A Revista Newsletters Reportagens em áudio piauí recomenda piauí jogos
Podcasts
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
Vídeos
Eventos
  • Festival piauí 2025
  • piauí na Flip 2025
  • Encontros piauí 2025
  • Encontros piauí 2024
  • Festival piauí 2023
  • Encontros piauí 2023
Herald
Minha Conta
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
Faça seu login Assine
  • A Revista
  • Newsletters
  • Reportagens em áudio
  • piauí recomenda
  • piauí jogos
  • Podcasts
    • Foro de Teresina
    • ALEXANDRE
    • Desiguais
    • A Terra é redonda (mesmo)
    • Sequestro da Amarelinha
    • Maria vai com as outras
    • Retrato narrado
    • Luz no fim da quarentena
    • TOQVNQENPSSC
  • Vídeos
  • Eventos
    • Festival piauí 2025
    • piauí na Flip 2025
    • Encontros piauí 2025
    • Encontros piauí 2024
    • Festival piauí 2023
    • Encontros piauí 2023
  • Herald
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
  • Faça seu login
minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
Jogos
piauí jogos
“Estou desaparecendo?”

    Dalton Trevisan e Fabiana Faversani no centro de Curitiba, em março de 2010: ele adorava fofocas, sobretudo se envolvesse algum figurão do meio literário, além de ser dado a implicâncias CRÉDITO: MARINGAS MACIEL_2010

vultos da literatura

“Estou desaparecendo?”

Os últimos dias de Dalton Trevisan

Felippe Aníbal | Edição 230, Novembro 2025

A+ A- A

1x
00:00
00:00

A agente literária Fabiana Faversani posicionou seu notebook em uma mesinha ao lado da cama de Dalton Trevisan – e deu play no filme Amarcord, de Federico Fellini. Apesar de ser um dos prediletos do contista de 99 anos, ele logo se cansou, interrompendo a sessão. Nem prestou atenção à trilha musical de que tanto gostava, assinada por Nino Rota. Horas antes – naquele mesmo sábado, 7 de dezembro de 2024 –, com a saúde fragilizada, Trevisan havia recebido a visita de seu médico, João Carlos Folador. Diante da agente, o escritor comunicou ao médico, em tom sóbrio, uma decisão sobre a própria morte. “Ele disse: ‘Não quero mais, tô cansado… Quero ter uma morte tranquila, quero ter uma morte em casa’”, conta Faversani.

No dia seguinte – o domingo, 8 de dezembro –, Trevisan passou a maior parte do dia dormindo, ainda mais abatido. Os enfermeiros disseram a Faversani que a respiração do paciente estava excessivamente fraca, o que já caracteriza um quadro agônico. Foi respeitado, porém, o desejo dele de permanecer em casa. Em determinado momento, Trevisan recobrou o fôlego e perguntou: “Estou desaparecendo?” Foram suas últimas palavras, segundo a agente. O escritor morreu por volta de 18h30 de segunda-feira, 9 de dezembro de 2024, no apartamento em que morava havia três anos e meio, no 12º andar do Edifício São Bernardo, na Alameda Dr. Muricy, no Centro de Curitiba.

Cerca de um ano e meio antes de sua morte – em 16 de junho de 2023 –, Trevisan deixara registrada em cartório uma declaração com suas últimas vontades. Orientou que Rikinha – sua cachorra, da raça dachshund – deveria ficar sob guarda da sobrinha Angela Trevisan Zacharias (a cadelinha, no entanto, morreu meses depois do registro do documento). Também apresentou diretrizes práticas, pedindo que não houvesse qualquer cerimônia fúnebre. Escreveu: “Não quero velório, nem caixão aberto.” Acrescentou que não queria “padre nem missa de sétimo dia”, que desejava ser cremado e que suas cinzas fossem espalhadas entre as raízes dos cedros da casa onde viveu por 68 anos, no bairro Alto da XV.

 

Trevisan, historicamente cioso de sua privacidade, quis se manter longe dos holofotes mesmo após a morte. Recomendou que houvesse “a menor publicidade possível sobre o falecimento, de preferência sem nenhuma notícia”. Foi difícil, no entanto, cumprir esses desígnios. Logo após a morte, seguindo a praxe, o serviço funerário da Prefeitura de Curitiba publicou o registro na seção online de óbitos do dia. A partir de então, os celulares de Faversani e de Zacharias não pararam de tocar. Eram jornalistas ou amigos do escritor querendo confirmar a informação do falecimento. A pedido delas, a prefeitura tirou o registro do ar. Mas era tarde: o print já circulava em grupos de WhatsApp e postagens se alastravam em redes sociais. O alvoroço foi tamanho que, segundo Faversani, carros da imprensa fizeram plantão em frente ao prédio.

Para despistá-los, Faversani e Zacharias recorreram a um subterfúgio. Contrataram os serviços funerários do Crematório Vaticano, em Almirante Tamandaré, município da Região Metropolitana, ao Norte de Curitiba. Logo, a notícia se espalhou – e a imprensa correu para lá. Livre de jornalistas e curiosos, o corpo de Trevisan foi levado então ao Crematório Complexo Cerimonial de Pinhais, a Leste da capital, onde não houve ritual de despedida algum. O ex-­prefeito de Curitiba e sobrinho do contista, Gustavo Fruet, escreveu em suas redes sociais: “Até o anúncio de seu falecimento entrará para as lendas do Vampiro!”, aludindo ao epíteto pelo qual o escritor ficou conhecido.

Ainda nas declarações de suas últimas vontades, Trevisan deixou orientações sobre seu espólio literário: deu a Faversani – que o acompanhara de perto nos últimos quinze anos de vida – plenos poderes para quaisquer decisões relativas a seu acervo e sua obra. Justificou, dizendo ter “confiança que [ela] dará a destinação mais adequada a todo o acervo, bem como do que e como vier a ser publicado em meu nome”. Não era pouca coisa. Tido como um dos maiores e mais prolíficos contistas do Brasil, Trevisan deixou uma obra composta por mais de setecentos contos, publicados em 36 livros, sem contar reedições e edições comemorativas.

 

Ao longo de sua vida, construiu em torno de si uma mística sem paralelos. Desenvolveu tal obsessão pela própria privacidade que atravessou as últimas cinco décadas sem dar entrevistas (a última foi em agosto de 1972, aos 47 anos). Também não comparecia a cerimônias para receber prêmios nem deixava que o fotografassem (os raros registros fotográficos foram feitos nas ruas, sem sua autorização). Essa atitude contribuiu para disseminar a lenda de que era um ser taciturno e recluso – o que não correspondia à realidade, segundo pessoas próximas. Seu estilo literário, marcado por contos curtos e uma escrita seca, dialoga com essa persona que criou, a ponto de ele ter recebido a alcunha de O Vampiro de Curitiba – título de um de seus livros, publicado em 1965. Graças à autopreservação de sua imagem, conseguia flanar quase anonimamente por Curitiba, que retratou como ninguém.

Nos últimos anos, entretanto, Trevisan deixou aos poucos de perambular pelas ruas do Centro, como gostava tanto de fazer, e se recolheu no apartamento em que passou o fim da vida. Ao mesmo tempo, o Vampiro se expôs ao ambiente virtual, com uma exibição inédita de várias fotos antigas (inclusive uma de torso nu) e até uma conta no Instagram, tudo sob a influência e a supervisão de Faversani.

 

Fabiana Faversani é uma mulher de baixa estatura, voz aguda e estilo despojado. Mantém os cabelos pretos num corte shaggy, curto e desfiado, que enquadram bem seus olhos expressivos. Curitibana, ela cresceu a poucas quadras do casarão localizado na esquina entre as ruas Ubaldino do Amaral e Amintas de Barros, onde Trevisan morava. A menina vivia com o pai, um fotógrafo, e quase não teve contato com a mãe, de quem pouco fala. Ela define sua infância como uma fase introspectiva e muito solitária: na época, excessivamente tímida e um tanto gaga, preferia os livros e exposições, demonstrando certa inclinação para as artes plásticas e a literatura.

 

Anos depois, Faversani foi contratada como balconista na Livraria do Chain – uma antiga loja de rua com acervo estimado em mais de 70 mil exemplares, a uma quadra da casa de Trevisan. Além de comprar livros ali, o contista usava o ponto como endereço para receber correspondências, evitando passar o próprio endereço a quem não era de seu círculo – embora a localização de sua residência fosse conhecida por muitos curitibanos. Em razão dessa estratégia, o escritor frequentava a livraria diariamente. “Aqui era o correio dele”, define o livreiro Aramis Chain, um senhor de 81 anos, de voz pausada, que usa suspensórios e mantém um bigode branco.

Logo no início, Faversani observou, curiosa, que Trevisan costumava dedicar certo tempo para checar a seção destinada aos próprios livros e organizar os exemplares ali expostos. Também percebeu que, às segundas-feiras, ele costumava aparecer carregando uma sacola com as fitas VHS que havia alugado para assistir no fim de semana. Como gostava de cinema e seu orçamento pessoal era enxuto, Faversani se aproximou do cliente habitué com uma proposta: que ele lhe emprestasse as fitas alugadas, depois de assisti-las. Em troca, ela as devolveria na locadora.

O contista topou, desde que conversassem sobre os filmes. “Ele começou com uma coisa meio de mentor: ‘Quero que você diga quais filmes gosta, quais não gosta e o porquê’”, conta Faversani. “No princípio, me deu os filmes do diretor japonês Akira Kurosawa. Depois, cinema italiano, Fellini, algumas comédias inglesas… Ele gostava muito do Monty Python. Mais tarde, começou a me emprestar um monte de livros também.” Faversani estima que o encontro dos dois tenha ocorrido entre 2003 e 2004. Nessa época, Trevisan tinha entre 78 e 79 anos, e ela entre 15 e 16 anos. (À piauí, a agente disse que iria completar 40 anos, mas seus documentos informam que tem apenas 37.)

Trevisan se encantou pela balconista, a tal ponto que pediu autorização a Chain para convidá-la a trabalhar consigo. Com o sinal verde do livreiro, Faversani se demitiu e passou a atuar como uma espécie de secretária do escritor e a frequentar o casarão onde ele morava sozinho desde 1998, quando ficou viúvo. O trabalho era informal: com remuneração fixa, mas sem carteira assinada. Ela despachava as correspondências, agendava consultas médicas, pagava contas, fazia compras e acionava profissionais para fazer reparos e manutenção na velha casa. Em 2009, a jovem iniciou a graduação em gravura na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap), que abandonou em 2015, segundo seu currículo na plataforma Lattes.

Faversani acompanhava a rotina metódica do escritor. Trevisan acordava às 6 horas, tomava um café da manhã leve, sempre usando a mesma xícara e os mesmos complementos – ricota, ameixa seca e frutas da estação. Em seguida, passava o restante da manhã escrevendo ou editando os próprios contos. Seu escritório ficava na “cabana”, um austero casebre de madeira isolado da residência, construído no vasto quintal de 1,7 mil m², com vista para os 34 cedros que se erguiam rentes ao muro. (Segundo amigos, Trevisan tinha se inspirado em J. D. Salinger, que também gostava de se enfurnar em uma cabana no campo para escrever.)

No fim das manhãs, a jovem e o contista costumavam caminhar sem pressa pelo Passeio Público e pelo Centro. Em 2010, o fotógrafo Maringas Maciel flagrou uma dessas caminhadas. A sequência de fotos mostra Trevisan em mangas de camisa e de boné, acompanhado de Faversani, que usava um vestido estampado com flores e chapéu com laço, deixando antever os cabelos curtos, então pintados de ruivo. Usualmente, os dois almoçavam em um restaurante vegetariano ou no Mercado Municipal.

À tarde, depois da sesta, o escritor se dedicava à leitura de outros autores – quase sempre os mesmos, como Machado de Assis e Anton Tchékhov. De vez em quando, saía para tomar café com os amigos. À noite, depois de um jantar leve, assistia a dois filmes. Além de Fellini, era aficionado por faroestes e cinema noir.

Na convivência com o contista, Faversani não deixou de se deslumbrar. “Ele conhecia todas as pessoas que eu mais admirava: foi na casa do Manuel Bandeira, na casa do Murilo Mendes… Eu também tinha muita curiosidade em relação à biblioteca dele”, conta ela. A proximidade entre os dois logo deu margem a rumores de que o escritor havia engatado um namoro com Faversani. A literatura alimentou as especulações. Em seu livro O anão e a ninfeta, de 2011, Trevisan publicou três contos protagonizados por Tito, um idoso colecionador de livros que se apaixona por balconistas de livrarias. No conto O colecionador, o personagem diz: “Embora mais velho, não posso gostar de você? Um sentimento sincero e desinteressado. Apenas o prazer da companhia. Partilhar a tua alegria de viver.”

Os boatos chegaram à imprensa. Em maio de 2015, por ocasião dos 90 anos de Trevisan, a Folha de S.Paulo publicou uma reportagem assinada por Marco Rodrigo Almeida, que dizia: “Há testemunhos de que Dalton teria hoje uma namorada de menos de 30 anos, pesquisadora da obra dele.” Na esteira dessa publicação, o jornalista curitibano Aroldo Murá fez uma longa postagem em seu blog, ampliando a história: “A jovem chama-se Fabiana, é estudante de letras” (Faversani só viria a começar o curso três anos mais tarde). Murá acrescentou que Trevisan a apelidara de Chapeuzinho Vermelho. O contista reagiu e enviou esclarecimentos ao blog: asseverou que não era namorado da jovem, com quem mantinha “relações pessoais em torno de temas literários”, e que ela o apoiava “fazendo trabalhos de secretária e assistente”.

“Dalton e eu tirávamos sarro desses boatos”, diz Faversani à piauí, com as bochechas enrubescidas. “Quando eu nasci, ele já estava com 60 e muitos anos. Era um absurdo. Que pessoas doentes, machistas dos infernos. Mas, como dizia o Dalton: ‘Comentário desfavorável você não alimenta.’”

Apesar das negativas públicas, as especulações foram parar na Academia Brasileira de Letras (ABL). Um dos imortais procurou a jornalista e escritora Marleth Silva, de Curitiba, uma das amigas mais próximas de Trevisan, e a informou sobre a boataria. Em um dos seus encontros semanais com o contista, Silva relatou o episódio ao amigo. “Dalton ficou bravo e falou: ‘Imagina, que ridículo! Um homem de 90 anos… Homem de 90 anos não namora’”, conta a jornalista.

 

Marleth Silva trabalhava na sucursal curitibana da Veja quando, em 1992, recebeu a incumbência de encomendar a Dalton Trevisan um texto a ser publicado na revista. Como não tinha contato com o contista, ela pediu a amigos sugestões sobre como chegar até ele. Por orientação do escritor e advogado Nireu Teixeira, passou a escrever cartas e deixá-las na casa de Trevisan. A estratégia surtiu efeito. O contista topou escrever o texto, que teria ilustrações de Poty Lazzarotto (1924-98), seu velho amigo. Quando foi ao apartamento do artista plástico para ver as ilustrações, Silva se deparou com Trevisan escondido atrás da porta, simulando um chilique de forma teatral, fazendo chiste com o fato de ter sido visto por uma jornalista. “Dalton falou assim: ‘Ai, agora eu não tenho como sair daqui! Ela me viu!’”, relembra Silva, emulando o tom de voz jocoso feito por Trevisan. “Era brincadeira, óbvio. O Poty, que era ranzinza, disse: ‘Dalton, pare de ser ridículo!’”

O contato profissional aproximou o escritor da jornalista. Ele disse que tinha gostado das cartas e que, se ela quisesse, poderia continuar escrevendo para ele. Silva continuou a enviar as cartas a cada dois ou três meses, até que Trevisan lhe passou o número do telefone de sua casa e um código para quando fosse acioná-lo: ela deveria deixar o aparelho chamar três vezes, desligar e, em seguida, fazer uma nova ligação. A partir de então, Silva passou a encontrá-lo semanalmente para conversar e tomar café. Não raro, se juntava a eles o advogado e artista plástico Constantino Viaro, hoje com 87 anos.

Não havia um local específico para os encontros, mas alguns pontos se tornaram recorrentes, todos na região central: a Confeitaria Schaffer (até o início dos anos 2000), o Mercado Municipal, uma lotérica próxima ao jornal Gazeta do Povo e um café modesto da Rua Riachuelo – de onde, segundo Viaro, o contista gostava de observar “as putas” que faziam ponto em frente ao cinema pornô, em plena tarde, no outro lado da via. Trevisan tomava muitos cafés, embora às vezes optasse por chá de morango. Cuidava da alimentação, evitando comidas gordurosas, mas tinha um fraco por doces, chocolate e “broinhas de fubá mimoso” – esta frase utilizada de forma recorrente em seus contos para designar algo muito bom. Tinha pavor de pegar friagem e ter um resfriado.

Trevisan é descrito por pessoas próximas a ele como um tipo bem-humorado e falante, que gostava não só de conversar sobre literatura e cinema, mas de contar histórias sobre si mesmo. Era tido, porém, como genioso e irascível, pela maneira como zelava por sua privacidade. Era ele quem estabelecia os limites, revelando a seu respeito apenas o que queria, sempre de forma espontânea. Em regra, os amigos desenvolveram uma espécie de autocensura, medindo bem as perguntas, com receio de contrariá-lo. “Eu me viciei em não perguntar, para não parecer que eu estava fazendo uma entrevista”, diz Marleth Silva.

Ele adorava fofocas, principalmente se envolvesse algum figurão do meio literário. Também era dado a implicâncias. Comprava as brigas de seu entourage, passando a falar mal do desafeto de seus amigos, ainda que não soubesse de quem se tratava. Do mesmo modo, não poupava pessoas próximas. “Dalton falava sobre literatura, sobre cinema, e falava mal dos amigos. Era um maledicente profissional e juramentado”, define, em tom leve, o escritor, professor e crítico literário Miguel Sanches Neto, reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). “Tem uma frase do crítico Wilson Martins, que eu repetia: ‘Um dia, o Dalton briga com você, e você não sabe por quê.”

A vez de Sanches Neto logo chegou. Ele havia conhecido Trevisan no início da década de 1990, depois de ter defendido uma dissertação de mestrado sobre a obra do contista (que também foi tema de seu doutorado). Ficaram tão próximos que o jovem se tornou pupilo do escritor. Falavam-se diariamente por telefone e quase toda semana se encontravam para almoçar ou tomar café. De acordo com Sanches Neto, em 2002, o Correio Braziliense publicou uma reportagem sobre Trevisan, com detalhes de sua rotina. O contista se sentiu traído pelos entrevistados, entre eles Sanches Neto. “Segundo me dizem, como se fosse uma maldição, ele datilografou o nome de todas as pessoas que apareciam na matéria. Meu nome estava no topo da lista. Ele mostrava: ‘Com essas pessoas, eu não converso mais’”, lembra o reitor.

Naquele mesmo ano, Sanches Neto escreveu o romance Chá das cinco com o Vampiro (publicado apenas em 2010, pela Objetiva). O enredo se centra na relação entre um jovem aspirante a escritor e Geraldo Trentini – inspirado em Dalton Trevisan. Descreve em detalhes não só a rotina do contista, como as picuinhas de outros figurões literários de Curitiba, como Valêncio Xavier (1933-2008), Fábio Campana (1947-2021), Wilson Bueno (1949-2010) e Jamil Snege (1939-2003) – que aparecem no livro como Valério Chaves, Orlando Capote, Uílcon Branco e Antônio Akel.

“Toda a parte do livro sobre a vida literária é muito fiel”, assegura o autor. “Eu quis desmistificar a ideia do vampiro. É um vampiro que toma chá de morango, e não sangue. É uma homenagem às avessas.” Ainda antes da publicação, Trevisan teve acesso aos originais de Chá das cinco com o Vampiro. Sanches Neto diz que a cópia foi furtada de sua casa por um amigo em comum, a pedido do contista. Furioso com o que considerou uma inconfidência, Trevisan sacramentou o rompimento definitivo com o pupilo por meio do poema Hiena papuda, distribuído de forma artesanal em Curitiba e publicado mais tarde em uma edição de bolso da l&pm. “Ali, ele me ‘bustificou’”, vangloria-se Sanches Neto, que, em resposta, escreveu um poema em prosa, intitulado A corujinha encrenqueira ou A corujinha constipada, que nunca publicou.

Produtor e diretor de cinema, além de dono de uma pequena lotérica no Centro de Curitiba, Estevan Silveira, outro amigo próximo de Trevisan, não só atuou como leva e traz do contista, como estabeleceu certa relação profissional com ele, a quem se referia como “o tio”. Com autorização do autor, transformou em curtas-metragens onze contos do escritor, incluindo Balada do Vampiro (2007), premiado nos festivais de cinema de Gramado, no Rio Grande do Sul, da Lapa e de Maringá, no Paraná, e de Canoa Quebrada, no Ceará. O diretor conta que Trevisan se interessava pelas produções e estabelecia uma condição: que Silveira mantivesse o texto original. “Ele foi meu melhor professor de cinema. Dava toques, sugeria filmes. Tinha muita referência de fotografia, talvez pela convivência com o Poty Lazzarotto”, diz Silveira, um tipo despojado que não revela a idade e, não importa se frio ou calor, sempre usa bermuda e botas de trilha. “Quando eu definia o ator que faria determinado personagem, levava a fotografia dele para o Dalton ver. Em duas vezes, eu o levei ao set de filmagem. Pedi para o fotógrafo sair, para ele ficar mais à vontade”, recorda o diretor. Ele diz ter autorizações assinadas por Trevisan para transpor outros contos, incluindo Asa da ema e A gorda do Tiki Bar (este último, Silveira tentou realizar via lei de incentivo, mas a parecerista que avaliou o projeto lhe tirou pontos por considerar “gorda” uma palavra pejorativa).

O modo como Silveira circulava com desenvoltura por várias partes da região central de Curitiba talvez tenha sido uma de suas características que mais chamou a atenção de Trevisan. Não tardou para que o diretor passasse a fornecer matéria-prima aos contos do escritor, inclusive apresentando a ele personagens que o ajudariam a atualizar as suas histórias – como “usuários de crack, malandros e golpistas”, enumera Silveira. “Eu os levava para Dalton pegar a fala, o jeito, os trejeitos e, depois, escrever.” A partir de uma dessas histórias de rua, Silveira escreveu o roteiro para um curta. Certo dia, quando caminhava com “o tio” pelo Centro, o diretor apresentou a ele o personagem do seu futuro filme. Impressionado com a história, Trevisan logo escreveu o conto O escapulário, que mostrou em primeira mão a Silveira. “Quando li, peguei meu roteiro e… rrrrrrrrsch”, diz, fazendo como se rasgasse folhas de papel. Em vez da sua história, o diretor preferiu filmar a versão de Trevisan, em 2001.

 

No fim dos anos 1940, Dalton Trevisan já tinha lançado dois livros (que, posteriormente, renegaria), mas estava longe de se consolidar como escritor. Nessa época, começou a produzir o que chamava de “caderninhos” – pequenas brochuras, que imprimia, encadernava artesanalmente e enviava a amigos, jornalistas e críticos literários, como forma de divulgar sua literatura. Trevisan concebia integralmente a publicação, inclusive a diagramação. Costumava dizer aos amigos que era melhor capista do que contista. Mesmo depois de consagrado, manteve a produção e a distribuição dos caderninhos, criando uma tradição que o acompanharia até seus últimos anos.

Na virada para a década de 2010, Fabiana Faversani passou a auxiliá-lo na elaboração dos caderninhos e de capas das edições de bolso da L&PM. Ela ajudava o escritor a selecionar imagens que já estivessem em domínio público, pesquisando em catálogos e livros de artes do acervo do próprio Trevisan. Compartilhavam admiração por artistas co­mo o mexicano José Guadalupe Posada (1852-1913) e o belga Frans Masereel (1889-1972). Faversani digitalizava as imagens e, sob a orientação do contista, as dispunha nas páginas, executando no computador o que em outros tempos ele fazia de modo artesanal. Antes dela, outros “ajudantes”, como Estevan Silveira, já tinham prestado esse apoio.

Embora amigos e outros ajudantes continuassem a fazer favores pontuais a Trevisan, Faversani foi se tornando cada vez mais predominante. Depois de ganhar, em 2012, o Prêmio Camões – a mais importante distinção literária em língua portuguesa –, Trevisan passou a demonstrar maior preocupação com o próprio acervo. Coube a Faversani organizar e catalogar todo o material, principalmente os mais de 6 mil livros e as cartas que, ao longo de décadas, trocou com Antonio Candido, Otto Lara Resende, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Rubem Braga e Fernando Sabino. Os diários – escritos entre 1947 e 1978 – já estavam numerados e organizados. Essa organização foi fundamental para que o acervo final viesse a ser doado ao Instituto Moreira Salles (IMS).[1]

Em 2010, Trevisan completou 85 anos. Ao longo da década, manteve as caminhadas diárias, os cafés com os amigos e o zelo com sua privacidade. (Quando visitava Marleth Silva na redação da Gazeta do Povo, por exemplo, sempre informava na portaria um nome diferente: Machado de Assis, Murilo Mendes, Manuel Bandeira…). Em 2014, deixou de escrever. Segundo Faversani, depois de concluir a edição de O beijo na nuca (relançado pela Todavia), Trevisan afirmou: “Limpei. A partir de agora, não escrevo mais. Para por aí.” Ela diz que o contista tinha receio de se tornar “um pastiche de si”. Desde então, ele passou a revisar antigos trabalhos, mas já sem interesse profissional. “Até escreveu uns haicaizinhos. Mas escrevia e jogava fora.”

A reclusão do escritor começou a partir de março de 2020, quando a pandemia impôs medidas de isolamento social. Ainda assim amigos, como Marleth Silva e Constantino Viaro, chegaram a visitá-lo com certa regularidade, mantendo o distanciamento: permaneciam na rua, enquanto Trevisan ficava à janela ou na varanda de sua casa. “Eu ia toda semana. Inventava alguma coisa, ia levar bolachinha, um colete… Ele vivia querendo coletes”, relembra Silva. No mesmo período, a casa – que fica ao rés do chão e tem quatro janelas que dão para a rua – sofreu quatro assaltos. Faversani conta que, certa vez, Trevisan foi acordado de madrugada por barulhos estranhos. Deparou-se dentro do banheiro com um homem em estado alterado – provavelmente em decorrência do uso de crack –, tomando banho, depois de ter revirado a casa.

Em razão desses episódios, no início de 2021, ele se mudou da casa em que havia passado quase sete décadas. Em junho de 2022, o imóvel foi vendido por 4,6 mi­lhões de reais à construtora Hugo Peretti, que vai erguer um prédio residencial no quintal em que estão os cedros de que o escritor tanto gostava. Tombado desde 2017, o casarão será mantido e restaurado, a partir de um convênio com a prefeitura, e se transformará em um centro cultural dedicado a Trevisan. Segundo Faversani e amigos, o contista tinha horror à ideia de que sua casa virasse um ponto de visitação, por isso mesmo, antes de vender o imóvel, mandou demolir a cabana. O público jamais saberá como era seu espaço de criação.

Trevisan se mudou para um apartamento no mesmo edifício que Faversani: ele, no 12º andar; ela, no 15º. A partir de então, seu isolamento se tornou definitivo. Aos 96 anos, ele abandonou de vez as caminhadas e, com a audição comprometida e se negando a usar aparelhos de surdez, precisava da intermediação de Faversani para conversar com as visitas, cada vez mais raras. Por causa do estado de saúde do escritor, a agente literária nem sempre permitia os encontros.

Com o passar do tempo, a saúde de Trevisan demandou acompanhamento especializado ininterrupto: quatro enfermeiros se revezavam em turnos. Além disso, ele fazia sessões semanais de fisioterapia em casa. A logística e a supervisão de todos esses cuidados também ficou sob responsabilidade de Faversani.

Autora do livro Quem vai cuidar dos nossos pais? (Viva Livros), Marleth Silva se preocupava com o isolamento do amigo e com a centralização das responsabilidades em Faversani. A jornalista diz que, apesar da boa vontade dos cuidadores, um erro comum deles é pensar que são capazes de dar conta de tudo sozinhos, o que, na sua opinião, é um risco. “Se duas ou três pessoas ficarem encarregadas dos cuidados, se enxerga muito mais coisas”, diz. A jornalista também se preocupava com a situação de Trevisan depois do fim do isolamento social, quando Faversani voltasse às aulas presenciais do seu curso de letras. “Com a mudança de Trevisan para o apartamento, era tudo via Fabiana. Foi ali que se fechou esse círculo em torno dele. E ele não se incomodou com isso”, avalia Silva. “Os dois se fecharam muito. É uma situação muito perigosa.”

No fim de 2022, outro acontecimento abalou Trevisan. Sua filha Rosana Trevisan, a Titinha, foi diagnosticada com câncer em estágio avançado – a mesma doença que matara em 1996 a outra filha do escritor, Isabel Trevisan. Segundo as netas, o avô vivia às turras com Rosana. “Os dois se enfrentavam muito, porque eles tinham um gênio muito parecido”, diz Natascha Trevisan Cornelsen. Em maio de 2023, Rosana faleceu, não sem antes pacificar a relação com o pai. “Ele mandou muitos áudios para ela, muitas cartas de pai amoroso. Foi muito bonita a relação deles no fim”, recorda Natascha, que guarda o celular de sua tia com as mensagens.

Na primeira semana de dezembro de 2024, Constantino Viaro visitou Trevisan no Edifício São Bernardo. Encontrou o escritor revisando provas de um de seus livros, que seriam relançados pela Editora Todavia. Viaro constatou que o amigo estava lúcido, embora com capacidade auditiva reduzida: era preciso falar muito alto para que ele escutasse. Em determinados momentos, Faversani precisava servir de intérprete. “A moça tinha uma voz estridente. Aí, ele ouvia”, relata Viaro. Na despedida, o contista clamou ao amigo que voltasse a visitá-lo. “Ele me falou umas três vezes: ‘Volta aqui, volta aqui… Não esqueça de voltar aqui’”, conta Viaro. Dias depois, Trevisan faleceu.

 

Tirada em contra-plongée, a fotografia em preto e branco mostra o jovem Dalton Trevisan com óculos de lentes grossas e sem camisa, trepado no alto de uma palmeira. No terço inferior da imagem, um lettering berra, em letras garrafais: “DALTON COMO VOCÊ NUNCA VIU.” Publicada no Instagram em 5 de novembro de 2024 – um mês e quatro dias antes da morte do escritor – a foto faz parte de uma campanha da Todavia para anunciar a republicação de sua obra completa a partir deste ano, o mesmo em que se celebra o centenário de seu nascimento. A imagem constava no perfil @trevisan.dalton, criado dias antes e onde outras fotos do contista foram publicadas a seguir.

A novidade alvoroçou o público, mas deixou espantados os amigos de Trevisan ouvidos pela piauí. Todos acham que tamanha exposição violava a intimidade que o escritor tanto lutou para manter hermeticamente fechada por décadas. “Acho que ele ficaria louco da vida, até porque me parece que estão mostrando coisas que ele jamais gostaria de mostrar”, opina Constantino Viaro. “As pessoas não se dão conta de que ele não gostava de exposição e agora acham tudo lindo”, diz Marleth Silva, com o celular na mão, deslizando o dedo pela tela, aberta na conta de Trevisan no Instagram. “Olha! Foto para todo lado! Parece uma provocação a ele. Para mim, é um susto.” Ela recorda que Trevisan classificava o poeta Paulo Leminski – que morreu cedo, aos 44 anos, em 1989 – como uma celebridade pop: todos o reconheciam pelas fotos em que ostentava os longos bigodes e os óculos ovalados, como se fosse um ícone. O contista desenvolveu uma tese a respeito. “O Dalton dizia: ‘Quem morreu em Curitiba foi o Dalton Trevisan. O Paulo Leminski está vivo.’ Porque era do Leminski que falavam. Ele falava isso rindo, achava engraçadíssimo”, recorda Silva. Em seguida, a jornalista diz, reflexiva: “Ele não ia gostar disso. Coitado, vai virar pop.”

Faversani diz que a conta de Instagram de Trevisan foi uma sugestão de sua orientadora de mestrado no curso de letras, Sandra Mara Stroparo. A agente diz que a rede social faz parte de uma estratégia de divulgação das ações do centenário para alcançar o público jovem, que ainda não conhece a obra de Trevisan. Quando aventaram a possibilidade de abrir a conta no Instagram, o próprio escritor não só concordou com a exposição, mas participou da seleção das imagens, segundo Faversani. A maior parte das fotos vem do acervo de Dérson Trevisan, fotógrafo e irmão de Dalton, já falecido. O perfil é administrado por uma agência particular, paga pela agente, a Momo, que pertence a Lucian Woytovicz e Beatriz Galindo, enteada de Stroparo.

“Aquelas fotos são ótimas”, diz Faversani. “Foi o Dalton que escolheu a foto dele saltando, foi ele que escolheu a da palmeira. Ele disse: ‘Se eu não publicar essas fotos do meu álbum, vão publicar umas fotos minhas de um velho andando com sacolinha de mercado.’” O escritor se referia às fotos que costumavam fazer dele nas ruas de Curitiba, sem sua autorização. Faversani diz que Trevisan viu a postagem da Todavia com sua foto da juventude e aprovou a repercussão obtida: “Ele ficou muito feliz de ver esse acolhimento da obra.”

Foi ela a artífice da mudança de editora, da Record para a Todavia. Faversani conta que Trevisan sempre teve bom relacionamento com Alfredo Machado, fundador da Record, falecido em 1991, mas que a partir da década de 2010 passou a manifestar insatisfação com a editora. Em e-mail de despedida, enviado em 16 de outubro de 2024 à presidente da Record, Sônia Machado Jardim, o contista aludiu à demora da editora em repor títulos esgotados e acrescentou: “O mundo mudou, minha obra mudou e ando inquieto com as baixas vendagens de certos títulos. Apesar dos esforços dos editores (quiçá os melhores da casa!), mais de quinze dos meus títulos não venderam sequer um exemplar no último trimestre”, queixou-se. “Velhinho cansado, me inquieta algumas obras não chegarem ao público.”

Nos últimos anos, o editor André Conti, um dos fundadores da Todavia, tinha passado a manifestar interesse em relançar o catálogo do escritor. De acordo com Faversani, Trevisan concordou com a mudança, desde que tivesse controle sobre as publicações. “A Record é uma editora maravilhosa, mas muito grande. Tem um catálogo que não dava conta do Dalton, de manter aquela obra toda em circulação”, avalia ela. “Dalton falou: ‘Se eu estou vivo e eles estão tratando a obra assim, você não vai conseguir fazer nada quando eu morrer. A obra vai morrer também.’”

Para Miguel Sanches Neto, as decisões tomadas por Trevisan na última década vão na contramão da trajetória do próprio escritor. Como o contista renegava seus escritos anteriores à década de 1950, Sanches Neto questiona, por exemplo, a reedição de Sonata ao luar (de 1945, relançado em 2023 pela Arte e Letra) e a publicação de O beijo na nuca, que traz textos da fase rejeitada pelo autor. “Dalton Trevisan pagava para o Jamil Snege roubar esses livros do acervo da Biblioteca Pública do Paraná e dar fim”, conta. Sanches Neto coloca tais publicações no mesmo pacote das redes sociais do contista: “Uma coisa meio carnavalesca”, define. “Não estou dizendo que ele não tenha autorizado isso. Não sei até que ponto estava no pleno domínio de suas próprias razões. Os últimos anos são muito estranhos para mim, porque não é o Dalton. É como se fosse uma outra pessoa no lugar do Dalton”, diz ele. “O final da vida dele é um conto do Dalton Trevisan: ele, isolado, publicando coisas que tinha renegado.”

Sanches Neto traça um paralelo: “Fabiana Faversani é a María Kodama do Dalton Trevisan”, define. “Teve um Dalton antes da Fabiana e depois. Não estou fazendo nenhum juízo de valor, mas ele se isolou durante esse período”, continua. “O Vampiro, extremamente isolado, se tornou um doce velhinho.” María Kodama (1937-2023) foi secretária e assistente literária de Jorge Luis Borges (1899-1986) e o acompanhou em conferências pelo mundo quando ele já estava cego. Para alguns, como Adolfo Bioy Casares, a secretária isolou o escritor e o afastou do convívio com amigos. Pouco antes de sua morte, Borges, que não tinha filhos, casou-se com Kodama, fazendo dela sua herdeira universal e a responsável por todo o seu espólio literário.

 

Em janeiro de 2025, Katiuscia e Natascha Trevisan Cornelsen – netas e herdeiras diretas de Dalton – procediam com os levantamentos para o inventário do espólio do avô. O escritor havia deixado um patrimônio de 27,4 milhões de reais. Apesar de ter ganhado alguns prêmios literários – o Camões lhe rendeu 100 mil euros, mais de 600 mil reais em dinheiro de hoje –, a fortuna de Trevisan não vinha da literatura, mas de heranças. Seu pai, João Evaristo Trevisan, tinha sido um influente industrial, dono de uma fábrica de louças. Chegou a se candidatar a deputado estadual e vice-presidente da Associação Comercial do Paraná. A família também tinha uma imobiliária.

Apesar disso, Trevisan levava uma vida quase franciscana em seu casarão deteriorado. Seu último carro foi um Fiat Cinquecento, que pouco usava. Quando venceu o Camões, o contista receou que a publicidade em torno do dinheiro pudesse chamar a atenção sobre ele, levando a crer que fosse rico. Por isso, ao terem notícia da fortuna do escritor, até os amigos se surpreenderam. “Eu nunca imaginei que ele tivesse tanto dinheiro, porque na maioria das vezes era eu que pagava a conta”, diz Constantino Viaro.

Ao longo dos levantamentos do espólio, dois pontos deixaram as netas de Trevisan preocupadas: havia dois planos de previdência privada milionários que tinham como única beneficiária Fabiana Faversani. Juntos, os planos em VGBL somam mais de 5,7 milhões de reais. Um deles, contratado com o Bradesco, recebeu aportes de 4,4 milhões de reais em sete operações realizadas ao longo de 2024, entre 3 de janeiro e 31 de outubro.  (Em janeiro de 2025, o extrato atualizado indicava que a aplicação continha 4,8 milhões de reais.) Em outra instituição financeira, a XP Investimentos, Trevisan contratou mais um VGBL em que colocou Faversani como beneficiária, também em 2024, dessa vez no valor de mais de 904 mil reais.

Inventariante do espólio do avô, Katiuscia ajuizou duas ações, que tramitam na 1ª Vara de Sucessões de Curitiba, uma contra o Bradesco, outra contra a XP Investimentos, com o objetivo de anular os aportes financeiros e a indicação da Faversani como beneficiária. Em decisão liminar, o juiz Ronaldo Sansone Guerra deferiu, em janeiro passado, o pedido para que os valores fossem bloqueados. “A gente questiona assim: se Dalton queria que ficasse pra ela [Faversani], porque ele não deixou por escrito?”, diz Katiuscia. O escritor não deixou testamento. Apenas aquela declaração de vontades, registrada em 2023.

Em sua defesa, assinada por três advogadas, Katiuscia levanta uma série de dúvidas sobre as aplicações. Alega que, por terem sido contratados poucos meses antes da morte do escritor, os VGBLs não teriam natureza securitária, mas de investimento. Por isso, os planos previdenciários deveriam fazer parte do inventário. As advogadas também põem em dúvida se foi o próprio Dalton Trevisan quem fez os aportes, argumentando que o contista jamais demonstrou “pleno domínio sobre plataformas digitais ou aplicativos financeiros” e que toda sua vida bancária se deu de forma tradicional, “mediante cheques e movimentações presenciais”.

À piauí, Katiuscia e Natascha relatam que tiveram uma convivência relativamente próxima com o avô na infância. Aos sábados, iam com a mãe, Isabel, passar a tarde no casarão da Ubaldino do Amaral. A avó, Yole Maria Bonato Trevisan, preparava um farto lanche. O escritor se sentava à mesa com a família, mas só para conversar. Logo, ele se retirava para a cabana – e só no fim da tarde tomava um chá com torradas. Lá pelas tantas, o avô costumava pôr na vitrola o disco de música instrumental Io sono il robot – provavelmente uma edição italiana de I robot, da banda Alan Parsons Project – e dançava com as netas, com movimentos duros, imitando um androide. “Às vezes, a gente ia na cabana e ele pedia para fazermos desenhos. Ele sugeria: ‘Desenhe o Top’, que era um cachorro, um linguiça, o xodó dele. Depois, guardava os desenhos e falava para minha mãe me incentivar, porque eu tinha o dom”, conta Katiuscia, que se tornou designer, cenógrafa e artista plástica. “À medida que fui crescendo, ele começou a falar dos livros.”

Em meados da década de 1990, Isabel Trevisan, a mãe de Katiuscia e Natascha, foi diagnosticada com câncer. O tratamento pôs fim às visitas de sábado, afastando as netas dos avós. Em 3 de maio de 1996, quando Isabel faleceu, Katiuscia tinha 20 anos, e Natascha, 17. Elas foram morar com uma tia paterna, embora o avô as tenha bancado financeiramente nessa época, pagando, inclusive, os cursos universitários em que se formaram. Cada uma seguiu sua vida: casaram-se, tiveram filhos e, depois, se separaram de seus maridos. Dizem que, durante todo esse tempo, mantiveram uma rotina regular de visitas ao avô, pelo menos uma vez por mês.

As irmãs contam que conheceram Faversani depois de 2008, como se ela tivesse surgido “de uma visita para outra”. Dizem que Trevisan apresentou a jovem sem dar muitos detalhes, como se não quisesse ser questionado. Notaram também o encantamento do avô pela nova ajudante. Katiuscia chegou a perguntar ao avô se Faversani prestava algum serviço formal e se era registrada. “Ele ficou vermelho, assim, ficou nervoso e falou: ‘Isso não te diz respeito.’ Então, eu não perguntei mais nada.”

Katiuscia e Natascha afirmam que foi só depois que Trevisan já estava morando no edifício de Faversani que elas souberam da mudança, ocorrida no início de 2021. Sentiram-se ofendidas por não terem sido avisadas. As duas dizem que, a partir de então, passaram a enfrentar entraves para ver o avô. As visitas tinham que ser agendadas previamente com Faversani, que, segundo elas, blindava o escritor. “Simplesmente, foi isolando mais. Isso, acho que ela queria desde sempre. A coisa foi tomando um grau cada vez maior, maior, maior, maior, e depois que a minha tia Rosana morreu, ela tomou conta. [Como quem fala:] ‘Agora, a principal aqui sou eu’”, diz Natascha.

Elas relatam que, em uma das visitas ocorrida em 2024, se depararam com Trevisan em um quadro de aparente confusão mental. O avô passou a elogiá-­las mais do que o habitual e, em seguida, perguntou: “E as meninas? E a mãe de vocês?” Como a mãe de Katiuscia e Natascha falecera havia quase trinta anos, elas supõem que o escritor não as tenha reconhecido. Dias depois, Natascha voltou ao apartamento – dessa vez, sem avisar. Mais uma vez, o avô perguntou: “E a sua mãe?” No processo judicial, Katiuscia inseriu um vídeo gravado nesse dia. A defesa questiona se Trevisan estava em pleno domínio de suas capacidades mentais ao longo de 2024, quando foram feitos os aportes que tinham Faversani como beneficiária. Mencionam três medicamentos para “quadros mentais” que o contista tomava, segundo registros das enfermeiras.

Faversani afirma que Trevisan “se preparou para morrer”, deixando todos os detalhes organizados. Como o escritor a havia nomeado gestora de seu espólio literário, ele teria criado os fundos para que ela tivesse condições de cuidar de sua obra. Ela diz que sabia que o contista a tinha nomeado como beneficiária de um VGBL, mas que ignorava o valor da aplicação. A defesa de Faversani pediu para ser incluída nos processos abertos pelas netas de Trevisan contra as instituições financeiras. Em maio, ajuizou um processo de produção antecipada de prova contra Katiuscia – que também tramita na 1ª Vara de Sucessões de Curitiba –, com o objetivo de ter acesso integral às movimentações financeiras feitas pelo escritor.

Segundo Faversani, o contista “não se dava” com as netas, por isso não queria que elas o visitassem. Sua defesa incluiu no processo declarações de enfermeiros, que mencionam o fato de Trevisan ter proibido as visitas. Uma das profissionais, a enfermeira Ana Carolina Padilha, escreveu: “Em duas ocasiões no período diurno, [ele] recebeu visita de suas netas, o que o deixou agitado e com os sinais vitais alterados, pois as mesmas faziam filmagens dele sem a sua permissão; após a saída delas, fez o pedido que não as recebesse mais.”

Além disso, a defesa de Faversani incluiu um parecer, assinado em 30 de janeiro de 2025, pelo médico João Carlos Folador. Ele informou que até trinta dias antes do falecimento, Trevisan “encontrava-se lúcido e consciente para decidir sobre sua vida e em plenas condições mentais”. Também foram inseridas no processo declarações de Sandra Mara Stroparo e do marido dela, o escritor e linguista Caetano Galindo, que visitaram Trevisan ao longo de 2024, além do pesquisador Christian Schwartz, que está escrevendo um ensaio biográfico sobre o contista. Todos relataram que ele aparentava estar em plenas condições mentais. A defesa das netas pretende desqualificar os depoimentos, apontando que todos são pessoas próximas a Faversani.

Quando teve acesso à movimentação financeira, a defesa de Faversani observou que, em outubro de 2024, Katiuscia e Natascha foram beneficiárias de transferências via Pix feitas pelo escritor no valor de 50 mil reais, cada uma. “Teria Dalton Trevisan realizado essas transferências eletrônicas que favoreceu as herdeiras também com vício de vontade e ilicitude? Afinal, as transações são rigorosamente do mesmo período em que Dalton Trevisan fez aportes no plano previdenciário que tinha Fabiana como beneficiária”, questionam os advogados de Faversani.

A defesa da agente também constatou que Trevisan havia deixado outro VGBL, no valor de 12,7 milhões de reais, que supõe ter as netas como beneficiárias. Os advogados evocam o artigo nº 1846 do Código Civil, segundo o qual pelo menos 50% do patrimônio do falecido devem ser destinados aos seus descendentes diretos. Apontam ainda, que os planos previdenciários deixados por Trevisan a Faversani correspondem a 20% do patrimônio disponível, o que não violaria a lei. “O destino do restante do patrimônio, algo em torno de 21 milhões, se foi partilhado ou de qualquer outra forma destinado, caberá às próprias herdeiras justificarem e documentarem neste processo”, diz a defesa de Faversani.

Quem foi próximo do escritor lamenta que os episódios em torno do espólio tenham se convertido num conto daltoniano. Sanches Neto vai mais longe e teme que as idiossincrasias de Trevisan se sobreponham à obra do maior contista da língua portuguesa. Certo enigma sempre restará em torno do Vampiro, como ele próprio assinalou em 2024, quando lançou Dalton Trevisan: uma literatura nada exemplar, que reúne ensaios sobre sua obra. Depois de ler o livro, o escritor enviou uma carta aos organizadores da publicação, Fernando Paixão e Hélio de Seixas Guimarães, dizendo: “Escreve primeiro e se arrependa depois. Você sempre se arrepende… Mas, depois de ler esses ensaios e descobrir que tenho tão bons leitores, me arrependo um pouco menos. Mas ainda me pergunto: ‘Ei, Vampiro, qual é a tua?’”

Talvez, como o próprio Trevisan frisou tantas vezes, as respostas estejam mais nos livros do que na vida.


[1] O fundador da piauí foi presidente do conselho de administração do IMS.

Felippe Aníbal
Felippe Aníbal

É jornalista radicado em Curitiba. Autor do livro Waltel Branco - O maestro oculto (Banquinho Publicações)

Leia Mais

vultos da literatura

O missionário pecador

Um agradecimento e uma canção para Paulo Leminski

30 jun 2025_16h20
vultos da literatura

A festa tardia

Sigrid Nunez e seus celebrados romances sobre o luto

28 abr 2025_17h57
vultos da literatura

O FIM DA SECA

Incapaz de compor um verso durante anos, o poeta Carlito Azevedo, um dos mais prestigiados do país, usou a psicanálise para reanimar fantasmas e voltar a escrever

22 nov 2024_08h20
  • NA REVISTA
  • Edição do Mês
  • RÁDIO PIAUÍ
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
  • DOSSIÊ
  • O complexo_SUS
  • Marco Temporal
  • má alimentação à brasileira
  • Pandora Papers
  • Arrabalde
  • Igualdades
  • Open Lux
  • Luanda Leaks
  • Debate piauí
  • Retrato Narrado – Extras
  • Implant Files
  • Anais das redes
  • Minhas casas, minha vida
  • Diz aí, mestre
  • Aqui mando eu
  • HERALD
  • QUESTÕES CINEMATOGRÁFICAS
  • EVENTOS
  • AGÊNCIA LUPA
  • EXPEDIENTE
  • QUEM FAZ
  • MANUAL DE REDAÇÃO
  • CÓDIGO DE CONDUTA
  • TERMOS DE USO
  • POLÍTICA DE PRIVACIDADE
  • In English

    En Español
  • Login
  • Anuncie
  • Fale conosco
  • Assine
Siga-nos

WhatsApp – SAC: [11] 3584 9200
Renovação: 0800 775 2112
Segunda a sexta, 9h às 17h30