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A batalha de Abagge para provar que é inocente na morte do menino Evandro

    O emaranhado: revelações contidas nas novas fitas cassete levaram o governo do Paraná a emitir um pedido de desculpas a Beatriz Abagge pelas “sevícias indesculpáveis cometidas no passado” CRÉDITO: BETO NEJME_2023

anais do crime

A batalha de Abagge para provar que é inocente na morte do menino Evandro

Rotulada de “bruxa”, a condenada pelo assassinato busca até hoje mostrar que não cometeu o crime em 1992

Felippe Aníbal | Edição 203, Agosto 2023

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Na manhã de 16 de março passado, assim que chegou ao Centro de Atenção Psicossocial (Caps) de Guaratuba, no litoral do Paraná, a terapeuta ocupacional Beatriz Cordeiro Abagge ouviu de um colega: “Vai dar tudo certo.” Ela balançou a cabeça e respondeu: “Não. Infelizmente, não vai.”

Os dois falavam sobre um pedido de revisão criminal ajuizado pela defesa de Beatriz, que seria julgado naquele mesmo dia. Ela acreditava que os desembargadores dificilmente reverteriam a decisão que a condenou a 21 anos e 4 meses de prisão, acusada de participar de um homicídio que chocou o Brasil em 1992: o do menino Evandro Ramos Caetano, de 6 anos. Beatriz – que está em liberdade desde 25 de abril de 1998 –, foi indultada, não tem nenhuma pena a cumprir, mas resolveu fazer o pedido de revisão por uma “questão de honra”. Ela quer ser reconhecida como inocente desse crime, chamado na época de Caso das Bruxas de Guaratuba e até hoje considerado um dos mais controversos da história do país.

Ao longo daquele dia de trabalho, Beatriz, hoje com 59 anos, se concentrou na condução de um grupo terapêutico com dependentes de álcool e drogas atendidos pelo Caps. Em torno das cinco da tarde, foi para seu apartamento em Guaratuba e assistiu por um canal do YouTube ao julgamento do seu pedido pela 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná (TJ-PR). Enquanto fumava um cigarro atrás do outro, Beatriz ouviu seu advogado Antonio Augusto Figueiredo Basto reiterar a sua inocência, alegando que ela foi condenada com base em uma confissão ilícita, extraída mediante tortura.

 

O trunfo dos defensores são duas fitas de áudio que só vieram a público recentemente, decorridos quase trinta anos do crime. As fitas foram obtidas pelo podcaster Ivan Mizanzuk e apresentadas no podcast Caso Evandro. Quando estava trabalhando no podcast, ele recebeu de uma fonte um pacote de onze fitas e, ao escutá-las, descobriu, em meio ao material, uma versão mais completa do que a versão contida na fita cassete anexada ao processo, na qual Beatriz e outros acusados – inclusive a mãe dela, Celina Cordeiro Abagge – confessam ter matado o menino Evandro. As gravações descobertas indicam que foram cortados certos trechos da fita anexada ao processo – segundo a defesa de Beatriz, justamente algumas frases curtas que indicam que as confissões foram induzidas recorrendo-se à prática de tortura.

Em um dos pontos, quando Beatriz é interrogada por um policial, ocorre o seguinte diálogo:

– Você o que [é] que fez? – pergunta o policial.

 

– Eu não… Não fiz nada, eu fiquei olhando – diz Beatriz.

– Você segurou a criança – afirma o policial.

– Tá, eu segurei a criança – concorda Beatriz.

 

– Não! – reage o policial, aparentemente irritado com a forma da resposta.

Em outro trecho, ouve-se Beatriz chorando enquanto responde:

– Conte, conte, conte… – diz o policial.

– Foi tirado os órgãos… O senhor quer que diga… – afirma Beatriz.

Ainda em outro excerto, que também não estava na fita anexada ao processo, um homem ameaça Beatriz:

– Olhe, menina, eu acho que nós vamos ter que continuar nossa sessão. Você não tá querendo falar, né?

– Não! Eu tô falando! Eu tô falando! – responde Beatriz, com uma voz aflita.

A voz masculina – em mais um trecho que não aparecia na fita do processo – diz:

– Confesse direitinho pra nós não botarmos a mão em você mais.

Adiante, Beatriz diz:

– Ai, meu Deus, isso não é verdade. Eu tô… Eu tô inventando isso.

O policial reage e ela, então, volta atrás e diz que estava “falando sozinha”.

Outro dos acusados pelo crime foi o pai de santo Osvaldo Marcineiro, que também aparece nas novas gravações. Ao longo do interrogatório, sua voz está ofegante. A defesa de Beatriz destacou trechos que sugerem que Marcineiro estava sendo torturado. A certa altura, ele diz: “Não faz isso, por favor. Eu tô falando tudo.” Em outro ponto, pede: “Ai! Pera aí, amigo.”

Para embasar o pedido de revisão criminal a partir das fitas descobertas pelo podcaster, a defesa contratou um parecer pericial de fonética forense, assinado pelo engenheiro eletrônico e perito criminal Antonio César Morant Braid. Ele assegurou que foram feitas supressões na fita do processo e que todas as gravações – as antigas e as novas – provêm do mesmo aparelho. Braid já havia periciado a fita que consta dos autos, a pedido do Ministério Público do Paraná (MP-PR). (Naquela ocasião, tinham sido identificados catorze pontos de edição interrompendo a continuidade da gravação.) Os advogados de defesa também anexaram ao pedido de revisão um parecer psicopatológico sobre os depoimentos, feito pelo médico psiquiatra e especialista na área forense Talvane Marins de Moraes. Com base na análise da fita que consta do processo e nas novas gravações apresentadas pela defesa, Moraes concluiu que os interrogados “foram submetidos a tratamento degradante, desumano e violento, caracterizado como tortura”.

No julgamento de 16 de março, quando o relator do processo, o juiz Mauro Bley Pereira Junior, começou a proferir seu voto, ficou evidente que ele votaria contra o pedido de revisão criminal. O juiz ponderou que as novas fitas não poderiam ser consideradas provas, pois não haviam sido anexadas ao processo nem passado por perícia oficial. Portanto, seu conteúdo não tinha sido submetido ao contraditório – uma regra jurídica que define que cada uma das partes tenha acesso a todos os documentos do processo e, se for o caso, possa contestá-los.

Beatriz assistiu ao julgamento pelo YouTube, mas sua mãe, Celina, compareceu ao prédio do TJ-PR em Curitiba. A senhora de 84 anos ­– que não estava sendo julgada, pois as acusações contra ela prescreveram em razão da idade – acompanhou tudo de cabeça baixa, sentada logo atrás do advogado Figueiredo Basto. Quando o relator deu seu voto, Celina começou a chorar baixinho. Dois juízes divergiram do relator: Simone Cherem Fabrício de Melo e Kennedy Josué Greca de Mattos consideraram que as novas fitas são um elemento probatório produzido pela acusação – pois, afinal, eram gravações feitas em interrogatório durante a fase de inquérito. Eles também ressaltaram que as fitas haviam sido analisadas por Braid, a mesma pessoa encarregada pelo MP-PR de periciar a gravação do processo. Mattos acrescentou que as novas fitas foram ocultadas “por demonstrar a prática de tortura por parte de agentes do Estado”. Os outros dois juízes, entretanto, apesar de terem registrado palavras amáveis sobre a família Abagge – o marido de Celina e pai de Beatriz, Aldo Abagge, era prefeito de Guaratuba na época do caso –, acompanharam o voto do relator, rejeitando o pedido de revisão.

No momento em que a derrota foi sacramentada, por 3 a 2, Beatriz deu um murro na mesa de seu apartamento em Guaratuba e gritou um palavrão: “Filhos da puta! Minha família não precisa de elogios. Precisa de justiça.” Ela contou à piauí que, imediatamente, lhe veio à mente a imagem de um labirinto. “Desde o início desse caso, foram muitos corredores que davam em lugar nenhum, com muitas portas fechadas e falsas saídas: um labirinto onde nos meteram em 1992 e do qual tento sair faz mais de trinta anos.”

 

No dia 2 de julho de 1992, por volta de sete e meia da manhã, a empregada do prefeito Aldo Abagge e sua família avisou que um grupo de policiais estava batendo à porta da casa. Beatriz, então com 28 anos, preparava as mamadeiras de Luccas e Maria Edduarda, os gêmeos que ela tinha adotado recém-­nascidos, dois anos e meio antes. Os agentes, armados, irromperam na sala. Perguntaram por Celina e também pela “amante do Osvaldo Marcineiro” (referindo-se a uma das filhas do casal Abagge, cujo nome sequer sabiam). Assim que a primeira-dama de Guaratuba se apresentou, ela ouviu: “Tá presa!”

“Eles entraram chutando a porta, derrubando cadeiras, arrebentando tudo. Eu fiquei apavorada. Não apresentaram mandado. Não sabiam nem o nome da minha filha que eles queriam prender”, recorda Celina. Sob os protestos do prefeito Abagge, as irmãs Beatriz e Sheila, de 25 anos, decidiram acompanhar a mãe para resolver o que achavam ser apenas um mal-entendido. As três mulheres foram levadas ao Fórum de Guaratuba e isoladas em uma sala de audiência. Em dado momento, um policial entrou e puxou Celina para fora da sala. Ao tentar proteger a mãe, Beatriz enganchou-se no braço dela e saiu junto. As duas foram arrastadas até um carro, que deixou o local. Minutos depois, Beatriz foi separada da mãe e transferida para outro automóvel. Elas contaram que foram vendadas e obrigadas a se deitar no assoalho dos veículos, de onde ouviram policiais dizer que fariam “uma inquisição” e iriam “queimar as bruxas”.

Pela trajetória do carro, Celina inferiu que estivessem em uma área rural conhecida como Cubatão, ainda em Guaratuba. Quando a conduziram para fora do automóvel, a blusa que a vendava caiu e ela viu uma casa de madeira, com bananeiras do lado direito, às margens de uma estrada de terra. Celina relatou que, assim que todos entraram na casa, ela foi jogada em uma cama, coberta com uma manta e começou a ser espancada. De onde estava, também ouvia os gritos de Beatriz, em outro cômodo da casa: “Não! Não façam isso pelo amor de Deus!”

A tortura é o único tema sobre o qual Beatriz se recusa a falar detalhadamente, em razão do trauma que sofreu. Até hoje, ela só descreveu as violências vividas em duas ocasiões: em um dos júris e em um depoimento que consta do dossiê Tortura Nunca Mais?, publicado pelo Conselho Municipal da Condição Feminina de Curitiba, em 1993. Nesse documento, ela relata: “Um dos policiais disse que dezesseis policiais iriam me estuprar. […] Eu desmaiei, desmaiei diversas vezes. Não sei quantas vezes fui estuprada e nem por quantos.  […] Dois ou três me seguravam pelos braços e pernas. Não tinha como reagir. […] Eu gritava, gritava, desesperada.[…] Quando acordei, estava em outra cama. Estava toda suja de sangue e fezes.”

Quando recobrou a consciência, ainda vendada, Beatriz foi colocada diante de Osvaldo Marcineiro – que, segundo o Tortura Nunca Mais?, também foi mantido na casa da zona rural por um período. O pai de santo disse que já não suportava as torturas e implorou para que Beatriz admitisse ter participado do assassinato do menino Evandro. Só então a jovem soube o que os policiais queriam que ela e a mãe confessassem.

As duas afirmam que, depois disso, sofreram novas torturas – de acordo com o dossiê, elas foram submetidas a sufocamento, choque elétrico, tapa nos ouvidos (o chamado “telefone”), atos libidinosos (“introdução anal e vaginal de objeto contundente”), afogamento por meio de um pano molhado com sabão, enrolado em seus rostos, além de tortura psicológica. Elas dizem que, durante a violência, os policiais direcionavam os relatos – e os gravavam. “Eles guiavam o depoimento: ‘Fale que você matou a criança.’ E ligavam o gravador. Iam ditando. Se não falasse, apanhava, era torturada”, diz Celina. “Uma hora, eu estava vendada e abriram a porta”, ela conta à piauí. “A Beatriz estava gritando: ‘Mãe, diga o que eles querem, diga que nós matamos o menininho! Eles vão me matar!’ Diante daquilo, eu diria até que matei Jesus Cristo.” As gravações feitas com as duas viriam a ser as principais provas apresentadas pela polícia.

Celina e Beatriz dizem que, depois disso, foram levadas de volta ao Fórum de Guaratuba. Uma filmagem em vídeo – feita à média distância, em plano mais aberto, e com duração de 2 minutos e 55 segundos – mostra mãe e filha sentadas em um sofá, de mãos dadas, com olhar catatônico. Elas mal se movem, enquanto flashes espocam na sala, indicando que alguém as fotografava. Celina aparece com uma blusa sobre o colo. No fim do vídeo, dois homens entregam papéis às duas, e um deles diz: “Pode assinar, é o mandado de prisão.” “Nós fomos sequestradas. Até ali, não tinha mandado, que só apareceu depois que tínhamos sido arrebentadas”, afirma Beatriz à piauí. “Eu estava com uma blusa em cima das pernas porque estava toda evacuada e urinada”, completa Celina.

Por volta de duas e meia da tarde, uma multidão se aglomerou diante do fórum, o que fez com que Beatriz e Celina fossem retiradas às pressas do prédio em uma viatura, que também foi cercada por pessoas enfurecidas, depois que circulou na cidade a informação de que as duas seriam as assassinas do menino Evandro. Dali, mãe e filha foram levadas ao quartel do 9º Batalhão da Polícia Militar de Matinhos, município que fica do outro lado da Baía de Guaratuba e por onde se chega via balsa, que transporta carros e pessoas.

Na embarcação, outro vídeo foi gravado. Nele, Beatriz aparece em close, prostrada e de olhos baixos, no banco traseiro de um carro. Um interlocutor insiste em fazer perguntas, como: “Beatriz, o que [é] que deu na cabeça de vocês [para] fazerem isso?” Ela responde com monossílabos, até desatar num choro convulsivo, aos soluços. No filme é possível ver homens com arma na cintura circulando pela balsa.

Somente à noite, no quartel de Matinhos, depois de lá passarem mais de doze horas, Beatriz e Celina prestaram depoimento formalmente. Elas dizem que nessa ocasião relataram a violência que sofreram, mas foram ignoradas pelo delegado e o promotor que as interrogaram. “Ali, eu já falei que a gente tinha sido torturada. Mas não se usava essa palavra. Falava: ‘Eu apanhei, fizeram isso, fizeram aquilo.’ Eles riam”, conta Beatriz à piauí. Como a descrição das torturas não foi transcrita no depoimento, Silvio Otávio dos Santos Bonone, advogado da Prefeitura de Guaratuba que as acompanhava – e não é criminalista –, assinou o documento “sob protesto”. As duas foram, então, levadas a Curitiba – a cerca de 110 km de Matinhos –, onde passaram a noite sob custódia da PM.

Ao longo do processo, a acusação sustentou que a cronologia foi diferente: ainda de manhã, Beatriz e Celina foram retiradas do Fórum de Guaratuba por medida de segurança e permaneceram em uma viatura, que ficou circulando pela cidade. No início da tarde, elas voltaram ao fórum, mas uma aglomeração havia se formado em frente ao prédio. Em razão disso, as duas foram levadas a Matinhos. A gravação das confissões em áudio teria ocorrido dentro do carro, durante o deslocamento e a travessia na balsa – e não na casa de madeira numa área rural, como diz a defesa. A versão da acusação tem lacunas. Além de a gravação ter sido feita fora do rito processual, não explica por que a voz de Osvaldo Marcineiro aparece nas fitas, já que, segundo a polícia, ele não estava no comboio da balsa. O MP-PR não atendeu aos pedidos de entrevista para esta reportagem.

No dia seguinte, 3 de julho, Celina e Beatriz, além de três acusados – Marcineiro, o também pai de santo Vicente de Paula Ferreira e o artesão Davi dos Santos Soares –, foram apresentados à imprensa em uma entrevista na Secretaria de Estado da Segurança Pública, em Curitiba. Rodeados por repórteres, os três homens – que não tinham advogado constituído – responderam, cabisbaixos, às perguntas, detalhando o crime que confessavam ter cometido. As imagens e os áudios dessa entrevista foram fartamente veiculados pela imprensa nas semanas seguintes. Depois, os três homens alegaram que só confessaram porque foram torturados – inclusive na mansão que o ex-ditador paraguaio Alfredo Stroessner, exilado no Brasil, mantinha em Guaratuba, próximo ao Hotel Praia e Sol, e que costumava “emprestar” à polícia. Nas filmagens, o ouvido direito do artesão Davi Soares está tampado com algodão, o que, para a defesa, reforça os indícios de tortura. Os depoimentos dos cinco acusados implicaram outros dois homens, que também foram presos: Airton Bardelli dos Santos, funcionário da família Abagge, e Francisco Sérgio Cristofolini, comerciante e vizinho de Marcineiro.

Ainda no dia 3 de julho, Beatriz e Celina foram levadas à Penitenciária Feminina do Paraná, no Complexo Penitenciário de Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba. O laudo do Instituto Médico Legal (IML) não apontou lesões graves nas duas. No caso de Beatriz, foram identificadas lesões nos polegares e uma escoriação perto do olho direito. Ela conta que olharam apenas suas mãos e que o exame foi acompanhado por um policial, para garantir que ela não fizesse qualquer menção à tortura. (Às vésperas do julgamento de mãe e filha, um dos legistas do IML se suicidou.) Beatriz e Celina ficaram presas no Complexo de Piraquara durante 3 anos, 8 meses e 28 dias, sem terem sido julgadas. “Eu não conhecia o menino Evandro. Nunca sequer o vi”, alega Beatriz.

 

Evandro Ramos Caetano desapareceu em Guaratuba na manhã de 6 de abril de 1992, segunda-feira. O menino de seis anos tinha ido à Escola Municipal Professora Olga Silveira, onde trabalhava sua mãe, Maria Ramos Caetano, e, após passar um tempo com ela, decidiu voltar para casa, a fim de pegar seu minigame e fazer um lanche. A mãe só deu pelo sumiço do filho quando chegou em casa para almoçar. Cinco dias depois – no sábado, 11 de abril –, o corpo de um menino foi encontrado por dois lenhadores, em um matagal ermo. Era impossível reconhecê-lo: os olhos arrancados, sem o couro cabeludo e parte da pele do rosto, as mãos decepadas na altura dos pulsos, bem como os dedos dos pés. A caixa torácica estava aberta, e os órgãos internos haviam sido retirados. A vítima trajava uma bermuda de algodão estampada, semelhante à que Evandro usava no dia do desaparecimento. Posteriormente, o pai do menino, o servidor público municipal Ademir Batista Caetano, reconheceu o corpo como sendo o de seu filho, a partir de uma marca de nascença nas costas.

O caso vinha sendo investigado a pedido do prefeito Abagge pelo Grupo Tigre (sigla de Tático Integrado de Grupos de Repressão Especial), esquadrão da Polícia Civil no Paraná especializado em sequestros. Mas a equipe não tinha avançado muito na tarefa. Familiares de Evandro também faziam investigações particulares, conduzidas pelo engenheiro civil Diógenes Caetano dos Santos Filho, ex-policial civil e militar e primo em segundo grau do menino. Em 29 de maio – um mês e 23 dias depois do desaparecimento –, Santos Filho procurou o MP-PR e prestou um depoimento transcrito em dez páginas, em que lançava suspeitas sobre Marcineiro e a família Abagge.

Como até então o Grupo Tigre não havia apresentado resultados consistentes, a Secretaria de Segurança Pública designou o Grupo Águia (sigla de Ação de Grupo Unido de Inteligência e Ataque), serviço reservado de inteligência da PM paranaense (mais tarde extinto), para deflagrar uma investigação paralela, com base nos apontamentos de Santos Filho – embora a PM não tenha prerrogativa constitucional de fazer investigações. Vinte e três dias depois da entrada do Grupo Águia no caso, Beatriz e Celina foram presas. O relatório do Grupo Águia – chamado Operação Magia Negra – tem apenas oito páginas. Assinado pelo capitão Valdir Copetti Neves, o documento diz que Evandro foi sequestrado e sacrificado em um ritual de magia negra: “Tendo como vítima uma criança de sete anos, com sete letras em seu nome, oferecem-na a Exu” (embora Evandro tivesse 6 anos). O crime teria ocorrido na Serraria Abagge, a mando de Celina e Beatriz, e com a participação delas, a fim de “abrir os caminhos” da família. Durante o ritual, Celina teria retirado o coração de Evandro.

“Quando nós, da família, levamos as informações para o Ministério Público, estávamos com tudo definido. Sabíamos que tinha sido um ritual de magia negra”, diz Santos Filho à piauí, por telefone. “Os promotores acharam consistente. Disseram: ‘Vamos analisar.’ Duas semanas depois, apareceu a PM2 [serviço reservado da PM], dizendo que precisavam de ajuda para investigar, para saber onde moravam as pessoas. Eu levava, e eles ouviam as pessoas”, acrescenta. “Se houve tortura, foi das prisões para frente. O trabalho de investigação da família não pode ser maculado pela questão da suposta tortura.”

Ao ser perguntado sobre que provas as apurações da família conseguiram reunir, Santos Filho destacou o fato de que Marcineiro – que jogava búzios em uma feira de artesanato – vinha profetizando uma tragédia na cidade. “Antes, ele cobrava 5 mil cruzeiros pela consulta. Quando o Evandro desaparece, ele passa a cobrar 25 mil. O desaparecimento chamou a atenção de que ele tinha poderes sobrenaturais”, diz. Santos Filho também menciona o depoimento do guardião da serraria, Irineu Wenceslau de Oliveira, que afirmou ter visto os acusados chegando ao estabelecimento na noite em que Evandro teria sido assassinado. (Mais tarde, no entanto, a testemunha procurou as autoridades para mudar seu depoimento: disse que foi levado à delegacia e lhe encostaram uma arma na cabeça para que incluísse os acusados pela polícia na provável cena do crime, a serraria.)

O pai de Santos Filho, Diógenes Caetano dos Santos, também foi prefeito de Guaratuba entre 1973 e 1976, e o próprio engenheiro e ex-policial tinha pretensões políticas. No mesmo ano de 1992, distribuiu na cidade uma série de panfletos assinados, com críticas ao prefeito Abagge, do qual era opositor. Um deles tinha o título “Aldo Abagge – Traição e Mentira”. Outro dizia: “Prefeito e vereadores insistem no seu propósito: matar a população de fome.” O desaparecimento de Evandro deu projeção a Santos Filho, que passou a ser uma espécie de porta-voz da família. Naquele ano, ele se candidatou a vereador, mas não foi eleito. “Isso de eu ter me aproveitado politicamente é coisa da defesa deles. Eu me levantei pelos interesses coletivos da cidade. Eu nem queria ser candidato. Fui contra a minha vontade”, diz Santos Filho. “A imprensa mentiu muito e ainda mente. Mentiram contra o Bolsonaro, não iam mentir contra a gente? Nós queríamos justiça. Aqueles são os culpados, os assassinos.”

 

Suspeitas de assassinato e tachadas de bruxas, Beatriz e Celina Abagge foram levadas para a Penitenciária Feminina de Piraquara na tarde de 3 de julho de 1992. Ao chegarem lá, ouviram de um policial: “Agora, vocês estão no inferno. Aqui é a nova morada da primeira-dama e da filha do prefeito.” Cada uma recebeu um fino agasalho – conhecido como “pega-louco” –, e as duas foram colocadas numa mesma solitária, descrita por elas como um cômodo escuro, sem janela nem ventilação, de cerca 6 m². O espaço tinha uma cama de cimento, um vaso sanitário – entupido e cheio de excrementos – e uma torneira rente ao chão, sem água. Como não havia cobertores, mãe e filha permaneciam abraçadas para afastar o frio.

No terceiro dia, Beatriz foi transferida para outra solitária, que tinha as mesmas condições da cela anterior. Longe da mãe e traumatizada pela violência, ficou apavorada. O que a ajudou a se tranquilizar e manter a saúde mental foi uma aranha. O inseto descia do teto por um fio de teia e, assim que chegava perto, Beatriz o assoprava, fazendo-o voltar para cima. Enquanto isso, ela cantava: A dona Aranha subiu pela parede/Veio a chuva forte e a derrubou…, distraindo-se até mesmo do frio. “O que salvou a minha vida foi aquela aranha. Ela foi minha companhia”, relembra Beatriz. “Era um lugar horrível. Era cimento e só. Tudo cinza, uma escuridão, um mau cheiro…”

As Abagge voltaram a dividir uma cela dias depois, dessa vez na galeria A, destinada às presas que aguardavam julgamento. Foi quando Beatriz se desesperou: sua menstruação estava atrasada e ela temeu ter engravidado de um dos estupradores, durante as torturas. A defesa chegou a apresentar um pedido para que fosse examinada por um ginecologista particular, mas não houve tempo. “Um dia antes da consulta, me levaram arrastada para a sala da médica do presídio. Ela colocou algo dentro de mim. Saí de lá quase desmaiada e com hemorragia”, conta Beatriz. Ela acredita que tenha sido submetida a um procedimento que lhe provocou um aborto.

As condições no cárcere melhoraram um pouco depois que a diretora da unidade, Vera Lúcia Silano Domingues dos Santos, voltou das férias. Segundo Beatriz e Celina, ela ficou impressionada com o mau estado em que se encontravam mãe e filha: com roupas imundas e apenas com pedaços de mantas, igualmente sujas. As Abagge receberam roupas limpas, toalhas e produtos de higiene e de limpeza, enviados pela família, além de pó de café e açúcar. A diretora não foi capaz, contudo, de impedir a perseguição das agentes penitenciárias, que, com a desculpa de revistar o espaço, invadiam a cela, jogavam os pertences das duas no chão e despejavam café em cima. “Só nos chamavam de bruxas, de assassinas. Passamos o diabo”, resume Beatriz.

Até então, as Abagge não mantinham contato com as outras presas. Faziam as refeições na própria cela e estavam impedidas de tomar banho de Sol. Quando foram inseridas na rotina do presídio, enfrentaram resistência. No refeitório, mãe e filha permaneciam de olhos baixos, sentadas uma de frente para a outra. “No começo, as detentas nos chutavam por debaixo da mesa. Para proteger a Beatriz, eu colocava as pernas dela entre as minhas. Minhas canelas viviam roxas”, diz Celina. Uma das agentes percebeu as agressões e conduziu as Abagge à direção, onde elas foram pressionadas a delatar as colegas. Beatriz e Celina se fizeram de desentendidas: garantiram que não haviam sido hostilizadas. O gesto foi bem-aceito nas galerias do presídio. No dia seguinte, uma presa disse para elas: “A partir de hoje, ninguém mais mexe com vocês.”

A perseguição das agentes penitenciárias, porém, continuou. Para pôr fim às revistas e constrangimentos, Beatriz lançou mão da fama de bruxa. Pediu a uma das detentas que tomava banho de Sol em um pátio externo que lhe trouxesse penas de aves, como das maritacas, que costumavam sobrevoar a prisão. Amarrou três penas grandes, unindo-as pela base, formando uma espécie de tridente, e afixou o arranjo junto à porta de aço da cela. Ao se deparar com o artefato, uma agente penitenciária, espantada, perguntou do que se tratava. “Eu falei que era magia negra: ‘Vai acontecer um desastre com quem puser a mão aí!’ Nunca mais revistaram a nossa cela”, relembra Beatriz, rindo. “Nessa época, eu já estava ‘do peru’. Eu tinha que aproveitar da ignorância delas para sofrer menos lá dentro.”

Quando passaram a receber visitas de familiares, Celina e Beatriz se comoveram com a obstinação de Aldo Abagge em tentar provar a inocência delas. “A imprensa ainda vai escrever: ‘INOCENTES’, em letras garrafais”, ele dizia. Assim como o restante de sua família, o ex-prefeito tinha certeza de que o corpo encontrado não era de Evandro e que o menino estava vivo. Aldo contratou detetives particulares e fez várias viagens pelo país, perseguindo qualquer pista sobre o possível paradeiro do garoto. Essas despesas, além dos gastos com advogados, foram consumindo o patrimônio da família. “Meu pai se agarrou a qualquer esperança. Nisso, surgiu muita gente aproveitadora, para tirar dinheiro. Ele gastou o resto da vida dele nisso”, diz Sheila Abagge, irmã de Beatriz. “Ele viajou o Brasil inteiro. No fim, tinha uma suspeita de o Evandro estar em Quixadá, no Ceará. Ele, um advogado e dois investigadores seguiram para lá, mas foram recebidos à bala no local.”

Em agosto de 1995, Aldo foi diagnosticado com um câncer em estágio terminal. Ainda presas, Celina e Beatriz conseguiram autorização judicial para acompanhá-lo em seus últimos dias. Sob escolta policial, as duas passaram uma semana em um quarto com antessala, no Hospital Santa Cruz, em Curitiba. Aproveitaram para tirar as saudades dos familiares – inclusive dos filhos gêmeos de Beatriz. Para que Aldo partisse em paz, optaram por contar a ele uma mentira: disseram que Evandro tinha sido encontrado e que elas foram inocentadas do crime. “De cara, ele não acreditou. Disse: ‘Vocês pensam que eu sou bobo? Eu estou vendo os policiais aí.’ Nós dissemos que era escolta, porque a imprensa queria entrevistar a gente, por termos sido inocentadas”, conta Beatriz. “Foi a forma que encontramos de deixar ele ir tranquilo. No momento da morte dele, pousou um passarinho na janela do quarto. Acho que foi um sinal de que ele estava em paz.” Aldo Abagge morreu em 19 de agosto de 1995.

Menos de oito meses depois, em 2 de abril de 1996, Beatriz recebeu a notícia de que a Justiça tinha aceitado o pedido da defesa, concedendo a mãe e filha o direito de progredir para a prisão domiciliar. Elas haviam ficado presas quase quatro anos e não deixaram de estranhar como “o mundo de fora” tinha mudado. Um dos primeiros passeios que fizeram foi a um novo shopping center e se surpreenderam ao serem abordadas por pessoas que lhes manifestavam apoio. “No começo, eu não podia sair na rua. Todo mundo pedia autógrafo. Eu dizia: ‘Oi? Numa tragédia dessas? Isso não existe.’ Nunca dei”, diz Beatriz. “A gente só queria retomar a vida normal. Só isso.”

 

A curitibana Beatriz Cordeiro Abagge sempre teve personalidade forte. Preferia jogar futebol na rua com os meninos a brincar de boneca. Também fez capoeira. Seus modos expansivos nem sempre eram bem-aceitos nos colégios de freiras onde fez os primeiros estudos. Na infância, chegou a ter uma minilambreta – presente dado por Aldo, a quem era muito apegada. “Meu pai queria um menino. Acho que, inconscientemente, eu acompanhava ele, como se fosse um menino. É que nunca me adaptei. Eu era muito moleca, gostava de fazer bagunça. Se fosse na Idade Média, eu seria uma bruxa, com certeza”, brinca.

Os Abagge e seus cinco filhos viviam entre Curitiba e Guaratuba, onde tinham casas. Beatriz, a segunda filha do casal, preferia o litoral, onde se sentia mais solta. Era lá, também, que se concentravam os negócios da família. O principal deles era a extração de caixeta – árvore de madeira nobre –, que era manufaturada na Serraria Abagge e depois exportada para a fabricação de lápis. Aldo também era dono do maior supermercado de Guaratuba, que ocupava uma quadra inteira e foi alugado a outra rede. A família era considerada uma das mais prósperas do litoral paranaense e costumava passar as férias no exterior.

Apesar de ter sido educada no catolicismo, Beatriz não se sentia atraída por essa religião. Aos 16 anos, teve um sério problema de lesão por esforço repetitivo (LER/Dort) no braço e, certa noite, sonhou que era operada por um médico chamado Leocádio Correia. Quando acordou, passou a mexer o pulso normalmente. Ao relatar o caso à mãe, Celina se assombrou: “Mas, Bea, esse médico morreu há quase cem anos!” Dez anos depois, Beatriz passou a ter um sonho recorrente: que tinha dado à luz gêmeos, exatamente no dia 7 de dezembro de 1989. No início de janeiro de 1990, a juíza da cidade telefonou aos Abagge, perguntando se poderiam adotar um casal de irmãos recém-nascidos que tinham sido abandonados. “A juíza falou a data que eles tinham nascido: 7 de dezembro de 1989. Na hora, eu disse: ‘São meus filhos!’”, conta Beatriz. Eram os gêmeos Luccas e Maria Edduarda.

Em Guaratuba, a família Abagge vivia em um casarão de muros baixos e varanda ampla em frente à prefeitura, numa das ruas principais da cidade. A residência permanecia de portas abertas – literalmente – e com mesa posta o dia todo. Recebia desde amigos até pessoas necessitadas que batiam à casa do prefeito Abagge em busca de ajuda. Também virou um ponto de encontro dos amigos dos filhos do casal Aldo e Celina. Extrovertida, bonita e com variados compromissos sociais, Beatriz era uma referência na cidade, principalmente entre os mais jovens. “Ela era uma pessoa muito alegre, divertida, com muitos amigos, muito colorida, com as roupas sempre combinando”, descreve Maria Angélica Lobo Leomil, quase dez anos mais nova que Beatriz. “Era uma mulher moderna, que se dedicava muito à faculdade, primeiro, e ao trabalho, depois, muito envolvida em questões sociais e sempre disposta a ajudar. Era uma influência para a gente.” Leomil recorda que, quando Beatriz adotou os gêmeos, achou “impressionante” a atitude dela: “Uma moça jovem, adotando duas crianças. A gente falava: ‘Nossa! Que coragem!’”

Nessa época, Beatriz já se aproximara de doutrinas espíritas e passara a se interessar por religiões de matrizes africanas, como a umbanda. “Eu achava lindo os rituais, os cânticos”, ela conta. Em 1992, aos 28 anos, viu em uma feira de artesanato em Guaratuba uma barraquinha onde se jogavam búzios. Curiosa, foi se consultar e conheceu Osvaldo Marcineiro, que se apresentou como pai de santo. Ela não nega que se tornou amiga de Marcineiro e chegou a participar de rituais conduzidos por ele, junto com o pai de santo Vicente de Paula Ferreira e o artesão Davi dos Santos Soares – que também acabariam sendo acusados do crime. Em um dos rituais, fizeram um trabalho com pipocas na Serraria Abagge. “Eu estava conhecendo as religiões. O Osvaldo misturava umbanda com candomblé. Um dia, ele sacrificou uma galinha, e eu parei de frequentar, porque tive muita pena do bichinho”, diz. “Nunca ti­ve nada com o Osvaldo. Ele era noivo, morava com a Andréa [Pereira Barros].”

Formada em terapia ocupacional, Beatriz havia se dedicado ao cuidado de pessoas com necessidades especiais. Seu primeiro emprego foi na Escola Tia Maria, em Curitiba, para onde se transferiu. Lá, se aproximou da pedagoga Rosana Nader da Rocha, que tinha acabado de se mudar para o Paraná. Logo a relação profissional evoluiu para uma amizade sólida. Acolhida pelos Abagge, Rocha encontrou nessa família um suporte importante quando enfrentou o episódio mais difícil de sua vida: a morte da mãe. “Eu não recebi de nenhuma outra pessoa o afeto e o cuidado que recebi da Beatriz, da Celina e do seu Aldo”, diz. Meses depois, Rocha engravidou de sua quarta filha. Assim que soube da gestação, Beatriz fez uma premonição: a menina seria a reencarnação da mãe de Rocha. “Minha filha, de fato, nasceu com a cara da minha mãe”, observa a pedagoga. Beatriz se tornou uma espécie de consultora de estilo da amiga. Quando Rocha comprou uma casa ampla em um condomínio, Beatriz ficou entusiasmada e deu pitacos na decoração. “Ela me levou para fazer orçamento das cortinas. Dizia: ‘Você tem que fazer o forro com palha de seda, que fica lindo.’ Eu não tinha ideia do que era aquilo.”

A amizade com Rocha arrefeceu depois que Beatriz voltou a viver em Guaratuba, a pedido de Aldo. Ele queria criar um centro para atendimento de crianças com necessidades especiais e solicitou à filha que elaborasse um projeto, que foi apresentado à Câmara de Vereadores e implantado. Aprovada em um concurso da prefeitura, Beatriz pôs mãos à obra, com a ajuda informal de sua mãe. “Fizemos um levantamento de todas as crianças com deficiência da cidade. Íamos a pé, batendo de casa em casa. Em Caieiras [uma das praias de Guaratuba], encontramos uma criança trancada num canil”, diz Beatriz. “Eu e a minha mãe éramos muito atuantes, independentes. Isso pesou na nossa condenação pública. Mas, até então, essa era nossa vida.”

 

A jornalista Vania Mara Welte foi a primeira na imprensa a chamar a atenção para as incongruências da versão da polícia, na série de reportagens As Bruxas de Guaratuba, publicada pelo jornal Hora H, que lhe rendeu o Prêmio Esso categoria Regional Sul, em 1996. Depois de se debruçar sobre o caso, Welte se convenceu da inocência dos acusados. O primeiro júri começou seis anos depois do crime, em 9 de março de 1998, tendo como réus Marcineiro, Santos Soares e De Paula – mas foi suspenso no segundo dia porque uma jurada passou mal. Presente no julgamento, Welte se impressionou com a atuação do advogado Antonio Figueiredo Basto, que defendia os réus. “Ele conhecia, de fato, o processo. Se caísse uma letrinha, era capaz de saber a que página ela pertencia. Eu pensei: ‘Se ele estiver na defesa das Abagge, elas serão inocentadas’”, conta Welte, hoje com 78 anos. “Eu fui até elas e perguntei: ‘Vocês querem ser absolvidas? Pois, então, contratem o doutor Figueiredo Basto.’”

Figueiredo Basto atuava, sobretudo, como advogado dativo – aquele que, nomeado por um juiz, defende acusados sem condições de arcar com honorários advocatícios. Quando foi convidado a assumir a defesa dos três réus, ele chegou a titubear. “Não sei se tenho roupa para esse baile”, disse. No entanto, levou os mais de cem volumes do processo para casa e começou a estudar. Já no terceiro volume, chegou a uma constatação – e disse para si mesmo, em voz alta: “Esse caso é a maior falha do Judiciário brasileiro.” Aceitou assumir a defesa dos três réus. “Quando comecei a ler as confissões, eu dei um pulo! Estava escrito que os acusados disseram: ‘Eu matei por asfixia mecânica’, ‘Eu fiz um corte transversal’. Uma pessoa leiga não tem ideia do que é ‘asfixia mecânica’. Era um indício de que tinham sido induzidos a dizer aquilo, de acordo com o que constava do laudo de necropsia. Tirando as confissões, que foram obtidas por tortura, não se tem prova nenhuma”, disse Figueiredo Basto à piauí. “O Judiciário, que é uma máquina engendrada para proteger direitos individuais, funcionou em uma engenharia reversa.”

Dias depois da suspensão do júri de Marcineiro, Santos Soares e De Paula, chegou a vez de Beatriz e Celina Abag­ge serem levadas pela primeira vez ao banco dos réus, no Fórum de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. A defesa estava a cargo de Figueiredo Basto. As duas enfrentaram uma maratona que se estendeu por 34 dias – é, até hoje, o julgamento mais longo da história brasileira.

Os jurados responderam à seguinte questão: “Foram feitos em Evandro Ramos Caetano os ferimentos descritos no laudo cadavérico de folhas 214 a 229 dos autos?” O resultado variou de acordo com a ré. No caso de Celina, quatro jurados votaram “não” e três, “sim”. No caso de Beatriz, cinco votaram “não” e dois, “sim”. Com isso, mãe e filha foram inocentadas. (A pergunta estava tão mal formulada que abria a porta para entendimentos distintos. Quem respondesse “não” poderia estar dizendo que os criminosos não provocaram os tais ferimentos, ou que o corpo de Evandro não apresentava aqueles ferimentos ou, ainda, que o corpo submetido ao exame cadavérico não era o do menino.)

A família Abagge e amigos foram comemorar a absolvição em uma churrascaria e, depois, seguiram para a casa, onde brindaram à liberdade.

Os julgamentos dos cinco homens – que ficaram presos até 1996 e depois conseguiram o direito de responder ao crime em liberdade – só ocorreram em 2004 e em 2005. Durante o tempo na prisão, eles passaram um ano e oito meses em uma solitária do Complexo Penitenciário de Piraquara, sem cortar a barba e os cabelos e tomando banho raramente. “Quando os visitei mais de seis meses depois, pareciam bichos”, diz a advogada Isabel Kugler Mendes, que atuou em defesa dos direitos humanos.

Marcineiro e De Paula foram condenados a 20 anos e 2 meses de prisão, e Santos Soares a 18 anos e 8 meses. Marcineiro e Santos Soares cumpriram a pena e hoje estão em liberdade. De Paula morreu de câncer, em 2011, dentro do presídio. Os outros dois réus, Cristofolini e Bardelli, que nunca confessaram o crime, foram absolvidos, em julgamento realizado em 2005.

Após a absolvição de mãe e filha, em 1998, uma figura importante do passado de Beatriz se reaproximou dela: o agrônomo Carlos Cunha Neto, seu ex-noivo. A relação dos dois tinha se desfeito exatamente no dia do desaparecimento de Evandro, em 6 de abril de 1992, com direito a devolução de alianças – por motivos religiosos. A família de Cunha Neto era muito católica e não aceitava as relações de Beatriz com a umbanda. Durante o período em que as Abagge estiveram presas, o ex-noivo até manifestou intenção de vê-las no presídio, mas Beatriz recusou a visita. “Depois do julgamento, ele começou a ir lá em casa. Eu dizia: ‘Não quero, não quero.’ Mas dei uma chance e acabamos retomando o namoro”, diz Beatriz. Os dois foram morar juntos em Curitiba, mas Abagge preferiu não se casar de papel passado, “para não perder o sobrenome”, justifica. Na ocasião, disse a Cunha Neto que seu maior desejo era engravidar. Isso, para ela, simbolizaria a reconstrução de sua vida. E assim foi. Em 2001, nasceu Giovanna Abagge da Cunha, que acaba de se formar em publicidade e propaganda. O relacionamento com Cunha Neto se desfez alguns anos depois, por “incompatibilidade de gênios”, nas palavras de Beatriz.

Reservado, Cunha Neto passou praticamente incógnito pelo caso. Nunca deu entrevistas e vive em uma propriedade rural na região de Curitiba. Ela evita falar sobre o ex-noivo e se negou, inclusive, a confirmar o nome dele à piauí. “Ele não quer aparecer, eu tenho que respeitar”, diz. Beatriz contou que os dois mantêm sólida amizade, a ponto de ela opinar sobre as namoradas dele depois da separação. A pedido da reportagem, a terapeuta enviou a Cunha Neto um pedido de entrevista, que ele respondeu com o seguinte áudio: “Eu não quero, não. Não tem por que falar. Você falou, já, que a gente se conheceu, teve a Giovanna, e tudo. Então não preciso falar.”

Na retomada de sua vida profissional, Beatriz teve a seu favor o prestígio da família Abagge, mas não deixou de enfrentar percalços em razão do estigma legado pelo Caso Evandro. Por intermédio do cunhado, o juiz Francisco Luiz Macedo Junior, conseguiu que a Prefeitura de Guaratuba – da qual era servidora concursada – a cedesse para trabalhar no Juizado Especial de Curitiba. Beatriz atuava no controle de medidas alternativas impostas pelo órgão. Ela conta que sua primeira missão foi visitar um homem que não tinha pagado a multa estipulada na conciliação. Chegando lá, constatou que ele vivia em situação de pobreza. Como prova de boa-fé, o homem lhe deu uma galinha, que ela levou ao Juizado para comprovar a penúria do sujeito. A multa foi, então, substituída por trabalhos comunitários.

Mas esse serviço de Beatriz não durou muito. Em uma manhã de abril de 1999, quando ia à padaria, ouviu no rádio de seu Fiat Pálio a notícia de que o Juizado Especial iria “devolvê-la” a Guaratuba. “Sim, eu fiquei sabendo pelo rádio!”, diz Beatriz. Resolveu bater à porta do então prefeito de Curitiba, Cássio Taniguchi. Conseguiu ser atendida e pediu um emprego na Fundação de Ação Social. Já saiu de lá com o ofício de nomeação. “Eu não conhecia o Cássio, mas um primo meu é casado com a filha dele. Eu expliquei a situação. Ele me recebeu bem, mas deve ter pensado que eu sou uma louca.” Depois disso, foi requisitada para voltar ao Juizado Especial de Curitiba. Adiante, foi cedida ao Departamento de Direitos Humanos e Cidadania, da Secretaria de Estado da Justiça. Em todos os locais em que trabalhou, Beatriz chamava a atenção dos colegas, mas ela diz que nunca sofreu dissabores. Pelo contrário: recebeu solidariedade. “Nunca tive um colega que duvidou da minha inocência”, afirma. “Eu nunca me opus a falar sobre o caso. Eu só não falava das torturas. Mas até da anulação do júri eu falava.”

 

Em 2003, Beatriz soube outra vez pelo rádio do carro que, atendendo a um recurso do MP-PR, o júri de 1998 – em que ela e mãe tinham sido absolvidas – acabara de ser anulado pela 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Paraná. O relator do processo, juiz José Maurício Pinto de Almeida, considerou que a decisão dos jurados tinha sido contrária à prova dos autos. Com isso, a mãe e a filha deveriam voltar ao banco dos réus. Beatriz sentiu-se como se tivesse entrado em uma viela sem saída de seu labirinto particular. Ela se desesperou.

O novo julgamento de Beatriz ocorreu oito anos depois, em 27 de maio de 2011 (o processo de Celina já havia prescrito por causa da idade). À entrada do tribunal, amigos afixaram faixas em seu apoio. No lado de dentro, a maioria das pessoas que assistia ao julgamento usava uma camiseta com os dizeres: “Beatriz torturada e inocente.” Ao contrário do júri anterior, o novo ocorreu de forma rápida: durou apenas dois dias. Por volta das 17 horas do dia 28 de maio, o juiz Daniel Surdi de Avelar leu o veredicto: Beatriz, então com 47 anos, foi condenada a 21 anos e 4 meses de prisão. Quando ouviu a sentença, ela começou a chorar. Enquanto a família se consternava no plenário, Luccas Abagge, então com 21 anos, extravasou a raiva quebrando diversas vidraças do prédio do fórum. “Depois daquilo, não deu mais para segurar o meu filho”, diz Beatriz.

A revolta de Luccas começou quando Celina e Beatriz foram presas em 1992. Segundo a família, mesmo muito pequeno, ele era levado nas visitas ao presídio. Assim que as agentes penitenciárias informavam que o tempo havia se esgotado, o menino costumava se enganchar no pescoço da mãe, chorando, sem querer ir embora. Já em liberdade, Beatriz se surpreendeu quando, certo dia, perguntou ao filho o que ele queria ser ao crescer. “Ele me respondeu: ‘Eu quero ser bandido para matar o Diógenes [Santos Filho, o parente de Evandro que fez a investigação particular sobre o caso]. Ele foi se revoltando e não conseguimos evitar”, conta Beatriz.

Após a condenação da mãe em 2011, Luccas passou a se envolver com drogas, em uma escalada crescente. Em 2015, foi acusado de matar a tiros um jovem na saída de uma casa noturna, em um bairro rico de Curitiba. No ano seguinte, envolveu-se em uma disputa por pontos de tráfico. Segundo a polícia, ele assassinou um desafeto e, em uma fuga classificada como “cinematográfica”, chegou a roubar três carros. Luccas foi condenado por ambos os crimes com penas que somaram oitenta anos de prisão.

Foi preso, mas fugiu da penitenciária e passou a viver como foragido. Foi detido novamente em Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, em junho de 2022, ao tentar entrar no Paraguai com documentos falsos. Conseguiu se evadir outra vez do presídio de segurança máxima, em Dourados. Uma semana depois, foi morto a tiros por policiais. “Depois que fugiu, ele me ligou uma única vez. Disse que estava livre e queria uma vida nova. Esse menino teve uma vida do cão. Ele fez muita coisa errada, mas uma coisa foi levando a outra”, avalia Beatriz, que disse ter recebido mensagens espirituais sobre a “passagem” do filho. “Depois da morte, ele dormiu por seis meses. Foi perdoado e encaminhado. Hoje, eu sei que ele está bem.”

Em abril de 2016, a 2ª Vara do Tribunal do Júri, decretou a prisão de Beatriz, que continuava livre, pois sua condenação ainda não havia transitado em julgado. No início de junho, a Justiça do Paraná fez o mesmo. A ordem de prisão baseou-se em um entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) de que decisões em segundo grau deveriam ser cumpridas. A defesa de Beatriz, no entanto, tinha ajuizado um pedido de indulto, com base no decreto nº 8615, assinado em dezembro de 2015 pela então presidente Dilma Rousseff, que previa o perdão para mulheres que cumpriram pelo menos um quarto da pena e têm filhos menores de 18 anos, entre outros casos. O pedido foi acatado pelo TJ-PR, e Beatriz não voltou à prisão.

 

No fim de 2019, o podcaster Ivan Mizanzuk se fechou em seu estúdio caseiro para digitalizar o pacote de onze fitas que havia recebido de uma fonte sobre o Caso Evandro. Duas delas tinham relação direta com o crime. Ao comparar as falas com as transcrições feitas pela polícia e que constam do processo, Mizanzuk constatou que tinha em mãos uma versão mais ampla das gravações das confissões de Beatriz, Celina e Marcineiro. Atônito, disse à sua mulher, Anielle Casagrande: “As duas foram torturadas. Agora, tenho certeza: elas são inocentes.”

Ao pesquisar sobre o crime, Mizanzuk não conseguia afastar a sensação de que havia muita coisa estranha nos desdobramentos do caso. “A partir do momento que eu ouço o Osvaldo Marcineiro sendo torturado e depois a Beatriz dizendo coisas, como ‘Tô inventando’, eu tenho a confirmação da tortura, sem sombra de dúvida”, diz ele à piauí. “Essas pessoas sofreram o diabo. O que se faz nessa hora? Foi uma sensação muito ruim.”

A história da fita é bizarra. Logo após a prisão dos acusados, em julho de 1992, foi anexada aos autos uma fita cassete com 22 minutos e meio de gravações, contendo as confissões gravadas pela PM. Em 1996, quando o processo foi desaforado de Guaratuba para São José dos Pinhais, essa fita sumiu, restando apenas as transcrições no processo. Às vésperas do julgamento das Abagge, em 1998, o jornalista Ari Soares dos Santos apareceu no fórum com uma fita, e esta gravação foi ouvida pela juíza, por advogados e promotores. Como seu conteúdo batia com as transcrições, foi anexada ao processo.

O material obtido por Mizanzuk, porém, é mais amplo. “Essas fitas novas têm mais elementos. Indicam que passagens importantes foram omitidas da fita que consta do processo. Ainda assim, não sei se as fitas que obtive contêm o material bruto. Podem ser fitas de ‘transição’, intermediárias entre o ‘bruto’ e a versão que foi entregue pela PM. A fita entregue pela PM é uma colcha de retalhos”, diz Mizanzuk. “As novas fitas têm mais de duas horas. Não contemplam só aquele trecho, mas também têm coisas novas, como a tortura do Vicente de Paula.” Após a publicação do conteúdo das fitas, a Secretaria de Estado da Justiça, Família e Trabalho do governo do Paraná fez, em janeiro de 2022, um pedido de desculpas oficial a Beatriz pelas “sevícias indesculpáveis cometidas no passado”.

Depois do Caso Evandro, o advogado Figueiredo Basto foi se projetando pouco a pouco como um dos criminalistas mais renomados do Paraná, tendo defendido, inclusive, investigados da Operação Lava Jato, como Dario Messer, o “doleiro dos doleiros”. Na defesa de Beatriz, ele atua pro bono (sem cobrar honorários), embora tenha empenhado cinco advogados e dois estagiários de seu escritório no pedido de revisão criminal.

Eloquente, Figueiredo Basto costuma entremear em suas argumentações frases de pensadores e escritores famosos, de Friedrich Nietzsche a Jorge Luis Borges, embora não pareça pedante ao fazê-lo. Irrita-se, porém, ao ouvir uma alegação recorrente da acusação: de que, independentemente de ter havido tortura, Beatriz seria uma das autoras do homicídio. “Esse é um argumento bizantino! O princípio é o da presunção de inocência. Se você precisou torturar, é porque não tinha provas. Acaba aí o processo. Ao se transpor esse terreno, não se enxerga mais civilidade”, justifica. A defesa vai recorrer ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) da decisão da 2ª Câmara Criminal do TJ-PR de não acatar o pedido de revisão criminal.

O engenheiro e ex-policial civil Diógenes dos Santos Filho, hoje com 67 anos, continua acompanhando o caso com interesse, mas se recusou a assistir à série da Globoplay sobre o crime, que tratou do caso das fitas com conteúdo diferente. Ele questiona as novas gravações apresentadas: “Vêm os caras com uma fita cheia de cortes e querem anular o julgamento? Não dá! Quem garante que essas fitas não foram editadas?”, diz. “Se houve tortura, não sei. Mas o fato é que foram elas [que cometeram o crime].”

Por sua atuação no caso, Santos Filho também enfrenta dissabores. No pedido de revisão criminal, é descrito pela defesa de Beatriz como “panfletário, caluniador, prolixo, grosseiro, arrogante e claramente mentiroso”. Em entrevistas a tevês e nas gravações dos júris, há um fator em sua linguagem corporal que não passa despercebido: seu olhar costuma vagar de um canto a outro, como se evitasse fitar seus interlocutores. Anos atrás, depois da proporção que o episódio tomou, ele optou por se mudar para uma área distante do Centro de Guaratuba, onde mora com a mulher, onze cães e quatro gatos. Sai dali raramente, e para trabalhar. “Eu consegui meu propósito de lutar por justiça, mas minha alma foi muito maltratada”, diz. “Se eu pudesse voltar no tempo, faria tudo novamente, mas faria com mágoa, sabendo de tudo que isso ia me custar.”

 

A contragosto, Beatriz Abagge voltou a morar em Guaratuba em julho de 2016. O Juizado Especial da Comarca de Curitiba, onde trabalhava, a dispensou novamente e, sem alternativa, ela se viu obrigada a reassumir sua vaga como terapeuta ocupacional na Prefeitura de Guaratuba. De volta à cidade onde foi presa e acusada de ter assassinado uma criança em um ritual de magia negra, Beatriz teve que enfrentar seus fantasmas. “Foi muito difícil. Eu não queria voltar, mas precisava trabalhar.”

Desde então, ela vive sozinha em um apartamento alugado. Apesar de morar a poucas quadras da orla, nunca faz atividades ao ar livre. Vez ou outra, sai para jantar na casa de alguma amiga. Costuma ficar até as três da manhã assistindo a séries no streaming ou lendo. Gosta, sobretudo, de filmes e livros de temática criminal e que tratam de erros judiciários. Em abril, estava lendo Era Só para Envolver o Lula na Zelotes, da economista Maura Montella, professora da UFRJ, a respeito de erros cometidos na Lava Jato. Por orientação de seus advogados, Beatriz não passa seu endereço a ninguém, nem recebe visitas – em razão disso, as duas entrevistas que concedeu à piauí foram feitas por videoconferência. Várias vezes ao longo do dia, troca mensagens via WhatsApp com sua mãe, Celina, ou com as irmãs, que moram em Curitiba. “Se eu não responder na hora, a mãe já me liga, preocupada”, diz.

Embora afirme gostar da solidão, dois episódios fizeram com que Beatriz se recolhesse ainda mais. O último foi em janeiro, quando o ex-policial militar Pedro de Alcântara Gotardo a processou por ela ter divulgado o nome dele em um grupo de Facebook. Na postagem, Abagge listou o nome de catorze policiais que participaram de sua prisão. Na ação por danos morais, Gotardo alega ter sido chamado de torturador e que a menção causou “inúmeros desconfortos e discussões perante amigos e familiares”, que resultaram “em perdas de relacionamentos”, tendo inclusive estragado seu Natal e Réveillon. “Na postagem, eu disse que ele participou da prisão, não usei a palavra torturador. Será que a carapuça serviu?”, provoca Beatriz.

O outro caso que a fez mudar a rotina foi um processo que ajuizou contra Diógenes dos Santos Filho. Em janeiro de 2022, ele participou de uma live transmitida pelo portal de notícias aRede, em que cravou: “Nós sabemos que foram eles [os sete acusados] que mataram. E não foi só o Evandro.” Em seguida, ele mencionou que, na época, outras 28 crianças teriam desaparecido na região, lançando suspeitas sobre o grupo. “O Diógenes está por aí. Não sei o que ele pode fazer”, diz Beatriz. Ela conta que o viu uma única vez, desde que voltou a morar em Guaratuba. Estava estacionando em frente a um supermercado, quando ele passou de carro e gritou: “Bruxa!” Ela foi atrás dele, mas não o alcançou. “Ia fazer ele parar e depois ia chamar a polícia. É um covarde.”

Beatriz não deixou o caso devastar inteiramente a sua vida. Extrovertida e bem-humorada, movimenta muito as mãos ao falar e, vez ou outra, recorre a gírias ou faz piada com a própria situação. Anos atrás, tatuou uma “vassoura de bruxa” no tornozelo direito. “Eu nem pensei! Só disse: ‘Se me chamam de bruxa, que seja!’” Ela também é ativa na internet, envolvendo-se de vez em quando em bate-bocas virtuais sobre política: é eleitora de Lula e uma antagonista da Lava Jato no estado-mãe da operação judicial e no qual Bolsonaro ganhou em 2022 com ampla maioria (62,4% dos votos). Quando alguém a indaga sobre sua participação no crime, ela responde: “Cadê as provas? Tem que ter provas, senão fica igual o Conge, que só tem convicção e não mostra provas.” E explica: “O Conge, você sabe, é o [Sergio] Moro.”

Para manter o cabelo loiro platinado impecável, num corte curto, ela vai ao salão pelo menos uma vez por semana. “A gente não fica velha. Fica loira”, brinca. Também frequenta a clínica de estética de uma amiga, onde se reveza em cuidados corporais. “Faço isso mais para ter aonde ir, já que não posso ficar saindo de casa.” A cada duas semanas, visita a família em Curitiba ou os recebe em seu apartamento. “Vem todo mundo, em três carros. Até os nove gatos e seis cachorros”, diz.

As amigas dos velhos tempos, no entanto, percebem que o caso e seus desdobramentos provocaram mudanças no comportamento de Beatriz. Apontam que ela se mantém constantemente “na defensiva”, como se tivesse erguido uma barreira em torno de si, e já não tem “o brilho” que tinha antes do episódio. Isso, segundo elas, também ajuda a explicar a reclusão de Beatriz. “O caso fez com que ela restringisse os afetos. Tem um escudo ali. Ela era um diamante que foi transformado pela nossa sociedade em uma pedra bruta”, diz a amiga Rosana Nader da Rocha.

O emprego na Prefeitura de Guaratuba é a única fonte de renda de Beatriz. O seu salário bruto é de quase 9 mil reais por mês. Ela diz que faz “malabarismos” para pagar as contas, porque dois terços do que ganha como terapeuta ocupacional estão comprometidos com empréstimos consignados. Desde 2015, mantém guardado seu diploma de bacharel em direito – curso que fez por insistência da jornalista Vania Mara Welte, que foi sua colega de sala.

Apesar de ter sido aprovada de primeira no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, está impedida de exercer a profissão. A Câmara de Seleção da seção paranaense da OAB declarou, por unanimidade, a “inidoneidade moral” de Beatriz Abagge, impedindo que ela fosse inscrita no quadro de advogados do órgão. “Até a Paula Thomaz pode advogar e eu não”, ironiza, referindo-se à mulher que, junto com o ator Guilherme de Pádua, assassinou a atriz Daniella Perez, em 28 de dezembro de 1992, oito meses depois da morte do menino Evandro e na véspera do dia em que Fernando Collor renunciou à Presidência. “Veja a perda que eu estou tendo. Eu sabia o Código Penal de cor. Não quero me aposentar e ficar em casa fazendo tricô. Quero contribuir com o meu país, pela minha profissão.” Seu desejo é advogar para “vítimas de injustiças policiais”, entre as quais ela se inclui. “Eu sempre vou lutar até ter minha inocência reconhecida, até sair desse labirinto.”

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_203 com o título “O labirinto”.

Felippe Aníbal
Felippe Aníbal

É jornalista radicado em Curitiba. Autor do livro Waltel Branco - O maestro oculto (Banquinho Publicações)

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