memória e nostalgia futebolística. O personagem é uma figura sempre modesta, muito removida do Pelé falando de si mesmo na terceira pessoa: vemos um senhor tranquilo, de voz mansa, camisa xadrez, nada agrandado, sempre se esquivando da autocelebração e ressaltando sua admiração pelo jogo.

Em uma longa entrevista com o locutor Julián Bricco, há um momento em que o entrevistador se refere a um treinador com quem o Trinche havia trabalhado em sua temporada no Independiente Rivadavia, de Mendoza, dizendo que se tratava de um “grande jogador”, e o Trinche aquiesce e observa “uma grande pessoa, o que é o mais importante”. Soa banal, mas me parece muito sui generis no discurso de um jogador aposentado, celebrado por glórias passadas, o gesto de deferência acompanhado da remissão a uma excelência humana, fora do jogo. Mas, se há certa oferta de memória audiovisual de momentos assim, não há quase nada que o mostre jogando. O que há são vestígios e seguramente não servem como evidência do brilhantismo tão cantado. Assim, quando comecei a pensar em escrever sobre o Trinche, fiz o que pude para atender ao meu impulso inquisitivo, me dirigindo às fontes escritas e ampliando o circuito de narrativas orais.

Salvo um trabalho de prospecção em arquivos de jornais, as fontes escritas quase que se resumem a um livro, Trinche: Un Viaje por la Leyenda del Genio Secreto del Fútbol, de la Mano de Tomás Carlovich. É uma bela biografia, escrita por um crítico cultural, comentarista de futebol e romancista de Buenos Aires, Alejandro Caravario, que soube manobrar muito bem os desafios e criar um texto tão interessante e fugidio quanto seu objeto principal. Caravario foi, como eu, contaminado pelo depoimento entusiástico de um amigo fiel da “igreja ortodoxa” do Trinche, e desde então seguiu interessado em saber mais até conseguir viabilizar a biografia, lançada pela editora Planeta Argentina (pertencente ao Grupo Planeta) em 2019. A biografia enfatiza a pluralidade dos testemunhos e seus eventuais atritos, reproduzindo declarações extensas e registrando não apenas as informações, mas também os estilos particulares dos depoentes. Tendo o Trinche como centro de gravidade, Caravario percorre um entrecho da história do futebol provinciano argentino – o universo dos clubes menores num momento que parece ainda mais marcado por uma precariedade enorme, se comparado às dimensões milionárias do futebol de primeira divisão.

Mil incidentes e detalhes emergem nos depoimentos, construindo a fisionomia do Trinche como um talento natural e um enigma, um mágico tímido e bairrista. Contam que, numa ocasião, tentou se manter com a bola por mais tempo, como se experimentasse algo, como se tentasse se pôr à prova, ver quanto tempo conseguiria ficar com a bola. Reforçado pelo entusiasmo dos torcedores, aparentemente criou gosto pela coisa, e nessa ocasião não passava a bola para ninguém, só driblava e corria para lá e para cá, aos gritos da torcida delirante enquanto continuava sua manobra quixotesca (para quê, afinal?), interrompida com uma falta brutal de um marcador irritado.

Criou também uma jogada não menos improvável que a bicicleta de Leônidas ou a defesa escorpião de Higuita: seu famoso drible de “caneta dupla”.

Todas as vezes que penso nisso preciso fazer uma pausa. A dinâmica de um jogo de futebol solicita muita intensidade de ataque, tudo com resposta rápida. Na estrutura comum de marcação, uma caneta é um artifício de craque – o próprio Messi é famoso por sua habilidade em driblar assim, fazendo a bola escorrer entre as pernas do adversário e recuperando-a do outro lado do marcador, na saída já para outro lance. No meio do frenesi da partida, é preciso ter muita presença de espírito para dar um toquinho na bola que, discreto e eficaz, a conduza para fazer a travessia do corpo do jogador adversário, e basta isso. Um corpo muito próximo do seu, ofegando, deixa por um instante de parecer uma muralha intransponível e exibe uma fenda, um corte, por onde se pode, com a devida sutileza, ajudar a bola a atravessar.

Agora, imagine isso acontecendo duas vezes em sequência. Um jogador é marcado, e se livra da marcação com uma caneta. O marcador se vira em direção à bola e, nesse movimento, se reencontra com o jogador marcado, que repete a manobra, e faz passar, mais uma vez, a bola entre as pernas do marcador, agora em sentido contrário.

Em termos de progresso do jogo, essa manobra parece de pouca rentabilidade: a bola gira mais ou menos na mesma região do campo, não é jogada de avanço. É um lance espiralado, uma jogada que come a própria cauda. Mas, em termos de maravilhamento, nem sei o que dizer, ou o que seria de mim se, num estádio, numa tarde de sábado qualquer, fosse surpreendido vendo isso. O pobre marcador se vê numa situação como a de quem abre a caixa do gato de Schrödinger duas vezes – e nas duas ocasiões o gato está vivo, mas também não está lá, e ainda saiu levando a bola. Imagino o atabalhoamento, a humilhação; imagino também a leveza, a alegria do driblador – e a surpresa incrédula da torcida.

Carlos Griguol, o jogador argentino que teve uma carreira longa e célebre como técnico e era conhecido como El Maestro por seu estilo meticuloso, dizia que “Carlovich tinha condições técnicas únicas e maravilhosas, tinha uma habilidade muito difícil de explicar em palavras. É como se quando você o enfrentasse, o marcasse, o cara desaparecesse, levando a bola com ele.” Instado a comentar as próprias habilidades, o Trinche desfazia a narração mistificante. “Alguma caneta de ida e volta terei certamente feito, mas não é para tanto”, disse certa vez.

Algo semelhante escutei quando perguntei a Caravario sobre o processo de escrita da biografia. “Meu trabalho com El Trinche foi bastante instável”, disse. “Ele era um bom sujeito, amigável, mas também esquivo. Eu o entrevistei algumas vezes em sua casa em Rosário; ele sempre me recebia em casa, nunca em bares ou locais públicos. Sempre tinha gente da vizinhança que aparecia para conversar ou para comer. Mas, quando ele era jogador, foi difícil submetê-lo a um mínimo de disciplina. Quero dizer, sentar-se por duas horas e conversar na frente do gravador era custoso. É difícil para ele se concentrar e é ainda mais difícil para ele falar sobre si mesmo. Dizia que não se lembrava de nada, que era melhor falar ‘com os meninos’, ou seja, seus ex-­companheiros do Central Córdoba. Minha percepção é que ele era um espectador alegre de seu próprio mito. Não era um participante ativo – pouco ou nada narrava, minimizava algumas anedotas heroicas –, mas incentivava de maneira discreta.”

 

Há o relato de uma partida mítica. Ocorreu em 1974, como parte da preparação da seleção argentina para a Copa do Mundo da Alemanha. Em uma espécie de tour pré-Copa pelo interior, a seleção jogou amistosos com combinados regionais. Em Rosário, isso resultou numa seleção com cinco jogadores de cada um dos dois maiores clubes locais, o Newell’s Old Boys e o Rosario Central, e um único jogador de um clube menor, o Central Córdoba: o Trinche. Caravario diz: “Se a história de Tomás Carlovich tivesse que ser resumida a um episódio, não seria uma das campanhas nas quais logrou consagrar-se campeão e deixar sua assinatura, simultaneamente rebelde e elegante. O narrador deveria reter e expandir apenas uma partida, que o Trinche não jogou com nenhuma das camisas às quais seu nome é associado. Uma partida na qual integrou um time improvisado para a ocasião e na qual foi substituído no segundo tempo.”

Chegando a Rosário com toda investidura de melhores do país, os jogadores da seleção argentina se viram objeto de um baile da seleção rosarina e terminaram o primeiro tempo perdendo de 3 a 0, com a estrela do Trinche brilhando. Dizem que os técnicos se encontraram no intervalo e o técnico da seleção argentina, Vladislao Cap, teria pedido aos rosarinos que pegassem leve. E a solução dos técnicos dos dois grandes times, Carlos Griguol e Juan Carlos Montes, foi – que fazer? – tirar o Trinche de campo, ajudando assim a seleção a fazer um gol de honra no segundo tempo. Foi, diz Caravario, o momento de glória warholiana do Trinche: seu momento de maior proximidade da fama e seus luxos, seu dia de maior celebração para além das fronteiras de Rosário. É o jogo do qual sempre se fala, o inevitável ao se contar a sua história.

Soube, por um amigo, que entusiastas do Trinche costumavam jogar futebol no Parque Yrigoyen, o lugar onde está fincado o pequeno estádio do Central Córdoba, em cuja arquibancada quase todo sábado o Trinche podia ser visto apreciando um joguinho. Procurei me candidatar ao jogo, pensando que assim poderia me encontrar com essas pessoas que vivem em círculos que não frequento habitualmente, ouvir as histórias sobre o Trinche de outra maneira, com outro tom. A região onde fica o Parque Yrigoyen, o bairro Tablada, tem outros marcos importantes de história local. Lá está a conhecida biblioteca, escola e editora Constancio C. Vigil, uma instituição que é um baluarte da esquerda argentina e que, depois de sofrer com a ditadura, passou muitos anos em estado liminar até encontrar alguma forma de reerguimento recente, e aos poucos vem recuperando seu protagonismo local. No mesmo parque está também a famosa estátua de Che Guevara, construída com material fundido a partir de doações de milhares de objetos metálicos. Ao lado do estádio do Central Córdoba há murais para os heróis do time, incluindo o Trinche.

Cheguei à noitinha, me juntei ao pessoal, um grupo de umas vinte pessoas. Estávamos jogando no início de abril, com o outono já dando as caras. O grupo era de conhecidos e amigos que até 2020 jogavam juntos numa quadra de aluguel, em outro bairro: alugavam os últimos horários da quinta-feira e se habituaram, com a anuência do do­no, a demorar um pouco mais. O proprietário da quadra, um ex-jogador de futebol profissional local, Pato Chan, passou a jogar junto com eles, e alguém teve logo a ideia de fazer um churrasquinho (um asado), e então o jogo acontecia e, depois, uma cervejinha, uma conversa sobre futebol, sobre os incidentes do próprio jogo, sobre política, a vida, o que fosse. Virou uma mescla de pelada e tertúlia, como muitas coisas que descobri na Argentina. Com a pandemia, a quadra de aluguel fechou e eles continuaram jogando ali, naquele espaço aberto, perto do estádio do Central Córdoba. E ali fui, jogar bola com eles, tirar foto dos murais com o rosto do Trinche – sempre jovem, cabeludo e bigodudo, sempre com o olhar ao longe – e fazer algum trabalho de campo, escutar essas pessoas.

Joguei, me diverti – e até um gol fiz. Conversei com as pessoas também e todos contavam casos sobre o Trinche com disposição, com desejo de oferecer algo a um brasileiro curioso, uma figura improvável, que partilhava um encanto com eles. O Pato Chan revelou uma trajetória em alguma medida semelhante à do Trinche. “Morei nos Estados Unidos, fui com meu pai e meu irmão jogar futebol, tentar a sorte lá. Fiquei uns três meses e voltei, eu tinha uma namorada aqui, não me adaptei bem, eles continuaram lá por mais um tempo”, disse, enfatizando como ficou aliviado por retornar a Rosário, a sua namorada, seus amigos, seus costumes. Tinha lembranças do Trinche para compartilhar, mas nada de estatuto privilegiado. “O Trinche estava por aqui sempre”, disse. “Eu o cumprimentava, ele era cumprimentado por todo mundo, lembro dele na arquibancada, mas ele não era um amigo. Meu pai sim, tinha um contato maior com ele, e a gente sabia das histórias dele por ouvir falar.” Um outro conviva nessa noite, o músico e ator Julián Sanzeri, sequer jogou, ficou cuidando do churrasco, rindo das proezas avessas dos jogadores, nossa única audiência e torcida nessa noite. Sanzeri reproduziu um desses murais com estêncil do Trinche em sua própria casa, e cuidou de organizar e publicar um livro com canções de homenagem, inspiradas pelos feitos do Trinche, que lançou em edição própria como um gesto elegíaco. “Todo mundo aqui conhece alguém que viu o Trinche jogar, todo mundo já ouviu um relato de alguém que esteve naquele jogo da seleção de Rosário contra a seleção argentina”, disse, confirmando a maneira como a lenda caminha e sobrevive.

A noite foi progredindo e esfriando. A certa altura, já findo o jogo, o amigo que me levou até ali lembrou que em pouco tempo seria o aniversário da morte do Trinche, que ocorreu durante a pandemia, em maio de 2020, poucos meses antes da morte de Maradona. Em um bairro operário de Rosário, não muito longe de onde estávamos, ele andava de bicicleta numa tarde, quando foi abordado por um ladrão. Não se sabe se resistiu ao assalto. Sabe-se que já tinha sido subtraído de sua bicicleta outras quatro vezes antes, talvez estivesse cansado disso – e sabe-se que o ladrão o agrediu. Caiu, batendo a cabeça no meio-fio. Uma comoção de passantes fez o ladrão fugir. Socorreram a vítima, e o levaram ao hospital – mas ele já não recuperou mais a consciência e morreu alguns dias depois. A investigação foi célere, e o assassino foi julgado e preso. Perguntei a Caravario se queria comentar algo a respeito: “Não, não tenho nada a dizer sobre sua morte. Fiquei perplexo e muito triste com a notícia. Ele foi morto por causa de uma bicicleta.”

Talvez haja mesmo pouco mais a oferecer sobre o episódio. Um homem idoso e modesto é assaltado por um jovem pobre que tenta sequestrar seu meio de locomoção e, no processo, lhe rouba a vida. Na estatística de uma cidade violenta, um incidente a mais numa onda crescente de banalização de situações semelhantes. A Argentina está aqui, também, representada nesse incidente, um lance cruel e absurdo numa nação com uma história que é brutal na mesma medida em que propicia coisas quase inacreditáveis – como o grupo de amigos que se reúne para jogar futebol nas quintas-feiras às margens de um estádio de um time da segunda divisão e perto de uma biblioteca de esquerda que se reergueu das cinzas – e personagens maravilhosos como o Trinche e a memória dos milagres futebolísticos que realizou.

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_203 com o título “O gênio modesto”.

Antonio Marcos Pereira
Antonio Marcos Pereira

É professor de literatura na Universidade Federal da Bahia (UFBA)

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