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    Começou a mastigar as notas de dinheiro lentamente e, com uma expressão parcimoniosa, explicou ao meu avô que o gosto umedecido das cédulas era meio metálico, parecia até com sangue ILUSTRAÇÃO: PEDRO FRANZ_2020

ficção

Os preços baixaram

Dá uma nota de mil-réis e quero ver ele queimar

Alejandro Chacoff | Edição 161, Fevereiro 2020

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O dinheiro americano era simples. Sua cor e textura evocavam o mesmo tédio de Drexel Hill, nosso bairro na Filadélfia – o verde difuso dos pinheiros, as casas de tijolos idênticas e enfileiradas. O carpete bege macio e os estalinhos metálicos dos aquecedores. No inverno, neve caía e tudo ao redor embranquecia e perdia os contornos. A cor ia embora e alguns meses depois voltava. E essa renovação infinita e superficial, de as coisas mudarem um pouco e sempre voltarem a ser as mesmas, é algo que ainda relaciono com dólares americanos. As notas estão sempre novinhas, como se tivessem acabado de ser impressas; são lisas e gostosas de tocar. É estranho, mas elas têm um ar de inocência. Deve ser proposital, como quase tudo que os americanos fazem.

No voo para São Paulo, e depois para o Mato Grosso, minha mãe falou muito sobre o meu pai. Disse que ele já tinha admitido gostar do Pinochet (uma frase que na época não me dizia muita coisa); que ele não ajudava nem a própria mãe no Chile (ela morava na periferia de Santiago); que ele não sabia cozinhar. Falava como se não o conhecêssemos, como se não tivéssemos passado aqueles anos todos morando com ele também. Explicou que ele a forçara a vender um terreno que ela havia ganhado do pai dela, meu avô, um terreno muito bom no Mato Grosso, perto do bairro Boa Esperança, e que tinha gastado o dinheiro todo num carro. Depois contou que ele já tinha sido casado e que nunca se divorciara ou anulara o casamento anterior. “O pai de vocês é bígamo”, minha mãe disse, com desprezo, como se a frase encerrasse a questão. Mas a fonética da palavra me confundiu: parecia evocar um grande feito, como se ele falasse muitas línguas ou conhecesse algum nicho da neurociência.

Os dois ou três voos até o Mato Grosso foram tranquilos. Senti prazer em ouvir aquelas histórias sobre o meu pai. Eu nunca o compreendera bem; me parecia uma figura etérea e sem muitos contornos de personalidade. Era bom saber que tinha vivido aventuras romanescas, que tinha um passado do qual eu não fazia ideia. Na Filadélfia, ele ficava sempre ali na sala, com seu ar distraído, lendo o Philadelphia Inquirer e o New York Times. Falava conosco num tom muito gentil, que, conforme crescíamos, se tornava cada vez mais obsoleto, por ser infantil demais.

 

Só quando ele comprava algo eu vislumbrava um ser mais autêntico e vigoroso. Comprava muito bem. Tinha uma assinatura bela e curvilínea para assinar cheques, e nos jantares fora, quando viajávamos para Manhattan ou New Haven para alguma conferência da minha mãe, ele arrancava as folhas do talão com uma rispidez bonita. Ou então dizia: “American Express”, tirando o cartãozinho e o levantando por alguns segundos até fitar o garçom, flertando com os limites de uma ofensa. Dava 40% de gorjeta, o que chocava os atendentes, sempre tementes a estrangeiros mãos de vaca. Minha mãe, mesmo depois do seu doutorado em linguística, ainda ficava apreensiva com o ritual americano do comércio – os atendentes recitando-lhe opções de cafés e doces numa voz rápida e sem inflexão, como se rezassem. Já meu pai havia nascido para esse ritual. “Me dê um minuto, por favor”, dizia, com elegância hostil, quando alguém tentava apressá-lo. Naqueles anos, passei um bom tempo buscando decifrar o logo misterioso do seu Alfa Romeo. Pensava, vagamente, que o desenho da cobrinha verde, cruz e coroa talvez desse alguma pista sobre a sua essência. Não tínhamos condições de comprar aquele carro de merda, minha mãe dissera; era melhor ter ficado com o terreno.

“Conta mais, mãe, conta tudo sobre ele”, minha irmã falou, enquanto bocejava. Estava sonada e ao mesmo tempo animada com as histórias; e seguimos ouvindo minha mãe enquanto o avião atravessava a escuridão. Jantamos; as luzinhas do avião se apagaram uma a uma; e o tom da minha mãe, amaciado pela digestão, se enterneceu – as peripécias desprezíveis do meu pai ganharam a melodia sonolenta de um conto de fadas. Adormeci enquanto ela fazia uma lista dos bens dela que ele tinha vendido, um a um.

 

Romualdo, o motorista do meu avô, nos buscou no aeroporto. Deu explicações ofegantes à minha mãe, enquanto punha as malas na caçamba da F-1000 – a mesma que meu tio usava para transportar caixotes de dourados, pintados e pacus no gelo. “Betinho foi pescar e precisou da caminhonete de quatro portas, e o Comunista precisou da Belina para ir ao médico. Tentei pegar o Santana, mas tão usando pra levar e trazer coisa lá da festa de São Benedito. O Logus do Betinho tá no conserto.” Minha mãe parecia não estar ouvindo. Havia um som distante de britadeiras e martelos no estacionamento do aeroporto, volta e meia abafado pelo trovão escandaloso de algum avião que pousava. “Puta que o pariu, Romualdo”, ela disse um tempo depois, numa voz calma e resignada. “Não adianta combinar nada com vocês.” Botou minha irmã no banco da frente da caminhonete e pediu a ele que me explicasse como segurar bem na caçamba para não cair.

 

Havia um cheiro forte de queimada no ar, e receber as rajadas de vento quente na cara era prazeroso. Por longos trechos vi só casas esparsas, todas com teto de palha, interrompidas vez ou outra por algum outdoor melancólico de drogaria ou cursinho pré-vestibular. Torci para que o sol não descascasse minha pele, para que meus tios e primos não caçoassem de mim depois. As árvores miúdas e as planícies terrosas evocavam uma viagem de carro que tínhamos feito certa vez ao Meio-Oeste americano. “Eu e minha família somos de um lugar que é mais ou menos como Iowa”, minha mãe havia dito a Myriam Thornton, sua orientadora na Universidade da Pensilvânia, a quem ela nunca se referia pelo primeiro nome. Thornton era gentil e seca, tinha acreditado na minha mãe e a incentivado com muitas verbas de pesquisa; mas, naquela noite, enquanto estávamos sentados ao redor da mesa de jantar – meu pai cortava tiras de espinafre e pedacinhos de alho, batendo a faca na madeira –, ela começou a rir de forma estridente. E meu pai, sempre atento a essas pequenas oportunidades, começou a descrever o lugar de nascimento da minha mãe com um ânimo sarcástico – falou do calor, da falta de voos diretos, da música sertaneja que tocava numa altura ensurdecedora nas pracinhas. “Aquilo lá é terrível, terrível, você não tem ideia, Myriam.” Falava no seu inglês estranho, um sotaque meio britânico que, hoje, desconfio que ele inventou para si mesmo. O rosto da minha mãe se contorceu numa fúria muda; o único jeito de ela sentir saudades da sua terra era quando ele falava mal de lá. Mais tarde, ao som baixo de um disco natalino de Mario Lanza, ela quebrou alguns pratos na parede da cozinha.

Agora sua risada aguda chegava a mim diluída pelas rajadas de vento. Olhei pela janelinha da caçamba e vi que Romualdo abria e fechava a palma da mão direita, como se falasse de alguém que falasse muito. Ele tacou um saco de pipoca pela janela; depois jogou uma latinha de Coca-Cola, que rodou e quicou no asfalto até ser destroçada por um caminhão que vinha atrás. Eu fitava minha mãe para checar sua reação (na Filadélfia, nos instruía obsessivamente a nunca jogar lixo na rua), mas ela seguia tranquila, rindo e conversando, minha irmã dormindo no seu colo.

Quando chegamos à Otiles Moreira, a rua do meu avô, um grupo de meninos, todos de chinelo e sem camisa, interrompeu o bate-bola para deixar a caminhonete passar. Ficaram me olhando enquanto o portão de ferro abria. Eu me lembrava de alguns rostos, mas fingi me interessar pelas malas na caçamba. O portão demorou uma eternidade para abrir. Quando a caminhonete finalmente avançou, alguém mais distante na rua gritou: “Ei, como é que fala buceta em inglês?”, e umas risadas benignas ecoaram.

 

Eu também ri, mas meu riso era nervoso. Sentia um misto de vergonha e orgulho pela nossa volta ao país (dessa vez não eram só férias) e pela casa imponente e feia do meu avô. Vergonha e orgulho: sentimentos constantes naquela época, indissociáveis. O portão de ferro longuíssimo e a antena parabólica toda enferrujada davam à casa um ar de autoridade antiestética, como se a feiura ali fosse meio intencional, algo como um centro de detenção num país menor do Leste Europeu. No muro da frente, um muro de tijolinhos vermelhos, pequenas taturanas brancas subiam até o topo, caíam e depois subiam outra vez com esforço, Sísifos do Cerrado. Nunca me esqueci da vez em que meu primo pegou uma na mão, sem medo, e a esmagou até que um líquido pastoso brotasse. “Pronto”, ele disse. “Acabou a putaria.”

 

Meu pai demorou meses para nos ligar. “Oi, filhinho, tá gostando da escola?”, disse, com sua voz obsoleta. Ninguém sabia direito onde ele estava morando desde a separação. Quis conversar em inglês comigo, não sei bem por quê, e me senti um pouco estúpido ao fazer isso no corredor, onde parentes e os empregados do meu avô transitavam. Não tínhamos muito o que conversar. Fomos e voltamos ao assunto da escola nova.

Contei a ele que parecia uma prisão (minha ideia de prisão vinha dos seriados americanos que eu via na Filadélfia), com corredores pequenos e escadas muito estreitas, grades em todas as janelas, e um pátio de concreto. Falei sobre a maior novidade que eu aprendi por lá: o Brasil era maior que os Estados Unidos. “Com o Alasca e o Havaí, acho que não”, ele me corrigiu. Um pouco para rebatê-lo, contei que a professora falou também que o Mato Grosso era maior que o Texas, o maior estado americano. Ela nos explicou que da capital do Mato Grosso até a capital de Goiás a distância era mais ou menos de 1 mil km – a mesma distância entre Marselha, no Sul da França, até a Normandia, no Norte. Sem contar que cabiam várias Holandas, Bélgicas e Luxemburgos ali. “E o que se faz nesse espaço todo?”, meu pai perguntou, e notei que seu tom tinha mudado.

Depois daquela ligação, repleta de chiados e de vozes que cruzavam a linha (as vozes, alegres e verborrágicas, tornavam nossos silêncios ainda mais desconfortáveis), meu pai começou a ligar toda semana. Nunca disse onde estava. Mas, de todo modo, nos falávamos cada vez menos – ele dava um oi rápido para mim e para a minha irmã, e em seguida dizia para chamarmos meu avô. Minha mãe nunca mais falou com ele; ela cortara todo o contato e pedia ao meu avô que fizesse o mesmo. Se irritava quando, da mesa da sala, ouvia as risadas e os espasmos catarrentos do pai, divertindo-se com alguma anedota do ex-genro.

Meu avô guardava dinheiro na terceira gaveta do seu armário. Eram bolos e mais bolos de notas amarradas com elástico, todas engordando algum envelopinho branco. Cada envelope tinha um título escrito numa letra imensa e feia (me surpreendia que a letra de uma pessoa mais velha fosse tão parecida com a minha). Alguns dos títulos eram simples (“Posto”, “Cartório”), outros mais crípticos (“Ditinho p Maria e 3 Sto Antonio”, “obra Cristo Rei”), e outros mais gregários, românticos (“Turma do Dom Bosco”, “Festa de São Benedito”). Eram muitos envelopes. Meu avô arrastava suas sandálias puídas pelo quarto e se agachava com dificuldade para pegar as notas; eu gostava de vê-lo separando e organizando o dinheiro. Certa vez, ele perguntou se eu queria ajudá-lo a contar. Mas quando notou meu fascínio com as cédulas, a forma como eu estudava e escrutinava a superfície de cada uma, pareceu se assustar. “Não vale nada, isso aí”, disse, desconversando, puxando as notas de volta. “Dólar vale muito mais.”

Esse dinheiro mudava o tempo todo. Nas férias, quando voltávamos ao país, sempre havia alguma moeda nova em circulação (cruzados novos, cruzados velhos, cruzeiros – embora meu avô, com certo instinto pragmático, se referisse a tudo como “réis”). Mas mesmo as notas novas pareciam todas velhas. Tinham a cor gasta, a textura frágil, e eu tinha medo de segurá-las com muita firmeza porque parecia que elas iam dissolver na minha mão. Tampouco dava para ver bem o rosto das pessoas nas cédulas. Os contornos e as linhas da face tinham se perdido no tempo, pareciam todos fantasmas (o que de fato eram). Na superfície das notinhas, às vezes havia poemas do Drummond e do Neruda e outros poemas amadores escritos a caneta (o sentimentalismo e a ansiedade dos versos crescendo à medida que o valor diminuía). Uma vez, já mais velho, vi o desenho de uma suástica. Colocado entre outros dois desenhos – um pinto jorrando esperma e um coraçãozinho alado –, o símbolo perdia algo da sua ominosidade. Assim as ideologias políticas chegavam ao Mato Grosso: todas arrebentadas e distorcidas no transporte.

Um dia meu avô me deu alguns envelopes e pediu que eu guardasse na mochila. Romualdo passou para nos buscar com a caminhonete, e seguimos até Santo Antônio. Lá paramos na casa de uma tia-avó, e eu distribuí os envelopes a parentes sentados na varandinha dela, aprendendo e imediatamente esquecendo o nome de cada um conforme entregava o bolo de dinheiro. “Deus te abençoe”, eles me diziam, “agora fala alguma coisa em inglês para o primo ver.”

Antes, no caminho para Santo Antônio, a caminhonete tinha saído duas ou três vezes da rota principal e se desviado para estradinhas de terra mais estreitas, cheias de poças lamacentas sobre as quais pairavam nuvens de mosquitos. Moradores das casas – umas eram blocos de cimento sem pintura; outras, barracos de madeira com teto de palha – levantavam os olhos e nos fitavam com uma expressão inerte, parando de chupar manga ou de martelar pregos laconicamente num pedaço qualquer de madeira, e até que a caminhonete passasse não voltavam ao que estavam fazendo. Numa ou noutra casa, Romualdo encostava. Enquanto meu avô ficava na caminhonete ouvindo algum jogo do campeonato estadual no rádio, bem baixinho, como se o volume diminuído o ajudasse a se concentrar, ele descia. Abria a caçamba e tirava sacas de arroz e farofa, sacões de verdura e bocaiuva, mudas de coentro. Abria também os caixotes mais pesados, cheios de gelo. De lá, tirava pintados e pacus (os peixes estavam sempre congelados em posições assimétricas, com o rabo encurvado, como se tivessem sido cristalizados enquanto nadavam), e pernas de carneiros e cabritos (os músculos sinuosos e cinzentos dos bichos me davam uma tristeza difusa). Um cheiro terroso e ácido, meio apodrecido, tomava conta de tudo. Um monte de crianças se aproximava da caminhonete, e Romualdo, irritado pelo esforço físico, entoava uma risada agressiva. “Vão ficar olhando que nem bocó? É tudo pra vocês, neném…” Puxava então os caixotes mais pesados e saía trombando com as pessoas, como se quisesse derrubá-las. “Sai, sai, sai, se não for ajudar, deixa eu passar, caralho.” Exausto, suando em bicas, tirava a camisa, deixando à mostra na pele preta duas manchas cor de caramelo, entre a costela e a cintura. Eram marcas que lhe davam uma distinção ambivalente, um pouco como aquelas manchas grandes e escuras de nascença onde brotam dois ou três fios de cabelo – fui descobrir depois que eram cicatrizes de bala.

 

Nos instalamos (nos instalaram) num quarto com três camas de solteiro, e na época não notei o poder metafórico desse arranjo. Minha mãe tinha acabado de terminar seu doutorado na Universidade da Pensilvânia, e para ela – separada e sem emprego aos 40 e poucos anos – o simbolismo talvez fosse óbvio. Uma cama de casal, porém, com sua sugestão de pena e empurrão da família para um segundo casamento, teria sido pior.

O Comunista, o irmão mais velho do meu avô que dormia no quarto ao lado, teve que retirar os livros dele do recinto. Eram catataus de filosofia e exemplares antigos do Estadão. Mais velho, quando comecei a escrever, fui atrás dos seus livros e notei que ele tinha muitas obras menos conhecidas de grandes escritores (Free Fall, de William Golding; Uma Confissão, de Tolstói; O Crocodilo, de Dostoiévski). Era como se um crítico lhe tivesse explicado o que era descartável da obra de cada um, e ele, só de birra, tivesse tido um dos seus “ataques neurastênicos” (como minha avó às vezes os descrevia), decidindo seguir na direção oposta. Chegava de manhãzinha para retirar os livros, quando ainda estávamos na cama, e o barulho que fazia ao mexer nas estantes – um roça-roça que lembrava o passar de rodo de Joelma, empregada da casa – era hipnótico, me levava a querer dormir mais. “Estamos aqui ainda”, minha mãe dizia às vezes, bocejando, para que ele saísse do quarto. Ele então olhava para a cama e, com os lábios trêmulos, arregalava os olhos num susto ambíguo; pela sua expressão, nunca ficava muito claro se pedia desculpas pela invasão matinal ou se achava que nós, ao tomar um espaço que fora dele, é que éramos os invasores.

“Estamos aqui”, minha mãe repetia, depois que ele saía do quarto – agora numa voz mais baixa, como se quisesse convencer a si mesma.

 

Naqueles primeiros meses, minha mãe e meus tios trocaram o número de telefone da casa várias vezes. Convocaram advogados da família, mobilizaram procuradores do estado. De nada adiantava; meu pai seguia ligando para falar com meu avô e pedir dinheiro; e às vezes, com panache macabro, ligava a cobrar. Falavam que meu pai chorava no telefone, que dizia sentir muita falta de mim e de minha irmã. Mas ele nunca dizia onde estava. Meus tios compraram um identificador de chamadas e logo descobriram que algumas das ligações vinham de Assunção, no Paraguai. Não havia muito o que fazer com essa informação. Serviu apenas para aumentar a ansiedade de todos, que achavam que a qualquer momento ele iria cruzar a fronteira e vir chorar aos pés do meu avô. E aí sim estaríamos todos fodidos, meu tio disse, porque o vigarista pediria um valor muito maior, o filho da puta. Uma ou duas vezes, conhecidos disseram tê-lo visto tomando café da manhã no El Dorado, o melhor hotel da cidade. (“É a cara dele, né?”, minha tia disse.) Mas esses relatos não eram confiáveis; eu sabia quão camaleônica era sua aparência – seu mimetismo furtivo, seu caráter etéreo, a forma como absorvia maneirismos, sotaques, e se desfazia deles, pareciam lhe dar a habilidade de mudar até seus traços físicos. Podia se transformar em qualquer coisa se quisesse, e por isso não era nada. Seja como for, eu fantasiava uma cena com ele chegando à casa do meu avô, saindo na porrada com meus tios, com Romualdo, com os empregados, indo lá na terceira gaveta do armário e pegando um envelopinho para si, manchando-o de sangue. A cena obviamente nunca aconteceu, e para a família acho que foi pior, porque a iminência permanente de uma visita desagradável é sempre pior do que uma visita desagradável.

“Isso que o seu pai faz se chama extorsão”, minha mãe me dizia, nervosa; e, de novo, a palavra parecia evocar algo sofisticado, e não exatamente maligno. Na verdade, eu nunca vi, naquela terceira gaveta do armário, nenhum envelope endereçado a ele. Quando perguntei à minha mãe a razão, ela riu com amargura. “Com ele é só transferência altíssima. É trinta, quarenta paus, no mínimo, toda vez.”

Foi pela curiosidade banal de ver algum arroubo de emoção dele que, com discrição – ou melhor, com a ideia caricatural e bastante indiscreta de discrição que uma criança possui –, comecei a tirar do gancho o aparelho da sala quando ele ligava para o meu avô. Acho que meu avô sabia e deixava. Falavam tanto do choro do meu pai no telefone, que eu queria ouvir. A única vez que o vira chorar tinha sido num sinal fechado da Avenida Santo Amaro, durante umas férias que passamos em São Paulo, na época em que ainda vivíamos nos Estados Unidos. Um rapaz se aproximou da janela do carro para vender flores, sacou um 38 do casaco e apontou a arma para a cabeça dele. Tudo aconteceu muito rápido (e também muito lentamente); e foi só depois, já quase no fim da avenida, enquanto uma chuva ácida fininha caía e o trânsito empacado frustrava sua vontade de acelerar o carro, que meu pai começou a chorar. Emitia um grunhido grave e esquisito, rítmico, um soluço catarrento que se confundia vagamente com as buzinas do lado de fora – era como se pela primeira vez notasse a disponibilidade dessa emoção mais atávica. “País de merda. Paisinho de merda”, ele dizia à minha mãe, no seu sotaque estranho, enquanto esmurrava o para-brisa e soltava seu grunhido. “Vamo embora dessa merda de país. Que merda esse seu país, hein?” Quando estacionamos e descemos do carro, minha mãe pegou no meu braço e disse, bem alto, para que ele ouvisse: “Quantas vezes eu pedi para ele deixar o Rolex no hotel?” Meu pai acelerou o passo, foi se afastando mais e mais da gente na calçada, e, quando finalmente entrou no lobby do hotel, minha mãe aumentou o tom. “O quê que eu falei!”, ela gritava. “O quê que eu falei!”

 

Eu passara a infância no país mais capitalista do mundo, mas a prosperidade americana que eu conhecera era estéril; irradiava apenas os apelos urgentes e efêmeros do consumo. Havia os bonequinhos Comandos em Ação, com suas expressões belicosas e fatigadas de exército, jogados num canto do meu quarto apenas algumas semanas depois de terem sido comprados; havia a arara tropical de pelúcia da minha irmã, que, com um gravador enfiado nas tripas, repetia, sempre num tom sinistro, nossas frases em português com sotaque. O isolamento pastoral do bairro na Filadélfia me manteve numa redoma de inocência sobre o drama do dinheiro; nunca tinha pensado nele realmente. E, na casa dos meus avós, comecei a me sentir cada vez mais ingênuo e ignorante quando meus primos (alguns deles mais novos do que eu) conversavam sobre grana. As conversas sobre sexo, um assunto no qual eu tampouco era versado, não me incomodavam, porque o amadorismo de todos à minha volta era patente. Mas nas conversas sobre dinheiro meus primos exibiam uma autoridade incomum, como se tivessem de fato adentrado um aspecto fundamental da existência que eu até então desconhecia.

Discorriam sobre os terrenos do meu avô, o cartório, o posto de gasolina, sobre os colegas de escola que eram netos de um ex-governador ou deputado federal que tinha enriquecido ilegalmente (“O avô do Felipe tem três banheiros, todos com cachoeira”, Marco, meu primo mais velho, disse uma tarde). Falavam de imóveis, de carteira assinada e fgts, diziam coisas como “desembargador”, “empreiteira”, “suplente do Tribunal de Contas da União”, enchendo de vitalidade e drama essas palavras insossas. O dinheiro exercia alguma função narrativa que eu não entendia bem; era como a memória, ou a história. Ainda hoje, quando noto um viajante brasileiro, argentino ou chileno no aeroporto, demonstrando aquele afeto mudo e concentrado por seus produtos – abrindo a caixinha de óculos com cuidado; estalando os botões distintos de uma maletinha de couro com lentidão, com mais prazer do que pressa por ter de buscar seu documento em outros compartimentos –, sinto-me meio perdido, como se estivesse assistindo a um ritual além das minhas capacidades interpretativas – um pouco como nos diálogos dos personagens de Kawabata, naqueles chás cerimoniosos onde, ainda que se aprecie a beleza estética da cena, tem-se a impressão vaga de estar perdendo algo. Meus primos gostavam sobretudo de discutir a construção da piscina dos meus avós, quanto tudo aquilo tinha custado: os contratos, cimento para a obra, transporte das cargas. Essa piscina, tão adorada por eles, tinha o formato de uma lágrima – a água era turva e esverdeada, e folhas secas flutuavam na superfície. Bocaiuvas caíam do pé e rolavam até o fundo; depois elas escureciam, e, encharcadas, com a textura já mais áspera e peluda, as bolinhas de fruta pareciam pedaços de cocô dos quais tínhamos que desviar.

Às vezes, primos e parentes distantes chegavam de Sorriso ou Poconé para falar com meu avô. Vinham bem-vestidos e com alguma criança a tiracolo. As crianças, com meias compridas, sapatinhos e gravata, tinham um ar tosco de Belle Époque. No colégio novo, eu havia sido obrigado a vestir uma roupa pseudoeuropeia parecida para tirar uma foto coletiva; e portanto reconhecia aquele olhar manso de humilhação nas crianças – embora houvesse nelas, também, uma humilhação mais potente e difícil de articular naquela idade: a de ver o pai ou a mãe pedir dinheiro. Era justamente o que meu pai fazia, mas, por alguma razão, nunca consegui me colocar no lugar delas.

Nessas visitas, em geral o parente falava de algum plano de negócio – exportação de licor de pequi, pecuária de carne de avestruz – e assegurava ao meu avô que o dinheiro seria investido sabiamente. Meu avô ouvia tudo com paciência, mas duvido que se importasse. Não acreditava muito em ideias de negócios: só pareciam dar certo em filmes. As peças de Nelson Rodrigues e os filmes de Mazzaropi o tinham enchido de um cinismo feliz. “No Brasil se ganha só com o Estado.” Quando cansava das histórias dos primos, se levantava com esforço e arrastava as sandálias puídas até a mesa do telefone; lá, sentava ofegante e desistia de seguir até o quarto. “Nega!”, gritava para a minha avó, que, no quarto do fundo, murmurava preces com o terço na mão. “Nosso primo tá esperando. Pega o envelope lá do lado do santo!”

 

Meu avô tinha a pele moreno-clara e um tufo muito delicado de pelos no meio do tórax; e na sua barriga grande e dura havia uma cicatriz longilínea e de formato elíptico – da qual sempre me lembro quando vejo desenhos do Miró. Essa cicatriz tinha algo a ver com alguma úlcera do passado, que minha mãe e meus tios sempre evocavam graficamente (“Ele voltava dos correios e vomitava sangue na privada!”). Acho que era uma tentativa de nos mostrar o quanto ele tinha sofrido para ganhar sua fortuna.

Mas era muito plácido em relação a seu dinheiro, sem grandes arroubos de culpa ou paixão. Sua explicação para o acúmulo era simples. “Ganhei a concessão do cartório e começou a cair na conta que nem água.”

 

Estávamos um dia na saída do colégio, naquele ritual universal e desconfortável de esperar os pais. Cauê me perguntou como eram os carros nos Estados Unidos. “Bem melhores”, respondi, e a obscuridade da minha resposta era intencional, pois embora eu gostasse de decifrar a logomarca do carro do meu pai, nunca tinha prestado muita atenção em outros carros. As crianças fitavam os veículos com expressão concentrada e um ar esnobe, sussurrando elogios ou emitindo risadinhas maldosas, embora nem sempre um carro arrebentado fosse sinônimo de crítica – o Opala preto e sem calotas do Mendiguinho, por exemplo, um colega de sala nosso, causava certa sensação. Ser julgado pelo carro dos pais era inescapável. Por alguns segundos, ao entrar no banco de trás ou da frente, escalas de valores e hierarquias anteriores se dissolviam, carcomidas pelo simbolismo do veículo. Cauê, um menino arrogante e meio manipulador, traficante de palavras do mundo adulto, era sempre diminuído pelo Kadett prata arranhado da sua mãe, que tinha um tufo de espuma melancólico saindo do banco da frente. Quando entrava no banco de trás, Cauê se tornava esse tufo de espuma. Batia a porta com um olhar distante e resignado. Já o Mendiguinho, mais inseguro e reservado, assumia o ar bonachão e ríspido do Opalão preto no qual subia, e ganhava uma confiança fugaz. “Falou, gente!”, gritava, batendo a porta com força excessiva, a voz fininha engolida pelo ronco grave do motor.

Romualdo às vezes vinha com a F-1000 prata do meu avô. Mal chegava, eu já jogava a mochila na caçamba e subia; e aí Romualdo, que talvez entendesse a importância do teatro naqueles momentos, dava uma ou duas aceleradas com o carro ali parado. Às vezes ele dirigia sem camisa, com a barriga grande encaixada no volante e seus buracos de bala à vista; a marcha longa e fininha da F-1000 tremia sem parar com a força do motor.

Alguns meses após nossa volta dos Estados Unidos, minha mãe comprou um Golzinho 1000 verde. Quando Cauê viu o carro pela primeira vez, perguntou, com maldade especulativa, o que tinha acontecido com a F-1000. “Tá na garagem”, respondi. “Mas por que a sua mãe não pede um carro melhor para o seu avô?”, ele retrucou, e lembro que a pergunta me desconcertou não pela sugestão de que o carro da minha mãe era ruim (o que eu já sabia), mas pelas premissas que carregava (como ele sabia quem era meu avô? e por que minha mãe teria que pedir algo para o meu avô?).

“Melhor ser burguês esclarecido do que novo-rico metido a aristocrata”, eu disse, depois de pensar um pouco. Era uma frase que minha mãe usara um dia num almoço, quando meu avô, com seu jeito direto e pretensamente inofensivo, comparou o salário baixo que ela recebia como professora universitária com o de um primo dele que enriqueceu no ramo de revenda de pneus e amortecedores no Rio de Janeiro. Eu não tinha ideia do que a frase da minha mãe significava, mas seu tom cortante, de sarcasmo triunfal, me fez guardá-la na cabeça para um possível uso futuro.

Cauê não entendeu. Ele tinha gosto em contrabandear conceitos adultos e expressões chulas, mas vi pelo seu olhar morto que até para ele a frase era misteriosa, oblíqua demais. E, notando que minha frase não surtira o efeito desejado, me sentindo vagamente humilhado pelo que ele dissera antes, apelei para algo mais direto: “O meu pai tem um Alfa Romeo.”

 

* * *

 

Mais que pelos bonecos da Estrela, mais que pela piscina com bocaiuvas, criei afeto, naqueles meses, por aquele Golzinho. A pintura verde cintilava debilmente no sol forte, como se o carro fosse um holograma instável; e o cheiro de fábrica, pungente e poeirento, nunca ia embora. Eu e minha irmã pedíamos à minha mãe que fechasse todas as janelas e ligávamos o ar no talo. Aproximávamos então o rosto da saída do ar e levávamos as rajadas de vento na cara com gosto. Mas o carro não tinha ar-condicionado. Aquilo era apenas um ventilador, e minha mãe, ao nos ver repetir esse ritual toda manhã, levando jatos de ar quente na cara, dava uma risada nervosa, em que a comicidade parecia misturar-se a certo terror. Às vezes ela perdia a paciência e, com gotas de suor no buço e na testa (geradas pelo sol e pelo ventilador quente, mas sobretudo pelo esforço de empunhar uma direção não hidráulica), dizia: “Desliga essa merda aí.”

O Gol tinha sido comprado em várias prestações. O motor 1.0 era tão fraquinho que nem era mais comercializado nos Estados Unidos, só aqui no Brasil mesmo, minha mãe disse, com desprezo pela economia nacional. Mas ela não conseguia esconder o prazer que sentia em agora ter um carro só dela e não depender mais de Romualdo ou dos empregados do cartório. Passara num concurso para ser professora na Federal, e as primeiras economias tinham sido todas gastas no Gol. Talvez estivesse revivendo, aos 40 e poucos anos, a alegria trêmula da primeira independência financeira. Logo sairia da casa dos pais. E eu e minha irmã embarcamos nesse novo ânimo. Ligávamos o ventilador na potência 4; pedíamos a ela que desse voltas conosco no estradão da Chapada, no fim da tarde, quando as primeiras luzes da cidade apareciam no horizonte, pálidas e tímidas em meio ao poente violento. O sol se decompunha em rosas, roxos e amarelos enquanto ouvíamos a estação de música clássica – e quando tocava alguma música específica, para mim perfeitamente igual às outras, minha mãe trocava a estação, porque, dizia, não queria se lembrar das afetações do meu pai e da última mentira dele, a de que seria transferido para Frankfurt por causa do seu novo emprego inventado num novo banco inventado. Trocava a estação e se via encurralada por sertanejos, axés e propagandas estridentes de varejo. Foi assim que aprendemos a desligar o rádio e apreciar o silêncio.

Nessas voltas longas, sem olhar no retrovisor, ela dizia que não queria mais falar sobre o meu pai. Ele tinha estragado a nossa vida, tudo bem, tinha aniquilado o nosso patrimônio (“O patrimônio seria de vocês também, entendem isso?”), mas não fazia sentido ficar listando tudo que tínhamos perdido. Tinha gente com vida pior, não é – quem éramos nós para reclamar? Foi mais ou menos nessa época que ela começou a chamá-lo de louco. Atribuir-lhe uma patologia a acalmou um pouquinho. “Ele é louco”, ela dizia, resignada, no mesmo tom penoso que usava às vezes para descrever a vida dura de alguns dos empregados do meu avô e de dona Madalena, nossa vizinha pobre. Não, não vale a pena listar tudo que ele jogou fora, ela dizia, ficar lembrando isso não adianta nada para nós. E então começava o inventário: a fatia do apartamento do Leblon, o terreno no Boa Esperança, a participação no posto de gasolina, o mestrado em economia na Temple University, a casa em que vocês nasceram etc. etc.

 

O veredito da loucura do meu pai foi bem recebido pela família, embora meus tios preferissem chamá-lo de sociopata. A palavra ainda não era um clichê. Tinha um som misterioso e clínico, que ajudava a manter meu pai a certa distância – torná-lo mais asséptico do que de fato era e tirá-lo da categoria mais abrangente de loucos, que incluía parentes e conhecidos pelos quais minha família tinha algum afeto.

A loucura era tão onipresente nas conversas que se empregava um termo específico para ela. Dizia-se não só que alguém era variado, mas que estava variando, ou que tinha variado em determinada época, como se a insanidade fosse uma espécie de gripe forte, na qual se entrava e saía sazonalmente. Havia Mumuco, um conhecido de Tangará da Serra, que abandonara a carreira de deputado estadual para se enfurnar no galinheiro, onde chupava bocaiuva o dia todo e lia e relia Em Busca do Tempo Perdido (“Fica lá lendo Pruuust baixinho”, Betinho, meu tio mais novo, dizia). Havia Bravo França, um primo distante que sempre convidava meu avô para tomar guaraná ralado e, ao encontrá-lo, abria o cofre da casa. “José, primo querido”, Bravo França dizia, enquanto espalhava notas e mais notas de dinheiro na mesa de vidro da sala. “Você, como bem se sabe, gosta de ficar dando dinheiro pros outros por aí; mas eu, José, eu gosto mesmo é de guardar.” Bravo França pegava então o bolo de notas e levava-o às narinas, dando fungadas rápidas e intensas, como um cachorro. Certa vez, não se aguentou e enfiou um bolo inteiro na boca. Começou então a mastigar as notas lentamente e, com uma expressão parcimoniosa, explicou ao meu avô que o gosto umedecido das cédulas era meio metálico, parecia até com sangue.

Nos almoços, todos se acusavam jocosamente de terem variado num momento ou outro da vida. O alvo mais comum era o Comunista. Às vezes ele fechava as cortinas e se trancava no quarto por dias. Joelma depositava então no pé da sua porta um pratinho de arroz, feijão e carne com quiabo – a única combinação que ele aceitava comer nessas fases depressivas. Quando saía do estupor, o Comunista contava a todos a história de Potemkin, um assessor sagaz e brilhante de Catarina ii, a czarina russa. Potemkin enfrentava períodos de melancolia profunda e se fechava no seu canto do palácio por meses, deixando toda a corte confusa e sem direção – uma confusão agravada pelo fato de que Catarina não gostava de ouvir menções aos episódios depressivos do seu chanceler. “O Potemkin voltou, gente, o Potemkin voltou.” Ninguém entendia muito bem a analogia do Comunista (nós éramos a corte, os imbecis perdidos sem ele?), mas o mero ato de contar essa anedota na mesa parecia revigorá-lo.

Só meu avô se mostrava cético em relação à loucura. Não acreditava muito nela. “Dá uma nota de mil-réis pro fia da puta”, ele dizia, levando a colher de sopa à boca. “Dá uma nota de mil-réis e quero ver ele queimar.” Ler Proust no galinheiro, se trancar no quarto por dias e noites: isso era teatro muito fácil de fazer. O grande teste para quem parecia variado era queimar dinheiro. O dia em que ele visse alguém queimar uma nota de mil-réis à toa, meu avô dizia, era o dia em que começaria a acreditar de verdade na loucura. Nós todos ríamos enquanto meu avô lançava essa teoria, e, talvez por seu uso excessivo do verbo “queimar”, meu olhar acabava sempre se fixando no quadro acima da cabeça dele, ali bem na cabeceira da mesa: era Jesus, com o coração enfiado numa coroa de espinhos, uma fogueira de chamas em volta do seu órgão bombeante. Quanto a Bravo França, meu avô nos lembrava, quanto a esse meu primo, bem, vocês todos sabem da história.

Na última tarde em que foi à mansão do primo, um pouco antes de morrer, conversaram na biblioteca dos fundos, onde ficava o cofre. Depois percorreu o trajeto pelo corredor com chão de taco até o trecho de pedregulhos sombreado por amendoeiras e mangueiras que chegavam à rua (um remendo que não deveria ter sido aprovado pela prefeitura). Havia, mais para a lateral da casa, uma janelinha que dava para uma área de serviço cheia de panelas fumegantes e empregados que entravam e saíam da casa com pressa; foi lá que, antes de seguir seu caminho, meu avô viu o primo, franzino e catatônico, olhando para baixo. Não sabia bem por quê, mas na hora lhe bateu uma curiosidade e ele decidiu observá-lo mais de perto. Se aproximou da janela e então notou que a expressão do França não era inerte: estava na verdade muito concentrado e se inclinava sobre a tábua de passar, com o ferro na mão. “Chaque, chaque, chaque”, meu avô disse, mimetizando com sua mão trêmula o gesto de passar a ferro. “As notas que ele tinha comido tavam agora tudo lá, tudinho, tudinho, vocês tinham que ver – não tinha mais um só vinco.”

 

Meu pai não era louco. Às vezes ele parecia ser outra coisa: alguém sem monólogos internos dramáticos ou conflitos muito profundos. Seu talento para captar códigos, maneirismos e sotaques de outros países parecia às vezes ser apenas o efeito colateral de um vazio maior, de certa falta de interioridade. Lembrava-se de passagens soltas dos livros do mestrado que abandonara na Filadélfia (Paul Kennedy, Samuel Huntington) e deslizava habilmente sob a superfície gélida de muitos tópicos sem nunca fincar o pé e afundar. Dizem que era bonito; sobre isso não posso opinar: é impossível julgar a beleza dos pais. Era o oposto do meu avô, que só se interessava por algumas poucas coisas, e sempre com abandono passional. No telefone, meu avô falava dos planos de reerguer o Dom Bosco, do que era preciso fazer para o clube voltar a ser uma força no futebol mato-grossense, do novo pesticida importado que ajudaria a conter os cupins que dilapidavam o ct.

A culpa de tirar o telefone do gancho me corroía, mas as conversas do meu pai com meu avô eram na verdade bastante tediosas. Comecei a desconfiar que o drama excessivo que atribuíam ao meu pai talvez fosse invenção dos tios. Estava a ponto de desistir de ouvi-los quando em uma tarde afinal ele chorou. Pedia grana para se “restabelecer de vez”. Agora não era um grunhido grave, e sim uma rajada fininha, tão atonal que quase parecia uma risada (hi, hi, hi, hi). Nunca descobri qual dos choros dele era o falso.

 

Na época, eu ainda estava sob o efeito narcótico das séries americanas a que assistia, com seus desfechos amarradinhos e arcos narrativos; queria forçar um fim para a história toda. Tinha também razões mais egoístas para isso. Sentia que a obsessão do meu pai pelo dinheiro do meu avô desvalorizava minha moeda, a moeda da minha mãe, a moeda da minha irmã. Os empregados, os primos, os tios: todos nos tratavam cada vez mais com um afeto penoso e condescendente. Esse afeto – não sei se era afeto, exatamente – me dava medo; era como se estivéssemos muito perto de um fracasso imenso (fracasso no quê, eu não sabia bem). Meu avô falava do salário baixo da minha mãe, de como intelectual não ganhava nada, e esse era o único momento em que seu cinismo alegre me doía. Começou a brotar em mim então uma fantasia da qual, tenho vergonha de admitir, ainda não me livrei completamente: a de me tornar um intelectual rico.

Eu o abordei antes de ele ir à missa de São Benedito. Eram aproximadamente cinco da manhã, dos poucos horários em que poderia encontrá-lo sozinho, já que o Comunista, minha tia-avó Heleninha, minha mãe, Betinho, as empregadas e até minha avó (que acordaria dali a quinze ou vinte minutos) estavam dormindo. Nessas horas, a casa ficava sob uma penumbra azulada, e o assobio plácido do meu avô formava com o canto dos galos e os latidos esparsos dos cachorros no quintal um mosaico sonoro bonito e ao mesmo tempo triste, um pouco como uma flauta numa fábula infantil.

Encontrei-o se aprontando para a missa, com o cabelo branquíssimo úmido e todo penteado para trás (era sempre um susto notar, nas fotos antigas, que seu cabelo já era assim, todo branco, desde a época do quartel). Ajeitava o bigode (também branquíssimo) no espelho do banheiro. Sua camisa estava entreaberta, os riscos do Miró à vista na barriga grande e dura, e ainda vestia só cueca e meias, com as varizes – uma topografia de rios e deltas azulados e esverdeados que me fascinavam – também à mostra. A luz do quarto estava acesa, minha avó roncava brutalmente, e no fundo se ouvia o ruído bem baixinho da tevê ligada.

Vê-lo assim, aparentemente vulnerável, me ajudou a tomar coragem, e pedi, de supetão, que parasse de dar dinheiro ao meu pai. Eu disse (sem acreditar) que meu pai era louco, que era uma pessoa “incorrigível”. E avisei que, se continuasse dando dinheiro para ele, aquilo não iria acabar bem, não havia limites para o meu pai, quem se acostumava a ganhar as coisas de mão beijada não se desacostumava nunca.

Eram todas frases que eu pescara no ar, frases soltas da minha mãe ou dos meus tios – uma espécie de resumo do que se falava indiscretamente na casa. Enquanto fazia essas súplicas ao meu avô, senti o embaraço agudo de dizer frases alheias: a autoconsciência impostora que se impõe quando usamos a linguagem e as expressões dos outros. Pensei em lhe confessar rapidamente que havia escutado algumas das suas conversas no telefone; mas, tão logo pensei nisso, já decidi que iria à missa no domingo para rezar e compensar de forma um pouco mais discreta essa desonestidade. E eu sabia que ele sabia que eu ouvia as conversas; ele sabia que eu sabia que ele sabia.

Por um momento, vendo sua expressão pensativa enquanto arrumava o bigode no espelho, achei que estava processando mentalmente meu pedido e que lançaria mão de alguma anedota longa, ou de provérbios de Maquiavel ou de Marco Aurélio adaptados a um linguajar mato-grossense para acatar ou negar meu pedido, como fazia às vezes com os primos de Poconé e Sorriso que o visitavam. Mas ele apenas se aproximou e pegou a minha mão. Colocou seus dedos entre os meus e apertou forte o suficiente para que eu achasse engraçado, mas não forte o suficiente para me machucar – uma brincadeira afetuosa dele que sempre me fazia rir. “O dinheiro é meu, dotô”, disse, enquanto apertava meus dedos e me fazia gargalhar muito, “quando ocê tiver o seu dinheiro ocê faz o que quiser.” Em seguida abriu a terceira gaveta do armário, sacou de lá uma nota e me entregou. “Compra uns Eskibons para sua vó, pra depois da missa, e uns Chicabons para você.”

Na superfície da nota havia o desenho de um pequeno rosário e as primeiras frases do Pai-Nosso. O valor me parecia excessivo para comprar picolés, mas a inflação já tinha me confundido antes. No fundo do quarto, minha avó ainda roncava alto, enquanto um anúncio da tevê citava os preços de cortes bovinos: patinho, maminha, coxão mole, coxão duro. O supermercado Boizão enlouqueceu, o garoto-propaganda dizia, numa voz pretensamente insana. Está todo mundo louco aqui, louco, louquinho da silva, gente, aproveite já, agora que todos os preços baixaram.

Alejandro Chacoff
Alejandro Chacoff

É escritor, ensaísta e editor de literatura da piauí. Autor do romance Apátridas (Companhia das Letras)

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