ficção

O MUNDO ESTÁ EM TODO LUGAR

Talvez eu também esteja presa, em um outro tipo de prisão, dessas que a gente não enxerga as grades
Imagem O mundo está em todo lugar

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that is not your own.

Ian Waelder

Manhã de outono em Berlim, os jornais dão o alerta de que uma onça havia fugido do zoológico e estava à solta pela cidade. Pedia-se que só se saísse de casa em caso de extrema necessidade. A polícia iniciara uma caçada ao animal. Oferecia-se uma recompensa a quem desse notícias de seu paradeiro.

A mulher sentada no banco do parque bebe chá de sua garrafa térmica, morde sem entusiasmo uma maçã. A onça se aproxima sem que a mulher perceba. Senta-se ao seu lado, cruza as pernas, abre um jornal.

Onça
(olhando para o céu, nuvens escuras começam a se formar)
Parece que vai chover.

Mulher
(sem olhar para o lado, mastiga distraidamente a maçã)
Pois é…

Onça
(coloca o jornal sobre o banco)
Você vem sempre aqui?

Mulher
(olha para a onça pela primeira vez, grita desesperada)
Meu Deus, uma onça.

Onça
(sorriso irônico)
Sim, sou eu mesma, a onça, muito prazer.

A mulher tenta fugir, a onça a segura pelo pescoço com uma das suas patas.

Onça
Quer parar de gritar, por favor? Tenho ouvidos sensíveis.

Mulher
(histérica, tenta bater na onça com a garrafa térmica)

Onça
(desviando da mulher)
Quer fazer o favor de se acalmar?

Mulher
(num fio de voz)
Você vai me comer?

Onça
(sem soltar o pescoço da mulher)
Vou, na falta de algo melhor. Mas acalme-se primeiro. Não gosto de comer ninguém nesse estado.

Mulher
Eu não quero morrer, pelo amor de Deus!

Onça
(perdendo a paciência)
Ah, pare com isso, todos vamos morrer um dia.

A mulher começa a chorar.

Onça
(abre a bolsa da mulher e tira de lá um lenço de papel)
Tenha ao menos um pouco de dignidade, não vai querer morrer desse jeito.

Mulher
(soluçando)
Mas vai ser uma morte horrível…

Onça
Que nada. Eu tenho uma técnica especial, enterro meus dentes no seu crânio e quebro a sua coluna, é morte certa e rápida. Além do mais, dizem que ao ser devorada a presa entra em estado alterado de consciência, o cérebro produz endorfinas, ela vê uma luz branca no fim do túnel, os parentes aparecem para recebê-la, essas coisas. Tome, agora assoe o nariz.

Mulher
(assoa o nariz, limpa o rosto)
Tem certeza? Isso da luz branca?

Onça
(pensa por alguns instantes)
Claro, eu… eu li num artigo científico.

Mulher
(desconfiada)
Como assim, você leu?

Onça
Os funcionários forravam o chão da jaula com jornal, e como eu não tinha mais nada pra fazer fui prestando atenção até entender como funcionava, a lógica por trás daqueles desenhos que vocês chamam de letras. Foram anos, muitos anos. Depois eles perceberam que eu lia, e começaram a me trazer livros.

Mulher
(perturbada)
Impossível, onças não sabem ler.

Onça
Em geral não sabem mesmo, mas eu sei. Foi assim que aprendi essa língua que vocês falam, que aliás é um negócio bem esquisito, a gente meio que se transforma numa versão estrangeira de si mesma…

A mulher continua a olhar incrédula para a onça.

Onça
Então como você explica o fato de a gente estar aqui conversando?

Mulher
Já sei, tudo isso não passa de um sonho, quer dizer, um pesadelo.

Onça
(bocejando)
Pois é, tudo é sonho, ilusão, impermanência, e blá-blá-blá. Mas veja pelo lado bom…

Mulher
E qual seria?

Onça
Sei lá, tudo tem um lado bom. Não dizem que Deus escreve certo por linhas tortas?

Mulher
Muito engraçado. Lado bom só se for pra você.

Onça
E se for, qual é o problema? Por que tudo teria que ter a ver com você? A vida é um constante comer e ser comido, desde as primeiras bactérias nossas ancestrais; se não fosse assim não estaríamos aqui agora. É só energia que flui, dar e receber, você não se alimenta de outros bichos também?

Mulher
Às vezes…

Onça
Veja só, como as coisas são relativas. Eu passei quase toda a minha vida no zoológico aqui perto, talvez já nos tenhamos encontrado algumas vezes por lá, quando você levou os seus filhos para me ver, e ficou lá dizendo, apontando pra mim, olha lá aquela onça presa na jaula, olha só que fofinho!

Mulher
Eu não tenho filhos.

Onça
Bom, com ou sem filhos, uma ida ao zoológico é um momento de alegria, de lazer, as pessoas até pagam pra isso. Já para mim, a onça dentro da jaula, é só uma vida miserável, humilhante, lendo livros e jornais que não me interessam, presa num espaço de poucos metros quadrados, quando a minha natureza, ah, minha natureza é a amplidão, a dança, a liberdade, essa nostalgia de um lugar perdido na memória, esse lugar de onde eu vim. Às vezes sonho…

Mulher
Mas por que eu? Eu não tenho nada a ver com isso, eu nem frequento o zoológico.

Onça
Como assim, você não tem nada a ver com isso?

Mulher
Eu até assinei uma petição…

Onça
É sempre assim, não fui eu, eu não tenho nada a ver com isso, eu até assinei uma petição.

Mulher
Você quer que eu me sinta culpada, mas a vítima aqui sou eu. Eu sou a vítima, ouviu bem?

Onça
Por que pra você é tudo uma questão de culpa?

Mulher
Porque… sei lá. A gente gosta de pensar que existe o certo e o errado, que há uma lógica nisso tudo.

Onça
E quem disse que não existe?

Mulher
(pensativa)
É, pode ser…

As duas ficam por alguns instantes em silêncio.

Mulher
Quer um pouco de chá?

A onça aceita com um meneio de cabeça. A mulher serve chá na tampa da garrafa térmica, assopra antes de entregar à onça.

Mulher
Cuidado que está quente.

A onça prova o chá, faz uma careta.

Mulher
Hoje de manhã quando deram o alarme, não me passou pela cabeça que você poderia estar por aqui. Imaginei, sei lá, que fugiria para longe.

Onça
E você acha que é fácil fugir para longe?

A mulher faz que não com a cabeça.

Onça
E além do mais eu estava com fome, quer dizer, ainda estou.

Mulher
(resignada)
Minha vida nunca teve muito sentido mesmo, e você tem razão, nunca fiz nada pelo mundo, por ninguém, no máximo assinar petições… Tenho um emprego que não me interessa, nunca tive um grande amor, talvez por medo, ou falta de sorte, sei lá. Passo o tempo livre assistindo bobagens no celular, ou passando o aspirador, arrumando a casa, as gavetas. Como se a casa pudesse me proteger de alguma coisa. Quando jovem eu sonhava em viajar, em conhecer outros lugares, mas agora, olho para trás e o que encontro? Nada, eu não fiz nada que valesse a pena.

Onça
Tem coisas bem piores… Passar a vida numa jaula, por exemplo.

Mulher
Eu sei… Mas talvez eu também esteja presa, um outro tipo de prisão, dessas que a gente não enxerga as grades. Ou como num filme, em que os convidados não conseguem ir embora, apesar das portas abertas. E muitas vezes, à noite, quando chego em casa, penso, afinal, para que estou aqui? Para quem? Qual é o sentido de tudo isso?

Onça
O sentido de tudo isso? Como é que eu vou saber, eu sou só uma onça.

Mulher
Você nunca se deprimiu?

Onça
Sim, muitas vezes.

Mulher
E o que você fez?

Onça
Eu fugi.

Mulher
Pois é, mas eu não tenho para onde fugir. O mundo está em todo lugar.

Ruído de passos se aproximando.

Mulher
Cuidado, está vindo alguém.

Onça
Preciso me esconder.

Mulher
Não dá tempo, vão te ver. Toma, coloque este chapéu. (A mulher tira uns óculos escuros e um xale da bolsa, a onça veste.)

Um homem passa na sua corrida matinal, fones de ouvido, nem percebe a presença da mulher e da onça sentadas no banco. Elas ficam ainda alguns instantes em silêncio, a adrenalina circulando no corpo.

Onça
(colocando delicadamente uma pata nas costas da mulher)
Obrigada.

Mulher
(sorrindo)
Você já sabe para onde vai?

Onça
Não. Eu planejei a fuga, mas não pensei em como seria depois, quando estivesse livre.

Mulher
Você não tem família?

Onça
Família? Você é engraçada.

Mulher
Sei lá, foi só um pensamento…

Onça
Eu não tenho para onde voltar. Não me lembro da minha vida anterior. A minha primeira lembrança é no navio, já presa numa jaula. Talvez o zoológico tenha me transformado num desses bichos incapazes de sobreviver fora de­le. Infeliz no zoológico, infeliz fora dele. Talvez seja isso a minha vida a partir de agora, essa fuga incessante, até que um dia alguém apareça com sua arma e eu me deixe matar.

A mulher olha pela primeira vez com carinho para a onça, que lhe parece de repente, por trás daquela ferocidade toda, apenas um ser frágil, solitário.

Mulher
(acariciando o dorso da onça)
Sinto muito que você tenha passado por isso, pelo passado e pelo futuro que o zoológico te roubou. Mas eu estou aqui, eu poderia te ajudar. Pensei agora, podemos fugir, para o Sul, conheço uma reserva natural no Sul da Espanha, não é uma floresta, mas você poderia viver lá. E tem animais que você pode caçar.

Onça
Mas como eu vou chegar lá?

Mulher
Podemos ir de trem.

Onça
Mas eu nunca andei de trem…

Mulher
Eu vou com você.

A onça coloca a cabeça sobre o ombro da mulher e se deixa acariciar. No céu, as nuvens finalmente se transformam em chuva de outono.

A onça e a mulher ficam em silêncio, abraçadas. A mulher se dá conta de que elas não são tão diferentes assim, e que talvez algo se imiscua entre elas e para além do que elas são. Como se os limites houvessem desaparecido. A onça, por sua vez, sente que há algo vivo na mulher, algo adormecido, mas que está lá, por baixo daquela camada de palavras que se repetem. A onça sente que poderia passar muito tempo ali, naquele estado em suspenso, amparada pelas entrelinhas, pelo toque da mulher que acaricia o seu pelo, mas sabe também que logo em seguida o instante virá, feito um elástico que finalmente se rompe, e será necessário fazer o que viera fazer desde o início. A morte era apenas uma rodinha na engrenagem do universo. Não era nada pessoal.


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É escritora, autora dos romances Com armas sonolentas e O manto da noite (Companhia das Letras), entre outros. É professora e pesquisadora de literatura e estudos culturais no Instituto Luso-Brasileiro da Universidade de Colônia, na Alemanha.