A Revista Newsletters Reportagens em áudio piauí recomenda piauí jogos
Podcasts
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
Vídeos
Eventos
  • Festival piauí 2025
  • piauí na Flip 2025
  • Encontros piauí 2025
  • Encontros piauí 2024
  • Festival piauí 2023
  • Encontros piauí 2023
Herald
Minha Conta
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
Faça seu login Assine
  • A Revista
  • Newsletters
  • Reportagens em áudio
  • piauí recomenda
  • piauí jogos
  • Podcasts
    • Foro de Teresina
    • ALEXANDRE
    • Desiguais
    • A Terra é redonda (mesmo)
    • Sequestro da Amarelinha
    • Maria vai com as outras
    • Retrato narrado
    • Luz no fim da quarentena
    • TOQVNQENPSSC
  • Vídeos
  • Eventos
    • Festival piauí 2025
    • piauí na Flip 2025
    • Encontros piauí 2025
    • Encontros piauí 2024
    • Festival piauí 2023
    • Encontros piauí 2023
  • Herald
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
  • Faça seu login
minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
Jogos
piauí jogos

    No guichê, anunciamos que pretendíamos chegar à Patagônia. O atendente franziu o cenho e arrancou as passagens da impressora com um rasgo. “Vocês já estão na Patagônia”, respondeu FOTO: WWW.ANDYLEE.COM

ficção

Patagônia

Um relato de viagem

Alejandro Chacoff | Edição 136, Janeiro 2018

A+ A- A

Por muito tempo, achei que eu escreveria diários e relatos de viagens. Foi isso que eu disse ao meu chefe quando, aos 28 anos, pedi demissão do emprego. Eu vivia em Londres e ganhava um dinheiro bom (mas não tão bom quanto a minha família achava); de resto, era como qualquer outro emprego. Eu nunca havia escrito uma linha sequer. Precisava encontrar alguma abstração pretensiosa para me tranquilizar. “Vou escrever um romance” era uma frase cômica e, na Inglaterra, um clichê (qualquer idiota com meio diploma de Oxford queria secretamente fazer isso). Certa vez, num evento do escritório, eu disse, com tranquilidade fingida e concisão cínica (mas com um orgulho pomposo e verdadeiro): “Irei escrever.” Até os mais bêbados no Queen’s Head me olharam com pena; depois, a aniversariante – pálida e com manchas rosadas no pescoço, efeito da bebida – sugeriu, em tom jocoso, que já há algum tempo ela planejava escrever as suas memórias de prostituta na infância.

O meu chefe tinha uma papadinha no lugar do queixo, e as suas abotoaduras, que brilhavam histericamente nas camisas discretas de tom rosa pálido, sempre me davam um sentimento difuso de tristeza. Alguém me havia dito que desde a Carta Magna a sua família era dona de metade da Escócia. Dado o fetiche inglês por subestimar as coisas, suponho que ele tinha ainda mais terras. Quando eu me demiti e disse que escreveria “diários e relatos de viagens”, experimentando essa nova expressão abstrata da qual eu começava a gostar cada vez mais, ele não enrubesceu como de praxe. Apenas mexeu as sobrancelhas e perguntou, num tom ansioso: “Você já conseguiu um agente?” Talvez ele também quisesse escrever.

Depois que ficou claro que eu estava mesmo saindo do emprego, ele, um sovina incorrigível, mostrou-se tranquilo o suficiente para perguntar se eu queria um aumento. Eu disse que sim – que lhe passaria o meu número de conta e agência para que, quando eu voltasse à América do Sul, ele financiasse os meus diários e relatos de viagens, e também, quem sabe, outros projetos. Aí ele finalmente enrubesceu. Um inglês sem senso de humor, descobri ao longo dos anos, não é uma espécie tão incomum assim.

 

 

Havia dois problemas fundamentais com relatos de viagens. O meu medo de avião, que me perseguia desde a adolescência, consolidara-se numa fobia terrível. E, embora eu romantizasse e guardasse moleskines e outros caderninhos fodidos, eu nunca conseguia preencher um inteiro. Um cronista de viagens que não anota e tem medo de viajar soa ridículo; por outro lado, é uma boa sinopse para uma novelette.

 

O voo de Londres para São Paulo foi tranquilo, sem turbulência. Antes de sairmos, uma senhora argentina causou uma grande comoção. Ela queria levar um cigarro apagado na mão. Estava o tempo todo em pé com esse cigarro apagado, fingindo fumá-lo. Levava-o à boca com prazer, de olhos fechados. Alguns comissários lhe pediram para guardar o item. Ela recusou. Me van a echar, ela dizia, estridente, me van a echar, no lo creo. Não entendi qual era o problema: tinham medo que ela de repente acendesse o cigarro no meio do voo? Parecia uma decisão autoritária. Depois de resistir e falar me van a echar mais algumas vezes, a velhinha foi forçada a descer. Alguns passageiros bateram palmas. Achei tudo muito injusto, mas fiquei também um pouco aliviado. Havia algo de vagamente alegórico e sombrio nessa velhinha que caminhava ansiosamente pelos corredores do avião e só fingia fumar um cigarro; parecia algum personagem de Beckett.

A tranquilidade durou pouco. Logo, especulei que o drama central talvez fosse o fato de a velhinha ter descido do avião. Essa seria a grande alegoria, o sentido da história: a velhinha é expulsa por carregar um item inflamável; e ironicamente ela se salva de uma grande explosão. Tentei prever manchetes. Depois tomei três frontais, e dormi. Acordei com o sol nascente ao lado, e com os ossos doloridos; as luzinhas de São Paulo ainda estavam acesas e se estendiam infinitamente no horizonte. Senti um mal-estar por não conseguir delimitar a cidade – mesmo com a visão vantajosa de cima, eu não sabia onde o território começava nem onde terminava.

 

Foi, talvez, o voo mais tranquilo que já peguei. Mas decidi que eu não pegaria a conexão marcada para Buenos Aires. Havia pelo menos um outro modo de transporte, e os fóbicos merecem evadir a fobia. Fui para a casa da minha irmã. Almocei, chequei e-mail. Duas pessoas do escritório em Londres tinham escrito pedindo desculpas se, em algum momento, pareceram zombar da minha decisão de deixar o emprego para escrever. Os e-mails terminavam da mesma forma: com cada remetente confessando, de forma um pouco sentimental, o desejo íntimo de escrever ficção, e de um dia quem sabe deixar o trabalho para “ir atrás desse sonho” (ambos usaram a mesma expressão: follow one’s dream). Eu pensei que se usavam uma expressão como essa, era melhor ficarem no emprego. No fim não respondi nenhuma das mensagens. Uma resposta, longa ou curta, teria sido insincera; eu já me sentia muito distante deles, com a confiança pura de quem ainda não fez nada.

Na Rodoviária do Tietê, fui ao guichê do Crucero del Norte, e comprei uma passagem de ônibus para Buenos Aires. A mulher do guichê disse que o trajeto duraria 36 horas. Me deu prazer pensar que a velhinha tomaria outro voo e chegaria antes de mim em sua cidade. Era a mesma previsão do trajeto que eu fizera dez anos antes, em fevereiro de 2006.

 

 

SÃO PAULO-BUENOS AIRES, 15 DE FEVEREIRO, 2006

 

Os funcionários do ônibus me oferecem um uísque ruim, com o gelo já derretido. Eu bebo porque eles são comoventes, esses funcionários, sobretudo na maneira que têm de emular os comissários das companhias aéreas. Vestem coletes e gravatas, e sorriem enquanto entregam cobertores puídos e travesseiros ásperos. Volta e meia param ao meu lado e ajustam, de forma um pouco absurda, o ar-condicionado acima da minha cabeça. Mas a ilusão é totalmente destroçada pela falta de fones de ouvido e pelo filme obscuro que escolhem para a tevê.

Passada a noite, já perto da fronteira, paramos num boteco – um barraco em chão de terra batida, com moscas lentas e educadas (rondam só os canudos no balcão, ficam longe das mesas). Tem um rodízio de almoço. Recuso e o garçom me avisa, em tom vagamente ameaçador, que na próxima parada já não haverá mais rodízio de carnes. Pergunto se ele conhece o próximo restaurante. “Não, não é isso”, ele diz, um pouco solene. “Já é outro território. Lá rodízio nem existe.”

Depois do almoço, o meu vizinho de assento, que se calara por vinte horas, começa a falar. Conta, numa espécie de fluxo de consciência, a sua história: tem 22 anos (como eu), é de Catanduva, fez bicos como engraxate, ajudante de mecânico, e gosta muito de Deus. Vai tentar encontrar um pessoal da igreja em Misiones; depois irão todos a Buenos Aires. A igreja está indo bem lá. Todo mundo entende português, ele diz; você pode falar em português lá que as pessoas entendem, não se preocupe. Não menciono a origem de meu pai. Pergunto ao meu vizinho se ele pretende aprender espanhol e, assombrado, talvez com um pouco de vergonha, ele sussurra que não.

Logo entendo o motivo de seu fluxo de consciência. Ele carrega consigo histórias de pessoas que foram barradas na fronteira, e o monólogo é uma forma de terapia. Se digo ou pergunto algo, ele me interrompe e segue falando. Nos primeiros vinte minutos, escuto com paciência e culpa (ser barrado na fronteira é algo que nunca passou pela minha cabeça). Tento tranquilizá-lo sempre que posso, e digo que em geral eles só param quem é suspeito de levar drogas, algo em que não acredito de fato. Mas logo a minha atenção se torna mais oscilante e irritadiça: tenho medo de que o meu vizinho fale pelas dez horas restantes. É um medo infundado. A certa altura ele vira e diz: “Bom, agora vou dormir.” Diz a frase quase com irritação, como se eu fosse o autor do monólogo e o estivesse amolando.

 

BUENOS AIRES, 18 DE FEVEREIRO, 2006

O albergue é um casarão elegantemente sujo (cantos cheios de poeira; rejuntes muito escuros). O fato de que não seja imundo se deve exclusivamente à neurose de Facundo, o dono, com a limpeza. No primeiro dia o vi usando uma escova de dentes para tirar uma manchinha da pia. Ele é de la provincia, de Avellaneda; gordo, careca, de olhos azuis translúcidos – um taciturno prestativo que me lembrou do desconto para quem chega em dias úteis (“Muitos viciados chegam nos fins de semana”, ele disse, sem maiores explicações). Um dono de albergue neurótico com limpeza é uma justaposição que me interessa (Utópico? Masoquista?), mas não farei essa pergunta.

O quarto tem seis beliches, ou seja doze camas, e as malas ficam amontoadas num canto perto da porta. Meus amigos – Miranda, Ferreira e Pablo – chegaram de São Paulo uma semana antes, mas agem como se estivessem na Argentina há anos. Me explicam onde comprar bife e cigarros, e apontam cafés e livrarias enquanto caminhamos por Corrientes. No segundo dia, me levam para jantar na Ugi’s, uma pizzaria daqui do Centro que vende pizzas individuais por mais ou menos 4 reais. Tem uma placa na parede que diz: No a la droga sí a la pizza. Talvez seja a famosa ironia dos argentinos: ao redor só vejo grupos como o nosso – rostos desnutridos, sorrisos vagos. A pizza é ruim, mas certamente vale mais do que 4 reais.

Na semana anterior, um panamenho urinara na mala do Ferreira. Chegara bêbado ao quarto, de madrugada, e começara a urinar no canto das malas, mas só acertara a do meu amigo. Essa é a anedota do momento; todos a relembram a cada cinco minutos, e todos riem muito. Eu também gargalho, mas a minha gargalhada é mais incerta, um pouco forçada – tento pertencer, mas cheguei atrasado à história, e isso me inibe. Quando soube do incidente do mijo, na manhã seguinte, Facundo buscou balde, rodo e desinfetante. Entrou no quarto e se aproximou do grupo que ainda circulava ao redor da poça, da mala molhada, e entregou os itens para o panamenho, que tinha olheiras fundas de ressaca. Facundo é neurótico com limpeza, mas até as neuroses têm limites.

Depois da Ugi’s fomos a um barzinho em Corrientes e, com os gestos histriônicos e teatrais que os turistas costumam usar, começamos uma discussão longa sobre o que fazer agora que a faculdade acabou. Tento não participar dessas discussões, mas no fim sempre me envolvo. A coisa terminou em gritaria e ofensas. A gritaria só serve para esconder o óbvio: não sabemos o que fazer.

 

BUENOS AIRES, 20 DE FEVEREIRO, 2006

Há no albergue um americano, o Neil. Dizem que era um gênio do mercado financeiro, que ganhou milhões e depois perdeu tudo com o vício na cocaína – separou da esposa, deixou filhos. Vive há muitos anos no albergue. “Ele era um Chicago Boy”, Pablo disse a certa altura, num tom de admiração reprimida. Pablo é o único entre nós que sabe realmente o que quer fazer: entrar para o setor privado e ficar rico. Às vezes caçoamos desse desejo, e quase sempre caçoamos de suas leituras (Hayek, Milton Friedman), mas a verdade é que somos um pouco ressentidos com ele. Não ressentimos o desejo por grana – temos todos, uns mais do que outros, esse desdém da classe média-alta letrada por dinheiro; um desdém leviano e frágil, pronto a ruir ao menor sinal de necessidade. O que invejamos nele é o seu senso de destino manifesto, a certeza que possui acerca da própria trajetória.

Neil, o americano, é esquelético e tem cabelos longos ralinhos; usa camisas polo sujas e sandálias de couro. Uma das poucas vantagens de uma infância com um pai que mente muito é aprender cedo o ceticismo. Tudo, sempre, é mais ou menos mentira. A história de Neil me parece uma mentira com aura de verdade (não é uma mentira completa, categoria bem mais comum).

Recalibro a vida de Neil: morava, sem filhos, em um subúrbio de Ohio e, com um salário decente, mas não espetacular (50 mil dólares anuais, digamos), trabalhava como gerente numa unidade local da Target. Alcoólatra, ou talvez viciado em alguma droga mais destrutiva e mais banal (metanfetamina?), viu o casamento ruir; seguiu-se então um período de depressão, e um desterro para o sul.

Uma dúvida me persegue: foi Neil que romantizou a própria vida, ou os outros hóspedes fizeram isso por ele? As duas hipóteses parecem plausíveis.

 

BUENOS AIRES, 22 DE FEVEREIRO, 2006

O panamenho, o americano, os brasileiros. Viajantes acreditam-se seres abertos, dispostos a enxergar as complexidades do indivíduo, mas aqui na avenida Bartolomé Mitre todos recorremos a essa muleta fantasmagórica do Estado nacional. Após reparar nisso, tentei, com pedantismo, decorar o nome de todo mundo. Estava assistindo a um jogo da Liga dos Campeões na sala, Werder Bremen e Juventus, e comecei uma conversa com o meu vizinho de sofá, que eu já tinha visto na mesa de bilhar dos fundos. Um moreno baixinho, de barba lustrada. “Você é o Juan, né?” perguntei. “Sim”, ele disse, “mas pode me chamar de Chileno.”

Perguntou, um pouco desconfiado, como eu sabia o seu nome, e lhe expliquei a minha estratégia de evitar designar os outros pela nacionalidade. “A ideia de nação já não nos comporta, amigo”, ele assentiu, com gravidade. Depois voltamos ao assunto de futebol, e ele entrou num monólogo ensandecido sobre como os chilenos são sempre roubados na Libertadores. Werder Bremen e Juventus fizeram muitos gols (os alemães ganharam de 3 a 2), e como estávamos envolvidos na conversa, os gols eram interrupções irritantes sobre os quais, por serem muito bonitos, sentíamos a obrigação moral de lançar suspiros e onomatopeias.

Ele perguntou então o que muitos perguntam por aqui, se eu por acaso era de seu país. É o único momento no qual me sinto obrigado a mencionar meu pai. Não é tanto a menção a ele que me incomoda; são mais as premissas que a menção acarreta. Ser filho de um chileno sugere que sei algo do Chile, de sua história política e cultural e econômica, e na verdade não sei nada. Para evitar esse terreno, disse logo a Juan (como digo a muitos, por reflexo) que não falava com meu pai desde a infância. Ele então apertou a ponta do meu nariz e tocou os meus olhos. Fez uma expressão de padre misericordioso e disse: “Não importa, amiguinho. Você é mapuche. Você é chileno mesmo assim.” A cena me tocou, pois no fim acho que gosto dessas definições estáveis que nunca consigo dar a mim mesmo ou aos outros.

A menção aos mapuches me trouxe à memória uma experiência desagradável no ônibus. Na fronteira, ao mostrar o passaporte na guarita da Polícia Federal, notei que três ou quatro pessoas tinham sido levadas para fora. Estavam sentadas num banquinho de madeira, único item melancólico no vazio do estradão. O meu vizinho tagarela estava entre os selecionados. Caminhei em direção ao ônibus cheio de culpa, mas me forcei a olhar em sua direção – era uma tentativa vaga de assumir o erro pelos comentários levianos.

“Boa viagem, amigo!”, ele gritou. Tinha um sorriso leve na cara e parecia genuinamente feliz. Depois começou a gargalhar. Era uma gargalhada fininha, nervosa. “Acho que é a minha cara de índio, viu!”

 

BUENOS AIRES, 23 DE FEVEREIRO, 2006

Miranda trouxe uma argentina ontem para o albergue. Me pediu para “fazer um lobby” e não deixar ninguém entrar no quarto por pelo menos vinte minutos. Passei por todos os cômodos, timidamente fazendo política; agachava e, com uma vergonha indescritível, pedia que ninguém entrasse no quarto do corredor por ora. Facundo assistiu a tudo de longe, enquanto esfregava e secava alguns pratos no balcão. Terminada a minha campanha, pediu que o acompanhasse até a porta do quarto. Com uma expressão didática no rosto, prendeu um pé de meia embaixo da porta. “Faça isso da próxima vez.” Ouvimos alguns barulhos do outro lado, muito baixinhos. “Parece que estão rezando”, Facundo disse, com certo desprezo.

Depois fomos os três – eu, Miranda e Claudia, a argentina – conversar no terraço. Ela faz sociologia na UBA, a Universidade de Buenos Aires, e quer ser acadêmica. É a primeira pessoa que vejo dizer a frase sem rodeios, dessa forma: “Vou entrar para a academia.” Há algo de admirável nisso. Depois ela começou a falar de literatura, e desceu a lenha no Cortázar (“Un canchero, está muy desprestigiado en Argentina”). Até gosto do Cortázar, mas a sua confiança em detoná-lo fez eu me sentir muito ingênuo – vou rever a minha posição. Depois perguntei se ela também era iconoclasta em relação a Borges, se também o considerava uma fraude. “Não, ele é um grande escritor”, ela disse, entediada.

À noite fomos todos pela terceira vez ao mesmo bar em Corrientes (turistas são conservadores, nunca querem coisas novas), e Juan, como se tivesse ouvido as opiniões anteriores de Claudia no terraço, começou a falar mal de Neruda. Ele, por ser nove meses mais velho, me tem agora como uma espécie de protégé, e me dá listas, dicas sobre o Chile. Pede, com insistência, que eu foque os meus esforços em Nicanor Parra e Enrique Lihn, e que nunca mais leia nada do Neruda, “esse esteta filho da puta”. Mas essa lição eu já sei. Se conheço pouco do Chile, conheço esse axioma: quem odeia Neruda ama Parra e vice-versa. Claudia se empolga com a discussão, e faz uma lista de grandes romances argentinos num guardanapo. Estão ranqueados de 1 a 8.

Cortázar, Neruda: se um escritor é suficientemente grande lá fora, ele será destroçado em seu país. Há escritores, como García Márquez, que, de tão famosos lá fora, merecem uma rejeição mais continental – literatos esnobes da América Latina, uni-vos contra o realismo mágico! Pouco importa que Cem Anos de Solidão seja um grande livro (imagino que seja, nunca li) – não é disso que se trata. Borges é o único que escapa à regra, e entendo um pouco o tédio de Claudia quando pergunto sobre ele, pois nesse sentido, Borges é um estraga-prazeres. Seja como for, até essas formas mais sutis de nacionalismo têm me irritado ultimamente; talvez porque eu não possa participar delas plenamente, de peito aberto.

A nós, aos brasileiros, nunca perguntam sobre literatura, mas sempre sobre música. Mareados pela cerveja, circundados pelo burburinho prazeroso de Corrientes, pelos passos e vozes da rua, nos entreolhamos, buscando alguma teoria iconoclasta, alguma polêmica mais ácida. Mas não temos: gostamos de Chico, Caetano, Gal etc.

 

BUENOS AIRES-BARILOCHE, 24 DE FEVEREIRO, 2006

Miranda e Claudia choraram na rodoviária, quando o nosso ônibus estava prestes a partir para Bariloche; parecia forçada a cena, com essa autoconsciência e seriedade típica de casais fugazes. Estou com dor de cotovelo, também. Não me sinto atraído por Claudia, mas me sinto muito atraído pela situação deles, no abstrato – esse casal que se forma em pouco tempo, em uma viagem de fim de faculdade. Não sei se eles se falarão de novo.

De manhã, ainda no albergue, havíamos acordado com um barulho de estilhaços de vidro e uma gritaria. Reconheci a voz de Juan na distância. A mí no me jodas, gringo de mierda! Ao que Neil, o americano, respondia: You fuckin’ fat boy. As frases eram repetidas em alternância, como mantras. Ninguém se machucou. Neil, com impressionante vigor físico para um esquelético de mais ou menos 50 anos, pegara um pedaço de vidro imenso que seria usado numa janela. Mas não atirou o objeto em ninguém; em um gesto simbólico, apenas o deixou cair e estilhaçar.

Soube, depois, que o motivo da briga era Amalia, a ajudante de Facundo que vem às terças e quintas. Depois do desentendimento, com os ânimos já mais calmos, Juan e Neil continuaram sentados no mesmo cômodo, a poucos metros um do outro, com expressões inertes. Talvez tivessem medo de perder seus lugares na disputada sala de tevê (uma partida menor da Liga dos Campeões começaria logo). Alta e sepulcral, Amalia conversou com os dois. Com estoicismo, sem raiva, sussurrou monólogos ríspidos. Só uns gestos mínimos – uma mão mais duradoura no ombro; um sorriso de canto de boca – faziam perceber que ela gostava do Juan, e não do Neil. Senti, absurdamente, um pouco de pena desse americano. Parecia simbolizar todos esses desterrados do hemisfério Norte que, imaginando ser fácil refazer o trajeto de conquista de seus ancestrais, caem em um poço ainda mais profundo no exílio. Quando fui ao banheiro, o vi cheirando uma carreira no balcão da cozinha: pelo menos a história da cocaína era verdade.

Como eu já tinha arrumado a mala, ajudei Facundo e Amalia (!) a limpar os cacos, e a certa altura ela me perguntou qual era a razão da minha viagem. Eu disse, com algum exagero, que sempre idealizara a Patagônia, que era uma região que eu queria conhecer desde a infância. Ela me olhou surpresa, com a ternura que destinamos aos insanos, e disse: “Mas você não está na Patagônia.”

 

BARILOCHE, 25 DE FEVEREIRO, 2006

Chegamos cansados e com fome na cidade. Taciturnos e indecisos em frente à calçada da rodoviária local, acabamos sendo ludibriados por um sujeito magricela de boné, um abutre local, que nos conduziu, como sonâmbulos, até um restaurante próximo. Passamos por galerias fechadas, corredores com portas de metal, lojinhas de eletrônicos, e a cada passo eu sentia emanar do abutre a satisfação pela comissão que ganharia – ele acelerava os passos, para que não desistíssemos. Na porta de vidro do restaurante, na entrada, havia muitos adesivos pequenininhos com a bandeira do Brasil. Lá dentro, pouquíssimas pessoas rodeavam um bufê melancólico (dava para ver de longe que o arroz, salpicado com cenouras mal cortadas, estava frio). Antes de entrarmos, o abutre disse, conspiratório: Brasilero, tiene rodizio. A comida era horrível.

 

BARILOCHE, 26 DE FEVEREIRO, 2006

Ninguém quer ficar em Bariloche. A razão, nunca explicitada em voz alta entre nós por parecer muito trivial, é que temos essa imagem da cidade como um lugar de playboys brasileiros que vêm aqui para esquiar. A força de uma imagem, a ideia de um lugar, não raro atropela o lugar em si. Bastaria que fôssemos um pouco mais literais para enxergar que há aqui uma cidadezinha agradável, com montanhas tingidas de neve ao fundo e alguns cafés caros, mas toleráveis.

No guichê da Cóndor Transportes (um nome banal; não tem a ambição poética de Crucero del Norte), o atendente notou a rapidez da nossa estadia e perguntou se não tínhamos gostado da cidade. Miranda disse que tínhamos gostado muito, mas que a passagem de saída já estava comprada. O atendente seguiu batendo as teclas do computador com uma expressão inescrutável, e então Ferreira achou necessário completar a mentira com outra história. Disse em portunhol que o ar da cidade lhe fazia mal, que tinha uma síndrome rara congênita que lhe causava dificuldade para respirar em certas cidades andinas. Começou, então, a tentar se lembrar de cidades andinas (Cuzco, Santiago, Mendoza…). O atendente seguiu batendo as teclas, com a mesma expressão no rosto.

Eu disse então que na verdade queríamos chegar à Patagônia, que esse era o objetivo. O atendente franziu o cenho algumas vezes, como se duvidasse de alguma informação na tela. Continuou batendo nas teclas. Alguns minutos depois, imprimiu as passagens, e as arrancou com um rasgo violento da impressora. Explicou qual era a plataforma com um didatismo tingido de sarcasmo, e disse: “Vocês já estão na Patagônia.”

 

SAN MARTÍN DE LOS ANDES, 27 DE FEVEREIRO, 2006

Chegamos à tarde, deixamos as malas no albergue, e à noite fomos a um bar/discoteca do povoado. Era uma salona de luz baixa com bancos de couro nos cantos – bancos não da moda, mas provenientes de uma ideia vaga e ingênua de moda que é típica de povoados: cores gritantes, nenhum encosto para as costas. Ficamos em pé perto do balcão. A certa altura, tocaram uma música do Journey, e Pablo começou uma dancinha irônica. O barman lhe pediu que não dançasse. Achamos que era uma piada, mas quando o barman repetiu o pedido com mais rispidez, ameaçando expulsar-nos do lugar se a dança não parasse, olhamos ao redor e notamos que de fato ninguém dançava nesse bar/discoteca.

Uma mulher que assistira à cena com um sorriso vago no rosto se aproximou e nos explicou que, há pouco mais de um ano, um incêndio numa boate de Buenos Aires havia causado uma comoção nacional, e que, desde então, o Congresso havia endurecido a legislação de segurança em boates. Mas as mudanças eram muito custosas (envolviam a compra de novos equipamentos), e os estabelecimentos optaram por outra estratégia: tentavam agora escapar da definição identitária de “boate”, e portanto tinham adotado uma proibição da dança. “Assim se resolvem as coisas na Argentina”, ela disse, com amargura. “Agora essa porra parece Cabul.”

A sua intensidade vinha de sua profissão; era jornalista na capital e cobria política. Falou um pouco de Néstor Kirchner, de como ele foi bem na questão da dívida mas agora perdia um pouco a mão. Os meus amigos, talvez entediados, aproveitaram para dispersar. Eu agradeci o movimento internamente.

Ela quis saber da situação política brasileira. A pergunta me deu um susto: envolto na névoa da viagem, que tem seu próprio tempo, era como se há anos eu não ouvisse aqueles nomes tão conhecidos dos quais ela começava a falar. O que iria acontecer com Lula? Cairia ou disputaria a eleição no final do ano? Eu disse que não sabia, mas que se ele não caísse provavelmente ganharia a eleição. Ela perguntou se alguém acreditava de fato que outra pessoa pudesse ganhar dele (pronunciava “Lula” com gosto, saboreando os “eles” e lhe dando um artigo do espanhol: El Lula). Eu disse que muitos paulistas achavam que o governador de São Paulo pudesse ganhar. “Mas você não é paulista”, ela riu. “Não”, eu disse, “sou do Mato Grosso.” Me segurei para não entrar em explicações geográficas ou divagações maiores.

“Sou do Mato Grosso.” Gosto da frase: é simples, curta. Talvez eu passe a usá-la mais. É mais ou menos mentira, também.

 

EL CALAFATE, 4 DE MARÇO, 2006

Os albergues do interior são melhores, mais frugais e silenciosos, com um padrão de limpeza que faria Facundo feliz. Aqui, a casa, gerida por uma velhinha chamada Dolores, tem um pequeno jardim; e o café da manhã – pão fresco, café, leite, suco de laranja e frios – é quase bom. Dolores é simpática, e sinto um pouco de pena dela quando os seus hóspedes solitários a pegam para conversar. Ansiosos e carentes, esses viajantes que sobem montanhas acham que esforço físico equivale a profundidade espiritual; acham que as frases que formulam são tão sublimes quanto os obstáculos que superam – sem dúvida nunca pegaram uma autobiografia esportiva para ler. Hoje de manhã, um francês explicou para Dolores todos os pormenores de seu equipamento. Ela sorriu com polidez, mas eu vi que estava distraída. É uma inversão diabólica: aqui não é o parente senil que chega de visita para amolar o jovem, mas o contrário; é o viajante de botas caras e barba rala que nunca deixa a velhinha em paz.

Quando ele começou a pontificar sobre arte e literatura para a velhinha, citando e louvando Baudelaire (há elogio mais seguro, mais sem colhões do que esse?), eu não me aguentei e gritei, do terraço: “Baudelaire é um lixo!” Não disse mais nada, continuei do lado de fora da casinha, no terraço; fazia frio e ventava. Miranda estava comigo e, com o cigarro no canto da boca, sussurrou, rindo: “Fala mal do Proust, fala mal do Proust!” O francês ficou em silêncio por um tempo, sem entender muito bem de onde o grito viera. Baudelaire é um gênio, claro que é, mas não era essa a questão – o montanhista elaborara uma analogia escrota entre Fleurs du Mal e as suas escaladas; era preciso calá-lo. E se ele soubesse se defender da acusação, ele o faria. Preciso mandar um e-mail para o chileno; ele vai gostar da história.

Pablo e Ferreira decidiram rumar para o norte da Argentina; eu e Miranda iremos para o sul. O acúmulo de decisões triviais que viagens exigem é exaustivo – é natural que o grupo se separe.

 

EL CALAFATE, 5 DE MARÇO, 2006

Na nossa penúltima noite em San Martín, tentei beijar Jimena, a jornalista. Estávamos todos voltando juntos da discoteca ou ex-discoteca ao albergue, e os gritos bêbados dos meus amigos tinham se distanciado à nossa frente. Fazia um frio seco, as folhas sacudiam a cada tanto, e enquanto Jimena falava eu esperava o momento certo para tentar beijá-la. Logo descobri que não haveria momento certo: os temas dela eram pesados, sempre temas políticos, e no fim tentei beijá-la enquanto ela falava das Malvinas e de Thatcher, o que me pareceu ligeiramente melhor que beijá-la enquanto discorria sobre o sanguinário Videla. Ela recuou com um susto. Começou a rir baixinho, disse que nunca tinha passado pela cabeça dela tal coisa, que eu era uma criancinha (descobri que ela tinha 38 anos). Depois disse que havia uma outra razão para a sua relutância. Com vergonha, após muita insistência minha, ela disse que eu parecia muito um tio seu, já idoso – uma afirmação que pareceu imediatamente contradizer a de que eu era muito jovem. Sentei na calçada, vagamente humilhado; me senti de repente exausto. Mas ela disse para eu levantar a cabeça, que ainda tínhamos muito tempo pela frente, pelo menos uns vinte ou trinta minutos, e a comicidade dessa frase me reanimou.

Nos beijamos no campinho em frente à casa do albergue. Não havia um mísero arbusto, a grama era aparada, e pessoas bêbadas faziam uma arruaça na calçada. Teríamos ficado mais escondidos se tivéssemos entrado na casa; inconscientemente, talvez quiséssemos aparecer. Quando levantei a blusa dela e beijei um dos peitos, ela disse, meio estoica: Ah, que rico. A frase me pareceu vagamente familiar, mas continuei mexendo a língua em pequenos movimentos circulares, sem me importar muito. Foi só da terceira ou quarta vez em que ela disse a frase, com um tom mais afetuoso e sem separações silábicas (ahquerico) que localizei o meu desconforto. Era uma madeleine sonora, antinostálgica e de sinal invertido: a frase que meu pai costumava dizer enquanto comia as empanadas de sua mãe. Dava uma mordida na empanada e depois olhava o recheio (carne moída de segunda, azeitonas pretas murchas e gemas de ovo escurecidas) com uma cara de desgosto, como se enfrentasse alguma batalha interna, como se fosse uma pessoa fina demais para gostar daquilo. É das poucas lembranças que tenho dele quando ainda morava conosco. Se há simbologia mais tosca do peso inexorável das nossas origens, não conheço.

 

EL CALAFATE, 6 DE MARÇO, 2006

Hoje fui com o Miranda ver o glaciar Perito Moreno. Nos sentimos muito intimidados; é como se esse monumento natural imponente demandasse um lirismo que não temos em estoque. Depois nos distraímos e começamos, outra vez, agora na frente do glaciar, a discutir sobre o que faríamos depois da faculdade (o estoque de solipsismo é sempre mais generoso). O volume de nossa discussão foi aumentando, como sempre, até que um fotógrafo ao lado, que tentava pegar um bom ângulo do glaciar – ele usava um tripé e outros aparatos sofisticados – gritou: “Shhhh!” Não sei bem por quê, mas obedecemos de imediato. Depois me perguntei se ele também não seria francês. Preciso me forçar a abandonar esses estereótipos nacionais, se tanto reclamo deles.

 

TORRES DEL PAINE, 19 DE MARÇO, 2006

Muito tempo sem escrever. O vigor físico não é equivalente à profundidade da alma; mas o cansaço físico certamente acarreta o cansaço mental. Foram muitos dias de caminhada pelos parques. Já no fim, perto das últimas formações rochosas de Torres del Paine, Miranda tirou a câmera, apoiou numa pedra e ligou o timer para uma foto nossa. Tínhamos os rostos pretos de poeira, como se fôssemos mecânicos, e estávamos muito mais magros do que imaginávamos. Mas o que nos assustou mesmo foi a construção no fundo da foto. Inebriados pelo cansaço, não havíamos reparado nela de cara; e quando viramos o rosto levamos um susto.

Em meio às montanhas irregulares, intocadas pela mão humana, havia uma construção com heliporto e um gramado meticulosamente aparado – um hotel imenso. Me pergunto, agora, se a nossa distração não teria um fundo intencional, se não era uma espécie de ato falho – já que é difícil não ver uma construção tão megalomaníaca depois de dias de caminhadas em meio à natureza.

Chegamos por uma via talhada de pedregulhos à fachada do hotel, e nos aproximamos da entrada. Havia um menu na parede com preços em dólar:

Braised Patagonic Lamb – 72 USD $ (serves one person)

Fettuccine with salmon and parsley – 65 USD $ (serves one person)

Board of local delicacies (contains shellfish) – 112 USD $ (serves two people)

Como pobretões de Dickens, passamos um longo tempo olhando pelas janelas de vidro que davam para o restaurante do hotel. Famílias bem agasalhadas comiam e bebiam; falavam e brigavam animadamente; uma luz bela e difusa cobria o salão. Sempre me ressinto dos níveis que a minha ingenuidade atinge em alguns momentos. Como se fosse possível se isolar por dias, escapar totalmente de algo, de qualquer coisa.

 

TORRES DEL PAINE, 19 DE MARÇO, 2006 (TARDE)

Nos primeiros dias de nossas caminhadas, quando nos deparávamos com as geleiras e vegetação dos parques, eu e Miranda sentíamos a obrigação moral de explicarmos um ao outro o que víamos. Na maioria das vezes, nos satisfazíamos com onomatopeias ou expressões curtas (“Olha só”; “Da hora”). Mas às vezes nos arriscávamos mais. Não sei bem por que sentíamos essa necessidade de descrever, mas sei que as descrições eram desastrosas (“Olha que louco, o bagulho sobe e desce”, dizíamos de cada montanha, como se falássemos dos efeitos de algum cogumelo catado a esmo, “muito louco, o contraste”). A certa altura percebemos, com alguma sintonia mútua, que seria melhor passar os dias em silêncio – andar até cair de cansaço e deixar as conversas para a noite.

Na barraca, sob a luz de lanternas, tentávamos ler Respiración Artificial, de Ricardo Piglia. O livro ocupa a primeira posição no ranking do guardanapo da Claudia. É de fato incrível; mas nem o brilhantismo de Piglia resiste a catorze horas de caminhada, e na maior parte do tempo dormíamos sem conseguir terminar uma sequência de duas ou três páginas. Miranda diz que acha o livro “interessante” e “erudito”, e pelo seu uso de adjetivos rebuscados, vejo que não gostou tanto. A percepção me entristece um pouco – temos gostos parecidos, e sempre que não coincidimos lembro de quão anárquica e imprevisível é a identificação com uma obra. Convencer alguém a gostar de algo é fácil; convencer alguém a amar algo impossível. Às vezes eu gostaria de ter esse poder.

“Começou a identificar a pátria com a própria vida, tentação latente em qualquer um que tenha mais de 3 mil hectares de pampas.” É ao som dessa frase sarcástica que durmo, a lona batendo como uma metralhadora em meio ao vento.

 

USHUAIA, 22 DE MARÇO, 2006

Estou sozinho. Miranda voltou ao Brasil para procurar emprego, algo que em algum momento terei que fazer.

Eu havia romantizado a solidão: o vasto vazio do território parecia convidá-la. Mas estar sozinho nunca é tão bom quanto parece, e acho que irei embora mais cedo.

Ontem finalmente fui comer um cordeiro patagônio. Sentei-me numa mesa central do restaurante, a única disponível. O restaurante tinha um ar de século XIX, cheio de madeira escura, latão, e fogaréus altos; e logo os garçons começaram a me dar aquela atenção excessiva e meio misericordiosa que dedicam a pessoas que jantam sozinhas em restaurantes caros. Nada evoca mais pena do que esse solitário que deseja comer bem; ao passo que o solitário que come mal é apenas pragmático ou pobre.

Hoje passei o dia na cama, com as cortinas fechadas. Dormi profundamente, mas não foi um sono prazeroso. O hotel é o mais caro em que fiquei até agora, uma espécie de indulgência final. Mas fica numa ladeirinha de paralelepípedo muito difícil de subir. Já andei muito e não quero andar mais; e depois dos pseudopoetas montanhistas de El Calafate, tem crescido em mim um orgulho sedentário teimoso. Viagens são sempre irregulares, assimétricas – todas elas no fim acabam mais cedo do que esperamos. Além do cordeiro de ontem, vi aqui os monumentos em homenagem aos soldados das Malvinas, e entrei em uma ou duas lojinhas. Só. A recepcionista do hotel diz que provavelmente o melhor da Patagônia já passou, e se eu não a vi nunca mais a verei. Ela diz isso rindo, quando desço para comer cinco medialunas de almoço, e parece não perceber o tom fatalista de sua frase.

 

SÃO PAULO, 24 DE MARÇO, 2006

No fim desisti da ideia de voltar de ônibus ao Brasil. Não quero virar um fóbico incontornável, desses que forçam os outros a viajar por terra. Antes de pegar o táxi até o aeroporto, fui à farmácia de Ushuaia e pedi um pacote de genérico do Rivotril. Quando me pediram a receita, mostrei a minha mala e fiz uma expressão de dor. Eles entenderam.

No voo de Ushuaia a Buenos Aires, sentei-me ao lado de um casal argentino. Deixei as pílulas moídas num papel de seda, para que o efeito da dopagem fosse mais rápido caso eu precisasse delas. Mas no fim comecei a conversar com o casal, e me distraí durante a decolagem. Não conseguia ignorar a subida, era como um zumbido no meu inconsciente; mas a conversa me forçava a me concentrar nas palavras – e a aparência calma deles era um corretivo a qualquer surto meu. Me acostumava já com essa situação quando decidi ingenuamente apontar para as montanhas tingidas de neve que apareciam na janelinha. A mulher do casal, que até então parecia a mais calma de todos nós, se virou e, logo que viu as montanhas, começou a chorar. Chorava com desespero, fúria, gritava e batia o braço no assento, empurrava o outro assento da frente com as pernas como se quisesse sair do avião. Enquanto isso, o marido, um sujeito alto e meio desengonçado, lhe segurava a mão e dizia: “Fica calma, meu amor, fica calma.” Estranhei essa situação de ter alguém mais medroso do que eu ao lado; é como se, ao ver o ridículo de outro fóbico, eu me desautorizasse a agir da mesma forma. Obviamente o efeito não durou, e no voo Buenos Aires-São Paulo eu já estava dopado e angustiado outra vez.

Mas pude aproveitar essa paisagem das montanhas nos poucos instantes em que não estive dominado pelo terror. Já tinha me acostumado ao terreno vazio e acidentado; gostava dele, da indefinição e da recusa em revelar-se num ponto central; da frugalidade e ausência de imagens muito coloridas, e das fronteiras fantasmas instáveis. Na manhã anterior, enquanto fazia o check-out no balcão do hotel em Ushuaia, um brasileiro, ao ver meu passaporte, havia se aproximado. Era um oceanógrafo da USP (não lhe falei que eu estudara lá), e estava se preparando para ir à Antártica. Perguntou-me de onde eu era. “Sou do Mato Grosso”, eu disse, mas dessa vez entrei em divagações, pois a frase me soou totalmente falsa. Ele começou então a falar de sua pesquisa, a qual, como muitas outras coisas na vida, não me interessava.

“Aqui não é o fim do mundo”, ele disse a certa altura, com uma risada bonachona. “Lá na Antártica sim, lá é o fim do mundo.” Para ele, isso era um elogio: começou a falar das maravilhas da Antártica, como se a região fosse um time de futebol ou uma nação. “Ah, a Patagônia não é nada perto da Antártica”, ele disse. Talvez fosse mais correto dizer que a Antártica fosse mais nada do que a Patagônia: um vazio ainda mais vasto. Mas fiquei tão puto que nem respondi, e o deixei falando sozinho.

Alejandro Chacoff
Alejandro Chacoff

É escritor, ensaísta e editor de literatura da piauí. Autor do romance Apátridas (Companhia das Letras)

Leia Mais

ficção

Intolerâncias

Sobrevivências e efeitos colaterais

30 mar 2026_19h21
ficção

Música de mortos suaves

A vida era aquilo para eles desde sempre

02 mar 2026_19h31
ficção

Céu de Miguelzin

Meu menino sempre teve esse olho virado pro alto, pras nuvem

02 fev 2026_19h11
  • NA REVISTA
  • Edição do Mês
  • RÁDIO PIAUÍ
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
  • DOSSIÊ
  • O complexo_SUS
  • Marco Temporal
  • má alimentação à brasileira
  • Pandora Papers
  • Arrabalde
  • Igualdades
  • Open Lux
  • Luanda Leaks
  • Debate piauí
  • Retrato Narrado – Extras
  • Implant Files
  • Anais das redes
  • Minhas casas, minha vida
  • Diz aí, mestre
  • Aqui mando eu
  • HERALD
  • QUESTÕES CINEMATOGRÁFICAS
  • EVENTOS
  • AGÊNCIA LUPA
  • EXPEDIENTE
  • QUEM FAZ
  • MANUAL DE REDAÇÃO
  • CÓDIGO DE CONDUTA
  • TERMOS DE USO
  • POLÍTICA DE PRIVACIDADE
  • In English

    En Español
  • Login
  • Anuncie
  • Fale conosco
  • Assine
Siga-nos

WhatsApp – SAC: [11] 3584 9200
Renovação: 0800 775 2112
Segunda a sexta, 9h às 17h30