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    ILUSTRAÇÃO: TOM GAULD

questões literárias

Os limites do tribunal

Michel Laub e os impasses do romance

Alejandro Chacoff | Edição 127, Abril 2017

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Há alguns anos, num evento em Londres, o escritor inglês de ascendência japonesa Kazuo Ishiguro falou sobre duas ofertas estranhas que tinha recebido. A primeira era de um banco, que lhe mandara uma carta convidando-o para conhecer as caixas-fortes da instituição (pouquíssimas pessoas tinham acesso ao local, e ao executivo do banco lhe ocorrera que seria “um bom lugar para um romance”). A segunda carta era de uma fabricante de diamantes. Mais diretos, lhe ofereciam 10 mil libras para escrever um pequeníssimo conto – o único requisito era que incluísse uma pedrinha preciosa na história. A carta do banco pode ter sido apenas uma excentricidade, mas não é difícil de entender por que uma fabricante de diamantes – com o seu processo de produção brutal que começa no hemisfério Sul e termina na abertura de um champanhe na loja – escolheria alguém de estilo muito sutil como escritor da casa. A entrevistadora do evento riu quando Ishiguro contou a história, mas o tom dele era meio sombrio.

É um pouco deprimente que a publicidade e a literatura nem sempre estejam tão distantes. O publicitário seduz o público com narrativas; o escritor cria narrativas, e o quanto ele tenta ou não seduzir o público mostra o quão perto está de se tornar um publicitário. Um dos efeitos mais perniciosos da revolução tecnológica e das redes sociais foi aumentar o risco da intersecção dessas áreas – o romancista, assim como qualquer pessoa, é mais receptivo e vulnerável à opinião alheia em um mundo onde o contato com a opinião alheia parece um axioma. Diante das pressões do coletivo, a pessoa perde ou edita algo de sua complexidade individual; o romance perde algo de sua alienação saudável.

 

Michel Laub entende essas pressões, e O Tribunal da Quinta-Feira, seu livro mais recente, tenta lidar com elas. A história é narrada por José Victor, um publicitário que causa escândalo nas redes sociais após a sua ex-mulher descobrir a sua senha de e-mail e divulgar mensagens trocadas por ele e outro amigo publicitário, Walter. A profissão de José Victor lhe dá uma ambiguidade: o seu tom é uma mistura de sinceridade ocasional e ironia. “Eu sempre soube que tinha talento para a publicidade”, ele diz. “Embora não pareça, consigo me expressar de forma sintética. Também de forma paternal e messiânica, fingindo que faço o contrário.”

 

Talvez a expressão “narrador inconfiável” já esteja obsoleta em um mundo onde todos se editam. Seja como for, a posição ambígua de José Victor dá uma ideia do jogo duplo empregado pelo autor. Laub insere as suas doses de autoconsciência e questionamentos na engenharia interna da história – um pouco como um comediante niilista que diverte a plateia ao fazer piadas com as razões pelas quais quer se matar (uma delas é a própria plateia). O título, banal à primeira vista, tem esse tipo de ambivalência: “Tribunal” é das palavras mais carregadas da literatura, com suas alusões kafkianas; “Quinta-Feira” é um dia inócuo, em que o cansaço acumulado na semana ainda não encontrou o sábado e o domingo. Juntas, as palavras evocam as duas principais características das fogueiras de inquisição virtuais: são efêmeras (quando muito, duram alguns dias) e trágicas (perda de empregos, suicídios).

Walter, o amigo íntimo com quem José Victor troca mensagens, é gay e soropositivo (há no livro uma discussão implícita e às vezes explícita sobre termos como esse, e sobre a linguagem em espaços públicos e privados). Eles trocam mensagens como pessoas íntimas o fazem, sem dar demasiado contexto, com obscenidades, tratando temas pesados com leveza e humor. “O problema de tomar café é que dá vontade de fumar, e aí dá vontade de beber, e aí dá vontade de cheirar, e quando cheiro eu sempre acabo dando o cu.” Walter fala jocosamente de “contaminar” as “vítimas” da sauna que frequenta, e faz piadas com celebridades que morreram de Aids; os dois trocam impressões constantes sobre defecar (“Nada como uma boa dieta: consistência fibrosa, comi linhaça hoje de manhã”).

A certa altura, José Victor começa um namoro com Danielle (Dani), uma estagiária da agência de publicidade da qual é diretor. Ele relata tudo para Walter, aumentando o grau de detalhe do caso conforme o namoro avança. Certo dia, Teca – a ex-mulher de José Victor – encontra a senha dele anotada em um papel e invade a sua conta de e-mail. Transtornada com o caso do ex-marido, decide divulgar as mensagens.

 

A maior parte do que acontece é narrada retrospectivamente (quando as mensagens já foram vazadas), o que dá a José Victor certa consciência de um público presente, e um tom de distância irônica (“Se o Tribunal quiser…”). Isso permite uma mudança de registro constante: ele mescla momentos de prosa mais direta com o uso de slogans publicitários, clichês de autoajuda e paródias da linguagem de internet. Frequentemente, parte de uma abstração (listas de celebridades, dados estatísticos) para desembocar em alguma anedota de infância. Ao descrever a vida de Walter, ele diz:

As imagens que a TV mostrava, 1981: o atentado ao papa João Paulo ii, o general Figueiredo montando a cavalo antes de uma ponte de safena em Cleveland, um gol de Zico e ninguém nas arquibancadas do Maracanã avisado sobre o que nem [o repórter] Hélio Costa sabia ainda. Um dia amanhecendo em Bariri, 1983: uma cidade como qualquer outra do interior. A quermesse e o coreto. O prefeito, o louco oficial, o travesti que tinha as bochechas deformadas de silicone. Uma vez os amigos de Walter beberam e foram procurar o travesti.

O método é eficiente. A visão panorâmica que gradualmente resulta numa anedota – quase como uma câmera dando zoom – permite que Laub reconstrua o passado com rapidez e pungência (os amigos de Walter forçam a travesti a se despir e depois a espancam com um pedaço de madeira). O uso de listas também serve para acelerar a narrativa. Após relatar uma ida ao prostíbulo quando adolescente, José Victor relembra: “Episódios de dúvida nos anos que se seguiram à bronquite: o dia em que voltei da praia e percebi que minha barriga estava coberta de manchas (era sol), o dia em que descobri pontos violáceos na parte lateral da cintura (eram estrias), o dia em que achei caroços ao apalpar as virilhas (era a cartilagem da região).” Nessa pincelada o autor evoca o senso difuso de paranoia de quando a Aids surgiu. Laub também tem um olho bom para a complacência do que José Victor chama de certa “classe média esclarecida”. Os pais de Teca (“arquiteta filha de arquitetos”) se autocongratulam por liberar a empregada mais cedo, e servem suco de melancia na casa de veraneio. Teca é um apelido perfeito: sugere o infantilismo piegas com que a elite trata os seus descendentes de 40 anos.

 

 

Teca não apenas vaza as mensagens do ex-marido, como as edita para maior efeito. E os efeitos na internet são os esperados: ataques agressivos, moralistas, alguns com cunho político. José Victor tenta se defender, mas ele não é uma pessoa simpática. Começou a se relacionar com Dani, a sua estagiária, sete meses antes de terminar o casamento. Sabe que representa um estereótipo: o quarentão numa crise de meia-idade, com uma mulher 23 anos mais jovem. Faz questão de reforçar o estereótipo. Terminou o seu casamento sobretudo porque não tinha mais desejo pela esposa. Conta a perda do desejo em detalhes, e discorre sobre as fantasias sexuais de dominação que realiza com Dani, por quem a certa altura se apaixona.

Uma das questões no livro diz respeito à presença incontornável do corpo. A Aids foi uma epidemia que, ao mesmo tempo que gerou um discurso moralista (não tão diferente de muitos discursos propagados na rede), trouxe de volta a atenção aos limites do corpo. As redes sociais, em seus discursos políticos reducionistas e pretensiosamente civilizatórios, não sabem lidar com esses limites. Daí o uso no livro da bela expressão de Caio Fernando Abreu (inspirada em são Francisco de Assis) para o corpo: meu irmão burro. O espaço virtual por definição ignora limites corpóreos; ao mesmo tempo, a fisicalidade é uma parte fundamental do que nos torna humanos. Por isso a pornografia – o cerne das piadas dos amigos, e central na formulação dos desejos inconscientes dos personagens – é um abacaxi tão difícil de descascar. Como desconstruir a tara de alguém? Como dizer: sinta tesão nisso, sinta tesão naquilo? No livro, muitos enxergam nas mensagens vazadas e editadas um abuso de poder perpetrado por um homem mais velho (José Victor) contra uma mulher mais jovem fragilizada (Dani), ainda que a relação deles seja consensual. Uma anônima posta na rede: “Sexo é, sim, Terreno de Política. Moral é, sim, Terreno de Política. Respeito é, sim, Terreno de Política.”

 

E o romance? Laub quer cavar um espaço para libertá-lo dessas pressões discursivas sufocantes. A literatura em teoria deveria ser uma área protegida de julgamentos excessivamente moralistas ou políticos, pelo menos para os seus leitores mais passionais. A causa de Laub é nobre e necessária, mas ele encontra resistências na própria engenharia que desenhou. As mesmas pinceladas impressionistas que esboçam atmosferas e épocas com rapidez e pungência não funcionam tão bem quando se trata de dar densidade aos personagens. Com a possível exceção de José Victor, são todos simulacros: Walter, Teca, Dani. A distância irônica com que o narrador conta a história – o seu uso paródico da linguagem da publicidade e da internet – limita-o a fazer uma sátira por vezes interessante, mas nunca a desafiar com mais veemência o ímpeto reducionista das redes sociais. Que maior desafio haveria para esse reducionismo do que vozes individuais ricas e complexas? “Personagens bem construídos”, esse mantra de cursos de escrita criativa, não são uma panaceia; e a literatura é plural o suficiente para não precisar deles sempre. Mas nesse caso particular, parecem necessários ao projeto. É possível combater caricaturas com caricaturas?

Às vezes, quando narra a perda do desejo pela mulher e o gosto por dominar sexualmente a estagiária (e sua cumplicidade nos jogos sexuais), José Victor roça um enfrentamento mais genuíno com os consensos virtuais. É o tipo de fala grotesca que seria imediatamente bloqueada no Facebook, mas que, na área protegida do romance, pode ser tolerada, e talvez gerar algo mais intenso: desconforto, culpa, repulsa. É nesse espaço que a literatura costuma mostrar a que veio. Mas José Victor não é radical o suficiente para a tarefa. Ele nem é tão ofensivo em seus desejos (a sua fantasia mais imaginativa é “gatinho bebe leite do pires”). Para seguir esse caminho de afronta, seria necessário um Humbert Humbert ou algum alter ego de Philip Roth; seria necessário outro temperamento, ou outro romance.

 

Dani tem uma origem social diferente do namorado e dos que trabalham na agência – ela é filha de uma cabeleireira e de um “pai ausente”. Quando as mensagens vazam, o RH da empresa a chama para conversar. Dizem que darão apoio se ela quiser prestar queixa contra o namorado; e repetem, em um formato mais vago e empresarial, o consenso que se formou nas redes. José Victor fica ansioso com a reação da sua namorada às mensagens vazadas, e as últimas páginas são tomadas por esse suspense e outra reviravolta dramática inserida no terço final da história. Ele escreve um e-mail tentando salvar Dani de perder o emprego. Mas logo descobre que é desnecessário. Quando ela finalmente o contata por áudio (Laub segura essas mensagens até o finzinho do livro, em seu afã de manter o leitor colado à página), seu tom é de desprezo pelo escândalo. “Meia dúzia de palavras escrotas tipo um ano atrás”, ela diz. “Você acha que sou sensível a esse ponto. […] Você fez merdas na vida, não diga.” Depois ela fala sobre a sua independência e diz que não precisa ser protegida por ninguém. Por fim, pede demissão e xinga a empresa inteira em um e-mail (“Um beijo no coração e cu de todos.”). Diante da resistência de sua namorada em se enxergar como vítima da história, José Victor pondera sobre o pessimismo inicial em relação à reação dela. “E como ele me iguala aos que me atacaram nos últimos dias: os que só conseguem ver um indivíduo a distância, a partir de estereótipos e tabus.”

Mas é possível combater estereótipos com estereótipos? Dani, o maior simulacro de todos, parece uma fantasia masculina. Adora jogos sexuais em que é a parte submissa, e, salvo no final, nunca oferece resistência ao que ocorre; nada parece incomodá-la. Aqui se abre um flanco de ataque justamente ao discurso de gênero que Laub tenta questionar. Se é uma intenção irônica ou não do autor, pouco importa: há algo condescendente em sua fórmula. E mesmo conhecendo José Victor bem, que Dani fosse pelo menos um pouco afetada pelo escândalo seria apenas uma reação humana. Os linchamentos virtuais são violentos, destroem a vida dos mais resilientes. A reação de Dani, de super-heroína blasé, parece subestimar o impacto desses ataques coletivos, esvaziar o problema. É uma decisão narrativa estranha em um livro que se propõe a questionar esses mesmos ataques.

Laub, com os seus ganchos no final de capítulos e reviravoltas dramáticas, tem um gosto por recursos da ficção barata. Isso não é problema algum (Roberto Bolaño e Ricardo Piglia também o tinham) – e, em meio ao desleixo formal de muita produção recente brasileira, é sempre bom lê-lo. Mas há momentos em que o seu gosto por esses recursos descamba para uma espécie de populismo. O anúncio meio piegas da gravidez da esposa em Diário da Queda, seu melhor livro, destoa do senso trágico, da raiva contida e assimetria controlada do resto da obra. Laub sempre escolhe temas graves muito conhecidos para os seus livros – Holocausto, Ruanda, Aids –, o que pode ser lido como ambição artística, mas também como ambição comercial, vontade de vender para o público mais amplo possível. E o estilo narrativo de José Victor – com listas, citações a grandes eventos e celebridades passadas – é muito próximo do estilo usual do autor, embora menos sutil. Talvez os ganchos de O Tribunal de Quinta-feira e a forma como Laub segura as informações até o final – os áudios de Dani são entregues a conta-gotas, a la clickbait – sejam necessidades estruturais do livro por seu caráter irônico, seu aspecto Cavalo de Troia. Mas é inegável que algumas dessas características estejam presentes em trabalhos anteriores do autor.

Fosse outro romance, o final feliz e a redenção de José Victor e Dani (ele tentou salvar o emprego dela; ela quer ficar com ele apesar da diferença de idade) talvez não fossem tão problemáticos. Mas O Tribunal da Quinta-Feira quer questionar o ímpeto reducionista das massas, e talvez preservar um espaço de liberdade discursiva para o romance. A contradição não escapa a José Victor. “Eu nunca quis fazer parte de mais um relato de autoajuda publicitário”, ele diz mais de uma vez no final. Mas uma admissão de culpa não implica absolvição. A ironia, aquele pássaro que canta da própria gaiola, tem um canto agradável, mas quando é excessivo fica estridente e raramente funciona para um desfecho. Em seu didatismo ocasional, ar vago de thriller, e final de redenção, O Tribunal da Quinta-Feira às vezes parece confortável demais com os mesmos instintos que critica.

Alejandro Chacoff
Alejandro Chacoff

É escritor, ensaísta e editor de literatura da piauí. Autor do romance Apátridas (Companhia das Letras)

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