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Flavia Valsani Mai 2023 16h27
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Embora fotografe há quase três décadas, só retratei um velório pela primeira vez no último dia 10 de maio. Foi o da Rita Lee, cantora que admiro desde a infância. Me lembro perfeitamente de dançar com minha mãe os sucessos do álbum que a artista lançou em 1982. Eu tinha 5 anos e requebrava na sala de casa enquanto ouvia Flagra, Cor de Rosa-Choque e Frou-Frou. A liberdade da Rita – estética, comportamental, política – sempre me contagiou. Todos os discos dela têm pelo menos uma música que ecoa forte em mim.
Não gosto de rituais fúnebres e procuro evitá-los. Já fugi, inclusive, de enterros importantes, como os dos meus dois avôs e o do melhor amigo da minha família. Curiosamente, na adolescência, pensei em virar médica-legista porque adorava biologia, mas receava falhar caso tratasse dos vivos. “E se eu não conseguir livrá-los do sofrimento?”, me perguntava. Então resolvi que lidaria com os mortos. Mal desconfiava que, em breve, iria tomar consciência do quanto a morte é implacável e definitiva. Hoje, detesto a ideia de não poder construir novas memórias com alguém que morreu. Daí a minha preferência insistente de me manter longe dos funerais. Mesmo assim, cogitei aparecer no velório da cantora, sobretudo depois de saber que o planetário do Parque Ibirapuera, em São Paulo, abrigaria a cerimônia. Que sacada incrível a da Rita! Escolher aquele lugar para se despedir do mundo… Um derradeiro gesto poético, uma decisão bem representativa de nossa inquietante e fulgurosa pequenez.
Não à toa, quando a piauí me encarregou de cobrir a solenidade, topei sem hesitar. Antes de ir, escutei Panis et Circenses e Ovelha Negra. Confesso que me bateu uma vontade imensa de chorar. Entretanto, no momento em que cheguei à celebração, meu astral mudou completamente. Senti uma paz indescritível e uma inesperada alegria por ter compartilhado a existência com a artista.
O velório começou às dez da manhã, debaixo de chuva e frio. O dia tipicamente paulistano não afugentou os fãs. Cerca de 6 mil pessoas se enfileiraram até as cinco da tarde para homenagear a profana Santa Rita de Sampa. Havia de tudo por lá: jovens e idosos, negros e brancos, trans e cis, homos e héteros, covers de Elvis e Roberto Carlos, homens de terno e mulheres de legging, gente com tatuagem ou sapatênis, barbudões e muitas, muitas, muitas ruivas. O caixão da cantora estava fechado. Um punhado de lírios o enfeitava. Com frequência, os admiradores recordavam canções famosas da Rita, ora afinados, ora lindamente fora do tom. Qual é a moral?/Qual vai ser o final dessa história?, indagavam uns, enquanto outros respondiam: Eu não tenho nada pra dizer/Por isso digo/Eu não tenho muito o que perder/Por isso jogo/Eu não tenho hora pra morrer/Por isso sonho.